No Iraque, seminarista que resgatou Eucaristia do Estado Islâmico é ordenado sacerdote


BAGDÁ, 28/9/016 – No último fim de semana foram ordenados 7 sacerdotes católicos no Iraque, entre eles o jovem Martin Baani (foto), de 26 anos, que em agosto de 2014 arriscou a própria vida para salvar o Santíssimo Sacramento da igreja de seu povoado e evitar que fosse profanado pelo famigerado "Estado Islâmico" (EI ou ISIS).

Segundo informações da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), aproximadamente 500 pessoas estiveram presentes na cerimônia de ordenação, na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Erbil, capital do Curdistão iraquiano e sede do governo regional curdo. A Eucaristia foi presidida por Dom Louis Raphaël Sako, Patriarca da Igreja Católica Caldeia, o qual disse que este acontecimento é “um grande sinal de esperança em um momento de grande crise”.

Ao final da Missa, o Pe. Martin Baani pronunciou algumas palavras e agradeceu a Deus pelo apoio da sua família, da Arquidiocese de Mossul e do seu diretor espiritual, Pe. Thabet. “Vamos voltar para uma Mossul liberada”, disse o Pe. Baani, enquanto a igreja aplaudia.

O novo sacerdote permanecerá durante algum tempo em Bagdá, para receber formação do Patriarca caldeu, e logo será transferido à cidade de Duhok. Ele gostaria de ser pároco do seu povoado natal, quando este estiver liberado. Desde 6 de agosto do ano 2014, Martin tornou-se um refugiado, depois que o EI atacou seu povoado, Karamlesh. Depois do ataque, a família de Baani emigrou ao estado da Califórnia (Estados Unidos), entretanto, Martin decidiu ficar com os jovens refugiados iraquianos para recuperar e reconstruir suas comunidades cristãs.

“Todos os dias vou aos campos de refugiados cristãos para acompanhar as famílias. Somos cristãos refugiados. O ISIS quer acabar com o cristianismo do Iraque, mas eu decidi ficar. Amo Jesus e não quero que a nossa história desapareça”, disse Martin há alguns meses à Raquel Martín, responsável pela comunicação da agência ACN.

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Fonte:
ACI Digital, disp. em:
http://www.acidigital.com/noticias/iraque-seminarista-que-resgatou-eucaristia-do-estado-islamico-e-ordenado-sacerdote-16721
Acesso 28/9/016
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Existe algum partido político que representa de verdade os católicos?

Na Itália, não existia nenhum. Mas surgiu o 'Popolo della Famiglia', para 'oferecer representação a quem foi traído pelos parlamentares'



Por Francisco Vêneto – Aleteia

MASSIVAS, HISTÓRICAS e decididas manifestações pró-família tomaram conta das ruas da Itália ao longo de 2015 e 2016 em reação aos avanços da chamada ideologia de gênero nas escolas do país.

Como acontece frequentemente no universo paralelo da política, porém, o clamor das ruas foi solenemente ignorado e desprezado pelo senado da Itália, que, pressionado por lobbies, decidiu equiparar as uniões civis homossexuais ao Matrimônio natural entre um homem e uma mulher que, indissoluvelmente e por amor, se comprometem entre si e com a abertura de si mesmos à concepção e à criação dos próprios filhos.

Imediatamente após este passo, os lobbies ideológicos já avançaram para as suas próximas metas: legalizar a adoção de crianças por qualquer um dos assim chamados “arranjos familiares”, incluindo pessoas solteiras e parceiros do mesmo sexo; agilizar mais ainda o divórcio, tornando o compromisso matrimonial cada vez mais superficial e inconsequente; e levar adiante nada menos que quatro projetos de lei para liberalizar a eutanásia.

O clamoroso desprezo político pela vontade popular, no entanto, levou a uma reação católica.

Gianfranco Amato, presidente dos Juristas pela Vida e um dos organizadores das manifestações pró-família no país, e Mario Adinolfi, redator-chefe do jornal católico “La Croce” ('A Cruz'), anunciaram o nascimento do partido político “Povo da Família” – em italiano, “Popolo della Famiglia”.

Adinolfi é explícito: “A Itália precisa dos católicos”.

Ele diz que o Popolo della Famiglia, porém, vai além dos limites confessionais e pretende “oferecer representação a todos aqueles que são constantemente traídos no parlamento pelo voto de ‘representantes’ que ignoram as exigências concretas manifestadas com clareza pela população”. E exemplifica, entre essas manifestações, o protesto massivo de 30 de janeiro de 2016, em Roma, contra a equiparação entre as uniões civis e o matrimônio natural. Adinolfi ainda aproveita para desmascarar hipocrisias: “Alguns [dos políticos que depois votaram a favor dessa equiparação] tinham até estado presentes na manifestação…”.

O comunicado de lançamento do Popolo della Famiglia faz aberta referência à “ajuda de Deus e ao olhar benevolente de Nossa Senhora”. Adinolfi reafirma que o partido não quer esconder a sua “clara inspiração” nem a sua evidente “raiz cultural” católica. E destaca, diante de uma sociedade laicista e intolerante, disfarçada justamente de “tolerante”: “Nós não temos vergonha de pedir a ajuda de Deus. Eu espero que isto não escandalize as pessoas!”.

A propósito de “tolerância”, Mario Adinolfi avisou que “cada insulto aumenta dez vezes as nossas energias” e relatou: “Pessoalmente, eu recebo milhares [de insultos] por dia, já que decidi me expor nas redes sociais sem filtros e aceitando toda crítica e ataque. E vieram ataques pesadíssimos, inclusive contra a minha família, contra a minha filhinha que só tem cinco anos!”.

Por outro lado, quando o Popolo della Famiglia tornou público e oficial o seu compromisso político, “as ofensas recebidas foram até menores”, conta ele. “Já os incentivos vieram de milhares de pessoas, que já se disseram decididas a colaborar”.

Trata-se, afinal, de algo raro, talvez inexistente, no cenário político atual: um partido com uma proposta católica explícita. Adinolfi confirma: o fato é “único na paisagem política dos partidos de hoje, todos sem entusiasmo. Nós despertamos muitíssimo entusiasmo em poucas horas (…) Eu acredito que [nas eleições de junho na Itália] nós vamos sorrir por ter dado esperança e futuro a um povo que não tem nenhuma vontade de se resignar”.

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Fonte:
Portal 'Aleteia', disp. em:
http://pt.aleteia.org/2016/03/17/existe-algum-partido-politico-que-representa-de-verdade-os-catolicos/
Acesso 25/9/016
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Sobre o voto católico – como deve votar o cristão?


EXISTE "VOTO CATÓLICO"? Alguns entendem que não. Na realidade essa pergunta pode ser respondida em diversos níveis. Fixaremos esta nossa reflexão em dois deles.

No primeiro nível, o sociológico, a resposta é relativamente simples: se, por "voto católico" se entende a opção que os católicos manifestam nas urnas durante as eleições, é claro que existe "voto católico", entendido simplesmente como a opção ou o "voto dos católicos", porque baseado em suas convicções e escolhas fundamentadas naquilo em que creem. 

Muito bem. Vemos também, com esta primeira resposta, que geralmente a vontade católica se dilui nas respostas dadas pelas urnas, como um dado marginal que não tem especial importância na hora de se escolher os governantes. Isso porque os votantes, segundo alguns, participam nas eleições simplesmente como cidadãos, não como católicos. Embora o nosso enfoque por aqui esteja, por motivos óbvios, concentrado na ação católica, podemos tranquilamente dizer o mesmo quanto aos protestantes ou "evangélicos": ainda que sociologicamente possamos dizer que votaram católicos e protestantes, isto de maneira alguma se reflete nos resultados das eleições, se considerarmos que vivemos num país de confissão de esmagadora maioria cristã (aponta o IBGE que quase 90% da população brasileira, entre católicos e protestantes, se declara cristã).

Em eleições recentes, assistimos a uma brava luta da parte dos cristãos em geral na tentativa de conscientizar a população em não eleger candidatos favoráveis à legalização do aborto. Ainda assim, a candidata cujo partido traz, em seu programa de governo, o compromisso de viabilizar o aborto no Brasil (além de uma série de favorecimentos a questões contrárias à fé dos cristãos, como o incentivo à ideologia de gênero) foi eleita. Isso demonstra que a fé do povo tem um peso totalmente secundário na hora do voto. 

A partir daí podemos buscar uma segunda resposta, num nível mais profundo, para o que verdadeiramente define o voto católico: consistiria este num modo de decidir sobre as diferentes possibilidades eleitorais segundo a visão que nasce a partir da própria fé católica.

Esta segunda resposta nos lança numa nova pergunta: Existe no Cristianismo, na Igreja Católica, uma doutrina que se reflita diretamente em consequências sociais, políticas e eleitorais?

Como vimos, constatamos, com perplexidade, que, no passado e no presente, cristãos dão seu voto tranquilamente a propostas políticas não só muito diferentes entre si, mas também algumas gravemente imorais. Alguns exemplos externos: na Alemanha, houve católicos que ofereceram seus votos a um partido claramente anticatólico, o nazista. Em outros países, houve e há católicos que votaram em partidos políticos que promovem o ódio de classes (socialismo ou comunismo), ou que estão a favor de um capitalismo selvagem que pisoteia os direitos dos trabalhadores, ou que se caracterizam por uma mentalidade belicosa que origina guerras injustas, ou que faltam gravemente ao respeito que merece a liberdade religiosa e de consciência, ou que fomentam a destruição da família, etc.

Diante desta situação, damo-nos conta de que o voto católico não pode ser visto simplesmente em chave sociológica, senão que a identidade própria da fé cristã deve se fazer visível e ter consequências práticas nas eleições políticas.

Um católico que vote realmente como católico, por exemplo (dos mais óbvios), tem que deixar de lado os partidos que defendem o aborto e apoiar partidos promotores dos direitos dos filhos antes de nascer. Um católico que vote como católico estará contra qualquer partido racista ou que fomente a ideologia da luta de classes.

