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Leão XIV e a cruel revolução do Vaticano II


Traduzimos uma interessantíssima reflexão postada no noticioso "The Remnant" (Minesota, EUA) pelo colunista Robert Morrison: gostaríamos de ter as respostas para as suas perguntas.

EM SEU DISCURSO do Angelus de 27 de julho (2025), o Papa Leão XIV falou sobre a necessidade de nós, católicos “evitarmos a crueldade com o nosso próximo se quisermos poder chamar Deus de nosso Pai”, nos seguintes termos:

Quando recitamos o Pai-Nosso, além de celebrarmos a graça de sermos filhos de Deus, também expressamos nosso compromisso de corresponder a esse dom amando-nos uns aos outros como irmãos e irmãs em Cristo. Refletindo sobre isso, um dos Padres da Igreja escreveu: 'Devemos lembrar... e saber que, quando chamamos Deus de 'nosso Pai', devemos nos comportar como filhos de Deus' (São Cipriano de Cartago, De Dom. orat. , 11), e outro acrescenta: 'Não podeis chamar de Pai o Deus de toda a bondade se conservais um coração cruel e desumano; pois, nesse caso, não tendes mais em vós a marca da bondade do Pai celestial' (São João Crisóstomo, De orat. Dom. , 3). Não podemos rezar a Deus como 'Pai' e depois sermos rudes e insensíveis com os outros.'


    
Por mais que se trate de uma piedosa exortação, ficamos nos perguntando o que o novo pontífice pretende fazer para lidar com uma das crueldades mais perversas do mundo atual: os ataques contínuos do próprio Vaticano à pura Fé católica, e a sua perseguição às almas que nada mais desejam do que praticar a Religião com fidelidade. Parafraseando São João Crisóstomo, no Angelus, Leão XIV poderá chamar a Deus de Pai se mantiver o silêncio reinante nas últimas duras décadas sobre essas crueldades insondáveis?

O Decreto contra o Comunismo explicado. Definitivamente.

O tão comentado Decreto Contra o Comunismo de 1949 continua válido? Se é assim, por que o Padre Paulo Ricardo retirou de seu canal o famoso vídeo em que o afirmava com todas as letras?

PARA OS QUE PORVENTURA ainda não saibam, no catolicismo, a excomunhão (como o próprio nome diz) é a exclusão da Comunhão (Comum União) com o Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a sua a Igreja. Por óbvio, para comungar do Corpo de Cristo, isto é, para que exista verdadeira Comunhão entre o fiel e a Igreja, é preciso que este fiel creia naquilo que a Igreja crê e ensina.

Quais são, afinal, os erros do Vaticano II – conclusão

➞ Leia a primeira parte deste estudo

Mensagem dos Padres conciliares ao mundo:


 A Mensagem ao Mundo, transmitida na abertura do Concílio Vaticano II, continha já como que um resumo da pastoral que seria desenvolvida abundantemente na constituição Gaudium et Spes. Trata-se de uma pastoral na qual o cuidado dos "bens humanos" e a "dignidade do homem (enquanto homem)" ocupam o primeiro lugar, e a "paz" é invocada independentemente da conversão a Cristo: "Nós esperamos dos trabalhos do concílio que, dando à luz da fé um brilho mais vivo, esta procure uma renovação espiritual e, por repercussão, um feliz impulso de que se beneficiem os valores da humanidade: as descobertas da ciência, o progresso técnico e a difusão da cultura".

Quais são, afinal, os erros do Concílio Vaticano II? – parte 2


➞ Para ler a primeira parte deste estudo, acesse

O QUE É é um Concílio Ecumênico? Aqui chegamos ao mais lamentável equívoco cometido por certos católicos tidos como tradicionalistas, e que é defendido na conferência publicada em forma de livro citada na primeira parte deste artigo: a tese de que deveríamos aceitar, ou pelo menos sermos indulgentes, com o Vaticano II, porque este pode ser inserido numa “continuidade” com a Tradição e em relação a todos os Concílios precedentes da santa Igreja. Ora é impossível não reconhecer, se formos honestos e tivermos o mínimo conhecimento de causa, que tal tese é nada menos que falsa. Realmente não há como defender essa ideia quando se conhece a história por trás da coisa toda. A ruptura com a continuidade do Munus Docendi praticado pela Igreja desde sempre é tão absolutamente clara e tão radical que chega a tornar difícil considerar que aqueles que não a admitem – afora os casos de simples ignorância –, não o façam por pura má-fé.

Quais são, afinal, os erros do Concílio Vaticano II?

Diante do caos doutrinal, moral e litúrgico instalado na Igreja após o Vaticano II, é possível ainda pensar em 'hermenêutica da continuidade'?

“Escuto muito falar que o concílio Vaticano 2 foi ruim que fez um estrago enorme na igreja, mas eu não consigo saber que erros seriam esses (...) a secretária da minha paróquia é uma freira [e] ela falou que esse concílio foi uma grande primavera na igreja. Sei que eu tenho visto muita coisa errada acontecendo vocês poderiam tirar a minha dúvida mostrando qual é o erro do Vaticano II?”


PARTINDO DA COMPLICADA PREMISSA de que podemos, enquanto leigos, criticar e submeter ao nosso crivo particular um concílio legítimo (?) da Santa Igreja Católica, algo que em tempos normais não seria possível de modo algum, mas que se tornaria possível nestes dias de exceção em que estamos vivendo, devido à apostasia generalizada que grassa no seio da própria Igreja, consideramos válido oferecer a tantos que nos fazem a mesma pergunta o devido esclarecimento dessa questão fundamental.

Francisco decreta, na prática, fim da Missa tridentina: poder total aos Bispos diocesanos


A PARTIR DE AGORA já é oficial: Francisco, em acordo com Bispos de diversas partes do mundo, mudou as normas que regem o uso do Missal de 1962, o qual fora liberado por Bento XVI (como 'Rito Romano Extraordinário') há catorze anos. Foi publicado nesta sexta-feira (16/7/2021) o novo motu proprio, intitulado "Traditionis custodes", acompanhando-o uma carta na qual se apresentam as razões dessa decisão. 

Padre Paulo Ricardo ao vivo: 'Basta abrir o olho para ver que estamos na grande apostasia!'


