Mimetismo ideológico e corrupção de termos

Antigo vaso grego retrata Hércules em combate mortal contra a Hidra de Lerna, ajudado por Iolaus. A cada cabeça da fera que era decepada pelo herói, nasciam duas novas no lugar

Por Vitor Erni Matias Figueiró – Assoc. São Próspero e Movimento Somar para Vencer

É apenas à ignorância que se devem debitar tais coisas, ou aliam-se a ela a má fé e segundas intenções? Será produto de uma deficiência do espírito, ou obedece a uma intencionalidade que não pode ser confessada?

Se se pudesse apenas debitar tais erros à má fé, naturalmente que seriam eles ignominiosos. Mas não é apenas a ela que se deve fazê-lo, mas, sobretudo, a um descaso no estudo da Lógica, a uma falta de melhor raciocínio, a ignorância do que já se fez nesse terreno. E quando são estes os motivos que os geram, tais erros são apenas de lamentar. Realmente causa dó o espetáculo que se assiste.
(Mário Ferreira dos Santos)

ESTE ARTIGO TEM como premissa três temas ácidos: ideologia, mimetismo e linguagem. Buscarei demonstrar a ligação entre os temas em um pequeno estudo do funcionamento interno das ideologias e suas consequências psicológicas, relações com a política e seus possíveis danos à cultura vigente.

John Adans
Ideologia é um termo ácido por si só; foi cunhado na época de Napoleão Bonaparte, e significava um sistema de ideias abstratas com o objetivo de aperfeiçoar a sociedade por meio de métodos éticos e educacionais, conjuntamente a uma direção política forte. Não foi um conceito bem aceito na época, sendo chamado de “ciência da idiotice” por John Adams (1735-1826). As coisas mudaram quando Karl Marx (1818-1883) tocou no termo e postulou seu conteúdo como expressão dos interesses de uma determinada classe, definidos segundo sua relação com a economia; sendo assim, ideologia é apenas uma apologia de interesses.

Dentro do sistema materialista, a ideologia nos termos marxistas é a máscara perfeita para a política. Os pontos ditos a seguir são aplicáveis a todas as escolas de pensamento que dele derivam: em um sistema não metafísico (sem sistema sólido que fundamente a realidade ou estrutura da possibilidade universal) que impossibilita a existência de verdade absoluta (não se podem fundamentar os postulados universais com base em dados mutáveis), a ideologia se encaixa como máscara do interesse subjetivo; logo, não passa de um sistema de ideias que interpreta a realidade e conforta a necessidade do homem de um sentido para sua existência. Não há fatos, há apenas a interpretação ideológica. Não há verdade, apenas os interesses de classe.

Kenneth Minogue, no livro Alien powers: the pure theory of ideology ['Poderes estrangeiros: a teoria pura da ideologia'], utiliza o termo “ideologia” para “denotar qualquer doutrina que apresente a verdade salvífica e oculta do mundo sob a forma de análise social. É característica de todas essas doutrinas a incorporação de uma teoria geral dos erros de todas as outras”. Essa “verdade salvífica e oculta” é uma fraude – um complexo de “mitos” artificiais e falsos, disfarçado de história, sobre a sociedade por nós herdada. [1]

Vários autores examinaram o conceito de ideologia, e mesmo aqueles que defendem sua razão de ser necessariamente irão admitir um ponto fundamental: ela é falsa. Em um sistema que não admite a existência de verdades, sobra apenas a falsificação voluntária em torno do interesse. De tal ponto de partida, podemos começar uma sintetização do termo.

A ideologia é um construto teórico ilusor que direciona suas premissas a um fim. A ideologia é necessariamente escatológica e planificada, direciona todos os seus métodos a um objetivo determinado pelo cerne do pensamento do planejador. Tomado de tal modo, mesmo não admitindo uma verdade, ela toma a premissa central como dogma para que possa sustentar a argumentação posterior. Deste modo, a ideologia se assemelha a uma espécie de religião secular, e nas palavras de Russel Kirk, “a ideologia é uma religião invertida”[2]. A destituição da autoridade de uma verdade exterior imutável produz outro fenômeno interessante: se não há ética absoluta, a ética é definida pelas doutrinas ditadas pela ideologia per se. Logo, os meios fundamentam os fins, ao melhor estilo maquiavélico, onde o órgão que assume a ideologia se torna "o Príncipe". Por tal motivo, as ideologias são comuns em partidos e movimentos (ditos) sociais variados, onde a tradição materialista-dialética é uma condição sine qua non.

