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Obra imperdível desnuda o programa de subversão ideológica em pleno curso no Brasil e no mundo – somente para leitores audazes
EM 1983, O EX-AGENTE do Comitê de Segurança de Estado da União Soviética (KGB), o linguista Yuri Aleksandrovich Bezmenov, desnudou e expôs ao mundo os quatro estágios básicos do programa de subversão ideológica que vinha sendo executado ao longo de décadas pelo movimento comunista internacional contra o chamado mundo livre. A erosão dos fundamentos da sociedade ocidental conta, invariavelmente, com a implantação do relativismo moral e com a manipulação dos significados das palavras. Qualquer semelhança não é mera coincidência: esse programa continua em pleno curso, a todo vapor e mais forte do que nunca, em nosso país e em todo o mundo.
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CARÍSSIMOS IRMÃOS EM CRISTO e diletos leitores, bons companheiros de fé e de jornada, neste dia do Santíssimo Nome de Maria e de Santo Autônomo –, que foi forçado a deixar sua terra natal porque convertia muitos pagãos à Verdade do Evangelho –, com carinho, com fé e também com esperança, venho compartilhar uma série de novidades que nosso apostolado vem preparando para facilitar os seus estudos por meio desta página e da nossa revista digital...
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A Igreja e o Islã, uma crítica da Evangelii Gaudium – conclusão

NESTA SEGUNDA E CONCLUSIVA parte, Pe. Samir Khalil Samir aborda os trechos que considera imprecisos ou dúbios na Exortação apostólica Evangelii Gaudium. No que ele chama "pontos que precisam de clarificação", elabora comentários críticos à visão sempre positiva, geralmente branda e otimista (talvez mesmo ingênua, segundo muitos autores) do Papa Francisco a respeito do Islamismo...
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A Igreja e o Islã, uma crítica da Evangelii Gaudium – parte I

DIANTE DA ONDA de atentados terroristas cometidos por islâmicos, julgo oportuno traduzir um texto sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, um dos primeiros documentos escritos pelo Papa Francisco. O texto (de autoria do padre jesuíta Samir Khalil Samir) trata de esclarecer algumas afirmações sobre o Islã feitas na Exortação, afirmações estas que confundem o entendimento dos católicos sobre a religião islâmica...
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Auge místico e morte de Tomás de Aquino

PODEMOS TER UMA noção mais profunda, por meio dos testemunhos apresentados em nossa última postagem, da perfeição daquilo que Santo Tomás de Aquino entendia por vida contemplativa. Esta, no seu último ano de vida, se acentuou e atingiu um ponto culminante...
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Santo Tomás e a Vida Contemplativa

COMO FOI POSSÍVEL, em apenas 25 anos de magistério, numa época em que não havia imprensa, em que bibliotecas eram escassas e pequeníssimas e as viagens eram feitas a pé, uma atividade intelectual tão prodigiosa quanto a de Santo Tomás de Aquino?
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Notas biográficas sobre Santo Tomás de Aquino

O NASCIMENTO DE TOMÁS de Aquino ocorreu, com certeza, entre os anos 1225 e 1227, em Rocasecca, cidade próxima a Nápoles, Itália. Era Tomás filho do Conde Landolfo de Aquino e da Condessa Teodora, que viviam no castelo de Rocasecca, aparentados com a nobreza alemã e com as casas reinantes da Espanha e da França...
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Introdução à Bíblia ou às Sagradas Escrituras - estudo II

COMO VIMOS, nos primeiros séculos da era cristã havia uma grande quantidade de cartas, relatos dos Evangelhos e textos religiosos circulando entre as comunidades da Igreja primitiva, que eram lidos piedosamente entre os primeiros cristãos (alguns reverenciados como santos escritos), entre os quais estavam os livros que hoje compõem o Novo Testamento da Bíblia cristã, mas também uma grande quantidade de outros textos, que posteriormente viriam a ser considerados apócrifos...
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Introdução à Bíblia ou às Sagradas Escrituras

INICIAMOS COM ESTA a realização de um projeto antigo: a publicação de uma série de postagens que aprofundarão a disciplina Sagrada Escritura, no decorrer da qual abordaremos, entre outros temas, a formação e o conjunto dos livros canônicos (com o processo próprio de canonização); a Septuaginta; os textos massoréticos; a questão de quais Escrituras eram utilizadas pelos Apóstolos, pela Igreja nascente e primitiva e pelo próprio Cristo; o cânon de Jâmnia; a origem e relação entre os livros canônicos e protocanônicos; etc. Em mais esta empresa, rezamos a Nosso Senhor para que nos conceda que nossos esforços sejam úteis ao maior número de interessados, para a Sua Glória em primeiro lugar...
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O Catecismo e os catecismos da Igreja Católica

VEMOS HOJE muita gente bem intencionada que parece encontrar problemas para entender o que vem a ser, exatamente, o Catecismo da Igreja Católica (CIC). Para grande parcela da população católica, a palavra “Catecismo” pode fazer referência às enfadonhas "aulinhas" que tiveram quando crianças, que na maior parte das vezes consistiam de atividades que não lhes deixaram marcas: brincar, desenhar, cantar...
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Frei Galvão: histórias do ainda desconhecido santo brasileiro

GRATA SURPRESA terão aqueles que lerem o singelo livro da jornalista Marleine Cohen, lançado no ano 2013 pela editora Benvirá, intitulado "Frei Galvão: a história do primeiro santo brasileiro". A pesquisa, que foi cuidadosa, merece respeito. Trouxemos um pequeno trecho da obra para a a apreciação dos nossos leitores...
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Biblioteca católica: livro 'Bernadette Soubirous', de Francis Trochu
A OBRA "BERNADETTE Soubirous" conta duas histórias: a da aparição da Virgem Maria em Lourdes, França, em 1858, e a da garota camponesa de apenas 14 anos, – criada na pobreza e analfabeta, – para a qual Nossa Senhora apareceu. É também a história da vida oculta de Bernadette como uma freira comum no seu convento em Nevers, onde ela alcançou o ápice da santidade...
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A Igreja e o Islã, uma crítica da Evangelii Gaudium – conclusão
Tradução de João Marcos – Associação São Próspero
** Ler a primeira parte deste artigo
Pontos que precisam de clarificação
1. Os islâmicos “conosco adoram o Deus único e misericordioso” (parágrafo 252)
2. “Os escritos sagrados do Islã conservam parte dos ensinamentos cristãos” (parágrafo 252)
3. A figura de Cristo no Corão e nos Evangelhos (parágrafo 252)
4. O Islã se opõe a todos os dogmas fundamentais do Cristianismo
5. Ética no Islã e no Cristianismo (n. 252)
6. “...os fundamentalismos de ambos os lados” (n. 250 e 252)
7. Violência no Corão e a vida de Maomé (n. 253)
Conclusão – Uma 'interpretação adequada' do Corão
** Ler a primeira parte deste artigo
Pontos que precisam de clarificação
Vamos aos pontos que demandam esclarecimentos. No parágrafo 252, o Papa cita um famoso documento do Concílio Vaticano II, a constituição Lumen Gentium, quando diz que “professam seguir a fé de Abraão, e conosco adoram o Deus único e misericordioso, que há-de julgar os homens no último dia”.
1. Os islâmicos “conosco adoram o Deus único e misericordioso” (parágrafo 252)
É preciso cautela neste ponto. É verdade que os islâmicos adoram o Deus único e misericordioso, no entanto, esta frase sugere que as duas concepções de Deus são iguais. No Cristianismo Deus é a Trindade, a pluralidade unida no amor: Ele é um pouco mais que clemência e misericórdia. Nós temos concepções bem diferentes de Deus: os islâmicos pensam Deus como inacessível, enquanto a visão cristã da Trindade enfatiza que Deus é Amor que se comunica: Pai e Filho e Espírito Santo, ou Amante - Amado - Amor, segundo Sto. Agostinho.
Além do mais, o que significa a misericórdia do Deus islâmico? Ele tem misericórdia de quem ele quer, mas não daqueles que pecam contra ele. “Para que Allah pudesse agraciar com sua misericórdia quem Lhe aprouvesse”: estas expressões estão, quase que literalmente, no Antigo Testamento, mas nunca concluem dizendo que “Deus é amor” , como disse S. João.
A misericórdia do Deus islâmico é aquela do homem rico que dá esmola ao pobre. Já o Deus cristão é Aquele que se rebaixa a si mesmo ao nível do pobre para elevá-lo; Ele não exibe a sua riqueza para ser respeitado (ou temido) pelos pobres, mas Ele dá a si mesmo para que os pobres vivam.
2. “Os escritos sagrados do Islã conservam parte dos ensinamentos cristãos” (parágrafo 252)
Esta é uma verdade ambígua. É verdade que os islâmicos conservam palavras ou fatos dos evangelhos canônicos, como a história da Anunciação, que é praticamente transcrita nos capítulos 03 (A Família de Inran) e 19 (Maria).
Mas o Corão se inspira mais frequentemente nas histórias piedosas dos evangelhos apócrifos, e assim não conseguem extrair deles seu sentido teológico, não por malícia, mas porque estes evangelhos não contêm a visão geral da mensagem cristã.
3. A figura de Cristo no Corão e nos Evangelhos (parágrafo 252)
O documento diz que no Corão, “Jesus Cristo e Maria são objeto de profunda veneração”. Na verdade, Jesus não é venerado na tradição islâmica. É Maria quem é venerada, especialmente pelas mulheres islâmicas.
A ausência de veneração por Cristo é provavelmente explicada pelo fato que, no Corão, Jesus é um profeta famoso por seus milagres em favor dos pobres e doentes, mas Ele não tem o mesmo status que Maomé. Apenas os místicos têm alguma devoção por Ele, bem como ao que eles chamam de “Espírito de Deus”.