Causa uma profunda dor descobrir que muitos católicos não chegam a compreender o nexo que existe entre a sua fé, com todas as riquezas que contém, e o seu modo de participar da vida política. Às vezes, isso ocorre porque existe pouquíssima e precária formação, e os batizados se deixam levar pela propaganda ou por ideias dominantes. Outras vezes, se dá uma autêntica prostituição da consciência, por meio da qual chega-se a ver como bom algo intrinsecamente mau e injusto. Outras vezes, existe uma atitude covarde, quando somos chamados a defender as nossas convicções e preferimos optar pelo que nos parece mais confortável, conveniente, que nos permite "ficar de bem" com o mundo, sem nos fixarmos nos princípios básicos que todo católico deveria defender na vida social. Na prática.

Frente a esta situação, é urgente a formação e preparação dos católicos, que lhes permita participar na vida política com ideias claras e convicções firmes. Não podemos ver com indiferença o fato de que existem países de maioria católica governados por partidos políticos que promovem o aborto, que atacam a família, que não garantem direitos trabalhistas, que aprovam leis que fomentam a imoralidade pública.

Existe, para os católicos, uma série de princípios irrenunciáveis a partir dos quais podem e devem avaliar os partidos políticos. Aqueles partidos que não respeitam princípios católicos simplesmente não podem ser votados pelos católicos.

Quais são esses princípios? Podemos resumi-los, a partir de um documento importante da Igreja: a "NOTA DOUTRINAL SOBRE ALGUMAS QUESTÕES RELATIVAS AO COMPROMISSO E CONDUTA DOS CATÓLICOS NA VIDA POLÍTICA", Congregação para a Doutrina da Fé, 24 de novembro de 2002, n.4), nos seguintes pontos, alguns dos quais vamos transcrever literalmente:

1. O respeito à vida, também dos embriões humanos, e a clara oposição ao aborto e à eutanásia.

2. A tutela e a promoção da família, fundada no matrimônio monogâmico entre pessoas de sexo oposto e protegida em sua unidade e estabilidade, frente às leis modernas sobre o divórcio.

3. A liberdade dos pais na educação de seus filhos é um direito inalienável, reconhecido nas Declarações Internacionais dos Direitos Humanos.

4. A tutela social dos menores e a libertação das vitimas das modernas formas de escravidão.

5. O direito à liberdade religiosa.

6. O desenvolvimento de uma economia que esteja a serviço da pessoa e do bem comum, respeitando a justiça social, o princípio de solidariedade humana e de subsidiariedade, segundo o qual devem ser reconhecidos, respeitados e promovidos os direitos das pessoas, das famílias e das associações, assim como seu exercício.

7. O tema da paz, que é obra da justiça e da caridade, e que exige a recusa radical e absoluta da violência e do terrorismo, e requer um compromisso constante e vigilante da parte dos que têm a responsabilidade política.

O "voto católico" será, portanto, verdadeiramente católico se souber respeitar estes pontos essenciais para a vida social, que valem não somente para os católicos, mas para todos os homens e mulheres participantes de um Estado. São pontos, segundo diz a Nota Doutrinal antes citada (n.4), que "não admitem derrogações, exceções ou compromisso algum". Isto é, são pontos inegociáveis, sobre os quais um verdadeiro católico não pode ceder na hora votar numa urna.

A fé, temos de ter isso presente, ilumina e permite viver mais a fundo a justiça. Um católico, nesse sentido, sente-se chamado a construir um mundo em acordo com a verdade sobre o homem e sobre a sociedade, que respeite seriamente os direitos humanos. Por isso, o seu voto será responsável: excluirá qualquer opção e partido que vá contra os princípios que acabamos de enunciar; escolherá e promoverá aquelas opções que defendam programas nos quais sejam promovidos ou ao menos respeitados.

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Ref.:
Pe. Fernando Pascual, 'Existe el voto católico?", disp. em:
autorescatolicos.org/fpascual/fernandopascual616.htm

Origem do mal (enquanto prática e vício) por John Henry Newman

Ó meus irmãos, não confessais que quando vossa mente começou a se abrir1, na proporção em que foi aberta, por essa mesma abertura se tornou rebelde contra o que reconhecia como dever? Na verdade, o vosso intelecto não estava já em conluio com a desobediência? Em vez de unir conhecimento e Religião, como poderias ter feito, não colocastes um contra o outro?

Por exemplo, não foi um dos primeiros exercícios voluntários de vossa mente saciar uma curiosidade condenável? Curiosidade a qual confessastes estar errada, que estava contra a vossa consciência satisfazê-la. Desejáveis conhecer uma série de coisas que não trariam bem algum conhecer. É assim que os meninos começam; assim que sua mente começa a se agitar, eles olham na direção errada, e dedicam-se ao que é mau. Esse é o seu primeiro passo no erro; o próximo uso de seu intelecto é colocar o que é mau em palavras: esse é o seu segundo passo no erro. Eles formam imagens e acolhem pensamentos que deveriam ser afastados, de si e dos outros, expressando-os. E então, o mau desvio que fazem, os outros pagam na mesma moeda. Um discurso errado provoca outro; e assim cresce entre eles, desde a infância, aquele miserável tom de conversa insinuando e sugerindo o mal, brincando, gracejando a respeito do pecado, fornecendo combustível para a imaginação inflamável e que dura por toda a vida, que está onde o mundo está, que é a própria 'fragrância' do mundo. Disto o mundo não pode prescindir, pois o mundo 'fala do que lhe transborda do coração' (Mt 12,34) e isto vai prevalecer em toda assembleia ordinária dos homens tão logo sintam-se à vontade e comecem a falar livremente – é uma espécie de culto vocal do Maligno, a que o Maligno escuta com especial satisfação, porque ele o considera a preparação para o pior pecado; pois maus pensamentos e más palavras precedem más ações.

John Henry Cardeal Newman ('Intellect, the
Instrument of Religious Training', em 'Sermons
Preached on Various Occasions'
), sermão pregado
na igreja da Universidade de Dublin, no ano 1856

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1. Isto é, a fase – seja qual for, aqui as teorias pedagógicas não vêm ao caso – em que o ser humano começa a experimentar cognitivamente a noção de si mesmo e das suas relações com o outro e com o mundo que o cerca, resultando nos primeiros estabelecimentos da noção do certo e do errado. (N. do T.)
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Organização resgata mais de 2.200 vidas humanas das garras do aborto


NOS SEUS CINCO anos de existência, a "Escola de Resgatadores João Paulo II" ('Escuela de Rescatadores Juan Pablo II') já salvou, literalmente, as vidas de mais de 2,2 mil bebês que teriam sido abortados por mães perdidas e/ou desesperadas na Espanha. A maioria desses resgates ocorreu às portas das clínicas abortistas, enquanto outros se deram através de uma linha telefônica disponibilizada para ajudar estas mulheres que pensam em abortar, por motivos diversos.

Grande parte do êxito dos seus resgates, conforme explicaram os próprios integrantes da organização, é devido à camionete equipada com aparelho de ultrassonografia que os voluntários estacionam em frente às clínicas de aborto. Para as mães, é muito difícil continuar considerando o aborto uma opção depois de ver o seu bebê –  seu próprio filho! – vivo e saudável através das imagens de ultrassom. A partir dali, compreendem que realmente (não importa o nome que se queira dar a ele) o aborto é, afinal e simplesmente, o assassinato cruel de um ser humano completamente indefeso e inocente no ventre da própria mãe – pior ainda, com o consentimento da própria.

A jovem mãe Cristina segura seu bebê
no feliz dia do seu Batismo, um dos 
milhares salvos pelos 'rescatadores'
Recentemente, do lado de fora de uma clínica de nome "Dátor", em Madri, salvaram o terceiro filho de uma jovem que havia recebido do seu médico(?) a recomendação de abortá-lo durante o segundo mês de gestação. A jovem, que não quer seu nome divulgado, havia concordado com o médico e chegou à clínica para programar o bárbaro procedimento. Ao entrar no edifício, relata ela: “Escutei os voluntários da associação; assim, no outro dia me dirigi até eles”. Esta moça passava por um momento difícil em mais de um sentido: o pai do bebê, seu namorado, é imigrante e, devido à falta de documentos, não podia trabalhar. Ela recebeu da associação, gratuitamente, berço, carrinho, roupas e brinquedos; atualmente é ajudada com alimentos e outros recursos necessários.

Na Espanha, “o aborto é grátis nos primeiros quatro meses, sem que se precise declarar nada; (é realizado) apenas porque alguém quer abortar”, explicou a jovem mãe, e assinalou que ficou surpresa quando seu médico lhe recomendou o aborto: "É o seu filho que está dentro de você, e não tem culpa de nada! |(...) Hoje, eu diria às mulheres que estão passando pela mesma situação que pensem bem, porque o aborto fica gravado para a vida toda”, conclui ela.

Marta Velarde
Diferente do que poderíamos imaginar, entretanto, o trabalho desta santa e belíssima organização não é facilitado, de maneira nenhuma. Recentemente, permanecendo em frente à clínica de abortos "Isadora", também em Madri, receberam insultos e tenebrosas agressões. “Fora daqui, vocês roubam crianças como as religiosas”, disse-lhes um dos membros da clínica. Mais tarde, no mesmo dia, de uma janela do edifício lançaram-lhes por cima um líquido escuro, uma mistura de sangue e placenta. Marta Velarde, presidente da Escola de Resgatadores, disse que “depois ainda nos jogaram pedras, sendo que uma caiu muito perto de um dos voluntários”.

Estes e outros tipos de agressão, incrivelmente, se tornaram habituais para os 900 voluntários da organização, incluindo ameaças e sabotagem da camionete. Entretanto, apesar de tudo isto e da legislação a favor do aborto na Espanha, o trabalho em favor da vida continua sendo realizado com grande amor e esperança. Estes verdadeiros heróis, confiando que outras milhares de mães poderão ser livradas de se tornarem infanticidas, e rechaçarão o aborto.

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Fonte:
ACI Digital, disp. em:
http://www.acidigital.com/noticias/espanha-organizacao-resgata-mais-de-2200-bebes-das-garras-do-aborto-15159/

Acesso 21/9/016
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Mais de um milhão de pessoas nas ruas em 125 cidades do México para a Marcha pela família


DEPOIS DAS HISTÓRICAS manifestações a favor da família, está se verificando um despertar cívico e nacional no México, algo que a Igreja apoia, como observou Dom Sigifredo Noriega Barceló, Bispo de Zacatecas. A agência Fides informa que o Bispo, depois da Missa dominical do último dia 11 (9/016), explicou que falar do tema da família a partir da perspectiva cristã não significa "discriminar" alguém, mas sim "defender a união entre homem e mulher como base para a família".

