Todas as religiões são boas? Todas são iguais?




NESTE ARTIGO, COMO em todos os que publicamos, tomamos um grande cuidado para não oferecer a nossa própria resposta, – nossa posição a respeito do assunto em questão, – mas sim aquilo que a Igreja diz e o que representa a verdadeira fé da Igreja, em consonância com os ensinamentos do Magistério, nos documentos da Santa Sé.

No livro "O Sal da Terra"1, que é na realidade a publicação de uma longa entrevista concedida pelo então cardeal Joseph Ratzinger ao jornalista Peter Seewald, o agora papa emérito Bento XVI falou sobre este posicionamento, atualmente tão comum, de se atribuir a todas as religiões o mesmo valor, considerando-as todas mais ou menos iguais. A título de nota, vale acrescentar: àquela época, Seewald era declaradamente ateu; as respostas que obteve nesta entrevista causaram-lhe tão forte impressão que logo depois converteu-se, tornando-se católico.

Entre outros temas, o Cardeal Ratzinger foi categórico ao afirmar que, com certeza, nem todas as religiões são iguais. Afirmou mesmo, sem reservas, que algumas religiões não podem sequer ser consideradas boas. Disse que existem formas de religião de tal maneira corrompidas e insalubres que não são capazes de levar o homem a Deus; pelo contrário, servem tão-somente para aliená-lo. Nestas e noutras, entendemos porque Bento XVI foi tão odiado e combatido, fora da Igreja, e até boicotado dentro dela. O mundo sempre preferiu e vai continuar preferindo quem use de meias verdades, ou adoce a realidade com uma generosa porção de açúcar, ou ainda quem simplesmente não diga a verdade quando esta for capaz de melindrar as sensibilidades alheias. Alguém que "respeite" a todos, e/ou que considere o respeito humano mais importante do que a proclamação das verdades do Evangelho.

Uma opinião assim tão clara e direta é altamente contrastante com o modo de ser "politicamente correto" dos nossos tempos. Vivemos dias em que apenas emitir opinião sobre qualquer assunto já é motivo para que alguém se declare "ofendido". Acostumamo-nos a aceitar tudo, a conviver com tudo, a dizer sempre que tudo está bem, que tanto faz, que tudo é válido e tudo pode, porque ficar de bem com todos é o mais importante. Não compensa brigar por nada, nem mesmo pelo bem, pelo bom, pelo que é certo, pela defesa dos bons valores e/ou da verdade. 

Em contrapartida, é um fato incontestável que nós só podemos nos ajudar uns aos outros se formos capazes de franqueza e de honestidade; amigo é aquele que ajuda, e nós só podemos efetivamente ajudar alguém se apontarmos os erros desse alguém, se existirem e nós formos capazes de vê-los, e dizer com clareza o que precisa ser feito para resolvê-los, se estiver ao nosso alcance. Da mesma maneira, se quisermos receber ajuda de alguém, precisamos ter humildade para aceitar críticas e procurar entender as falhas apontadas em nós mesmos.

Assim, retomando a resposta dada por Ratzinger à pergunta de Seewald: "Por que a Igreja não adota uma posição mais aberta com relação ao pluralismo religioso? Todas religiões não são boas?". O Cardeal responde dizendo que não é verdade que todas as religiões são boas. Historicamente não é verdade; logicamente também não.

Historicamente não é verdade porque existiram e existem religiões simplesmente más, que ao longo de sua existência pregaram o ódio, o terrorismo, a destruição pela destruição. Algumas praticaram –, e ainda praticam –, mesmo o sacrifício humano. É evidente que tais modalidades religiosas, mesmo em uma sociedade como a nossa, em que a liberdade é cláusula pétrea, simplesmente não têm direito de existir, pelo simples fato de atentarem contra a própria humanidade.

Do ponto de vista da lógica, independentemente de se admitir ou não alguma proposição de fé –mesmo do ponto de vista puramente laico e racional – não é possível pôr no mesmo nível uma religião que prega absoluto amor ao próximo, como é o caso do cristianismo, com uma religião que oferece o holocausto de crianças em honra a um ser de trevas, como é o caso das seitas satânicas. Ainda que a liberdade religiosa seja cláusula pétrea de nossa constituição, é preciso admitir que uma religião que combata a própria civilização, que pregue o ódio, o terrorismo, que vá contra os princípios mais básicos da dignidade humana, simplesmente não devem (por certo não deveriam) ser toleradas.



Não são todas iguais e não há escapatória: é preciso escolher

Além de todo o exposto até aqui, há um fato histórico que determina de modo inexorável que não se possa considerar todas as religiões iguais: a fé em Jesus Cristo homem e Deus.

Maomé é profeta, não Deus; Buda é "o iluminado", não Deus; Confúcio é um grande sábio, não Deus. Cada fundador de cada religião ou seita que há no mundo foi ou é considerado um grande ser humano, um grande líder, alguém capaz de compreender Deus melhor do que os outros, ou falar com anjos, "entidades" espirituais ou da natureza, etc. O cristianismo se diferencia, radical e definitivamente, das demais religiões, porque segundo a nossa fé é a única religião fundada diretamente por Deus feito homem.

Jesus, aqu'Ele que adoramos – que para nós é Senhor, Salvador e Deus – nasceu em Belém, viveu em Nazaré, morreu em Jerusalém; foi condenado por Pôncio Pilatos, crucificado, morto e sepultado. São fatos concretos. Estamos postos diante de uma encruzilhada, e é preciso tomar uma decisão. Não é possível escolher permanecer "em cima do muro". Ou vai-se para um lado ou para outro: ou Jesus é Deus e, portanto, inescapavelmente todas as outras religiões estão em níveis inferiores, ainda que possam conter verdades (pois Deus se fez homem em Jesus Cristo e apenas o cristianismo o reconhece e prega), ou Jesus não é Deus, e nesse caso o cristianismo é a maior das farsas.

Ou cremos ou não, e isso necessariamente muda toda a nossa vida, em todos os níveis. Não se pode dizer: "Jesus é muito bom, é muito 'legal'; gosto dele e do que ele diz, é tudo muito bonito, mas eu prefiro continuar acreditando que ele foi um entre muitos outros profetas, santos ou 'avatares', porque Buda também é 'legal', assim como Mahavira, Zoroastro, Confúcio,  Maomé, todos os meus 'orixás' e etc, etc...".

Jesus não pode ser só "legal". Não pode ser um entre muitos, porque Ele se apresenta como Deus Todo-Poderoso e único Salvador. Se Ele diz a verdade, então crer n'Ele e aceitá-lo muda tudo. Se Ele mentiu ou estava profundamente equivocado, todos os que o seguem como Deus estão perdidos e levando outros à perdição. A proposta do cristianismo é aceitar Jesus como o Cristo, como Deus, Criador, Mantenedor e Destruidor de tudo o que existe. O cristão crê que todas as coisas encontram o seu sentido em Cristo. Tudo foi criado por Ele e para Ele. É Ele a razão de ser de tudo o que há; é o sentido da vida de cada homem e mulher, e isso significa que Ele é o Senhor de tudo.

A pregação cristã e católica consiste em dizer que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, o Verbo de Deus encarnado, que continua vivo na história, num Corpo concreto chamado Igreja, e essa Igreja é Católica e Apostólica, tendo sua sede primacial em Roma, portanto é chamada Romana. Este mesmo Jesus Cristo continua Vivo e Presente através da Igreja, em seu Magistério e em seus Sacramentos.

Ou se aceita tudo isto, todo o pacote de verdades, todos estes fatos que convergem e estão intrinsecamente ligados entre si, ou não. Ou se crê ou se descarta. Ou se ama ou se abomina. Ou se adere ou se abandona. Não se pode dizer: "até gosto de Jesus, mas não sou radical". Ora, se Jesus é mesmo Deus e o único Doador da vida, o único Caminho para a salvação, então precisamos segui-lo, se é que desejamos a vida eterna. E se Jesus não é Deus, fujamos dele, porque veio propor o maior dos enganos!

Por tudo isso, não faz sentido dizer que as religiões são todas boas, ou todas iguais: ou somente o cristianismo é bom, ou apenas o cristianismo deve ser radicalmente descartado, e aí estaremos "livres" para abraçar todas as outras crenças, que não necessariamente se excluem. É preciso, é necessário escolher.


Conclusão

Por outro lado, não estamos aqui pregando o ódio ou a intolerância contra as outras religiões. Pelo contrário, o cristão –, exatamente por ser inevitavelmente católico, isto é, universal –, prega a única verdade a todos, por uma questão de caridade. Não queremos esconder o grande "segredo" de que Deus se fez homem para a nossa salvação, e de que podemos comungar do seu Corpo e Sangue, Alma e Divindade, porque queremos a salvação de todos, e não a condenação de ninguém.