DECLARAÇÕES DO PADRE PAULO RICARDO, ditas com todas as letras, em sua live de segunda-feira (10/5/2021):

Não precisa do terceiro segredo (de Fátima) [...] e nem do Catecismo (n. 675) [...] para ver a grande apostasia. Basta abrir o olho para ver a grande apostasia! Se você ainda vive no mesmo mundo em que eu vivo... Pelo menos eu enxergo a grande apostasia. (aos 48:41 do vídeo)

Que nós já estamos diante de uma grande apostasia, acontecendo diante dos nossos olhos, disso não há dúvida nenhuma. (50:40)

Cardeal-Arcebispo Viganò publica corajosíssima e necessária carta, pela qual denuncia a falsa Igreja: 'O erro se nutre e alimenta do Adversário, que odeia a Igreja de Cristo'


TRATA-SE DE UM TEXTO histórico, obrigatório, fundamental para os nossos dias. Steve Skojec, fundador do importante apostolado OnePeterFive, acusara Viganò de escrever cartas demais, de parecer um comentarista religioso. Depois de ler este novo texto de Viganó, desculpou-se e o chamou de Profeta.

Teólogos querem a suspensão da excomunhão de Lutero para celebrar o 'ecumenismo'

Bula de excomunhão de Lutero "Decet Romanum Pontificem", de Leão X, de 3/1/1521
Bula de excomunhão de Lutero "Decet Romanum Pontificem", de Leão X, de 3/1/1521

NA BUSCA INSACIÁVEL pela cisão com tudo o que faz lembrar fidelidade à Tradição da Igreja, em um gesto pseudo-ecumênico sem precedentes, um grupo de teólogos dirigiu-se a Roma e à Federação Luterana Mundial para pedir uma declaração formal que acabe com 500 anos de condenações mútuas.

Pesquisa aponta que católicos que frequentam o rito antigo da Missa são mais fiéis à doutrina católica


UM ESTUDO REALIZADO nos EUA comparou o comportamento dos católicos que frequentam a chamada missa nova – ou missa de Paulo VI – isto é, a do rito ordinário em vernáculo que temos hoje, idealizada no CVII e imposta a toda a Igreja a partir de 1970, com o comportamento daqueles que frequentam a Missa tradicional, de rito extraordinário ou tridentina. O resultado apontou que existe maior fidelidade doutrinária e moral dos católicos que procuram frequentar o rito tridentino do que daqueles que preferem o novus ordo...

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A Igreja de Cristo dividida em grupos?


QUANTOS GRUPOS EXISTEM, hoje, na Igreja Católica? Logo de imediato, ao ouvir essa pergunta, qualquer católico minimamente atento poderia mencionar dois: o dos modernistas e o dos tradicionais. Porém a questão é muito mais complexa. Vejamos...

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O Decreto contra o Comunismo explicado


O tão comentado Decreto Contra o Comunismo de 1949 continua válido? Se é assim, por que o prof. padre Paulo Ricardo de Azevedo Jr. retirou de seu canal o famoso vídeo de sua série 'Resposta Católica' em que o afirmava com todas as letras?..

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Bispos italianos querem derrubar Summorum Pontificum


BISPOS ITALIANOS sugeriram, durante o seu atual encontro autunal, abolir o Motu Proprio Summorum Pontificum, que autoriza a celebração da santa Missa no rito tradicional em latim, conforme relatado pelo MessaInLatino.it...

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Um balanço da época pós-conciliar (1985), pelo Cardeal Ratzinger – conclusão


Como se chegou à evolução pós-conciliar?

PARA EXPLICAR OS ACONTECIMENTOS, vou tentar dar algumas indicações – só algumas.

Em primeiro lugar, cumpre tomar consciência de que a crise pós-conciliar da Igreja católica coincide com uma crise espiritual global da humanidade, pelo menos no mundo ocidental: não temos o direito de apresentar como produto do Concílio tudo o que abalou a Igreja nestes último anos...

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Um balanço da época pós-conciliar (1985), pelo Cardeal Ratzinger


QUANDO RECEBI DIVERSOS pedidos, das partes mais diversas, em 1975, para estabelecer um balanço dos dez anos que se seguiram ao Vaticano II, pensei primeiro nos primeiros dias do Concílio. (...) Procurando uma introdução adequada que ressaltasse algo da natureza mesma dos Concílios, topei com um texto de Eusébio de Cesareia, membro do primeiro concílio ecumênico da história da Igreja, o de Niceia, em 325. Ele assim resumia as suas impressões acerca dessas assembleias da Igreja...

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Pesquisa aponta que católicos que frequentam o rito antigo da Missa são mais fiéis à doutrina católica

Imagem rara mostra o Santo Padre Pio de Pietrelcina
durante celebração da Santa Missa tradicional

UM ESTUDO REALIZADO nos EUA comparou o comportamento dos católicos que frequentam a chamada missa nova – ou missa de Paulo VI – isto é, a do rito ordinário em vernáculo que temos hoje, idealizada no CVII e imposta a toda a Igreja a partir de 1970, com o comportamento daqueles que frequentam a Missa tradicional, de rito extraordinário ou tridentina. O resultado apontou que existe maior fidelidade doutrinária e moral dos católicos que procuram frequentar o rito tridentino do que daqueles que preferem o novus ordo.

A diferença, de fato, é gritante; refere-se às questões mais centrais da fé católica, como o posicionamento com relação ao aborto, os relacionamentos gay, a contracepção, a frequência às Missas e às Confissões, a taxa de fertilidade dos casais e a frequência de doações financeiras. O estudo foi conduzido pelo padre norte-americano Donald Kloster e confirmou a percepção que esse Sacerdote – que há mais de 20 anos celebra alternadamente nos dois ritos – já tinha.

Segue a tradução do artigo publicado no website Catholic Herald, por Henrique Sebastião:


Os católicos nos EUA que frequentam a missa tradicional latina são muito mais fiéis ao ensinamento da Igreja do que aqueles que frequentam o Novus Ordo, segundo pesquisa recente.

Estudo conduzido pelo padre Donald Kloster comparou os católicos que compareceram à missa tradicional (daqui por diante 'TLM', de Traditional Latin Mass, em inglês) com os resultados de pesquisas anteriores de católicos em geral, a grande maioria dos quais participam da Missa Novus Ordo (NOM).

