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A Verdade, um estudo filosófico – conclusão

Por Ir. Jean-Dominique, o.p.
Tradução de Euro B. de Barros


Santo Tomás de Aquino, pintura espanhola anônima do séc. XIX
** Ler a primeira parte

Artigo 4º — O verdadeiro e o bem

ESTE ARTIGO ESTENDERÁ o problema da verdade a todo o agir humano.

    A vontade é, de fato, o princípio imediato de toda ação humana. Um ato é dito propriamente “humano” quando é voluntário. Ora, o objeto da vontade é o bem. A vontade é um “apetite”, um desejo de bem que o faz ser procurado quando dele se é privado, e que faz repousar quando já está este possuído.

A Verdade, um estudo filosófico – parte IV


Por Ir. Jean-Dominique, o.p.
Tradução de Euro B. de Barros


** Ler a primeira parte

Artigo 3º — O verdadeiro e o ser

Consideramos, até aqui, a verdade na inteligência que conhece. Falta-nos compará-la com a existência real das coisas. Há uma prioridade de uma sobre a outra? Uma é condicionada pela outra?

    A questão é formulada naturalmente, porque, se o verdadeiro é anterior ao ser, o pensamento precede a existência das coisas. Caso contrário, se o ser tem prioridade sobre o conhecimento, parece que deve escapar à apreensão de qualquer inteligência.

A Verdade, um estudo filosófico – parte III

Por Ir. Jean-Dominique, o.p.
Tradução de Euro B. de Barros

Santo Tomás de Aquino, gravura italiana não datada (Ann Ronan Picture/Thinkstock)


** Ler a primeira parte

Artigo 2º — A verdade está no julgamento

A VERDADE NOS APARECEU como uma relação de conformidade, – no seu ato de conhecimento, – com o real. No seu segundo artigo, Santo Tomás estuda a verdade a partir do primeiro termo, a inteligência. No terceiro, irá estudá-la a partir do real, procedendo da seguinte maneira: compara a verdade lógica (verdade na inteligência) com a verdade ontológica (verdade das coisas), a fim de deduzir sua diferença e melhor determinar a primeira.

A Verdade – um estudo filosófico, parte I

Por Ir. Jean-Dominique, O.P.
Tradução de Euro B. de Barros
Adaptação de Henrique Sebastião



– I –


A NAJA É UMA SERPENTE terrível. Ela cospe seu veneno até a metros de distância; apontando para os olhos da vítima, cega-a, temporária ou definitivamente, e assim esta se torna presa fácil.

    Desde as nossas origens, a serpente tem o triste privilégio de representar o demônio, em razão da malícia e da picada mortal que a caracteriza. Parece no entanto que, passados alguns séculos, a técnica demoníaca evoluiu. Não contente em nos morder o calcanhar, como a víbora, descobriu um veneno que nos cega. A víbora tornou-se naja. Vejamo-lo...

Auge místico e morte de Tomás de Aquino


PODEMOS TER UMA noção mais profunda, por meio dos testemunhos apresentados em nossa última postagem, da perfeição daquilo que Santo Tomás de Aquino entendia por vida contemplativa. Esta, no seu último ano de vida, se acentuou e atingiu um ponto culminante...

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Notas biográficas sobre Santo Tomás de Aquino


O NASCIMENTO DE TOMÁS de Aquino ocorreu, com certeza, entre os anos 1225 e 1227, em Rocasecca, cidade próxima a Nápoles, Itália. Era Tomás filho do Conde Landolfo de Aquino e da Condessa Teodora, que viviam no castelo de Rocasecca, aparentados com a nobreza alemã e com as casas reinantes da Espanha e da França...

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O Mandamento da Caridade, por Santo Tomás de Aquino

NOSSO APOSTOLADO preparou, para esta semana, uma série especial com uma coleção de breves estudos fundamentados na preciosa obra de Santo Tomás de Aquino, o "Doutor Angélico". Com profunda alegria no SENHOR, inciamos esta semana com os belíssimos 24 pontos sobre a Caridade divina cristã, extraídos das Conferências tomasianas sobre os Dez Mandamentos...