Assim como religiões, que possuem dissidentes heréticos, a ideologia costuma “botar alguns ovos” e se ramificar, mantendo a premissa central intacta ou levemente alterada, como os galhos que crescem a partir do tronco. Dentro de uma ideologia formam-se correntes, e então, o todo eventualmente se tornará uma subcultura.

Investigando durante décadas a natureza do marxismo, acabei concluindo que ele não é só uma teoria, uma “ideologia” ou um movimento político. É uma “cultura”, no sentido antropológico, um universo inteiro de crenças, símbolos, valores, instituições, poderes formais e informais, regras de conduta, padrões de discurso, hábitos conscientes e inconscientes, etc. Por isso é autofundante e autorreferente, nada podendo compreender exceto nos seus próprios termos, não admitindo uma realidade para além do seu próprio horizonte nem um critério de veracidade acima dos seus próprios fins autoproclamados. Como toda cultura, ele tem na sua própria subsistência um valor que deve ser defendido a todo preço, muito acima das exigências da verdade ou da moralidade, pois constitui a totalidade da qual verdade e moralidade são elementos parciais; – motivo pelo qual a pretensão de fazer-lhe cobranças em nome destas (verdade e moralidade) soa aos seus ouvidos como uma intolerável e absurda revolta das partes contra o todo, uma violação insensata da hierarquia ontológica. [3]

Mesmo possuindo o mesmo cerne, os partidários da dita subcultura que se forma debaixo das asas do dogma costumam procurar meios de diferenciação e eventualmente guerreiam entre si; daí surge uma gradação, dos “extremos” aos “brandos”, onde a diferença comum é quanto tempo se estima para alcançar o objetivo, quantas semanas se passarão até que se leve o rei à forca. Os métodos mudam, a linguagem muda, exatamente como em uma mesma igreja com uma mesma fé, mas como características ritualísticas diversas, estas que não querem ser confundidas com outras, e mostram-se agressivas a comparações. O fenômeno é visível na doutrina do Feminismo, onde as participantes de algumas correntes criticam outras, mesmo que em seu cerne queiram a mesma coisa, às vezes inconscientemente. Chamo isto de Mimetismo Ideológico, onde a doutrina assume formas variadas, embora seus cânones se mantenham.

Algo a se observar é que, dentre as premissas centrais da ideologia, há o aspecto mitológico. Mitos são criações alegóricas para auxílio da compreensão dos fenômenos. Dentro da ideologia, funciona como fundamentação e exemplificação da ideia que se procura induzir. Dependendo do grau de verossimilhança, isso se reflete em grandes falsificações da história, procurando adequar os fatos às ideias, formando uma interessante inversão da definição de verdade:

A verdade é a adequação do intelecto à realidade, a Ideologia é a adequação da realidade ao intelecto.

O modo mais prático de se adequar a realidade ao que se quer é corromper sua interpretação; assim surge o aspecto linguístico da ideologia, a corrupção de termos, onde o significado das palavras sofre um processo de sofisma e ganham o significado desejado segundo os interesses “do Partido”. Isso causa problemas de grande vastidão, pois destruir o significado das palavras causa distorções perigosas, onde um exemplo corrente é o conceito de “liberdade”. Cada ideologia tem o seu, e patentear o significado correto exige um esforço hercúleo. A permanência do uso incorreto dos termos em especial no âmbito escolar faz com que a pessoa cresça sem saber exatamente o significado das palavras que diz, literalmente um analfabetismo funcional. Eric Voegelin bem observou:

