O grandioso Milagre Eucarístico de Lanciano


O QUE CHAMAMOS "MILAGRE" é um Sinal especialíssimo do Poder divino à humanidade ou a um indivíduo em particular, que se caracteriza por ser “superior, diferente ou contrário à natureza”1, e que é visível e/ou passível de análise mediante os cinco sentidos físicos dos seres humanos.

Algumas orientações religiosas (como é o caso, por exemplo, do espiritismo) afirmam que os milagres não existem; entendem que Deus não quebraria as regras que Ele próprio estabeleceu para a sua Criação. Já a Igreja Católica entende que seria muita pretensão de nossa parte querer determinar o que Deus deve ou não fazer. Se cremos numa Força suprema, que criou e rege o Universo, havemos também de nos reconhecer incapazes de compreender os Desígnios divinos, ao menos em sua totalidade. A Igreja entende que só faz sentido crer em Deus como o Criador que age e se revela na História: o Deus Vivo, que se faz conhecer também através de eventos históricos.

A Parapsicologia chama de fenômeno supranormal àquilo que popularmente se conhece como milagre. É importante saber, no entanto, a diferença entre o supranormal e as ocorrências ditas paranormais ou extra-sensoriais. Dentro da pesquisa autêntica e científica da Parapsicologia, o fenômeno supranormal se reconhece basicamente por três pontos:

1. Pelo fato, em si mesmo superior à natureza;

2. Pelo modo, diferente dos modos da natureza;

3. Por quem ou o quê o faz. Assim, fenômenos provocados pelos seres humanos, mesmo que sejam impressionantes ou inexplicáveis, não são fenômenos supranormais, isto é, não são milagres.2

Neste artigo, vamos conhecer aquele que muitos, incluindo inúmeros médicos e homens de ciência, consideram o maior fenômeno supranormal da História: um dos maiores milagres de todos os tempos.

Este grandioso milagre teve o seu início por volta do ano 780 dC, na cidade italiana de Lanciano (‘Anxanum dos Frentamos), onde viviam os monges de São Basílio, no Mosteiro de São Legoziano. Torna-se entretanto ainda muitíssimo mais espantoso porque é um fenômeno que continua ocorrendo até os nossos dias(!) tendo mais de 12 séculos de existência, portanto.

Segundo os dados históricos, havia entre os monges um que se destacava mais pelo intelecto e aptidão para os estudos seculares do que pela determinação religiosa. Sofria com uma dificuldade terrível: em seu íntimo, duvidava que o pão e o vinho se tornassem verdadeiramente Corpo e Sangue de Cristo na Santa Missa, no momento da Consagração, como afirmam as sagradas Escrituras e a Tradição Cristã Católica.

Tal padre era, porém, um cristão fiel, e permanecia orando continuamente para superar o incômodo espinho em sua mente. Como sacerdote, evidentemente, não podia conviver com a dúvida sobre um dos pontos mais fundamentais da sua fé. Esta situação persistiu por um considerável período de tempo, até que, certa manhã, ao celebrar a santa Missa, após proferir as palavras da Consagração, ele viu a Hóstia converter-se em Carne Viva, e o Vinho em Sangue Vivo!

Sentiu-se, como podemos imaginar, extremamente confuso e dominado pelo temor; todavia logo depois foi transportado para um estado de êxtase, no qual permaneceu por um longo momento. Por fim, em meio à transbordante alegria, rosto banhado em lágrimas, voltou-se para os presentes, que nada entendiam, e exclamou: “Oh, testemunhas afortunadas, a quem o Santíssimo Deus, para destruir a minha falta de fé, quis revelar-se a Si mesmo neste Santíssimo Sacramento, fazendo-se visível diante dos nossos olhos! Venham irmãos, venham todos e maravilhem-se com o nosso Deus, tão próximo de nós! Venham contemplar a Carne e o Sangue de nosso amado Cristo!”.

Os fiéis, estupefatos, aproximaram-se do Altar. Uns foram às lágrimas, outros caíram de joelhos: havia Carne viva no lugar da hóstia; Sangue em vez de vinho!

A Hóstia-Carne apresentava, como hoje ainda se pode observar, coloração ligeiramente escura; rósea quando iluminada pelo lado oposto, e aparência fibrosa; o Sangue era espesso, hoje encontra-se coagulado, em nódulos.

A notícia logo se espalhou na pequena cidade, transformando o monge numa espécie de “novo S. Tomé”. Serenadas as emoções, as relíquias foram guardadas num tabernáculo de marfim especialmente construído. A partir do ano de 1713, a Carne vem sendo conservada numa custódia de prata, e o Sangue num cálice de cristal, onde permanecem até hoje.

Até aqui, os céticos poderiam dizer que se trata de uma história criada pela devoção popular. Tudo não passaria de uma "piedosa" fraude, inventada para aumentar a fé do povo. Mas o Milagre de Lanciano é infinitamente mais do que uma alegação sem provas. No decorrer dos tempos, os ataques dos ateus seriam, um a um, derrubados pelas comprovações científicas procuradas pela própria Igreja.

Ocorre que o Vaticano adota uma postura muito rígida para com as alegações de milagres, e nesse caso não foi diferente. As relíquias já vinham sendo mantidas como objetos de veneração há séculos, mas a Igreja não se pronunciou oficialmente antes de uma confirmação científica. É exatamente o que torna este caso em particular tão especial.

Em novembro de 1970, os Frades Menores Conventuais, que guardam a igreja do Milagre (denominada 'São Francisco' desde 1252), autorizados, confiaram a médico renomado e de idoneidade moral reconhecida a análise científica das relíquias, que foi realizada por meio de minuciosas e rigorosas provas de laboratório. Foi convidado o Dr. Odoardo Linoli, chefe de serviço dos Hospitais Reunidos de Arezzo e docente de anatomia e histologia patológica e de química e microscopia clínica, e o professor Ruggero Bertelli, da Universidade de Siena, que o auxiliou.

Procederam-se os exames. A-pós meses de trabalho, em 4 de março de 1971, foi publicado o relatório contendo os resultados das análises, que foram os seguintes:

a. A Carne é carne verdadeira.

b. O sangue é sangue verdadeiro.

c. A carne é parte tecido muscular do coração (miocárdio, endocárdio e nervo vago).

d. A carne e o sangue são do mesmo tipo sanguíneo (AB), e pertencem à espécie humana.

e. No sangue foram encontrados, além das proteínas normais, os seguintes materiais: cloretos, fósforos, magnésio, potássio, sódio e cálcio.

f. A conservação da carne e do sangue, deixados em estado natural por 12 séculos e expostos à ação de agentes atmosféricos e biológicos, permanece como fenômeno extraordinário.

A partir daí, o Milagre Eucarístico já não se restringia mais a uma questão de fé: estava cientifica e clinicamente comprovado. Mas a história não acaba aí: novas investigações laboratoriais foram realizadas em 1981. Mais uma vez, o trabalho foi realizado com absoluto rigor científico e documental, desta vez incluindo a análise microfotográfica. Os resultados foram os seguintes:

1. A carne analisada é carne verdadeira. O sangue é sangue verdadeiro;

2. A carne e o sangue pertencem à espécie humana;

3. A carne pertence ao coração, em sua estrutura essencial;

4. Na carne estão presentes, em seções: miocárdio, endocárdio, nervo vago e ventrículo cardíaco esquerdo;

5. A carne e o sangue pertencem ao mesmo grupo sanguíneo: AB (o sangue tipo AB é característico do povo judeu e é o mesmo tipo encontrado no ‘Santo’ Sudário de Turim);

6. No sangue foram encontradas as proteínas normalmente existentes, nas proporções percentuais idênticas, às encontradas no sangue normal fresco, como se retirados de um ser humano ainda vivo(!);

7. No sangue foram encontrados também os sais minerais em proporções idênticas àquelas de um ser humano vivo normal: cloro, fósforo, magnésio, potássio, sódio e cálcio.

8. A conservação da carne e do sangue, deixados em estado natural durante doze séculos e expostos aos agentes físicos, atmosféricos e biológicos, constitui fenômeno extraordinário (extrapola os limites do comum, do ordinário).



Mais acima, o relicário contendo o milagroso Fragmento de carne logo acima do cálice com os coágulos de sangue; mais abaixo, em close, o milagroso Fragmento de Carne humana identificado clinicamente como Tecido cardíaco


Detalhes que merecem destaque

* Segundo os resultados das análises, os materiais são de uma pessoa viva, como se retirados de um ser humano vivendo atualmente! As características bioquímicas do Sangue são as que se esperaria de material colhido naquele mesmo instante, de um ser humano vivo!

** A Carne que lá está é do coração, o músculo que propulsiona o sangue, – portanto a vida, – ao corpo inteiro, e que é também o símbolo do amor. Lembremo-nos que Nosso Senhor manifestou-se com seu Sagrado Coração exposto a Santa Margarida Maria Alacoque.

*** O Sangue, hoje, está em forma de cinco coágulos. Apesar de serem diferentes em tamanho e forma, todos apresentam exatamente o mesmo peso! Mais: pesando-se todos os coágulos juntos se obtêm, igualmente, exatamente o mesmo peso! Em outras palavras, o peso de cada um dos coágulos é igual, e é também o mesmo peso de todos juntos! Este fato, por si só, representa um outro milagre dentro do grande milagre!

Um caso como este não pode ser explicado como ação do “poder da mente”, sugestão ou fenômeno meramente paranormal. A própria parapsicologia classifica o Milagre Eucarístico de Lanciano como fenômeno supranormal, e a ciência o atesta como “fenômeno extraordinário”, isto é, que extrapola os limites do ordinário, do comum. Não existe sequer esboço de explicação científica natural para este caso, que não se trata de um fenômeno ocorrido numa data determinada, mas um Milagre Permanente: ocorreu há cerca de 1.300 anos e continua ocorrendo até hoje, na preservação inexplicável dos Materiais.