"Não se trata de estar contra os homossexuais"; não somos contrários a que se reconheçam os seus direitos, mas isto só poderá ser feito "sem negar nem destruir aquilo que é (de fato) o Matrimônio”, acrescentou, e é isso o que o povo mexicano deseja. “A Igreja e os Bispos veem com bons olhos esse despertar da população e dá o seu apoio”, sublinhou o Bispo.

No sábado, 10 de setembro, a “Frente Nacional pela Família” – que reúne não só movimentos católicos, mas também de diversas outras confissões religiosas e igualmente grupos não confessionais – organizou a “Marcha pela Família”. O evento foi realizado em 125 cidades do México e movimentou mais de um milhão e meio de pessoas segundo os dados das agências internacionais. A marcha foi convocada depois que o presidente Enrique Peña Nieto decidiu apoiar uma proposta de lei sobre os chamados “matrimônios(!) igualitários”, e depois das primeiras reações de protesto populares.

Diversos líderes católicos repetiram o que disse à imprensa Dom Pedro Pablo Elizondo, Bispo da Prelazia de Cancún-Chetumal: “Para 75% dos mexicanos, o primeiro valor é a família. Ver mais de um milhão de pessoas sair às ruas para defendê-la é uma mensagem clara e forte”.

Em todos os atos deste gigantesco manifesto público, o povo mexicano deixou claro que não luta contra pessoas e nem contra este ou aquele grupo. A luta é contra a dessacralização da família e a favor da manutenção dos valores que construíram a civilização, entre os quais a família. Dois homens ou duas mulheres podem ter o direito de viver juntos e compartilhar direitos e deveres civis, inclusive o acesso a certas proteções legais, como o direito a herança, benefícios, pensões e outros semelhantes. Todas estas questões e outras tantas, relacionadas aos direitos humanos das pessoas homossexuais, enquadram-se numa determinada discussão social que é válida e possível. Entretanto, daí a dizer que dois homens ou duas mulheres que se unem contraem "matrimônio" e devem, por força de lei, ser considerados "uma família" em tudo igual àquela formada pela união sagrada entre homem e mulher –, inclusive com direito à adoção legal de crianças como seus "filhos" (prática cujos funestos resultados já vêm aparecendo – veja mais) –, há uma imensa distância. Parabéns aos nossos irmãos mexicanos, e viva Cristo Rei!

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Fonte: 
Fides, disp. em 
fides.org/pt/news/60729-AMERICA_MEXICO_Mais_de_um_milhao_de_pessoas_nas_ruas_em_125_cidades_para_a_marcha_da_familia#.V-HyBvkrIdU
Acesso 13/9/016
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O impressionante crescimento da Igreja Católica no mundo

Céticos continuam anunciando o 'fim próximo da Igreja' – sem perceber que os números dobraram desde 1970... e continuam aumentando



EM MUITAS PARTES do mundo –, já não é de hoje –, parece cada vez mais difícil para o católico sentir-se otimista sobre o futuro da Igreja. Há alguns anos, a Sociedade Americana de Física ouviu uma notícia alarmante que previa quais populações do mundo se tornariam oficialmente sem religião até o ano 2100, e no topo da lista estavam antigos bastiões da fé católica, como a Áustria e a Irlanda. Sim, a Irlanda! 

Por décadas temos assistido, perplexos, a tantas histórias escabrosas e terríveis escândalos envolvendo os filhos da Igreja –, e por tanto tempo viemos sendo submetidos a tantos maus tratos por tantos dos nossos próprios pastores –, que podemos, sim, sofrer a tentação de duvidar do futuro. Por quanto tempo poderá a Barca de Pedro continuar navegando, incólume, em meio a tantas, tão grandes e tão traiçoeiras ondas? Poderemos realmente continuar sobrevivendo neste ritmo e neste cenário hostil?

Diante de tais circunstâncias é muito estranho perceber, logo em seguida,  que esta mesma Igreja – que é, de longe, a maior instituição religiosa do nosso planeta, e a mais durável – na mais pura realidade dos fatos, desfruta de um enorme crescimento global; mais do que isso, cresce numa escala sem precedentes. Para que se tenha uma ideia, em 1950, a população católica do mundo era de 437 milhões, número que cresceu para 650 milhões em 1970 e avançou para cerca de 1,2 bilhões atuais[1]. Dito de outra forma, os números católicos duplicaram desde 1970, e a mudança ocorreu exatamente durante as grandes controvérsias e penosas crises recentes no seio da Igreja, após os debates seguintes ao Vaticano II e toda a ascensão do marxismo cultural e do secularismo no mundo.

Essa taxa de crescimento não mostra sinal de diminuir, pelo contrário. Para 2050, uma estimativa conservadora sugere que deverá haver um mínimo de 1,6 bilhão de católicos no mundo. Falamos sobre crescimento global, e este elemento "global" exige ênfase. A verdade é que a Igreja, em muitos sentidos, inventou a globalização, e isso ajuda muito a explicar o porquê de seus números estarem crescendo tanto. Ao longo da História houve muitas potências chamadas "impérios mundiais", mas que na realidade foram confinadas a regiões específicas, principalmente à Eurásia. Somente a partir do século 16 é que os impérios espanhol e português verdadeiramente passaram a se expandir a ponto de abranger grandes partes do globo terrestre. A verdadeira globalização, porém, começou em 1578, quando a Igreja Católica estabeleceu sua diocese em Manila, nas Filipinas – como sufragânea Sé da Cidade do México, do outro lado do imenso Oceano Pacífico.

Os referidos impérios, uma vez poderosos, há muito se extinguiram, e apenas a sua herança religiosa permanece nas populações católicas prósperas do Brasil, do México e das Filipinas, que hoje constituem os três maiores centros populacionais da Igreja. A população total do México cresceu de 50 milhões, em 1970, para 121 milhões atuais; logo, é claro que existem muitos mais católicos no país, hoje, do que eu qualquer outro momento. As Filipinas, por sua vez, hoje reivindicam 80 milhões de católicos, número que deverá aumentar para mais de 100 milhões em 2050. No ano passado, houve mais batismos católicos nesse país do que na França, Espanha, Itália e Polônia juntos.

Os céticos certamente argumentarão que o crescimento da Igreja é apenas reflexo e resultado secundário do crescimento das populações. Certamente a demografia desempenha o seu papel neste cenário; sozinha, porém, de maneira nenhuma explica o incrível avanço dos números. A prova mais clara disso é encontrada na África. Em 1900, a África tinha algo em torno de 10 milhões de cristãos de todas as denominações, o que constituía cerca de 10 por cento de sua população. Hoje, há meio bilhão de cristãos africanos, que representam metade da população continental, e esse número deve ser superior a um bilhão até a década de 2040(!). Este crescimento fenomenal – que é, aliás, de longe a maior mudança quantitativa que já ocorreu em qualquer religião, em qualquer lugar, na História do mundo – em parte se deve ao resultado do crescimento geral da população do continente (em 1900 havia três europeus para cada africano; em 2050 essa proporção deverá se inverter, e haverá três africanos para cada europeu), mas essa expansão é também, claramente, o resultado de conversões em massa. Durante o século 20, cerca de 40 por cento das pessoas da África mudou, da sua submissão assustada às velhas crenças primitivas, para o cristianismo.

Embora, no caso africano, estejamos falando do total das populações que confessam o Nome de Jesus Cristo, os católicos representam parte bastante significativa destes números impressionantes. Em 1900, toda a África tinha apenas 2 milhões de católicos, mas esse número cresceu para 130 milhões até o final do século, e hoje se aproxima dos 200 milhões(!). Se as tendências atuais continuarem, como mostram todos os sinais, para a década de 2040 haverá cerca de 460 milhões de católicos africanos. Incrivelmente, esse número seria maior do que a população total mundial de católicos em 1950.

Precisamos dizer, entretanto, que existem problemas com os números que estamos apresentando. Citamos números oficiais da Igreja, mas essas contagens são realmente falhas. Se olharmos para os dados do Survey Evidence of Religious Belief, encontraremos uma grande disparidade entre o número das estimativas mostradas e os totais relatados pelas autoridades da Igreja. Os sacerdotes locais, que andam muito ocupados batizando pessoas, mantém registros evidentemente confiáveis (com dados precisos como nomes, datas de nascimento e endereços) os quais apontam uma diferença de 20% para mais no já inacreditável número de católicos africanos(!).


A aparência dos nossos pastores vêm mudando nas últimas décadas

Essa realidade, que a primeira vista pode surpreender a muitos, não é exclusiva do continente africano. Desde 1980, o número total de católicos da Ásia cresceu 115%, e 56% nas Américas[3].

Além de tudo, nas últimas décadas, muitos milhões de migrantes do Sul do planeta têm viajado para o Norte, e uma parcela realmente grande desta população é formada por católicos. Vemos fortes evidências disso nas igrejas britânicas (saiba mais), especialmente em antigos locais de peregrinação, que vinham sendo esquecidos e estão agora sendo redescobertos naquele país, mas padrões similares podem ser encontrados em toda a Europa. As paróquias históricas – na Irlanda e França, por exemplo – agora vêm sendo agraciadas por padres da Nigéria ou do Vietnã(!). Globalização? Com todos os seus prós e contras, vem sendo positiva para a Igreja dos nossos tempos.

Quando consideramos as estatísticas apresentadas neste artigo, qualquer sugestão de que a Igreja Católica esteja "morrendo" –, ou mesmo estagnada –, torna-se tão completamente equivocada que chega a ser cômica. Estranhamente, porém, esta não é a primeira vez que observadores externos consideraram perspectivas sombrias para o futuro da Igreja. Já na década de 1890, Mark Twain sabiamente observou: "Neste mundo, temos visto o poder da Igreja 'morrendo'... há muitos séculos".