O fato é que tudo que é dito sobre Jesus no Corão é o exato oposto dos ensinamentos cristãos. Ele não é o Filho de Deus, mas um profeta. Ponto. Ele não é nem mesmo o último dos profetas, porque o “último dos profetas” é Maomé . A revelação cristã é vista apenas como um passo na direção da revelação definitiva trazida por Maomé, ou seja, o Islã.
4. O Islã se opõe a todos os dogmas fundamentais do Cristianismo
A figura de Cristo como Segunda Pessoa da Trindade é condenada. No Corão está escrito sobre os cristãos:
Assim, Deus salvou Jesus dos pecados dos judeus, mas Cristo não salvou o mundo! Em resumo, o Corão e todos os islâmicos negam o núcleo da fé cristã: a Trindade, a Encarnação e a Redenção. É preciso dizer que eles estão em seu direito, mas você não pode dizer que “os escritos sagrados do Islã conservam parte dos ensinamentos cristãos”. Você pode simplesmente falar do “Jesus do Corão”, que não tem nenhuma semelhança com o Jesus dos Evangelhos .
“Ó adeptos do Livro, não exagereis em vossa religião e não digais de Deus senão a verdade. O Messias, Jesus, filho de Maria, foi tão-somente um mensageiro de Deus e Seu Verbo, com o qual Ele agraciou Maria por intermédio do Seu Espírito. Crede, pois, em Deus e em Seus mensageiros e não digais: Trindade! Abstende-vos disso, que será melhor para vós; sabei que Deus é Uno. Glorificado seja! Longe está a hipótese de ter tido um filho. A Ele pertence tudo quanto há nos Céus e na Terra, e Deus é mais do que suficiente Guardião.”
Assim, Deus salvou Jesus dos pecados dos judeus, mas Cristo não salvou o mundo! Em resumo, o Corão e todos os islâmicos negam o núcleo da fé cristã: a Trindade, a Encarnação e a Redenção. É preciso dizer que eles estão em seu direito, mas você não pode dizer que “os escritos sagrados do Islã conservam parte dos ensinamentos cristãos”. Você pode simplesmente falar do “Jesus do Corão”, que não tem nenhuma semelhança com o Jesus dos Evangelhos .
O Corão menciona Jesus porque ele pretende completar a revelação de Cristo para exaltar Maomé. Além do mais, o que Jesus e Maria fazem no Corão não é nada além de rezar e jejuar de acordo com o Corão. Maria certamente é a mais bela figura dentre todas do Corão: ela é a Virgem, que homem algum tocou. Mas ela não pode ser a Theotokos (Mãe de Deus), e sim apenas uma "boa islâmica".
5. Ética no Islã e no Cristianismo (n. 252)
A última frase desse parágrafo da Evangelii Gaudium diz sobre os islâmicos: “Reconhecem também a necessidade de Lhe responder com um compromisso ético e com a misericórdia para com os mais pobres”. Isto é verdade. A compaixão com o pobre é um requisito do Islã. Mas existem, em minha opinião, duas diferenças entre a ética islâmica e a ética cristã.
A primeira é que a ética islâmica não é sempre universal. Frequentemente ela é uma questão de solidariedade com a comunidade islâmica, enquanto, de acordo com a tradição cristã, a solidariedade é universal. Por exemplo: quando um desastre natural atinge uma região do mundo, os países cristãos enviam ajuda independente da religião do país atingido, enquanto países islâmicos ricos (como a Arábia Saudita) não fazem isso.
A segunda é que a ética islâmica é legalista. Aqueles que não jejuam no mês do Ramadan são considerados criminosos e acabam presos (em vários países). Se você jejua, do amanhecer ao anoitecer, você é perfeito, mesmo que você coma do pôr-do-sol até o nascer do dia seguinte, e coma mais e melhor do que o normal: “Os melhores alimentos, em imensa quantidade”, como me diziam alguns amigos egípcios muçulmanos. O jejum do Ramadan perde todo o sentido se ele se torna o período em que os islâmicos comem mais, e comem as melhores coisas. No dia seguinte, dado que ninguém dormiu porque passaram a noite toda comendo, ninguém trabalha. Entretanto, do ponto de vista formal, todos eles jejuaram por várias horas. É uma ética legalista: se você fizer X, você está correto. É uma ética exterior.
Já o jejum cristão pretende nos aproximar do Sacrifício de Cristo, em solidariedade com os pobres, e não permite comermos em outro período para “compensar” o jejum.
Para o Islã, enquanto os fiéis observarem a lei islâmica, tudo está em ordem. O fiel nunca procura ir além da lei. A justiça é requerida pela lei, mas nunca é superada. É por isso que não existe no Corão a obrigação de perdoar, enquanto no Evangelho Jesus nos diz para perdoar um número infinito de vezes. No Corão a misericórdia nunca chega a ser amor.
O mesmo se aplica à poligamia: você pode ter até 4 esposas. Se eu quero ter uma quinta esposa, tudo que eu preciso é repudiar uma das outras esposas, talvez a mais velha, e me casar com a mais nova. E como eu me mantive com 4 esposas durante todo o tempo, tudo isso é perfeitamente legal.
O Corão se opõe ao Cristianismo em relação ao homossexualismo. Todas as religiões consideram o homossexualismo pecado, mas para islâmicos é também um crime, punido com a morte. No Cristianismo isso é pecado, não crime. O motivo é óbvio: o Islã é um sistema religioso, cultural, social e político; uma visão integral da realidade. Isso é afirmado várias vezes no Corão. O Evangelho, por sua vez, claramente distingue as dimensões espirituais e éticas da vida sociocultural e política.
O mesmo acontece com a pureza, como Cristo ensina aos fariseus: “Não é aquilo que entra pela boca que mancha o homem, mas aquilo que sai dele. Eis o que mancha o homem”.
6. “...os fundamentalismos de ambos os lados” (n. 250 e 252)
Finalmente, existem dois pontos que eu gostaria de criticar. O primeiro é onde o Papa ajuntou todos os fundamentalismos. No parágrafo 250 ele diz: “Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados”.
O outro ponto é a conclusão da seção sobre as relações com o Islã: “Frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afeto pelos verdadeiros crentes do Islã deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islã e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência” (n. 253).
Pessoalmente eu não colocaria os dois fundamentalismos no mesmo nível: fundamentalistas cristãos não carregam armas; o fundamentalismo islâmico é criticado primeiramente pelos próprios muçulmanos, porque esse fundamentalismo armado tenta reviver o modelo maometano. Maomé lutou mais de 60 guerras, e se ele é o modelo perfeito (como diz o Corão 33:21), não surpreende que alguns islâmicos usem de violência para imitar o fundador do Islã.
Finalmente, o Papa menciona a violência no Islã. No parágrafo 253 ele escreve: “O verdadeiro Islã e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência”.
É uma bela frase, que expressa uma atitude extremamente benevolente do Papa com o Islã. Entretanto, em minha humilde opinião, ela expressa mais um desejo do que uma realdade. Pode ser verdade que a maioria dos islâmicos se oponham à violência, mas dizer que “o verdadeiro Islã se opõe a qualquer violência” não parece verdade: há violência no Corão. Portanto, a frase do Papa precisa de muitas explicações.
[Nota do editor: objetivamente falando, não é verdade que a maioria dos islâmicos se opõem à violência; diversas pesquisas e censos internacionais demonstram este fato concreto, e até os próprios islâmicos o reconhecem, como se pode ver neste vídeo de Razeel Haza, jornalista paquistanesa radicada no Canadá. Este, na realidade, é um dos maiores obstáculos para a adoção de medidas eficientes contra o terrorismo e a extrema violência praticada em nome do Islã: a recusa dos grandes líderes mundiais – como se vê, até mesmo do Papa – em reconhecer um fato simples e evidente]
[Nota do editor: objetivamente falando, não é verdade que a maioria dos islâmicos se opõem à violência; diversas pesquisas e censos internacionais demonstram este fato concreto, e até os próprios islâmicos o reconhecem, como se pode ver neste vídeo de Razeel Haza, jornalista paquistanesa radicada no Canadá. Este, na realidade, é um dos maiores obstáculos para a adoção de medidas eficientes contra o terrorismo e a extrema violência praticada em nome do Islã: a recusa dos grandes líderes mundiais – como se vê, até mesmo do Papa – em reconhecer um fato simples e evidente]
É o bastante ler os capítulos 02 e 09 do Corão.
(O que o Papa diz sobre uma 'interpretação adequada' do Islã é verdadeiro. Alguns teólogos escolheram esse caminho, mas não são muitos o bastante para contrariar o poder da maioria. Essa minoria de teólogos está tentando reinterpretar textos corânicos que falam de violência, mostrando que eles se referem ao contexto da Arábia daquela época e à visão político-religiosa de Maomé)[1]
Se o Islã pretende continuar com a visão dos tempos de Maomé, então sempre haverá violência. Mas se o islã – e existem alguns místicos que fizeram isso – pretende alcançar uma espiritualidade mais profunda, a violência não é aceitável.
O Islã está numa encruzilhada: ou é uma religião para a política e a organização política da sociedade, ou uma religião para inspirar a viver e amar mais plenamente.
Aqueles que criticam o Islã pela sua violência não fazem uma generalização injusta, como provam os conflitos sangrentos do mundo Islâmico.
Aqui no Oriente nós compreendemos muito bem que o terrorismo islâmico é religioso, com citações, orações e fatwas de imãs que encorajam a violência. O fato é que não existe uma autoridade central islâmica para conter essa manipulação. Isto significa que cada imã é considerado um mufti, isto é, uma autoridade nacional que pode julgar inspirado pelo Corão ou ordenar execuções.
Conclusão – Uma 'interpretação adequada' do Corão
O ponto realmente importante é a “interpretação adequada”. No mundo islâmico, o debate mais caloroso – e mais proibido – é precisamente sobre a interpretação do livro sagrado. Islâmicos acreditam que o Corão foi revelado a Maomé completo, do jeito que conhecemos. Existe o conceito de inspiração do texto sagrado, que deixa margem à interpretação do elemento humano presente na Palavra de Deus.