‘Comei e bebei todos vós, isto é o meu Corpo que é dado por vós’. Mais do que uma simples simbologia, como possa parecer, este é o Sinal Divino de que no Sacramento da Comunhão está o Alimento da nossa esperança nas Promessas de Cristo...
(Santo Tomás de Aquino)

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Notas:

1. Definição clássica de Sto. Tomás de Aquino, em QUEVEDO, Oscar G. Os Milagres e a Ciência, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2000, p. 11-27.

2. QUEVEDO, Oscar G. Os Milagres e a Ciência, São Paulo: Loyola, 1998.

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Fontes e ref. bigliográfica:

• DEGRANDIS, Robert, A Cura pela Missa, 29ª ed. São Paulo: Loyola, 2006, p. 130.

• QUEVEDO, Oscar G. Os Milagres e a Ciência, parte 1 / 'O cientista prescruta a natureza', São Paulo: Loyola, 1998, pp. 11-46.

• MOREIRA, Francisco Adail Martins. Festas Litúrgicas de Jesus e Maria, São Paulo:
Loyola, 2003, pp. 106,107.

• NASINI, Gino. O Milagre e os Milagres Eucarísticos. São Paulo: Loyola / Palavra
& Prece, 2011, pp. 166-167.

• AQUINO, Felipe. Eucaristia. São Paulo: Canção Nova, 2007, pp.110, 111.
www.ofielcatolico.com.br

Quais as diferenças entre católicos e ortodoxos orientais?

Pelo zelo na Liturgia e na Arte sacra, igrejas ortodoxas orientais são belas e ricamente ornamentadas em qualquer lugar do mundo; acima, a vista interna da igreja da paróquia ortodoxa russa do Cazaquistão 

DE TEMPOS EM TEMPOS, surge algum leitor que nos propõe esta pergunta. Entendemos, então, que chega o momento de respondê-la: em síntese, são treze as diferenças doutrinárias e disciplinares que distanciam os ortodoxos orientais da Igreja Católica.

É interessante notar que a maioria daqueles que de modo superficial simpatizam com a rica tradição ortodoxa oriental acabam por entender que ela perde, por assim dizer, o "encanto" quando conhecida a fundo e vista bem de perto. Apesar do grande respeito que temos por estes nossos queridos irmãos cismáticos, não temos como negar que boa parte dos argumentos que eles utilizam para justificar os desacordos entre eles e nós, como veremos, são flagrantemente desprovidos de qualquer fundamento.

Os ortodoxos não aceitam: 1) o primado e 2) a infalibilidade do Papa; 3) a Processão do Espírito Santo a partir do Filho; 4) o Purgatório póstumo; 5) os dogmas da Imaculada Conceição e 6) da Assunção de Maria Santíssima (apenas enquanto dogmas); 7) o Batismo por infusão e não por imersão; 8) a falta da Epiclese na Liturgia Eucarística; 9) o pão ázimo (sem fermento) na Celebração Eucarística; 10) a Comunhão Eucarística sob a espécie do pão apenas; 11) o Sacramento da Unção dos Enfermos como é ministrado no Ocidente; 12) a indissolubilidade do Matrimônio; 13) o celibato do clero.

Seja observado, logo de início, que em geral os orientais têm por ideal a volta da Igreja ao que ela era até o sétimo Concílio Geral (Nicéia II em 787), pois aceitam plenamente os Concílios de Nicéia I (325), Constantinopla I (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla II (553), Constantinopla III (681), Nicéia II (787). O Concílio de Constantinopla IV, que excomungou o Patriarca Fócio em 869/870, evidentemente é rejeitado pelos orientais.

Como se pode ver, nem todos esses pontos diferenciais são da mesma importância. O que mais concorre para a manutenção do Cisma é o da fidelidade ao Papa como Pastor Supremo, assistido pelo Espírito Santo em matéria de fé e de Moral. A seguir, comentamos e procuramos esclarecer cada um destes pontos:


1. Primado do Papa

Alega a Teologia ortodoxa que a jurisdição universal e suprema do Papa implicaria que os outros bispos são subordinados a ele como nada além de seus representantes, o que eles consideram um desvio ou um erro. A esta concepção equivocada, porém, respondeu o Concílio do Vaticano II:

Aos Bispos é confiado plenamente o ofício pastoral ou o cuidado habitual e cotidiano das almas. E, porque gozam de um poder que lhes é próprio e com toda razão são antístites dos povos que eles governam, não devem ser considerados (meros) vigários (representantes) do Romano Pontífice.”
(Constituição Lumen Gentium 27)

Como demonstra muito facilmente a mais elementar noção do senso comum (entenda), não há nenhum sentido em se questionar o primado do Bispo de Roma, o Papa, que garante a unidade e a coesão da Igreja, preservando-a de iniciativas meramente pessoais e subjetivas. Exatamente por isso o discípulo Simão, e apenas ele, recebeu o nome-título de Pedra-Cefas (entenda).


2. Infalibilidade do Papa

Em 1870, fazendo eco à fé antiquíssima dos cristãos, o Concílio do Vaticano I declarou o Papa infalível quando fala em termos definitivos para a Igreja inteira e em matéria de fé de moral (entenda). – Já segundo a Teologia ortodoxa oriental, esta definição extinguiria a autoridade dos Concílios.

Evidente que tal contestação não em nenhuma razão de ser, pelo simples fato de que o Papa não pode "decidir" nada contrário àquilo que foi definido dogmaticamente em qualquer Concílio da Igreja. Já no tempo dos Apóstolos ocorreu o primeiro Concílio, em Jerusalém1. Segundo a Igreja Católica, então, os Concílios gerais ou universais têm plena razão de ser, já que também o Papa participa deles (por si ou por seus delegados) e aprova as suas conclusões. Nos nossos dias, mais e mais se têm insistido sobre a colegialidade dos Bispos.


3. A procedência do Espírito Santo a partir do Filho (Filioque)

Esta é possivelmente a mais conhecida discordância entre católicos e ortodoxos e que, mais uma vez, não tem nenhuma razão de ser a não ser a pura incompreensão e a inflexibilidade para o diálogo aberto e fraterno, como era a característica de um determinado período histórico. A concepção da Igreja Católica decorre do fato de que em Deus não há distinções, a não ser onde haja oposição relativa, como no caso do Filho que possui Natureza humana, sedo que o mesmo não se pode afirmar do Pai e do Espírito Santo. Entretanto, não podemos jamais nos esquecer de que não somos politeístas: cremos e adoramos apenas um Deus, que se manifesta a nós em Três Pessoas diferentes, mas não separadas2.

Se, portanto, entre o Filho e o Espírito Santo não há a separação de Espirante e Espirado, um não se distingue do outro ou, em outras palavras, o Filho e o Espírito Santo são um só em Deus. Nosso Senhor Jesus Cristo, no Evangelho segundo S. João (15, 26) afirma textualmente que o Espírito procede do Pai; claramente, porém, não tenciona propor aí uma Teologia sistemática e exclusiva, mas põe em relevo um aspecto da verdade, – assim como em tantas e tantas outras ocasiões, – sujeito a ser completado pela reflexão.

De fato, no caso desta questão, a dificuldade é mais de linguagem do que de doutrina. Tanto assim que os orientais preferem dizer que o Espírito Santo procede do Pai "através do Filho", – o que claramente é apenas uma maneira diferente de dizer praticamente a mesma coisa ou, no mínimo, algo muito parecido. Torna-se evidente que, com um pouco de boa vontade, poderia-se facilmente conciliar as posições.


4. Purgatório

Este é um caso curioso e que (infelizmente precisamos dizer) evidentemente depõe contra a boa vontade dos teólogos orientais. Ocorre que os ortodoxos do Oriente aceitaram a existência do Purgatório sem nenhuma dificuldade até o século XIII. Foi somente no ano 1231 ou 1232 que o metropolita Georges Bardanes, de Corfu, pôs-se a impugnar a doutrina bíblica e apostólica do fogo do Purgatório (entenda), apenas porque não haveria, literalmente, fogo no Purgatório(!).

Os teólogos orientais subsequentes lamentavelmente vieram a apoiar a contestação de G. Bardanes, mas nem por isso ousaram negaram a realidade (como dissemos antes, plenamente bíblica e plenamente fundamentada na Tradição apostólica) da necessidade de um estado de purificação intermediário entre a vida terrestre e a bem-aventurança celeste para as almas daqueles que morrem com resquícios de pecado: estes seriam perdoados por Deus em vista da oração da Igreja; estariam assim fundamentados os sufrágios pelos defuntos.

A recusa do Purgatório, então, só ocorreu entre os orientais, absurdamente, no século XVII(!) e sob a influência de autores protestantes(!!). Ora, admitir uma doutrina que teria, então, estado errada por dezessete séculos, não é o mesmo que admitir a sua fragilidade também depois da mudança?

Por fim, o fato histórico é que daí por diante a Teologia oriental tornou-se em parte dividida; muitos teólogos ortodoxos continuam admitindo a necessidade de um estado intermediário entre a morte e a bem-aventurança celeste, assim como também reconhecem o valor dos sufrágios pelos defuntos. Eis aí mais um fato histórico e teológico que só vem a confirmar para todo o povo cristão a exclusividade da Igreja Católica no papel de única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo e mantida pelo Espírito Santo.


5. A Imaculada Conceição de Maria

Esta, incrivelmente, é por vezes confundida com um pretenso nascimento virginal de Maria (segundo tal confusão absurda, Santa Ana teria concebido sem a colaboração de São Joaquim!). Assim, simplesmente porque tal concepção virginal carece de qualquer fundamento (evidente, e nunca foi parte da Teologia católica!), também a verdadeira doutrina da Imaculada Conceição é em algum nível contestada pelos orientais, embora não seja negada por eles.

Contraditoriamente, porém, toda a literatura, a Liturgia e as mais tradicionais devoções dos ortodoxos enaltecem grandemente e com insistência (provavelmente até maior do que o fazem as obras clássicas católicas) a pureza plena e absoluta da Virgem Maria, professando a mesma coisa que nós, católicos, de modo implícito. Concretamente, a única diferença real é que eles não formularam nem definiram um dogma de fé específico a respeito desta realidade, que na prática creem de modo idêntico ao nosso, – e isto é algo bastante fácil de se confirmar, bastando que se observe a arte sacra oriental, eivada do princípio ao fim de belos e múltiplos ícones em honra à santidade incomparável de Maria Santíssima.