Os autores descobriram que 99% dos católicos que frequentam a TLM cumprem suas obrigações semanais, em comparação com apenas 22% daqueles que vão para a NOM. 98% também vão para a Confissão ao menos uma vez por ano, como é de preceito, e também não deixam de assistir à Missa semanal, em comparação com somente 25% dos participantes da NOM.

A pesquisa também descobriu que os participantes da TLM são muito mais fiéis ao ensino da Igreja sobre questões morais. Apenas 2% dos católicos que frequentam a TLM aprovam a contracepção, 1% aprova o aborto e 2%  apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Em contraste, pesquisas anteriores sugerem que 89% dos participantes da Missa NOM aprovam a contracepção, 51% são favoráveis ao aborto e 67 % apoiam o casamento entre pessoas do mesmo sexo(!).

Pe. Kloster disse que através dos seus mais de 20 anos celebrando a Missa em ambas as formas do Rito Romano, notou claras diferenças entre os dois grupos. A pesquisa, disse ele, “revela uma variação impressionante entre os católicos presentes ditos tradicionais ou conservadores, que preferem a celebração em latim, versus aqueles que frequentam a NOM. Essas diferenças são dramáticas ao comparar crenças, frequência à igreja, taxas de fertilidade e até mesmo em 'generosidade monetária' (doações e auxílio financeiro às obras de caridade)”.

“É importante ressaltar que as famílias TLM têm um tamanho de família quase 60% maior”, acrescentou o pe. Kloster, "e isso vai se traduzir em uma mudança demográfica dentro da Igreja".

“Os participantes da TLM doam cinco vezes mais, indicando que estes são muito mais comprometidos (concretamente falando) do que os participantes da NOM. Católicos TLM vão à missa todos os domingos, uma taxa 4 vezes e meia maior que seus irmãos NOM. Isso implica um profundo compromisso com a fé. A adesão quase universal à missa dominical retrata os católicos que estão profundamente apaixonados por sua fé e não podem imaginar a falta de seu privilégio dominical ”.

Aí estão alguns simples fatos. Finalizamos este artigo lembrando e ressaltando que ambos os ritos são válidos e lícitos na Igreja Católica. A pesquisa não tinha por finalidade "provar" a invalidade da  Missa nova ou qualquer coisa parecida com isso, já que o próprio autor do estudo é um sacerdote que a celebra com frequência. Todavia é inegável a influência da liturgia e dos ritos para o conjunto do que representa a autêntica Fé cristã como um todo. Não se tratam apenas de detalhes na celebração, não são meras posturas, gestos, posicionamentos e palavras: é a Fé de sempre da Igreja de Cristo sendo apresentada com clareza na sua celebração mais importante: a renovação do Sacrifício do Calvário. Não é "coisa de 'radtrad'" ou de "tradicionalistas" fanáticos: é a simples e inegável realidade, tão clara quanto o mais puro cristal.

Encerramos com dois vídeos bastante didáticos dos padre Jonas dos Santos e do padre Jorge Luís, este último do Apostolado FERR (Adm. Apostólica São João Maria Vianey), abaixo:



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Fonte:
Catholic Herald, em
https://catholicherald.co.uk/news/2019/02/27/traditional-latin-mass-attendees-more-devout-and-orthodox-study-says/?fbclid=IwAR3XZ30Xq-0Tud5jhuL4xeczluHjTOB_7SaVXdC3fJArVUT1g06Ww1XOVAE
Acesso 28/2/2019
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A Igreja de Cristo dividida em grupos?


QUANTOS GRUPOS EXISTEM, hoje, na Igreja Católica? Logo de imediato, ao ouvir essa pergunta, qualquer católico minimamente atento poderia mencionar dois: o dos modernistas e o dos tradicionais. Porém a questão é muito mais complexa. Vejamos...

Ocorre que, inseridos dentro desses mencionados dois grandes grupos, temos uma variação de subgrupos que os compõem, como por exemplo os adeptos e simpatizantes da herética “'teologia' da libertação” (TL), que se incluem no grupo dos modernistas. Claro, nem todo modernista é, necessariamente, adepto da TL, embora todo simpatizante da TL seja necessariamente um modernista. Por outro lado, existem católicos favoráveis a toda sorte de inovação na Igreja e “invenções” na Liturgia, mas que não adotam nem apoiam a deturpação marxista da Doutrina sagrada.

Por outro lado, não é conveniente e nem é correto citar o grupo que adere à TL como um grupo "católico", porque de fato não é. Para dizer de modo claro e sem embromações, estamos tratando, aqui, de um grupo de hereges excomungados latae sententiae; simples assim. Descontados aqueles que apoiam o movimento por ingenuidade e/ou mera ignorância, trata-se de gente que não têm fé católica, que não crê na autoridade da Igreja, na materialidade dos Sacramentos, nos milagres de Deus, etc. Por fim, não creem nem sequer na Ressurreição de Nosso Senhor.

Ainda entre os modernistas, não há como não se mencionar o povo da Renovação Carismática Católica (RCC). Um grupo modernista, sim, porém com peculiaridades distintivas. Conheço gente da RCC que é fidelíssima no estudo da Doutrina, lê Sto. Tomás de Aquino e as vidas dos santos, manda carta para o bispo criticando atitudes de padres marxistas, etc. Ainda assim, claro, não podem se incluir entre os tradicionais por dois motivos bastante evidentes: os abusos na Liturgia e a protestantização da fé.

Muito, e em muitos lugares, já se falou sobre a grande polêmica envolvendo a RCC. Nós, da Fraternidade Laical São Próspero, apesar de não nos identificarmos com esse tipo de espiritualidade e nem com esse tipo característico de pregação (que apela sempre ao sentimentalismo, com musiquinha emotiva tocada ao fundo) respeitamos o movimento carismático na Igreja por alguns motivos: 1) porque é um movimento majoritariamente composto por pessoas de boa vontade, que têm uma fé viva e autêntica; 2) porque, catolicamente, ali não se faz acepção de pessoas, como ocorre em outros grupos; 3) principalmente porque esse movimento não deixa de ser uma grande porta de entrada e de retorno à Igreja Católica: já o foi, de fato, para uma verdadeira multidão (em nossa fraternidade temos gente que retornou à Igreja por essa via, ainda que hoje viva uma outra experiência de fé).

