O Mandamento da Caridade, por Santo Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, por Andrea di Bartolotêmpera sobre madeira (aprox. 1410)


Das Conferências sobre os Dez Mandamentos


1. Introdução

Três coisas são necessárias à salvação do homem, a saber:

● A ciência do que se há de crer;

● A ciência do que se há de desejar;

● E a ciência do que se há de operar.

A primeira nos é apresentada no Credo, por meio do qual nos é ensinada a ciência dos artigos da Fé. A segunda, na oração do Pai-Nosso. A terceira, na Lei.

Agora, a nossa intenção é acerca da ciência do que se há de operar, pelo estudo da qual encontramos quatro leis.


2/1. A Lei da Natureza

A primeira lei é dita lei da natureza, e esta nada mais é do que a luz da inteligência posta em nós por Deus, pela qual conhecemos como devemos agir e o que devemos operar. Esta Luz e esta Lei, Deus a deu ao homem, na criação, mas muitos acreditam dela poderem desculpar-se por ignorância, se não a observarem.

Contra estes diz, porém, o profeta no Salmo 4,6: "Muitos dizem: Quem nos mostrará o bem?", como se ignorassem o que é para se operar. Mas o próprio profeta, no mesmo lugar, responde (v.7): "Sobre nós está assinalada a luz do teu Semblante, ó Senhor". Luz, a saber, do intelecto, pela qual nos é dado a conhecer como devemos agir. De fato, ninguém ignora que aquilo que não quer que seja feito a si, não deve fazer ao outro, e outras tais.


3/2. A Lei da Concupiscência

Posto, porém, que Deus na criação deu ao homem esta lei, – a da natureza, – todavia o demônio semeou sobre esta uma outra lei, a da concupiscência. Com efeito, até quando no primeiro homem a alma foi submissa a Deus, observando os divinos Preceitos, também a carne foi submissa em tudo à alma, ou à razão. Mas depois que o demônio, pela tentação, afastou o homem da observância dos Preceitos divinos, também a carne se tornou desobediente à razão, do que sucedeu que, ainda que o homem queira o bem segundo a razão, todavia é inclinado ao contrário pela concupiscência.

É isto o que diz o Apóstolo aos Romanos, e a nós mesmos: "Mas vejo outra lei nos meus membros que se opõe à lei da minha razão" (Rm 7, 23). Daqui é que frequentemente a lei da concupiscência corrompe a lei da natureza e a ordem da razão, e por isso acrescenta o Apóstolo: "Acorrentando-me à lei do pecado" (ibd.).



4/3. A Lei da Escritura, ou do temor

A lei da natureza, pois, estava destruída pela lei da concupiscência. Fazia-se, portanto, necessário que o homem fosse restituído à obra da virtude e fosse afastado dos vícios. Para isto, foi necessária a lei da Escritura.

Deve-se saber, porém, que o homem é afastado do mal e induzido ao bem por duas coisas, a primeira das quais o temor. De fato, a primeira coisa pela qual alguém maximamente principia a evitar o pecado é a consideração das penas do Inferno e do Juízo final. Por isso é que o Eclesiástico nos diz: "O início da Sabedoria é o temor do Senhor" (Eclo 1,16), e também: "O temor do Senhor expulsa o pecado" (Eclo 1, 27), pois, ainda que aquele que por temor não peca não seja justo, todavia daqui principia a justificação.

É deste modo que o homem é afastado do Mal e induzido ao Bem pela lei de Moisés, a qual punia os transgressores com a morte: "Quem transgride a Lei de Moisés é condenado à morte, sem piedade, com base em duas ou três testemunhas" (Hb 10, 28).


5/4. A Lei Evangélica, ou do Amor

O modo do temor, porém, é insuficiente, e a lei que foi dada por Moisés desta maneira, afastando do mal pelo temor, também foi insuficiente. De fato, ainda que obrigasse a mão, não obrigava a alma. Por isso, há um outro modo de afastar do mal e induzir ao bem, a saber, o modo do amor, e deste modo foi dada a Lei de Cristo, a lei Evangélica, que é Lei de Amor.