6. A Assunção de Maria Santíssima

Este ponto, juntamente com o anterior, é de surpreender o leigo, pois como já dissemos a devoção dos ortodoxos por Nossa Senhora é evidente e profundíssima, tanto que á primeira vista dá a impressão de ser tão grande quanto a católica ou até mesmo maior, em certas cerimônias, usos e costumes.

Crida pelos cristãos desde a Antiguidade, foi proclamado este dogma de fé pela Igreja Católica em 1950, pelo Papa Pio XII, de acordo com as tradições teológicas ocidental e oriental. Merece especial atenção, novamente, a iconografia oriental, que representa de maneira muito expressiva a Virgem sendo assunta aos Céus por seu Divino Filho (daí a diferença entre os termos 'Ascensão do Senhor' e 'Assunção de Maria': ela, elevada por Ele, que é Deus e se eleva por seu próprio Poder Divino).

Qual é, então, o problema? De fato, o que fere os orientais neste caso, – assim como no caso da Imaculada Conceição, – não é a proclamação da Assunção em si, simplesmente porque eles também creem nisto; o problema está, apenas e tão somente, na promulgação do dogma, a qual eles consideram que não deveria ter ocorrido (até por não terem tomado parte em sua elaboração).


7. Batismo por infusão ou aspersão da água

Aqui está um problema difícil de compreender, não só pelos católicos como também pela maior parte dos próprios cristãos orientais, que discordam da estranha posição ortodoxa oriental. Dizem esses teólogos que é importante no Batismo o contato da água com o corpo inteiro da pessoa, simbolizando purificação.

Para nós, católicos, tanto os de rito romano quando de rito oriental, o Sacramento é um sinal que realiza o que significa; logo, a Água batismal significa e realiza a purificação da alma. Basta lembrar que os Apóstolos, nos primeiríssimos anos, quando saíram aos quatro cantos do mundo para levar o Evangelho, nas mais diversas situações nem sempre dispunham de rios ou de grandes volumes de água para imergir os batizandos que surgiam a todo instante. Foi este, aliás, o caso do próprio S. Paulo Apóstolo, sem dúvida o mais emblemático3.


8. Epiclese

Os orientais julgam essencial na Liturgia Eucarística a Invocação do Espírito Santo (Epiclese) antes das palavras da Consagração; ora, estas faltam no Cânon Romano (Oração Eucarística nº 1), pois os latinos julgam que a Consagração do pão e do vinho se faz pela repetição das palavras do Cristo, assim como Ele ordenou: “Isto é o meu Corpo… Isto é o meu Sangue…”.

Assim, as Orações Eucarísticas compostas depois do Concílio VII (1962-65) têm a Epiclese não para corrigir uma pretensa "falha" anterior, mas para salvaguardar uma antiga Tradição.


9. Pão ázimo

Jesus, em sua última ceia, observou o ritual da Páscoa judaica, que prescrevia (como ainda prescreve) o uso do pão ázimo ou não fermentado. A Igreja Católica também guardou o costume, – que foi, assim, guardado pelo próprio Cristo, – na Celebração da Eucaristia. Está mais do que bem respaldada, como se vê.

Uma observação importante: o uso do pão fermentado não é excluído por nós, católicos, pois, em última análise, se trata sempre de pão.


10. A Comunhão Eucarística sob as espécies do pão apenas

Até o século XII, a Comunhão era ministrada sob as duas espécies, pão e vinho; o uso foi abolido em razão dos graves inconvenientes que gerava (profanação, sacrilégios…). Todavia, após o Concílio VII é permitido que se dê a Comunhão sob as duas espécies a grupos devidamente preparados.


11. Unção dos Enfermos

Baseados na Epístola de S. Tiago (5,14ss), os orientais ortodoxos têm a Unção dos Enfermos como Sacramento. Divergem, porém, dos ocidentais em dois pontos:

a) A Unção não é reservada aos gravemente enfermos nem tem a marca de preparação para a morte, mas, ao contrário, vem a ser um rito de cura para qualquer enfermo;

b) A Unção, no Oriente, tem forte caráter penitencial, a tal ponto que ela é conferida também aos pecadores, mesmo os sadios, a título de satisfação pelos pecados.

Pode-se dizer, portanto, que a Unção “dos Enfermos” nas comunidades orientais ortodoxas é dada a todos os fiéis que tenham algum problema de saúde corporal ou espiritual. Isto ocorre especialmente na Semana Santa e entre os russos.

Essas diferenças, bastante suaves e simples de contornar, infelizmente foram muito exploradas nos debates entre latinos e gregos. Os ocidentais reservam a Unção para os casos de moléstias graves ou sério perigo de vida (entenda a Unção dos Enfermos).


12. Divórcio

Baseados no Evangelho segundo S. Mateus (5,32 e 19, 9) mas indo contra ao que dizem os Evangelhos segundo S. Marcos (10, 11s) e S. Lucas (16,18), e a 1ª Carta de S. Paulo aos Coríntios (7,10ss), os ortodoxos reconhecem o divórcio.

A Igreja Católica, por coerência, não interpreta S. Mateus em sentido contrário a S. Marcos, S. Lucas e S. Paulo, o que seria absurdo; assim, não reconhece o divórcio de um Matrimônio sacramental validamente contraído e consumado, mas entende que em Mt 5 e 19 se trata da dissolução dos casamentos ilícitos, o que ela pratica até hoje (entenda).


13. Celibato do Clero

Segundo a compreensão desses nossos irmãos, seria esta uma restrição imposta nos séculos posteriores, contrária à decisão do primeiro Sínodo Ecumênico no ano 325. Há alguma verdade nisso?

O celibato do clero tem seu fundamento na 1ª Carta de S. Paulo aos Coríntios (7, 25-35), onde S. Paulo recomenda expressamente a vida una ou indivisa. Esta foi sendo praticada espontaneamente pelo clero até que, em aproximadamente 306, o Concílio regional de Elvira (Espanha) a sancionou para os eclesiásticos de grau superior. A legislação de Elvira foi-se propagando no Ocidente por obra de outros Concílios regionais.

Diferentemente, os orientais estipularam que, após a Ordenação, os clérigos de grau superior (do diaconato para cima) não poderiam contrair Matrimônio, mas eram autorizados a manter o uso do Matrimônio os que tivessem casado antes da ordenação. O Concílio de Niceia I (325) rejeitou a proposta segundo a qual o celibato no Oriente seria observado sem exceções, como no Ocidente; isto por protesto do Bispo egípcio Pafnúncio, o qual guardava pessoalmente o celibato. Os Bispos orientais são todos celibatários e, por isto, recrutados entre os monges.

† † †

Como se vê, no último item como em outros, muitas das diferenças são disciplinares e não impedem a volta à unidade entre cristãos orientais e ocidentais. Podem-se admitir o pão fermentado na Eucaristia, a Epiclese como regra, que parte do clero seja casada. Outros pontos podem ser discutidos com muita tranquilidade, e com alguma revisão de termos, chegar-se a um termo, como é o caso da procedência do Espírito Santo. O maior obstáculo permanece o do primado do Papa.

Paulo VI e João Paulo II demonstraram compreender bem o problema, que acreditavam (como a Igreja ainda crê) que pode ser resolvido satisfatoriamente sem que se abra mão dos pontos inegociáveis de nossa fé e doutrina. Escreveu S. João Paulo II em sua encíclica Ut Unum Sit ('Para que seja um'), a qual é muito recomendável que seja lida e compreendida por todos os católicos:

Entre todas as Igrejas e Comunidades Eclesiais, a Igreja Católica está consciente de ter conservado o Ministério do sucessor do Apóstolo Pedro, o Bispo de Roma, que Deus constituiu como perpétuo e visível fundamento da unidade e que o Espírito ampara para que torne participantes deste bem essencial todos os outros.

Segundo a feliz expressão do Papa Gregório Magno, o meu Ministério é de Servus servorum Dei. Por outra parte, como pude afirmar por ocasião do Encontro do Conselho Mundial das Igrejas em genebra aos 12 de junho de 1984, a convicção da Igreja Católica de, na fidelidade à Tradição apostólica e à fé dos Padres, ter conservado, no Ministério do Bispo de Roma, o sinal visível e a garantia da unidade, constitui uma dificuldade para a maior parte dos outros cristãos, cuja memória está marcada por certas recordações dolorosas. Por quanto sejamos disso responsáveis, como o meu Predecessor Paulo VI, imploro perdão.

Com o poder e a autoridade sem os quais tal função seria ilusória, o Bispo de Roma deve assegurar a comunhão de todas as Igrejas. Por este título, ele é o primeiro entre os servidores da unidade. Tal primado é exercido em vários níveis, que concernem à vigilância sobre a transmissão da Palavra, a celebração sacramental e litúrgica, a missão, a disciplina e a vida cristã. Compete ao Sucessor de Pedro recordar as exigências do bem comum da Igreja, se alguém for tentado a esquecê-las em função dos interesses próprios. Tem o dever de advertir, admoestar e, por vezes, declarar inconciliável com a unidade da fé esta ou aquele opinião que se difunde. Quando as circunstâncias o exigirem, fala em nome de todos os Pastores em comunhão com ele. Pode ainda – em condições bem precisas, esclarecidas pelo Concílio do Vaticano I – declarar ex cathedra que uma doutrina pertence ao depósito da fé. Ao prestar este testemunho à verdade, ele serve à unidade

Dirigindo-me ao Patriarca Ecumênico Sua Santidade Dimitrios I, disse estar consciente de que, 'por razões muito diferentes, e contra a vontade de uns e outros, o que era um serviço pôde manifestar-se sob uma luz bastante diversa'. Mas é com o desejo de obedecer verdadeiramente à Vontade de Cristo que eu me reconheço chamado, como Bispo de Roma, a exercer este Ministério. (…) O Espírito Santo nos dê sua Luz e ilumine todos os pastores e os teólogos das nossas Igrejas, para que possamos procurar, evidentemente juntos, as formas mediante as quais este Ministério possa realizar um serviço de amor reconhecido por uns e por outros.