Não estamos pregando uma guerra santa. Não cremos que aqueles que não aceitam a nossa fé devam ser maltratados, degolados ou excluídos. Não fazemos acepção de pessoas, ao contrário. É nosso dever sagrado amar a todos, até mesmo (e especialmente) os que nos odeiam e nos maltratam (Mt 5,43-45). Entendemos que amar e tratar bem somente aqueles que nos amam é a prática, justamente, dos não cristãos (Mt 5,46-47). Amar a Deus e ao próximo (como a nós mesmos) é exatamente o que nos define. É nosso maior Mandamento, que resume todos os outros. Por isso, desde a época dos primeiros mártires, das primeiras perseguições, a fé católica foi sempre, como continua sendo hoje, não algo pelo que se mata, mas sim algo pelo que se morre.

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Ref.:
1. RATZINGER, Joseph Cardeal. O Sal da Terra, um diálogo com Peter Sewald. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
• 'Todas as religiões são igualmente boas?', episódio de 'A resposta católica', vídeo-aula do padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr., disp. em:
https://padrepauloricardo.org/episodios/todas-as-religioes-sao-igualmente-boas
Acesso 30/9/015
www.ofielcatolico.com.br

Heresias, tão antigas e tão novas: o montanismo


Ler a primeira parte desta série

POR VOLTA DO SÉCULO II da era cristã surgiu um movimento que foi denominado montanismo, devido ao nome de seu fundador, Montano, vindo da cidade de Ardabau, Frígia. Que causa levou ao surgimento deste grupo e quais as suas características?

Na Igreja primitiva tinha-se uma clareza (maior que a de nossos tempos, evidentemente) de que os primeiros tempos do cristianismo, – século I e boa parte do II, – fora dominado por um grande fervor espiritual. Haveria neste período um desejo intenso de seguir a Cristo e observar fielmente o seu Evangelho, rompendo-se radicalmente com tudo aquilo que fosse entendido como sinal do antigo paganismo. Buscava-se a radicalidade absoluta no seguimento de Jesus, ao ponto de se entregar a própria vida sem resistência, se a opção fosse renegar a fé. Muitos chegavam mesmo a procurar as ocasiões de martírio.

Além disso, crê-se que a ação do Espírito Santo era mais visível que nos períodos posteriores, devido às suas manifestações. Assim, a presença dos dons, curas e milagres divinos impeliam os primeiros fiéis a buscarem adquirir um estilo de vida totalmente focado no Espírito. Almejavam serem conduzidos por Deus acima de qualquer outra coisa.

Toda essa realidade indicava, pressuposto, um ardor religioso intensíssimo. Entretanto, conforme os tempos foram se passando, – e ano após ano, década após década o segundo Advento ou Parusia não chegava, – parece que todo esse fervor foi gradativamente diminuindo, como também as manifestações do Espírito Santo na Igreja. Esta, por sua vez, foi crescendo e se estruturando. Numa Igreja necessariamente mais hierárquica, foi-se estabelecendo cada vez mais a figura do bispo e do sacerdote como autoridade primordial sobre a Terra, enquanto que a intimidade com Deus e as experiências místicas particulares dos fiéis leigos foram perdendo espaço ou importância na vida da Igreja.

Toda essa situação pode parecer negativa e/ou demonstrar uma espécie de e movimento regressivo na Igreja, mas se analisada mais detidamente demonstra um reflexo natural e inevitável. Nos três séculos que duraram as primeiras perseguições, os cristãos enfrentaram, além do martírio, várias crises que se revelariam futuras controvérsias e debates dentro da própria Igreja, fazendo com que ela mesma formulasse dogmas para manter a igreja fiel à sua verdadeira origem. Ocorre que, de fato, quanto maior a liberdade dada ao leigo, proporcionalmente maior, também, é o perigo do surgimento de novas heresias no seio da Igreja, que desvirtuam a original e autêntica mensagem do Evangelho de Cristo. O montanismo é um ótimo exemplo desta realidade muito concreta, como veremos a partir deste ponto.

Para alguns cristãos daquela época, – dentre os quais Montano, – essa situação de aparente esfriamento da fé mostrava que aquela Igreja movida pelo Espírito Santo estava perdendo espaço para uma realidade que valorizava apenas as estruturas clericais. Por consequência, entendiam que, devido a essa situação, era necessário um retorno ao fervor da Igreja Primitiva.

Não haveriam maiores problemas com relação a este movimento e esta linha de pensamento, – e daí poderia até advir alguma renovação positiva na Igreja, – se, para atingir tal fim, os montanistas não tivessem começado a pregar que a segunda vinda de Cristo estava iminente. O grupo dos chamados montanistas exaltava apenas o celibato, em detrimento do sacramento do Matrimônio, e defendiam uma radical abstinência sexual, jejuns rigorosos e pesadíssimas penitências. Frisavam excessivamente a ação do Espírito santo e suas manifestações, ao ponto de o próprio Montano se declarar como o porta voz do Paráclito prometido nos Evangelhos, e afirmar que seria ele a reconduzir a Igreja ao seu verdadeiro caminho.

A deusa frígia Cybele
Montano, antes, havia sido sacerdote da deusa pagã Cibele, antes de se converter ao cristianismo. Passou a afirmar que tinha o dom da profecia, e que havia sido enviado por Jesus Cristo para inaugurar uma "era do Paráclito". Duas mulheres que o acompanhavam, – Priscila (ou Prisca) e Maximila, – afirmavam também que o Espírito Santo falava através delas. Durante seus êxtases, anunciavam que o fim do mundo estava próximo, conclamando os cristãos a se reunirem na cidade de Pepusa, na Frígia, onde surgiria a Jerusalém celeste, uma vez que uma nova era cristã estaria se iniciando com esta nova suposta revelação divina.

Montano se punha a si mesmo no mesmo nível dos Apóstolos, especialmente Paulo, que não conhecera a Cristo em vida. Na sua visão, o "mais elevado estágio da revelação" havia sido atingido nele. Muitos deixaram suas casas e seus trabalhos e seguiram este grupo, para levar uma vida acética a fim de se prepararem para a esperada segunda vinda de Jesus. Montano, homem extremamente persuasivo, incitava as pessoas a suportarem jejuns prolongados, fazia com que todos vivessem o celibato e os exortava a desejarem o martírio.



Tertuliano

Tertuliano tornou-se o mais importante convertido ao Montanismo. E com base no Montanismo, fundou a sua própria "Igreja": nascia o Tertulianismo.

É a partir dos escritos de Tertuliano que se conhecem os principais aspectos do montanismo, principalmente, as alegadas "revelações" de alguns de seus membros. O historiador Procópio, que viveu nesta época, narra em seus relatos que muitos montanistas se martirizaram, imolando-se vivos pelo fogo no interior das suas "igrejas" de modo a evitar serem capturados por seus perseguidores.

Ora, no mundo antigo, no final do século I e início do II, o montanismo foi condenado pela Igreja por meio de vários sínodos. Esta heresia foi condenada formalmente pelos Papas do final do século II, primeiro Eleutério e depois Vitor.

Devemos de fato tomar um cuidado muito especial com esse tipo de pensamento e discurso, que é característico do pensamento montanista mas que permanece tão vivo até os nossos tempos. No decorrer da História essa mentalidade tende a reaparecer sob outras formas ligeiramente diversas e outros títulos, como não é difícil perceber ainda hoje.

Com certeza, os dons e as manifestações do Espírito Santo são e devem ser parte da vida ordinária da Igreja, mas não podemos nos esquecer de que o Espírito também age principalmente por meio da hierarquia e do Magistério da Igreja, que foi divinamente instituída.

O Espírito Santo é a Alma da Igreja e, portanto, não pode dizer uma coisa diferente para cada fiel, contradizendo-se. É a situação que observamos hoje, com absoluta clareza, em meio às comunidades protestantes/"evangélicas", em que doutrinas absolutamente diversas são pregadas em cada comunidade, sendo que por absurdo todas creem que estão sendo guiadas por homens "ungidos", iluminados pelo Espírito Santo.

Ter uma "vida no Espírito" não significa valorizar determinadas experiências portentosas e sentimentais. Não se deve confundir sentimentos e experiências emocionais intensas com ação divina. Muitas vezes, aquilo que atribuímos ao Espírito de Deus é no fundo histeria, paranoia ou meros distúrbios de nosso psiquismo. Mantenhamos a vigilância e atenção permanentes, além da oração constante, para que não caiamos em tentação, como nos ordenou Nosso Senhor (Mt 26,41; Mc 14,38).



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Esta é a sexta parte de uma série de postagens relacionadas entre si, adaptadas do conteúdo do recém-lançado (e precioso) opúsculo do Prof. Dr. Joel Gracioso, “Heresias: tão antigas e tão novas” (Kenosis/DDM, 2015), que divulgamos, pedindo a Nosso Senhor que renove, nos corações dos homens, o amor sincero pela Verdade eterna.

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Fonte:
GRACIOSO, Joel, Heresias: tão antigas e tão novas. São Paulo: Kenosis; DDM, 2015, pp. 15-17.
* O texto deste artigo contém excertos de Henrique Sebastião, autor/editor de 'O Fiel Católico'

São Cosme e Damião não são 'orixás', 'ibejis' ou 'erês' – a armadilha do sincretismo religioso

São Cosme e São Damião, festejados
pela Igreja em 26 de setembro

NÓS, CATÓLICOS, devemos cultivar gratidão e veneração pelos nossos santos, pelo exemplo de vida e de amor a Cristo, que foram e continuam sendo para nós (conf. Hb 6,12; 1Cor 13,1; João 8,39), e por continuarem a interceder por nós no Céu, elevando suas orações ao único Mediador da nossa Salvação, Jesus Cristo, Senhor nosso (conf. Ap 5,8. 6,9-10. 7,9-10. 8,4. 13-15; Hb 12,1; 1Tm 2,5).