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Auge místico e morte de Tomás de Aquino


PODEMOS TER UMA noção mais profunda, por meio dos testemunhos apresentados em nossa última postagem, da perfeição daquilo que Santo Tomás de Aquino entendia por vida contemplativa. Esta, no seu último ano de vida, se acentuou e atingiu um ponto culminante. A este respeito, porém, passamos a palavra a João Ameal1, embora em sua narrativa ele se baseie também em Guilherme de Tocco2.

O último ano da vida de Tomás de Aquino é assinalado por diversos acontecimentos extraordinários que mostram como, de dia para dia, era cada vez mais irresistível o chamado às intimidades sobrenaturais.

Já no convento de Nápoles, frei Domingos de Caserta repara que Tomás desce de seu quarto antes das matinas e vai até à igreja. Apenas o sino toca e supõe os companheiros prestes a despertar, volta para cima, como se não quisesse ser descoberto.

Frei Domingos resolve um dia saber o que se passa. Levanta-se mais cedo e, ao ver o Doutor Angélico sair da cela, segue-o, oculto, à capela de São Nicolau. Aí surpreende o mestre dominicano imerso em profunda oração. Com grande espanto, observa que seu corpo se eleva no ar, dois palmos acima do nível do solo. Dentro de alguns momentos, na penumbra silenciosa da capela, soa uma voz misteriosa, que vem do crucifixo erguido no Altar:
Tomás, escreveste bem sobre Mim.
Que receberás de Mim
como recompensa pelo teu trabalho?"

De joelhos, transportado de fé, Tomás exprime na resposta a plenitude de seu ardor místico:
Senhor, nada, senão Vós!"
Depois de narrar esta cena prodigiosa, Tocco informa que o mestre trabalha então na terceira parte da Summa Theologiae, e pouco mais escreverá. Se o Senhor lhe fala de recompensa, é sinal do fim de suas canseiras.

De fato, não decorre muito tempo sem que Tomás atinja a maior altura de sua vida visível. É no dia 6 de dezembro de 1273, quando celebra a Missa, na mesma capela de São Nicolau. Bruscamente, opera-se nele grande mudança, que impressiona a todos os assistentes. Finda a Missa, não volta a escrever e deixa mesmo por acabar a terceira parte da Summa, logo após ter terminado o tratado sobre a Eucaristia.

Desgostoso, ao vê-lo cada vez mais afastado dos tratos habituais, observa-lhe o seu secretário, frei Reginaldo de Piperno:
Mestre, como abandonais uma obra tão vasta, que empreendestes para a Glória de Deus e iluminação do mundo?"

Tomás replica:
Não posso mais."
Pouco tempo depois, acompanhado de Reinaldo, vai o Doutor Angélico visitar sua irmã, a Condessa Teodora de Sanseverino, de quem é especialmente amigo. Estranha-o Teodora, que, surpreendida, indaga ao seu confidente: "Que é isto? Frei Tomás está tão distraído que mal me falou!". Piperno, melancólico, esclarece-a: "Anda assim desde a festa de São Nicolau. Deixou mesmo, por completo, de escrever." E torna a insistir, repetidas vezes, com o mestre, para que lhe explique a razão de sua apatia. Até que Tomás declara de novo, com mais firmeza e veemência:

Peço-te, pela caridade que tens agora por mim, que não transmitas a ninguém, enquanto eu viva, o que te disser."

E acrescenta, peremptório:
Tudo que escrevi até hoje, parece-me unicamente palha, em comparação com aquilo que vi e me foi revelado."3
Algumas semanas mais tarde, Tomás de Aquino foi convocado pelo Papa para se apresentar ao Segundo Concílio Ecumênico de Lião; junto com seu secretário Reginaldo e Tiago de Salerno, empreende uma viagem até à França.

No meio do caminho, próximo a Fossa Nova, Tomás fica doente; é acolhido no mosteiro cisterciense daquela cidade e aí vem a falecer.