(Ut Unum Sit nºs 88/94-95, 25/5/1995)

Vemos que o Papa não abdica (nem poderia abdicar) do seu Ministério, que garante a unidade da Igreja, antes o afirma com todas as letras; mas pede que os teólogos proponham modalidades de exercício desse Ministério que satisfaçam a todos os cristãos (leia a Ut Unum Sit na íntegra).

Suplicamos, humildes, ao Espírito Santo que inspire os responsáveis para que realmente colaborem para a solução das dificuldades que os cristãos não católicos enfrentam no tocante ao primado do Papa!

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Notas:
1. Por volta do ano 48, apresenta-se em Antioquia o problema relativo à oportunidade da circuncisão para os não-judeus, quando cristãos provenientes da Judeia reclamam a 'liberdade adquirida em Cristo Jesus', que Paulo e Barnabé também invocam para não impor esse rito aos cristãos vindos do paganismo. A comunidade então interpelar os Apóstolos e os Anciãos de Jerusalém e lhes enviam Paulo e Barnabé, com seu companheiro grego Tito, acompanhados de uma delegação.
(N. do A., conf. Portal do Vaticano: Basilica San Paolo Fuori le Mura, disp. em:
vatican.va/various/basiliche/san_paolo/po/san_paolo/concilio.htm
Acesso 26/4/016)


2. 'As Pessoas divinas são relativas umas às outras. Por não dividir a Unidade divina, a distinção real das Pessoas entre si reside unicamente nas relações que as referem umas às outras: nos nomes relativos das Pessoas, o Pai é referido ao Filho, o Filho ao Pai, o Espírito Santo aos dois; quando se fala destas três Pessoas, considerando as relações, crê-se todavia em uma só Natureza ou Substância. Pois tudo é uno n'Eles, onde não se encontra a oposição de relação. Por causa desta Unidade, o Pai está todo inteiro no Filho, todo inteiro no Espírito Santo; o Filho está todo inteiro no Pai, todo inteiro no Espírito Santo; o Espírito Santo, todo inteiro no Pai, todo inteiro no Filho'.
(CIC §255)

3. O Batismo por aspersão (com a água aplicada geralmente sobre a cabeça) é explicitamente descrito  nas Sagradas Escrituras como prática comum da Igreja (ainda que não exclusiva) desde os primeiríssimos tempos. No caso do Apóstolo Paulo, ainda chamado Saulo quando partiu para Damasco em perseguição à Igreja (At 9,1-2), após a sua maravilhosa conversão mediante a visão do Senhor, foi recebido em casa de um Judas (onde permaneceu, cego e em jejum absoluto, por três dias) e ali mesmo foi batizado por Ananias, dentro de um quarto e em pé: 'Imediatamente, lhe caíram dos olhos como que escamas, e tornou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizadoDepois tomou alimento e sentiu-se fortalecido.' (At 9,18-19). Na expressão no original em grego koiné,ANASTAS EBAPTISQH (anastas ebaptisthê), o particípio 'anastas' indica uma ação imediata entre o levantar e ser batizado. Havia certamente água no quarto porque já era prática judaica aspergirem-se frequentemente em diversas situações.
• Além deste caso, o mesmo Livro dos Atos menciona carcereiro de Filipo, que foi igualmente batizado 'imediatamente' em sua casa, juntamente com 'toda a sua família' (At 16, 33), em sua residência, logo após lavar as chagas de Paulo e Silas, sem nenhuma menção a rio, piscina ou grande tanque.
• O segundo capítulo do Livro dos Atos ainda menciona que 'mais ou menos três mil' foram batizados em Jerusalém. Note-se que não havia rio ou água corrente dentro da cidade que permitiria a imersão
de milhares de pessoas naquela ocasião. 

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Ref.:
BETTENCOURT, Estevão, osb, revista 'Pergunte e responderemos' nº 480, 2002, pp. 200ss
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Um novo Milagre eucarístico na Polônia


LEGNICA, POLÔNIA, abril de 2016 – Dom Zbigniew Kiernikowski, Bispo de Legnica, aprovou no dia 17 de abril de 2016 a veneração de uma santa Hóstia Consagrada que sangra, devidamente comprovado o fenômeno milagroso, a qual, nas palavras do prelado, “possui as características distintivas de um Milagre eucarístico”.

No Natal de 2013, uma Hóstia consagrada caiu no chão da igreja da paróquia polonesa de Saint Jack –, relata o Sr. Bispo em um comunicado –, e depois de recolhida foi posta em um recipiente com água, segundo certa norma. Pouco tempo depois, apareceram manchas vermelhas no Pão Eucarístico.

Dom Stefan Cichy, que era então o Bispo de Legnica, criou uma comissão especial para analisar a Hóstia. Em fevereiro de 2014, um pequeno fragmento foi colocado sobre um corporal e passou por provas de vários institutos médicos e análises clínicas.

Para a maravilha e exultação de todo o povo cristão, o comunicado final do Departamento de Medicina Forense atestou, entre outros pontos, que:
A imagem histopatológica encontrou no material partes fragmentadas do músculo estriado transversal, semelhante ao músculo do coração.1

Ainda mais, as provas determinaram também que o tecido é de origem humana e que apresentava sinais químicos de que o seu portador tenha sido submetido a sofrimentos físicos(!). Como se vê, são coincidências flagrantes com o mais famoso caso de Milagre eucarístico, o de Lanciano, Itália (saiba mais).

Dom Kiernikowski confirmou que, em janeiro de 2016, apresentou o caso à Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano.

Em abril do mesmo ano, de acordo com as recomendações da Santa Sé, o prelado pediu ao pároco de Saint Jack, Andrzej Ziombrze, que prepare "um lugar adequado para as Relíquias, de tal forma que os fiéis pudessem venerá-las”.

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Fonte:
1. ACI Digital, 'Novo milagre eucarístico na Polônia', disp. em:
acidigital.com/noticias/novo-milagre-eucaristico-na-polonia-92095/
Acesso 23/4/016
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A crise política e econômica e o famoso 'Estado laico'

Votação do impeachment de Dilma Roussef (17/4/016)

ASSISTI ONTEM, no programa de final de tarde do canal Globo News, "Diálogos com Mário Sérgio Conti", jornalista famoso por suas trapalhadas, uma tragicômica entrevista com o prof. Luiz Felipe de Alencastro, da FGV (Fundação Getúlio Vargas) de São Paulo. Esquerdista incansável em sua missão sagrada de nos alertar quanto aos supostos grandes males provocados pelo conservadorismo na história do Brasil, Alencastro não perdeu a oportunidade para defender o chamado Partido dos Trabalhadores e suas táticas, aliás com uma competência bem maior que a do advogado (que deveria ser da União, mas que se comporta como funcionário particular de Dilma Roussef) José Eduardo Cardoso.

Algo que me chamou a atenção nesta entrevista foram os veementes e escandalizados protestos do entrevistado, – compartilhados e referenciados com idêntico escândalo pelo entrevistador, – contra a manifestação de parte dos deputados que votaram a favor do impeachment na Câmara dos Deputados no domingo, 17/4/016, pelo fato de terem falado em Deus ou invocado valores religiosos durante suas declarações, como se isto, por si só, desqualificasse qualquer ato ou posição dos que se atrevem a fazê-lo.

A mesma indignação, o mesmo escândalo e o mesmo horror vêm demonstrando outros jornalistas e comentadores desta e de outras emissoras: para estes, citar Deus ou afirmar princípios religiosos parece constituir o pior dos crimes para um representante do povo. Ainda no começo desta semana, disparou o Guga Chacra, correspondente da mesma Globo News em Nova York para o programa "Em Pauta": "Esta postura é preocupante, porque o Brasil é um país laico; com essas pessoas (que citam Deus), nós não conseguiremos 'avançar' na questão do gênero, por exemplo". Mal terminou de dizê-lo, recebeu as prontas e unânimes congratulações dos outros comentaristas, entre os quais Gerson Camarotti, Sandra Coutinho, Eliane Cantanhêde e o apresentador Sérgio Aguiar.

É neste momento que eu, do meu sofá, enquanto cidadão brasileiro honesto, contribuinte e, bem ou mal, consumidor de alguns programas daquela emissora, sinto-me traído.

Traído porque sou brasileiro e sou cristão, assim como algo em torno de 90% da população brasileira ou mais (Censo 2010/Pew Research Center). Fique claro que estes números contemplam apenas católicos e protestantes; se considerarmos também os adeptos das outras correntes religiosas existentes em nosso país, chegaremos realmente muito, muito perto dos 100%. Segundo o mesmo Censo, apenas ínfimos 0,39% da população brasileira é ateia).

Dizendo de outro modo, não chegamos sequer a um por cent... Não, não, na realidade não temos nem meio por cento de ateus em nosso país e, mesmo assim, entre os membros da dita "classe falante", a palavra de ordem, que assume características de mantra hipnótico que como num passe de mágica confere razão instantânea a quem o profere é: "O país é laico!", – dito no sentido de que qualquer manifestação pública de fé esteja terminantemente proibida ou, no mínimo, seja altamente inconveniente.

A frase é repetida infalivelmente toda vez que se ouse insinuar qualquer argumento que possa, ainda que indiretamente, levar à associação com pressupostos religiosos. E, como eu disse, encerra de imediato toda discussão, fecha instantaneamente a questão. Ninguém ousa discordar deste suposto argumento invencível. Se o país é laico, logo é inadmissível, absurdo, pavoroso e sumamente escandaloso que se use qualquer ponto de partida calcado na fé religiosa e/ou que sequer se pronuncie publicamente a palavra "Deus".


Guga Chacra

Assim, no programa "Em Pauta", todos os comentaristas concordaram, à velocidade da luz, com Guga Chacra, que acha um grande absurdo, uma prova cabal da suprema falta de bom senso ou de lógica que algum representante de um povo praticamente 100% crente em Deus ouse falar em... Deus!

