São José Vaz, CO (1651-1711) – vida e obra


Pelo Oratório Secular de São Filipe Neri de São Paulo

Em consideração a tudo aquilo que o Padre Vaz foi e fez, de como o fez e nas circunstâncias nas quais conseguiu desenvolver a grande obra de salvar uma Igreja em perigo, é justo saudá-lo como o maior missionário que a Ásia já teve."
(São João Paulo II)

JOSÉ VAZ NASCEU em Benaulim, Salcette, Goa, então capital das colônias Portuguesas, na casa ancestral de sua mãe, Maria de Miranda. Nasceu em uma casa onde a virtude e os valores morais cristãos eram enfatizados, com horários fixos e reservados para as orações da família e a leitura espiritual.

Conta-se que esse nascimento foi misteriosamente anunciado a seu piedoso pai, Cristovam Vaz, pelo aparecimento de uma estrela que brilhou no céu de sua terra natal, Sancoale, ao meio-dia. Isso O levou a escrever o seguinte registro em seu diário de família: "Em 21 de abril de 1651, nasceu um filho para mim. Ele foi batizado no 8º dia, com o nome de José. No decorrer do tempo ele vai alcançar a grandeza."

Desde o início, a Mão do Senhor moldou o menino que cresceu gentil, amável. Quando pequeno, José Vaz era muito dado à piedade, dotado de um amor singular aos pobres e um desejo de passar invisível e desapercebido em sua piedade e esmolas. Herdou os costumes e seriedade de seu pai. Nos hábitos alimentares, também era austero e muito mortificado, abstendo-se de alimentos delicados e saborosos.

Possuía um discernimento superior para a sua idade. O amor pelos estudos e a inclinação para a virtude revelou que a graça o dominava e não a natureza, de tal forma que os outros pais o apontavam como uma “criança santa” e exortavam seus filhos a imitá-lo.

Ainda menino, buscava ficar longe das conversas dos homens para estar a sós com Deus, em Quem acreditava ardentemente e a Quem procurava em oração e com animada fé. Sempre insistiu que, pelo menos uma vez ao dia, cada um devia fazer os atos de fé, esperança e caridade. Ele mesmo os fazia várias vezes ao dia.

Era uma criança singular, com profunda piedade. Muitas vezes, seus pais o encontravam rezando tarde da noite. Uma tradição local conta que ele silenciosamente saía bem cedo de casa para a paróquia, e as portas desta inexplicavelmente se abriam "sozinhas" para recebê-lo; ali, então, passava horas a fio diante do Santíssimo Sacramento, a rezar por sua querida e santíssima Mãe Maria, a quem ele mais tarde se entregaria como escravo.

No caminho da escola e no retorno para casa, ele frequentemente recitava o Rosário. Costumava assistir à Missa diariamente e acompanhava o viático sempre que o padre visitava um doente.

Assim que aprendeu a ler, os livros espirituais sobre a vida dos santos eram os seus escolhidos. Quando via um funeral, José acompanhava a procissão até o cemitério e rezava pela alma do falecido. Se alguém morria no vilarejo, ele ia pela vizinhança pedindo aos moradores para rezar pelo repouso eterno da alma. À noite, recomendava as almas dos moribundos e falecidos e oferecia orações a eles.

Cresceu tanto no amor de Deus que, automaticamente, ensinava o catecismo e orações para as crianças menos afortunadas de seu entorno. Ele também compartilhava sua comida e pertences com os pobres e os necessitados. Aos poucos, todo o vilarejo tornou-se orgulhoso de tão preciosa joia.

Movido pelo amor de Deus, José Vaz escolheu servi-Lo como padre. Ainda muito jovem, cultivou a verdadeira sabedoria, que consistia em santo temor e amor de Deus. Sua maior aspiração era fazer com que o Senhor Deus fosse conhecido e amado por todos os homens. Ele orava fervorosamente pela conversão das almas e queria que todos pertencessem à Igreja.

Considerado por todos como um jovem de vida inocente e costumes puros, nunca se viu nele qualquer falta de modéstia ou comportamento grosseiro, comum em muitos jovens. Desde a infância, José Vaz evitava linguagem indecente e não ousaria dizer nada repreensível. Quando enviado por seus pais à casa de parentes, por ocasião de casamentos e festas, se fosse obrigado a dormir na companhia de outros, ele retirava-se para um canto e acomodava-se debaixo de uma cadeira para evitar quaisquer inconveniências que poderiam resultar de dormir entre outros.

Conta-se que, certa vez, o jovem José Vaz notou que seus companheiros ficavam amedrontados e fugiam quando chegavam a um determinado ponto onde havia uma grande árvore. Diziam eles que o diabo estava aparecendo lá, em formas diferentes e temerosas, e que a árvore era sacudida violentamente. No local, o jovem José Vaz começou a orar a Deus de joelhos e com a disciplina, para fazer penitência. Então, as coisas espantosas e a agitação desapareceram e a árvore ficou calma.


Estudos

José Vaz frequentou a escola primária em Sancoale, sua aldeia paterna. Diz-se ter sido um modelo de aluno: além de aluno brilhante, era atento em sala de aula, diligente nas lições, obediente ao professor e amado pelos companheiros. Quando cresceu, seu pai o enviou para uma escola em Benaulim, a aprender latim como preparação para seus estudos sacerdotais.

Sua estadia em Benaulim foi um momento de grande alegria, pois pôde exercer melhor seu amor pela oração, pelas boas obras e pelo Altar. Assistia à Missa todos os dias, frequentando os Sacramentos e recitando o Rosário no caminho para a igreja. Gostava de acompanhar procissões e de participar nas Estações da Cruz. Além de ser profundamente envolvido em todas essas práticas religiosas, José Vaz progrediu tão rapidamente nos estudos que o pai decidiu enviá-lo para a cidade de Goa, para seguir um curso de Retórica e Humanidades no Colégio Jesuíta de São Paulo.

Vaz passou seis anos em Goa, residindo no Colégio de Nossa Senhora do Rosário. Em seguida, entrou para a Academia de Santo Tomás de Aquino –, dirigida pelos dominicanos –, para realizar seus estudos filosóficos e teológicos. Continuou seu caminho de vida austera, dedicando-se seriamente na preparação para o sacerdócio. Seu ardente desejo de fazer o bem aos outros, sem ser observado, aumentou com a aproximação de sua ordenação. Seu comportamento geral foi, provavelmente, uma reação positiva contra as frivolidades da vida em Goa, no momento em que o clero também sentiu seus efeitos.


O milagre da chuva, no Ceilão

Vida Sacerdotal

Em 1671, então com 20 anos de idade, José Vaz recebeu as ordens menores e o subdiaconato. Em 1674, em seu vigésimo terceiro ano, foi ordenado subdiácono, e em 1675 foi ordenado diácono, por D. Custódio de Pinho de Verna, o Vigário Apostólico de Bijapur e Golconda.

Em 1676, foi ordenado sacerdote pelo então recém-nomeado Arcebispo de Hierapolis em Goa, D. Antonio Brandão. Este concedeu-lhe as faculdades para pregar e ouvir confissões. Antes, no entanto, que pudesse colocar esses carismas a serviço do povo de Deus, Vaz colocou sua vida, talentos e trabalho, nas mãos de Maria santíssima, a quem se vendeu a si mesmo como um "escravo", pelo que é conhecido como sua "Carta de Escravidão", escrita sobre os joelhos aos pés da Mãe do Céu, na antiga igreja de Sancoale aos 8 de Maio de 1677.

Depois de trabalhar durante quase dez anos na região do Kanara, no Sul da Índia, ele voltou para Goa e, lá, em 1686, fundou um Oratório de São Filipe Neri com um grupo de outros padres. Recebia aconselhamento e ajuda dos Oratorianos de Portugal. Apenas um ano depois, em 1687, sentiu-se chamado a deixar Goa e partir como missionário para a ilha de Ceilão (hoje Sri Lanka), onde sabia que os católicos estavam sendo perseguidos e onde não havia sacerdotes durante várias décadas.

Na ilha permaneceu por vinte e quatro anos, exercendo seu ministério sacerdotal heroico em circunstâncias muito restritivas. Foi rigorosamente perseguido e atormentado pelas autoridades opressivas holandesas, calvinistas, que queriam pôr fim aos seus esforços, solitários mas bem sucedidos, na reconstrução da Igreja, mantendo vivo o catolicismo no Ceilão. Teve que viajar a todos os lugares disfarçado e foi obrigado a celebrar os Sacramentos secretamente, à noite.

Padre Vaz decidiu fazer sua base no reino de Kandy, no interior da ilha. Ao chegar lá, foi preso como espião e lançado na prisão. Foi libertado depois de rezar e obter o que foi considerado por todos como o “milagre da chuva”, que pôs fim a uma seca prolongada. Consta que choveu em toda parte, exceto sobre o Beato José Vaz e o Altar que tinha construído para rezar por chuva. Depois disso, o rei budista de Kandy passou a lhe dar a sua proteção pessoal.

A Providência Divina veio em seu socorro também em outras ocasiões. Certa vez, alguns soldados holandeses que tentavam prendê-lo não conseguiram vê-lo, mesmo estando eles na mesma sala da residência onde o Santo se encontrava pregando. Em outra ocasião, durante uma de suas viagens pelo interior da ilha, em meio à floresta, uma manada de elefantes ameaçou atacar sua comitiva. Ao aproximar-se do padre Vaz, entretanto, um dos animais que vinha à frente se deteve e prostrou-se, sem lhe fazer mal algum. Logo os demais procederam do mesmo modo.