Antes de falecer, voltou a manifestar-se mais uma vez sobre o ocorrido no dia 6 de dezembro do ano anterior; sobre este assunto, se Deus nosso Senhor o quiser e permitir, voltaremos a falar com mais lastro em momento apropriado.

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1. João Francisco de Barbosa Azevedo de Sande Aires de Campos (Santa Cruz, Coimbra, 23 de fevereiro de 1902 - Lisboa, 23 de setembro de 1982), conhecido pelo pseudônimo literário João Ameal, jornalista, escritor, político, e historiador de grande estatura, com vasta obra publicada e referência sobre Santo Tomás e o tomismo.

2. Guilherme de Tocco, Guillelmi de Tocco ou Guglielmo de Thoco (nascido entre 1240-50 e falecido antes de 1323) é o autor da mais importante biografia antiga de S. Tomás de Aquino, a «Ystoria sancti Thome de Aquino». Este livro tem o grande interesse de ser a história que serviu de base ao processo de canonização do teólogo.

3. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pp. 143-5.
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Fonte bibliográfica:
ROSA, Antonio Donato. A Educação segundo a Filosofia Perene: orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vitor. Cristianismo.Org.Br.
www.ofielcatolico.com.br

Santo Tomás e a Vida Contemplativa


COMO FOI POSSÍVEL, em apenas 25 anos de magistério, numa época em que não havia imprensa, em que bibliotecas eram escassas e pequeníssimas e as viagens eram feitas a pé, uma atividade intelectual tão prodigiosa quanto a de Santo Tomás de Aquino?

Os testemunhos de sua época, que recolhemos principalmente da biografia de Guilherme de Tocco, seu discípulo, nos dão uma ideia de como ele estudava e trabalhava; podemos daí compreender de onde manava a fonte de suas colossais atividades, e termos uma compreensão inicial mais perfeita daquilo a que ele se referia quando falava da vida contemplativa.

Diz o biógrafo, contemporâneo de Tomás, – Guilherme de Tocco, – que:

Nada do que Tomás pôde ler, com a Iluminação divina, pôde deixar de explicar. No que fica visível que Deus o tinha escolhido para a investigação da verdade, pois o iluminou mais do que a todos os outros, pois nunca colocou pelo pecado obstáculos diante de Deus para que, através da oração, não pudesse buscar a verdade. De onde que Deus, enquanto ele vivia, mostrou a todos um evidente milagre, isto é, como em tão pouco tempo, nos seus 25 anos de magistério, duas vezes indo e voltando da Itália e Paris, pôde escrever tantos livros, discutir tão profundamente tantas questões e ensinar tantas coisas novas." 1

Este Doutor entregou-se para isto totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável. Totalmente entregue às coisas celestes, na maior parte do tempo estava ausente dos sentidos, de tal modo que mais se supunha estar ele onde o seu espírito contemplava do que onde permanecia sua carne." 2

Ademais, durante o tempo da noite, dedicado pelos homens ao repouso, Tomás, após um breve sono, permanecia em seu quarto ou na igreja imerso em oração, para que orando merecesse aprender aquilo que deveria após a oração escrever ou ditar." 3

Todas as vezes em que queria estudar, disputar, ler, escrever, ditar, antes se entregava ao segredo da oração, para que encontrasse as coisas de Deus no segredo da Verdade; pelo mérito de sua oração, assim como se aproximava com as questões de que tinha dúvida, do mesmo modo saía dela ensinado." 4

Foi assim

(...) que escreveu um livro, intitulado Summa contra Gentiles, profundo pela sutileza e pela novidade das razões, em que mostrou de modo admirável o que já possuía pelo seu engenho e o que obtinha pela oração e pelo rapto da mente em Deus. De fato, frequentemente foi visto totalmente alheio aos sentidos, atento como sempre às Revelações divinas." 5