Curiosíssimo é que esses comunicadores profissionais e supostamente bem formados deveriam saber que Estado laico de modo algum é sinônimo de Estado ateu ou agnóstico, como brilhantemente esclarece o grande jurista Dr. Ives Gandra Martins:


O Estado laico não é ateu ou agnóstico. É um Estado desvinculado, nas decisões dos cidadãos que o assumem, de qualquer incidência direta das instituições religiosas de qualquer credo.  (...) O preâmbulo da Constituição Federal diz: 'Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático (...) promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil'. A Igreja Católica, os evangélicos ou judeus não estiveram na Assembleia Constituinte como instituições. Foram os cidadãos, de acordo com suas convicções, eleitos pelo povo, que definiram contra o voto daqueles que não acreditavam em Deus. (...) Quando se diz que, em um Estado laico, quem tem religião não tem voz, — porque vai levar suas convicções, — a pergunta que se faz é: e aqueles que têm convicções diferentes, com que direito as têm?”
Dr. Ives Gandra Martins, Seminário sobre liberdade religiosa, Assoc. dos Advogados de São Paulo (21/5/015)1

Disse tudo. Um Estado laico não mantém ou depende de alguma religião oficial. Não é a religião que submete o Estado, nem o representa, nem é a partir desta que o Estado se pauta, toma suas decisões e cria suas leis. Todavia, no Estado laico a religião, com os seus seus princípios, valores (morais e culturais) e influências, deve ter também a sua vez e o seu espaço, não sendo necessariamente rechaçada ou relegada à categoria de coisa ruim, inútil, desprezível. Nada disso.

Não cabem, portanto, esse estranhamento e essa rejeição tão absoluta de parte dos jornalistas pelo fato de os representantes do povo falarem em Deus ou citarem valores religiosos nos seus discursos. Ao contrário, nada mais natural, se é que estão falando em nome de um povo tão majoritariamente cristão e quase 100% crente num Deus Criador.

Evidente que os políticos religiosos precisam respeitar os seus pares ateus. Entretanto, é o caso de se perguntar que tipo de democracia nós vivemos, em que a vontade da esmagadora maioria é solenemente ignorada por um pequeno grupo de professores, intelectuais e comunicadores que, por sua vez, se veem no direito de determinar aquilo que será implantado, aceito, pregado e crido por todos. Em outras palavras, na prática é a opinião de "meia dúzia" sendo imposta a milhões; imposta a mim e a você, caro leitor.

Um exemplo muito claro está na questão do aborto. O brasileiro não quer a legalização. Vemos o aborto simplesmente como aquilo que é: o assassinato de um ser humano completamente inocente e completamente indefeso no ventre de sua mãe. A fé religiosa tem alguma influência nesta opinião? Provavelmente sim, ao menos em parte. Mas será que, por causa disso, a vontade soberana do povo se torna ilegítima? Claro e evidente que não! Ao contrário, nós temos direito à fé religiosa, e nossa fé influi, sim, nos nossos atos, nas nossas posturas, em nossa cultura, em nossas convicções. O governo atual, mesmo assim, tem como compromisso a “defesa da descriminalização do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos (até o nono mês de gestação!) no serviço público”2.

Ora, como é que um governo dito "democrático", de um partido que carrega a democracia como bandeira e fala o tempo todo em seu nome, quer empurrar "goela abaixo" desta população a implantação de leis que promovem algo que este mesmo povo vê como um mal em si mesmo?

Um terceiro e último ponto que importa abordar nestas considerações é que o cristianismo, – no caso a Igreja Católica, – com seus valores, ideais e princípios inegociáveis, construiu a nossa civilização. Nosso país e nossa cultura são fundados e permanecem fortemente calcados na contribuição da Igreja. Se hoje temos, – entre muitas outras coisas, – as casas de caridade, hospitais, a universidade, a cartografia, a educação e o Direito, como os conhecemos, temos a obrigação de saber que tudo isso não foi apenas fortemente influenciado, mas verdadeiramente construído pela e com a Igreja e sobre as bases dos valores judaico-cristãos. Como é que um pequeníssimo grupo de comunicadores poderia então, de uma hora para outra, decidir que de agora em diante é proibido falar em Deus?! Sob a alegação de que não podemos "ofender" aqueles que não têm fé? Ora, isto é simplesmente ridículo, dada a simples estatística, a mera aceitação da realidade dos fatos.

Por fim, cabe dizer que a concepção dos que entendem que num Estado laico só os que não acreditam num Criador é que podem definir as regras de convivência, – vedando qualquer manifestação contrária ao seu ateísmo ou agnosticismo, – representa o panorama da autêntica ditadura de uma ínfima minoria contra a vontade da suprema maioria. Deveriam estes, até por coerência, lutar pela supressão de todos os feriados religiosos, a partir do maior deles, o Natal. Deveriam pedir a mudança de todos os nomes de cidades que têm santos como patronos e destruir todos os símbolos que lembrassem qualquer invocação religiosa, como uma das sete maravilhas do mundo moderno, o Cristo Redentor, para não criar constrangimentos aos 0,39% que não acreditam em Deus. Deveriam protestar também contra o fato de a moeda padrão do mundo, o Dólar, ter como inscrição a frase "In God We Trust".

Não permitiremos que, por esta onda de loucura e incoerência, seja pisoteado todo o passado da nossa civilização, desde a obra de Monteiro Lobato às Epístolas de São Paulo, não ficando imunes sequer as obras clássicas dos grandes filósofos, como Sócrates, Platão e Aristóteles, entre tantos outros.


O discurso avassalador do senador Magno Malta (PR-ES), em vídeo editado por Felipe Moura Brasil



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1. Consultor Jurídico, 'Estado laico não é ateu ou agnóstico, diz Ives Gandra Martins', disp. em:
conjur.com.br/2014-mai-21/estado-laico-nao-ateu-ou-agnostico-ives-gandra-martins
Acesso 22/4/016
2. Resoluções do 3º Congresso do PT, p. 80. disp. em:
pt.org.br/wp-content/uploads/2014/03/Resolucoesdo3oCongressoPT.pdf
Acesso 
22/4/016
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Entre a ideologia e o (bom) senso comum

O Julgamento de Cristo por Pilatos (1881)
segundo Mihály Munkácsy

Por Igor Andrade – Assoc. São Próspero e Movimento Somar para Vencer

DEPOIS DE ESCREVER uma série de artigos para "O Fiel Católico" sobre o liberalismo, que terminou com um sobre a Moral e o Senso Comum, senti a necessidade de abordar a relação entre Ideologia e Senso Comum, mas a partir de um ponto de vista teórico-filosófico, ao invés de prático-dogmático. Por se tratar de uma obra de apostolado, tive de me valer de termos mais simples, o que limitou minha explanação e – sinto em admitir – o entendimento do público aparentemente mais erudito, que, junto de mim, me considerou raso e sem fundamento. Longe de uma tentativa de redimir-me com o público, o presente artigo visa abordar o tema titular com maior profundidade e menor probabilidade de erro e má interpretação.

Comecemos abordando o primeiro termo em si mesmo. O que é “ideologia”? Como bem explicou Vitor Matias em seu artigo “Mimetismo Ideológico e Corrupção de Termos”, ideologia é um sistema de ideias acerca da realidade, – mas que não tem ligação direta com a mesma; – são ideias abstratas que não têm por fundamento as coisas objetivas, mas parte de um princípio meramente subjetivo. Ora, quando se confunde o critério subjetivo com o objetivo, têm-se um sério problema de interpretação da realidade. Afinal, a phisis existe apesar do sujeito ou a partir dele? Dependendo de qual for a escolha, as consequências práticas podem ser completamente diferentes... Digamos, por exemplo, agonia, dor e miséria, além de algumas centenas de milhões de inocentes (e talvez alguns culpados) mortos.

Pois bem, olhar para a phisis de maneira objetiva significa dizer que as coisas que são objeto do conhecimento (humano) existem apesar do sujeito. 2+2=4 eu querendo ou não; objectum, do latim, significa “aquilo que é lançado de encontro a”, ou seja, é a realidade que se me apresenta, que se impõe diante do meu intelecto para contemplação. Daí, deriva-se o conceito de verdade das coisas. Respondendo à pergunta que Pilatos faz ao Cristo, “Quid est veritas?” (o que é a verdade?): A verdade é a adequação da mente do sujeito ao objeto (ou, de maneira mais extensiva, à realidade de modo geral).



Por exemplo, a realidade se apresenta ao sujeito de tal modo que ele percebe que o grafite é preto. Quando o sujeito recebe essa informação (através de um processo de conhecimento no qual não me deterei agora), elabora um enunciado que deve ser adequado àquilo que a realidade lhe apresentou, isto é, “o grafite é preto”: tal enunciado é simplesmente verdadeiro. Se o indivíduo, contudo, elabora que “o grafite é branco”, isso incorre numa não-verdade, porque a mente não se adequou à realidade apresentada: tal enunciado é falso.

Para aqueles que rebaixam sua condição racional e se dobram a ponto de acatarem a alguma ideologia ('de esquerda' ou 'de direita', por exemplo), não é esse o modo de proceder, sendo que estes partem de um princípio subjetivo. Subjectum, do latim, significa “aquilo que é lançado debaixo de”, no sentido de “portar”; o sujeito da ação é aquele em quem a ação ocorre: o sujeito belo é aquele em quem a qualidade da beleza reside; portanto, um princípio subjetivo de contemplação da realidade é aquele que parte do sujeito que realiza o ato de contemplar aquilo que se segue a partir dele. Nesse caso, primeiro o indivíduo elabora um enunciado (porque parte do cógito) e, depois, confronta-o com a realidade. Elabora “o grafite é branco” e, a partir disso, procura adequar a realidade objetiva à sua subjetividade; daí o quadro “Ceci n’est une pipe” ('Isso não é um cachimbo') é apenas o começo de uma longa e demorada tragédia na história humana.

O problema começa a aumentar quando este sujeito quer não só contemplar, mas agir objetivamente a partir de seus princípios subjetivos. Assim sendo, na ideologia, não é o sujeito que se adequa à realidade, mas o contrário: é o objeto (real) que deve se adequar ao sistema de ideias acatado pelo sujeito. Confunde-se as noções de objetivo e subjetivo.