Nada disso, porém, anula a realidade dos abusos litúrgicos da RCC, que em muitos casos são realmente graves. Também é impossível negar que a responsabilidade maior por esse problema é dos padres muito “criativos” (muitos destes igualmente bem intencionados) que se portam como verdadeiras “estrelas”, fazendo-se o centro das celebrações.

Sobre esse problema, particularmente incomoda-nos o fato bastante óbvio de que seria muito fácil resolver tudo e de uma vez por todas, se todas as expressões que provocam a polêmica (os louvores gritados, a música agitada tocada com instrumentos no volume máximo, a liberdade de expressão total durante o culto, etc.), fossem realizadas em encontros de oração próprios, organizados pela mesma RCC. Aí, sim, seria o momento e o ambiente ideais para se dar vazão a toda essa energia especialmente característica dos brasileiros (já que em outros países os encontros da RCC são bem mais moderados do que os nossos). Bastaria não confundir esses eventos de louvor com a celebração da santa Missa e a renovação do Santo Sacrifício, compreendendo-se que são realidades distintas, e assim, de modo realmente simples, tudo se resolveria.

Outro problema sério da RCC é a nítida protestantização da fé da Igreja, se não na Doutrina teórica, certamente na prática, com certas deturpações (ainda que pontuais) e na ideia de que novas “revelações” divinas surjam a todo momento entre eles (‘Deus me falou agora que tal irmão deve fazer isso e aquilo...’), em cada reunião desses grupos.

Mas esta reflexão não é sobre a RCC. É sobre divisões na Igreja. E entre os católicos tradicionais temos também algumas subdivisões. Temos aqueles mais radicais, que só assistem Missa em latim, rezam em latim e recusam qualquer valor no Concílio Vaticano II; estes são geralmente chamados tradicionalistas ou radtrads (tradicionais radicais). Há outros ainda mais radicais, os que adotam o sedevacantismo e creem que o Trono de Pedro está vago; são os sedevacantes (a maioria destes crê que o último papado válido foi o de Pio XII, mas há outros que creem que Bento XVI foi o último papa eleito canonicamente, rejeitando apenas Francisco).

Quanto aos sedevacantes, porém, como no caso do povo da TL, torna-se difícil chamá-los ainda “católicos”, mesmo que pela minha experiência (como diretor de apostolado há mais de dez anos) eu perceba, conheça e reconheça que muitos dentre eles são sérios e procuram honestamente santificar suas vidas. Acreditam piamente e com pureza de alma que estão fazendo o certo, e (alguns dentre estes) o fazem por amor a Cristo. Fato é que Deus julgará a todos.

Para não deixar este artigo sobre grupos longo e enfadonho demais, não falaremos em detalhes sobre os populares católicos “isentões”, aqueles que apreciam se manter sempre "em cima do muro", em todas as situações difíceis, nem dos chamados “católicos jujuba”, aqueles que, muito bonitinhos e sempre "politicamente corretos", têm para si o respeito humano como se fosse o principal de todos os mandamentos. Confundem a ordem de Cristo sobre não julgar com aceitar tudo, achar tudo normal e viver um catolicismo que se assemelha muito, na prática, ao espiritismo: questões relativas à moral e à Doutrina objetivamente não importam; para eles, basta "fazer o bem" e praticar a caridade para ser um bom cristão.

Não falaremos em detalhes, ainda, dos católicos “vaquinhas de presépio”, que elevam o respeito à hierarquia eclesiástica acima da própria obediência aos Mandamentos de Deus e os da Igreja, achando que absolutamente tudo que o padre ou o bispo dizem é verdade inquestionável e dogma imutável (muitos destes são verdadeiros 'papólatras'), nem dos tradicionalistas fariseus” ou legalistas, que se preocupam e se empenham muitíssimo em todas as aparências de santidade e com a Liturgia em suas minúcias, mas que não têm noção do significado da palavra caridade, odeiam os pobres e não são capazes de mover sequer um dedo para ajudar algum irmão que sofre e que legitimamente lhes pede auxílio.


* * *

Apresentados, desse modo breve e geral, os grupos e subgrupos em que vem se dividindo a Igreja, cabe concluir expondo aquilo que identificamos como uma grande tragédia, um dos maiores problemas que vivemos em nossos tempos: ocorre que, dos dois grandes grupos principais, com suas particularidades e desafios, a imensa maioria dos nossos pastores vêm valorizando, assistindo e incentivando apenas um, o dos modernistas. Por que isso acontece? Por um lado, porque há uma dificuldade de se identificar a realidade objetiva; não se enxerga ou não se quer enxergar essa diversidade. Por outro lado, há, da parte de membros poderosos e infiéis do clero, o desejo (já antigo) de superar definitivamente todo o passado santo e glorioso da Igreja pré-Vaticano II, enterrá-lo bem fundo e esquecê-lo, como se nunca tivesse existido. Note-se que essa corrente existe e atua já desde bem antes do próprio Concílio e foi o que motivou, em grande medida, a realização deste.

Além disso, há a grande novidade imposta após o mesmo Vaticano II (ainda que o próprio Concílio não o tenha determinado em nenhum momento): a novidade de elevar a comunidade – “o povo, o povo” – como centro e ápice da vida litúrgica. De fato, na Igreja tal como era antes, não seria possível ocorrer essas divisões e subdivisões em grupos, porque havia um conjunto de regras realmente muito claras, uma doutrina moral muito bem definida, uma celebração Eucarística (que é o centro da vida da Igreja) igual em todas as igrejas e a absoluta submissão e discrição dos sacerdotes. E os que não o aceitassem ou se insubordinassem contra bispos fiéis, eram rapidamente afastados.

Sim, é inescapável: se refletirmos por alguns instantes em cada um desses grupos, torna-se inegável que o seu surgimento não seria possível na Igreja que existia antes do Concílio.

Porém o mais importante é manter em mente que essa Igreja dita “pós-conciliar” simplesmente não existe. Ora, Cristo e os Apóstolos são “pré-conciliares”! E a Igreja, enquanto continuidade histórica da Encarnação do Cristo, assim como Ele é sempre a mesma, ontem, hoje e eternamente (conf. Hb 13,18).