Os verdadeiros São Cosme e São Damião foram cristãos mártires pela fé, e permanecem cultuados há muitos séculos (desde 300/400 d.C.). Até hoje, seus nomes são lembrados na Liturgia da Santa Missa, e são venerados também na Igreja Ortodoxa, que os homenageia em novembro. Seus restos mortais e suas relíquias estão distribuídos em Roma e em algumas igrejas e mosteiros da Alemanha, católicos e ortodoxos.

Trataremos neste estudo de três tópicos principais, que consideramos os mais importantes para conhecimento do povo católico: 1) A verdadeira história dos santos Cosme e Damião; 2) Os perigos do sincretismo religioso, que é condenado pela Igreja; 3) O comportamento indicado aos católicos em relação às práticas sincréticas. A seguir.


São Cosme e Damião são mais autenticamente
representados, na liturgia oriental, como adultos

A verdadeira história de São Cosme e São Damião

Os gêmeos árabes Cosme e Damião eram filhos de uma nobre família de cristãos. Nasceram por volta do ano 260 d.C. na região da Arábia, e viveram na Ásia Menor. Desde muito jovens, ambos manifestaram um grande talento para a medicina, profissão à qual se dedicaram após estudarem na Síria.

Tornaram-se profissionais competentes e dignos, e foram trabalhar como médicos e missionários na Egéia. Amavam a Cristo com fervor, e decidiram atrair pessoas ao Senhor através dos seus serviços. Por isso, não cobravam pelas consultas e atendimentos que prestavam, e por esse motivo eram chamados de "anárgiros", que significa algo como “inimigos do dinheiro" ou quem "não pode ser comprado pelo dinheiro".

A riqueza que almejavam era fazer de sua arte médica também o seu apostolado para a conversão dos povos: uma missão que, a cada dia, cumpriam cada vez melhor. Seus corações ardiam por salvar as almas, e nisto se envolveram através da prática da medicina. Inspirados por Deus, usavam a fé aliada aos conhecimentos científicos, confiando sempre no poder da oração, e assim operaram verdadeiros milagres, Curaram muitos doentes em nome do Cristo Jesus, vários destes já à beira da morte.

Consta, inclusive, que também preocupavam-se em tratar animais, já que “toda a criação aguarda, com ardente expectativa, pela manifestação da Glória de Deus” (Rm 8,18-19).

Manifestaram autoridade do Alto, pregando o Evangelho inclusive com sinais e prodígios. Sua linguagem e sua pregação, conformes às Escrituras, “não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria, mas em demonstração do Espírito de Poder” (ICo 2.4). De tal forma, conseguiram plantar a semente da Salvação em muitos corações, colhendo inúmeras conversões ao Senhor Jesus. Cosme e Damião possuíam uma Revelação clara do chamado que tinham como ministros do Evangelho, chamado que cumpriam no cotidiano de sua rotina profissional, ministrando Cristo através de seu trabalho.

As atividades cristãs dos médicos gêmeos, porém, chamaram a atenção das autoridades locais da época, quando o Imperador romano Diocleciano autorizava a perseguição aos cristãos. Diocleciano odiava os cristãos porque, fiéis a Cristo, não lhe prestavam culto divino, nem adoravam ídolos ou estátuas de deuses pagãos, consideradas sagradas pelo Império Romano.

E assim, por serem cristãos, Cosme e Damião foram presos, levados a tribunal e acusados de se entregarem à prática de feitiçarias e de usar meios diabólicos para disfarçar as curas que realizavam. Ao serem questionados quanto às suas atividades, eles responderam: "Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo, pela força do seu Poder". Apesar de todas as graves ameaças de terríveis castigos, diante do governador Lísias ousaram declarar que aqueles falsos deuses não tinham poder algum sobre eles, e que só adorariam ao Deus Único, Criador do Céu e da Terra. Mantiveram o testemunho de Cristo, impressionando a todos por seu amor e sua entrega.

Por não renunciarem aos Mandamentos de Deus, sofreram tenebrosas torturas. E mesmo cruelmente maltratados, não se deixaram abalar em sua convicção e jamais negaram a fé. No ano 303, o Imperador decretou que fossem condenados à morte, na Egeia. Os dois irmãos foram postos, então, diante de uma sólida parede, para que quatro soldados os atravessassem com flechas, mas consta que resistiram às flechadas e também pedradas. Os militares foram assim obrigados a recorrer à espada para a decapitação, considerada uma honra reservada somente aos cidadãos romanos. Dessa maneira é que Cosme e Damião foram martirizados.

Dois séculos após as mortes de Cosme e Damião, por volta do ano 530, o Imperador Justiniano deu ordens para que se construísse, em Constantinopla, uma bela igreja em honra deles. A fama dos gêmeos também correu no Ocidente, a partir de Roma, e uma basílica lhes foi dedicada, construída a pedido do Papa Félix IV, entre os anos 526 e 530. A solenidade de consagração desta basílica ocorreu num dia 26 de setembro, data em que os santos gêmeos são celebrados pela Igreja.

Até hoje, S. Cosme e S. Damião são venerados em toda a Europa, especialmente na Itália, França, Espanha e Portugal. Além disso, são padroeiros dos médicos e farmacêuticos. Devido à sua simplicidade e inocência, também são invocados como protetores das crianças, e por isso é que, algumas vezes, foram retratados como infantes.


Sincretismo religioso no Brasil

Ocorre que no Brasil, lamentavelmente, o culto destes santos benfeitores foi bastante deturpado através da História, devido ao sincretismo que é típico do paganismo1 e bastante presente nos cultos africanos trazidos pelos escravos a partir do século  XVI.

Sincretismo religioso é a prática de se misturar elementos de religiões diferentes, na tentativa de se estabelecer uma similaridade ou paridade que, no caso em questão, não existe. Reflete-se, aqui, a pretensão de se dar "aparência católica" a um sistema de crenças completamente diferente ou oposto àquilo que prega o catolicismo. Lamentamos especialmente o fato de que, em nossos dias, tanto a mídia secular quanto parte das próprias instituições católicas ajudem a promover o sincretismo como coisa boa, louvável, digna e justa – como se fosse coisa cristã. Segundo a fé cristã e católica de sempre, o sincretismo é nocivo para as almas.

Fique claro que respeitar a liberdade religiosa de cada um e saber conviver, pacífica e respeitosamente, com as diferentes crenças, é algo que incentivamos. 
Assumir e promover o sincretismo religioso é outra coisa, completamente diferente.

Ocorre que, na triste época da escravatura, os cativos africanos, impedidos de exercer a sua própria religiosidade, criaram uma maneira engenhosa de ludibriar os senhores de engenho: invocavam seus deuses da natureza ou entidades espirituais – os "orixás", como "Oxalá", "Ogum", "Iemanjá" e muitos outros – simulando que rezavam para Jesus, Maria ou alguns dos santos mais reverenciados na época, como São Sebastião, São Jorge, Santa Bárbara, São Cosme e São Damião, etc.

Tinham os escravos seus justos motivos para fazê-lo? Parece que sim, dada a violência de sua situação. Todavia é também um fato inquestionável que o sincretismo religioso, já em sua origem, foi pensado para enganar.

Tal situação viria a causar, posteriormente, muita confusão entre o povo católico brasileiro, especialmente entre as pessoas mais simples: situação esta que permanece, em maior ou menor grau, até hoje. No dia da celebração de S. Cosme e S. Damião, costumam-se distribuir doces às crianças, usando os nomes dos santos católicos para homenagear  determinadas "entidades" espirituais infantis que compõem o panteão umbandista. No catolicismo, porém, Cosme e Damião não são crianças: como vimos, são médicos, irmãos gêmeos, que entregaram suas vidas como mártires. 

Temos, no Brasil de hoje, a veneração autêntica sendo confundida com práticas estranhas ao cristianismo. A devoção trazida pelos portugueses misturou-se com o culto aos "orixás-meninos" (ditos 'ibejis' ou 'erês') da tradição africana yorubá. Cosme e Damião, santos chamados "mabaças" ou gêmeos, muito populares, são amplamente festejados na Bahia e no Rio de Janeiro, onde sua festa ganha as ruas e adentra aos barracões de candomblé e terreiros de umbanda, no dia 27 de setembro, quando crianças saem em grupos pedindo doces e esmolas em nome dos santos.

Mais acima, imagem de escultura da umbanda que representa 'Erê' e 'Curumim', invocados sob os nomes de Cosme e Damião, juntamente com o 'Doum', com o qual formam um trio. Abaixo desta, a imagem tradicional dos santos católicos grosseiramente adulterada para se adequar às entidades da umbanda. De fato, vê-se que a imagem do santo da esquerda foi apenas recortada, reduzida e colada entre as figuras dos dois santos.