Indício certo de sua admirável memória era não somente o hábito da ciência, que ele possuía na alma tal como se a possuísse no livro; mas também aquela obra admirável que, a mando do Papa Urbano, de feliz memória, compôs sobre os quatro Evangelhos, em que citava de memória a maior parte das obras dos santos que ele tinha tido diante dos olhos, nos volumes que tinha lido em diversos mosteiros, todas as quais retinha em sua memória" 6

Como pôde compor tantos livros em tão breve tempo, Deus o mostrou admiravelmente por outros indícios. Este Doutor, de fato, algumas vezes ditava assuntos diversos a três e às vezes até a quatro escritores simultaneamente em seu quarto, de modo que parecia Deus infundir-lhe em sua mente diversas verdades simultaneamente, o que não poderia fazer ao mesmo tempo sem um milagre manifesto." 7

Tanta era a abstração da mente de Tomás, que às vezes não percebia estar sendo lesado em seu corpo. Certa vez os médicos acharam por bem cauterizar sua tíbia; ao que Tomás disse ao colega que estava consigo: 'Quando eles vierem com o fogo, faça-me o favor de me avisar'. Estando então no lugar em que deveria se realizar a cauterização, quando esta se iniciou, levantou-se a tamanha abstração que sequer percebeu o fogo que queimava sua perna; de fato, sequer moveu a perna do local em que estava." 8

Outra vez, estando Tomás em seu quarto a ditar um livro sobre a Trindade, tomou uma vela em sua mão e disse ao que escrevia: 'Seja o que for que vejas em mim, cuida-te de não me chamares'. Então, abstraído na contemplação, depois de uma hora a vela se consumiu e o fogo alcançou seus dedos, aí os tocando demoradamente sem que o Doutor os sentisse; ao contrário, continuou segurando o próprio fogo sem sequer um movimento dos dedos, até que ele por si só se apagou." 9

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Referências:
1. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C. 17.
2. Ibidem, C. 43.
3. Ibidem, C. 29.
4. Ibidem, C. 30.
5. Ibidem, C. 17.
6. Ibidem, C. 17, 41.
7. Ibidem, C. 17. 8. Ibidem, C. 47. (53) Ibidem, C. 47.
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Fonte bibliográfica:
ROSA, Antonio Donato. A Educação segundo a Filosofia Perene: orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vitor. Cristianismo.Org.Br.
www.ofielcatolico.com.br

Notas biográficas sobre Santo Tomás de Aquino

'Triunfo de Santo Tomás de Aquino sobre hereges' (detalhe), 1489-91. Afresco, Basílica de Santa Maria sobre Minerva, Roma

O NASCIMENTO DE TOMÁS de Aquino ocorreu, com certeza, entre os anos 1225 e 1227, em Rocasecca, cidade próxima a Nápoles, Itália. Era Tomás filho do Conde Landolfo de Aquino e da Condessa Teodora, que viviam no castelo de Rocasecca, aparentados com a nobreza alemã e com as casas reinantes da Espanha e da França1.

A data correta do nascimento de Santo Tomás, entretanto, tem sido objeto de longos debates entre os estudiosos2. A posição mais comumente aceita, segundo João Ameal3, é a definida por P. Mandonnet em um estudo publicado na Revue Thomiste em 1914, segundo o qual Tomás teria nascido em 1225, em alguma data anterior ao dia 7 de março4.

Seu discípulo e principal biógrafo, Guilherme de Tocco, conta-nos uma curiosa história sobre seu nascimento, ouvida da filha da irmã de Santo Tomás:

Estando sua mãe, a senhora Teodora, – ilustre tanto pelos costumes como pela fama de seus pais, – no castelo de Rocasecca, situado nos limites da Campânia, visitou-a o irmão Buono, melhor pela vida e pela religião, que levava vida de eremita com vários outros em uma montanha próxima e era tido como santo pelos homens daquela região, dizendo-lhe: `Alegra-te, senhora, porque estás grávida, e darás à luz um filho, ao qual chamarás Tomás. Tu e teu marido pensarão em fazer dele um monge no mosteiro de Monte Cassino, no qual repousa o corpo de São Bento, com a esperança de que, promovido a elevado cargo, possa alcançar os grandes rendimentos desse mosteiro. Mas Deus disporá de modo diverso para com ele, pois será frade da Ordem dos Pregadores e já em vida tão famoso pela ciência e pela santidade que em seu tempo em todo o mundo não se poderá encontrar outro igual'."5