O apoio de José Vaz à população local também se fez presente durante uma epidemia de varíola ocorrida em 1697. A caridade e a inteligência do padre permitiram a cura de muitos, pois, além das orações e do auxílio aos doentes, ainda ensinou as normas de higiene –, à época e naquele local bastante precária –, que ajudaram a conter o contágio.

Em 1696, vários padres do Oratório em Goa se juntaram a ele no Ceilão e uma missão católica foi devidamente estabelecida. À época, padre Vaz recusou o cargo de Vigário Apostólico, preferindo permanecer como um simples padre missionário. Entre seus outros trabalhos pastorais, ele traduziu um catecismo e as orações para as línguas locais, o Singalese e o Tamil. As pessoas o chamavam de “Sammanasu Swam”: o "sacerdote angélico". Sempre foi muito zeloso com as almas, com os seus estudos e o seu trabalho.



Sua Morte, Beatificação e Canonização

José Vaz morreu em odor de santidade, aos 16 de janeiro de 1711, no dia e na hora por ele preditos, aos sessenta anos. Recebeu a Extrema-Unção com membros de seu rebanho e, antes de falecer, aconselhou aqueles reunidos em torno dele em Sinhala: "Dificilmente você será capaz de fazer no momento da morte o que você não fez durante a sua vida".

À meia-noite, com uma vela na mão, ele morreu  para este mundo pronunciando o santo Nome de Jesus com grande clareza e fervor.

O Rei budista pediu que o corpo permanecesse no Estado por três dias. Milhares visitaram a igreja para prestar suas últimas homenagens ao grande Missionário que Goa deu à Igreja Universal. O paradeiro exato de seus restos mortais é incerto. Ninguém sabe onde seu corpo foi enterrado. Talvez ele não quisesse ser localizado, tal foi a sua humildade.

A devoção do Padre Vaz ao apostolado pastoral fez dele um instrumento oportuno e eficaz da Providência Divina em um momento crítico na história missionária católica do Sudeste da Ásia. Durante sua vida, seus sucessos pastorais chamaram a atenção das autoridades da Igreja em Portugal e em Roma. Após a morte, o zelo exemplar que mostrou como missionário fez dele uma inspiração permanente para os padres missionários de sua adotada ilha e de outras terras. Seu apostolado deixou um enorme legado: 70 mil católicos, 15 igrejas e 400 capelas.

José Vaz foi beatificado no Sri Lanka, pelo Papa João Paulo II, aos 21 de junho de 1995, e canonizado pelo Papa Francisco aos 14 janeiro de 2015.

“O padre José Vaz foi um grande sacerdote missionário, pertencente à linha interminável de anunciadores ardentes do Evangelho, missionários que, em todas as épocas, deixaram a sua própria terra para levar a luz da fé aos povos que não são deles”, afirmou São João Paulo II quando, em sua visita ao Sri Lanka, o reconheceu Bem-aventurado.

José Vaz ficou conhecido como o Apóstolo de Ceilão. Sua festa litúrgica é celebrada no dia 16 de Janeiro.


Curiosidades sobre São José Vaz

A única relíquia de São José Vaz está na Índia. Trata-se de um crucifixo enviado por ele a Goa. O crucifixo que lhe foi dado pelo Papa está preservado na Sala do Oratório do Beato José Vaz em Sancoale, Goa, India. A Sala do Oratório (com mais de 400 anos de idade) é frequentemente visitada por milhares de devotos de todo o mundo.

A jaqueira sob a qual ele brincava, e que descia escalando da janela para visitar o Santíssimo Sacramento na Igreja de Cortalim, ainda permanece, silenciosa durante as noites como testemunha do Santo Filho de Goa.

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Referências
• 'Blessed Joseph Vaz', disp. em:
http://blessedjosephvaz.org
Acesso 29/6/016

• 'Saint Joseph Vaz (1651–1711)', disp. em:
http://www.birminghamoratory.org.uk/oratorian-saints/blessed-joseph-vaz/
Acesso 29/6/016

www.ofielcatolico.com.br

Uma boa notícia: o brexit



Por Pe. João Batista de A. Prado Ferraz Costa – Capela Santa Maria das Vitórias

ALGUÉM DISSE UMA vez que o homem é uma ilha de problemas cercado por um oceano de mistérios. Pois nesta Festa de São João a Inglaterra mostrou-se justamente o contrário: é uma ilha de mistérios cercada por um oceano de problemas. É verdade que a Inglaterra, ao longo dos séculos, causou para a civilização grandes problemas com seus pensadores e hereges: quanto mal causou, ainda na Idade Média, um Guilherme de Ockham e depois, ao tempo da Reforma, um Henrique VIII, e, mais tarde, um David Hume e outros filósofos empiristas?

Contudo, os ingleses sempre se distinguiram por um grande sentido prático e uma grande prudência nas questões políticas. Basta citar como exemplo o grande pensador Edmund Burke, com sua obra "Reflexões sobre a revolução em França", em que explica a insanidade do espírito revolucionário com o seu abstracionismo e igualitarismo proclamando direitos sem saber de onde obter os recursos necessários para que tais direitos sejam reais.

É preciso reconhecer igualmente, com admiração, como os ingleses souberam preservar e adaptar suas instituições políticas, repelindo o republicanismo ideológico que infelicita o mundo moderno. Só mesmo no terreno fétido do Brasil de hoje, só no Brasil dos ladrões lulopetistas é que se ouve aquela pérola de Márcio Tomás Bastos, repetida a torto e a direito: “Esta não é uma postura republicana”, ou:  “Este deputado sempre agiu como um republicano”.

A monarquia inglesa pode não ser um regime monárquico puro, mas uma simples realeza decorativa (é lamentável que se tenha perdido a autoridade benfazeja de um rei que exerça ao menos um poder moderador ou fiscalizador acima dos políticos e dos interesses partidários). Entretanto, a continuidade da monarquia inglesa, apesar de a rainha ser uma "papisa" de uma seita herética execrável, representa um valor do povo inglês, o firme desejo de preservar sua identidade nacional. Isto, em nossos dias infelizes (quando se organiza um poder mundial que pretende padronizar, uniformizar todas as instituições, abolindo os costumes nacionais históricos, privando os povos de suas riquezas espirituais peculiares) é muito positivo.

De modo que o resultado do plebiscito que decidiu a saída do Reino Unido da União Europeia deve ser festejado por todos os católicos que veem com preocupação a formação de um poder político anticristão no Velho Continente a serviço de uma ordem mundial maçônica visceralmente inimiga da Igreja Católica e hostil a todos os valores decorrentes da lei natural. Com efeito, nos últimos anos vimos a Europa transformando-se em algo talvez pior que a antiga União Soviética. Assistimos impotentes à agressão a tudo o que é caro ao coração de um católico. Assistimos à senhora Ângela Merkel promovendo a invasão da Europa por levas e mais levas de muçulmanos e tantos outros desastres.

Realmente o Brexit representa uma esperança de um futuro melhor não só para os ingleses, que se defendem de um oceano de problemas que os cercava e ameaçava, mas também para todas as outras nações da Europa e para todo o Ocidente. Marca o início de uma grande luta para que as nações europeias recuperem sua soberania política, econômica e militar.

Há, porém, uma condição impreterível a ser observada. É absolutamente necessário que as lideranças políticas, as figuras mais representativas das nações europeias, não pensem apenas em seus interesses econômicos, mas estejam conscientes do seu dever de defender os fundamentos morais e espirituais das nações europeias, suas raízes históricas, suas famílias, seus valores religiosos. Sem tal consciência, diante de qualquer dificuldade econômica que possa sobrevir nos próximos meses, há o risco de um recuo.

De fato, a Inglaterra, na festa de São João Batista, revelou-se uma ilha misteriosa que sabe solucionar os seus problemas. Oxalá os outros povos assimilem com prudência as boas lições que ela lhes dá hoje e rejeitem os erros que os filósofos ingleses de outros tempos espalharam pelo mundo inteiro. A propósito, é oportuno lembrar que, se Bossuet e Joseph De Maistre viam com inquietação o desenvolvimento das ideias políticas, filosóficas e religiosas da Inglaterra, De Bonald, em sua obra magistral "Théorie du pouvoir politique et religieux", fazia uma interessante análise: a Inglaterra, para conservar sua constituição monárquica, tenderia a voltar para o seio da Santa Igreja. Hoje, a ilha misteriosa é um dos países onde mais se adota o rito litúrgico romano tradicional. De maneira que, conservando a coroa e trono, e recuperando a fé católica, a Inglaterra poderá quem sabe ajudar as nações do continente a resgatar a sua soberania e a recuperar suas antigas constituições.

Finalmente, observamos que outra lição importante a tirar do ocorrido na Ilha misteriosa é que a grande mídia mundial, corrupta e mentirosa, a serviço da Nova Ordem, vinha nos últimos dias manipulando as pesquisas de opinião e agora inicia uma batalha pela convocação de um novo referendo. Tomara que os ingleses começassem a empastelar esses pasquins e, se necessário, fizessem uma guerra civil capaz de se espalhar por toda a Europa.

Que São Jorge, patrono da Inglaterra, esmague o dragão União Europeia e liberte as nações da antiga cristandade.