6. A Lei do Amor torna livre

Deve-se considerar, entretanto, que entre a Lei do temor e a Lei do Amor são encontradas três diferenças. A primeira consiste em que a Lei do temor faz de seus observantes servos, enquanto que a Lei do Amor os faz livres. Pois quem opera somente pelo temor opera pelo modo de servo; quem, porém, o faz por Amor, o faz pelo modo do livre, ou do filho. De onde diz o Apóstolo: "Onde está o Espírito do SENHOR, lá está a liberdade" (2Cor 3, 17) porque, a saber, estes por amor agem como filhos.


7/2. A Lei do Amor introduz nos Bens Celestes

A segunda diferença está em que os observadores da primeira Lei eram introduzidos nos bens temporais, conforme diz Isaías: "Se quiserdes, e me ouvirdes, comereis dos bens da terra" (Is 1, 19).
Mas os observadores da segunda Lei são introduzidos nos Bens Celestes: "Se queres entrar na Vida, observa os Mandamentos" (Mt 19, 17). E também: "Fazei penitência" (Mt 3, 2).


8/3. A Lei do Amor é leve

A terceira diferença é que a primeira é pesada: "Por que quereis impor um jugo sobre nós que nem nós e nem nossos pais puderam suportar?" (At 15, 10) A segunda, porém, é leve: "O meu jugo é suave, e o meu peso é leve" (Mt 11, 30). E também: "Não recebestes um espírito de servidão para recairdes no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos" (Rm 8, 15).


9. Conclusão: simplicidade e retidão da Lei de Cristo

Assim, portanto, como já foi dito, encontram-se quatro Leis, a primeira sendo a Lei da Natureza, que Deus infundiu no homem na criação, a segunda a lei da Concupiscência, a terceira a lei da Escritura, a quarta a Lei do Amor/caridade e da Graça, que é a Lei de Cristo.

Como, porém, é evidente que nem todos podem ser versados na ciência, foi-nos dada por Cristo uma Lei breve, para que por todos pudesse ser sabida, e ninguém por ignorância pudesse escusar-se de sua observância, e esta é a lei do Amor divino. Como diz o Apóstolo: "Fará o Senhor uma Palavra abreviada sobre a Terra" (Rm 9, 28).

Deve-se saber, ademais, que esta Lei deve ser a regra de todos os atos humanos. Com efeito, assim como vemos nas coisas feitas pela arte humana, em que cada obra é dita boa e correta quando segue a regra da arte, assim também qualquer obra humana é reta e virtuosa quando concorda com a regra do Amor divino. Quando, porém, discorda desta regra, não é boa, nem reta, ou perfeita. Portanto, para que os atos humanos se tornem bons, é necessário que concordem com a regra do amor divino.


10. Os efeitos da Lei do Amor: o Amor causa a Vida espiritual

Deve-se saber, também, que esta Lei, a do Amor divino, produz quatro coisas no homem que são imensamente desejáveis, a primeira das quais é causar no mesmo a Vida espiritual.

É, de fato, manifesto que o amado está naturalmente no amante, e por isto, quem a Deus ama, possui Deus em si: "Quem permanece na caridade em Deus permanece, e Deus nele" (1Jo 4, 16).

A natureza do amor é também tal que transforma o amante no amado; de onde que se amamos o que é vil e caduco, vis e instáveis nos tornamos: "Fizeram-se abomináveis assim como o que amaram" (Os 9, 10). Se, porém, a Deus amarmos, divinos nos tornaremos, porque, como está escrito: "Aquele que se une ao Senhor, constitui com Ele um só Espírito" (1Cor 6, 17).

Neste sentido é que Santo Agostinho diz que assim como a alma é a vida do corpo, assim Deus é a Vida da alma, e isto é manifesto. Porquanto dizemos o corpo viver pela alma, quando tem as operações próprias da vida, e quando opera e se move. Apartando- se, porém, a alma, nem o corpo opera, nem se move.

Assim também a alma opera virtuosa e perfeitamente quando opera pelo Amor/caridade, pelo qual Deus habita nela. Sem a caridade, porém, não opera: "Quem não ama, permanece na morte" (1Jo 3, 14)

Deve-se considerar, também, que se alguém tiver todos os Dons do Espírito Santo sem a caridade, não tem a Vida. Seja, de fato, a graça de falar em línguas, seja o dom da fé, ou seja qualquer outro, sem a caridade não concedem a Vida.