O quadro geral do paciente se agrava ainda mais – já estando este a ponto de perder por completo sua sanidade mental – quando, além de confundir as noções de objetivo e subjetivo, ele não nega a verdade. Se a verdade fosse simplesmente negada, ou a postura adotada fosse uma espécie de agnosticismo ('não podemos conhecer a verdade mesma, então cada um age segundo os seus costumes'), os danos à humanidade não chegariam nem aos pés dos que foram infligidos de fato ao longo da história manchada pelas ideologias. A postura adotada pelos ideólogos não foi a de recusar a verdade, mas de recusar que a verdade é a adequação do sujeito à realidade. Foi tomada uma postura mais radical, quando a realidade passou a ter de se adequar ao sujeito. Voltou-se à era pré-socrática e a phisis foi novamente vista como um eterno devir, uma mudança contínua, uma "metamorfose ambulante".

Contudo, deve-se ressaltar que, ao contrário dos pré-socráticos, essa mudança de concepção da realidade pelos ideólogos tem um fim político, escatológico; seu objetivo é o "paraíso" pós-revolução, seja ela uma revolução “de direita” ou “de esquerda”.

Os reflexos de tal falha na concepção da realidade se dão no agir humano. Tal visão justifica tudo: pedofilia, incesto, estupro, zoofilia, genocídios, tortura, aborto, entre outras atrocidades. Não confie no que acaba de ler; leia “A Dialética dos Sexos”, da feminista Shulamith Firestone, e/ou as “Onze teses sobre Feuerbach”, de Karl Marx, onde ele afirma com todas as letras que o que existe de fato são as ações do sujeito, não a realidade objetiva, que seria uma visão burguesa do mundo(!).

“O triunfo da ideologia”, diz Russell Kirk, “seria o triunfo do que Edmund Burke chamou de ‘mundo antagonista’, o mundo da desordem”, o mundo do Caos. O que os ideólogos não percebem – demos-lhes um voto de boa-fé – é que o Caos não gera Cosmos.

Pois bem, vimos até aqui o porquê de a ideologia em si mesma, não importando a direção que toma ('esquerda' ou 'direita') ou o nome que recebe (nazismo, fascismo, socialismo, liberalismo, anarquismo, comunismo, entre outros), é tão nefasta. Agora pretendo mostrar “o outro lado”, o Bom Senso, aquele senso do óbvio, aquele senso que simplesmente não pergunta se a grama é de fato verde, se isso se trata apenas de uma ilusão dos sentidos ou de uma influência da sociedade ou ainda de qualquer outra ideia que não diga respeito ao real objetivo.

Chegará o dia em que teremos que provar ao mundo que a grama é verde
G. K. Chesterton

Gilbert Keith Chesterton
Começo a segunda parte com esse aforismo do "Apóstolo do Senso Comum". Aquele que tratava as trivialidades como tremendas conseguiu sintetizar, inúmeras vezes, problemáticas inteiras em curtas frases. No presente caso, trata-se da problemática do evidente.

Em sua crônica “O Mistério de um Desfile”, Chesterton apresenta uma controvérsia do século XVII acerca da existência do mundo material. Cita o bispo anglicano George Berkeley, que defendia a inexistência da matéria, e seu rival acadêmico Samuel Johnson, que defendia o senso comum:

Johnson [...] não apreciava idéias tão insondáveis como as defendidas por Berkeley e chutou uma pedra dizendo: ‘é assim que refuto a ele!’. Ora, chutar uma pedra não tornaria uma discussão metafísica clara o suficiente; além disso, machucaria. Mas quão pitoresco e perfeito seria se eu atravessasse o gramado na posição alegórica de chutar o bispo Berkeley! Que grupo completo: o grande transcendentalista caminhando com a cabeça entre as estrelas, mas atrás dele o realista coxo vingador com o pé levantado.

“Chutar uma pedra não tornaria uma discussão metafísica clara o suficiente”. – Destaco tal expressão usada por Chesterton porque ela apresenta o maior problema do realismo, o maior problema em estabelecer o Bom Senso como algo que resiste à Ideologia: as coisas mais óbvias e evidentes são as mais difíceis de se explicar. Ao mesmo tempo são fáceis e difíceis de se conhecer.

Ora, isso é muito fácil de se perceber: comece explicando para si mesmo o que é pedra. Todos nós conhecemos pedras de diversos tipos, tamanhos, cores e formatos; mas o que é pedra? Entrando no campo da conduta, que é a Coragem? Não ações corajosas, mas a coragem mesma? Creio que entende o leitor a que me refiro quando faço tais questionamentos. Não vou me deter neste ponto. A provocação tem unicamente o intuito de mostrar que conhecer a realidade em si não é fácil. O problema da Ideologia é que ela percebeu isso, mas é soberba demais para optar pelos dois caminhos que restam: ou se esforçar mais para compreender a realidade, ou se submeter aos afazeres de um ser humano comum e deixar essa difícil e hercúlea tarefa para o filósofo.

É claro que quando me refiro à Ideologia nesses termos, faço alusão à Filosofia de Salão, tão famosa a partir do século XVIII, que não forma filósofos, mas sofistas, demagogos e, no pior dos casos, detentores do poder da fala.

Na obra “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”, Immanuel Kant diz:

Não é arte alguma fazer-se compreender do comum dos homens renunciando a todo discernimento meticuloso, mas isso produz também uma mixórdia tediosa de observações mal-alinhavadas e princípios semi-raciocinantes, com o que se deliciam as cabeças insossas, porque sempre serve para conversa fiada, ao passo que as dotadas de discernimento se sentem confusas; apesar de que os filósofos, que enxergam muito bem através desses embustes, preferem se afastar para, só depois de chegar a um determinado discernimento, conquistar o direito de ser popular.

Noutras palavras, é bom falar de tal modo que se entenda por todos, porém isso só deve ser feito depois de um longo trabalho filosófico. Somente depois de se subir à montanha deve-se retornar à caverna; do contrário, o sujeito se torna um demagogo ideólogo, que mais inventa do que conhece sobre a realidade.

Portanto, aos aspirantes a filósofos, digo que estudem como se não houvesse amanhã e que entendam a phisis na qual tudo está inserido; aos ideólogos, sugiro, sem o menor escrúpulo e ao modo mais chestertoniano possível, que chutem uma pedra quando proposições como “as pedras não existem”, ou algo semelhante se lhes passar pela mente.

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1. Phisis ou Physis significa o conjunto de todas as coisas naturais; a palavra também significa 'origem'. Como os gregos consideravam que tudo o que existe é natural, a phisis significa o conjunto de todas as coisas, e 'o problema da physis' é a pergunta sobre a origem e constituição de todas as coisas que existem (N do E).
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São Francisco de Sales – Biografia e espiritualidade do autor de Filoteia


Por Ismael da Cunha – Oratório Secular de São Filipe Neri de São Paulo

FRANCISCO DE SALES, primogênito de uma nobre família francesa, nasceu em 1567, no castelo de Thorens, Savoia (França). Como era a tradição entre os nobres da época, durante todo o período dos seus estudos teve de exercitar-se como cavaleiro e espadachim para tornar-se também um guerreiro.

Sua vocação, no entanto, estava nas carreiras intelectuais. Aos quinze anos de idade já estava cursando Direito na Universidade de Paris (Sorbonne). Paralelamente a esse curso, completou os estudos em Filosofia e Teologia. Nesse período, a Universidade de Sorbonne era palco para o desfile das novas ideias que se apresentaram com a Renascença e a dita Reforma protestante.

Em 1588, já bacharel, Francisco de Sales iniciou doutoramento em direito civil e canônico em Pádua, na Itália. Finalizou esses estudos em 1591, retornando à França no ano seguinte. Novamente com a família, expôs sua decisão de ser da Igreja. Desde pequeno almejava ser sacerdote.

Não foi fácil convencer o pai, que já desenhara o futuro do filho: advogado do Senado da Savoia, casado com uma moça de boa posição e excelentes qualidades. A decisão do filho, contudo, se fez concretizar quando foi nomeado preboste[1] do capítulo catedrático[2] na diocese de Genebra (Suíça) pelo Mons. Claude de Granier, bispo de Genebra.


Castelo de Thorens, onde nasceu S. Francisco de Sales

A vida religiosa

A cidade para onde Francisco foi designado estava dominada pelas ideias protestantes e pela “república” de Calvino, a ponto de o bispo daquela diocese ter sido obrigado a passar a residir em Annecy, capital da Savoia, para fugir da fogueira calvinista.

Como religioso, Francisco enfrentaria muitos combates. Desde a sua ordenação, entregou-se às pregações, à celebração da Santa Missa e, sobretudo, às Confissões.

Em 1594, foi para uma região habitada por muitos protestantes denominada Chablais. Acompanhado por seu primo, Louis de Sales, passou a trabalhar pela conversão daquelas pessoas. Foi uma luta intensa. Quatro anos de esforços para, como dizem acerca desse episódio, “forçar as muralhas de Genebra pela oração e invadi-la com a caridade”. Suas ações principiaram com a publicação e distribuição em domicílio de cadernos que tratavam da Doutrina católica. Com o tempo, passou à pregação direta e à controvérsia.

Nesse período, foi nomeado bispo coadjutor[3] pelo papa Clemente VIII. Logo em seguida, em 1602, após o falecimento de Mons. Granier, foi sagrado bispo de Genebra. Dedicou-se às tarefas pastorais, atendendo exemplarmente às reformas recomendadas pelo Concílio de Trento.


A Ordem da Visitação

Em 1604, enquanto pregava os sermões de Quaresma em Dijon, França, Francisco de Sales conheceu Joana de Chantal, uma jovem senhora de origem nobre que se dedicava à família e também às obras de misericórdia e caridade. Órfã de mãe, aos vinte e oito anos Joana enviuvara do barão de Rabutin-Chantal.