Vejamos um exemplo. Nos tempos de Maomé, das tribos que viviam no deserto, a punição a um ladrão era a amputação das suas mãos. Qual o propósito dessa prática? Impedir que o ladrão roubasse novamente. Então devemos perguntar: como podemos preservar esse propósito hoje, impedindo o ladrão de roubar? Podemos adotar outros métodos ao invés da amputação das mãos?
Todas as religiões de hoje têm esse problema: como reinterpretar os textos sagrados, que têm valor eterno, mas foram escritos há séculos ou até milênios?
Quando encontro amigos islâmicos, eu sempre explico que hoje devemos nos perguntar qual o “propósito” (maqased) das indicações do Corão. Os juristas e teólogos islâmicos dizem que você deve procurar pelos “propósitos da lei de Deus” (maqasid al-shari’a). Esta expressão corresponde ao que nós, cristãos, chamamos de “espírito do texto”, comparado à “letra”. Devemos buscar o propósito do texto sagrado do Islã.
Vários teólogos islâmicos falam sobre a importância de descobrir “o propósito” dos textos corânicos para ajustá-los ao mundo moderno. E isto, me parece, é muito parecido com o que o Santo Padre quis dizer ao escrever sobre a “interpretação adequada” do Corão.
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• O texto de Samir Khalil Samir foi publicado originalmente pela agência internacional Asia News, e encontra-se disponível em:
http://www.asianews.it/news-en/Pope-Francis-and-his-invitation-to-dialogue-with-Islam-29858.html
Acesso 17/8/016.
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1. Nota do Editor: parece evidente que um aspecto essencial envolvido neste último tópico foi deixado em aberto pelo autor. Refiro-me ao questionamento que certamente se fará, da parte dos islâmicos, quanto à autoridade do Papa, líder da Igreja Católica, em apontar a 'interpretação adequada' do Corão. Ora, realisticamente falando, mesmo que alguns autores islâmicos concordem com o Santo Padre, quais as chances de os grupos que adotam interpretações mais radicais (que lamentavelmente, como já demonstramos, são maioria), venham a mudar de opinião mediante uma exortação do Pontífice dos cristãos? Mal comparando, isto seria o mesmo que o Magistério da Igreja resolver reavaliar algumas das suas interpretações doutrinais das Sagradas Escrituras, definidas dogmaticamente, baseado na opinião de algum imã islâmico.
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• O texto de Samir Khalil Samir foi publicado originalmente pela agência internacional Asia News, e encontra-se disponível em:
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Acesso 17/8/016.
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A Igreja e o Islã, uma crítica da Evangelii Gaudium – parte I
Introdução e tradução por João Marcos – Associação São Próspero
Segundo a Evangelii Gaudium o Deus “compassivo e misericordioso” islâmico seria o mesmo Deus Trindade que adoramos. E Jesus e Maria, são os mesmos no Corão? O fundamentalismo cristão é igual ao fundamentalismo islâmico?
Exigências de um diálogo genuíno
1. Amor e Verdade (n. 250)
2. Diálogo e Anúncio (n. 251)
3. Acolher os imigrantes islâmicos (n. 253)
4. Os países islâmicos devem acolher os cristãos (n. 253)
O propósito do diálogo
1. A serviço da paz (n. 250)
DIANTE DA ONDA de atentados terroristas cometidos por islâmicos, julgo oportuno traduzir um texto sobre a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, um dos primeiros documentos escritos pelo Papa Francisco. O texto trata de esclarecer algumas afirmações sobre o Islã feitas na Exortação, afirmações estas que confundem o entendimento dos católicos sobre a religião islâmica. Para não cometer nenhuma injustiça, achei por bem traduzir todo o texto, e não apenas a sua parte crítica. O autor do texto é o padre jesuíta egípcio Samir Khalil Samir, especialista em Islã e Oriente Médio, professor por 12 anos do Pontifício Instituto Orientale em Roma. Mora no Líbano há 30 anos[1].
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| Samir Khalil Samir |
Segundo a Evangelii Gaudium o Deus “compassivo e misericordioso” islâmico seria o mesmo Deus Trindade que adoramos. E Jesus e Maria, são os mesmos no Corão? O fundamentalismo cristão é igual ao fundamentalismo islâmico?
Beirute – A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium é apresentada como o programa pastoral do Papa Francisco. Ela revela a alma aberta, amigável, positiva e alegre deste Papa na sua missão de espalhar a mensagem cristã no mundo atual.
Pela minha experiência de contato constante com o Oriente Médio, eu fiquei muito impressionado com a seção sobre diálogo inter-religioso (parágrafos 250-254). Mas depois de reler e analisar essas passagens algumas vezes, especialmente aquela destinada ao Islã (252-253), eu pretendo destacar alguns pontos importantes, ao mesmo tempo em que abordo alguns aspectos problemáticos da relação com o Islã. Na Evangelii Gaudium, o Papa é muito otimista sobre o que é realmente benéfico em nossa sociedade globalizada.
1. Amor e Verdade (n. 250)
A primeira coisa que deve caracterizar as relações com outras religiões está no parágrafo 250: “Uma atitude de abertura em verdade e amor”. Isto é importante porque vivemos num mundo globalizado, em contato frequente com outras religiões. O Papa sublinha que o caminho correto para dialogar requer amor e verdade: não existe amor em tomar posições inflexíveis, não existe verdade em diálogos ambíguos e vagos. Esta é a atitude correta, frequentemente em falta hoje em dia.
2. Diálogo e Anúncio (n. 251)
O mesmo tema está no n. 251: “Neste diálogo, sempre amável e cordial, nunca se deve descuidar o vínculo essencial entre diálogo e anúncio”.
Algumas vezes, ao dialogar, quando chega a hora do anúncio parece que nossos parceiros se desagradam, acusando-nos de fazer proselitismo. Mas isso não tem nada a ver com proselitismo, e sim com amor: é por amor que eu proclamarei a boa notícia que me liberta e me dá a felicidade. E você também deve me oferecer o bem que há em sua fé. Temos que evitar artimanhas, argumentos e práticas que visam conquistar o outro, e passar a dar testemunho da verdade.
Além do mais, os termos “proclamação” e “boa notícia” estão na Bíblia e no Corão. “Boa notícia”, do grego euanghelos, é encontrada em Isaías, Marcos, Lucas... No Corão, encontramos o verbo bashshara, ou seja, “trazer as boas notícias”. É dito frequentemente que Maomé foi enviado para “trazer as boas notícias” (mubashshiran). E é Cristo, de acordo com o Corão, que diz aos israelitas: “Eu vim para trazer as boas notícias (mubashshiran) de um profeta que virá depois de mim, chamado Ahmad”. Os islâmicos interpretam “Ahmad” como Maomé .
O ato de trazer boas notícias é tabshir em árabe, e é uma função típica de profetas. Islâmicos usam essa palavra para criticar os cristãos, acusados de fazer tabshir no sentido de proselitismo, distorcendo o significado da palavra árabe. O verso 61,6 do Corão é frequentemente citado como prova de que o próprio Jesus anunciou a vinda de Maomé. O proselitismo deve ser criticado, porque é um meio de conquistar uma pessoa com truques. Mas a proclamação é o propósito da fé que me libertou, e você, por sua vez, deve proclamar sua verdade a mim.
Cada um de nós está convencido de que trazemos as “boas novas” à humanidade. O islâmico, a comunidade islâmica, têm a obrigação de propagar o Islã através da Da’wa, do “chamado” para se tornar islâmico, de forma que todo estado islâmico tem um ministro de Da’wa. Da mesma forma, o cristão e a comunidade cristã têm a obrigação de proclamar a fé, de convidar outros a descobrir o Evangelho (as Boas Notícias). Compreendida corretamente, a proclamação é um ato de amor pelo outro. É por isso que o Papa nos chama a proclamar o Evangelho em diálogo, num gesto de amor e verdade. Já o sincretismo não respeita nem o amor, nem a verdade. Por isso o Papa condena o sincretismo: “Um sincretismo conciliador seria, no fundo, um totalitarismo”.
3. Acolher os imigrantes islâmicos (n. 253)
O Papa falou corajosamente: “Nós, cristãos, deveríamos acolher com afeto e respeito os imigrantes do Islã que chegam aos nossos países”. Esta é a consequência do “amor e verdade”: devemos acolher os imigrantes, não fechar nossas fronteiras com acontece frequentemente no Ocidente.
Ele mesmo deu o exemplo ao ir à Lampedusa, em julho de 2013, onde fez um discurso que começa com as seguintes palavras: “Emigrantes mortos no mar; barcos que em vez de ser uma rota de esperança, foram uma rota de morte. Assim recitava o título dos jornais. Desde há algumas semanas, quando tive conhecimento desta notícia (que infelizmente se vai repetindo tantas vezes), o caso volta-me continuamente ao pensamento como um espinho no coração que faz doer. E então senti o dever de vir aqui hoje para rezar, para cumprir um gesto de solidariedade, mas também para despertar as nossas consciências a fim de que não se repita o que aconteceu. Que não se repita, por favor”
Ao mesmo tempo, o Papa diz (no parágrafo 253): “Rogo, imploro humildemente a esses países que assegurem liberdade aos cristãos para poderem celebrar o seu culto e viver a sua fé, tendo em conta a liberdade que os crentes do Islão gozam nos países ocidentais”.
O Papa teve coragem de dizer aos países mais ricos do mundo, Arábia Saudita e alguns países do Golfo, a garantir liberdade de culto. Mas ele não menciona liberdade de consciência ou de conversão. A liberdade de culto é importante, visto que há mais de 2 milhões de cristãos na Península Arábica sem direito de ter ao menos sua própria capela!
Parece-me óbvio que a liberdade de consciência é garantida em todos os países ocidentais. Cedo ou tarde teremos de pedir liberdade de consciência até mesmo nas nações islâmicas: esta é a condição para uma verdadeira coexistência, respeitosa do indivíduo, em verdade e amor.