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Notas:
1. Dados do The Catholic Herald
2. Idem
3. Ibidem
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Fonte:
JENKINS, Philip. 'Catholicism’s incredible growth story', publicado em 8/9/016, disp. em:
catholicherald.co.uk/issues/september-9th-2016/catholicisms-incredible-growth-story
Acesso 15/9/016
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Somos quem podemos ser

A justa medida das coisas e o honesto reconhecimento das nossas capacidades como caminho para a perseverança e santidade


POSSIVELMENTE AQUILO que dissemos, ou boa parte do que expusemos em nosso artigo anterior tenha parecido "bonito" e admirável, talvez até soado "poético" a alguns ouvidos. Não foi esta a nossa intenção. E talvez nada daquilo tenha trazido o consolo que nosso consulente esperava, quando corajosamente confessou que não se sentia à vontade com a ideia de precisar humilhar-se para se aproximar de Deus. E logo um novo comentário surgiu, com a seguinte indagação: "Quem consegue ser tão humilde assim? Todo mundo quer uma 'massagenzinha no ego'"... 

Dizemos que a pergunta feita foi corajosa –, foi também desafiadora para nós –, porque todo honesto buscador de Deus e da sua Verdade deve, sim, fazer as perguntas difíceis, para si e para seus diretores espirituais, pois, como já dizia o jovem poeta: "Quem duvida da vida tem culpa (mas) quem evita a dúvida também tem; somos quem podemos ser (...)"[1].

Parece óbvio, mas teimamos em nos esquecer desta verdade fundamental: somos quem podemos ser, e também na vida cristã é um erro comum não admitir as próprias falhas e/ou defeitos, as próprias dificuldades e dúvidas, as tendências naturais com as quais já nascemos e que nos fazem pender para um ou outro lado, para o bem ou para o mal em determinadas ocasiões. Os que agem assim (não são poucos) muitas vezes assumem para si mesmos um ideal impossível de ser alcançado e procuram viver uma vida irreal, fantasiosa; pior do que isso, depois de muito sofrer, ao constatar que realmente não são capazes de corresponder a essas expectativas altíssimas, terminam por desanimar e abandonar a vida de fé.

É preciso saber quem somos, conhecer as nossas próprias tendências, dificuldades, pontos fortes e fracos. Assim fica mais fácil o aperfeiçoamento na vida de fé. Dentro desta realidade, sabemos bem que alguns cristãos possuem forte inclinação natural ou vocação para o martírio, mas experimentam tremenda dificuldade em praticar a santidade nos atos simples do seu dia a dia. Por amor a Nosso Senhor, seriam capazes de se engajar na mais dura das guerras e entregariam por vontade própria, resignados, seus pescoços à degola; mas não conseguem perseverar na oração diária, só assistem a santa Missa aos domingos e, mesmo assim, vez em quando falham. Outros são piedosíssimos em suas devoções particulares – passam longas horas em oração todos os dias, praticam pesadas abstinências, conhecem de cor biografias de grandes santos, assistem à Santa Missa diariamente – mas não dão testemunho da sua fé quando têm oportunidade. Não defendem a Igreja, não se manifestam publicamente, preferindo calar e abster-se de assuntos "polêmicos". A sua fé só existe na intimidade, flui "de fora para dentro" e não aparece, não se concretiza em atos, gestos e posturas. Não são reflexo de Cristo no mundo e no ambiente que as cerca, como deveriam ser.

Qual é o segredo ou a maneira de ser perseverante na fé, de modo frutuoso e autêntico, evitando uma vida espiritual ao estilo "montanha russa" – em que fases de gloriosas alturas espirituais são sempre seguidas por quedas e recaídas em velhas infidelidades? Como podemos nos preservar no Estado de Graça e cultivar o dom da perseverança, indo além de uma coleção de penosas observâncias que nos são impostas e procuramos inutilmente cumprir, como faz a vítima de obesidade patológica que tenta, inutilmente, seguir uma dieta rigorosa e até consegue perder alguns quilos depois de algumas semanas de heroicos esforços, mas depois acaba por recuperá-los e ganhar ainda mais, quando o inevitável acontece e a tentação das guloseimas vence a disposição em não comer nada além de saladas e filés de frango grelhados – para o resto da vida? Pois bem, que solução os bons médicos vêm encontrando nos últimos tempos para superar este círculo vicioso das dietas alimentares? Simplesmente que o paciente aceite suas próprias limitações e se permita um lanche gorduroso ou uma pequena barra de chocolate, de vez em quando. É preciso reconhecer as limitações do paciente e lidar com a realidade dos fatos. E a prática vem demonstrando que isso funciona bem mais e melhor do que os velhos regimes radicais.



Também na vida espiritual é preciso que o cristão saiba evitar o rigor excessivo para consigo mesmo e que não tente avançar para além do que lhe é suportável nas obrigações que se impõe. Sobre isso falou nosso Senhor à multidão que o seguia e a seus discípulos, dizendo: “Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Observai, pois, e praticai tudo o que vos disserem; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem sobre os ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los. (Mt 23.1-4).

Sim, todos nós gostamos de um elogio, apreciamos o reconhecimento pelo nosso trabalho, quando nos empenhamos com seriedade e carinho, e um ombro amigo para nos apoiar quando as coisas ficam difíceis é sempre bem-vindo. Essa tal "massagenzinha no ego", de vez em quando, pode nos ajudar a perseverar na luta, sim senhor, e não há nada de errado nisso. Atentem os nossos leitores que não dissemos, aqui, que a vida do cristão deve ser apenas humilhação, um rastejar no pó e cobrir-se de cinzas sem fim. 

Em quase tudo é preciso saber encontrar a justa medida e viver conforme, sem "curvar demais o arco", como disse Sto. Tomás, para que não se quebre, e nem "deixar a corda muito solta", porque desse modo a flecha não pode ser disparada[2]. Entenda-se bem que não estamos aqui a afirmar que, para que possamos perseverar na fé, devamos nos permitir pecar "de vez em quando". Nada disso. Precisamos abominar e odiar o pecado, sempre e todos os dias, e precisamos buscar incessantemente odiar tudo o que nos afasta de Deus, cada vez mais, até o nosso último suspiro. O soldado cristão deve tornar-se exímio na arte de odiar o pecado. O que dizemos é aquilo que a Igreja sempre disse: que há tempo para rir e para chorar; para festejar e para jejuar, "tempo de prantear e tempo de dançar" (Ecl 3,4).

Retomando então, brevemente, o tema já contemplado, por que, oh, Deus, precisamos nos humilhar? Por que o Senhor Deus do Amor e da infinita Misericórdia haveria de querer que nos humilhemos? Aprofundemo-nos ainda mais no problema: não fomos nós feitos à imagem e semelhança do Criador? Deus não é Pai? E esse Pai Todo-Poderoso não nos amou tanto a ponto de entregar seu próprio Filho Unigênito para que, por meio dEle, alcançássemos a vida plena e a perfeita felicidade? Não seria, então, melhor ou mais frutuoso para todos nós se tivéssemos a certeza de cumprir a Vontade de Deus apenas obedecendo a uma série de rituais, com tranquilidade e confiança despreocupada? E não seria melhor ainda se fôssemos, por isso, honrados perante o mundo? Não seríamos, assim, simplesmente felizes? E não seria esta a forma de adoração mais natural e aceitável ao nosso Criador? Por que a necessidade da humilhação?

Ser honrado e ser feliz por cumprir a Vontade de Deus é, sem dúvida, o culto mais perfeito; assim sempre foi o culto dos anjos; assim é agora a adoração dos espíritos dos justos que se tornaram perfeitos, no Céu; assim será a adoração de todos os glorificados depois da ressurreição geral. Aqui estamos, porém, tratando do estado real do homem enquanto neste mundo. Considerando o que é o homem, qualquer tipo de doutrina que não o conscientize da própria finitude e dependência de uma Força externa – Deus – e que não o advirta quanto aos pecados e pela incapacidade de ser feliz, perfeito e suficiente pelas suas próprias forças, simplesmente não é verdadeira. Qualquer regra de vida que procure tornar o homem satisfeito consigo e por si mesmo, sem temor, sem inquietação, sem noção da própria dependência, é enganosa; é como o resultado de um cego guiando outro cego: como vimos, assim foram sempre as religiões pagãs.

Por isso o Cristo disse: "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus"; a palavra "pobre", nesta passagem, está relacionada ao vocábulo aramaico anya (hebraico ‘ani’) e significa "miserável, pedinte, suplicante, humilde". Trata-se de uma exortação para que sejamos como “mendigos perante Deus”, como alguém que nada possui e se aproxima do Rei para simplesmente pedir, sem ter nada para oferecer em troca. Não é humilhação no sentido negativo, mas puramente prático. Se nos consideramos ricos, então já não precisamos de Deus; somos autossuficientes.

Mas há uma outra analogia utilizada por Nosso Senhor que se traduz mais conveniente para os nossos tempos: somos como crianças pequenas, ou mesmo bebês de poucos meses de vida, que dependem integralmente dos pais, para se alimentar, hidratar, medicar, proteger do frio, manterem-se limpos e abrigados, etc. Também por isso o homem Jesus ousou chamar ao Temível e Poderoso Senhor dos Exércitos apenas "Abba", que quer dizer, simplesmente, "Papai"...

Ó Farol Luminoso do Amor, eu sei como chegar a Ti; encontrei o segredo de me apropriar da Tua Chama! (...) Compreendi que o Amor engloba todas as vocações, que o Amor é tudo! (...) Como estou longe de ser conduzida pela via do temor, sei sempre encontrar o meio de ser feliz e aproveitar de minhas misérias...
(Santa Teresa do Menino Jesus
e da Sagrada Face)

Se aceitamos que a condição mínima de Jesus para quem deseja segui-lo é renunciar a si mesmo e dedicar-se em primeiro lugar a segui-lo, sem reservas, e se compreendemos e assumimos que de fato Deus é Amor, então entenderemos que o caminho para a felicidade é também o caminho do Amor. O Amor às vezes é difícil, exige sacrifício, renúncia, maleabilidade, docilidade para aceitar aquilo que não compreendemos... E é só assim que crescemos. Sim, o ser humano nasceu para ser feliz, embora o mundo não entenda nada de felicidade, na medida em que a confunde com riquezas, sensações fúteis e posses.