Representação do encontro de S. Francisco de Sales
e Sta. Joana Francisca de Chantal

Santa Joana Francisca de Chantal

O Bispo de Genebra passou a se encarregar da direção espiritual de Joana e transmitiu a ela a importância do abandono em Deus. Seis anos após esse encontro, seguindo os conselhos e orientações de seu diretor, Joana fundava a Ordem da Visitação em Annecy, na França. Em seguida, coordenou a fundação do segundo mosteiro naquele país. Joana de Chantal faleceu em 1641 e foi canonizada em 1767, pelo papa Clemente XIII.


Basílica do Mosteiro da Ordem da Visitação em Annecy

A Visitação, ordem de vida monástica contemplativa, está presente também na Itália, com casas fundadas ainda no século XVII, no Uruguai e no Brasil. A primeira fundação em terras brasileiras se deu em Pouso Alegre (MG), em 1902. A comunidade de Minas, no entanto, transferiu-se em 1915 para a capital de São Paulo, no bairro de Vila Mariana, onde permanece até hoje (saiba mais).


A espiritualidade salesiana

Praticamente todos os ensinamentos de São Francisco de Sales, bem como sua espiritualidade, têm origem em suas experiências de vida.

Os tempos de estudo e o contato com algumas ideias protestantes renderam a Francisco uma profunda dúvida acerca de sua própria salvação. O tormento só cessou na ocasião em que, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora, ele realizou um ato de abandono e de esperança em Deus. Declarou ao Senhor que estava disposto a amá-lo durante esta vida, mesmo que o seu destino fosse a condenação eterna. Todas as dúvidas acerca da sua salvação foram então confiadas à Misericórdia divina.

S. Francisco de Sales oferece seu coração à Virgem Maria, acompanhado de Sta. Joana Francisca de Chantal, Catedral de Saint-Siffrein, França

Esse abandono em Deus, – ensinado também à Joana de Chantal, – marcou o caráter de Francisco de maneira muito acentuada e tornou-se uma das linhas-mestras da sua espiritualidade. Do abandono vêm a suprema serenidade e a paz características deste santo, que lutou para harmonizar uma alegria permanente e o esforço intenso parar cumprir a Vontade de Deus.

O bispo de Genebra encarregou-se ainda da direção espiritual de muitos, desde soldados e camponeses protestantes até nobres e freiras. Os conselhos que a eles dirigia venceram o tempo, pois chegam a nós por meio de suas duas principais obras: "Introdução à Vida Devota" ou "Filoteia" (1608) e o "Tratado do Amor a Deus" (1619).

Em "Introdução à Vida Devota", lemos:

Quase todos os autores que até esta data têm estudado a devoção, tiveram por pauta ensiná-la aos que vivem afastados do mundo. O meu objeto agora é doutrinar os que habitam nas cidades, vivem com suas famílias, tendo de seguir externamente uma conduta comum.

Francisco de Sales acolhia os pecadores, buscando compreendê-los. E os ensinava. Convidava à devoção e à prática de um amor a Deus que fosse ativo, preocupado em agradar a Deus em tudo. Ensinava como meditar, recomendando uma forma dialogada e simples, num método precioso e permeado de afeto, que deveria ser buscado por todo cristão católico. Dirigia ainda sua preocupação às qualidades que gerassem uma convivência amável entre as pessoas.

Todavia, em contrapartida à doçura, humildade e paciência, Francisco também era firme e enérgico. Foi essa luta por suavizar o caráter lhe permitiu apresentar aos seus dirigidos um quadro amável da luta interior.

Francisco morreu em Lyon, no ano 1622, quando visitava o convento de suas religiosas. No ano seguinte, seu corpo foi trasladado a Annecy. Seus ensinamentos marcaram profundamente a espiritualidade dos últimos quatro séculos.

Em 1664, Francisco de Sales foi canonizado; a Igreja celebra o seu dia aos 24 de janeiro. Em 1877, Pio IX o nomeou Doutor da Igreja e, em 1923, foi proclamado padroeiro dos jornalistas e escritores católicos pelo papa Pio XI, sendo, portanto, um dos padroeiros deste nosso apostolado.

São Francisco de Sales, rogai a Deus por nós!


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Notas:
1. Juiz civil ou militar da antiga magistratura francesa. O preboste, hierarquicamente, está abaixo do abade em uma ordem ou convento e o substitui em caso de ausência.
2. O termo 'capítulo catedrático' refere-se a certos corpos eclesiásticos da Igreja; 'capítulo' ainda designa as reuniões para a discussão de assuntos de interesse de uma ordem ou mosteiro.
3. Bispo coadjutor é um bispo titular que auxilia e também substitui um bispo ou arcebispo em caso de ausência. Diferentemente do auxiliar, o bispo coadjutor pode suceder o bispo, a exemplo do que aconteceu com Francisco de Sales.
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Mimetismo ideológico e corrupção de termos

Antigo vaso grego retrata Hércules em combate mortal contra a Hidra de Lerna, ajudado por Iolaus. A cada cabeça da fera que era decepada pelo herói, nasciam duas novas no lugar

Por Vitor Erni Matias Figueiró – Assoc. São Próspero e Movimento Somar para Vencer

É apenas à ignorância que se devem debitar tais coisas, ou aliam-se a ela a má fé e segundas intenções? Será produto de uma deficiência do espírito, ou obedece a uma intencionalidade que não pode ser confessada?

Se se pudesse apenas debitar tais erros à má fé, naturalmente que seriam eles ignominiosos. Mas não é apenas a ela que se deve fazê-lo, mas, sobretudo, a um descaso no estudo da Lógica, a uma falta de melhor raciocínio, a ignorância do que já se fez nesse terreno. E quando são estes os motivos que os geram, tais erros são apenas de lamentar. Realmente causa dó o espetáculo que se assiste.
(Mário Ferreira dos Santos)

ESTE ARTIGO TEM como premissa três temas ácidos: ideologia, mimetismo e linguagem. Buscarei demonstrar a ligação entre os temas em um pequeno estudo do funcionamento interno das ideologias e suas consequências psicológicas, relações com a política e seus possíveis danos à cultura vigente.

John Adans
Ideologia é um termo ácido por si só; foi cunhado na época de Napoleão Bonaparte, e significava um sistema de ideias abstratas com o objetivo de aperfeiçoar a sociedade por meio de métodos éticos e educacionais, conjuntamente a uma direção política forte. Não foi um conceito bem aceito na época, sendo chamado de “ciência da idiotice” por John Adams (1735-1826). As coisas mudaram quando Karl Marx (1818-1883) tocou no termo e postulou seu conteúdo como expressão dos interesses de uma determinada classe, definidos segundo sua relação com a economia; sendo assim, ideologia é apenas uma apologia de interesses.

Dentro do sistema materialista, a ideologia nos termos marxistas é a máscara perfeita para a política. Os pontos ditos a seguir são aplicáveis a todas as escolas de pensamento que dele derivam: em um sistema não metafísico (sem sistema sólido que fundamente a realidade ou estrutura da possibilidade universal) que impossibilita a existência de verdade absoluta (não se podem fundamentar os postulados universais com base em dados mutáveis), a ideologia se encaixa como máscara do interesse subjetivo; logo, não passa de um sistema de ideias que interpreta a realidade e conforta a necessidade do homem de um sentido para sua existência. Não há fatos, há apenas a interpretação ideológica. Não há verdade, apenas os interesses de classe.

Kenneth Minogue, no livro Alien powers: the pure theory of ideology ['Poderes estrangeiros: a teoria pura da ideologia'], utiliza o termo “ideologia” para “denotar qualquer doutrina que apresente a verdade salvífica e oculta do mundo sob a forma de análise social. É característica de todas essas doutrinas a incorporação de uma teoria geral dos erros de todas as outras”. Essa “verdade salvífica e oculta” é uma fraude – um complexo de “mitos” artificiais e falsos, disfarçado de história, sobre a sociedade por nós herdada. [1]

Vários autores examinaram o conceito de ideologia, e mesmo aqueles que defendem sua razão de ser necessariamente irão admitir um ponto fundamental: ela é falsa. Em um sistema que não admite a existência de verdades, sobra apenas a falsificação voluntária em torno do interesse. De tal ponto de partida, podemos começar uma sintetização do termo.

A ideologia é um construto teórico ilusor que direciona suas premissas a um fim. A ideologia é necessariamente escatológica e planificada, direciona todos os seus métodos a um objetivo determinado pelo cerne do pensamento do planejador. Tomado de tal modo, mesmo não admitindo uma verdade, ela toma a premissa central como dogma para que possa sustentar a argumentação posterior. Deste modo, a ideologia se assemelha a uma espécie de religião secular, e nas palavras de Russel Kirk, “a ideologia é uma religião invertida”[2]. A destituição da autoridade de uma verdade exterior imutável produz outro fenômeno interessante: se não há ética absoluta, a ética é definida pelas doutrinas ditadas pela ideologia per se. Logo, os meios fundamentam os fins, ao melhor estilo maquiavélico, onde o órgão que assume a ideologia se torna "o Príncipe". Por tal motivo, as ideologias são comuns em partidos e movimentos (ditos) sociais variados, onde a tradição materialista-dialética é uma condição sine qua non.

Assim como religiões, que possuem dissidentes heréticos, a ideologia costuma “botar alguns ovos” e se ramificar, mantendo a premissa central intacta ou levemente alterada, como os galhos que crescem a partir do tronco. Dentro de uma ideologia formam-se correntes, e então, o todo eventualmente se tornará uma subcultura.

