Os Documentos da Igreja


UM LEITOR deste site, que se identifica como Kelson Vieira, enviou-nos a seguinte mensagem:

"Paz e bem!
Deixa eu ver se entendi uma coisa. Sobre os documentos da Igreja (vindos do Vaticano), estes são tão verdadeiros quanto as sagradas escrituras? Do contrario até que ponto são verdadeiros? E sobre escritos dos Doutores da Igreja, o que podemos afirmar?

São perguntas importantes. A Igreja ensina que certas compreensões da Sã Doutrina, que ela guarda e proclama, tornaram-se possíveis através de uma Revelação gradual, dada por Deus através dos tempos. Podemos dizer que esse processo vem desde o tempo do Antigo Testamento, pois Deus se comunica com o seu povo desde antes da vinda de Cristo.

Jesus Cristo, único Salvador da humanidade, trouxe e anunciou o Evangelho final e definitivo, mas a compreensão do seu Evangelho se baseia na Revelação que se dá progressivamente no correr da História. Por isso, necessitamos sempre de constante estudo, reflexão, oração, meditação.

Essa compreensão gradativa da Revelação, no entanto, permanece sempre fiel à Tradição, e é sempre orientada pelo Magistério da Igreja à qual foi confiada a autoridade sobre a mesma Sã Doutrina, diretamente por Nosso Senhor. Esta definição progressiva é chamada de “desenvolvimento da Doutrina”. Aqui é que se encaixam os documentos da Igreja, e onde sua fundamental importância fica evidente.

Alguns têm certa dificuldade com esta realidade, imaginando que a afirmação de que a doutrina se desenvolve com o passar do tempo é contraditória, se a Igreja Católica também afirma que sua doutrina é idêntica àquela que os Apóstolos já tinham. Existiria aí uma dicotomia?

A resposta é não. ocorre que existem duas categorias distintas no desenvolvimento da Doutrina: a propriedade objetiva do que é a mesma doutrina e a compreensão subjetiva desta propriedade objetiva. Uma comparação simples pode facilitar a compreensão desta realidade. Olhemos para os primeiríssimos cristãos: é bem provável que eles não tivessem, – ao menos não formalmente, – a formulação do conceito de Trindade para falar de Deus. Todavia encontramos, nas Sagradas Escrituras, inúmeras afirmações que não deixam margem para dúvida de que já se entendia Jesus como Deus, assim como também o Espírito Santo, além do Deus Pai do Antigo Testamento.

Possivelmente, a evidência máxima nesse sentido esteja no Evangelho segundo S. Mateus, na passagem em que o Cristo manda batizar os conversos em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (28,19). Mesmo assim, não é dito explicitamente, em nenhuma parte das Escrituras, que Deus é Trindade, nem que Deus é Um em Três Pessoas coexistentes. A palavra “Trindade” não se encontra na Bíblia, e o conceito formal da doutrina da Santíssima Trindade não foi formulado pelos Apóstolos. Mesmo assim, nós sabemos muito bem que eles confessavam Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Logo, a Doutrina da Santíssima Trindade já estava presente na Revelação trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo desde sempre, mas foi desenvolvida no correr dos tempos, por filhos eminentes da Igreja. Ela não foi “inventada” por um teólogo, pensador ou doutor, apenas compreendida e desenvolvida. Desenvolver a Doutrina é perscrutá-la, dissecá-la, observá-la para notar suas nuances, e transmiti-las aos irmãos de fé, – os outros membros do Corpo do Senhor, que é a Igreja.

Isso significa que os conceitos por trás das declarações dogmáticas que surgiram depois do período apostólico já eram essencialmente possuídos pelos Apóstolos, embora, em alguns casos, não formulados por eles. Eles conheciam e confessavam estas verdades, embora de modo elementar, ainda não formal. Em outras palavras, – outro exemplo, – os termos e sentenças dogmáticas que descrevem a Consubstanciação de Cristo ao Pai como “Homoousios” (uma só Substância) não foram explicitamente def.inidos pelos Apóstolos, mas o conceito por trás da verdade objetiva lhes foi dado “de uma vez por todas” por Cristo, – ainda que esses conteúdos talvez não fossem possuídos conscientemente por eles, ao menos no formato dogmático com que o Concílio de Niceia os professou.

Assim, o desenvolvimento da Doutrina acontece pelo conhecimento cada vez mais claro de certos pontos da Revelação, que entretanto sempre foram os mesmos e sempre afirmaram a mesma verdade objetivamente, seja no século 1 ou no 21. Uma analogia para a questão, embora imperfeita, é a dos estudos da ciência oceanográfica: a civilização humana conhece há muitas gerações, por exemplo, o Oceano Atlântico. Ainda assim, o nosso conhecimento do Oceano Atlântico têm aumentado desde que nossos ancestrais descobriram que ele simplesmente existia. O conhecimento gradual do que é o Oceano Atlântico, – sua temperatura, movimento, topografia, fauna e f.lora, etc. – não modifica a realidade imutável do próprio Oceano, que permanece o mesmo de sempre, como já era desde o começo. Nosso conhecimento subjetivo do Oceano Atlântico é que sofre crescimento. Nossa percepção do Oceano Atlântico, entretanto, nunca crescerá tanto a ponto de imaginarmos que, algum dia, a humanidade se recusará a chamá-lo de oceano e dizer, ao invés disso, que se tratava de uma montanha o tempo todo.