Deus é a Fonte da felicidade. Por favor, leitor, pare e medite sobre esta realidade profundíssima capaz de transformar radicalmente e definitivamente a sua vida, e lhe garantir a salvação eterna: Deus é a Fonte da felicidade – e da honra, e da glória, e o caminho certo para a realização humana. Ele não quer que soframos, mas que nos preparemos para viver a felicidade eterna. Nossas provações temporárias são menos que sombra de sonhos diante da Eternidade de bem-aventurança que nos espera. O segredo da felicidade está em “deixar” Deus ser Deus em nossas vidas, não somente aceitando, mas modelando-nos e alinhando-nos, a cada dia, à sua santa Vontade.

__________
Notas:
1.
GESSINGER, Humberto. 'Somos quem podemos ser', álbum 'Ouça o que eu digo: não ouça ninguém', 1988.

2. Suma Teológica, II-II, q. 168, a. 2.
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Por que o cristão precisa 'se humilhar'?


RECEBEMOS UMA MENSAGEM anônima com uma pergunta que consideramos pertinente, a qual reproduzimos abaixo, seguida da nossa resposta que se traduziu numa reflexão mais profunda:

Eu tenho uma pergunta: porque Deus quer que a gente se humilhe? Eu quero ser feliz , quero uma vida boa, de abundancia, de amor. Quero que todo mundo seja feliz e eu também! Porque sempre dizem que a gente tem que se humilhar diante de Deus? Deus fez a gente para sofrer? Por quê?

No Santo Evangelho encontramos o modelo da súplica essencial do cristão: “Ó Deus, tende piedade de mim, que sou pecador!” (Lc 18 13). Essas palavras, em certo sentido, podem ser consideradas a marca característica da religião cristã, em contraste com as diversas outras formas de culto e doutrinas que desde os tempos primitivos se espalharam sobre a Terra.

A súplica do Evangelho segundo S. Lucas é ao mesmo tempo uma confissão do pecado e um pedido por misericórdia. Foi introduzida pelo cristianismo esta noção bem específica de transgressão e perdão, que não existe fora do âmbito cristão. Ao contrário, os outros símbolos de culpa ou contaminação e os ritos de deprecação e expiação são muito semelhantes em todas as religiões pagãs, e são muito diferentes do que prescreve a Igreja. É peculiar à nossa fé cristã que a confissão do pecado celebre a ideia da mais elevada santidade. Ora, confessar-se pecador é humilhar-se, e humilhar-se nada mais é que reconhecer as próprias incapacidades, insuficiência e finitude diante do Poder, da absoluta Suficiência e da Infinitude de Deus. E reconhecê-lo, ao contrário do que possa parecer às mentes materialistas, que se assustam num primeiro momento, traz paz e serenidade duradouras, já que aceitar a Verdade é sempre um gesto de verdadeira libertação.

Vivemos hoje uma era individualista, consumista e hedonista, de homens e mulheres soberbos, extremamente orgulhosos. Em nossos tempos é praticamente inadmissível pensar em humilhação como algo positivo, edificante para a alma. É desconcertante para o homem contemporâneo ouvir dizer que deve humilhar-se por qualquer motivo, mesmo se for para alcançar uma realização maior. Essa é uma das principais razões pelas quais a busca pela Verdade vem sendo deixada de lado em nome do respeito humano.

Nosso apostolado recebe frequentes mensagens dizendo que não deveríamos comentar sobre outras religiões, nem mesmo com fins de esclarecimento, porque toda religião seria igual e todas levariam a Deus, sendo importante apenas “o amor” e/ou que cada um “seja feliz” do jeito que achar melhor. Muitos nos consideram rudes ou radicais quando simplesmente apresentamos a doutrina da Igreja, porque afinal de contas não somos os donos da verdade e precisamos “respeitar” a opção religiosa de cada um. Na visão de tais pessoas, “respeitar” seria o mesmo que aceitar tudo, fingir que “é tudo a mesma coisa” e que a nossa fé não passa de mais uma proposta entre muitas outras, sem nenhuma distinção realmente essencial. Escolher uma ou outra religião para seguir, então, seria uma opção meramente subjetiva, assim como é o ato de escolher a cor da roupa que se vai vestir.

Esquecem-se de que somos um apostolado cristão católico e que para nós, católicos, a Verdade existe objetivamente e deve ser proclamada "do alto dos telhados” (Mt 10, 27b). Para eles, entretanto, a preocupação em não melindrar as convicções do outro (mesmo aquelas flagrantemente equivocadas) deveria ter prioridade sobre a missão que nos foi confiada por Cristo, de proclamar o Evangelho a toda criatura (Mt 16,15).

Claro e evidente que não pretendemos "obrigar" ninguém a crer no que cremos nem converter quem quer que seja pela força. Deus mesmo, em primeiro lugar, concede a cada um o direito de escolher o caminho a seguir. Nosso objetivo é simplesmente "apresentar as razões da nossa esperança" (1Pd 3, 15) e a fé cristã como ela é, tendo claro que a adesão é uma opção que cabe a cada um. Ainda assim, hoje muitos entendem que procurar fazer isto já é um ato de "desrespeito”, um "radicalismo” e uma demonstração de "intolerância” de nossa parte.


Cristo lava os pés aos discípulos, por Tintoretto (1518-1594)

O que o orgulho não pode admitir

De fato, nestes nossos dias "politicamente corretos”, alguém dizer que gosta do azul já é dar motivo para aqueles que preferem o amarelo se sentirem "ofendidos”. A principal razão deste curioso fenômeno é a soberba ou orgulho que impera nas almas. O homem têm se visto como muito importante, muito nobre, grandioso, majestático. Sua vontade e seus caprichos são agora soberanos, postos em primeiro lugar, e isso vem se refletindo até no sentimento religioso: mesmo as novas seitas ditas “cristãs” colocam o homem no centro e Deus como seu servidor. Um conhecido “bispo (sic) evangélico” diz abertamente, em suas pregações, que Deus “é obrigado” a abençoar e atender os pedidos dos “justificados” (sua própria igreja-empresa posta vídeos com este conteúdo no Youtube).

Por outro lado, no rol dos sete pecados capitais (saiba mais), o mais grave dos mais graves pecados é exatamente o da soberba ou orgulho, afinal é nesta categoria que se enquadra o próprio Pecado Original.

Adão e Eva aceitaram o fruto proibido – querendo igualar-se a Deus – pela tentação do orgulho;

O orgulho foi capaz de transformar um gloriosíssimo anjo de luz no príncipe das trevas e dos demônios que incessantemente nos tentam e procuram arrastar para o Inferno;

O orgulho é o pior de todos os pecados porque é um vício que pode se confundir com grandes virtudes: pode ser confundido com honra, brio, virilidade, "personalidade forte", senso de dignidade. Quanto melhor um pecado se disfarça, pior o estrago que pode provocar;

É o orgulho o pior de todos os pecados, porque nos impede de cumprir o maior dos Mandamentos: não pode amar a Deus acima de todas as coisas quem ocupa todo o seu tempo em se amar a si mesmo e tem como prioridade máxima satisfazer os próprios desejos; também não pode amar o próximo como a si mesmo quem vê o outro como adversário ou concorrente, com o qual compete incessantemente para alcançar admiração, glórias ou riquezas.

O grande G. K. Chesterton disse: “Se eu tivesse apenas um sermão para pregar, seria um sermão contra a soberba”. Os maiores e mais exemplares heróis da fé foram únicos justamente porque sempre valorizaram, em seus corações, a memória constante de que eles, por eles mesmos, eram, podiam e mereciam nada; que não passavam de transgressores resgatados pela Misericórdia divina. Aquilo que para os santos do Céu é razão de gratidão sem fim, também é, para os santos que estão no mundo, o motivo da sua constante humilhação. Qualquer que seja o seu avanço na vida espiritual, nunca deixam de se ajoelhar e de bater no peito, dizendo: "Senhor, tende piedade de mim, que sou pecador!".

Mesmo o Cristo, o próprio Filho de Deus, quando na natureza humana, ainda que justo e totalmente separado do pecado –, mesmo Ele(!) –, ao herdar a carne de Adão submeteu-se no fim à morte, à punição direta e categórica do Pecado (a qual assumiu por todos nós e por nossa salvação).

Igualmente, nem o mais favorecido dentre os santos de Deus jamais se esquece de que nasceu filho de Adão. Ainda que nos voltemos para eles, os santos do Céu, eles sempre se voltam para Deus, porque não têm poder em si mesmos; ainda que roguemos pelos favores de nossa Mãe santíssima, sabemos que nem a Rainha dos santos, concebida sem Pecado, por si mesma não poderia nos atender; é diante de Deus que a Mãe do Céu intercede em nosso favor e obtém a sua "onipotência suplicante". Nós, fiéis católicos, lembramos e enaltecemos os méritos dos santos, mas basta estudar as suas biografias para notar que eles mesmos só falaram dos seus defeitos e enalteceram o Poder, a Graça e a Glória divinas. Assim foi Sto. Inácio de Loyola; assim Sta. Rosa de Viterbo, que, ainda criança, apresentou seu corpo frágil às penitências mais surpreendentes; assim foi S. Filipe Neri que, quando alguém o elogiava, gritava: "Vai-te embora, eu sou um diabo e não um santo!"...

Essa auto-prostração absoluta é o distintivo e símbolo do soldado de Cristo; se virmos algum pretenso "cristão" julgando-se muito digno, justo e importante, desconfiemos dele. Tal fato é transmitido nas próprias palavras do Senhor, quando diz: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores”; é solenemente reconhecido e inculcado por Ele ao decretar: “Todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado”.