Investigando durante décadas a natureza do marxismo, acabei concluindo que ele não é só uma teoria, uma “ideologia” ou um movimento político. É uma “cultura”, no sentido antropológico, um universo inteiro de crenças, símbolos, valores, instituições, poderes formais e informais, regras de conduta, padrões de discurso, hábitos conscientes e inconscientes, etc. Por isso é autofundante e autorreferente, nada podendo compreender exceto nos seus próprios termos, não admitindo uma realidade para além do seu próprio horizonte nem um critério de veracidade acima dos seus próprios fins autoproclamados. Como toda cultura, ele tem na sua própria subsistência um valor que deve ser defendido a todo preço, muito acima das exigências da verdade ou da moralidade, pois constitui a totalidade da qual verdade e moralidade são elementos parciais; – motivo pelo qual a pretensão de fazer-lhe cobranças em nome destas (verdade e moralidade) soa aos seus ouvidos como uma intolerável e absurda revolta das partes contra o todo, uma violação insensata da hierarquia ontológica. [3]

Mesmo possuindo o mesmo cerne, os partidários da dita subcultura que se forma debaixo das asas do dogma costumam procurar meios de diferenciação e eventualmente guerreiam entre si; daí surge uma gradação, dos “extremos” aos “brandos”, onde a diferença comum é quanto tempo se estima para alcançar o objetivo, quantas semanas se passarão até que se leve o rei à forca. Os métodos mudam, a linguagem muda, exatamente como em uma mesma igreja com uma mesma fé, mas como características ritualísticas diversas, estas que não querem ser confundidas com outras, e mostram-se agressivas a comparações. O fenômeno é visível na doutrina do Feminismo, onde as participantes de algumas correntes criticam outras, mesmo que em seu cerne queiram a mesma coisa, às vezes inconscientemente. Chamo isto de Mimetismo Ideológico, onde a doutrina assume formas variadas, embora seus cânones se mantenham.

Algo a se observar é que, dentre as premissas centrais da ideologia, há o aspecto mitológico. Mitos são criações alegóricas para auxílio da compreensão dos fenômenos. Dentro da ideologia, funciona como fundamentação e exemplificação da ideia que se procura induzir. Dependendo do grau de verossimilhança, isso se reflete em grandes falsificações da história, procurando adequar os fatos às ideias, formando uma interessante inversão da definição de verdade:

A verdade é a adequação do intelecto à realidade, a Ideologia é a adequação da realidade ao intelecto.

O modo mais prático de se adequar a realidade ao que se quer é corromper sua interpretação; assim surge o aspecto linguístico da ideologia, a corrupção de termos, onde o significado das palavras sofre um processo de sofisma e ganham o significado desejado segundo os interesses “do Partido”. Isso causa problemas de grande vastidão, pois destruir o significado das palavras causa distorções perigosas, onde um exemplo corrente é o conceito de “liberdade”. Cada ideologia tem o seu, e patentear o significado correto exige um esforço hercúleo. A permanência do uso incorreto dos termos em especial no âmbito escolar faz com que a pessoa cresça sem saber exatamente o significado das palavras que diz, literalmente um analfabetismo funcional. Eric Voegelin bem observou:

A degradação cultural do universo acadêmico e intelectual fornece o contexto para a predominância, na civilização ocidental, de opiniões que seriam objeto de ridículo na Baixa Idade Média ou no Renascimento. De fato, quando passamos de Marx aos epígonos ideológicos no final do século XIX e início do XX, encontramos um nível intelectual já muito inferior ao que marcou a formação de figuras como o próprio Marx. Eis o principal motivo para o meu ódio das ideologias: elas vulgarizam as discussões intelectuais e conferem ao debate público uma coloração nitidamente oclocrática, tanto que hoje se chega ao ponto de considerar fascista ou autoritária uma simples referência a fatos da história política e intelectual cujo conhecimento é absolutamente necessário para discutir os problemas que surgem no debate político.[4]

Em tal ponto de vista, não nos é estranha a proliferação do analfabetismo e a ocorrência de professores altamente imersos em ideologias. A ideologia tende ser agressiva com pontos de vista contrários à seus dogmas, e tende à homogeneização. Neste aspecto, em um campo determinado onde a ideologia domina as mentes dos indivíduos, os mesmos tendem à perder a capacidade de raciocínio em face de algo que contrarie sua crença; essa negação constante, que leva à procura de “mitos” que fundamentem sua interpretação, foi observada por Bernard Lonergan e chamada de “escotose”.

Chamemos escotose a tal aberração da compreensão, e escotoma ao ponto cego resultante. Fundamentalmente, a escotose é um processo inconsciente. Não surge em atos conscientes, mas na censura que governa a emergência dos conteúdos psíquicos. Apesar de tudo, o processo integral não nos está oculto, porque a exclusão meramente espontânea de intelecções indesejadas não é igual à série total de eventualidades. Sobrevém intelecções antagônicas. Podem ser aceitas como corretas, mas apenas para sofrerem o eclipse que a distorção origina, ao excluir as ulteriores questões relevantes. E ainda, Podem ser rejeitadas como incorretas, como meras ideias brilhantes sem uma sólida fundamentação nos fatos; e essa rejeição tende a estar associada à racionalização da escotose e a um esforço por acumular provas a seu favor.[5]

A corrupção de termos foi identificada por Eric Voegelin e chamada de “uso hieroglífico das ideias”. Ironicamente, há uma crítica à tal corrupção no livro “Alice através do espelho” de Lewis Carroll, na seguinte passagem:

'Eu não sei o que você quer dizer por 'glória', disse Alice.

Humpty Dumpty sorriu com desdém. 'É claro que não, até que eu lhe diga. Significa: há um belo argumento decisivo para você'.

'Mas glória não significa um belo argumento decisivo, objetou Alice.

'Quando EU uso uma palavra', disse Humpty Dumpty, num tom de deboche, 'ela significa apenas aquilo que eu quero que ela signifique, nem mais, nem menos'.

'A questão é', disse Alice, 'se você pode fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes'.

'A questão é', disse Humpty Dumpty, 'quem é o senhor – isto é tudo'.

A grosso modo, Humpty Dumpty se comporta mais ou menos do mesmo modo que um sofista moderno. Um modo prático de demonstrar o cerne da questão é se perguntar o que define o conceito. Primeiro, é preciso especificar, que aqui me atenho à conceituação, e não na palavra dita, pois tal seria um problema totalmente diferente das “afecções da alma” sobre as quais quero versar. O conceito, (sob o olhar da lógica formal, que é o que nos interessa, pois trato do discurso logicamente integrado) é um objeto ideal, intemporal, forma do pensamento; um pensamento é sempre um pensamento de algo, e sob tal aspecto, o conceito é um símbolo de uma essência, como um esboço imitativo. No caso, o conteúdo do conceito é o objeto (à que se refere), ou seja, sua compreensão. Sob forma simplificada, o conceito é a representação da substância. É assim pois, a compreensão depende da definição, que só pode ser dada pela substância nua de seus acidentes. A definição é o que responde pela pergunta “o que é isso?”. Ironicamente, aqui se fundamenta a premissa de que, dentro do materialismo, o que define o conteúdo do conceito é a ideologia; mas continuando: algo precisa ser algo, pois “todo ser é idêntico a si mesmo” (Princípio Ontológico nº1) [6]. Os conceitos e definições devem estar em harmonia, para que, depois de apreendido, o conceito possa se tornar uma palavra. É por compreender conceitos que podemos nos comunicar, e é possível ler este texto. O que seria de nós se pudéssemos aplicar diferentes conceitos a um mesmo nome? Aqui nasce a falácia da ambiguidade; quando, por palavras de múltiplos sentidos, o argumentador distorce o significado do discurso. Eis a gênese da falácia “Humpty Dumpty”.

Vivemos numa época em que o significado de antigas palavras, como tantas outras coisas, se tornou inseguro. 'As palavras se distendem, / Estalam e muitas vezes se quebram, sob a carga', como T. S. Eliot (1888-1965) o diz. 'No princípio era o Verbo' (Jo 1,1). Hoje em dia, porém, o Verbo está sendo confrontado pela ideologia gigante, que perverte a palavra falada e escrita.[7]

Aqui se encerram as considerações acerca da definição de ideologia e seus efeitos diversos. Um estudo aprofundado do assunto não pode ser feito em um simples artigo, e o mercado editorial brasileiro carece muito de literatura séria sobre o assunto, mercado este que está ironicamente imerso em ideologia. Pensar nos termos de uma ideologia é destruir a capacidade de cognição, e não verificar suas premissas é atestado de servidão. Tomemos o ensinamento dos antigos como exemplo, e não nos deixemos perverter por discursos demagógicos; tomemos apenas a verdade como regra das ações.

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Notas e ref. bigliográfica:
1. KIRK, Russel. A Política da Prudência, São Paulo: É Realizações, 2013.

2. Ibidem

3. CARVALHO, Olavo. A Natureza do Marxismo, Jornal da Tarde, 18 de dezembro de 2003.

4. VOEGELIN, Eric, Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2015.

5. LONERGAN, Bernard. INSIGHT, Um Estudo do Conhecimento Humano, São Paulo: É Realizações, 2010.

6. Os três princípios ontológicos são:
1) Todo objeto é idêntico a si mesmo — Esta é a enunciação do chamado princípio ontológico de identidade. É princípio fundamental da Ontologia clássica o é também para a Lógica Formal. Por ora, cabe-nos apenas apresentá-lo como um verdadeiro fundamento axiomático da Ontologia e também, consequentemente, da Lógica Formal. Assim, pode ser enunciado exemplificativamente: este livro é este livro; esta mesa é esta mesa. Para a Ontologia tradicional e para a Lógica Formal, este livro, formalmente, só pode ser ele mesmo; é idêntico a si mesmo. Deste princípio fundamental decorrem outras consequências, que são dadas, em geral, como princípios ontológicos e, portanto, também lógicos.
2) Nenhum objeto pode ser ao mesmo tempo ele e não ele. Princípio ontológico de não-contradição. Enuncia-se dizendo que A não pode ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto Não-A.
3) Todo objeto tem que ser A ou não A. Isto é: Este objeto é livro ou não é livro. Princípio ontológico de terceiro excluído, pois exclui um intermediário entre ser e não-ser. O princípio ontológico de identidade, torna-se, na lógica, o “princípio lógico de identidade”. É verdadeiro quando afirmamos que este livro é idêntico a este livro, ou seja A é A.
* As definições acima foram retiradas do livro 'Lógica e Dialética', de Mário Ferreira dos Santos, Editora LOGOS, 1959.

7. KIRK, Russel. A Política da Prudência, São Paulo: É Realizações, 2013.

A epígrafe deste artigo foi retirada do livro 'Origem dos grandes problemas filosóficos' de Mário Ferreira dos Santos.
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