Um balanço da época pós-conciliar (1985), pelo Cardeal Ratzinger – conclusão

O texto abaixo é a conclusão de uma análise do então Cardeal Joseph Ratzinger, publicado no livro 'Les principes de la théologie catholique - Esquisse et matériaux' (ed. Tequi, 2005) sobre as principais consequências do concílio Vaticano II para a história da Igreja, quando se havia passado uma década do seu encerramento. O texto, bastante interessante, é também revelador em certos aspectos. Rezamos a Deus para que seja útil aos nossos leitores.

Tradução do francês para O FIEL CATÓLICO por Roberto Leal Ferreira 



** Ler a primeira parte

Como se chegou à evolução pós-conciliar?

Para explicar os acontecimentos, vou tentar dar algumas indicações – só algumas.

Em primeiro lugar, cumpre tomar consciência de que a crise pós-conciliar da Igreja católica coincide com uma crise espiritual global da humanidade, pelo menos no mundo ocidental: não temos o direito de apresentar como produto do Concílio tudo o que abalou a Igreja nestes último anos.

A consciência humana não é só marcada por decisões voluntárias do indivíduo; é também formada, em boa medida, pelas condições exteriores, resultantes de fatores econômicos e políticos: a palavra de Jesus, segundo a qual é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus é uma referência a uma situação deste tipo, e é impossível não escutá-la. Darei um só exemplo, tirado de nossa própria história: o esboroamento da velha Europa durante a primeira guerra mundial modificou totalmente, de imediato, o panorama espiritual e, em especial, da teologia. O liberalismo antes reinante, produto de um mundo satisfeito e seguro de si, perdera de repente toda significação, enquanto seus grandes representantes ainda eram vivos e ensinavam. A juventude passou a seguir, não mais Harnack, mas Karl Barth: formava-se em meio aos problemas de um mundo transformado uma teologia inspirada estritamente na fé revelada e desejosa, mui conscientemente, de ser de Igreja.

O retorno da antiga prosperidade durante a década de 1960 foi acompanhada de uma reviravolta semelhante no pensamento. A nova riqueza e a má consciência que a acompanhava provocaram essa espantosa mescla de liberalismo e de dogmatismo marxista que todos conhecemos. É por isso que não temos o direito de exagerar a parte do Vaticano II na evolução mais recente; o mundo protestante também, sem Concílio, tem de superar uma crise semelhante, e os partidos políticos se veem obrigados a enfrentar fenômenos com as mesmas origens.

E, no entanto, em sentido inverso, o Concílio foi de fato um dos fatores que pertencem à evolução da história mundial. Quando uma realidade tão profundamente arraigada nas almas como a Igreja católica é abalada em suas fundações, o terremoto atinge a humanidade inteira.

Quais são, então, os fatores de crise que provêm do Concílio?

Acho que duas disposições desempenham aqui seu papel, tendo ganhado uma importância cada vez maior na consciência dos Padres conciliares, dos conselheiros e dos relatores do Concílio.

Compreendia-se a si mesmo o Concílio como um grande exame de consciência da Igreja Católica; queria, por fim, ser um ato de penitência, um ato de conversão. Isso fica claro nas confissões de culpa, no caráter apaixonado da autoacusação, que não se limitou aos grandes pontos nevrálgicos, como a Reforma e o processo de Galileu, mas se estendeu, na concepção da Igreja pecadora, até ao plano dos valores comuns e fundamentais. Chegaram a temer fosse triunfalismo tudo o que se assemelhasse a uma complacência na Igreja, nas conquistas do passado, no que se mantivera até nós. A essa torturadora poda do que é próprio da Igreja unia-se uma vontade quase angustiada de levar sistematicamente a sério todo o arsenal de acusações dirigidas contra a Igreja e de não desdenhar nenhuma delas. Isso acarretava, ao mesmo tempo, a inquieta preocupação com não ser culpado em relação ao outro, dele aprender todo o possível e não buscar e não ver nele senão o que é bom.

Tal radicalização da exigência bíblica fundamental da conversão e do amor do próximo levou à incerteza em relação à nossa própria identidade, que continua sendo questionada, e, mais especificamente, a uma atitude de ruptura em relação à nossa própria história, que apareceu como cheia de todos os vícios, de modo que um recomeço radical se impunha como uma obrigação urgente.