O fariseu orgulhoso do Evangelho segundo S. Lucas, na mesma passagem que contém a súplica que apresentamos no começo (Lc 18, 10ss), olhava para si mesmo com grande complacência, sentindo-se muito nobre, digno e honrado. Ele acreditava que seus deveres para com Deus eram muito simples e lineares – nada mais que uma coleção de normas e proibições a se observar – de alcance bastante limitado. Ele fez (mau) uso das tradições nas quais foi criado, no propósito de convencer-se de que a perfeição consiste apenas em responder às demandas da sociedade. Ele professou, sim, gratidão a Deus, mas compreendeu mal a natureza dos seus deveres em relação ao seu Criador. Ele pensou que fazia tudo o que Deus exige ao satisfazer a opinião pública. Ser religioso, no sentido farisaico, era manter a paz com os outros, tomar a sua parte nos encargos dos pobres, abster-se de vícios vulgares e dar bom exemplo. Suas esmolas e jejuns não eram feitos em espírito de caridade e santidade, com penitência e humilhação de si mesmo, e sim porque o seu mundo os exigia; a penitência implica a consciência do pecado, enquanto que para ele, fariseu, eram culpados apenas os publicanos, e somente estes precisavam ser perdoados. Não havia nada contra homens justos, dignos e equilibrados como ele, que achava que os homens que se comportassem bem, consistentes e respeitáveis, mereciam ser honrados por Deus e não precisariam nem deveriam se humilhar. Por isso agradeceu a Deus por ser um nobre fariseu e não um publicano penitente que se humilha. Mas Nosso Senhor diz que foi o penitente quem voltou para casa justificado, não o fariseu.

Os seguidores das seitas ditas "esotéricas" de hoje se comportam de modo semelhante. Eles não fazem penitência nem se humilham; na verdade jogaram sobre as observâncias do antigo farisaísmo uma roupagem filosófica, embelezando-as com os requintes de um intelecto cultivado, mas a sua noção de dever moral e religioso ainda se mantém tão superficial quanto a do fariseu orgulhoso. O sentido do pecado, o hábito da auto-humilhação e o desejo de contrição são tão ausentes nas mentes dos atuais pagãos como eram nas dos antigos fariseus. Aqueles, assim como estes, estruturaram um código de moral ao qual poderiam obedecer sem grandes dificuldades, para que pudessem se sentir satisfeitos e orgulhosos de si mesmos. Humilhar-se? Absurdo!

Já o cristão sabe que não tem muito do que se orgulhar quando olha para si. S. Pedro, o primeiro Papa, quando teve um primeiro vislumbre da grandeza e divindade de seu Mestre, gritou, quase fora de si: “Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Lc 5,8). Foi a mesma sensação do santo Jó, que, embora tivesse servido a Deus por muitos anos e fosse aperfeiçoado na virtude, disse ao Todo-Poderoso: “Meus ouvidos tinham escutado falar de Ti, mas agora meus olhos te viram. É por isso que me arrependo e humilho-me no pó e na cinza!” (Jó 42, 5-6). Assim foi com Isaías, quando teve a visão do Serafim e disse: “Ai de mim! Estou perdido porque sou um homem de lábios impuros, e habito com um povo de lábios impuros e, entretanto, meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Is 6, 5).

Cada ser humano sobre a Terra, qualquer que seja o seu grau de santidade, ainda que seja um prodígio ou verdadeiro herói da fé, repete com o publicano: “Oh Deus, tende piedade de mim, que sou pecador!”. As naturezas criadas, sejam as mais elevadas ou mais inferiores, estão todas num mesmo nível em comparação à Glória do Criador, e assim todas têm um mesmo discurso, quer seja o ladrão na cruz, Sta. Madalena aos pés de Cristo ou S. Paulo antes do seu martírio. Não é que um não possa ter algo que outro não tem; é que todos nada têm além do que é dado por Deus, e somos todos como nada diante dEle, que é tudo em todos.

Que jamais sejamos levados, por quaisquer afeições humanas, a caminhos que nos permitam conquistas, realizações, honras e vitórias que nos façam esquecer que a nossa verdadeira sabedoria, nobreza e força consistem no conhecimento de Deus, Fonte de todos os bens e Autor da própria Vida. A natureza e o homem são objetos dos nossos estudos, mas Deus é maior que tudo. O dinheiro e os cargos e posições humanas nos são necessários para muitas coisas, inclusive, às vezes, para fazer o bem; mas é fácil nos perdermos em nossas fúteis glórias. É fácil, até mesmo, tornarmo-nos super apegados à nossa própria busca por Deus e santidade, e substituirmos por ela a verdadeira Religião/re-ligação com Deus, tornando nossas práticas supostamente espirituais o combustível do nosso orgulho.

Nossas realizações não nos valerão de nada se não se subordinarem à verdadeira Religião. O conhecimento do Sol, da Lua e das estrelas, das ciências e das artes, dos saberes clássicos ou da História, nada disso nos salvará. E se estudamos muito e nos tornamos sábios, poderemos dar “graças a Deus” porque não somos como os analfabetos e os ignorantes, como fez o fariseu da parábola? Aqueles a quem nesse caso desprezássemos, se tudo o que souberem for pedir a misericórdia de Deus, então saberão tanto ou mais do que nós sobre a ciência mais importante: a que se deve saber para obter o Céu, onde – então sim – contemplando Deus face a Face seremos e saberemos infinitamente  mais do aquilo que todas as nossas letras e toda a nossa ciência poderiam nos dar.

Digamos então, honestamente, junto com o Apóstolo: “Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro” (1Tm 1,15). Humilhemo-nos, isto é, reconheçamos a nossa insignificância diante do Poder de Deus, e assim seremos exaltados, porque quem procura os primeiros assentos poderá ser convidado a se levantar e ocupar um lugar mais atrás, mas quem se assentar humildemente entre os últimos lugares poderá ser convidado a vir para a frente, no Banquete do Céu (Lc 14, 7-12).

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Ref.: 
NEWMAN, John Henry. Sermons Preached on Various Occasions, chapter 2: The Religion of the Pharisee, the Religion of Mankind. London: Longmans Green and Co., 1908.
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A contemporaneidade e a triste perda dos valores pátrios


Por Prof. Erich Ferreira Caputo
(do Oratório Secular de S. Filipe Neri)


EM QUE MOMENTO o nosso patriotismo começou a desvanecer? Quando um país com uma história tão rica começa a se esquecer – ou não dar valor – àquilo que vem a ser a base que propriamente constitui a nossa identidade? Por mais polêmica que seja, a resposta a essas perguntas é bem simples: essa tragédia acontece quando o fútil e o passageiro tomam o lugar daquilo que deveria ser eterno e sempre conservado.

Nosso idioma, nossas dimensões territoriais, nossa bandeira, nossos hinos, nosso povo, nossa rica cultura, nossa história e nossa Religião: como foram difíceis tais conquistas, marcadas por lutas e por sofrimento. Só por isso já deveríamos reconhecer o seu valor inestimável e conservar com zelo a sua memória, para que todas as gerações saibam o quanto tudo isso vale.

Antes de ser conhecida com o nome “Brasil”, nossa terra já havia sido batizada pelos bravos portugueses, no seu descobrimento, como "Terra da Vera Cruz", em virtude da semana da Santa Cruz. Este nome conservava a herança e a fé de Portugal, país cuja rica história é marcada pela fé em Cristo e que trouxe em suas naus o primeiro objeto que fincaria em nosso solo: a Cruz do Senhor.

A bordo das caravelas de Pedro Alvares Cabral vinham os missionários que propagariam a fé católica e apostólica em nosso território. Na missiva de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal – verdadeira certidão de nascimento de nosso país – nota-se a preocupação em salvar as almas dos primeiros habitantes de nossa pátria. É a salvação das almas que impulsionará os feitos de São José de Anchieta, ao lado de outros padres da Companhia de Jesus que chegam 49 anos depois do descobrimento, tais como Manuel da Nóbrega, que começa a propagar a fé e as primeiras noções de educação em nossa terra, iniciando o que podemos chamar de civilização brasileira.


A Primeira Missa no Brasil, por Victor Meireles (1860)

Da mesma companhia tivemos, ainda, a honra de aprender com um dos maiores oradores da nossa língua: Padre Antônio Vieira. O papel desempenhado pelos Jesuítas só não foi maior devido à expulsão da ordem, em 1756, por decreto do Marques de Pombal, sendo que os padres jesuítas só viriam a retornar quase cem anos depois. 

Não só os Jesuítas, mas também outras ordens religiosas aportaram em nossa “Mãe Gentil”: Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas, Beneditinos e, não menos importante, a nossa querida Congregação do Oratório de São Filipe Neri. Todos verdadeiros apóstolos do Brasil.

Mesmo com tenra idade, nosso país é logo marcado por lutas, tanto internas, contra os indígenas (os que não se convertiam ou que eram escravizados), quanto externas, contra os primeiros invasores externos (franceses, holandeses e até mesmo piratas e corsários ingleses). Se hoje não falamos francês, muito se deve à luta de defensores como o padre Manuel da Nóbrega, além de Mem de Sá e seu sobrinho Estácio de Sá que, logo após a vitória no Rio de Janeiro, morreu em decorrência dos ferimentos adquiridos na batalha contra os franceses.

Durante 24 anos, os holandeses conseguiram, por meio das Companhias das Índias Ocidentais, no papel do governador João Mauricio de Nassau, criar uma colônia no Brasil. Exploraram o açúcar (uma das nossas primeiras riquezas) até serem expulsos em 1644. A marca que o “Brasil holandês” deixou, porém, foi também incorporada à cultura brasileira. O território brasileiro é expandido graças a figuras controversas como a dos Bandeirantes, entre os quais Raposo Tavares, desbravador de São Paulo, o "Governador das Esmeraldas" Fernão Dias e o lendário Anhanguera (Bartolomeu Bueno da Silva). Homens de dura cerviz, sertanistas que carregavam em suas costas a herança das falanges macedônicas. Afinal, as Bandeiras nada mais eram do que verdadeiras instituições paramilitares, que tiveram o seu fim decretado no próprio território que ajudaram a desbravar, nas mãos do padre Montoya, defensor dos indígenas perseguidos. 

A economia de nosso país fluiu desde o extrativismo vegetal, com o Pau-Brasil, às grandes moendas açucareiras no Nordeste e à corrida pelo ouro, principalmente, em Minas Gerais, sendo o período da busca pelo precioso metal muito destacado pelo apogeu da belíssima arte Barroca.