Uma característica marcante na Umbanda e no Candomblé, em relação às representações de Cosme e Damião, é que junto aos dois santos católicos aparece uma criança pequena vestida com trajes iguais aos deles. Essa criança é chamada "Doúm" ou "Idowu" e personifica as crianças de até sete anos de idade, sendo, segundo a crença, o seu protetor. Nas festas de tradição afro, enquanto as crianças se deliciam com a iguaria consagrada, os adultos, em volta, entoam cânticos (oríns) aos orixás. No sincretismo, Cosme e Damião são os orixás "ibeji", filhos gêmeos de Xangô e Iansã, entidades espirituais que se creem protetoras do parto duplo, amigos das crianças e responsáveis por atender pedidos em troca de doces (daí o costume de se distribuir doces).

As imagens que apresentam três figuras, portanto, não são católicas, já que S. Cosme e S. Damião, evidentemente, são apenas dois. O dia destes santos é celebrado também pelas linhas candomblé, batuque, xangô do nordeste, xambá e pelos centros de umbanda, sendo que em todos estes são associados aos "ibejis".

O que nos entristece, em toda essa história, é ver a profanação, precisamente, dos princípios eternos pelos quais os gêmeos árabes morreram. Suprema contradição: justamente Cosme e Damião, que tanto lutaram contra o sincretismo no seu tempo –, de fato, exatamente por essa razão foram executados –, são hoje usados como verdadeiros símbolos de tal prática!

Os verdadeiros S. Cosme e S. Damião foram cristãos santos e fiéis até o fim; amaram a Cristo sem medida e sem restrições o manifestaram em suas vidas. Assim, ganharam inúmeras almas através do amor e da pregação do Evangelho. É neste testemunho que devemos nos inspirar.


É lícito que um católico distribua ou aceite doces em honra de São Cosme e São Damião?

Evidentemente, os católicos não devem participar do sincretismo, que é de fato um desvirtuamento da autêntica veneração a esses e outros santos. Em certas situações, no entanto, torna-se difícil saber quem adota esse costume por simples ignorância ou para homenagear os orixás. Tal prática só poderia ser permitida aos cristãos católicos se feita por pura caridade, sem qualquer ligação com devoções e/ou ritos estranhos à nossa fé. S. Cosme e S. Damião podem somente ser cultuados na fé da Igreja, nas Missas, novenas e orações particulares.

Cabe salientar –, mais uma vez –, que nós, católicos, podemos e devemos saber conviver pacificamente com as diferentes opções religiosas das pessoas que nos cercam, na medida do possível, desde que para isso não deixemos de afirmar a nossa própria fé. É preciso sempre deixar muito claro que S. Cosme e S. Damião são nossos irmãos na fé, que pedem por nós no Céu, e não entidades espirituais celebradas em outras crenças.

Atualmente, na Igreja Católica, o dia dos santos Cosme e Damião é 26 de setembro, por conta do dia de São Vicente de Paulo, que morreu no dia 27 e passou a ser festejado nessa data – pois a morte de um santo é o dia em que ele nasce no Céu e para a Igreja. Como não se sabe com exatidão o dia da morte de Cosme e Damião, sua festa foi transferida para o dia 26, embora no rito antigo (extraordinário) ainda se preserve a data original.

No Estado da Bahia, região onde a cultura africana é mais presente e o sincretismo também é maior, certos grupos de professos católicos comemoram o dia de S. Cosme e S. Damião juntamente com representantes de outras vertentes religiosas, oferecendo o caruru, comida típica das religiões que cultuam orixás. Quando se faz o “caruru de santo”, é costume convidar sete crianças normalmente desconhecidas e convidadas na rua, de última hora, para serem servidos antes de todos. A Igreja Católica não aprova ou apoia esse tipo de costume, justamente por favorecer o sincretismo e a confusão de conceitos entre religiões diferentes, mas por ser uma prática profundamente enraizada na cultura popular, acaba sendo tolerada como costume cultural ou folclórico típico.

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1. Paganismo aqui entendido no sentido acadêmico, isto é, como o conjunto das religiões que adotam o politeísmo ou o culto a vários deuses, espíritos, seres espirituais superiores ou entidades da natureza. (conf. MICHAELIS, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa online / CALDAS AULETE dicionário online).


Fontes e referência:
QUEVEDO, Oscar Gonzales. Milagres: A ciência confirma a fé, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2000, pp.18-21.
AQUINO, Felipe. Artigo "Cosme e Damião são santos mesmo?", disponível em
http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?id=&e=4217
Acesso 2/12/013.
ofielcatolico.blogspot.com

Sola Scriptura e as imagens no culto


O TEMA ESTÁ mais do que batido, mas fizemos questão de republicar este artigo que completa a nossa antiga trilogia sobre a questão das imagens na Igreja, conforme havia sido postada em nosso antigo blog "Voz da Igreja". Segue.

Só para (não) variar, o assunto "imagens na Igreja" continua criando confusão na cabeça dos nossos irmãos separados, os ditos "evangélicos". – Neste ponto abrimos parênteses para esclarecer que usamos a palavra entre aspas porque "evangélicos", na realidade, sempre fomos e continuaremos sendo nós, os cristãos católicos. Afinal, o termo evidentemente deriva de "Evangelho", e foi a Igreja Católica que nos legou, através dos Apóstolos, os santos Evangelhos. Ou será que não devemos à Igreja Católica a canonização dos Evangelhos, que revelou a todos os cristãos quais livros, dentre os muitos venerados pelas primeiras comunidades, eram autenticamente inspirados por Deus e deveriam ser considerados "Palavra de Deus" por escrito, e quais não? Acaso não foi a Igreja Católica que preservou os Evangelhos dos nossos inimigos, durante tantas e tão cruéis perseguições no decorrer dos séculos? Como poderia um grupo nascido da desobediência de um monge rebelado, mais de um milênio e meio depois de Jesus Cristo, ser a "igreja evangélica"? A Igreja Evangélica de ontem, hoje e sempre é a Igreja Católica Apostólica Romana: este é um fato insofismável, tanto histórica quanto teologicamente falando.

Adentremos, por fim, ao tema deste artigo, na resposta à contestação abaixo, que nos foi enviada anonimamente:

'Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça'. Vocês tem razão, a Bíblia fala das imagens, realmente as pessoas rezavam pros querubins e pra serpente =], mas vocês não leram tb aquela parte da Biblia que diz que Jesus é o supremo sacerdote?? Devemos pedir a ele."

Sim, Jesus é o Supremo Sacerdote, leitor anônimo. É exatamente nisso que nós, católicos, cremos. E não cremos nisto exclusivamente porque está escrito, porque crer só no que está escrito literalmente na Bíblia seria contrariar a própria Bíblia. Sabe por quê? Porque a Bíblia mesmo diz que é a Igreja a coluna e o sustentáculo da Verdade para todo cristão, e não apenas as Escrituras, lidas isoladamente (1Tm 3,15).

Analise esta passagem e observe que nela a Escritura diz de si, textualmente, que estava sendo escrita para que soubéssemos como nos portar na Igreja! A Igreja é a coluna e sustentáculo (outras traduções dizem "coluna e fundamento"). A base da nossa fé é a Igreja instituída por Jesus Cristo, e não a Bíblia sozinha. 

As Escrituras são sagradas para nós, sim, são a Palavra de Deus escrita, e são muitíssimo "úteis para ensinar, para repreender, para corrigir e para formar na justiça" (2Tm 3,16), mas não são e nem jamais foram a única base, o exclusivo fundamento dos cristãos. Nos primeiros séculos do cristianismo, na Igreja primitiva, a Bíblia simplesmente ainda não existia. Como se guiavam estes primeiríssimos seguidores de Cristo? Guiavam-se através da instrução da Igreja, a única Igreja que Cristo deixou e que tem dois mil anos de idade: a Igreja Católica (Universal).

Agora observemos este ponto fundamental: o trecho da Segunda Carta a Timóteo, citado acima (cap. 3, vs. 16), segundo a interpretação mais precisa, diz textualmente isto:

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para instruir em justiça."
(Bíblia de Jerusalém, católica)

Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça."
(Almeida corrigida e revisada fiel, protestante)

Observe-se bem que o Apóstolo não diz que toda a Escritura divinamente inspirada é útil... Ele diz que "toda a Escritura é inspirada". Pode parecer um detalhe, mas este detalhe faz toda a diferença. Ocorre que a afirmação do autor sagrado parte da premissa de que todos os que forem lê-lo já sabem de quais Escrituras ele está falando. E (pasmem, talvez, muitos dos nossos leitores) estas Escrituras não são as nossas! Ora, que sagradas Escrituras haviam no tempo de S. Paulo? Sabemos que ele morreu em aproximadamente 67 dC, assim, esta sua epístola a Timóteo é, evidentemente, anterior a esta data. É claro, então, que o Novo Testamento, – que é a consumação e a chave de toda a Bíblia Sagrada cristã, – não existia no tempo em que o Apóstolo escreveu "toda a Escritura é inspirada".