Com efeito, se o corpo dos mortos é vestido de ouro e de pedras preciosas, não obstante isto, morto permanece. Causar a vida espiritual é, portanto, o primeiro dos efeitos da caridade.


11/2. O Amor causa a observância dos Mandamentos

O segundo efeito da caridade é a observância dos Mandamentos divinos. Diz São Gregório: "Nunca o Amor de Deus é ocioso".

Porquanto, se existe, opera grandes coisas; se, porém, se recusa a operar, amor não é. De onde que um sinal manifesto da caridade é a prontidão na execução dos Preceitos divinos. Vemos, de fato, os que amam operar por causa do Amado coisas grandes e difíceis. Diz também o Evangelho de João: "Se alguém me ama, observará os meus Mandamentos" (Jo 14, 23).

Mas quem observa o Mandamento e a Lei do Amor divino cumpre toda a Lei. Pois há dois modos de Mandamentos divinos; alguns são afirmativos, e estes a Caridade cumpre porque a plenitude da Lei que consiste nos mandamentos é o Amor pelo qual os mandamentos são observados. Já outros são proibitórios, e estes também a caridade cumpre, porque "não age maldosamente" (1Cor 13, 4), como diz o Apóstolo.


12/3. O Amor é Refúgio contra as adversidades

A terceira coisa que faz a Caridade é ser refúgio contra as adversidades. Ao que tem Caridade, nenhuma adversidade causa dano, antes, se converte em coisa útil: "Todas as coisas cooperam para o bem dos que amam a Deus" (Rm 8, 28). As coisas adversas e difíceis parecem suaves para os que amam, como entre nós o vemos manifestamente.


13/4. O Amor conduz à eterna Bem-aventurança

O quarto efeito da Caridade é o de conduzir à felicidade. Somente aos que tiverem Caridade a Felicidade eterna é prometida, pois todas as coisas sem a Caridade são insuficientes: "Desde já me está reservada a Coroa de justiça, que me dará o SENHOR, justo juiz, naquele dia. E não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua vinda" (2Tim 4, 8).

E deve-se saber que somente segundo a diferença da Caridade será a diferença da Bem-aventurança, e não segundo nenhuma outra virtude. Muitos, na verdade, fizeram maiores jejuns do que os Apóstolos, mas estes, na bem-aventurança superam todos os outros por causa da excelência da Caridade. Eles, com efeito, foram as primícias dos que têm o Espírito, com diz o Apóstolo (cf. Rm 8, 23). De onde que a diferença da bem-aventurança provém da diferença da Caridade, e assim são patentes as quatro coisas que em nós faz a caridade.


14. Outros efeitos do Amor: o Amor produz o perdão dos pecados

Além destas, porém, a caridade faz outras coisas que não se devem deixar passar.

Primeiro, causa o perdão dos pecados, algo que já vemos manifestamente acontecer entre nós. Porquanto, se alguém ofender algum homem e posteriormente vier a amá-lo entranhadamente, o ofendido, por causa do amor com que é amado, perdoará a ofensa. Assim também Deus perdoa os pecados dos que o amam: "A caridade encobre uma multidão de pecados" (1Pe 4, 8).

E diz bem o Apóstolo que os encobre, porque para Deus não parece que devam ser punidos. Mas, posto que São Pedro diga que encobre uma multidão, todavia Salomão diz que "a caridade encobre todos os delitos" (Pv 10, 12), o que o exemplo da Madalena maximamente manifesta: "São-lhe perdoados muitos pecados", e a causa é mostrada: "já que muito amou" (Lc 7, 47).

Mas, talvez, alguém dirá: "Então a caridade basta para apagar os pecados, e não é necessário o arrependimento?". Deve-se considerar, porém, que ninguém verdadeiramente ama que não se arrependa verdadeiramente. De fato, é manifesto que quanto mais amamos a alguém, tanto mais nos afligimos se a ele ofendemos, e isto é um efeito da caridade.


15/2. O Amor produz a Iluminação do coração

A Caridade causa também a iluminação do coração. Com efeito, assim diz o Livro de Jó: "Estamos todos envolvidos em trevas" (Jó 37, 19). Pois frequentemente não sabemos como agir, ou desejar. A Caridade, porém, ensina tudo o que é necessário à salvação. Por isto está dito: "Sua unção vos ensinará de tudo" (1Jo 2, 27).