A degradação cultural do universo acadêmico e intelectual fornece o contexto para a predominância, na civilização ocidental, de opiniões que seriam objeto de ridículo na Baixa Idade Média ou no Renascimento. De fato, quando passamos de Marx aos epígonos ideológicos no final do século XIX e início do XX, encontramos um nível intelectual já muito inferior ao que marcou a formação de figuras como o próprio Marx. Eis o principal motivo para o meu ódio das ideologias: elas vulgarizam as discussões intelectuais e conferem ao debate público uma coloração nitidamente oclocrática, tanto que hoje se chega ao ponto de considerar fascista ou autoritária uma simples referência a fatos da história política e intelectual cujo conhecimento é absolutamente necessário para discutir os problemas que surgem no debate político.[4]

Em tal ponto de vista, não nos é estranha a proliferação do analfabetismo e a ocorrência de professores altamente imersos em ideologias. A ideologia tende ser agressiva com pontos de vista contrários à seus dogmas, e tende à homogeneização. Neste aspecto, em um campo determinado onde a ideologia domina as mentes dos indivíduos, os mesmos tendem à perder a capacidade de raciocínio em face de algo que contrarie sua crença; essa negação constante, que leva à procura de “mitos” que fundamentem sua interpretação, foi observada por Bernard Lonergan e chamada de “escotose”.

Chamemos escotose a tal aberração da compreensão, e escotoma ao ponto cego resultante. Fundamentalmente, a escotose é um processo inconsciente. Não surge em atos conscientes, mas na censura que governa a emergência dos conteúdos psíquicos. Apesar de tudo, o processo integral não nos está oculto, porque a exclusão meramente espontânea de intelecções indesejadas não é igual à série total de eventualidades. Sobrevém intelecções antagônicas. Podem ser aceitas como corretas, mas apenas para sofrerem o eclipse que a distorção origina, ao excluir as ulteriores questões relevantes. E ainda, Podem ser rejeitadas como incorretas, como meras ideias brilhantes sem uma sólida fundamentação nos fatos; e essa rejeição tende a estar associada à racionalização da escotose e a um esforço por acumular provas a seu favor.[5]

A corrupção de termos foi identificada por Eric Voegelin e chamada de “uso hieroglífico das ideias”. Ironicamente, há uma crítica à tal corrupção no livro “Alice através do espelho” de Lewis Carroll, na seguinte passagem:

'Eu não sei o que você quer dizer por 'glória', disse Alice.

Humpty Dumpty sorriu com desdém. 'É claro que não, até que eu lhe diga. Significa: há um belo argumento decisivo para você'.

'Mas glória não significa um belo argumento decisivo, objetou Alice.

'Quando EU uso uma palavra', disse Humpty Dumpty, num tom de deboche, 'ela significa apenas aquilo que eu quero que ela signifique, nem mais, nem menos'.

'A questão é', disse Alice, 'se você pode fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes'.

'A questão é', disse Humpty Dumpty, 'quem é o senhor – isto é tudo'.

A grosso modo, Humpty Dumpty se comporta mais ou menos do mesmo modo que um sofista moderno. Um modo prático de demonstrar o cerne da questão é se perguntar o que define o conceito. Primeiro, é preciso especificar, que aqui me atenho à conceituação, e não na palavra dita, pois tal seria um problema totalmente diferente das “afecções da alma” sobre as quais quero versar. O conceito, (sob o olhar da lógica formal, que é o que nos interessa, pois trato do discurso logicamente integrado) é um objeto ideal, intemporal, forma do pensamento; um pensamento é sempre um pensamento de algo, e sob tal aspecto, o conceito é um símbolo de uma essência, como um esboço imitativo. No caso, o conteúdo do conceito é o objeto (à que se refere), ou seja, sua compreensão. Sob forma simplificada, o conceito é a representação da substância. É assim pois, a compreensão depende da definição, que só pode ser dada pela substância nua de seus acidentes. A definição é o que responde pela pergunta “o que é isso?”. Ironicamente, aqui se fundamenta a premissa de que, dentro do materialismo, o que define o conteúdo do conceito é a ideologia; mas continuando: algo precisa ser algo, pois “todo ser é idêntico a si mesmo” (Princípio Ontológico nº1) [6]. Os conceitos e definições devem estar em harmonia, para que, depois de apreendido, o conceito possa se tornar uma palavra. É por compreender conceitos que podemos nos comunicar, e é possível ler este texto. O que seria de nós se pudéssemos aplicar diferentes conceitos a um mesmo nome? Aqui nasce a falácia da ambiguidade; quando, por palavras de múltiplos sentidos, o argumentador distorce o significado do discurso. Eis a gênese da falácia “Humpty Dumpty”.