Anápolis, 24 de junho de 2016

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Fonte:
Capela Santa Maria das Vitórias, disponível em:
http://santamariadasvitorias.org/uma-boa-noticia-na-festa-do-santo-precursor-o-brexit/
Acesso 5/3/014
ofielcatolico.com.br

A onipotência de Deus – a razão da nossa fé e esperança

O BELÍSSIMO SERMÃO do grande e Bem-aventurado Cardeal Newman sobre o Evangelho de Mateus (8,27) anima e inspira a alma do cristão a permanecer firme na fé e esperar com inabalável confiança na Providência divina, no Deus que de fato nos ama como a diletos filhos e fará tudo pelo nosso bem. São palavras sábias e encorajadoras, claramente inspiradas pelo mesmo Deus; uma das maiores provas disto é o fato de que, mesmo tendo sido ditas há mais de um século e meio, permanecem não só atuais como também mais necessárias do que nunca, nestes nossos dias conturbados...



Sermão de John Hernry Cardeal Newman
Quarto domingo depois da Epifania
(30 de janeiro de 1848)

Nosso Senhor ordenou aos ventos e o mar, e os homens que o viram se maravilharam, dizendo: “Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?” (Mt 8, 27). Foi um milagre que mostrou o poder de nosso Senhor sobre a natureza. E, portanto, eles se perguntavam, porque não conseguiam entender – e com razão – como um homem poderia ter poder sobre a natureza, a menos que lhe fosse concedido por Deus. A natureza trilha seu próprio caminho e não podemos alterá-la. O homem não pode alterá-la; só pode usá-la. A matéria, por exemplo, descende: a pedra, o ferro, todos precipitam-se sobre a terra, quando deixados a si mesmos. Mais uma vez, deixados a si mesmos não podem se mover, exceto pela queda. Só se movem quando são puxados ou empurrados à frente. A água nunca fica em porção ou massa, mas flui por todos os lados, tanto quanto pode. O fogo sempre queima, ou tende a queimar. O vento sopra de um lado para outro, sem qualquer regra ou lei detectável, e não podemos dizer como vai soprar amanhã observando como sopra hoje. Vemos todas estas coisas; elas têm o seu próprio curso, não podemos alterá-las. Tudo que tentamos fazer é usá-las; nós as tomamos da maneira que as encontramos e as usamos. Não tentamos mudar a natureza do fogo, da terra, do ar ou da água, mas observamos qual é a natureza de cada um e tentamos nos beneficiar. Nós nos beneficiamos do vapor, e o usamos em carros e navios; nos beneficiamos do fogo e o usamos de mil maneiras.

Nós usamos as coisas da natureza; submetemo-nos às leis da natureza e nos valemos delas, mas não comandamos a natureza. Não tentamos alterá-la, mas simplesmente a direcionamos para os nossos próprios fins. Muito diferente foi com nosso Senhor: Ele usou de fato os ventos e as águas; (Ele usou as águas quando entrou no barco, e usou o vento quando não pôde desfraldar a vela). Ele usou, porém mais do que isso, ordenou aos ventos e às ondas. Ele tinha poder para repreender, para mudar, para desfazer o curso da natureza, bem como para fazer uso dela. Ele estava acima da natureza. Tinha poder sobre ela. Isso é o que fez os homens se maravilharem. Marinheiros experientes podem fazer uso dos ventos e das ondas para chegar à costa. Mais do que isso, até mesmo em uma tempestade eles sabem como se aproveitar delas, têm as suas regras do que fazer, com cautela, tirando proveito de tudo o que acontece. Mas nosso Senhor não condescende em fazer isso. Ele não os instruiu a gerenciar suas velas, nem como dirigir o navio, mas dirigiu-se diretamente para os ventos e as ondas, e os parou, fazendo-os realizar o que era contra a sua natureza.

Então, novamente, quando Lázaro estava doente, nosso Senhor poderia ter ido até ele e recomendado o medicamento adequado, e o tratamento que iria curá-lo. Mas Ele não fez nada do tipo – Ele o deixou morrer – tanto que Santa Marta lhe disse, quando Ele veio finalmente: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!” (Jo 11, 21). Mas nosso Senhor tinha uma razão. Ele queria mostrar o seu poder sobre a natureza. Ele queria triunfar sobre a morte. Assim, em vez de impeder a morte de Lázaro pela arte da medicina, Ele triunfou sobre a morte por um milagre.

Ninguém tem poder sobre a natureza exceto Ele que a fez. Ninguém pode operar um milagre, exceto Deus. Quando os milagres são realizados, é uma prova de que Deus está presente. É por isso que, sempre que Deus visita a Terra, opera milagres. É o que Ele faz para chamar a nossa atenção. Desse modo, ele nos lembra que é Ele o Criador. Apenas Ele, que fez, pode desfazer. Apenas Ele, que construiu, pode destruir. Apenas Ele, que deu à natureza suas leis, pode alterar essas leis. Ele, que fez o fogo para queimar, o alimento para nutrir, a água para fluir, o ferro para afundar; só Ele pode tornar o fogo inofensivo, o alimento desnecessário, a água firme e sólida, o ferro leve, e, portanto, quando enviou os profetas ou apóstolos – Moisés, Josué, Samuel, ou Elias – Ele sempre os mandou com milagres, para mostrar sua Presença em seus servos. Em seguida, todas as coisas começaram a mudar a sua natureza; os egípcios foram atormentados com pragas estranhas, as águas se amontoaram para o povo escolhido passar, eles foram alimentados com maná no deserto, o sol e a lua permaneceram. Porque Deus estava lá.



Foi isso, então, que fez os homens se maravilharem, quando nosso Senhor acalmou a tempestade no mar. Era uma prova para eles de que Deus estava lá, embora não o viam. Ou melhor, Deus estava lá e eles o viram – pois Cristo era Deus – mas, se aprenderam ou não esta verdade elevada e sagrada, através do milagre, ao menos entenderam que Deus realmente estava ali. Sua mão estava ali, seu poder estava ali e, portanto, eles tremiam. Vocês já leram nos livros, ouso dizer, histórias de grandes homens que vêm disfarçados, e finalmente são conhecidos, por sua voz ou por algum ato que lhes denuncia. Suas vozes ou suas palavras, ou seus modos, ou a sua bravura, é o seu sinal: é uma espécie de “caligrafia”. E assim, quando Deus caminha sobre a terra, Ele nos dá meios de saber que Ele está ali, embora seja um Deus escondido, e não exibe abertamente a sua Glória. O poder sobre a natureza é o sinal que nos dá de que Ele, o Criador da Natureza, está no meio de nós.

E, portanto, Deus é chamado onipotente – este é seu atributo distintivo. O homem é poderoso apenas por meio da natureza. Ele usa a natureza como seu instrumento, mas Deus não tem necessidade da natureza a fim de realizar a sua vontade. Opera sua grande obra às vezes por meio da natureza, às vezes sem a natureza, conforme a sua vontade. E observa-se que esse atributo de Deus é o único mencionado no Credo. “Creio em Deus, Pai todo-poderoso...”. Não se diz “Creio em Deus Pai Todo-Misericordioso, ou Todo-santo, ou Todo-sábio”, apesar de ter todos estes atributos também, mas sim se diz “Creio em Deus Pai Todo-Poderoso”. Por que isso? O motivo é claro – porque este atributo é a razão pela qual acreditamos. A fé é o começo da religião e, portanto, a onipotência de Deus é a fonte e o primeiro de seus atributos, e justamente o atributo que deve ser mencionado no Credo. Não seríamos capazes de crer se não soubéssemos que Ele é todo-poderoso. Nada é muito difícil de acreditar daquele a quem nada é muito difícil de fazer. Você pode se lembrar que, quando profetizou-se a Abraão que a velha Sara, sua mulher, teria um filho, ela riu. Por que riu? Porque não tinha suficientemente em conta que Deus é todo-poderoso. Portanto o Senhor lhe disse: “Será isso porventura uma coisa muito difícil para o Senhor?” (Gn 18, 14). E da mesma maneira, nosso Senhor no Evangelho deste dia, quando ordenou aos ventos e ao mar, disse: “Por que este medo, gente de pouca fé?” (Mt 8, 26) Se tivessem uma percepção firme da sua onipotência, estariam certos de que Ele poderia livrá-los do perigo. Mas quando o viram dormindo no barco, não podiam acreditar que estavam seguros, sem entender que Ele, acordado ou dormindo, era todo-poderoso.

Esse pensamento é muito importante para nós neste dia, porque será um meio de sustentar a nossa fé. Por que acreditas em todos os atos surpreendentes e maravilhosos registrados nas Escrituras? Porque Deus é todo-poderoso e pode fazê-los. Por que acreditas que uma Virgem concebeu e deu à luz um Filho? Porque é ato de Deus, e Ele pode fazer qualquer coisa. Como o anjo Gabriel disse à Virgem: “A Deus nenhuma coisa é impossível.” (Lc 1, 37) Por outro lado, quando o Anjo disse ao santo Zacarias que a velha Isabel, sua esposa, conceberia, ele disse: “Donde terei certeza disto?” (Lc 1, 18), e foi punido imediatamente por ser incrédulo. Por que acreditar que nosso Senhor ressuscitou dos mortos? Por que Ele nos redimiu com seu sangue precioso? Por que Ele lava os nossos pecados no batismo? Por que acreditar no poder e graça que acompanha os outros sacramentos? Por que acreditar na ressurreição de nossos corpos? Porque nada é difícil demais para Deus. Porque, por mais surpreendente que uma coisa seja, ele pode fazê-la. Por que acreditar na virtude de relíquias sagradas? Por que crer que os santos ouvem as nossas orações? Porque nada é difícil demais para o Senhor.