Mais do que isso, sabemos que não existiu o Novo Testamento por séculos após a redação da 2ª Carta a Timóteo. As únicas Escrituras sagradas disponíveis para Paulo eram os livros que compõem o Antigo Testamento. Portanto, não se pode usar este versículo para justificar a Sola Scriptura, a não ser rejeitando todo o Novo Testamento.

"Toda a Escritura é inspirada por Deus", disse S. Paulo Apóstolo. Mas a qual "Escritura" ele se refere? A única Escritura disponível naquele tempo era o Antigo Testamento hebraico, bem como sua tradução grega, a Septuaginta. Isto põe nossos irmãos separados na difícil situação de ter que aceitar os livros "deuterocanônicos", que estavam na Septuaginta grega, usada pelos judeus de língua grega inclusive Paulo. Foram estes os sete livros rejeitados por Lutero, 1500 anos depois (Sabedoria, Eclesiástico, Judite, Tobias, 1Macabeus, 2Macabeus e Baruque).

Uma vez que essas duas traduções eram as únicas disponíveis para Paulo e ele disse que toda Escritura era inspirada por Deus, então também estes sete livros foram inspirados por Deus. Ou não? Se não, quem teria a autoridade para removê-los? Ora, a própria Bíblia proíbe que se acrescente ou retire algo da Palavra de Deus e adverte quanto ao que acontecerá para aquele que o fizer (Ap 22,18-19).


No alto, o "pastor Lucinho" cheira a Bíblia como se estivesse aspirando cocaína; abaixo, o "pastor Elvis Breves" literalmente põe a Bíblia  no prato e a come, de garfo e faca (vídeo aqui).

O maior erro dos que se chamam a si mesmos "evangélicos" é pensar que a Bíblia é mais importante do que a Igreja, porque não é. Não adianta discutir sobre imagens, sobre o culto, sobre Maria, os santos, os Sacramentos ou qualquer outro assunto se não retirarmos da frente este engano fundamental. Jesus não escreveu livro algum. Sendo Deus, Ele sabia que seus seguidores precisariam de um guia no Caminho que ele nos deu (que é Ele próprio, conf. Jo 14,6), uma rocha sólida para se apoiarem no mar incerto de doutrinas que sempre agitaram o mundo. Por que então não escreveu suas regras, detalhadamente, dizendo o que esperava de nós e como deveríamos proceder para alcançarmos a salvação?

Talvez porque isso não tivesse dado certo na Antiga Aliança. O povo eleito se perdeu em mil interpretações da Lei (Torá ou Chumash, os cinco primeiro livros da Bíblia cristã, o Pentateuco), dos oito livros dos Profetas (Neviim) e dos onze livros chamados "Escritos" (os Ketuvim), e seu coração se endureceu. Assim, o Senhor preferiu fundar, diretamente, sua Igreja neste mundo, e garantiu que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (veja Mateus 16, 18). Fundou sua Igreja sobre o Apóstolo Pedro, e ainda confirmou esta missão quando lhe apareceu, após a Ressurreição, e lhe ordenou que apascentasse seus cordeiros e suas ovelhas (Jo 21,15-17).

Acaso a Bíblia mostra, em algum versículo, Jesus ensinando aos seus seguidores que deveriam se orientar, exclusivamente, pelas Escrituras, como "única regra de fé e prática"? Não. Mas a Bíblia mostra, insistentemente, a importância fundamental da única e una Igreja de Cristo para a nossa salvação.

Acontece que a Bíblia é um livro, e mesmo sendo o Livro Sagrado dos cristãos, divinamente inspirado, está sujeita a interpretação particular de dada pessoa que a lê. Por isso a própria Bíblia adverte, com grande ênfase: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal (2Pd 1,20)".

Existem hoje milhares de "igrejas" que ensinam coisas diferentes, crendo firmemente que sua interpretação da Bíblia é a correta, que estão sendo assistidos por Deus. Agora pense: se fosse para cada um ler a Bíblia, interpretar "do seu jeito" e sair por aí fundando novas "igrejas", por que Jesus Cristo deu autoridade sobre sua Doutrina aos Apóstolos? Ora, assim que instituiu sua Igreja sobre Pedro, Jesus disse a este mesmo Pedro que tudo o que ele ligasse na Terra seria ligado no Céu, e o que ele desligasse na Terra seria desligado no Céu (Mt 16,18). Posteriormente transmitiu esta mesma autoridade à sua Igreja, na pessoa dos Apóstolos, os primeiros presbíteros (Mt 18,18) e ainda lhes assegurou que os pecados que eles perdoassem seriam perdoados, e os que eles não perdoassem seriam retidos (Jo 20, 23).

Esta é a autoridade que a Igreja possui neste mundo, dada diretamente pelo Cristo.

Por isso, mais uma vez a Bíblia confirma a Doutrina católica ao advertir: "Irmãos, estai firmes e guardai a Tradição que vos foi ensinada, seja por palavras, seja por epístola nossa" (2Ts 2,15); e ainda: "Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a Tradição que de nós recebeu." (2 Ts 3,6). As epístolas dos Apóstolos formam a maior parte do Novo Testamento da Bíblia. Vemos aí a própria Bíblia afirmando categoricamente que devemos observar e guardar não só as Escrituras, mas também a Tradição da Igreja. Claro como água!

As tradições dos homens, a tradição dos antigos fariseus, foi substituída pela Tradição Cristã: Tradição esta que inclui a própria Bíblia Sagrada cristã. A autoridade de fé sobre a doutrina de Jesus Cristo está fundamentada na Igreja que Ele edificou sobre a Terra, e não somente na Bíblia Sagrada, que foi produzida, preservada e deve ser interpretada pela própria Igreja. Estando claros esses pontos fundamentais, abordemos, enfim, a questão das imagens.


"Pastores evangélicos" prostrados diante de uma réplica da Arca da antiga Aliança. Note-se que a Arca era utilizada como Canal de comunicação com Deus antes da vinda de Cristo, quando Deus ainda não havia estabelecido sua Nova e Eterna Aliança com a humanidade. Qual o sentido de se fazer uma réplica da Arca da antiga Aliança, agora que temos Jesus Cristo em Pessoa, que se doa no Pão e no Vinho (conf. Jo 6,27; 51; 55-57. Mt 26,26-28. 1Cor 10,16; 11,28-30)?

A Bíblia não diz que as pessoas "rezavam para os querubins", como diz o nosso consulente. Os querubins eram símbolos do Sagrado; as pessoas não deveriam rezar para eles, mas com certeza rezavam diante deles. São coisas completamente diferentes. Assim também era com a serpente de bronze e/ou os bois e leões entalhados no Templo do SENHOR. Mas a partir do momento em que os hebreus passaram a adorar a serpente, aí sim ela precisou ser destruída (conf. Nm 21).

Foi Deus mesmo Quem ordenou a Moisés que fizesse a serpente. Sendo assim, por que ela teve que ser destruída? O que isso significa? É simples notar que o problema não está na imagem em si, mas no uso que se faz da imagem. Sem dúvida, acreditar que Deus é uma imagem de bronze, pedra, gesso ou qualquer outro material seria um grave pecado, além de uma absurda estupidez que não deveria caber em nossos dias. Será que ainda existe alguém assim, tão estúpido, em pleno século 21, salvo exceções realmente raras? Será que nós, católicos, somos tão estúpidos a ponto de pensarmos que Deus é estátua?

Muito nos questionam quanto aos maus testemunhos, e não podemos negar que muitos dentre os que se dizem católicos, prostrados diante de imagens, parecem pedir coisas às imagens em si, e não a Deus. Outros tantos se entregam às práticas mágicas das chamadas "simpatias", pondo imagens de cabeça para baixo, em recipientes com sal ou mergulhadas em copos com água. Lamentável, mas a resposta é sim: existem seres humanos extremamente ignorantes neste mundo. A questão aqui é entender que esta não é nem nunca foi a função das imagens para os verdadeiros católicos.

Colocar-se diante de uma imagem, consciente de que se trata de um símbolo sagrado, que serve para elevar nossas almas a Deus, é idolatria? É pecado? Mais uma vez, a Bíblia, sempre útil para ensinar, instruir e corrigir, trata deste assunto: no livro de Josué, vemos como “Josué rasgou suas vestes e prostrou-se com a face por terra até a tarde, diante da Arca do Senhor‚ tanto ele como os anciãos de Israel‚ e cobriram de pó as suas cabeças” (Js 7‚6).

Josué e os anciãos se prostraram diante da Arca do Senhor, – com as imagens dos querubins sobre ela, – até a tarde (provavelmente é este gesto que os 'pastores evangélicos' da imagem acima estavam querendo imitar). Estavam os chefes de Israel adorando as esculturas de anjos sobre a Arca? Ou adorando a própria Arca? Seria a Arca um "ídolo"? Seria este um ato de "idolatria"?

A resposta a todas as perguntas propostas acima é não‚ pois a Arca não tem vida própria e nem está no lugar de Deus. A Arca era usada como sinal visível da Presença de Deus na Terra, e‚ pelo seu significado, Josué e os anciãos passaram horas prostrados diante dela, pedindo ao SENHOR.