Partindo desta analogia, vemos a Revelação como é objetivamente. Foi-nos dada de uma vez por todas e é imutável: é o que é. Ainda assim, rezando, meditando, contemplando, estudando e vivenciando, vão se percebendo certas facetas deste diamante que antes não havíamos notado. Este crescimento em conhecimento nada adiciona à Revelação no sentido objetivo, mas demonstra que nossa compreensão a seu respeito se desenvolve subjetivamente.



A Revelação, imutável e definitiva, é transmitida pela Igreja sob a forma da Tradição: a Sã Doutrina cristã e católica está expressa e resumida no Credo dos Apóstolos, no Credo Niceno-Constantinopolitano e também nos documentos da Igreja, que ao longo da história cresceu na fé e produziu a Teologia. Dessa maneira foram criadas diversas formas de comunicação desta compreensão da Revelação, destinadas a toda a Igreja (clero e leigos). Assim é que surgiram os documentos, as diretrizes e as normas baseadas na experiência e observância da prática cristã e da Doutrina da Igreja. Logo, tudo que até hoje foi publicado oficialmente pela Igreja (documentos) têm grande importância para a compreensão da autêntica Fé cristã.

Se o Magistério da Igreja extrai da Revelação Divina todo o ensinamento que dá aos fiéis, – que se compõe da Tradição oral que veio dos Apóstolos e da Tradição escrita, e se é sobre essa Tradição (escrita e oral, com igual importância nas duas formas), que o Magistério assenta seus ensinamentos infalíveis, – podemos dizer que sim, os documentos da Igreja são tão verdadeiros quanto a Sagrada Escritura. E como sabemos, sem a Revelação oral, que chegou até nós por meio da Sagrada Tradição, a Bíblia não existiria, já que ela foi redigida, canonizada e preservada pela mesma Igreja através dos séculos. As Sagradas Escrituras, portanto, a Sagrada Tradição da Igreja por escrito.




Documentos oficiais da Igreja e sua classificação

Se um documento é oficial aparece na Acta Apostolicae Sedis. Abaixo, a classificação dos documentos pontifícios.

Carta Encíclica:

a) doutrinal,

b) exortatória,

c) disciplinar;

Epístola Encíclica;

Constituição Apostólica;

Exortação Apostólica;

Carta Apostólica;

Bula;

Motu Proprio.
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6 comentários:

  1. PAI FILHO E ESPIRITO SANTO UNIDOS POR UM AMOR TÃO INFINITO QUE PENSO SER INCOMPREENSÍVEL A NOS, ASSIM COMO A BIBLIA A SAGRADA TRADIÇÃO E O MAGISTERIO DA IGREJA TBM ESTÃO UNIDAS DE TAL FORMA QUE SE FOREM SEPARADAS SO PODE TERMINAR EM HERESIAS.

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  2. A Paz de Cristo a todos. Parabéns pelo texto que, aliás, me levou a querer escrever especificamente sobre a Santíssima Trindade. Para mim a Santíssima Trindade pode ser explicada de forma simples, utilizando nós mesmos como exemplo, pois acredito que todos nós somos uma tríade.
    Somos um espírito eterno em um corpo material que contem um uma mente para interagir neste mundo (a mente com o objetivo de conciliar a experiência do espírito imortal com o corpo e o mundo material da maneira mais correta possível segundo os ensinamentos de Deus).
    Ou seja, 1- espírito; 2- corpo; 3- mente.
    Deus que nos fez sua imagem e semelhança também é assim, porém devido a sua grandiosidade, possui um Espírito Santíssimo, um corpo físico mais que glorificado, que é Jesus, e uma mente onisciente e onipotente que é o Deus criador de tudo, material e espiritual. Essa Trindade Divina é tão espetacular, que ao mesmo tempo em que cada um é único, fazem parte de um só Ser que temos dificuldade até mesmo para imaginar.
    Isso é o que eu acredito, será que eu estou transgredindo algum ensinamento da nossa Igreja por pensar assim sobre A Santíssima Trindade?
    Abraço, Sílvio