Isso se aplica especialmente ao grande Milagre do Altar. Por que você acredita que o sacerdote muda o pão em Corpo de Cristo? Porque Deus é todo-poderoso e nada é difícil demais para Ele. E, além disso, você sabe, como eu já disse, que os milagres são os sinais e símbolos da Presença de Deus. Se, então, Ele está presente na Igreja Católica, é natural esperar que Ele opere alguns milagres, e se não fez milagre algum, podemos ser quase tentados a acreditar que Ele deixou a sua Igreja.

Quando assistir ao Santo Sacrifício do Altar e se curvar diante do Altíssimo, e sempre que fizer um ato de fé em Deus, contemplando constantemente tudo o que Ele fez por nós no Evangelho, recorde que Deus é todo-poderoso, e isso vai lhe permitir ser mais ousado e mais determinado em fazê-lo. Diga “acredito nisto e naquilo”, porque Deus é todo-poderoso – não adoro uma criatura; não sou o servo de um Deus de poder restrito. Mas já que Deus pode fazer tudo, posso acreditar em tudo. Para Ele, nada é difícil de fazer, e, para mim, nada é muito difícil de acreditar. Vou expandir meu coração. Vou prosseguir de forma generosa. “Abre tua boca”, diz-me Deus, “e eu a preencherei”. Bem, abro minha boca, desejo ser alimentado com as suas palavras. Desejo viver e crescer por toda palavra que Deus pronuncia. Desejo dizer com o profeta: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta”. Não terei aversão a essa palavra, não duvidarei, porque creio em quem remove toda a dúvida. Pois todos os atos do poder divino recaem sob esse atributo universal graças ao qual eu creio, ou são exemplos dele: a onipotência divina. Se Deus pode fazer todas as coisas, Ele pode propor-me algo que ultrapassa a minha razão.

Na verdade, pode fazer muito mais do que isso. Maravilhosa pode ser esta ou aquela verdade de fé para as nossas mentes estreitas, mas se chegássemos a conhecer todas as coisas veríamos que elas, sejam quais forem, obedecem, como todas as outras verdades do Universo, ao plano divino. Isto é que nosso Senhor quis dizer ao santo Natanael que, comovido por algo que nosso Senhor disse, exclamou: “Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel!”. E Ele respondeu: “Porque eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês! Verás coisas maiores do que esta” (Jo 1, 50).

Não há limite para o poder de Deus; é inesgotável. Que não haja limite à nossa fé. Que não fiquemos assustados com o que somos chamados a acreditar; fiquemos de guarda. Algumas pessoas demoram a acreditar nos milagres atribuídos aos santos. Sabemos que esses milagres não são parte da fé, eles não têm lugar no Credo. E alguns são relatados com evidências maiores do que outros. Alguns podem ser verdade, e outros nem tanto. Outros ainda podem ser reais, mas não milagres. Mas ainda por que deveriam ficar surpresos ao ouvir sobre milagres? Eles estão além do poder de Deus? Deus não está presente nos santos, e Ele não fazia milagres no passado? Os milagres são algo novo? Não há nenhuma razão para ficar surpreso, pelo contrário; porque no Sacrifício da Missa Ele opera diariamente o mais maravilhoso dos milagres nas palavras do padre. Se, então, Ele faz diariamente um Milagre maior do que qualquer um que pode ser nomeado, por que deveríamos ficar surpresos ao ouvir relatos de outros milagres menores operados por Ele aqui e ali?

O Evangelho do dia nos propõe, portanto, o hábito da fé, e faz esse hábito repousar sobre a onipotência de Deus. Nada é demasiado difícil para o Senhor, e acreditamos em tudo aquilo que a Igreja nos diz acerca de seus atos e providências, porque Ele pode fazer tudo o quiser. Mas há uma outra graça que o Evangelho nos ensina, que é a esperança ou confiança. Observa-se que quando a tempestade chegou, os discípulos estavam em grande aflição. Pensaram que alguma grande calamidade viria sobre eles. Portanto, Cristo disse-lhes: “Por que este medo?” (Mt 8, 26). Esperança e medo são contrários um ao outro; temiam porque não esperavam. A esperança é não somente crer em Deus, mas acreditar e ter a certeza de que Ele nos ama e quer o bem para nós; e, portanto, é uma grande graça cristã. Pois não é certo que a fé sem esperança nos leve a Cristo. “Os demônios também crêem, e tremem” (Tg 2, 19). Eles acreditam, mas não vão a Cristo – porque não esperam, mas se desesperam. Eles se desesperam de conseguir qualquer bem das mãos de Deus. Ao contrário, sabem que hão de receber nada além do mal, então mantém distância. Recordas que o homem possuído pelo diabo disse: “Que tens a ver conosco, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” (Mt 8, 29). A vinda de Cristo não era conforto algum para eles, pelo contrário: eles se encolhiam de medo. Eles sabiam que Ele lhes significava não o bem, mas a punição. Mas aos homens Ele quis o bem, e é por saber e sentir isso que somos levados a Ele. Os homens não irão a Deus até terem essa certeza. Eles devem acreditar que Deus é não apenas todo-poderoso, mas também todo misericordioso. A fé é fundada no conhecimento de que Deus é todo-poderoso, a esperança é fundada no conhecimento de que Deus é todo misericordioso. E a Presença de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo nos estimula a esperar tanto quanto a ter fé, porque o seu próprio nome, Jesus, significa Salvador, e porque Ele era tão amoroso, manso e generoso quando estava na Terra.

Ele disse aos discípulos quando a tempestade começou, “Por que este medo?” Ou seja, deves esperar, deves confiar, deves repousar o teu coração em mim. Não sou apenas todo-poderoso, mas sou todo misericordioso. Vim à Terra porque sou amorosíssimo para contigo. Por que estou aqui, por que assumi a carne humana, por que tenho estas mãos que estendo para ti, por que tenho estes olhos dos quais fluem lágrimas de compaixão, se não for porque desejo o teu bem e quero te salvar? A tempestade não pode machucar-te se estou contigo. Podes estar em lugar melhor do que sob a minha proteção? Duvidas do meu poder ou da minha vontade, achas-me negligente por Eu dormir no navio e incapaz de ajudar-te, a não ser que esteja acordado? Por que duvidas? Por que tens medo? Estou há tanto tempo contigo e ainda não confias em mim? Não podes ficar em paz e sossego ao meu lado?

E isso, meus irmãos, Ele nos diz agora. Todos nós que vivemos nesta vida mortal, temos nossos problemas. Você tem os seus problemas, mas quando está em apuros e as ondas parecem estar elevadas, e parecem que lhe irão esmagar, faça um ato de fé, um ato de esperança em seu Deus e Salvador. Ele lhe chama para Ele, que tem seus lábios e as mãos cheias de bênçãos para você. Ele diz: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e Eu vos aliviarei.” (Mt. 11, 28); “Todos vós, que estais sedentos”. Ele clama por meio do profeta: “Vinde à nascente das águas; vinde comer, vós que não tendes alimento. Vinde comprar trigo sem dinheiro, vinho e leite sem pagar!” (Is 55, 1). Nunca pense que Deus é um mestre duro, um mestre severo. É verdade que chegará o dia que Ele virá como um juiz justo, mas agora é o momento da misericórdia. Aproveite o tempo da graça. “Agora é o tempo favorável, agora é o dia da salvação” (2 Cor 6, 2). Este é o dia da esperança, este é o dia do trabalho, este é o dia da ação. “Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar” (Jo 9, 4), mas somos filhos da luz e do dia e, portanto, o desânimo, a frieza de coração, o medo, a lentidão, são pecados em nós. Tentações de fato não vêm para que murmuremos, mas resistamos a elas, coloquemo-las de lado, oremos a Deus para ajudar-nos com sua graça. Ele não permite que qualquer tentação venha sobre nós sem nos dar a graça para superá-la. Não desista da sua esperança, mas “Levantai vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos” (Hb 12, 12).

“Não percais esta convicção à qual está vinculada uma grande recompensa” (Hb 10, 35). Busque a divina Face que já habita em Presença Real e corporal na santa Igreja. Faça pelo menos tanto quanto os discípulos fizeram. Eles tinham pouca fé, temiam, não tinham grande confiança e paz, mas pelo menos não se afastaram de Cristo. Eles não se afastaram obstinados, mas aproximaram-se dele. Infelizmente o nosso melhor estado não é maior que o pior estado dos Apóstolos. Nosso Senhor os acusou de ter pouca fé, porque clamaram por Ele alarmados.

Gostaria que nós, cristãos de hoje, fizéssemos tanto quanto isso. Oxalá fossemos tão longe a ponto de clamar por Ele alarmados! Gostaria que tivéssemos apenas fé e esperança como as que Cristo considerou tão insuficientes em seus primeiros discípulos. Pelo menos imite os apóstolos em sua fraqueza, se não pode imitá-los em sua força. Se não pode agir como santo, pelo menos aja como cristão. Não fique longe dele, mas, quando estiver em apuros, aproxima-se dele dia a dia pedindo com sinceridade e perseverança os favores que só Ele pode dar. E, como Ele, nesta ocasião de que fala o Evangelho, de fato culpou os discípulos, mas fez por eles o que pediram, então (vamos confiar em sua grande misericórdia), embora Ele veja uma fraqueza em você que não deveria existir, Ele vai se dignar a repreender os ventos e o mar, e dizer: “Acalma-te!”, e haverá uma grande paz.

Que esta seja a sua muito feliz sorte, meus queridos irmãos, e abençoe-vos Deus todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo.