De fato, com a idade de cinco anos, Santo Tomás foi confiado à custódia dos beneditinos de Monte Cassino, que já à época tinham como educadores uma fama universal. Seu tio Sinibaldo era, ademais, o abade do mosteiro6. Sua permanência em Monte Cassino durou aproximadamente nove anos, até quando, estando Tomás com cerca de 14 anos, a abadia foi ocupada pelas tropas de Frederico II. Seu tio Sinibaldo devolveu-o ao castelo da família, para logo em seguida ser encaminhado à Universidade de Nápoles7.

"Que se sabe da vida de Tomás em Monte Cassino?", pergunta João Ameal. "Pouco, mas o bastante para desde logo ficar definido o seu perfil moral. Envolto no hábito negro dos beneditinos, ajuda à Missa, toma parte nas procissões e cerimônias da Igreja, aprende a ler em latim e a cantar os Salmos nos ofícios sagrados, diante do imenso antifonário do mosteiro cujas páginas volteia, uma a uma.

Aos dez anos, Tomás, que já lê e escreve corretamente, estuda os primeiros elementos de Latim, de Aritmética e de Gramática. Aos treze, conhece grande parte do Saltério, dos Evangelhos, das Epístolas de São Paulo. O abade Sinibaldo, seu tio e preceptor, encaminha-o também às obras primas da Patrística: os escritos morais de São Gregório Magno, as cartas de São Jerônimo, os fragmentos mais acessíveis de Santo Agostinho. Precocemente, contudo, mostra-se pensativo e taciturno. Dir-se-á que já pesavam no seu espírito, aberto muito cedo aos mais largos horizontes, as interrogações decisivas da metafísica.

Horas seguidas, queda-se em uma contemplação misteriosa. Certo dia, a um frade que lhe pergunta qual a razão de seu alheamento, responde, com um olhar que se perde em distâncias remotas: "Que é Deus?", episódio em que Guilherme de Tocco vê um nítido presságio"8.

Foi o próprio abade Sinibaldo que, "notando no jovem indícios tão certos e maduros da futura perfeição e as primeiras sementes da futura colheita das Escrituras", diz o biógrafo Guilherme de Tocco, "aconselhou Landolfo a enviá-lo a Nápoles para estudar"9.

Seguindo a orientação pedagógica de então, continua João Ameal10, consagra-se Tomás de Aquino ao estudo das chamadas Artes Liberais, divididas em dois grupos: as que constituem o Trivium, isto é, a Gramática, a Retórica e a Dialética; e as que constituem o Quadrivium, isto é, a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música.

Seu mestre no Trivium foi Pedro Martinus; seu mestre no Quadrivium foi Pedro da Irlanda, célebre por alguns comentários a algumas obras de Aristóteles que começavam a ser redescobertas pelo Ocidente cristão. "A influência exercida por este professor no espírito de Tomás foi profunda, principalmente porque", diz João Ameal, "foi ele quem atraiu pela primeira vez a atenção de Tomás para o nome e a obra de Aristóteles. Este simples fato marca um lugar a Pedro da Irlanda na história do pensamento humano: ter sido, provavelmente, o instrumento do encontro inicial entre Santo Tomás de Aquino e  Aristóteles"11.

"Os progressos do moço em Nápoles", prossegue João Ameal, "são rápidos e sensíveis. Afirma Guilherme de Tocco, de acordo com o depoimento de seus contemporâneos, que nas aulas o seu gênio começou a brilhar por tal forma, e sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres, porém de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que como as tinha ouvido"12.