O propósito do diálogo
1. A serviço da paz (n. 250)
O propósito do diálogo inter-religioso é garantir a paz no mundo: “Este diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas.” Mais adiante o Papa continua: “Com este método, poderemos assumir juntos o dever de servir a justiça e a paz, que deverá tornar-se um critério básico de todo o intercâmbio”. Serviço é um dever, particularmente o serviço da paz e justiça. É um dever a todos os cristãos.
Na minha opinião, a palavra “juntos” é muito importante. Diálogo não é “eu falo e você escuta” e depois “você fala e eu escuto”, mas é nos colocarmos “juntos” a serviço da paz e da justiça. Esta é a visão prática e pastoral do Papa.
Finalmente, o uso das palavras “justiça” e “paz” é notável. Não se pode alcançar a paz sem justiça. Enquanto alguém se sentir injustiçado não haverá paz. Penso no conflito entre palestinos e israelenses. Os primeiros pensam que o fato de uma grande parte do seu território, onde eles viveram por séculos, ter sido tomada deles, sem culpa de sua parte, e dada a outros, é uma injustiça. Enquanto essa injustiça não for reconhecida e reparada, não haverá paz!
2. Aceitar as diferenças de cada um (ns. 250-252)
Uma consequência prática desse diálogo é o respeito pelas diferenças.
Ele diz no parágrafo 250: “Assim aprendemos a aceitar os outros, na sua maneira diferente de ser, de pensar e de se exprimir”. Este aceitar das diferenças é, para mim, crucial. Por ele, “ambas as partes encontram purificação e enriquecimento.”
O diálogo não deve ser usado para atacar o outro, ou humilhá-lo, mas para me purificar e enriquecer. A diferença é vista de um ângulo positivo.
Este tema aparece várias vezes. Por exemplo, ao falar dos islâmicos, o Papa diz algumas coisas muito positivas: “É admirável ver como jovens e idosos, mulheres e homens do Islã são capazes de dedicar diariamente tempo à oração e participar fielmente nos seus ritos religiosos” (n. 252).
Como cristãos, devemos aprender deles a devotar tempo à oração. O Papa enfatiza a positividade do testemunho islâmico diante de um certo relaxamento da Cristandade Ocidental.
Ele elogia também a religiosidade islâmica, sua dependência de Deus: “Muitos deles têm uma profunda convicção de que a própria vida, na sua totalidade, é de Deus e para Deus”. Isto devia servir de exemplo ao Ocidente, tentado pelo individualismo.
No parágrafo 253, o Papa lembra uma condição para o diálogo: “Para sustentar o diálogo com o Islã é indispensável a adequada formação dos interlocutores, não só para que estejam sólida e jubilosamente radicados na sua identidade, mas também para que sejam capazes de reconhecer os valores dos outros, compreender as preocupações que subjazem às suas reivindicações e fazer parecer as convicções comuns”.
O que o Papa diz do Islã é verdadeiro, e é vivenciado por muitos islâmicos. Por exemplo, muitos deles levam as orações bem a sério. Poucos dias atrás eu estive com uma família islâmica de Tripoli, no Líbano. Toda a família – pais e 2 filhos – respeitava os horários de oração. Foi apenas em respeito a mim que eles não interromperam suas atividades para rezar. Mas o seu celular sempre tocava na hora da oração, para lembrá-los do momento.
O sentimento religioso é mais forte entre os islâmicos do que entre os cristãos. E Bergoglio enfatiza esses aspectos positivos do Islã para corrigir omissões entre os cristãos.
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1. Nota do Editor: conforme explicado pelo autor, este é um artigo opinativo sobre um documento papal. As opiniões aí expressas não estão diretamente ligadas aos dogmas ou à Doutrina da Igreja; também não representam, necessariamente, as opiniões do nosso apostolado. Por se tratar de assunto tão espinhoso e delicado, sabemos bem que a polêmica é inevitável. As considerações de Samir Khalil Samir servem, entretanto, como válidos pontos de partida para uma reflexão mais madura a respeito dos pontos essenciais contidos nesta Exortação apostólica.
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Auge místico e morte de Tomás de Aquino
PODEMOS TER UMA noção mais profunda, por meio dos testemunhos apresentados em nossa última postagem, da perfeição daquilo que Santo Tomás de Aquino entendia por vida contemplativa. Esta, no seu último ano de vida, se acentuou e atingiu um ponto culminante. A este respeito, porém, passamos a palavra a João Ameal1, embora em sua narrativa ele se baseie também em Guilherme de Tocco2.
O último ano da vida de Tomás de Aquino é assinalado por diversos acontecimentos extraordinários que mostram como, de dia para dia, era cada vez mais irresistível o chamado às intimidades sobrenaturais.
Já no convento de Nápoles, frei Domingos de Caserta repara que Tomás desce de seu quarto antes das matinas e vai até à igreja. Apenas o sino toca e supõe os companheiros prestes a despertar, volta para cima, como se não quisesse ser descoberto.
Frei Domingos resolve um dia saber o que se passa. Levanta-se mais cedo e, ao ver o Doutor Angélico sair da cela, segue-o, oculto, à capela de São Nicolau. Aí surpreende o mestre dominicano imerso em profunda oração. Com grande espanto, observa que seu corpo se eleva no ar, dois palmos acima do nível do solo. Dentro de alguns momentos, na penumbra silenciosa da capela, soa uma voz misteriosa, que vem do crucifixo erguido no Altar:
“Tomás, escreveste bem sobre Mim.
Que receberás de Mim
como recompensa pelo teu trabalho?"
De joelhos, transportado de fé, Tomás exprime na resposta a plenitude de seu ardor místico:
“Senhor, nada, senão Vós!"Depois de narrar esta cena prodigiosa, Tocco informa que o mestre trabalha então na terceira parte da Summa Theologiae, e pouco mais escreverá. Se o Senhor lhe fala de recompensa, é sinal do fim de suas canseiras.
De fato, não decorre muito tempo sem que Tomás atinja a maior altura de sua vida visível. É no dia 6 de dezembro de 1273, quando celebra a Missa, na mesma capela de São Nicolau. Bruscamente, opera-se nele grande mudança, que impressiona a todos os assistentes. Finda a Missa, não volta a escrever e deixa mesmo por acabar a terceira parte da Summa, logo após ter terminado o tratado sobre a Eucaristia.
Desgostoso, ao vê-lo cada vez mais afastado dos tratos habituais, observa-lhe o seu secretário, frei Reginaldo de Piperno:
“Mestre, como abandonais uma obra tão vasta, que empreendestes para a Glória de Deus e iluminação do mundo?"
Tomás replica:
“Não posso mais."Pouco tempo depois, acompanhado de Reinaldo, vai o Doutor Angélico visitar sua irmã, a Condessa Teodora de Sanseverino, de quem é especialmente amigo. Estranha-o Teodora, que, surpreendida, indaga ao seu confidente: "Que é isto? Frei Tomás está tão distraído que mal me falou!". Piperno, melancólico, esclarece-a: "Anda assim desde a festa de São Nicolau. Deixou mesmo, por completo, de escrever." E torna a insistir, repetidas vezes, com o mestre, para que lhe explique a razão de sua apatia. Até que Tomás declara de novo, com mais firmeza e veemência:
“Peço-te, pela caridade que tens agora por mim, que não transmitas a ninguém, enquanto eu viva, o que te disser."
E acrescenta, peremptório:
“Tudo que escrevi até hoje, parece-me unicamente palha, em comparação com aquilo que vi e me foi revelado."3Algumas semanas mais tarde, Tomás de Aquino foi convocado pelo Papa para se apresentar ao Segundo Concílio Ecumênico de Lião; junto com seu secretário Reginaldo e Tiago de Salerno, empreende uma viagem até à França.
No meio do caminho, próximo a Fossa Nova, Tomás fica doente; é acolhido no mosteiro cisterciense daquela cidade e aí vem a falecer.
Antes de falecer, voltou a manifestar-se mais uma vez sobre o ocorrido no dia 6 de dezembro do ano anterior; sobre este assunto, se Deus nosso Senhor o quiser e permitir, voltaremos a falar com mais lastro em momento apropriado.
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1. João Francisco de Barbosa Azevedo de Sande Aires de Campos (Santa Cruz, Coimbra, 23 de fevereiro de 1902 - Lisboa, 23 de setembro de 1982), conhecido pelo pseudônimo literário João Ameal, jornalista, escritor, político, e historiador de grande estatura, com vasta obra publicada e referência sobre Santo Tomás e o tomismo.
2. Guilherme de Tocco, Guillelmi de Tocco ou Guglielmo de Thoco (nascido entre 1240-50 e falecido antes de 1323) é o autor da mais importante biografia antiga de S. Tomás de Aquino, a «Ystoria sancti Thome de Aquino». Este livro tem o grande interesse de ser a história que serviu de base ao processo de canonização do teólogo.
3. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pp. 143-5.
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Fonte bibliográfica:
ROSA, Antonio Donato. A Educação segundo a Filosofia Perene: orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vitor. Cristianismo.Org.Br.
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Santo Tomás e a Vida Contemplativa
COMO FOI POSSÍVEL, em apenas 25 anos de magistério, numa época em que não havia imprensa, em que bibliotecas eram escassas e pequeníssimas e as viagens eram feitas a pé, uma atividade intelectual tão prodigiosa quanto a de Santo Tomás de Aquino?
Os testemunhos de sua época, que recolhemos principalmente da biografia de Guilherme de Tocco, seu discípulo, nos dão uma ideia de como ele estudava e trabalhava; podemos daí compreender de onde manava a fonte de suas colossais atividades, e termos uma compreensão inicial mais perfeita daquilo a que ele se referia quando falava da vida contemplativa.