Muitos outros personagens passaram pelo palco de nosso país e deixaram suas marcas. Influenciados pelas ideias iluministas, alguns tentaram romper com a Coroa Portuguesa, o que nos legou a Inconfidência Mineira e a icônica figura de José da Silva Xavier, o Tiradentes. A Europa é sacudida pela tempestade Napoleônica. O monarca Dom João VI, então, desembarca em sua colônia no ano 1808, trazendo consigo toda a corte portuguesa. Tal fato se tornará de suma importância para o desenvolvimento da nossa pátria.

Instituições das mais variadas são criadas; a colônia começa a ganhar contornos de metrópole e, mesmo após a independência, não deixará de se desenvolver. Com a independência proclamada por Dom Pedro I, temos agora um imperador, sem, no entanto, perder a herança e o vínculo com as nossas próprias origens.

D. Pedro II por
Delfim da Câmara (1875)
Um momento histórico que fomentará o primeiro rompimento com nossas raízes é a proclamação da República. A partir desse momento, não ganhamos um presidente antes de perdermos um pai, na figura do Imperador Dom Pedro II. E com o fim do período imperial, começa-se a criar uma nova mentalidade e uma tentativa de esquecer e até mesmo reescrever a nossa história. Valores antes inestimáveis começam a ser substituídos por símbolos que deixam de lado tudo o que se refere à monarquia. Não deixa de ser fascinante a luta de Antônio Conselheiro, um monarquista, em Canudos, um momento marcante da nossa história republicana.

Ganhamos uma nova bandeira, novas leis, novos governantes e, pouco a pouco, o país começava a esquecer o império que um dia fora. Ao invés da perpetuidade e segurança da instituição milenar que é a monarquia, ganhamos a troca permanente de partidos no governo e, logo mais, a entrada de um ditador que lutou para criar o mesmo espírito do império em sua figura: Getúlio Vargas.

Após a ditadura Vargas, “democracia” começa a ser a palavra de ordem em nossa pátria, muitas vezes desvirtuada e até incompreendida. Passados poucos anos, enfrentaremos mais uma ditadura de 30 anos. No período militar, houve uma tentativa de criar ordem e disciplina (dentro dos dizeres positivistas da nossa bandeira republicana e constitucionalista), mas que falhou miseravelmente ao ceder praticamente todo o espaço e poder das instituições de ensino e dos veículos de comunicação aos comunistas. No fim, deparamo-nos com um novo malogro. 

O mundo mudou. Ser patriota é agora sinônimo de desejar o antigo, o velho, o retrógrado, o “dogmático”, etc. O pensamento comum é o de que o país precisa "avançar" – e não pode olhar para trás, não deve sem sequer se lembrar das antigas estruturas – e que se deve reconstruir tudo, desde a fundação... 

Em nome da democracia, uma única crença dá lugar aos mais variados tipos de credos; a família patriarcal e numerosa é substituída pela família planejada, e se possível não apenas com a figura de um único pai ou de uma única mãe; mais ainda, agora tenta-se reinventar a própria estrutura da família enquanto tal, e os professores já não são figuras que devam ser respeitadas, mas questionadas (algo que os próprios professores ensinam!), e o “saber”, mesmo errado, do aluno, este sim deve ser "respeitado"(!). Fenômenos ou objetos dos mais desprezíveis são agora parte da "cultura" e tomam ares de “arte”, seja na música, na pintura etc. O que com muita luta foi construído agora é posto abaixo ao som de risos e escárnios. Nossos monumentos, que nos lembram a nossa pátria (cultura, história, língua e origens) são deixados ao acaso, às intempéries, relegados ao esquecimento. Desfiles cívicos e o respeito pelas datas importantes do calendário nacional são hoje apenas feriados – oportunidades para o churrasco entre amigos ou um fim de semana prolongado na praia. 

O patriotismo é um amor ao que nós realmente somos, àquilo que nos faz distintos das demais nações. É o que temos e cultivamos como cultura comum; é aquilo que nossos antepassados nos legaram, o que faz de nós o que somos. É, em dada proporção, um forte laço de pertença a uma grande família. Interessante notar que, como já foi dito, nos últimos tempos é precisamente a família a que mais sofre com ataques dos mais variados para apagar qualquer traço de importância; querem nos convencer, por força e a qualquer custo, que dois homens ou duas mulheres vivendo juntos são tão "família" quanto qualquer família natural composta de pai, mãe e filhos de sangue. Para tanto, como é óbvio, terão que combater a Igreja e tudo o que se entende por Cristianismo. Também assim, a pátria sofre sob pesadíssimos e constantes ataques, vindos de todas as frentes.

Mas há esperança. Notamos hoje um crescente interesse pela nossa história; em decorrência do avanço que tivemos, alguns começam a olhar para trás, pois a tradição não deixa de ecoar aos ouvidos atentos. Talvez ainda não seja tão tarde e, afinal, confiamos primeiro em Deus. Em meio a este mar bravio, sacudido por ondas furiosas, ainda podemos nos ancorar em alguns rochedos, mesmo que dilapidados, como a nossa família. Por mais que tentem destruí-la, a força de vários povos que migraram para a nossa pátria não deixou que essa instituição ruísse por completo; assim também é em relação à nossa fé cristã católica, iniciada com a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo primeiramente plantada em nosso solo.
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Padres católicos fiéis ao Papa sob ameaça na China


AINDA ESTE ANO, todos os padres na China deverão se registrar para receber um certificado oficial do governo que lhes permita exercer o seu Ministério. Tal pedido terá que passar pelo crivo da "Associação Patriótica 'Católica'" daquele país, órgão que na verdade existe para controlar a religião e cujos estatutos são incompatíveis com a fé da Igreja propriamente dita, já que o Estado admite o catolicismo, por assim dizer, pela metade, pois não permite a plena fidelidade ao Papa. Muitos sacerdotes chineses agora enfrentam um enorme dilema.

Apelos frequentes de ajuda estão chegando, este ano, da parte do clero chinês, às agências internacionais. Esses sacerdotes, fiéis ao Papa e chamados na China "clandestinos"1, encontram-se em uma situação muito difícil e grave, obrigados a registar-se para a aprovação da "Associação Patriótica" dita falsamente "católica", aceitando o seu "princípio da autonomia, independência e administração democrática" da Igreja, que serve para manter as ações dos católicos naquele país sob controle, contrariando inclusive princípios morais da fé católica. Parece, entretanto, que ninguém se importa muito com eles. A atenção do grande público e dos católicos na China está voltada para outro assunto: os resultados das negociações em curso entre a Santa Sé e o Governo chinês. Há muita especulação no ar, mas a preocupação está relacionada principalmente às questões da eleição de bispos chineses e do eventual reconhecimento mútuo diplomático entre os Estados.

John Tong, bispo de Hong Kong, interveio na questão com um artigo bastante equilibrado, enfatizando a necessidade de diálogo e de se tentar resolver os medos e críticas daqueles que se opõem às negociações. No entanto, os problemas diários e as dificuldades do clero chinês e, consequentemente, dos seus fiéis, não parecem receber atenção adequada. A questão do "registro oficial" do clero merece, evidentemente, maior e especial atenção também no âmbito dessas negociações oficiais: pode inclusive abrir caminho para a solução de outras questões, e é bastante urgente.

Em 13 de fevereiro deste ano, o Global Times informou que a China está lançando a campanha maciça para registrar as identidades de todos os trabalhadores religiosos do país: o certificado a ser emitido registrará o nome religioso, nome secular, número de cartão de identidade nacional e um número único atribuído a cada operador religioso individual. A campanha começou com os monges budistas e logo se estendeu aos padres católicos, que serão obrigados a requerer os seus certificados até o final de 2016. Se o pedido de certificado de um padre, monge ou religioso local é rejeitado pelas autoridades, o requerente não terá o certificado. De acordo com a Administração Estatal para regulamentos religiosos, aqueles sem certificados estarão simplesmente proibidos de se envolver em quaisquer atividades religiosas.

Depois disso, em 25 de fevereiro, em uma reunião com funcionários da Administração Estatal para Assuntos Religiosos e do Partido Comunista, foram aprovadas as seguintes medidas: só se poderá ordenar bispos na China "sob a liderança do governo", e também será necessário registar o clero, obrigando-os a pedir o certificado de identidade.

Muitos se perguntam por que as negociações entre a Santa Sé e Pequim não lidam com essa questão. Se o registo oficial do clero, por um lado, seria desejável, por que não aplicá-lo através de órgãos civis, como acontece nas outras nações?


Fiéis católicos chineses celebraram a Páscoa com heroísmo dos mártires

1Entenda a Igreja Católica na China

É impossível dizer exatamente quantos cristãos católicos existem, hoje, na China, mas ninguém nega que esse número cresce, e rapidamente. Estimativas apontavam que existiam na República Popular da China, em 2006, cerca de 8 milhões de católicos "clandestinos" e 5 milhões de católicos oficiais, e não há dúvidas de que de lá para cá este número aumentou muitíssimo. Os novos cristãos podem ser encontrados em vilarejos no interior e também nas grandes cidades, onde vivem jovens de classe média. Segundo pesquisas, ao menos a metade dos católicos chineses é abertamente contra a recusa da autoridade papal exigida por Pequim. São estes que integram a chamada “Igreja clandestina”, que vive sob a ameaça constante de invasão policial e de prisão para fiéis e sacerdotes.

Um fotógrafo estrangeiro, correspondente da revista Time que viveu na China, documentou a vida do rebanho “clandestino” de Hebei, que é guiada pelo padre Dong Baolu. Metade da cidade foi outrora católica devido ao apostolado de missionários estrangeiros, que difundiram profundamente a fé nas mais variadas localidades da China rural. A revolução comunista de Mao Tsé-Tung, em 1949, e as campanhas políticas de extinção dos opositores nas décadas seguintes foram um golpe tremendo nesse rebanho.

O regime perseguidor se perpetua até hoje e exige dos fiéis que queiram se reunir a submissão a um ente espúrio denominado "Associação Patriótica Católica Chinesa".

Essa dependência estatal socialista cultiva relações estáveis com o progressismo católico no Ocidente, notadamente com a dita "'teologia' da libertação" (só para não variar envolvida em tudo o que é contra a fé cristã de sempre) e certas conferências episcopais, inclusive a brasileira, que há poucos anos recebeu sua delegação em Brasília. Também está num controvertido diálogo com a dita "Ostpolitik vaticana", ou política de aproximação da Santa Sé com os governos comunistas.