Beato Jordão da Saxônia

Foi durante sua estadia na Universidade de Nápoles, enquanto estudava o Trivium e o Quadrivium, que Tomás ficou conhecendo os padres dominicanos, sacerdotes pertencentes a uma ordem recém fundada na Igreja por São Domingos, cuja regra obrigava seus membros de modo especial à oração, ao estudo e ao ensino. Tratando da vida do bem aventurado Jordão da Saxônia, um dos primeiros dominicanos, seu biógrafo contemporâneo, Gerardo de Frachet, diz que certa vez um homem do povo aproximou-se de Frei Jordão e lhe indagou sobre qual fosse a regra que ele professava; ao que mestre Jordão respondeu: "A regra dos frades pregadores é esta: viver honestamente, estudar e ensinar; as mesmas coisas que pediu Davi ao Senhor quando disse: `Ensinai-me, Senhor, a bondade, a ciência e a disciplina'"13.

Uma ordem assim organizada, e que vivia ainda no fervor de seus primeiros anos de fundação, pois tinha sido fundada apenas vinte anos antes, deveria certamente exercer notável atração sobre um jovem com as qualidades de Tomás de Aquino. Assim como ele, os dominicanos eram também novos em Nápoles; seu convento tinha sido fundado nove anos antes da chegada de Tomás, e passou a contar com as frequentes visitas do estudante.

Provavelmente após os sete anos de estudos exigidos pelos ciclos do Trivium e do Quadrivium14, Tomás ingressou, por volta de seus 20 anos de idade, na Ordem dos Dominicanos. Por motivos de segurança, pois sua família ainda abrigava o desejo de vê-lo abade de Monte Cassino, Frei João Teutônico, mestre geral da Ordem Dominicana, enviou Tomás para Paris e logo em seguida para Colônia, no Império Germânico, onde, "sob a direção de frei Alberto (Santo Alberto Magno), mestre de Teologia da mesma ordem, floresceu um Studium Generale"15.


Santo Alberto Magno

Ali, Santo Alberto Magno vinha empreendendo um trabalho de interpretação e assimilação de toda a obra de Aristóteles. "Nossa intenção", – escreveu ele no início do seu Comentário à Física de Aristóteles, – "é tornar compreensível aos latinos todas as partes da obra de Aristóteles"16. "O encontro de Tomás de Aquino com Alberto Magno representa um fato de extraordinária  Transcendência na história do pensamento", continua João Ameal.

"Pode-se dizer que os dois foram colaboradores necessários à edificação do mais vasto e consistente sistema filosófico de todos as épocas. Santo Alberto recebeu com justiça o título de "Doutor Universal", pela sua desmedida pirâmide de conhecimento; colocando diante de seu discípulo uma variedade opulentíssima de temas. Se a visão de Tomás não tivesse sido assim de início estimulada pelo mestre e alargada nos mais diferentes sentidos, talvez o monumento tomista não alcançasse a majestade soberana a que se elevou"17. Desta época é novamente o testemunho de Guilherme de Tocco:

Frei Alberto, mestre em Teologia, era tido também como singular em todas as ciências. Tendo ali chegado o jovem Tomás, ouvindo-o ensinar coisas admiráveis e profundas em todas as ciências, muito alegrou-se por ter encontrado aquilo que buscava e de onde pudesse beber ávidamente aquilo de que tinha sede. Começou de modo admirável a falar pouco e permanecer no silêncio; tornou-se assíduo no estudo e devoto na oração, recolhendo interiormente na memória aquilo que posteriormente derramaria em seus ensinamentos.
Como se escondesse, porém, sob o véu de uma admirável simplicidade, seus irmãos começaram a chamá-lo 'boi mudo'. Desconhecendo, assim, a opinião humana a perfeição de seu aproveitamento, mestre Alberto deu início às suas preleções sobre o Livro dos Nomes Divinos do Bem-aventurado Dionísio, às quais o jovem passou a dar ainda maior atenção.
Certo estudante, desconhecendo quanta fosse a virtude da inteligência que nele se escondia, ofereceu-se, movido por compaixão, para repetir-lhe as lições, ao que Tomás, muito humilde, aceitou com gratidão.
Depois, porém, tendo o jovem iniciado uma repetição, como não conseguisse terminá-la,
frei Tomás, como que aceitando uma permissão divina para falar, repetiu toda a lição com distinção, complementando-a ainda com muita coisa que o mestre não havia ensinado.
Pesando-lhe na consciência ocultar o que havia ouvido, seu colega indicou a mestre Alberto haver descoberto no jovem Tomás um inesperado tesouro de sabedoria. Encarregou então o mestre a Tomás de responder, no dia seguinte, diante de todos, a uma questão muitíssimo difícil, o qual, se pela humildade não o quisesse fazer, o fez, todavia, pela obediência.
No dia seguinte, após ter-se dado à oração e recomendado humildemente a Deus, antepondo à questão do mestre uma certa distinção, Tomás pôde respondê-la a contento. Não satisfeito, mestre Alberto acrescentou-lhe mais quatro argumentos tão difíceis de serem respondidos que pensou com isto ter colocado a conclusão da questão. Frei Tomás, porém, a elas conseguiu responder tão brilhantemente que levou mestre Alberto a dizer: `Nós chamamos a este jovem de 'boi mudo', mas ele ainda dará tamanho mugido na doutrina que soará em todo o mundo!'.
Tomás, porém, que tinha alicerçado os fundamentos de seu coração na humildade, não se ensoberbeceu pelo testemunho de um tão grande mestre, nem por tão honrado ato escolar. Nem alterou seu costumeiro exemplo de simplicidade, observando sempre o mesmo modo de vida com que tinha iniciado, embora o mestre passasse a confiar-lhe todos os atos escolares mais difíceis por vê-lo muito mais adiantado do que os demais colegas"18

Foi em Colônia que Tomás de Aquino começou a ensinar sob a direção de Santo Alberto, e foi ainda nesta cidade que foi ordenado sacerdote pelo arcebispo de Colônia, Conrado de Hochstaden. Provavelmente foi também em Colônia que escreveu o De Ente et Essentia e que principiou a comentar os Livros das Sentenças de Pedro Lombardo19.

Em 1252, aos 27 anos, Tomás de Aquino foi transferido para Paris, com o fim de lecionar em sua famosa Universidade (atual Sorbonne), ali permanecendo até 1259, quando devia já contar com 34 anos. Foi nesta sua primeira estada em Paris que escreveu o Comentário aos Livros das Sentenças de Pedro Lombardo e as Quaestiones Disputatae De Veritate20.

Dos 34 aos 44 anos, Santo Tomás de Aquino lecionou em vários centros de estudos da Itália. Durante três anos foi professor em uma escola de Teologia anexa à Cúria Romana e teólogo consultor do Papa21. Desta época datam os principais comentários aos livros de Aristóteles, como o Comentário à Fisica, o Comentário à Metafísica e especialmente o Comentário à Ética. Datam desta época também a impressionante Summa contra Gentiles, que representou para Santo Tomás como que uma preparação para que pudesse escrever depois a monumental Summa Theologiae. É também desta época que provém a concepção e o planejamento da mesma Summa Theologiae, bem como a redação da primeira das três partes em que se divide esta obra22.

Dos 44 aos 47 anos, Tomás de Aquino voltou a lecionar na Universidade de Paris. Neste período escreveu outros comentários a Aristóteles, como o Comentário ao Livro da Interpretação, o Comentário aos Segundos Analíticos, o Comentário ao De Anima e o Comentário à Política, este incompleto e terminado pelo seu discípulo Pedro de Alvernia. Da Summa Theologiae redigiu também a segunda de suas três partes23.

Na Páscoa de 1247, com 47 anos completos, Santo Tomás retornou à Itália, onde lecionou na Universidade de Nápoles durante dois anos.