Diz o biógrafo, contemporâneo de Tomás, – Guilherme de Tocco, – que:
“Nada do que Tomás pôde ler, com a Iluminação divina, pôde deixar de explicar. No que fica visível que Deus o tinha escolhido para a investigação da verdade, pois o iluminou mais do que a todos os outros, pois nunca colocou pelo pecado obstáculos diante de Deus para que, através da oração, não pudesse buscar a verdade. De onde que Deus, enquanto ele vivia, mostrou a todos um evidente milagre, isto é, como em tão pouco tempo, nos seus 25 anos de magistério, duas vezes indo e voltando da Itália e Paris, pôde escrever tantos livros, discutir tão profundamente tantas questões e ensinar tantas coisas novas." 1
“Este Doutor entregou-se para isto totalmente às coisas do alto, e foi contemplativo de um modo inteiramente admirável. Totalmente entregue às coisas celestes, na maior parte do tempo estava ausente dos sentidos, de tal modo que mais se supunha estar ele onde o seu espírito contemplava do que onde permanecia sua carne." 2
“Ademais, durante o tempo da noite, dedicado pelos homens ao repouso, Tomás, após um breve sono, permanecia em seu quarto ou na igreja imerso em oração, para que orando merecesse aprender aquilo que deveria após a oração escrever ou ditar." 3
“Todas as vezes em que queria estudar, disputar, ler, escrever, ditar, antes se entregava ao segredo da oração, para que encontrasse as coisas de Deus no segredo da Verdade; pelo mérito de sua oração, assim como se aproximava com as questões de que tinha dúvida, do mesmo modo saía dela ensinado." 4
Foi assim
“(...) que escreveu um livro, intitulado Summa contra Gentiles, profundo pela sutileza e pela novidade das razões, em que mostrou de modo admirável o que já possuía pelo seu engenho e o que obtinha pela oração e pelo rapto da mente em Deus. De fato, frequentemente foi visto totalmente alheio aos sentidos, atento como sempre às Revelações divinas." 5
“Indício certo de sua admirável memória era não somente o hábito da ciência, que ele possuía na alma tal como se a possuísse no livro; mas também aquela obra admirável que, a mando do Papa Urbano, de feliz memória, compôs sobre os quatro Evangelhos, em que citava de memória a maior parte das obras dos santos que ele tinha tido diante dos olhos, nos volumes que tinha lido em diversos mosteiros, todas as quais retinha em sua memória" 6
“Como pôde compor tantos livros em tão breve tempo, Deus o mostrou admiravelmente por outros indícios. Este Doutor, de fato, algumas vezes ditava assuntos diversos a três e às vezes até a quatro escritores simultaneamente em seu quarto, de modo que parecia Deus infundir-lhe em sua mente diversas verdades simultaneamente, o que não poderia fazer ao mesmo tempo sem um milagre manifesto." 7
“Tanta era a abstração da mente de Tomás, que às vezes não percebia estar sendo lesado em seu corpo. Certa vez os médicos acharam por bem cauterizar sua tíbia; ao que Tomás disse ao colega que estava consigo: 'Quando eles vierem com o fogo, faça-me o favor de me avisar'. Estando então no lugar em que deveria se realizar a cauterização, quando esta se iniciou, levantou-se a tamanha abstração que sequer percebeu o fogo que queimava sua perna; de fato, sequer moveu a perna do local em que estava." 8
“Outra vez, estando Tomás em seu quarto a ditar um livro sobre a Trindade, tomou uma vela em sua mão e disse ao que escrevia: 'Seja o que for que vejas em mim, cuida-te de não me chamares'. Então, abstraído na contemplação, depois de uma hora a vela se consumiu e o fogo alcançou seus dedos, aí os tocando demoradamente sem que o Doutor os sentisse; ao contrário, continuou segurando o próprio fogo sem sequer um movimento dos dedos, até que ele por si só se apagou." 9
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Referências:
1. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C. 17.
2. Ibidem, C. 43.
3. Ibidem, C. 29.
4. Ibidem, C. 30.
5. Ibidem, C. 17.
6. Ibidem, C. 17, 41.
7. Ibidem, C. 17. 8. Ibidem, C. 47. (53) Ibidem, C. 47.
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Fonte bibliográfica:
ROSA, Antonio Donato. A Educação segundo a Filosofia Perene: orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vitor. Cristianismo.Org.Br.
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Notas biográficas sobre Santo Tomás de Aquino
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| 'Triunfo de Santo Tomás de Aquino sobre hereges' (detalhe), 1489-91. Afresco, Basílica de Santa Maria sobre Minerva, Roma |
O NASCIMENTO DE TOMÁS de Aquino ocorreu, com certeza, entre os anos 1225 e 1227, em Rocasecca, cidade próxima a Nápoles, Itália. Era Tomás filho do Conde Landolfo de Aquino e da Condessa Teodora, que viviam no castelo de Rocasecca, aparentados com a nobreza alemã e com as casas reinantes da Espanha e da França1.
A data correta do nascimento de Santo Tomás, entretanto, tem sido objeto de longos debates entre os estudiosos2. A posição mais comumente aceita, segundo João Ameal3, é a definida por P. Mandonnet em um estudo publicado na Revue Thomiste em 1914, segundo o qual Tomás teria nascido em 1225, em alguma data anterior ao dia 7 de março4.
Seu discípulo e principal biógrafo, Guilherme de Tocco, conta-nos uma curiosa história sobre seu nascimento, ouvida da filha da irmã de Santo Tomás:
“Estando sua mãe, a senhora Teodora, – ilustre tanto pelos costumes como pela fama de seus pais, – no castelo de Rocasecca, situado nos limites da Campânia, visitou-a o irmão Buono, melhor pela vida e pela religião, que levava vida de eremita com vários outros em uma montanha próxima e era tido como santo pelos homens daquela região, dizendo-lhe: `Alegra-te, senhora, porque estás grávida, e darás à luz um filho, ao qual chamarás Tomás. Tu e teu marido pensarão em fazer dele um monge no mosteiro de Monte Cassino, no qual repousa o corpo de São Bento, com a esperança de que, promovido a elevado cargo, possa alcançar os grandes rendimentos desse mosteiro. Mas Deus disporá de modo diverso para com ele, pois será frade da Ordem dos Pregadores e já em vida tão famoso pela ciência e pela santidade que em seu tempo em todo o mundo não se poderá encontrar outro igual'."5
De fato, com a idade de cinco anos, Santo Tomás foi confiado à custódia dos beneditinos de Monte Cassino, que já à época tinham como educadores uma fama universal. Seu tio Sinibaldo era, ademais, o abade do mosteiro6. Sua permanência em Monte Cassino durou aproximadamente nove anos, até quando, estando Tomás com cerca de 14 anos, a abadia foi ocupada pelas tropas de Frederico II. Seu tio Sinibaldo devolveu-o ao castelo da família, para logo em seguida ser encaminhado à Universidade de Nápoles7.
"Que se sabe da vida de Tomás em Monte Cassino?", pergunta João Ameal. "Pouco, mas o bastante para desde logo ficar definido o seu perfil moral. Envolto no hábito negro dos beneditinos, ajuda à Missa, toma parte nas procissões e cerimônias da Igreja, aprende a ler em latim e a cantar os Salmos nos ofícios sagrados, diante do imenso antifonário do mosteiro cujas páginas volteia, uma a uma.
"Que se sabe da vida de Tomás em Monte Cassino?", pergunta João Ameal. "Pouco, mas o bastante para desde logo ficar definido o seu perfil moral. Envolto no hábito negro dos beneditinos, ajuda à Missa, toma parte nas procissões e cerimônias da Igreja, aprende a ler em latim e a cantar os Salmos nos ofícios sagrados, diante do imenso antifonário do mosteiro cujas páginas volteia, uma a uma.
Aos dez anos, Tomás, que já lê e escreve corretamente, estuda os primeiros elementos de Latim, de Aritmética e de Gramática. Aos treze, conhece grande parte do Saltério, dos Evangelhos, das Epístolas de São Paulo. O abade Sinibaldo, seu tio e preceptor, encaminha-o também às obras primas da Patrística: os escritos morais de São Gregório Magno, as cartas de São Jerônimo, os fragmentos mais acessíveis de Santo Agostinho. Precocemente, contudo, mostra-se pensativo e taciturno. Dir-se-á que já pesavam no seu espírito, aberto muito cedo aos mais largos horizontes, as interrogações decisivas da metafísica.
Horas seguidas, queda-se em uma contemplação misteriosa. Certo dia, a um frade que lhe pergunta qual a razão de seu alheamento, responde, com um olhar que se perde em distâncias remotas: "Que é Deus?", episódio em que Guilherme de Tocco vê um nítido presságio"8.
Foi o próprio abade Sinibaldo que, "notando no jovem indícios tão certos e maduros da futura perfeição e as primeiras sementes da futura colheita das Escrituras", diz o biógrafo Guilherme de Tocco, "aconselhou Landolfo a enviá-lo a Nápoles para estudar"9.
Seguindo a orientação pedagógica de então, continua João Ameal10, consagra-se Tomás de Aquino ao estudo das chamadas Artes Liberais, divididas em dois grupos: as que constituem o Trivium, isto é, a Gramática, a Retórica e a Dialética; e as que constituem o Quadrivium, isto é, a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música.
Seu mestre no Trivium foi Pedro Martinus; seu mestre no Quadrivium foi Pedro da Irlanda, célebre por alguns comentários a algumas obras de Aristóteles que começavam a ser redescobertas pelo Ocidente cristão. "A influência exercida por este professor no espírito de Tomás foi profunda, principalmente porque", diz João Ameal, "foi ele quem atraiu pela primeira vez a atenção de Tomás para o nome e a obra de Aristóteles. Este simples fato marca um lugar a Pedro da Irlanda na história do pensamento humano: ter sido, provavelmente, o instrumento do encontro inicial entre Santo Tomás de Aquino e Aristóteles"11.
"Os progressos do moço em Nápoles", prossegue João Ameal, "são rápidos e sensíveis. Afirma Guilherme de Tocco, de acordo com o depoimento de seus contemporâneos, que nas aulas o seu gênio começou a brilhar por tal forma, e sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres, porém de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que como as tinha ouvido"12.