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  3. A nossa Igreja Católica Apostólica Romana, que é sem sombras de dúvidas, a Santa Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, desde a sua fundação no ano 33, sempre acreditou que as Santas Palavras de Jesus Cristo, que não foram escritas nos Santos Evangelhos (cfm Jo 21,25), são Palavras de Deus. Repito: Palavras de Deus! “Por isso é que também nós não cessamos de dar graças a Deus, porque recebestes a palavra de Deus, que de nós ouvistes, e a acolhestes, não como palavra de homens, mas como aquilo que realmente é, como palavra de Deus, que age eficazmente em vós, os fiéis. (I Ts 2,13- Trad. Ave Maria).
    E aí eu pergunto: A Santa Tradição da Igreja, ou melhor, os Santos Ensinamentos que os Apóstolos e Discípulos ouviram do Senhor Jesus e não os escreveram em Evangelhos ou em Epistolas não são Palavras de Deus? Claro que são, “Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa” (II Ts 2, 15).
    Portanto, estas Revelações encontram-se depositadas na Tradição ineterrupta da nossa Santa Igreja de Jesus Cristo, que é Católica, Apostolica e Romana, desde os Apostolos e Discipulos “Ó Timóteo, guarda o bem que te foi confiado!” (I Tm 6,20), até os nossos dias com os Bispos em comunhão com os sucessores do Apostolo Pedro, que foram passadas de geração a geração, “O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros” (II Tm 2,2). E tudo o que for ensinado sobre o Mestre Jesus sem fazer parte desta Tradição, portanto, “Intimamo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido” (II Ts 3, 6).
    São João Evangelista, nas suas escritas sempre fez questão de inaltecer muito bem a Tradição, digo, os ensinamentos (revelações) guardados no seu coração e revelados a viva voz, como ele mesmo escreveu: “Apesar de ter mais coisas que vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar de viva voz, para que a vossa alegria seja perfeita” (II Jo 1, 12).

    Ademais, “Tinha muitas coisas para te escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena. Espero ir ver-te em breve e então falaremos de viva voz” (III Jo 1, 13-14).
    Portanto, toda autoridade dada por Nosso Senhor Jesus Cristo a Sua Santa Igreja Católica, capacitando-a na guarda do tesouro da fé, por todos os séculos dos seculos, é Palavra de Deus. “Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu” (S. Mateus 18, 17-18).

    Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!
    Salve Maria!

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  4. "...Mesmo assim, não é dito explicitamente, em nenhuma parte das Escrituras, que Deus é Trindade, nem que Deus é Um em Três Pessoas coexistentes."
    .
    Exclusivamente à minha pessoa, esta afirmação, em particular, está sendo um pouco difícil de ser absorvida, pois lendo em origem, de tempos, vejo todo um capítulo e um verso dele, em especial, do qual se lê dos três: O Filho e o Espírito, o Santo, na própria posição/igualdade do Pai.
    .
    Em diversas literaturas estrangeiras, em simplicidade, pesquisando, encontra-se testemunho semelhante ao conteúdo em epígrafe.

    Ademais, sinto-me em essa, não a pretensão de ser útil, confirmando o óbvio e logo, sendo agradável, talvez não... E disto escrevendo, o de ser em alguma sombra, afrontoso ao alheio, se em si pensei, agora de coração puro, em pedido de perdão, despeço-me do participar, não ausentando-se, não maculando a agradável leitura proporcionada por este benigno endereço eletrônico.

    Graças a Deus Pai por tudo!

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    1. Forista, o que se coloca aqui é que em nenhuma parte das Sagradas escrituras se diz explicitamente que DEUS é Uno e Trino, PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO. Mas é claro que há diversas passagens das Sagradas Escrituras que nos levam a conclusão que DEUS sim é PAI, FILHO E ESPIRITO SANTO. Porém, tem que fazer um esforço, um estudo sobre a Bíblia a este respeito, além do quem vem da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério da Igreja, que nos ajudam a entender, não por inteiro, pois DEUS sendo infinito, não tem como entender ELE por inteiro, somente JESUS sabia quem era o PAI, e o PAI o FILHO, já que ambos mais o ESPIRITO SANTO, formavam um só DEUS (Lucas 10,22), porém, podemos entender a DEUS no tanto que a razão humana possa entende-lo, e é assim que pelas Sagradas Escrituras + Sagradas Tradição + Sagrado Magistério da Igreja, é que sabemos sobre a SANTISSIMA TRINDADE. Porém fora disto, o que se conhece é pouco, pois como se disse inicialmente, não há nenhuma parte das Sagradas Escrituras que se diz explicitamente que DEUS é Uno e Trino, pois aí temos que ir em passagens por passagens que aludem esta revelação, mais o que diziam os Santos Padres a este respeito e o que o Sagrado Magistério da Igreja sempre ensinou sobre este assunto, para concluirmos e crermos que de fato em DEUS há três pessoas, PAI, FILHO E ESPÍRITO SANTO. Se a Bíblia fosse tão explicita a este respeito, não terá havido a heresia ariana no inicio da Igreja e nos tempos atuais, esta heresia continua existindo nas mais variadas formar e denominações, entre eles a mais conhecida a dos Testemunhas de Jeová.

      Sidnei.

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