Com as imagens católicas é exatamente a mesma coisa. "Idolatrar" é pretender transferir a divindade de Deus para uma imagem, como faziam os pagãos. É crer que pela imagem (ídolo) seremos salvos, e tratar essa imagem como um ser divino e vivo: esse comportamento, – é óbvio, – sempre foi condenado pela Igreja Católica. Nunca um teólogo católico ensinou que uma imagem ou algum santo fosse Deus, para ser adorado.

Católicos malformados existem, e infelizmente são muitos. Pessoas que creem em magias e as praticam, e se declaram católicas, também, sem dúvida. Agora, vejamos: quantos escândalos temos visto envolvendo "pastores evangélicos" e charlatanismo, lavagem de dinheiro, desvio de doações, formação de quadrilha, tráfico de drogas e de armas, abuso sexual de fiéis, etc, etc? Está nos jornais e noticiários, está na internet, diariamente. Mas seria justo julgar todos os membros de comunidades "evangélicas" com base nesses péssimos exemplos? Não? Bem, tudo o que pedimos, por favor, é que parem de fazer exatamente isto conosco: julgar a Igreja com base naqueles que não podem representá-la, porque praticam o que ela condena.

Rezamos para que a Luz do SENHOR ilumine este nosso leitor anônimo e clareie o seu discernimento.
ofielcatolico.com.br

Padres da Igreja e Doutores da Igreja

Jacob Jordaens, 'Os Quatro Doutores da Igreja'

EM SÍNTESE: DOUTOR da Igreja é aquele cristão ou aquela cristã que se distinguiu por notório saber teológico em qualquer época da história. O conceito de Doutor da Igreja difere do de Padre da Igreja, pois o Padre da Igreja é aquele que contribuiu para a reta formulação dos artigos da fé até o século VII no Ocidente e até o século VIII no Oriente. Há Padres da Igreja que são Doutores: os quatro maiores Padres latinos (Santo Ambrósio, Santo Agostinho, São Jerônimo e São Gregório Magno) e os quatro maiores Padres gregos (Santo Atanásio, São Basílio, São Gregório de Nazianzo e São João Crisóstomo).

A inscrição de Santa Teresinha de Lisieux entre os Doutores da Igreja despertou a atenção do público para o conceito de tal título. Que significa ser “Doutor(a) da Igreja”? – Eis o que procura­remos esclarecer.


1. Doutores da Igreja: quem são?

Os Doutores da Igreja são homens e mulheres ilustres que, pela sua santidade, pela ortodoxia de sua fé e principalmente por seu eminente sa­ber teológico, atestado por escritos vários, foram honrados com tal título por desígnio da Igreja.

Os Doutores se assemelham aos Padres da Igreja, dos quais tam­bém diferem, corno se verá a seguir.

Padres da Igreja são aqueles cristãos (bispos, presbíteros, diáconos ou leigos) que contribuíram eficazmente para a reta formulação das ver­dades da fé (SS. Trindade, Encarnação do Verbo, Igreja, Sacramentos...) nos tempos dos grandes debates e heresias. O seu período se encerra em 604 (com a morte de S. Gregório Magno) no Ocidente e em 749 (com a morte de S. João Damasceno) no Oriente.

Para que alguém seja considerado Padre da Igreja, requer-se antiguidade (até os séculos VII/VIII), ao passo que isto não ocorre com um Doutor.

Para os Padres da Igreja, basta o reconhecimento concreto, não explicitado, da Igreja, ao passo que para os Doutores se requer uma proclamação explicita feita por um Papa ou por um Concílio.

Para os Padres, não se requer um saber extraordinário, ao passo que para um Doutor se exige um saber de grande vulto.

Por conseguinte, o que caracteriza um Padre da Igreja é princi­palmente a sua antiguidade; ao contrário, o Doutor se identifica principalmente pelo seu saber notório. Isto, porém, não impede que haja Padres da Igreja que também são Doutores, como visto. Esta terminologia, precisa como é, não era usual na antiguidade, pois a palavra doutor tinha o sentido de docente, mestre, de modo que eram doutores antigamente aqueles que conheciam bem os artigos da fé e os sabiam explanar com clareza. São Paulo parece aludir a este sentido amplo de mestre, quando diz que o Senhor “cons­tituiu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores em sua Igreja” (cf. Ef 4,11; 2Cor 12,28; At 13,1).

Com o tempo, o titulo de Doutor foi-se tornando mais especifico; a princípio era atribuído somente a Padres da Igreja, isto é, aqueles Padres que sobressaíram por seu brilho doutrinário.

Interessante é notar que nenhum mártir foi proclamado Doutor da Igreja (tal poderia ter sido o caso de São Cipriano de Cartago, vigoroso defensor da unidade da Igreja), e não o foi porque o martírio é con­siderado o maior título de glória, que não necessita de algum comple­mento para enaltecer a figura do cristão.

No século XVI, a Igreja abriu mão da nota da antiguidade e pas­sou a designar como Doutores figuras de épocas mais recentes. A primeira proclamação neste sentido foi feita pelo Papa S. Pio V, aos 11/4/1567, em favor de Santo Tomas de Aquino (+ 1274). Outras procla­mações ocorreram posteriormente, como se depreende da lista publicada ao final deste.

Além dos Doutores reconhecidos na Igreja inteira, há os que possuem tal título apenas em determinado país ou ambiente. Tal é o caso de Santo Leandro de Sevilha (+ 604), doutor na Espanha, e São Próspero da Aquitânia (+ após 455), Doutor entre os Cônegos Regulares do Latrão.


2. Os 36 Doutores da Igreja
(até setembro de 2015)

Lista por nome, função, ano de falecimento, país de origem e principais obras

1) Hilano de Poitiers, Bispo, 367, França (A Trindade; Comentário aos Salmos; Comentário a S. Mateus);

2) Atanásio, Bispo, 373, Egito (A Encarnação do Verbo; Apologia Contra os Arianos);

3) Efrém, Diácono, 378,  Síria (Comentários a Bíblia, Poemas de Nísibe);

4) Basílio, Bispo, 379, Turquia (Tratado do Espírito Santo);

5) Cirílio, Bispo, 386, Palestina (Catequeses; Jerusalém);

6) Gregório Nazianzeno,  Bispo, 390,  Turquia (Homilias; Cartas,Versos);

7) Ambrósio, Bispo, 397, Itália (Comentário do Evangelho de Lucas; Tratado da Virgindade);

8) João Crisóstomo, Bispo, 407, Turquia (O Sacerdócio; Homilias, Cartas);

9) Jerônimo, Monge, 419, lugoslávia (Vulgata);

10) Agostinho, Bispo, 430, Argélia (Confissões; Cidade de Deus; A Trindade; Cartas);

11) Cirilo de Alexandria, Bispo, 444, Egito (Comentário de S. João; Contra Nestório);

12) Pedro Crisólogo, Bispo, 450, Itália (Homilias);

13) Leão Magno, Papa, 461, Itália (Homilias; Cartas);

14) Gregório Magno, Papa, 604, Itália (Moral; Diálogos);

15) Isidoro de Sevila, Bispo, 636, Espanha (Etimologias);

16) Beda, o Venerável, Monge, 735, Inglaterra (História Eclesiástica dos Anglos);

17) João Damasceno, Monge, 749, Síria (Contra os Iconoclastas);

18) Pedro Damião, Cardeal, 1072, Itália (O Livro de Sodoma; Vida de S. Romualdo; Sermões);

19) Anselmo, Bispo, 1109,  Inglaterra (Monologion; Proslogion; A Verdade; Cartas);

20) Bernardo, Abade, 1153, França (A Graça; Para Eugênio III; Sermões sobre o Cântico dos Cânticos);

21) Antônio de Pádua, Frade, 1231, Portugal (Sermões);

22) Tomás de Aquino, Frade, 1274, Itália (Suma Teológica; Contra Gentiles; Com. de Pedro Lombardo);

23) Boaventura, Cardeal, 1274 Itália (Apologia dos Pobres; Itinerário do Espírito a Deus);

24) Alberto Magno, Bispo, 1280, Alemanha. (38 vol.s sobre Ciência, Teologia, Filosofia, Bíblia);

25) Catarina de Sena, Religiosa, 1380, Itália (Diálogo, Cartas);

26) Teresa de Ávila, Monja, 1582, Espanha (Autobiografia; Caminho da Perfeição; Castelo Interior ou As Moradas);

27) João da Cruz, Frade, 1591, Espanha (Cântico Espiritual; Subida do Carmelo; Noite Obscura);

28) Pedro Canísio, Padre, 1597, Alemanha (Catecismo);

29) Lourenço de Brindisi, Frade, 1619,  Itália (Comentário do Gênesis; Sermões);

30) Roberto Belarmino Cardeal, 1621, Itália (Controvérsias);

31) Francisco De Sales, Bispo, 1622, França (Introdução à vida devota; Tratado do Amor de Deus);

32) Afonso Maria de Ligório, Bispo, 1787, Itpalia (Prática de amar a Jesus Cristo; A oração);

33) Teresa de Lisieux, Monja, 1897, França (Autobiografia);

34) João de Ávila, Presbítero, 1569, Espanha (Audi, filia; Epistolário Espiritual para todos os Estados; O Conhecimento de Si Mesmo; Tratado sobre o Sacerdócio): 

35) Santa Hildegarda de Bingen, 1179, Alemanha (Trilogia Liber scivias Domini, Liber Vitae Meritorum, Liber Divinorum Operum);

36) Gregório de Narek, Monge, 1005, Armênia (O Livro das Lamentações ou Narek).