Seu mestre no Trivium foi Pedro Martinus; seu mestre no Quadrivium foi Pedro da Irlanda, célebre por alguns comentários a algumas obras de Aristóteles que começavam a ser redescobertas pelo Ocidente cristão. "A influência exercida por este professor no espírito de Tomás foi profunda, principalmente porque", diz João Ameal, "foi ele quem atraiu pela primeira vez a atenção de Tomás para o nome e a obra de Aristóteles. Este simples fato marca um lugar a Pedro da Irlanda na história do pensamento humano: ter sido, provavelmente, o instrumento do encontro inicial entre Santo Tomás de Aquino e Aristóteles"11.
"Os progressos do moço em Nápoles", prossegue João Ameal, "são rápidos e sensíveis. Afirma Guilherme de Tocco, de acordo com o depoimento de seus contemporâneos, que nas aulas o seu gênio começou a brilhar por tal forma, e sua inteligência a revelar-se tão perspicaz, que repetia aos outros estudantes as lições dos mestres, porém de maneira mais elevada, mais clara e mais profunda do que como as tinha ouvido"12.
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| Beato Jordão da Saxônia |
Foi durante sua estadia na Universidade de Nápoles, enquanto estudava o Trivium e o Quadrivium, que Tomás ficou conhecendo os padres dominicanos, sacerdotes pertencentes a uma ordem recém fundada na Igreja por São Domingos, cuja regra obrigava seus membros de modo especial à oração, ao estudo e ao ensino. Tratando da vida do bem aventurado Jordão da Saxônia, um dos primeiros dominicanos, seu biógrafo contemporâneo, Gerardo de Frachet, diz que certa vez um homem do povo aproximou-se de Frei Jordão e lhe indagou sobre qual fosse a regra que ele professava; ao que mestre Jordão respondeu: "A regra dos frades pregadores é esta: viver honestamente, estudar e ensinar; as mesmas coisas que pediu Davi ao Senhor quando disse: `Ensinai-me, Senhor, a bondade, a ciência e a disciplina'"13.
Uma ordem assim organizada, e que vivia ainda no fervor de seus primeiros anos de fundação, pois tinha sido fundada apenas vinte anos antes, deveria certamente exercer notável atração sobre um jovem com as qualidades de Tomás de Aquino. Assim como ele, os dominicanos eram também novos em Nápoles; seu convento tinha sido fundado nove anos antes da chegada de Tomás, e passou a contar com as frequentes visitas do estudante.
Provavelmente após os sete anos de estudos exigidos pelos ciclos do Trivium e do Quadrivium14, Tomás ingressou, por volta de seus 20 anos de idade, na Ordem dos Dominicanos. Por motivos de segurança, pois sua família ainda abrigava o desejo de vê-lo abade de Monte Cassino, Frei João Teutônico, mestre geral da Ordem Dominicana, enviou Tomás para Paris e logo em seguida para Colônia, no Império Germânico, onde, "sob a direção de frei Alberto (Santo Alberto Magno), mestre de Teologia da mesma ordem, floresceu um Studium Generale"15.
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| Santo Alberto Magno |
Ali, Santo Alberto Magno vinha empreendendo um trabalho de interpretação e assimilação de toda a obra de Aristóteles. "Nossa intenção", – escreveu ele no início do seu Comentário à Física de Aristóteles, – "é tornar compreensível aos latinos todas as partes da obra de Aristóteles"16. "O encontro de Tomás de Aquino com Alberto Magno representa um fato de extraordinária Transcendência na história do pensamento", continua João Ameal.
"Pode-se dizer que os dois foram colaboradores necessários à edificação do mais vasto e consistente sistema filosófico de todos as épocas. Santo Alberto recebeu com justiça o título de "Doutor Universal", pela sua desmedida pirâmide de conhecimento; colocando diante de seu discípulo uma variedade opulentíssima de temas. Se a visão de Tomás não tivesse sido assim de início estimulada pelo mestre e alargada nos mais diferentes sentidos, talvez o monumento tomista não alcançasse a majestade soberana a que se elevou"17. Desta época é novamente o testemunho de Guilherme de Tocco:
“Frei Alberto, mestre em Teologia, era tido também como singular em todas as ciências. Tendo ali chegado o jovem Tomás, ouvindo-o ensinar coisas admiráveis e profundas em todas as ciências, muito alegrou-se por ter encontrado aquilo que buscava e de onde pudesse beber ávidamente aquilo de que tinha sede. Começou de modo admirável a falar pouco e permanecer no silêncio; tornou-se assíduo no estudo e devoto na oração, recolhendo interiormente na memória aquilo que posteriormente derramaria em seus ensinamentos.
Como se escondesse, porém, sob o véu de uma admirável simplicidade, seus irmãos começaram a chamá-lo 'boi mudo'. Desconhecendo, assim, a opinião humana a perfeição de seu aproveitamento, mestre Alberto deu início às suas preleções sobre o Livro dos Nomes Divinos do Bem-aventurado Dionísio, às quais o jovem passou a dar ainda maior atenção.
Certo estudante, desconhecendo quanta fosse a virtude da inteligência que nele se escondia, ofereceu-se, movido por compaixão, para repetir-lhe as lições, ao que Tomás, muito humilde, aceitou com gratidão.
Depois, porém, tendo o jovem iniciado uma repetição, como não conseguisse terminá-la,
frei Tomás, como que aceitando uma permissão divina para falar, repetiu toda a lição com distinção, complementando-a ainda com muita coisa que o mestre não havia ensinado.
Pesando-lhe na consciência ocultar o que havia ouvido, seu colega indicou a mestre Alberto haver descoberto no jovem Tomás um inesperado tesouro de sabedoria. Encarregou então o mestre a Tomás de responder, no dia seguinte, diante de todos, a uma questão muitíssimo difícil, o qual, se pela humildade não o quisesse fazer, o fez, todavia, pela obediência.
No dia seguinte, após ter-se dado à oração e recomendado humildemente a Deus, antepondo à questão do mestre uma certa distinção, Tomás pôde respondê-la a contento. Não satisfeito, mestre Alberto acrescentou-lhe mais quatro argumentos tão difíceis de serem respondidos que pensou com isto ter colocado a conclusão da questão. Frei Tomás, porém, a elas conseguiu responder tão brilhantemente que levou mestre Alberto a dizer: `Nós chamamos a este jovem de 'boi mudo', mas ele ainda dará tamanho mugido na doutrina que soará em todo o mundo!'.
Tomás, porém, que tinha alicerçado os fundamentos de seu coração na humildade, não se ensoberbeceu pelo testemunho de um tão grande mestre, nem por tão honrado ato escolar. Nem alterou seu costumeiro exemplo de simplicidade, observando sempre o mesmo modo de vida com que tinha iniciado, embora o mestre passasse a confiar-lhe todos os atos escolares mais difíceis por vê-lo muito mais adiantado do que os demais colegas"18.
Foi em Colônia que Tomás de Aquino começou a ensinar sob a direção de Santo Alberto, e foi ainda nesta cidade que foi ordenado sacerdote pelo arcebispo de Colônia, Conrado de Hochstaden. Provavelmente foi também em Colônia que escreveu o De Ente et Essentia e que principiou a comentar os Livros das Sentenças de Pedro Lombardo19.
Em 1252, aos 27 anos, Tomás de Aquino foi transferido para Paris, com o fim de lecionar em sua famosa Universidade (atual Sorbonne), ali permanecendo até 1259, quando devia já contar com 34 anos. Foi nesta sua primeira estada em Paris que escreveu o Comentário aos Livros das Sentenças de Pedro Lombardo e as Quaestiones Disputatae De Veritate20.
Dos 34 aos 44 anos, Santo Tomás de Aquino lecionou em vários centros de estudos da Itália. Durante três anos foi professor em uma escola de Teologia anexa à Cúria Romana e teólogo consultor do Papa21. Desta época datam os principais comentários aos livros de Aristóteles, como o Comentário à Fisica, o Comentário à Metafísica e especialmente o Comentário à Ética. Datam desta época também a impressionante Summa contra Gentiles, que representou para Santo Tomás como que uma preparação para que pudesse escrever depois a monumental Summa Theologiae. É também desta época que provém a concepção e o planejamento da mesma Summa Theologiae, bem como a redação da primeira das três partes em que se divide esta obra22.
Dos 44 aos 47 anos, Tomás de Aquino voltou a lecionar na Universidade de Paris. Neste período escreveu outros comentários a Aristóteles, como o Comentário ao Livro da Interpretação, o Comentário aos Segundos Analíticos, o Comentário ao De Anima e o Comentário à Política, este incompleto e terminado pelo seu discípulo Pedro de Alvernia. Da Summa Theologiae redigiu também a segunda de suas três partes23.
Na Páscoa de 1247, com 47 anos completos, Santo Tomás retornou à Itália, onde lecionou na Universidade de Nápoles durante dois anos.
Durante estes dois anos escreveu o Comentário ao Livro De Causis e a terceira parte da Summa Theologiae, da qual completou as questões referentes a Cristo e a maior parte das referentes aos Sacramentos; preparava-se para escrever talvez aquela que seria a parte mais sublime, em que descreveria o Paraíso, quando, durante a Missa que celebrava na manhã de 6 de dezembro de 1273, recebeu uma Revelação que o proibiu de continuar a escrever e aguardar seu breve trânsito para a vida eterna, o que veio ocorrer a 7 de março do ano seguinte, à idade de 49 anos24.
* * *
Mencionamos aqui a cronologia apenas de alguns dos livros de Santo Tomás de Aquino; além destes, ele produziu uma infinidade de outros trabalhos. Comentou, além dos já citados de Aristóteles, outros livros deste mesmo filósofo; quase todos os livros das Sagradas Escrituras; o Livro dos Nomes Divinos de Dionísio Areopagita e várias obras de Boécio; escreveu inúmeros trabalhos próprios de Filosofia, dos quais o De Ente et Essentia é um exemplo; várias obras de Teologia, além das duas Summae e dos Comentários aos Livros das Sentenças; pelo menos três livros de Política, além do próprio Comentário à Política de Aristóteles; diversas Quaestiones Disputatae, das quais as principais são as De Veritate, as De Potentia, as De Anima, as De Malo e várias menores, e também as Quaestiones Quodlibetales.