O padre Dong Baolu, de Hebei, bem como muitos outros sacerdotes e bispos chineses, se recusam a ceder às intimidações e seduções. No último Domingo de Páscoa, conta a “Time”, o sacerdote voltou a elevar o Santíssimo Sacramento durante a Missa para a adoração dos fiéis, reunidos em sua capela clandestina. Havia ameaças da polícia socialista, mas esta não chegou a afastar os fiéis, que ocuparam um beco e um telhado para receberem a comunhão.

Enquanto isso, o fotógrafo internacional via a igreja "oficial" próxima, cúmplice da "Associação Patriótica 'Católica'" chinesa, completamente vazia. Os fiéis católicos da China celebraram a Páscoa e a Ressurreição na dor e na perseguição. Mas com heroísmo de mártires.

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Fonte:
• AsiaNews.It, em:
www.asianews.it/news-en/In-China-Holy-See-talks,-silence-shrouds-future-of-underground-priests-38335.html
Acesso 31/8/016
• IPCO, em:
http://ipco.org.br/ipco/cardeal-teme-iminente-capitulacao-vaticana-diante-do-comunismo-chines/#.V87E31QrKCg
Acesso 31/8/016
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A Missa Tridentina e sua sacralidade versus ministros extraordinários da Eucaristia


O autor da aclamada obra 'Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental', o Ph.D Thomas E. Woods Jr.*, fala sobre a banalização do Sagrado através do uso indiscriminado dos ministros extraordinários da Comunhão Eucarística. Publicamos porque consideramos que se trata de uma crítica válida e bem fundamentada, que pode servir de base para reflexões positivas; as opiniões do autor, entretanto, não necessariamente expressam as posições do nosso apostolado. Rezamos para que a sua leitura seja útil. Segue:


O ESPÍRITO DE INOVAÇÃO dos últimos quarenta anos tem endurecido a sensibilidade de muitos clérigos para a seriedade e gravidade de suas rupturas quase rotineiras com a Tradição. Ainda que tenha sido mostrado a eles que algumas inovações obviamente foram detestadas pela assembléia dos santos, eles os ignoram – uma atitude que outrora seria impensável para um católico – ou alegam que a Igreja tem feito "progressos" desde os primeiros tempos em que tais inovações começaram a ser implantadas. Tal é o nível da idiotice que só uma era tão empobrecida espiritual, intelectual e esteticamente quanto a nossa poderia descrever como “progresso”, enquanto interpreta o desagrado dos santos como sinal de atraso destes (dos santos), ao invés de prova da sua própria imaturidade.

Como um convertido, sempre considerei o uso dos “ministros de Eucaristia” uma das inovações pós-conciliares mais incômodas. Eu me perguntava: se nós, católicos, realmente cremos no que diz a Igreja sobre a Sagrada Eucaristia, e se realmente cremos no santo sacerdócio, por que estimulam tanto a introdução dos leigos em área tão sagrada da vida da Igreja – uma área para a qual, de fato, os leigos nunca reivindicaram ou manifestaram desejo de admissão? Afinal de contas, Sto. Tomás de Aquino já fizera uma ligação explícita entre a ordenação do sacerdote e a sua missão de distribuir a Santa Comunhão, e o Papa João Paulo II uma vez indicou a relação entre a consagração das mãos sacerdotais com o seu inestimável privilégio de distribuir as Hóstias consagradas aos fiéis.

Nada disso, porém, parece sensibilizar os inovadores, cujo ponto ideológico não é exatamente sutil: a introdução dos ministros da Eucaristia clara e obviamente denigre o ofício do sacerdócio sacramental em nome de um igualitarismo que é totalmente estranho à tradição Católica – embora (não coincidentemente) agrade os materialistas e/ou aqueles que têm dificuldades em aceitar/entender a transcendência da Religião e cause boa impressão aos olhos do mundo. A premissa implícita é justamente a de que devemos nos conformar ao mundo: uma vez que a era em que vivemos é aquela que, profundamente influenciada pelo pensamento marxista, enfatiza a “igualdade” e, uma vez que os privilégios do sacerdócio parecem intoleráveis aos formadores de opinião do nosso tempo, é esta exigência do tempo que deve ser satisfeita, ainda que à custa das tradições imemoriais.

Em pelo menos um caso, os ministros da Eucaristia continuam sendo harmoniosamente (porque não há conflitos) evitados na comunidade da Missa: pelos sacerdotes e fiéis católicos que celebram a Missa extraordinária, tradicional ou tridentina. Certamente as pessoas que procuram o rito antigo o fazem a fim de evitar a sensação de banalidade – de familiaridade quase casual – que existe na "Missa nova". Ao se colocaram na Presença do Eterno, sabedores de que estão adentrando lugar santo (lugar separado, outro, consagrado) querem manifestar a sua reverência diante da Majestade infinita de Deus. Já o uso dos ministros extraordinários da Eucaristia é um costume introduzidos que claramente transmite a indesejável aparência e sensação de coisa comum, meramente humana, como se a Missa fosse uma simples ação de louvor a Deus organizada pelos irmãos de fé, a exemplo do culto protestante. 

Num mundo que crê que tudo é relativo em sentido absoluto e nada é imune às mudanças e numa sociedade esquizofrênica em que a própria família é objeto de "redefinição" de acordo com os caprichos humanos, esses fiéis católicos, soldados da Fé amantes do Cristo e filhos de Maria Santíssima, apreciam o fato de que a piedade e a reverência da Missa tradicional, em sua beleza e imponente austeridade, com a reserva dos serviços sagrados unicamente aos sacerdotes, relembra-nos que algumas coisas de fato não devem e não podem ser tocadas pelo homem. Que mensagem mais necessária à nossa sociedade e aos nossos filhos, nestes tempos insanos?

O grande Rei Felipe II da Espanha, ao ver uma criança que aprendia a engatinhar tentando escalar a grade que nas igrejas antigas separava a assembleia do Presbitério e do Altar da Comunhão, disse-lhe: “Apenas os sacerdotes podem estar aí”. Hoje, uma geração possuidora de autoconfiança imerecida e inconsequente, sem nenhuma maturidade espiritual, ri da piedade bela e solene dos nossos antepassados, que nunca teriam sonhado em transgredir o solo do santo sacerdócio e desmistificar e profanar o lugar mais belo e sagrado de toda a Terra.

Não é fácil, mas os bons pais católicos devem, portanto, trabalhar contra as pressões da mídia, da indústria do entretenimento e de todo Zeitgeist[1] a fim de aquinhoar nos seus filhos a ideia de que algumas coisas são sagradas, são maiores do que nós, estão além do nosso alcance; eis uma ideia que é sempre mais bem expressa nas ações e nos gestos do que em palavras. A santa Comunhão, ensinem aos seus filhos, ao permitir-nos a Comunhão com a própria Vida Divina, é o maior Dom de Deus para nós, aqui na Terra. 

A santa Comunhão simplesmente contém Corpo, Sangue, Alma e Divindade do próprio Senhor Jesus Cristo, Deus e Salvador nosso. A única resposta racional e espiritual madura para tal Dom é a maior reverência, e esta é a mensagem às crianças que a presença dos ministros de Eucaristia, membros não-ordenados dentre os fiéis comuns, vai minando. Uma vez que, além disso, a custódia exclusiva do sacerdote sobre a Eucaristia tem sido tradicionalmente um dos aspectos que mais fascinava os jovens meninos no sagrado Ofício, o uso dos ministros de Eucaristia pode apenas afastá-los do mistério do sacerdócio que tanto os atraía. Por que tanto sacrifício associado à vida de sacerdote se o leigo comum pode alimentar o rebanho, tanto quanto você e eu?

É esta enfermidade espiritual que nos assedia de todos os lados e que está praticamente institucionalizada através da vida paroquial, e que as pessoas que participam da Missa tridentina procuram evitar. Muitos fazem grandes sacrifícios para participar de tais Missas, frequentemente percorrendo longas distâncias ou, em alguns casos, até mesmo mudando suas residências, a fim de que a "Missa de sempre" se torne mais acessível para eles. Bispos e pastores que se desviam do caminho para demonstrar a sua “compreensão pastoral”, por exemplo, aos católicos divorciados ou recasados, dissidentes, feministas, homossexuais inveterados, etc, etc... (a lista se torna cada vez maior e pior) nada têm a oferecer àqueles católicos que estão simplesmente tentando viver a Fé que seus pais e avós lhes transmitiram, e que por seus meios procuram resistir à obsessão da "cultura" secular com a dessacralização e profanação contra as quais os bispos e pastores deveriam resistir ao invés de serem tão indulgentes.

Ao contrário do que imaginam muitos, há bem mais do que um toque de fanatismo naqueles que não se conformam com os espetáculos histéricos na Missa –, com as "danças litúrgicas", a distribuição do Pão Consagrado ao estilo "self-service" e tantas outras aberrações –, submetidos às mais impiedosas e destrutivas inovações pós Vaticano II, muitas das quais violam claramente toda a ética do rito antigo e a visão tradicional do sacerdócio, a única que os santos reconheceriam. Será que essas pobres criaturas não poderiam ser deixadas em paz?

Não queremos, como dizem os jornais, uma Igreja que se move com o mundo. Queremos uma Igreja que move o mundo. E é através deste teste que a história realmente julgará qualquer Igreja, seja ela verdadeira ou não.
(G. K. Chesterton)

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1. O 'espírito do tempo', isto é, o conjunto dos usos e costumes de uma determinada época e que varia conforme os modismos, miscelânea de culturas, desenvolvimento de ideologias, alternância de lideranças políticas, etc.
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* Thomas E. Woods Jr., possui bacharelado em História pela Harvard e Ph. D. pela Universidade de Columbia. Seus artigos apareceram em Investor’s Business Daily, the Christian Science Monitor, Modern Age e dezenas de outros periódicos. É professor de História da Suffolk Community College da Universidade Estadual de Nova York e editor associado da revista The Latin Mass).

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Fonte:
• Missa Gregoriana em Portugal e no mundo, disp. em:

http://missatridentinaemportugal.blogspot.com.br/2011/04/compenetracao-na-liturgia-da-santa.html
Acesso 3/9/016

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