Logo, que não se pense que existam “duas Igrejas”, uma modernista, com os subgrupos que a compõem, e outra “tradicional”, com seus próprios subgrupos. Só há uma Igreja, como só há um Corpo santo, e essa Igreja persiste naqueles que lhe são fiéis. É a esta Igreja-Cristo que queremos servir, é a esta que amamos tão profundamente, é desta que queremos ser membros e instrumentos no mundo. E ela perdurará e triunfará sobre o Inferno –, em Cristo com Cristo e por Cristo –, até o fim dos tempos, porque assim nos prometeu Nosso Senhor (Mt 16, 18; 28,19-20).

...E, ainda que para a nossa fé não fosse necessário, assim também confirmou Nossa Senhora a permanência e o triunfo da Igreja, em Fátima, na aparição de 13 de julho de 1917, depois de mostrar o inferno aos Pastorinhos e de prometer que viria pedir a consagração da Rússia, a Devoção Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados e lhes mostrar o futuro apocalíptico: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.


* * *

Em qual grupo nós, da Fraternidade Laical São Próspero, nos incluímos? Frequentemente nos perguntam. E a resposta não varia: a nenhum. Somos católicos. Ponto.

Sabemos todavia o que não somos: não somos modernistas e nem queremos inovações daquilo que é atemporal, pois a Igreja não admite modismos e nem precisa "evoluir" enquanto tal, e sim permanecer firme na Tradição recebida dos Apóstolos. Somos, então, tradicionais, sim, porquanto a verdadeira Igreja é a que observa a Tradição dos Apóstolos (2Ts 2,15). Mas não nos consideramos tradicionalistas radicais; tudo o que queremos é que a verdadeira Igreja de Cristo, que é Una e que reúne os santos do Céu (muitíssimo mais numerosos) e os que agora caminham sobre a Terra, assuma e viva aquilo que é: o Corpo Místico de Cristo, a Casa do Deus Vivo, que tem um só Senhor e professa uma só Fé e um só Batismo (conf. Ef 4,5).

Não nos arrogamos o direito ou a autoridade – assim como não poderíamos mesmo fazê-lo – de ditar regras ou dizer quem está ou não em Comunhão com a Igreja. Isso é diferente de denunciar os erros, onde existam e sejam claros, o que se configura, aí sim, em uma prerrogativa dos leigos garantida inclusive pelo Código de Direito Canônico (Cân 212, §§ 2-3).

Sendo assim, a nossa postura é a da prudência e da busca diária, incessante – nas súplicas e na perseverança – da Fé, da Esperança e da verdadeira Caridade. Entristecemo-nos com a situação cada vez mais difícil e sofremos junto com a Santíssima Virgem que, em tantas aparições, como em La Salete, chora por seus filhos. Indignamo-nos com a falta de zelo de tantos dos nossos pastores, e com as verdadeiras traições de outros tantos. Queremos apenas e tão somente servir como um útil instrumento para todo aquele que busca a Verdade e erra confuso nestes nossos dias de tempestades.


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Bispos italianos querem revogar o Summorum Pontificum


BISPOS ITALIANOS sugeriram, durante o seu atual encontro autunal, abolir o Motu Proprio Summorum Pontificum, que autoriza a celebração da santa Missa no rito tradicional em latim, conforme relatado pelo MessaInLatino.it (16 de novembro/2018).

O arcebispo de Gorizia, Carlo Radaelli (foto), de 62 anos, disse que Bento XVI cometeu um "erro" ao escrever, no Summorum Pontificum, que a Missa Antiga nunca foi revogada. Em vez disso, Radaelli afirma que a Missa Romana teria sido abolida por Paulo VI. A partir disso e em consequência, o Motu Proprio de Bento XVI seria nulo ou inválido.

Não é surpresa que muitos prelados apoiem as afirmações de Radaelli. Dentre estes, o modernista padre Luigi Girardi, que dirige o Instituto Romano da liturgia pastoral; o bispo de Novara, Franco Brambilla, e outros bispos anônimos do sul da Itália.

Radaelli e Brambilla foram, ambos, nomeados por Bento XVI.


* * *

Eu, Henrique Sebastião, tenho dito e repetido que se aproxima um novo cisma para a história da Igreja. Não estou só nessa análise: por exemplo o Padre Paulo Ricardo me disse, há alguns anos, que considera essa hipótese totalmente viável caso as coisas continuem no rumo em que se encontram. Há tempos, realmente desde antes do CVII – e com intensidade e fúria redobradas depois deste – temos o choque entre "duas igrejas" dentro da Igreja: uns querem a Igreja antiga, outros querem uma Igreja (literal e totalmente) nova. Diga-se, de passagem, que o mais lamentável é que poucos queiram a Igreja atemporal e de sempre.

De fato, ao assistir a Missa no rito tradicional (Missa de sempre) e a chamada "missa nova" de Paulo VI (da forma como é mais comumente celebrada hoje, com toda a sorte de inovações e total liberdade sobre a liturgia), temos a clara impressão de que não se trata da mesma celebração; sem nenhum exagero, alguém que nada conhecesse de catolicismo poderia duvidar seriamente de que fossem, ambas, expressões da mesma religião, e menos ainda do mesmo evento sagrado (o santo Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário). 

Acho difícil que venha a acontecer, ao menos por enquanto, mas a decisão de revogar o Summorum Pontificum de Bento XVI seria, sem dúvida, um marco importantíssimo, senão o ato central na concretização desse novo cisma. E pelo andar da carruagem, mesmo sabendo que a divisão jamais foi a vontade de Deus para os seus filhos, com honestidade tenho que dizer que já não sei se isso seria bom ou mau.

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Um balanço da época pós-conciliar (1985), pelo Cardeal Ratzinger – conclusão

O texto abaixo é a conclusão de uma análise do então Cardeal Joseph Ratzinger, publicado no livro 'Les principes de la théologie catholique - Esquisse et matériaux' (ed. Tequi, 2005) sobre as principais consequências do concílio Vaticano II para a história da Igreja, quando se havia passado uma década do seu encerramento. O texto, bastante interessante, é também revelador em certos aspectos. Rezamos a Deus para que seja útil aos nossos leitores.