Notas e referências bibliográficas:
1. Manser, G.M.: La Esencia del Tomismo; Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Cientificas Instituto "Luiz Vives" de Filosofia, 1953; pg. 14.
2. Ameal, João: São Tomás de Aquino; Porto, Livraria Tavares Martins, 1956; pg. 10.
3. João Francisco de Barbosa Azevedo de Sande Aires de Campos (Santa Cruz, Coimbra, 23 de fevereiro de 1902 - Lisboa, 23 de setembro de 1982), conhecido pelo pseudônimo literário João Ameal, jornalista, escritor, político, e historiador de grande estatura, com vasta obra publicada e referência sobre Santo Tomás e o tomismo.
4. Mandonnet, P.: in Revue Thomiste, XXII, 1914, pgs. 652- 664, segundo nota de João Ameal à pg. 10 da obra citada na nota 23.
5. Guillelmus de Tocco:"Vita S.Thomae Aquinatis", C.1.
6. Manser, G.M.: o.c.; pgs. 14-5.
7. Nascimento, Carlos A. R.: Santo Tomás de Aquino, o Boi mudo da Sicília; São Paulo, EDUC, 1992; pg. 12.
8. Ameal, João: o.c., pgs. 13-4.
9. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C.5.
10. Ameal, João: o.c.; pg. 17.
11. Ibidem, loc. cit..
12. Ibidem, pg. 18.
13. Frachet, Gerardo: Vida de los Frailes Predicadores; in Santo Domingo de Guzman, su vida, su orden, sus escritos; Madrid, BAC, 1947; pg. 622.
14. Manser, G.M.: o.c.; pg. 16.
15. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C. 12.
16. Ameal, João: o.c., pg 5l.
17. Ibidem, pg. 53.
18. Guillelmus de Tocco: Vita Sancti Thomae Aquinatis, C.12.
19. Ameal, João: o.c., pg. 57, pg. 63; Manser, G. M.: o.c., q. 17. Quanto ao De Ente et Essentia, sua data é encontrada em quase todas as tábuas cronológicas das obras de S. Tomás.
20. Manser, G.M.: o.c. pg. 19.
21. Ameal, João: o.c., pg. 85.
22. Manser, G.M., o.c., pg. 20.
23. Ibidem, pg. 22; Pirotta, P. F. Angelus M.: Editoris Praefatio; in Sancti Thomae Aquinatis in Aristotelis Librum De Anima Commentarium; Turim, Marietti, 1948; pg. VII. Spiazzi, P.F. Raymundus: Introductio Editoris; in Sancti Thomae Aquinatis Doctoris Angelici in Libros Politicorum Expositio; Turim, Marietti, 1951; pg. XXVI.
24. Ameal, João: o.c., pg 144.
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Fonte bibliográfica:
ROSA, Antonio Donato. A Educação segundo a Filosofia Perene: orientação para pais e mestres segundo Tomás de Aquino e Hugo de S. Vitor. Cristianismo.Org.Br.
www.ofielcatolico.com.br
Introdução à Bíblia ou às Sagradas Escrituras - estudo II
** Leia a primeira parte desta série
Sobre a seleção dos Livros Canônicos
COMO VIMOS, nos primeiros séculos da era cristã havia uma grande quantidade de cartas, relatos dos Evangelhos e textos religiosos circulando entre as comunidades da Igreja primitiva, que eram lidos piedosamente entre os primeiros cristãos (alguns reverenciados como santos escritos), entre os quais estavam os livros que hoje compõem o Novo Testamento da Bíblia cristã, mas também uma grande quantidade de outros textos, que posteriormente viriam a ser considerados apócrifos. Até o século IV não houve consenso quanto a que livros deveriam compor a lista canonicamente reconhecida como Escritura Sagrada.
Considerando-se esta simples realidade, torna-se evidente a completa impossibilidade de ter existido, entre os Apóstolos e os primeiros cristãos, qualquer concepção doutrinária minimamente semelhante àquilo que viria a se chamar Sola Scriptura (só a Escritura), mais de um milênio e meio depois do Advento de Cristo. Ainda assim, – para escândalo do cristão bem formado, – persiste em nossos tempos a ideia de que seria possível reconhecer a lista dos livros canônicos1 simplesmente pela evidência da sua Inspiração divina. Segundo esta linha de pensamento, de algum modo Deus/Espírito Santo revelaria de modo quase que instantâneo sua "assinatura" a todo indivíduo que simplesmente se pusesse a folhear as Escrituras. Seria então a Igreja um fator completamente subjetivo e, mais do que isso, desnecessário para a escolha dos textos que compõem o Livro Sagrado dos cristãos.
Considerando-se esta simples realidade, torna-se evidente a completa impossibilidade de ter existido, entre os Apóstolos e os primeiros cristãos, qualquer concepção doutrinária minimamente semelhante àquilo que viria a se chamar Sola Scriptura (só a Escritura), mais de um milênio e meio depois do Advento de Cristo. Ainda assim, – para escândalo do cristão bem formado, – persiste em nossos tempos a ideia de que seria possível reconhecer a lista dos livros canônicos1 simplesmente pela evidência da sua Inspiração divina. Segundo esta linha de pensamento, de algum modo Deus/Espírito Santo revelaria de modo quase que instantâneo sua "assinatura" a todo indivíduo que simplesmente se pusesse a folhear as Escrituras. Seria então a Igreja um fator completamente subjetivo e, mais do que isso, desnecessário para a escolha dos textos que compõem o Livro Sagrado dos cristãos.
A Inspiração divina de um livro, segundo tal absurda linha de pensamento, poderia ser verificada pelos piedosos efeitos que causa no fiel. Nada nos parece mais óbvio do que a completa falsidade desta noção, principalmente por ser inescapavelmente relativa: ora, não poderiam afirmar o mesmo (como de fato o fazem) os hindus, os muçulmanos, os espíritas e os seguidores das mais diversas e estrambóticas seitas? O conceito de que a Bíblia se revelaria por si própria, além de totalmente subjetivo, evidentemente depende de conceitos e critérios ainda mais subjetivos. Como poderia qualquer indivíduo definir quais atributos caracterizam e diferenciam um livro inspirado de um outro não inspirado? Quais seriam os critérios de avaliação destes mesmos atributos?
"Cada cabeça uma sentença", lembra um adágio popular de origem antiquíssima, e repleto de sabedoria. Ora, certa afirmativa ou narrativa que alguém poderia jurar que tem origem divina seria facilmente considerado como mero disparate por outra pessoa. Eis o motivo pelo qual a Igreja una, instituída por Cristo, – que por isso mesmo tem um só SENHOR e professa uma só Fé (Ef 4,5), – foi sempre sumamente necessária: "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edifico minha Igreja" (Mt 16,18); "Pedro, apascenta minhas ovelhas" (Jo 21,15-17); "Pedro, confirma os teus irmãos" (Lc 22, 31-32), diz o Senhor ao primeiro Papa, e o próprio diz de si mesmo, no primeiro Concílio da Igreja: "Irmãos, sabeis que há muito tempo o Senhor me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho" (At 15,7).
Assim como o Senhor Jesus Cristo prometeu que estaria com a sua Igreja (singular) até o fim dos tempos (Mt 28,20), nenhum autor sagrado afirmou, – por escrito, – ter escrito sob impulso do Espírito Santo, sendo a única exceção S. João no seu Apocalipse. Todavia, mesmo que cada livro da Bíblia contivesse a seguinte autenticação: "Este livro foi escrito inspirado por Deus", isto não seria realmente prova alguma, pelo simples motivo de que os autores de livros apócrifos, especialmente os mal intencionados, poderiam acrescentar a mesma afirmativa às suas obras. Não existem, – aos montes, – autores de livros espíritas que afirmam escrever inspirados por padres falecidos e mesmo por santos católicos, e o atestam em suas obras infames? Não se afirma o Alcorão inspirado por Deus, e também o Livro de Mórmon, assim como os livros de Mary Baker Eddy2 e Ellen G. White3, além de muitos outros provenientes de seitas orientais?
Um último caso a ser analisado é o daqueles que afirmam que a Inspiração divina de um livro poderia ser verificada pela inspiração que causa no crente: "É inspirado porque inspira", dizem estes. Outra grande engano, e mais ainda, uma tolice digna de pena. Se não, notemos como existem diversos escritos religiosos antigos, inclusive entre textos apócrifos e até, – somos forçados a dizê-lo, – escrituras não cristãs, que poderíamos com muita justiça considerar mais "inspiradores", por mais emotivos, carregados de forte simbolismo e apelo às sensibilidades humanas, do que muitos textos e até livros inteiros do AT da Bíblia Sagrada. Tomemos como exemplo o Livro de Números: seria possível, usando apenas este critério, afirmar que o Livro de Números é divinamente Inspirado? Por certo que não. Entretanto, este Livro está presente em todas as Bíblias Cristãs, seja protestante, católica ou ortodoxa.
É de fato coisa muito simples demonstrar, portanto, que não é possível definir a divina Inspiração de um livro mediante a mera análise particular, como também não se poderia defini-la mesmo que o próprio livro se declarasse como tal. De fato, a fixação do cânon não poderia estar sujeita às opiniões pessoais, nem fundamentadas em quaisquer métodos de verificação por sua própria natureza subjetivos e duvidosos.