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Fonte:
NEWMAN, Johm Henry. Faith and prejudice, and other unpublished sermons. São Paulo: Molokai, 2016, pp. 19-27.
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A agonia não apagou o santo sorriso desta carmelita – Ir. Cecília Maria adormeceu serenamente nos braços do Senhor


Como foi em vida, assim partiu para o Céu: as imagens da carmelita falecida surpreendem e encantam – parece ter visto o Paraíso

EM BUENOS AIRES, a Irmã Cecilia Maria partiu sorrindo para a Casa do Pai após uma difícil luta contra o câncer. Milhares compartilham nas redes sociais as imagens de sua agonia fatal, ainda que pelas fotografias seja impossível identificar qualquer traço de sofrimento, já que ela enfrentou toda a provação sem jamais perder a paz e a santa alegria.

Cecília graduou-se em enfermagem, e aos 26 anos de idade fez seus primeiros votos como carmelita descalça. Em 2003 fez a sua profissão perpétua. Há seis meses, foi diagnosticado o câncer de língua, sendo que a doença mortal provocou a metástase pulmonar. Faleceu para este mundo na última quarta-feira, 22/6/016, durante a madrugada. Embora aparentasse bem menos, tinha 43 anos.

Vivia no Monastério de Santa Teresa e São José, em Santa Fé, Argentina. Dedicava-se à oração e à vida contemplativa, tocava violino e era conhecida por sua doçura e permanente sorriso.

Nas últimas semanas, a doença se agravou e ela foi hospitalizada. No leito, não deixou de rezar e oferecer seus sofrimentos a Nosso Senhor, com a certeza de que seu encontro com Deus estava próximo.



Em um pedaço de papel, escreveu o seu último desejo: “Estava pensando como queria que fosse meu funeral. Primeiro, um momento de forte oração, e depois uma grande festa para todos. Não se esqueçam de rezar e também de celebrar!”...

Seu testemunho e as fotos dos seus últimos dias falam por si mesmos; milhares de pessoas comovidas compartilham nas redes sociais a agonia exemplar da Irmã Cecilia, exemplo perfeito e contemporâneo do que é morrer em perfeita Comunhão com Deus, com fé plena e na convicção do Céu.



Assim anunciaram sua morte as carmelitas descalças:
Jesus! Apenas duas linhas para avisar que nossa queridíssima irmãzinha dormiu brandamente no Senhor, depois de uma doença tão dolorosa levada sempre com alegria e entrega a seu Divino Esposo. Manifestamos todo nosso carinho agradecido pelo apoio e pela oração durante todo este tempo tão doloroso, mas ao mesmo tempo tão maravilhoso. Acreditamos que ela partiu diretamente para o Céu, mas mesmo assim rogamos que não deixem de encomendá-la em suas orações, que ela os recompensará do Céu. Um abraço grande de suas irmãs de Santa Fé.




Irmã Cecilia em seus últimos dias
(fotos: Curia Generalizia Carmelitani Scalzi)

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Com ACI Digital, disp. em:
http://www.acidigital.com/noticias/viral-a-agonia-nao-apagou-o-sorriso-desta-carmelita-seu-ultimo-desejo-comove-as-redes-77200/
Acesso 25/6/016
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Os versículos que eu nunca vi – quando era protestante


Por Marcus Grodi, ex-pastor protestante (seu testemunho exclusivo foi publicado aqui)

Tradução de João Marcos – Assoc. São Próspero

Pastor protestante durante 15 anos, formado no Seminário Gordon-Cornwell, Marcus e sua família entraram na Igreja Católica em 20 de dezembro de 1992. Ele é o fundador e presidente da The Coming Home Network International, apostolado leigo dedicado a ajudar as pessoas a conhecer a Igreja Católica. Segue abaixo o seu depoimento sobre a cegueira espiritual em que viveu por longos anos.


UMA DAS EXPERIÊNCIAS mais comuns entre protestantes que se convertem ao Catolicismo é a descoberta de versículos “inéditos”. Mesmo depois de anos de estudo, sermões e ensino da Bíblia, algumas vezes do Gênesis ao Apocalipse, repentinamente um versículo "inédito" aparece como que por mágica, mudando toda a nossa vida. Algumas vezes se trata apenas de reconhecer um significado alternativo, mais claro de um versículo familiar, mas, geralmente, como ocorre com os versículos abaixo, parece que um católico entrou sorrateiramente em nossas casas e alterou a Bíblia!

A lista desses versículos surpreendentes não tem fim, dependendo da tradição religiosa do convertido; a seguir estão alguns que viraram a minha cabeça rumo a Roma.


Provérbios 3,5-6

Confia no SENHOR de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas."

Desde o dia da minha conversão (quando 'nasci de novo') aos 21 anos, este provérbio tem sido o versículo da minha vida. Ele foi um guia em todos os aspectos da minha vida e ministério, mas durante os meus 9 anos como ministro presbiteriano eu fiquei desesperadamente frustrado com a confusão do Protestantismo. Eu amava Jesus e acreditava que a Palavra de Deus era a única regra de fé infalível, mas o mesmo faziam milhares de ministros e leigos não presbiterianos que eu conhecia: metodistas, batistas, luteranos, pentecostais, independentes, etc, etc, etc... O problema é que todos chegavam a conclusões diferentes – algumas vezes radicalmente diferentes – a partir dos mesmos versículos. Como alguém “confia no Senhor de todo o coração”? Como ter a certeza de que não se está “estribando (apoiando) no teu próprio entendimento”? Todos temos diferentes opiniões. Um versículo no qual eu sempre confiei tornou-se nebuloso, impraticável e impossível de cumprir.


1 Timóteo 3,14-15

Escrevo-te estas coisas esperando ir ver-te bem depressa; Mas, se eu tardar, para que saibas como convém andar na Casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a Coluna e Sustentáculo da verdade."

Foi Scott Hahn quem me mostrou este versículo. Ele me perguntou: “Então, Marcus, qual é a coluna da verdade?” Eu respondi: “A Bíblia, claro”. E ele: “Ah é? Mas o que a Bíblia diz?”. “Como assim?”, perguntei. Quando ele me disse para ler esse versículo, eu não esperava encontrar alguma surpresa; eu ensinei e preguei sobre 1 Timóteo muitas vezes. Mas, quando li esse versículo, foi como se ele tivesse aparecido do nada, fiquei de queixo caído. A Igreja!? Não a Bíblia? Este versículo sozinho fez minha mente e toda a minha vida mudarem de direção; a questão sobre qual Igreja era essa eu ainda não estava preparado para responder.


2 Timóteo 3,14-17

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus.
Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra."

Os versículos 16 e 17 eram aqueles para os quais eu sempre acorria para fortificar a minha crença no Sola Scriptura (Só a Bíblia), então foram eles que eu decidi reexaminar. Logo de início 3 coisas ficaram bem claras:

1. Quando Paulo fala em "Escrituras", ele só podia se referir ao Antigo Testamento. O Novo Testamento só foi finalizado quase 300 anos depois!

2.
“Toda” a Escritura não significa “apenas” a Escritura.

3.
A ênfase do contexto (versículos 14-15) é a confiabilidade da Tradição oral que Timóteo recebeu da sua mãe e de outros – não o Sola Scriptura!


2 Tessalonicenses 2,15

Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa."

Este foi outro versículo “difícil de engolir” que Scott Hahn me mostrou. As tradições que aqueles cristãos primitivos tinham que conservar não eram apenas as cartas e os Evangelhos que comporiam o Novo Testamento, mas a Tradição oral. Ainda mais importante, o contexto das cartas de Paulo indica que seu meio favorito de transmitir “aquilo que recebemos” era oralmente; suas cartas eram um complemento não planejado, que lidavam com problemas imediatos –; inclusive sem mencionar o muito que as igrejas (comunidades da Igreja = atuais paróquias e dioceses) aprenderam com ele através do ensino oral.


Mateus 16,13-19

E, chegando Jesus às partes de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: 'Quem dizem os homens ser o Filho do homem?' E eles disseram: 'Uns, João o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas'. Disse-lhes Ele: 'E vós, quem dizeis que Eu sou?'. E Simão Pedro, respondendo, disse: 'Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo'. E Jesus, respondendo, disse-lhe: 'Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai, que está nos Céus'. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do Reino dos Céus; e tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus'."

Há tanto para se falar desta passagem, tantas coisas que me passaram despercebidas! Eu sabia que os católicos usavam este trecho para justificar a autoridade petrina, mas isso não me convencia. Ao ignorante, as palavras “Pedro” e “pedra” são diferentes, a ponto de ser fácil concluir que Jesus se referia à fé que Simão Pedro recebeu do Pai. Já os estudantes da Bíblia mais avançados, formados em seminários, como era o meu caso, sabiam que no idioma original, o grego (koiné), “Pedro” é a tradução de “Petros”, que significa “pedrisco” (ou pequena pedra), enquanto “pedra” é a tradução de “petra”, que significa “grande pedra” ou "rocha".

Mais uma vez, foi usada uma palavra diferente para Pedro e outra para a Rocha da Igreja, e então eu passei muitos anos pregando contra a autoridade de Pedro baseando-me nisso. Até que, ao ler o maravilhoso livro de Karl Keating, "Catholicism and Fundamentalism", eu me dei conta das implicações de algo que eu já conhecia: antes do grego havia o aramaico, o idioma no qual Jesus originalmente falava. Neste idioma, a palavra para Pedro e pedra é a mesma: kepha. Quando eu vi que na verdade Jesus disse: “Você é Kepha e sobre esta Kepha edificarei a minha Igreja”, eu sabia que estava em apuros.


Apocalipse 14,13

E ouvi uma voz do Céu, que me dizia: 'Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, e as suas obras os seguem'."

