5º Domingo do Tempo Comum, ano A, Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo Mateus (5,13-16)


TEMOS DIANTE de nós, neste quinto domingo do Tempo Comum, a mensagem de Jesus aos seus discípulos: “Vós sois o sal da terra (...) Vós sois a luz do mundo”. Não se trata de um discurso público, como o do sermão da Montanha, mas de um colóquio íntimo com os doze apóstolos. Cristo está a indicar que, mais do que cada indivíduo sozinho, é a Igreja nascente o “sal da terra” e a “luz do mundo”, reunida em torno do colégio apostólico, juntamente com Pedro. A imagem é deveras familiar, posto que em nosso tempo, marcado por um processo de descristianização agressivo, a Igreja moderna assemelha-se muito mais à Igreja nascente que à da Idade Média, época em que o cristianismo estava espalhado por todos os territórios e dava o tom tanto da vida pública quanto da vida privada. É precisamente num contexto de dificuldades, no qual inexiste uma cristandade pujante; pelo contrário, é-se “uma sociedade depravada e maliciosa” - para usar a expressão de São Paulo aos Filipenses -, que Nosso Senhor encoraja a Igreja a ser “sal da terra” e “luz do mundo”, fazendo “todas as coisas sem murmurações nem críticas” (Cf. Fl 2, 14).

De fato, a mensagem de São Paulo aos Filipenses é um retrato fiel de nossa época. E, no entanto, somos desafiados a dar testemunho de nossa fé, sem objeções, a fim de sermos “irrepreensíveis e inocentes” (Cf. Fl 2, 15). Esse chamado, por sua vez, só pode acontecer dentro do Corpo Místico de Cristo, já que “fora deste corpo, desta unidade da Igreja em Cristo”, a fé perde sua medida, não encontrando “o seu equilíbrio, nem o espaço necessário para se manter de pé”1.

Naturalmente, o chamado da vocação universal à santidade pode suscitar dúvidas acerca de algumas propostas de métodos pastorais. Ser “sal da terra” e “luz do mundo”, com efeito, exige uma fuga tenaz da tentação moralista; um risco eminente para as almas cristãs, sobretudo nesta época em que “a vida social está atravessando momentos de confusão desnorteadora”2. O moralismo certamente não é o caminho correto a seguir-se. E é Bento XVI a explicar-nos o porquê. Diz o Papa Emérito: “O cristianismo não é um moralismo, não somos nós que temos de realizar aquilo que Deus espera do mundo, mas em primeiro lugar temos que entrar neste mistério ontológico: Deus entrega-se a si mesmo.”3 Com essas palavras, o Papa Emérito está a esclarecer que a conduta reta de um ser humano não depende exclusivamente de uma ação pessoal, mas da graça que a nós chega como dom dos céus. Deus é quem opera a mudança em nossas vidas. Um agir de acordo com a consciência cristã depende, portanto, muito mais de um encontro com Deus, com a Sua Pessoa, do que de atitudes puramente humanas. Não se pode, por isso, impor à sociedade uma moral exigente sem antes lhe apresentar uma espiritualidade de vida interior; caso contrário, terminar-se-ia esmagado por esse jugo.

Jesus é quem nos transforma e capacita a ser “sal da terra” e “luz do mundo”, através da água do batismo e dos demais sacramentos. Vê-se essa realidade com clareza na vida e no testemunho dos santos que, com o “olhar global de Cristo sobre o mundo”4, atravessaram as piores dores e perseguições - muitas vezes com heroica resignação -, chegando até mesmo a alegria de entregar-se em holocausto pelo nome de Jesus. Pense-se nos exemplos dos mártires japoneses, São Paulo Miki e companheiros, no rosto resplandecente de um João Bosco enquanto dormia, ou no de um Maximiliano Kolbe, a poucas horas antes de ser morto pelas mãos dos nazistas. Nas lágrimas de gratidão do pequeno Beato José Sanches del Río, martirizado pelos algozes do governo mexicano. Trata-se da graça operante, não de uma força humana. É assim que entendemos o mistério de Santo Antônio, rezando luminoso com Cristo nos braços. Como intuiu Santa Teresinha do Menino Jesus, não somos nós que amamos a Deus, mas é Deus que nos dá o seu amor, para que possamos amá-Lo de volta. Amamos a Deus com o Seu próprio amor.

Com efeito, para que cheguemos a este nível de santidade, faz-se imperioso a vida interior, em que se renuncia a um ativismo desenfreado, tal qual o de Marta, nas páginas do Evangelho. É a vida interior o segredo por trás de um apostolado eficaz. Essa verdade está contida, a título de exemplo, num dos livros mais importantes para a espiritualidade católica, no século XX. Na obra de cabeceira de São Pio X, “A alma de todo apostolado”, o monge trapista Dom Jean-Baptiste Chautard indica precisamente a vida interior como instrumento de irradiação da Palavra de Deus para o mundo. É a vida interior a porta de entrada para as virtudes infusas: a fé, a esperança e a caridade.

De igual modo, Santa Teresa d’Ávila recordá-nos a oração como a ponte de acesso ao interior do castelo, ou seja, a nossa alma. Deve-se rezar, pedindo a Deus por sua graça. Mas esta oração não pode ser um mexer com os lábios apenas - Santa Teresa chega até mesmo a negar a validade desse tipo de oração -, mas um relacionamento amoroso com o Deus vivo5. Como ensina Bento XVI na encíclica Deus Caritas Est, “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa”6. Mais do que repetição de palavras, a oração é um encontro, um diálogo de amor com o Pai. Com efeito, a primeira atitude efetiva a tomar-se nesta busca pela vida interior é a da humilhação. Apenas a consciência de que somos vasos na mão de Deus é que nos pode auxiliar neste trajeto. Além disso, devemos ansiar pelo amor de Deus até o instante em que a esperança nos faça sair da atitude efetiva para entrar na atitude afetiva: amar verdadeiramente a Deus, através de uma autêntica mudança de vida, a metanoia, abandonando todas as ações que, de per si, são ofensas ao Senhor. Ao termo desta jornada, chegamos então as três virtudes teologais, embasadas pelo alicerce de todas as virtudes: a fé, a esperança, a caridade e a humildade.

Este é caminho para a santidade, este é caminho de todos aqueles que desejam ser “sal da terra” e “luz do mundo”.

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Referências



3. Bento XVI, "Lectio Divina" com os Seminaristas (12 de fevereiro de 2010)

4. « Vom Wesen katholischer Weltanschauung (1923) », in: Unterscheidung des Christlichen. Gesammelte Studien 1923-1963 (Mainz 1963), 24.

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Fonte:
Site Padre Paulo Ricardo, artigo "Vós sois a luz do mundo", homilia do 5º Domingo do Tempo Comum, ano A, disponível em
http://padrepauloricardo.org/episodios/5-domingo-do-tempo-comum-vos-sois-a-luz-do-mundo
Acesso 8/2/014
ofielcatolico.blogspot.com

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