Durante estes dois anos escreveu o Comentário ao Livro De Causis e a terceira parte da Summa Theologiae, da qual completou as questões referentes a Cristo e a maior parte das referentes aos Sacramentos; preparava-se para escrever talvez aquela que seria a parte mais sublime, em que descreveria o Paraíso, quando, durante a Missa que celebrava na manhã de 6 de dezembro de 1273, recebeu uma Revelação que o proibiu de continuar a escrever e aguardar seu breve trânsito para a vida eterna, o que veio ocorrer a 7 de março do ano seguinte, à idade de 49 anos24.


* * * 

Mencionamos aqui a cronologia apenas de alguns dos livros de Santo Tomás de Aquino; além destes, ele produziu uma infinidade de outros trabalhos. Comentou, além dos já citados de Aristóteles, outros livros deste mesmo filósofo; quase todos os livros das Sagradas Escrituras; o Livro dos Nomes Divinos de Dionísio Areopagita e várias obras de Boécio; escreveu inúmeros trabalhos próprios de Filosofia, dos quais o De Ente et Essentia é um exemplo; várias obras de Teologia, além das duas Summae e dos Comentários aos Livros das Sentenças; pelo menos três livros de Política, além do próprio Comentário à Política de Aristóteles; diversas Quaestiones Disputatae, das quais as principais são as De Veritate, as De Potentia, as De Anima, as De Malo e várias menores, e também as Quaestiones Quodlibetales.


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Notas e referências bibliográficas:
1. Manser, G.M.: La Esencia del Tomismo; Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas Instituto "Luiz Vives" de Filosofia, 1953; pg. 14.
2. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pg. 10.
3. João Francisco de Barbosa Azevedo de Sande Aires de Campos (Santa Cruz, Coimbra, 23 de fevereiro de 1902 - Lisboa, 23 de setembro de 1982), conhecido pelo pseudônimo literário João Ameal, jornalista, escritor, político, e historiador de grande estatura, com vasta obra publicada e referência sobre Santo Tomás e o tomismo.
4. Mandonnet, P.: in Revue Thomiste, XXII, 1914, pgs. 652- 664, segundo nota de João Ameal à pg. 10 da obra citada na nota 23.
5. Guillelmus de Tocco:"Vita S.Thomae Aquinatis", C.1.
6. Manser, G.M.: o.c.; pgs. 14-5.
7. Nascimento, Carlos A. R.: Santo Tomás de Aquino, o Boi mudo da Sicília; São Paulo, EDUC, 1992; pg. 12.
8. Ameal, João: o.c., pgs. 13-4.
9. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C.5.
10. Ameal, João: o.c.; pg. 17.
11. Ibidem, loc. cit..
12. Ibidem, pg. 18.
13. Frachet, Gerardo: Vida de los Frailes Predicadores; in Santo Domingo de Guzman, su vida, su orden, sus escritos; Madrid, BAC, 1947; pg. 622.
14. Manser, G.M.: o.c.; pg. 16.
15. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C. 12.
16. Ameal, João: o.c., pg 5l. 
17. Ibidem, pg. 53.
18. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C.12.
19. Ameal, João: o.c., pg. 57, pg. 63; Manser, G. M.: o.c., q. 17. Quanto ao De Ente et Essentia, sua data é encontrada em quase todas as tábuas cronológicas das obras de S. Tomás.
20. Manser, G.M.: o.c. pg. 19.
21. Ameal, João: o.c., pg. 85.
22. Manser, G.M., o.c., pg. 20.
23. Ibidem, pg. 22; Pirotta, P. F. Angelus M.: Editoris Praefatio; in Sancti Thomae Aquinatis in Aristotelis Librum De Anima Commentarium; Turim, Marietti, 1948; pg. VII. Spiazzi, P.F. Raymundus: Introductio Editoris; in Sancti Thomae Aquinatis Doctoris Angelici in Libros Politicorum Expositio; Turim, Marietti, 1951; pg. XXVI.
24. Ameal, João: o.c., pg 144.

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Fonte bibliográfica:
ROSA, Antonio Donato. A Educação segundo a Filosofia Perene: orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vitor. Cristianismo.Org.Br.
www.ofielcatolico.com.br
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