Durante anos, como pastor calvinista, eu recitei este versículo em funerais. Eu acreditava e ensinava o Sola Fide (Só a Fé justifica), negando qualquer valor das obras para o processo da nossa salvação. Mas um dia, depois do último funeral que ministrei, um familiar do falecido me encurralou: “O que você quer dizer com ‘as suas obras o seguem?’”.

Não lembro da minha resposta, mas esta foi a primeira vez que eu atentei para o versículo que recitava. Isto iniciou uma longa pesquisa sobre o que o Novo Testamento e os Pais da Igreja Primitiva ensinaram sobre a misteriosa, mas necessária, conexão entre nossa fé e nossas obras.


Romanos 10,14-15

Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?"

Eu sempre usava esta passagem para defender a importância da pregação, e para explicar por que desisti da engenharia pelo seminário e pelo grande privilégio de ser um pregador do Evangelho! E nunca me preocupei com a frase que falava sobre a necessidade de ser “enviado”, já que eu podia apontar para a minha ordenação, quando um grupo de ministros locais, anciões, diáconos e leigos impuseram suas mãos na minha cabeça suada para enviar-me "em Nome de Jesus". Mas então, primeiramente através do estudo dos Pais da Igreja e depois pelo reexame do contexto em que as cartas de Paulo foram escritas, eu percebi que Paulo enfatizava a necessidade de ser “enviado” porque na época das suas cartas ele combatia as influências negativas, heréticas, de falsos mestres que ordenaram a si mesmos. 

Eu nunca me vira como um falso mestre, mas sob qual autoridade aquelas pessoas me ordenaram? Quem as ordenou? Nisto eu pude perceber a importância da Sucessão Apostólica (Apóstolo = aquele que foi enviado, ordenado).


João 15,4 e 6,56

Estai em Mim, e Eu em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em Mim."
Quem come da minha Carne e bebe do meu Sangue permanece em Mim e Eu nele."

O livro da Bíblia mais utilizado em minhas pregações foi o Evangelho de João, e o capitulo que concentrava meus sermões era o capítulo 15, a analogia da videira e dos ramos. Eu bombardeei "minhas igrejas" com a necessidade de permanecer em Cristo. Mas o que isso significa? Eu tinha a minha resposta, mas quando eu vi “pela primeira vez” o único versículo onde o próprio Jesus explica claramente o que devemos fazer para permanecermos nEle, eu fiquei em choque. “Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim, e Eu nele”... Isto me levou a estudar uma tonelada de versículos de João, 6, que “eu nunca tinha visto” e, no fim, quando aceitei as palavras de Jesus sobre a Eucaristia, eu só tinha uma resposta: “Onde mais poderemos ir? Apenas tu tens as palavras da vida!”.


Colossenses 1,24

Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu Corpo, que é a Igreja."

Não sei se evitei intencionalmente ou não este versículo, mas o fato é que nos primeiros 40 anos da minha vida eu nunca vi essa passagem. E para ser honesto, quando eu finalmente a vi, eu continuava sem saber o que fazer. Nada na minha formação luterana, congregacionalista ou presbiteriana me ajudou a entender como alguém poderia se regozijar no sofrimento, e muito menos porque alguma coisa era necessária para completar as aflições de Cristo: não havia nada para completar! O sofrimento, morte e ressurreição de Cristo foram suficientes e completos! Afirmar qualquer coisa menor do que isso é atacar a suficiência da Graça de Deus! Mas, de novo, estas são as palavras de Paulo na Bíblia, que é infalível. E nós devemos imitá-lo como ele imitou Jesus. Eu precisei ler uma encíclica do Papa João Paulo II para compreender o belo Mistério do sofrimento redentor.


Lucas 1,46-49

Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na baixeza de sua serva; pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque me fez grandes coisas o Poderoso; E santo é seu nome!"

Finalmente, o obstáculo mais difícil para muitos protestantes que se converteram: Nossa Senhora. Na maior parte da minha vida, a única ocasião em que lembrava de Maria era no Natal – e para meu horror, como uma estátua! – Mas eu nunca a chamei “Bem-Aventurada” (ou bendita), apesar da Bíblia dizer que todas as gerações a chamarão assim. Por que eu não fazia isso? Isto me levou a ler outros versículos pela primeira vez, incluindo João 17, onde Jesus deixa sua mãe aos cuidados de João ao invés de qualquer suposto irmão. Então, pela Graça divina, em imitação ao meu Senhor, Salvador e eterno irmão Jesus, eu passei a reconhecê-la como minha Mãe amada.

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Fonte:
Coming Home network, 'The Verses I Never Saw',
disp. em:
chnetwork.org/2011/06/the-verses-i-never-saw-marcus-grodi/

Acesso 15/6/016

Multiplicam-se as profanações: vivemos a hora e o poder das trevas?

AGORA JÁ É possível dizer claramente e com todas as letras aquilo que não se pode mais ignorar; nestes nossos dias é praticamente impossível não perceber que algo muito importante está em curso no mundo, uma mudança radical que se insinua e está sendo operada, e que vai culminar em algo grande, tremendo. Não cessam e se multiplicam as notícias de templos profanados, Sacrários destruídos, imagens e símbolos sagrados usados em atos sacrílegos, etc. Os sinais mencionados nas profecias da Santíssima Virgem vem se cumprindo de modos que não se pode ignorar, e o vemos na medida em que o ódio totalmente gratuito (e claramente diabólico) aos valores cristãos vêm se tornando mais e mais violento, e o desrespeito a tudo o que sequer insinue a moral que construiu a nossa civilização vai se tornando insuportável.




9/jun/016 – No Chile, a paróquia da Gratitud Nacional (administrada pelos salesianos) na região central, foi atacada por um grupo de encapuzados furiosos que arrombou uma porta lateral e roubou diversos objetos, inclusive uma imagem de Cristo crucificado em tamanho natural, e a destruiu em plena via pública, no meio da Avenida Libertador Bernardo O’Higgins. O crime aconteceu após uma manifestação estudantil no centro da cidade. Apesar de ter sido um ato ostensivo, não houve reação imediata da polícia ou da população. Até o presente, ninguém foi preso.

Cada vez é mais nítida a separação global: de um lado, as pessoas de bem, que entendem a diferença entre bem e mal, certo e errado; gente que ama a Deus e ao próximo e quer o direito de educar os próprios filhos segundo os valores nos quais foram educados. De outro lado, a turma que entende que defecar nas ruas é "protesto", que profana igrejas e símbolos sagrados, que invade os templos para sequestrar imagens sacras e destruí-las em praça pública, que arromba os Sacrários e rouba Hóstias consagradas para pisoteá-las ou usá-las em rituais satânicos. Gente que defende a fúria dos terroristas islâmicos e grita contra uma tal "islamofobia" que só eles enxergam, mas protesta em frente às igrejas católicas contra a "opressão" dos cristãos. 

Nesta realidade alarmante, o que anima é que ainda somos a maioria. Estes grupos representam, ao menos por enquanto, "apenas" uma minoria barulhenta e muito ativa.

O que preocupa é que eles são tudo o que não somos: extremamente empenhados, dispostos, unidos e organizados em prol dos seus objetivos nefastos. Não cessam de criar meios e atos para promover suas ideias, pelas quais vem arrebanhando um número cada vez maior dos nossos jovens. Pior ainda: os professores de nossas escolas – os educadores dos nossos filhos –, em absoluta maioria, estão do lado deles.




Ainda assim, podemos dizer, por enquanto, que nem tudo está perdido. Na última semana (16 de junho/016), em Valencia, Espanha, uma multidão de milhares de fiéis atendeu ao chamado do Arcebispo local, Dom Antonio Cardeal Cañizares Llovera (foto), participando do ato de desagravo à Santíssima Virgem, lotando a Plaza de la Virgen naquela cidade (imagens acima).

O Cardeal convocou o ato em reação ao que chamou “grave profanação” promovida pela organização do “Dia do Orgulho LGBT”, que divulgou um pérfido cartaz em que duas figuras de mulheres, ambas representando a Virgem Maria, aparecem se beijando. O Arcebispo fez constar sua “rejeição enérgica e plena” ao que qualificou como profanação “injusta e gratuita”.

O laicismo na Espanha ataca de modos cada vez mais extremos a Igreja, por sua vez cada vez mais fragilizada e temerosa. O Cardeal Cañizares, ao se posicionar publicamente contra esta corrente, tem sido alvo da ira dos filhos das trevas.

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Com Fratres in Unum, em:
https://fratresinunum.com/2016/06/19/foto-da-semana-284/
Acesso 20/6/016

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Sobre a capa criminosa da Veja

HÁ MENTIRAS QUE SÃO DITAS usando uma verdade como instrumento. Os que usam a verdade para conduzir à mentira são mais criminosos do que os que usam a mentira como instrumento de trabalho.



A revista Veja trouxe na capa desta semana (15/6/016) um caso de pedofilia envolvendo um padre em Goiás. Segundo a reportagem, Fabiano Santos Gonzaga, 28, abusou de um adolescente de 15 numa sauna de um clube. O garoto tem retardo mental e sua compreensão do mundo é próxima a de uma criança de 9 anos de idade. Segundo a denúncia, o padre, ao ficar sozinho com o menino, obrigou-o a fazer sexo oral. Ao que consta, o menino, depois, sem entender bem a gravidade do ocorrido, pediu à mãe para lavar a boca, justificando o porquê. A mãe foi atrás do abusador e descobriu, posteriormente, que era um padre católico. O padre nega o ocorrido, mas, devido o seu celular ter sido apreendido, já se sabe que ele não vivia a castidade e mantinha relações homossexuais.