Tradução do francês para O FIEL CATÓLICO por Roberto Leal Ferreira 



** Ler a primeira parte

Como se chegou à evolução pós-conciliar?

Para explicar os acontecimentos, vou tentar dar algumas indicações – só algumas.

Em primeiro lugar, cumpre tomar consciência de que a crise pós-conciliar da Igreja católica coincide com uma crise espiritual global da humanidade, pelo menos no mundo ocidental: não temos o direito de apresentar como produto do Concílio tudo o que abalou a Igreja nestes último anos.

A consciência humana não é só marcada por decisões voluntárias do indivíduo; é também formada, em boa medida, pelas condições exteriores, resultantes de fatores econômicos e políticos: a palavra de Jesus, segundo a qual é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus é uma referência a uma situação deste tipo, e é impossível não escutá-la. Darei um só exemplo, tirado de nossa própria história: o esboroamento da velha Europa durante a primeira guerra mundial modificou totalmente, de imediato, o panorama espiritual e, em especial, da teologia. O liberalismo antes reinante, produto de um mundo satisfeito e seguro de si, perdera de repente toda significação, enquanto seus grandes representantes ainda eram vivos e ensinavam. A juventude passou a seguir, não mais Harnack, mas Karl Barth: formava-se em meio aos problemas de um mundo transformado uma teologia inspirada estritamente na fé revelada e desejosa, mui conscientemente, de ser de Igreja.

O retorno da antiga prosperidade durante a década de 1960 foi acompanhada de uma reviravolta semelhante no pensamento. A nova riqueza e a má consciência que a acompanhava provocaram essa espantosa mescla de liberalismo e de dogmatismo marxista que todos conhecemos. É por isso que não temos o direito de exagerar a parte do Vaticano II na evolução mais recente; o mundo protestante também, sem Concílio, tem de superar uma crise semelhante, e os partidos políticos se veem obrigados a enfrentar fenômenos com as mesmas origens.

E, no entanto, em sentido inverso, o Concílio foi de fato um dos fatores que pertencem à evolução da história mundial. Quando uma realidade tão profundamente arraigada nas almas como a Igreja católica é abalada em suas fundações, o terremoto atinge a humanidade inteira.

Quais são, então, os fatores de crise que provêm do Concílio?

Acho que duas disposições desempenham aqui seu papel, tendo ganhado uma importância cada vez maior na consciência dos Padres conciliares, dos conselheiros e dos relatores do Concílio.

Compreendia-se a si mesmo o Concílio como um grande exame de consciência da Igreja Católica; queria, por fim, ser um ato de penitência, um ato de conversão. Isso fica claro nas confissões de culpa, no caráter apaixonado da autoacusação, que não se limitou aos grandes pontos nevrálgicos, como a Reforma e o processo de Galileu, mas se estendeu, na concepção da Igreja pecadora, até ao plano dos valores comuns e fundamentais. Chegaram a temer fosse triunfalismo tudo o que se assemelhasse a uma complacência na Igreja, nas conquistas do passado, no que se mantivera até nós. A essa torturadora poda do que é próprio da Igreja unia-se uma vontade quase angustiada de levar sistematicamente a sério todo o arsenal de acusações dirigidas contra a Igreja e de não desdenhar nenhuma delas. Isso acarretava, ao mesmo tempo, a inquieta preocupação com não ser culpado em relação ao outro, dele aprender todo o possível e não buscar e não ver nele senão o que é bom.

Tal radicalização da exigência bíblica fundamental da conversão e do amor do próximo levou à incerteza em relação à nossa própria identidade, que continua sendo questionada, e, mais especificamente, a uma atitude de ruptura em relação à nossa própria história, que apareceu como cheia de todos os vícios, de modo que um recomeço radical se impunha como uma obrigação urgente.

É aqui que se insere o segundo tema ao qual gostaria de chamar a atenção. Sobre o Concílio soprou algo da era Kennedy, algo do otimismo ingênuo do conceito de grande sociedade: podemos conseguir tudo, basta querermos empregar bem os meios adequados. A ruptura da consciência histórica, a renúncia masoquista ao passado introduziram a ideia de uma hora zero, em que tudo ia recomeçar de novo e, enfim, tudo seria bem feito no que até então fora mal feito. O sonho da libertação, o sonho do completamente diferente, que, pouco depois, ganharia um caráter cada vez mais assinalado na revolta dos estudantes, já reinava, de certo modo, sobre o Concílio. Foi ele que, primeiro, atraiu as pessoas e, depois, as decepcionou, assim como o público exame de consciência primeiro trouxe alívio e, depois, repugnância.

Para um psicólogo, esse processo do espírito conciliar constituiria um bom exemplo do modo como as virtudes, pelo exagero, se transformam em seu contrário. A penitência é uma necessidade para o indivíduo e para a sociedade. Mas a penitência cristã não significa a negação de si mesmo, mas a descoberta de si mesmo. Os velhos Atos dos mártires cristãos dizem com insistência que estes jamais tiveram nos lábios palavras de insulto contra a criação. Nisso, eles se distinguiam dos gnósticos, nos quais a penitência cristã se transformou em ódio contra o homem, ódio contra a vida pessoal, ódio contra a mesma realidade. A condição interior prévia da penitência é precisamente a aquiescência à realidade como tal. Exprime-se a sua inversão moderna, por exemplo, numa declaração do grande pintor Max Beckmann: « A minha religião é orgulho diante de Deus, revolta contra Deus. Revolta porque nos criou, porque não nos podemos amar. Em meus quadros, lanço contra Deus como uma censura pelo que fez mal ».

Vemos, aqui, algo de totalmente fundamental: a ruptura radical consigo mesmo, onde entramos em fúria contra nós mesmos, onde não mais podemos suportar a criação, nem em nós, nem nos outros; isso não é mais penitência, mas orgulho. Ali onde cessa o sim fundamental ao ser, à vida, a si mesmo, ali também desaparece a penitência, que então se transforma em orgulho. Pois a penitência pressupõe que é permitido ao homem aquiescer a si mesmo. É, por natureza, uma descoberta do sim, ao evacuar o que obnubila esse sim. É por isso que a autêntica penitência leva ao Evangelho, ou seja, à alegria - à alegria também que encontramos em nós mesmos. A forma de autoacusação a que se chegou no Concílio, em relação à nossa própria história, não compreendia suficientemente isso e levou a manifestações de caráter neurótico.