Vivemos numa época em que o significado de antigas palavras, como tantas outras coisas, se tornou inseguro. 'As palavras se distendem, / Estalam e muitas vezes se quebram, sob a carga', como T. S. Eliot (1888-1965) o diz. 'No princípio era o Verbo' (Jo 1,1). Hoje em dia, porém, o Verbo está sendo confrontado pela ideologia gigante, que perverte a palavra falada e escrita.[7]

Aqui se encerram as considerações acerca da definição de ideologia e seus efeitos diversos. Um estudo aprofundado do assunto não pode ser feito em um simples artigo, e o mercado editorial brasileiro carece muito de literatura séria sobre o assunto, mercado este que está ironicamente imerso em ideologia. Pensar nos termos de uma ideologia é destruir a capacidade de cognição, e não verificar suas premissas é atestado de servidão. Tomemos o ensinamento dos antigos como exemplo, e não nos deixemos perverter por discursos demagógicos; tomemos apenas a verdade como regra das ações.

____
Notas e ref. bigliográfica:
1. KIRK, Russel. A Política da Prudência, São Paulo: É Realizações, 2013.

2. Ibidem

3. CARVALHO, Olavo. A Natureza do Marxismo, Jornal da Tarde, 18 de dezembro de 2003.

4. VOEGELIN, Eric, Reflexões Autobiográficas. São Paulo: É Realizações, 2015.

5. LONERGAN, Bernard. INSIGHT, Um Estudo do Conhecimento Humano, São Paulo: É Realizações, 2010.

6. Os três princípios ontológicos são:
1) Todo objeto é idêntico a si mesmo — Esta é a enunciação do chamado princípio ontológico de identidade. É princípio fundamental da Ontologia clássica o é também para a Lógica Formal. Por ora, cabe-nos apenas apresentá-lo como um verdadeiro fundamento axiomático da Ontologia e também, consequentemente, da Lógica Formal. Assim, pode ser enunciado exemplificativamente: este livro é este livro; esta mesa é esta mesa. Para a Ontologia tradicional e para a Lógica Formal, este livro, formalmente, só pode ser ele mesmo; é idêntico a si mesmo. Deste princípio fundamental decorrem outras consequências, que são dadas, em geral, como princípios ontológicos e, portanto, também lógicos.
2) Nenhum objeto pode ser ao mesmo tempo ele e não ele. Princípio ontológico de não-contradição. Enuncia-se dizendo que A não pode ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto Não-A.
3) Todo objeto tem que ser A ou não A. Isto é: Este objeto é livro ou não é livro. Princípio ontológico de terceiro excluído, pois exclui um intermediário entre ser e não-ser. O princípio ontológico de identidade, torna-se, na lógica, o “princípio lógico de identidade”. É verdadeiro quando afirmamos que este livro é idêntico a este livro, ou seja A é A.
* As definições acima foram retiradas do livro 'Lógica e Dialética', de Mário Ferreira dos Santos, Editora LOGOS, 1959.

7. KIRK, Russel. A Política da Prudência, São Paulo: É Realizações, 2013.

A epígrafe deste artigo foi retirada do livro 'Origem dos grandes problemas filosóficos' de Mário Ferreira dos Santos.
www.ofielcatolico.com.br

3 comentários:

  1. Parabéns Vitor! O texto é excelente, profundo explicativo, fala de problemas complicados p ara o público leigo mas sem ser enfadonho. Associação São Próspero aceita novos membros?

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  2. Muito bom o texto... Fundamentado em grandes autores.

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