Um caso escandaloso, sem dúvida, e mais do que isso. Todavia vejamos não somente os terríveis fatos, mas também os bastidores do caso. Da notícia resumida acima, a revista Veja dá uma capa com manchete em letras garrafais: “PEDOFILIA NA IGREJA”. Acompanha o titulo sensacionalista a imagem de um falso padre vestido de batina, segurando um Terço e tampando a boca de uma criança assustada. 

Convenhamos que a intenção caluniosa e difamatória da redação da revista é clara, e só se admite num país de hipócritas como é o Brasil. Nesta capa a Veja nos dá uma aula de vigarice. Em primeiro lugar, a ética jornalística determina que nunca se use termos genéricos em casos específicos, e principalmente não se associe qualquer instituição a delitos de seus membros, quando estes agem por orientação própria e contrariando as determinações daquela.

O que se pretende com isso? É evidente que atacar um padre específico não basta. Isso seria trabalho de amador. O que a grande Imprensa deseja é atacar a Igreja. A Veja não quis simplesmente publicar a foto do acusado. Não... assim não poderia praticar o seu terrorismo plenamente: o padre criminoso evidentemente não usa batina e nem havia imagem dele levando o Terço nas mãos. Coube à edição da revista fazer essa montagem criminosa. A culpa, então, já não era mais do padre Fabiano, mas da Igreja Católica.

Curioso, mas a pesquisa do sociólogo italiano Massimo Introvigne demonstrou, em 2010, que num período de várias décadas, cem (100) padres foram denunciados na Itália, enquanto 6 mil professores de Educação Física sofriam condenação pelo mesmo delito. Na Alemanha, desde 1995, existiram no total 210 mil denúncias de abusos. Destas 210 mil, 300 estavam ligadas ao clero. Menos de 0,2%. Por que a Imprensa se empenha tanto em comentar, sempre, esta ínfima minoria no quadro geral? 

Sim, somos os primeiros a concordar que, ainda que houvesse apenas um único caso de pedofilia envolvendo um padre, isto seria um crime monstruoso e um absurdo lamentável. Não desejamos justificar nenhum crime, pelo contrário: padres que comprovadamente se envolveram em pedofilia devem ser expulsos do clero e presos. Não é isso o que estamos questionando aqui. O que questionamos é a clara tentativa  de se impor à Igreja uma pecha absolutamente injusta. Negar a proporção dos fatos concretos é render-se à mentira. 

Alguém poderia contra-argumentar que o importante é que exista o crime, e não a quantidade de casos. Mas o fato é que nenhuma instituição está livre da pedofilia, e o crime está em querer se associar o prolema à Igreja, como se ela fosse sua causadora ou incentivadora em algum nível, o que simplesmente não é verdade. Insistimos que é uma vergonha que exista um membro da Igreja envolvido nisso, mas negar as devidas proporções do crime é a lógica dos desonestos.

Certamente não faltará quem indague: “Até quando a Igreja manterá o celibato sacerdotal?”, e responderemos com uma outra indagação: o que levaria a crer que um homem que se abstêm de sexo passe a sentir atração por crianças(!)? E como perguntar não ofende, indagamos à editora Abril, que publica a Veja, se a erotização das crianças com o bombardeio sexual em revistas como a “Nova Escola” não poderia, com bem maior propriedade, gerar algum tipo de fomento da pedofilia e da pederastia. 





Bem, sabemos que para bater na Igreja qualquer instrumento serve. No Brasil, na CPI da Pedofilia, por exemplo, foi considerada "prova de crime de pedofilia" um vídeo em que Luis Marques Barbosa, falecido em 2014, mantinha relação homossexual com uma "criança de 20 anos"(sic). Afinal, quem estava sendo abusado? O "bebê" de 20 anos ou o ancião de 83?. Evidente que Barbosa, sendo padre, deveria praticar o celibato que jurou guardar. Mas não se chame pedofilia o que simplesmente não é. Enquanto qualquer argumento – e todos os expedientes, inclusive montagens de capa criminosas – for considerado válido para atacar a honra da Igreja, não haverá discussão séria, em nosso país e no mundo.

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Texto-base de Renato Aquino para o portal Fides Press

Fonte:
Fides Press, disp. em
http://fidespress.com/igreja/capa-criminosa-de-veja-associa-igreja-pedofilia/
Acesso 16/6/016
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Reencarnação: uma análise racional, lógica, moral e espiritual


** Leia a primeira parte desta série

NESTE PROSSEGUIMENTO de nossa abordagem da teoria da reencarnação, partimos para a contemplação de alguns aspectos fundamentais –, os mais essenciais dentre todos –, na compreensão do assunto como um todo, e que é ordinariamente negligenciado tanto pelos defensores quanto pelos críticos da mesma teoria.


Aprendizado, evolução, consciência e memória

A melhor maneira de começar a elucidar o problema é partindo de um exemplo prático bastante corriqueiro. Vejamos...

Eu tenho um cão. Não foi nada fácil, mas ele aprendeu a fazer as suas necessidades fisiológicas no lugar certo. Sabe por quê? Porque muitas vezes eu o surpreendi no ato de sujar a sala ou o corredor e o repreendi energicamente, falando alto e com firmeza: “Não pode!”, e imediatamente o levei para o local adequado. Esse método funciona porque, com a repetição, o cão acaba associando o ato à reprimenda. Com muita persistência e a repetição constante, ele termina por antecipar que será repreendido se usar outro local para suas necessidades que não seja o indicado. A prática de procurar o local certo, por fim, torna-se automática. Vitória!

Mas se você vir o cachorro fazendo suas necessidades num local inconveniente, esperar uma hora e só depois repreendê-lo, isso não vai funcionar. Ele não vai aprender nada desse jeito. Por quê? Ora, porque ele não sabe a razão de estar sendo repreendido! Nesse caso, puni-lo seria pura perda de tempo e até crueldade. Dadas as óbvias diferenças (que muita gente ultimamente parece não ser mais capaz de perceber) entre animais e seres humanos, o mesmo acontece com as crianças. Se uma criança não souber porque está sendo repreendida ou castigada, se ela não se lembrar o que fez de errado para merecer a "bronca", não vai aprender. Todo castigo dado sem explicação será cruel e injusto. Portanto, é claro, também às crianças – assim como a qualquer aprendiz, em qualquer idade – convém admoestar em tempo hábil.

Pois bem. Segundo a teoria da reencarnação, analogamente todos nós estaríamos na mesma condição do cão punido uma hora depois da travessura. Estaríamos respondendo por crimes que nem sabemos que cometemos. Bem, se eu não me lembro de nada, a punição será sempre cruel e injusta para mim. E ainda que não se use o termo "punição" (que os espíritas não apreciam), a ideia é exatamente a mesma: responder hoje por atos esquecidos, cometidos em uma outra vida.

Para esclarecer ainda mais o nosso ponto de vista, usaremos de outro exemplo bem prático: suponhamos que você esteja aprendendo a dirigir. Você não entende nada da condução de veículos automotores. Procura um professor; na primeira aula ele começa a lhe ensinar tudo o que você tem que fazer: como acionar o motor, acelerar e frear, trocar as marchas, usar os faróis e setas. Passam uma hora inteira juntos, praticando. A aula termina, você vai para casa, finda o dia e chega a noite; vai dormir satisfeito. Mas, no dia seguinte, você acorda tendo esquecido tudo o que o professor ensinou! Então volta à autoescola para a segunda aula; como não se lembra da aula anterior, porém, o professor vai precisar recomeçar a instrução inteira novamente, a partir do zero, porque tudo o que lhe foi transmitido foi perdido e a aula anterior não valeu de nada.

É um fato muito simples e claro como água. Se você esquece de tudo, o aprendizado volta à estaca zero, simplesmente porque a aprendizagem é um processo cumulativo (além de dinâmico, pessoal e gradativo). É mais do que óbvio que ninguém nunca seria capaz de "evoluir" dessa forma. Você nunca poderia aprender nada, se continuasse perdendo a sua memória de uma existência para outra. O aprendizado é como a adição: todo dia você vai acrescentando conhecimento e experiência, até chegar ao ponto desejado. Esse total é o que você aprendeu até agora, o seu verdadeiro grau de evolução, seja intelectual ou moral. Todavia sem memória ativa não pode haver aprendizado.

Como vemos, o "detalhe" que faz toda a diferença é que a memória é bem mais importante do que costumamos considerar. A memória, de fato, representa um dos componentes mais básicos das nossas consciências. Em última análise, poderíamos mesmo dizer que a memória é aquilo que somos, o que você é, o seu "eu" real, o seu "self". Se você retira a memória de um indivíduo consciente e pensante, esse indivíduo simplesmente deixa de existir enquanto pessoa, tornando-se como um vegetal.

Agora imaginemos que um certo Sr. Silva viveu criminosamente, por algum tempo. Ele poderia perfeitamente, em algum momento da sua vida, vivenciar uma retomada de consciência e mudar o seu proceder a partir daquele ponto. Consequentemente, se ele resolve mudar de atitude, toda a sua vida muda para melhor. Mas o que possibilitou essa mudança? Uma decisão pessoal. O Sr. Silva vinha agindo de uma determinada maneira, mas depois de algum tempo se arrependeu e reviu as suas atitudes. Podemos nos arrepender de um mal feito, por vários motivos: ao vermos um semelhante que sofre por nossa causa, por entendermos que somos também responsáveis pelo bem da coletividade, por compaixão, por medo de punição ou simplesmente por entendermos que fazer o bem é, em algum nível, mais gratificante do que praticar o mal.