É aqui que se insere o segundo tema ao qual gostaria de chamar a atenção. Sobre o Concílio soprou algo da era Kennedy, algo do otimismo ingênuo do conceito de grande sociedade: podemos conseguir tudo, basta querermos empregar bem os meios adequados. A ruptura da consciência histórica, a renúncia masoquista ao passado introduziram a ideia de uma hora zero, em que tudo ia recomeçar de novo e, enfim, tudo seria bem feito no que até então fora mal feito. O sonho da libertação, o sonho do completamente diferente, que, pouco depois, ganharia um caráter cada vez mais assinalado na revolta dos estudantes, já reinava, de certo modo, sobre o Concílio. Foi ele que, primeiro, atraiu as pessoas e, depois, as decepcionou, assim como o público exame de consciência primeiro trouxe alívio e, depois, repugnância.

Para um psicólogo, esse processo do espírito conciliar constituiria um bom exemplo do modo como as virtudes, pelo exagero, se transformam em seu contrário. A penitência é uma necessidade para o indivíduo e para a sociedade. Mas a penitência cristã não significa a negação de si mesmo, mas a descoberta de si mesmo. Os velhos Atos dos mártires cristãos dizem com insistência que estes jamais tiveram nos lábios palavras de insulto contra a criação. Nisso, eles se distinguiam dos gnósticos, nos quais a penitência cristã se transformou em ódio contra o homem, ódio contra a vida pessoal, ódio contra a mesma realidade. A condição interior prévia da penitência é precisamente a aquiescência à realidade como tal. Exprime-se a sua inversão moderna, por exemplo, numa declaração do grande pintor Max Beckmann: « A minha religião é orgulho diante de Deus, revolta contra Deus. Revolta porque nos criou, porque não nos podemos amar. Em meus quadros, lanço contra Deus como uma censura pelo que fez mal ».

Vemos, aqui, algo de totalmente fundamental: a ruptura radical consigo mesmo, onde entramos em fúria contra nós mesmos, onde não mais podemos suportar a criação, nem em nós, nem nos outros; isso não é mais penitência, mas orgulho. Ali onde cessa o sim fundamental ao ser, à vida, a si mesmo, ali também desaparece a penitência, que então se transforma em orgulho. Pois a penitência pressupõe que é permitido ao homem aquiescer a si mesmo. É, por natureza, uma descoberta do sim, ao evacuar o que obnubila esse sim. É por isso que a autêntica penitência leva ao Evangelho, ou seja, à alegria - à alegria também que encontramos em nós mesmos. A forma de autoacusação a que se chegou no Concílio, em relação à nossa própria história, não compreendia suficientemente isso e levou a manifestações de caráter neurótico.

Que o Concílio tenha abandonado formas falsas de autoglorificação da Igreja na terra; que, no que se refere à história da Igreja, tenha suprimido a tendência a defender todo o passado e, portanto, uma forma errônea de autodefesa, tudo isso foi bom e necessário. Mas é absolutamente necessário suscitar de novo a alegria de possuir intacta, em sua realidade, a sociedade de fé que provém de Jesus Cristo. É necessário redescobrir a via de luz que é a história dos santos, a história desta realidade magnífica em que se exprime vitoriosamente, ao longo dos séculos, a alegria do Evangelho. Se alguém, ao lhe evocarem a Idade Média, só encontrar na memória a lembrança da inquisição, devemos perguntar-lhe onde estão seus olhos: será que tais catedrais, tais imagens da eternidade, cheias de luz e de tranquila dignidade, teriam podido surgir, se a fé fosse apenas uma tortura para os homens?

Em suma: é preciso recordar com clareza que a penitência exige, não a desintegração da identidade pessoal, mas a sua redescoberta. E quando começar a se afirmar uma atitude positiva em relação à história, então desaparecerá por si mesma a utopia que imagina que até hoje tudo foi mal feito e que doravante tudo será bem feito. Os limites do realizável foram-nos bem claramente expostos pela maneira como terminou a era Kennedy, e a pacificação espiritual que julgamos observar hoje vem necessariamente, por um lado, de termos reencontrado um melhor equilíbrio entre realizar e receber, entre o cálculo e a meditação.

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