Alguns Doutores receberam um aposto que caracteriza sua perso­nalidade:

Santo Anselmo de Cantuária, Doutor Mariano (devoto de Maria SS.)

São Bernardo de Claraval, Doutor Melífluo (dotado de palavra doce como o mel)

Santo Antônio de Pádua, Doutor Evangélico (exímio pregador do Evan­gelho)

Santo Tomás de Aquino, Doutor Angélico, Comum

São Boaventura, Doutor Seráfico

Santo Alberto Magno, Doutor Universal (grande erudito também nas ciências naturais de sua época)

Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor Zelosíssimo (sábio moralista)

Santa Teresinha se distinguiu no campo da Espiritualidade ou da Ascética e Mística. Desenvolveu as palavras do Senhor Jesus que convi­dam os fiéis a se tornar crianças espirituais (cf. Mt 18,3s) vivendo como filhos bem-amados na Presença de Deus. A monja carmelita dedu­ziu profundas conclusões dos dizeres do Senhor, que ela explanou com simplicidade na sua autobiografia intitulada “História de uma Alma” e em escritos paralelos, inclusive poesias. Essas obras fizeram enorme bem à Igreja, o que justifica plenamente o título de Doutora que lhe foi conferido pelo Papa João Paulo II aos 19/10/97.

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Fonte:
• BETTENCOURT, Estevão, osb, Revista 'Pergunte e responderemos' nº 429, Ano 1998 – p. 87
• Ag. Eclesia, artigo 'História: Os 36 doutores da Igreja (elenco)', disp. em:
agencia.ecclesia.pt/noticias/vaticano/historia-os-36-doutores-da-igreja-elenco/
Acesso 19/9/015

A Verdade, um estudo filosófico – conclusão

Por Ir. Jean-Dominique, o.p.
Tradução de Euro B. de Barros



Santo Tomás de Aquino, pintura
espanhola anônima do séc. XIX

** Ler a primeira parte

Artigo 4º — O verdadeiro e o bem

ESTE ARTIGO ESTENDERÁ o problema da verdade a todo o agir humano.

A vontade é, de fato, o princípio imediato de toda ação humana. Um ato é dito propriamente “humano” quando é voluntário. Ora, o objeto da vontade é o bem. A vontade é um “apetite”, um desejo de bem que o faz ser procurado quando dele se é privado, e que faz repousar quando já está este possuído.

A questão das relações entre o verdadeiro e o bem põe em causa toda a nossa conduta. Se o verdadeiro tem precedência sobre o bem, então toda a vida humana deverá deixar-se dirigir pela verdade.

Dar, ao contrário, prioridade ao bem sobre o verdadeiro é dar o papel determinante à vontade. É ela que será a regra primeira da qualidade dos nossos atos. Será suficiente ter querido autenticamente uma coisa para que ela seja boa.

Vê-se, facilmente, o abismo que separa esses dois pontos de vista, e as consequências desastrosas que traria um erro quanto a essa questão. Isto aparece mais claramente, ainda, quando se consideram as três teses mais aceitas na atualidade a esse respeito. Elas abordam, respectivamente, por três aspectos diferentes, o problema seguinte: a vontade em si mesma (o voluntarismo), a ação (o pragmatismo), a “vida” (o existencialismo).

 • O voluntarismo põe a vontade acima da inteligência. O ato da vontade será bom já não em razão do objeto a que ele visa, mas pela sua conformidade a uma lei arbitrária, ou a outra vontade. A vontade já não será boa ou má por referência à verdade. Mons. Lefebvre (foto) contava uma anedota que dá um exemplo convincente dessa tortura espiritual: encontrando, um dia, um alto prelado, apresentou-lhe as razões das suas polêmicas reações públicas, a saber, as heresias toleradas ou até propaladas pelas mais altas autoridades dentro da Igreja. O prelado assim respondeu: “Eu prefiro errar com o Papa a ter razão contra o Papa”. Em outros termos, segundo este raciocínio, valeria mais sacrificar a verdade do que contrariar a vontade da autoridade. O bem, objeto da vontade, seria então superior à verdade e independente dela.

• O pragmatismo põe a verdade a serviço da ação. A verdade é o que é útil no presente, o que é eficaz, o que funciona. Seus representantes mais conhecidos são Friedrich Nietzsche (1844-1900), William James (1842-1910), Edward Le Roy (1870-1954), Maurice Blondel (1861-1949). Citemos, como exemplo, esta declaração de Napoleão I: “Acabei com a Guerra da Vendeia fazendo-me católico; estabeleci-me no Egito fazendo-me muçulmano, ganhei os espíritos na Itália fazendo-me ultramontano. Se governasse um povo de judeus, reconstruiria o templo de Salomão”.

• O existencialismo põe a vida (o que é vivido) acima da verdade objetiva. O “vivido” seria a expressão livre e espontânea do eu, o desenvolvimento “vital” da pessoa. Vejamos dois exemplos famosos:

Fiodor Dostoievsky
Dostoievsky disse: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido". Aí está o ponto de partida do existencialismo. Se a existência precede a essência, não se poderá jamais explicar por referência a uma natureza humana imóvel; dito de outra maneira, não há determinismo, o homem é livre, é libertado, suprime-se Deus, qualquer um pode inventar seus próprios valores. E, aliás, dizer que inventamos os valores não significa outra coisa senão isto: a vida não tem sentido a priori. Cabe a você dar-lhe um sentido, e o valor nada mais é do que esse sentido que você escolher. Dostoievsky, em "O Espírito Subterrâneo", põe estas palavras na boca de um dos seus heróis:

Meu Deus, que me importa a natureza? Que me importa a aritmética se, por uma razão ou por outra, não me agrada que dois vezes dois são igual a quatro? [...] O que convém ao homem é a independência, não importa a que preço [...]. Aceito que dois vezes dois são igual a quatro é uma coisa bonita, mas, no fundo, dois vezes dois são igual a cinco não é tão mal.

Essas citações bastam para verificarmos a origem comum dessas três teorias. Trata-se de uma inversão do verdadeiro e do bem. Ou seja, um ato de vontade, uma ação, uma vida não são boas com referência à verdade objetiva, e, por ela, ao real, mas encontram em si mesmas, no seu dinamismo próprio, a sua legitimidade. Tornam-se valores absolutos.

Para responder a isso, bastará reproduzir, quase palavra por palavra, o seguinte texto de Santo Tomás. O verdadeiro é primeiro com relação ao bem de maneira absoluta. Por duas razões:

1) Pelo fato de que o verdadeiro está mais próximo ao ser, que é anterior ao bem. Certamente, o verdadeiro observa o próprio ser, absoluta e imediatamente. A inteligência alcança diretamente o ser tal qual ele é. Ao passo que o ser é dito "bem" de acordo com certa perfeição. É, por certo, enquanto tem certa perfeição que o ser é desejável e, portanto, é ‘bom’.

2) Isso decorre do fato de que, de acordo com sua natureza, o conhecimento precede o apetite. É famoso o adágio “nihil volitum nisi praecognitum”, nada pode ser desejado se não é antes conhecido. Ora, como a verdade se relaciona ao conhecimento, e o bem ao apetite, o verdadeiro é primeiro com relação ao bem. Ainda que seja a mesma realidade concreta que é, que é verdadeira, e que é boa.

Vejamos como responder às correntes do pensamento expostas acima. A verdade precede o bem, e isto quer dizer que, assim como a inteligência não está no bem senão quando se submete ao real, assim também a vontade não é boa se não se adapta à verdade.

É na medida em que o homem se deixa conduzir pela verdade, isto é, pelo conhecimento do real tal qual ele é, que pode alcançar o bem, e daí uma verdadeira felicidade.

Ao contrário, pôr o bem fora do verdadeiro é emancipar-se de toda regra objetiva, é deixar o capricho correr solto; é, por isto mesmo, proibir-se da felicidade autêntica.

A sociedade contemporânea dá-nos de tudo isso abundantes confirmações, que se encontram, entre outras:

• Na multiplicação dos casos de câncer devido ao desprezo às mais elementares regras da higiene corporal (abuso do álcool, do fumo, contraceptivos);

• Nas terríveis epidemias, como a da AIDS;

• No crescimento assustador da delinquência e dos traumas psicológicos, frutos dos falsos princípios da educação e do divórcio;

• Nas falências sucessivas dos regimes socialistas;

• Na morte dos perseguidores da fé, que sobrevivem, frequentemente, com doenças repugnantes ou até na loucura.

Não há verdadeira felicidade que não seja uma felicidade verdadeira, isto é, uma felicidade fundada na verdade, nascida dela como o fruto nasce da flor.


Conclusão

O caminho que percorremos, em busca da verdade, fez-nos reencontrar numerosas objeções. Antes de concluir este estudo sumário, gostaríamos de voltar, uma vez mais, a essas objeções, não para apresentá-las novamente nem para discuti-las, mas para tirar delas algumas lições práticas e, dessa maneira, fazê-las servir à verdade.