Por fim, resta salientar que também não seria possível identificar a totalidade dos livros bíblicos exclusivamente por meio do estudo dos livros desde sempre consensualmente canônicos. Em outras palavras, também não se pode, por meio dos livros protocanônicos, conhecer a lista dos deuterocanônicos4 que compõem tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Como exemplo, em S. Lucas (24,27.47) e S. João (10,34) aparecem as expressões "Moisés e os Profetas"; "a Lei e os Profetas" e "Lei, Profetas e Salmos", sempre relacionadas ao conceito de Escritura Sagrada. Mas a expressão "Profetas" abrangeria quais livros? Datados da mesma época dos Profetas existe uma grande quantidade de outros livros cuja autoria é atribuída aos antigos Profetas do AT que, no entanto, hoje não são considerados canônicos. Do mesmo modo, existem outros cuja autoria profética ainda é duvidosa e mesmo assim são considerados canônicos por todos os cristãos.
O mesmo se aplica aos Salmos: existe, por exemplo, um escrito denominado Salmo 151, que é considerado canônico apenas pela Igreja Ortodoxa. E o que dizer de livros como Provérbios, Eclesiastes, Ester, Rute, e 1 e 2Samuel, 1 e 2Reis e Josué? Seriam parte de qual grupo? Lei, Profetas ou Salmos? Ou pertenceriam a um outro grupo cuja menção se não encontra em qualquer livro protocanônico?
Um fato ainda mais impactante, – tanto quanto pouco conhecido, é que a Bíblia faz referência a pelo menos 31 livros que hoje são considerados apócrifos pelos cristãos (HAMMER, 2006). 21 destes livros são do AT, O mesmo acontece com o NT, que menciona o livro "Ascensão de Moisés" (cf. Jd 1,9) e "Livro de Henoc" (cf. Jd 1,14). – Foram perdidas a Epístola de Paulo aos Laodicenses (Cl 4,15-16) e sua Prévia aos Coríntios (1Cor 5,9-10).
Assim, pelas razões já apresentadas e pelo fato de a Bíblia mesma não definir o seu conjunto de livros sagrados, o discernimento do Cânon bíblico necessariamente depende de algo que é exterior aos próprios livros sagrados. A Bíblia não se forma nem se autoriza por si mesma. Sua legitimidade depende de uma autoridade externa e anterior que lhe define. Sempre foi assim na tradição judaico-cristã. Podemos tomar como exemplo o Pentateuco5, que sempre foi considerado canônico pelos judeus, porém não por sua própria autoridade, mas porque tinham origem na Tradição judaica e em Moisés, que tinha a autoridade de seu legítimo Magistério (cf. Ex 18,13-14; Mt 19,7-8). Da mesma maneira se dá com os escritos dos Profetas, livros cuja autoridade igualmente não partia de si mesmos, do que afirmam ou deixam de afirmar, mas no anúncio anterior dos mesmos Profetas (como na Tradição cristã), ou porque sua autoria é atribuída a homens legitimamente autorizados por Deus (Magistério).
Está claro que a atribuição de Autoridade divina a um livro, – a definição de sua canonicidade, – sempre dependeu da autoridade de algo exterior/anterior ao livro em si: a Tradição que lhe deu origem e o Magistério divinamente estabelecido, reconhecido como legítimo guardião e difusor das verdades que o livro atesta.
Esta antiga e divina relação não se aplica somente ao Cânon bíblico. Observe-se que alguns dos livros bíblicos não trazem o nome do seu autor (o Pentateuco e os 4 Evangelhos, por exemplo). A atribuição de sua autoria dependeu da Tradição e do Magistério da Igreja divinamente instituída.
** Leia a continuação: o texto massorético e a Septuaginta
__________É de fato coisa muito simples demonstrar, portanto, que não é possível definir a divina Inspiração de um livro mediante a mera análise particular, como também não se poderia defini-la mesmo que o próprio livro se declarasse como tal. De fato, a fixação do cânon não poderia estar sujeita às opiniões pessoais, nem fundamentadas em quaisquer métodos de verificação por sua própria natureza subjetivos e duvidosos.
Por fim, resta salientar que também não seria possível identificar a totalidade dos livros bíblicos exclusivamente por meio do estudo dos livros desde sempre consensualmente canônicos. Em outras palavras, também não se pode, por meio dos livros protocanônicos, conhecer a lista dos deuterocanônicos4 que compõem tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Como exemplo, em S. Lucas (24,27.47) e S. João (10,34) aparecem as expressões "Moisés e os Profetas"; "a Lei e os Profetas" e "Lei, Profetas e Salmos", sempre relacionadas ao conceito de Escritura Sagrada. Mas a expressão "Profetas" abrangeria quais livros? Datados da mesma época dos Profetas existe uma grande quantidade de outros livros cuja autoria é atribuída aos antigos Profetas do AT que, no entanto, hoje não são considerados canônicos. Do mesmo modo, existem outros cuja autoria profética ainda é duvidosa e mesmo assim são considerados canônicos por todos os cristãos.
O mesmo se aplica aos Salmos: existe, por exemplo, um escrito denominado Salmo 151, que é considerado canônico apenas pela Igreja Ortodoxa. E o que dizer de livros como Provérbios, Eclesiastes, Ester, Rute, e 1 e 2Samuel, 1 e 2Reis e Josué? Seriam parte de qual grupo? Lei, Profetas ou Salmos? Ou pertenceriam a um outro grupo cuja menção se não encontra em qualquer livro protocanônico?
Um fato ainda mais impactante, – tanto quanto pouco conhecido, é que a Bíblia faz referência a pelo menos 31 livros que hoje são considerados apócrifos pelos cristãos (HAMMER, 2006). 21 destes livros são do AT, O mesmo acontece com o NT, que menciona o livro "Ascensão de Moisés" (cf. Jd 1,9) e "Livro de Henoc" (cf. Jd 1,14). – Foram perdidas a Epístola de Paulo aos Laodicenses (Cl 4,15-16) e sua Prévia aos Coríntios (1Cor 5,9-10).
Assim, pelas razões já apresentadas e pelo fato de a Bíblia mesma não definir o seu conjunto de livros sagrados, o discernimento do Cânon bíblico necessariamente depende de algo que é exterior aos próprios livros sagrados. A Bíblia não se forma nem se autoriza por si mesma. Sua legitimidade depende de uma autoridade externa e anterior que lhe define. Sempre foi assim na tradição judaico-cristã. Podemos tomar como exemplo o Pentateuco5, que sempre foi considerado canônico pelos judeus, porém não por sua própria autoridade, mas porque tinham origem na Tradição judaica e em Moisés, que tinha a autoridade de seu legítimo Magistério (cf. Ex 18,13-14; Mt 19,7-8). Da mesma maneira se dá com os escritos dos Profetas, livros cuja autoridade igualmente não partia de si mesmos, do que afirmam ou deixam de afirmar, mas no anúncio anterior dos mesmos Profetas (como na Tradição cristã), ou porque sua autoria é atribuída a homens legitimamente autorizados por Deus (Magistério).
Está claro que a atribuição de Autoridade divina a um livro, – a definição de sua canonicidade, – sempre dependeu da autoridade de algo exterior/anterior ao livro em si: a Tradição que lhe deu origem e o Magistério divinamente estabelecido, reconhecido como legítimo guardião e difusor das verdades que o livro atesta.
Esta antiga e divina relação não se aplica somente ao Cânon bíblico. Observe-se que alguns dos livros bíblicos não trazem o nome do seu autor (o Pentateuco e os 4 Evangelhos, por exemplo). A atribuição de sua autoria dependeu da Tradição e do Magistério da Igreja divinamente instituída.
** Leia a continuação: o texto massorético e a Septuaginta
1. Aqueles que, segundo a Igreja divinamente autorizada, compõem a Biblioteca sagrada dos cristãos, por terem sido escritos sob Inspiração divina e integrarem o conjunto de verdades que formam a Verdade Revelada aos cristãos, isto é, a Bíblia Sagrada
2. Mary Baker Eddy foi a criadora da seita 'Ciência Cristã' em 1866. Autora do livro-texto deste movimento religioso, intitulado 'Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras', fundou 'A Primeira Igreja de Cristo, Cientista', em Boston, EUA.
3. Ellen Gold White foi uma cristã americana, proclamada 'profetisa' e escritora cujo ministério foi fundamental para fundação do movimento Adventista sabatista, que mais tarde veio a formar a 'Igreja Adventista do Sétimo Dia'.
4. Protocanônicos (proto, do grego πρώτο, significa 'primeiro') são os livros que tiveram sua canonicidade reconhecida pela Igreja em primeiro lugar; deuterocanônicos (deutero, também do grego Δευτεριο, significa 'posterior' ou 'segundo'). Deuterocanônicos, portanto, são os livros que tiveram sua canonicidade reconhecida posteriormente.
Existem livros proto e deuterocanônicos tanto no AT quanto no NT. A lista dos livros deuterocanônicos do AT é: Tobias; Judite; Sabedoria; Eclesiástico; Baruc; 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos do Ester (10,4 a 16,24) e Daniel (3,24-90; 13; 14). A lista dos livros deuterocanônicos do NT é: 2Pedro; 2João; 3João; Tiago; Judas; Hebreus e Apocalipse.
5. Pentateuco (do grego penta = cinco; teuxos = volume ou livro) é o nome dado ao conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia, cuja autoria é tradicionalmente atribuída a Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A origem deste nome vem da primeira tradução do hebraico para o grego do AT, no terceiro século antes de Cristo, chamada Septuaginta.
• LIMA. Alessandro Ricardo. O Cânon Bíblico: a origem da Lista dos Livros Sagrados, Brasília: ComDeus, 2007.
• HAMMER, Charles. 31 Livros perdidos citados pela Bíblia, artigo de Traditional Catholic Apologetics, Trad. de Carlos Martins Nabeto, 2006. A lista dos Livros perdidos encontra-se disponível neste website, em:
www.ofielcatolico.com.br/2001/03/livros-citados-pela-biblia-atualmente.html• HAMMER, Charles. 31 Livros perdidos citados pela Bíblia, artigo de Traditional Catholic Apologetics, Trad. de Carlos Martins Nabeto, 2006. A lista dos Livros perdidos encontra-se disponível neste website, em:
• PÉREZ, Félix Garrondo. Itinerário bíblico para ler e entender a Sagrada Escritura, São Paulo: Loyola, 1998
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