Isto é porque onde está a Caridade, lá está o Espírito Santo que a tudo conhece, o qual nos conduz no caminho correto, assim como está escrito no Salmo 142,10. E por isso diz também o Eclesiástico: "Vós, que temeis a Deus, amai-O, e se iluminarão os vossos corações" (Eclo 2, 10), a saber, para o conhecimento do que é necessário à salvação.


16/3. O Amor realiza a perfeita Alegria

A Caridade também realiza no homem a perfeita Alegria. Na verdade, ninguém tem verdadeira Alegria a não ser existindo na Caridade. Quem quer que deseje algo não está contente, nem se alegra, e nem tem repouso enquanto não o conseguir. E nas coisas temporais sucede que o que se não se tem é apetecido, e o que se tem é desprezado e gera o tédio. Mas não é assim nas coisas espirituais; antes, ao contrário, quem a Deus ama, a Deus possui, e por isso a alma de quem O ama e O deseja n'Ele repousa: "Quem", de fato, "permanece na Caridade, em Deus permanece, e Deus nele", como está dito na Primeira Epístola de João (4, 16).


17/4. O Amor produz a perfeita Paz

Igualmente, a Caridade produz a perfeita paz. Pois acontece nas coisas temporais que sejam desejadas com frequência, mas obtidas as mesmas, ainda a alma do que as deseja não repousa, antes, ao contrário, obtida uma, outra apetece: "O coração do ímpio é como um mar revolto, que não pode repousar" (Is 57, 20). E também, no mesmo lugar: "Não há paz para o ímpio, diz o Senhor".

Mas não acontece assim na Caridade para com Deus. Quem, de fato, ama a Deus, tem a Paz perfeita: "Muita paz aos que amam a Tua lei, e não há tropeço para eles" (Sl 118, 165).

E isto porque somente Deus é capaz de satisfazer o nosso desejo, porquanto Deus é maior do que o nosso coração, como diz o Apóstolo. Por isso diz Santo Agostinho, no primeiro livro das Confissões: "Fizeste-nos, ó SENHOR, para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti". E também: "O qual preenche de bens o teu desejo" (Sl 102, 5).

A caridade também torna o homem de grande dignidade. Com efeito, todas as criaturas servem à própria Majestade divina, e por ela foram feitas, assim como as coisas artificiais servem ao artífice. Mas a Caridade faz do servo um livre e um amigo. De onde diz o Senhor: "Já não vos chamarei de servos, mas de amigos" (Jo 15, 15).

Mas porventura Paulo não é servo? E os outros Apóstolos não escreviam de si serem servos? Quanto a isto deve-se saber que há duas servidões. A primeira é a do temor, e esta é penosa e não meritória. Se, de fato, alguém se abstém do pecado somente pelo temor da pena, não merece por isto. Ainda é servo.

A segunda servidão é a do Amor. Se, na verdade, alguém opera não pelo temor da justiça, mas pelo Amor divino, não opera como servo, mas como livre, porque voluntariamente, e é por isto que Cristo diz: "Já não vos chamarei mais de servos". E por que? A isto responde o Apóstolo: "Não recebestes o espírito de servidão para recairdes no temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos" (Rm 8, 15). "Não há, de fato, temor na caridade", como diz 1Jo 4, 18.

O temor tem, certamente, tormento, mas a caridade deleitação.


18. O Amor dignifica o homem

A caridade igualmente torna não somente livres, mas também filhos, para que, a saber, "sejamos chamados filhos de Deus e de fato o sejamos" (1Jo 3, 1).

Com efeito, o estranho se torna filho adotivo quando adquire para si o direito na herança de Deus, que é a vida eterna. Pois, como diz Romanos: "O próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito que somos filhos de Deus. Se, porém, filhos, também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (Rm 8, 16-17). E também: "Eis que são contados entre os filhos de Deus" (Sab 5, 5).