Que o Concílio tenha abandonado formas falsas de autoglorificação da Igreja na terra; que, no que se refere à história da Igreja, tenha suprimido a tendência a defender todo o passado e, portanto, uma forma errônea de autodefesa, tudo isso foi bom e necessário. Mas é absolutamente necessário suscitar de novo a alegria de possuir intacta, em sua realidade, a sociedade de fé que provém de Jesus Cristo. É necessário redescobrir a via de luz que é a história dos santos, a história desta realidade magnífica em que se exprime vitoriosamente, ao longo dos séculos, a alegria do Evangelho. Se alguém, ao lhe evocarem a Idade Média, só encontrar na memória a lembrança da inquisição, devemos perguntar-lhe onde estão seus olhos: será que tais catedrais, tais imagens da eternidade, cheias de luz e de tranquila dignidade, teriam podido surgir, se a fé fosse apenas uma tortura para os homens?

Em suma: é preciso recordar com clareza que a penitência exige, não a desintegração da identidade pessoal, mas a sua redescoberta. E quando começar a se afirmar uma atitude positiva em relação à história, então desaparecerá por si mesma a utopia que imagina que até hoje tudo foi mal feito e que doravante tudo será bem feito. Os limites do realizável foram-nos bem claramente expostos pela maneira como terminou a era Kennedy, e a pacificação espiritual que julgamos observar hoje vem necessariamente, por um lado, de termos reencontrado um melhor equilíbrio entre realizar e receber, entre o cálculo e a meditação.

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Um balanço da época pós-conciliar (1985), pelo Cardeal Ratzinger

O texto abaixo é uma análise do então Cardeal Joseph Ratzinger, publicado no livro 'Les principes de la théologie catholique - Esquisse et matériaux' (ed. Tequi, 2005) sobre as principais consequências do concílio Vaticano II para a história da Igreja, quando se havia passado uma década do seu encerramento. O texto, bastante interessante, é também revelador em certos aspectos. Rezamos a Deus para que seja útil aos nossos leitores.

Tradução do francês para O FIEL CATÓLICO por Roberto Leal Ferreira 



Primeira parte

QUANDO RECEBI DIVERSOS pedidos, das partes mais diversas, em 1975, para estabelecer um balanço dos dez anos que se seguiram ao Vaticano II, pensei primeiro nos primeiros dias do Concílio. Convidara-me o cardeal Frings, em 12 de outubro de 1962, portanto, às vésperas da sessão de abertura, a expor diante dos bispos de língua alemã os problemas teológicos que teriam de enfrentar em seu trabalho conciliar. Procurando uma introdução adequada que ressaltasse algo da natureza mesma dos Concílios, topei com um texto de Eusébio de Cesareia, membro do primeiro concílio ecumênico da história da Igreja, o de Niceia, em 325. Ele assim resumia as suas impressões acerca dessas assembleias da Igreja:

« Reuniram-se os mais importantes servidores de Deus de todas as igrejas da Europa, da África e da Ásia inteiras. E uma só Igreja, como dilatada à dimensão do mundo, pela graça de deus, continha sírios, cilicianos, fenícios, árabes e palestinos; também egípcios, tebanos, africanos e mesopotâmios. Havia até um bispo persa. Não faltou a esse coro um cita. O Ponto e a Galácia, a Capadócia e a Ásia, a Frígia e a Panfília haviam enviado homens de escol. Mas vieram também trácios, macedônios, aqueus e epirotas e gente que morava ainda mais longe... Havia até um célebre espanhol entre os participantes dessas assembleias.»

No plano de fundo dessas entusiásticas palavras, reconhecemos a descrição de Pentecostes dada por Lucas nos Atos dos Apóstolos, e isso também ressalta o pensamento que Eusébio vincula à sua exposição: Niceia foi um novo Pentecostes, a verdadeira realização do sinal de Pentecostes; por fim a Igreja fala realmente em todas as línguas, nisso reconhece a fé única e se apresenta como a Igreja do Espírito Santo.

O Concílio é um Pentecostes – era este o pensamento que correspondia ao nosso próprio sentimento na época; não só porque o Papa João o formulara como voto e como prece, mas porque ele exprimia o que havíamos sentido ao chegar à cidade conciliar: encontro com bispos de todos os países, de todas as línguas, muito além do que fosse imaginável para Lucas ou Eusébio, e com isso a experiência vivenciada da catolicidade real, com sua esperança de Pentecostes: este era o auspicioso signo desses primeiros dias do Vaticano II.

Era essa, então, a situação na época. Como introdução à retrospectiva solicitada, ficava descartado um texto tão “triunfalista”. O clima mudou completamente. Topei com outro texto patrístico, escrito cerca de 50 anos mais tarde, que reflete uma mudança de perspectiva muito parecida com a que conhecemos hoje. Seu autor é Gregório de Nazianzo, um dos grandes herdeiros de Niceia e ele mesmo Padre conciliar no Concílio de Constantinopla, de 381, que completou a fórmula de Niceia com a declaração explícita da divindade do Espírito Santo. Nem se haviam encerrado completamente as deliberações, em 381, e o Imperador mandara convidar, pelo funcionário Procópio, o célebre bispo e teólogo Gregório para uma espécie de segunda sessão, marcada para 382, que também aconteceria em Constantinopla. Foi lacônica a resposta de Gregório, uma recusa assim justificada:

«Para dizer a verdade, considero que se deva evitar toda assembleia de bispos, pois nunca vi nenhum Concílio que tivesse final feliz ou pusesse um ponto final nos males.»

Martinho Lutero, que em sua primeira fase exigira apaixonadamente a convocação de um Concílio livre e geral, citou esse texto em seu escrito redigido em 1539, Dos Concílios e das Igrejas, e exprimiu a sua opinião definitiva sobre o valor e as desvantagens dos concílios. Esse recuo do entusiasmo quanto aos concílios tem, em Lutero, suas próprias motivações, que o católico, é claro, não há de compartilhar: Lutero percebera que um concílio da Igreja precisava confirmar a doutrina da Igreja. Não podia, portanto, esperar satisfação da parte dele, já que ele mesmo se colocara em contradição não só com os abusos, mas com a doutrina mesma da Igreja; por isso, ele lutou em favor da supremacia do poder secular, em que apostava suas fichas.