Muito bem. Acontece que, mais uma vez, esse tipo de mudança para melhor só é possível quando o indivíduo faz uso da memória. Se eu não me lembro de algo ruim que fiz, como poderia optar pela mudança? Somente se eu me lembro do que fui, do que fiz de ruim e das consequências dos meus atos, é que posso me arrepender. Como alguém poderia se arrepender de algo que nem sabe que fez? Como escolher o melhor caminho para a sua vida, sem a memória das experiências vividas? É por se lembrarem do mal que fizeram (e das consequências dos seus atos) que algumas pessoas resolvem procurar alguém que prejudicaram, para se desculpar e/ou tentar compensar de algum modo o mal feito, com o compromisso de não repetir o mesmo erro. Eis a verdadeira evolução espiritual.



As inclinações naturais

Dependendo da sociedade em que nascer, você será uma pessoa totalmente diferente. Se você tivesse nascido no Japão, hoje seria uma outra pessoa, não só com costumes diferentes, mas também com valores morais diferentes daqueles que tem. Se tivesse nascido nos EUA, na África ou na Europa, idem. Tendências naturais fora do seu controle equivalem a boa parte do que você é, e este é um fato científico fartamente comprovado em estudos diversos. É um fato tão inescapável que Nosso Senhor Jesus Cristo o esclareceu – porque poderia aparentar uma injustiça divina que nem todos recebam as mesmas capacidades e oportunidades nesta vida – que cada um será cobrado conforme aquilo que lhe foi dado (Lc 12,47-48).

Ainda assim, caro leitor, a sua personalidade não poderia se desenvolver dentro de nenhum sistema cultural sem o uso da sua memória. Seja você brasileiro, indiano, chinês, nigeriano ou alemão, imagine se hoje você ensina ao seu filho sobre quem ele é, sobre a sua família, sua cultura e bons valores, e também sobre o certo e o errado. Além disso, nesse mesmo dia ele aprende, por experiência própria, que botar a mão sobre a chama acesa do fogão é algo muito perigoso. Bem, ele aprendeu coisas importantes nesse dia. Evoluiu enquanto ser consciente. Mas agora imagine que, amanhã, ele simplesmente vá acordar sem se lembrar de nada do que ocorreu hoje! O que aconteceria? Tal criança não seria capaz de absolutamente nenhum progresso, seja moral, intelectual ou de qualquer outra ordem. Não seria possível evolução alguma na vida de uma pessoa assim, e ela viveria até o último dos seus dias repetindo sempre e sempre as mesmas experiências, sem aprender nada, nunca.

Somos aquilo que sabemos que somos, isto é, o que lembramos que somos, e isso não é teoria, é fato científico. Alguns talvez se lembrem da comédia "Como se fosse a primeira vez", protagonizado por Drew Barrymore e Adam Sandler. Numa cena hilária, o protagonista procura a mocinha (que tem um transtorno de memória crônico adquirido num acidente) numa clínica especializada, e lá encontra um paciente cuja memória recente dura apenas alguns segundos. Os dois se cumprimentam e se apresentam, mas, logo em seguida, após algumas poucas palavras trocadas, o homem volta a se apresentar. Os dois novamente se apertam as mãos e dizem seus nomes, mas... alguns segundo depois, o doente se esquece e volta a se apresentar. Uma cena cômica, mas esse tipo de transtorno existe e na vida real não tem nada de engraçado. Um ser humano com uma doença desse tipo é como um zumbi, um morto-vivo. Exatamente como seria a alma humana, migrando de um corpo para outro, indefinidamente, sem nunca se lembrar quem foi ou o que fez em sua existência anterior: marcando passo eternamente na mesma situação, indefinidamente, incapaz de usar a experiência adquirida para melhorar. É assim que, inexorável, inevitável e obviamente, a teoria da reencarnação, enquanto processo evolutivo, cai por terra.


A lei do carma e o livre-arbítrio

Muitos reencarnacionistas acreditam no carma ou karma. Outros tantos dizem que não, mas na realidade o conceito de ação e reação "cármica" (que é bem diferente da lei física de ação e reação), isto é, a crença de que vamos todos receber o retorno do que fizemos, nesta vida ou na outra, está sempre presente. Alguns tentam argumentar dizendo que a coisa não é assim tão simples, que a questão toda envolve um complicado processo evolutivo, mas o fato é que esse processo implica sempre um conceito idêntico ao do carma. Um conceito impossível de aceitar, se fizermos uso do nosso discernimento mais elementar, livre de apegos à qualquer doutrina. Se não, vejamos:

O carma seria como uma força invisível e irresistível que está sempre a registrar tudo que você faz, a cada momento, para depois manipular circunstâncias para que você sofra ou goze, dependendo do mal ou do bem que fez, nesta ou em alguma outra vida. Sem dúvida um sistema incompatível com o livre-arbítrio e ainda mais incompatível com o conceito cristão do perdão incondicional e da gratuidade. Segundo a teoria da reencarnação, Deus perdoa, desde que você pague. Isto é perdão? Jesus nos ensinou a pedir: "Perdoai as nossas dívidas". O que é perdoar uma dívida? Esquecer essa dívida, deixar para lá, como se ela nunca tivesse existido, ou obrigar o devedor a pagar o que deve, de um jeito ou de outro? Se a sua dívida tem que ser paga, de qualquer maneira, nesta vida ou na outra, faz sentido pedir perdão para as nossas dívidas? Não; elas serão saldadas de qualquer maneira.

Isto significaria que o Perdão divino na verdade não existe, e que nenhuma dívida poderia ser perdoada: todas elas precisariam ser pagas, inexoravelmente, sem escapatória, sendo esta uma lei espiritual/universal imutável. E se esta é uma lei inapelável, então as pessoas não são livres.

Olhando mais de perto, veremos que esta lei estaria, na maior parte das vezes, usando uma pessoa para punir outra. Ora, se alguém me dá uma surra porque eu surrei uma outra pessoa, nesta ou numa outra vida, onde está o livre-arbítrio da pessoa que surgiu para me dar uma surra, como reação pelo que eu fiz? Essa pessoa está agindo, hoje, como compensação pelo que eu fiz ontem, mas... Agora ela vai ter que receber a compensação dela também!? Nesse exemplo hipotético, precisaria depois surgir um terceiro, para surrar o segundo, e depois um quarto para surrar o terceiro e assim sucessivamente, sem fim... Ou então, ele me surra hoje, e amanhã eu volto a surrá-lo, depois ele me surra novamente, sendo um ato a reação do outro ato, ad infinitum. Claro que aqui estamos falando em surras como metáfora para todas a más ações que praticamos na vida.

Consideremos o caso real de uma mulher que foi vítima de um cruel assaltante: ele a baleou, o tiro atingiu sua coluna vertebral e a condenou a passar o resto da vida numa cadeira de rodas. Se isso foi a consequência de algo que ela fez em outra vida, então o assaltante está apenas cumprindo a Justiça divina, manifestada nessa suposta lei de ação e reação espiritual, fazendo a mulher pagar sua dívida. Mas não estaria ele próprio iniciando uma ação, usando o seu livre-arbítrio? E então, estaria ele também gerando carma ruim para si mesmo. Se for esse o caso, se ele está iniciando uma ação fazendo uso do seu livre-arbítrio, então não podemos explicar o sofrimento com base em vidas passadas, porque para alguém iniciar uma ação é preciso que tenha o direito de fazer o que quiser, independentemente do que aconteceu em uma outra vida. É um poço sem fundo, um círculo vicioso sem solução, sem razão de ser e completamente insano.

Outro exemplo: se um homem resolve estuprar a primeira mulher que passar no beco, tarde da noite, usando seu livre-arbítrio, essa mulher não tinha nada a ver com isso. Ele usou o seu livre-arbítrio para fazer o mal a uma pessoa inocente. Dizer que a moça estuprada tinha algo para pagar ou aprender também não explica nada, porque sempre teria que existir uma equivalência proporcional entre os que decidem prejudicar alguém e os que devem ser prejudicados para pagar as suas dívidas. Em outras palavras, as circunstâncias teriam que ser manipuladas o tempo todo, para levar os que querem punir alguém ao encontro dos que precisam ser punidos.

Esta noção não pode ser compatível, de modo algum, com o conceito de livre-arbítrio. O tipo de controle que o carma teria que exercer sobre todas as pessoas e coisas seria algo injusto para todos. É muito mais coerente afirmar que as pessoas fazem o que querem e sofrem as consequências por isso nesta vida –, de acordo com as circunstâncias específicas de cada caso –, do que crer na atuação de uma força invisível que a tudo controla, numa sucessão de vidas sem fim. O estuprador poderá sofrer com um peso na consciência, que vai carregar para o resto da vida. Suas noites de sono não serão as mesmas. Mas ele também pode ser um daqueles tipos realmente frios, que não sabe o que é consciência: ainda assim, ele viverá sob o risco de ser preso a qualquer momento, se a mulher voltar a vê-lo e chamar a polícia. Há também o risco de o marido ou algum parente dela decidir fazer justiça por conta própria. Ele viverá, então, sob o efeito do medo, desconfiado, sentindo-se constantemente ameaçado. Enfim, sua má ação poderá gerar "N" consequências em sua vida. Esta é a lei de ação e reação que a simples observação do mundo natural demonstra ser real. E assim é muito mais simples, prático e justo para todos.

O livre-arbítrio exige acaso. Somente pode existir liberdade num sistema imprevisível. Nosso direito de decidir o que é certo e errado precisa, além da memória, da liberdade.
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