Santo Tomás, por certo, advertiu-nos no seu Comentário à Metafísica de Aristóteles:

Aquele que se aprofunda no estudo da verdade é beneficiado de dois modos pelos outros: recebemos ajuda direta daqueles que encontraram a verdade [...]. Os pensadores são ajudados indiretamente por seus antecessores, que com seus erros dão motivos aos outros para descobrir a verdade por meio de uma reflexão mais séria. Convém, em conseqüência, que sejamos reconhecidos a todos aqueles que nos ajudaram a conquistar o bem da verdade.

Ressaltem-se três lições concernentes ao nosso assunto:

• Para a nossa vida intelectual, a necessidade de uma reeducação;

• Para a nossa vida moral, a lealdade;

• Nas nossas relações com os próximos, o zelo da verdade.


1) Uma reeducação

É fácil constatar que as objeções contra o realismo do conhecimento não repousam apenas nas bibliotecas. Elas penetraram profundamente as almas dos nossos contemporâneos, atingindo neles as iniciativas mais vitais da mente humana. Propagaram-se num formidável contágio. Nem sequer os mais lúcidos, – e talvez mesmo nenhum de nós, – pode dizer-se perfeitamente imune a esse flagelo. 

Fomos todos tocados, mais ou menos, pelo mal. Os a priori de Descartes, o subjetivismo de Kant, a sede de independência, todas esses princípios do existencialismo marcaram-nos o espírito, imprimiram em nós um certo comportamento em face do verdadeiro.

A gravidade e a extensão desses erros convidam a cada um de nós à uma obra de reeducação, que não consiste em nos fecharmos num saber gigantesco, mas em buscar a cura do mal intelectual dos nossos tempos.

É preciso que reencontremos a saúde da inteligência; que forjemos em nós um espírito realista, o que não se fará sem muito trabalho, — longo, por vezes penoso, — pela frequência assídua aos bons autores, e por uma forte dose de humildade.


2) A lealdade

As correntes de pensamento que mencionamos nos dois últimos artigos têm isto em comum: a fuga do real.

Na ordem do conhecimento, como em Descartes, ou na ordem do agir humano, como no existencialismo, assistimos a este espetáculo aflitivo: o homem foge da verdade. Pretende retirar do seu íntimo o verdadeiro e o bem. Poder-se-ia aplicar-lhe o que diz o Salmo 35, a respeito do ímpio: “Noluit intelligere ut bene ageret”(2): Eles não querem refletir para agir bem! Simplesmente não querem obedecer a uma regra externa, mesmo que esta regra seja a mais pura verdade dos fatos. Aceita desconhecer a verdade. Aceita a eventualidade de estar em erro, de preferência a curvar-se.

A lealdade a nossas próprias consciências nos convida a tomar a verdade como ao sol da nossa existência. Em face de tal ou qual vício, de tal ou qual hábito maléfico, de tal ou qual conivência com o mal, não fechemos os olhos, como quem não viu. Ao contrário, declaremos guerra, em nós, à ilusão, a fim de estabelecer, na nossa vida, o reino da Verdade. – Que aqui já nos permitimos grafar com inicial maiúscula.


3) O zelo da verdade

Nosso estudo deu-nos, muitas vezes, oportunidade de reencontrar este princípio fundamental: toda inteligência humana é feita para a verdade. A verdade é o bem da inteligência e a fonte dos demais bens. É a luz da estrada para a felicidade.

Ora, uma luz não brilha para si somente, mas clareia tudo à sua volta. Pela sua própria natureza, a luz se expande e busca ultrapassar as fronteiras da noite. Assim fazendo, ela exerce a suprema caridade da verdade. Fornece aos homens a raiz de todos os outros bens, a libertação das cadeias que mantêm pessoas cativas.

A extensão prodigiosa do erro no nosso século não deve, pois, desencorajar-nos, nem nos fazer dobrar sobre nós mesmos. Todas as inteligências são feitas para a verdade, e têm sede de sabê-la. Só ela salvará nosso mundo do naufrágio neste oceano de lama em que está metido.

O estudo da verdade deverá, portanto, dar nascimento a uma atividade generosa, para a glória da Verdade e o serviço dos nossos irmãos.

Uma frase resume essas exortações. São Paulo escreveu aos Tessalonicenses que aqueles que se perdem “perecem porque não abriram seus corações ao amor da Verdade para serem salvos” (2 Ts 2, 10). O Apóstolo das Gentes nos aponta as disposições que devem reinar em nossas almas: a docilidade, a humildade, o amor à Verdade.

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Fonte:
A Verdade: estudo filosófico. DOMINIQUE, Jean. Campo Grande: Ed. Santo Tomás, 2003.
www.ofielcatolico.com.br

Heresias, tão antigas e tão novas: o gnosticismo



NO INÍCIO DA IGREJA, especificamente nos séculos II e III, encontramos um fenômeno que irá mexer muito com o pensamento critão: a gnose. O que seria, afinal, a gnose? O que foi o gnosticismo, quais suas características e origem?

Geralmente, os especialistas distinguem gnose de gnosticismo. A gnose, – o significado da palavra, que vem do grego, é conhecimento, – indica um fenômeno mais amplo e presente no ser humano, de buscar o sentido da vida no conhecimento. Enquanto o gnosticismo seria a manifestação histórica da gnose nos séculos II e III. É algo concomitante ao surgimento da Tradição cristã.

A origem deste movimento ainda é bastante discutida, e também ignorada. Alguns pesquisadores admitem a existência de uma pré-gnose grega e de alguma pré-gnose judaica. O que sabemos sobre o gnosticismo provém de fontes cristãs antigas e de fontes originais recuperadas no século XX por pesquisadores.

O chamado gnosticismo cristão é fruto de todo um processo de influência do pensamento judaico dividido, pois nem todos seguiam a doutrina oficial, sobre os cristãos e também de elementos da cultura grega.

Desde o início da Igreja já encontramos o conflito com cristãos enamorados pela doutrina gnóstica. A tradição joanina, por exemplo, discute com os nicolaítas (Ap 2,6).

Geralmente, neste debate, os três nomes mais citados representando o gnosticismo são: Marcião, Basílides e Valentim. Apesar das diferenças no modo de pensar dos chamados "gnósticos cristãos", encontramos algumas características comuns, como:

• O uso de representações mitológicas;

• A interpretação extremamente imaginativa da Bíblia e da simbologia dos números;

• A preferência pelo gênero apocalíptico;

• Uma postura esotérica, pois o gnóstico acredita ser beneficiado pela revelação de um segredo transmitido apenas aos iniciados;

• Uma atitude anticósmica, antimaterial e anti-histórica, ou seja, o mundo visível é mau em si mesmo e tudo o que é corpóreo e temporal é ruim e não pode ser salvo.

Enfim, um modo de pensar dualista caracteriza o gnosticismo, em termos de luz e trevas, bem e mal, indicando que o mundo é resultado de duas realidades antagônicas que não podem se conciliar.

Por fim, para o gnosticismo, a salvação não vem pela Graça divina, mas por intermédio de um conhecimento perfeito que permitiria ao gnóstico se libertar deste mundo inferior e retornar à sua verdadeira origem e realidade espiritual.

Este modo de pensar foi profundamente questionado e denunciado por Santo Ireneu de Lyon (ou Irineu de Lião, na versão aportuguesada) em sua obra magna Adversus Haereses. Ireneu mostra como a doutrina dos gnósticos é absolutamente incompatível com a fé cristã genuína, pois nega, entre outros fundamentos, toda a doutrina da Criação, da Encarnação do Verbo de Deus e da sua Obra de Redenção. Somos salvos por tudo o que Cristo realizou e não devido ás nossas próprias capacidades, por meio de um conhecimento privilegiado, reservado a um grupo de "escolhidos" privilegiado e especial.

Infelizmente, em nossos dias, alguns cristãos ainda acham que tudo oe que é corpóreo, material e temporal é mau, esquecendo-se de que tudo o que existe foi criado por Deus e, portanto, é um bem. Jesus não teve um corpo meramente aparente, mas real, carnal, humano. O que não foi assumido não poderia ser salvo, como advertiu, para a posteridade, Santo Ireneu. O mau não está nas criaturas, como creem os gnósticos, mas na maneira como nos relacionamos com elas. 



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Esta é a terceira parte de uma série de postagens relacionadas entre si, adaptadas do conteúdo do recém-lançado (e precioso) opúsculo do Prof. Dr. Joel Gracioso, “Heresias: tão antigas e tão novas” (Kenosis/DDM, 2015), que divulgamos, pedindo a Nosso Senhor que renove, nos corações dos homens, o amor sincero pela Verdade eterna.

** O opúsculo pode ser adquirido por e-mail:
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Fonte:
GRACIOSO, Joel, Heresias: tão antigas e tão novas. São Paulo: Kenosis; DDM, 2015, pp. 15-17.
* O texto deste artigo contém excertos de Henrique Sebastião, autor/editor de 'O Fiel Católico'

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