19. O Amor de Caridade só pode ser alcançado pela Graça

Do que já foi dito, fica patente a utilidade da Caridade. Pois que, portanto, seja tão útil, deve-se trabalhar diligentemente para adquiri-la e retê-la. Deve-se saber, porém, que ninguém pode por si mesmo possuir a caridade. Antes, ao contrário, é Dom inteiramente de Deus. De onde diz S. João: "Não fomos nós quem amamos a Deus, mas Ele Quem nos amou primeiro" (Jo 4, 19); certamente não é por causa de nós o amarmos primeiro que Ele nos ama, mas o próprio fato de o amarmos é causado em nós pelo seu Amor.

Deve-se considerar, também, que ainda que todos os dons sejam do Pai das Luzes, todavia este Dom, a saber, o da Caridade, supera todos os demais Dons. De fato, todos os outros podem ser possuídos sem a Caridade e o Espírito Santo; com a Caridade, porém, possui-se necessariamente o Espírito Santo: "A Caridade de Deus foi derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Rm 5, 5).

Seja o Dom das línguas, portanto, seja o Dom da ciência ou o da profecia, todos estes podem ser possuídos sem a Graça e o Espírito Santo.


20. Quatro disposições para alcançar de Deus a Graça da Caridade

Mas, ainda que a caridade seja Dom divino, para possuí- la requer-se a disposição de nossa parte. Por isso, deve-se saber que duas coisas são necessárias para adquirir a caridade, e duas para aumentar a caridade já adquirida.


21/1. Primeira Disposição: a escuta da Palavra de Deus

Para adquirir, pois, a Caridade, a primeira coisa é a escuta diligente da Palavra de Deus, o que é suficientemente manifesto pelo que ocorre entre nós. Ouvindo, de fato, coisas boas de alguém, somos acesos em seu amor. Assim também, ouvindo as Palavras de Deus, somos acesos em seu Amor: "A tua Palavra é um fogo ardente, e o teu servo a amou" (Sl 118, 140). E também: "A Palavra de Deus o inflamou" (Sl 104, 19).

Por esta causa, aqueles dois discípulos, ardendo do Amor divino, diziam: "Porventura não ardia em nós o nosso coração, enquanto nos falava Ele pelo caminho e nos explicava as Escrituras?" (Lc 24, 32).

De onde que também no Livro Atos (10, 44) se lê que enquanto Pedro pregava, o Espírito Santo caiu nos ouvintes da Palavra divina. E o mesmo frequentemente acontece nas pregações, isto é, que os que se aproximam com o coração duro, por causa da palavra da pregação, são acesos ao Amor divino.


22/2. Segunda Disposição: a Meditação

Para adquirir a Caridade, a segunda coisa é a contínua consideração dos Bens recebidos: "Aqueceu-se o meu coração dentro de mim" (Sl 38, 4). Se, portanto, queres conseguir o Amor divino, meditarás os Bens recebidos de Deus. Demasiadamente duro seria, na verdade, quem considerando os benefícios divinos que alcançou, os perigos dos quais escapou, e a bem-aventurança que lhe é prometida por Deus, que não se acendesse ao Amor divino. De onde diz Santo Agostinho da dureza da alma do homem que, posto que não queira retribuir o amor, não queira pelo menos agradecer.

De modo geral, assim como os pensamentos maus destroem a Caridade, assim os bons a adquirem, a alimentam e a conservam, de onde que nos é ordenado: "Retirai os vossos maus pensamentos dos meus olhos" (Is 1, 16). E também: "Os pensamentos perversos separam de Deus" (Sb 1, 3).


23./3 Terceira Disposição: afastar o coração das coisas da Terra

Há também duas coisas que aumentam a Caridade possuída; a primeira é afastar o coração do que é terreno. O coração, de fato, não pode ser trazido perfeitamente a coisas diversas, de onde que ninguém é capaz de amar a Deus e ao mundo. E por isso, quanto mais nos afastarmos do amor do que é terreno, tanto mais nos firmaremos no amor Divino. De onde Santo Agostinho diz no Livro 83 de suas Questões: "A esperança de conseguir ou reter o que é temporal é veneno da Caridade. O seu alimento é a diminuição da cobiça; sua perfeição, a nenhuma cobiça, porque a raiz de todos os males é a cobiça”.