Mas embora não devamos dar importância demais ao juízo negativo de Lutero sobre os concílios, o de um dos Padres que formularam a ortodoxia da Igreja nos concílios do século IV conserva o seu peso. Pode-se, é claro, objetar que Gregório, o Teólogo, por melhor teólogo que fosse, era, no plano humano, um hipocondríaco, uma natureza supersensível de poeta. Mas isso dá um peso ainda maior ao fato de que uma das grandes figuras do século dos grandes concílios, eminente até no plano humano, Basílio, amigo de Gregório, formula um juízo objetivamente ainda mais forte. Fala de «alarido indistinto e confuso» no desenrolar-se da discussão conciliar, de um «clamor ininterrupto que enchia toda a igreja ».

Graças a uma espécie de visão macroscópica da história que hoje temos dos acontecimentos daquela época, somos obrigados, porém, a contradizer a opinião dos dois bispos: esses grandes concílios dos séculos IV e V se tornaram faróis da Igreja, que mostram o caminho que leva ao coração da Sagrada Escritura e, pela marca que deixaram de sua interpretação, ressaltam claramente a identidade da fé ao longo do tempo. Mas, se o juízo formulado pela história foi globalmente diferente, como a distância só nos faz ver como durável o que é grande, e como grande o que subsistiu, é claro que os contemporâneos imediatos estiveram continuamente expostos às mesmas experiências que as narradas por esses testemunhos do século das grandes decisões fundamentais. Ante a visão macroscópica, há, por assim dizer, a visão microscópica, aquela que olha de perto; e, olhando de perto, não há como negar que quase todos os concílios tiveram inicialmente como efeito abalar o equilíbrio, agindo como fatores de crise.

O concílio de Niceia, que levara a bom termo a formulação da filiação divina de Jesus, foi seguido de uma guerra de desgaste que ocasionou a primeira grande ruptura da Igreja, o arianismo, depois de ter dilacerado profundamente a Igreja durante décadas.

Não foi diferente depois do concílio de Calcedônia, onde fora definido, ao mesmo tempo que a verdadeira divindade de Cristo, sua verdadeira humanidade. A chaga que então se formou ainda não cicatrizou, até hoje: os fiéis herdeiros do bispo Cirilo de Alexandria sentiram-se traídos por fórmulas que se opunham à sua tradição, piedosamente conservada; como cristãos monofisitas, constituem ainda hoje, no Oriente, uma minoria considerável, que, pelo simples fato de existir, nos faz sentir ainda algo da aspereza das controvérsias de então.

Ao aproximarmo-nos de nossa época, vemos surgir a lembrança do Vaticano I, cujos prolongamentos levaram ao fim de muitas faculdades de teologia católicas na Alemanha; foram necessárias décadas para que as feridas cicatrizassem.

Assim, a evolução crítica consecutiva ao Vaticano II situa-se numa longa história; ela não pôde suscitar realmente o acontecimento senão porque o entusiasmo do início camuflara as experiências do passado; e talvez também porque se acreditava ter feito tudo de um jeito diferente e melhor: um concílio que não dogmatizava e não excluía ninguém parecia não chocar a ninguém, repugnar a ninguém, mas só atrair a todos. Na verdade, nele aconteceu o mesmo que nas outras assembleias da Igreja que o precederam; já ninguém pode contestar seriamente as manifestações de crise a que levou.

Restam, é claro, resultados claramente positivos que não temos o direito de minimizar. Para nos limitarmos aos resultados teológicos mais importantes, o Concílio reinseriu no conjunto da Igreja uma doutrina do primado, que ainda permanecia perigosamente isolado; reintegrou no mistério do corpo de Cristo uma concepção da hierarquia também ela isolada demais. Vinculou ao grande conjunto da fé uma mariologia isolada, devolveu à palavra bíblica a plenitude de sua nobreza. Tornou a liturgia de novo acessível. E, com tudo isso, deu também um corajoso passo no sentido da unidade dos cristãos.

É possível que, mais tarde, num olhar macroscópico do período do Vaticano II, só os resultados venham a contar e que hoje mesmo haja homens que, por assim dizer, já vivem na macro-perspectiva e julguem a partir dela.

Mas, para o contemporâneo que tem responsabilidades imediatas, o que talvez um dia, do ponto de vista macroscópico, venha a ser a única coisa marcante pode muito bem, hoje, não ser a única realidade. Ele está exposto, no dia-a-dia, aos fatos mínimos, e deve lutar para tomar as decisões certas.

Mas para uma visão assim próxima, há fatores negativos incontestáveis, gravíssimos e, em boa medida, inquietantes.

Assim, (para só indicar, uma vez mais, só alguns pontos) o fato de que as nossas igrejas, os nossos seminários, os nossos claustros venham esvaziando-se cada vez mais nestes últimos dez anos pode parecer evidente a todos, pelas estatísticas, se não tiver sido observado pessoalmente. Ou então, o fato de que o clima na Igreja se tenha tornado não mais simplesmente glacial, mas também rancoroso e agressivo, é algo que não precisa de provas complicadas: que de toda parte as divisões dilacerem a comunidade é algo que pertence à nossa experiência quotidiana, algo que ameaça obscurecer a alegria de ser cristão. Quem diz este tipo de coisa é logo taxado de pessimista e, assim, excluído do diálogo. Mas se trata aqui mui simplesmente de fatos empíricos, e ver-se na necessidade de negá-los já denota não mais um simples pessimismo, mas um secreto desespero. Não! Ver os fatos não é pessimismo, mas objetividade; só depois vem a questão do significado de tais fatos, de sua origem e da maneira de abordá-los. Assim, para dar sequência a estas considerações, duas questões se põem: a das razões dessa evolução e a da verdadeira resposta a dar aos problemas.

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Fonte:
'Bilan de l'époque post-conciliaire (I)', do site Benoit et moi disp. em:
http://benoit-et-moi.fr/2018/benot-xvi/bilan-de-lepoque-post-conciliaire-i.html
Acesso 1/2/2017

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