Quem quer que, portanto, queira alimentar a Caridade, insista em diminuir a cobiça. A cobiça é o amor de conseguir ou obter o que é temporal, e o início de sua diminuição é o temor de Deus, o qual não pode somente ser temido, sem amor. É por esta causa que se ordenaram as religiões, nas quais e pelas quais a alma é trazida do que é mundano e corruptível ao que é Divino, conforme se encontra escrito no Segundo de Macabeus, onde se lê: "Refulgiu o Sol, que antes estava entre nuvens" (2Mac 1, 22).

O Sol, isto é, o intelecto humano, está entre nuvens quando entregue às coisas terrenas. Refulgirá, porém, quando for afastado e removido do amor do que é terreno. Resplandecerá, então, e nele crescerá o Amor divino.


24/4. Quarta Disposição: a firme paciência na adversidade

A segunda coisa que aumenta a Caridade é a firme paciência na adversidade. É manifesto, de fato, que quando sustentamos dificuldades por aqu'Ele a quem amamos, o próprio Amor não é destruído; antes, ao contrário, ele cresce: "As muitas águas", isto é, as muitas tribulações, "não puderam extinguir a Caridade" (Ct 8, 7).

É assim que os homens santos que sustentam adversidades por Deus mais se firmam em seu Amor, assim como o artífice mais amará aquela sua obra na qual mais trabalhou. Daí também vem que os fiéis, quanto maiores aflições por Deus sustentam, tanto mais se elevam no seu Amor: "Multiplicaram-se as águas", isto é, as tribulações, "e elevaram a arca ao alto" (Gn 7, 17) isto é, a Igreja, ou a alma do homem justo.
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5 comentários:

  1. Começou muito bem! Realmente São Tomás é dum dos maiores doutores de todos. Que clareza, como esclarece e como inspira ler os seus escritos!

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  2. Olá Henrique. A paz de NSJC.

    Minha pergunta não tem relação com o tema do post. Na verdade é uma orientação que eu peço. Quero me debruçar sobre o estudo da mariologia e, para isso, gostaria que vc me indicasse um bom livro sobre o assunto. Eu encontrei um que se chama "Mariologia - síntese bíblica, histórica e sistemática" de José Cristo Rey García Paredes, editora Ave Maria. Você conhece? Se sim, vc indica?

    Desde já, agradeço muito. Um forte abraço.

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    1. Não conheço este livro, mas conheço o autor. Pode ser que você encontre boas informações e elementos importantes para os seus estudos nesta obra, mas penso que não é o ideal para começar os seus estudos. É importante formar uma boa base sobre determinado tema antes de partir a conhecer diferentes visões teológicas.

      Antes de tudo, se ainda não o fez, leia o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de S. Luis Maria Grignion de Montfort. Este é livro-base. Depois, poderia indicar estes:

      LIGÓRIO. Santo Afonso, Glórias de Maria, diversas edições;

      LARRAÑAGA, Inácio. O Silêncio de Maria. São Paulo: Paulinas, 1980;

      NEWMANN, John Henry. Reflexões sobre a Virgem Santíssima. São Paulo: Factash, 2006;

      SUÁREZ, Frederico. A Virgem Nossa Senhora, São Paulo: Quadrante, 2003;

      RATZINGER, Joseph. A Filha de Sião. São Paulo: Paulus, 2013;

      ALVAREZ, Carlos G. Maria, discípula e mensageira do Evangelho. São Paulo: Paulus, 2005;

      FORTE, Bruno. Maria, a mulher ícone do Mistério. São Paulo: Paulinas, 1985;

      PAULO VI, Papa. Marialis Cultus. Documentos de Paulo VI. São Paulo: Paulus, 1997.

      Por fim, há o curso de iniciação teológica à distância da Escola “Mater Ecclesiae”, fundamentado na obra de Dom Estevão Bettencourt, que me parece muito bem elaborado e tem a disciplina Mariologia.

      Espero ter ajudado.

      Apostolado Fiel Católico

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    2. Ajudou e muito Henrique. Obrigado

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  3. Maria, verdadeiramente nos vem até nós trazer mensagens da Santíssima Trindade, para nos orientar-mos da realidade cristã, que em virtude de nos afastar-mos pelas coisas terrenas, Ela nos coloca no caminho certo da slvação.

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