“Se eu não fosse Católico…”

Venerável Servo de Deus Fulton Sheen*



SE EU NÃO FOSSE Católico e estivesse procurando a verdadeira Igreja no mundo de hoje, eu iria em busca da única Igreja que não se dá muito bem com o mundo. Em outras palavras, eu procuraria uma Igreja que o mundo odiasse. Minha razão para fazer isso seria que, se Cristo ainda está presente em qualquer uma das igrejas do mundo de hoje, Ele ainda deve ser odiado como o era quando estava na terra, vivendo na carne.

Se você tiver que encontrar Cristo hoje, então procure uma Igreja que não se dá bem com o mundo. Procure por uma Igreja que é odiada pelo mundo como Cristo foi odiado pelo mundo. Procure pela Igreja que é acusada de estar desatualizada com os tempos modernos, como Nosso Senhor foi acusado de ser ignorante e nunca ter aprendido. Procure pela Igreja que os homens de hoje zombam e acusam de ser socialmente inferior, assim como zombaram de Nosso Senhor porque Ele veio de Nazaré. Procure pela Igreja, que é acusada de estar com o diabo, assim como Nosso Senhor foi acusado de estar possuído por Belzebu, príncipe dos demônios .

Procure a Igreja que em tempos de intolerância (contra a sã doutrina,) os homens dizem que deve ser destruída em nome de Deus, do mesmo modo que os que crucificaram Cristo julgavam estar prestando serviço a Deus.

Procure a Igreja que o mundo rejeita porque ela se proclama infalível, pois foi pela mesma razão que Pilatos rejeitou Cristo: por Ele ter se proclamado a si mesmo A VERDADE. Procure a Igreja que é rejeitada pelo mundo assim como Nosso Senhor foi rejeitado pelos homens. Procure a Igreja que em meio às confusões de opiniões conflitantes, seus membros a amam do mesmo modo como amam a Cristo e respeitem a sua voz como a voz do seu Fundador.

E então você começará a suspeitar que se essa Igreja é impopular com o espírito do mundo é porque ela não pertence a esse mundo e uma vez que pertence a outro mundo, ela será infinitamente amada e infinitamente odiada como foi o próprio Cristo. Pois só aquilo que é de origem divina pode ser infinitamente odiado e infinitamente amado. Portanto, essa Igreja é divina.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

Arcebispo Fulton J. Sheen, Radio Replies, Vol. 1, p IX,
Rumble& Charlote: Tan Publishing
– Tradução: Gercione Lima
_________
* Aos 6 de março de 2014, o conselho de especialistas médicos que assessorou a Congregação para as Causas dos Santos aprovou unanimemente um milagre relatado, atribuído à sua intercessão. Aos 17 de junho de 2014, a Comissão teológica (de sete membros) que aconselha a Congregação concordou unanimemente com a descoberta da equipe médica.
www.ofielcatolico.com.br

Estado católico

O batismo de Clóvis, rei dos francos, por François Louis Dejuinne

Por Guilherme Freire

O ESTADO PODE ser católico de dois modos. O Estado pode ser católico de “baixo para cima”, que é quando as pessoas são católicas ou admiram o catolicismo e, organicamente, a organização pública vai se conformando com o espírito das pessoas, isto é, dos cidadãos. Isto pode ocorrer, por assim dizer, de modo "natural" e progressivo, mesmo que não seja em um Estado democrático. Sendo este um caso em que os leigos simplesmente cumprem o seu papel, os sacerdotes não precisam assumir funções administrativas. 

O Estado pode também ser católico de “cima para baixo”: isso se dá quando há uma imposição e uma violação da liberdade das pessoas, e nesse caso elas, coagidas, podem vir a desenvolver mais ódio do que admiração pelo catolicismo. A tendência deste segundo tipo é o aumento dos católicos por conveniência e o fortalecimento de um Estado artificial. 

Os dois modelos se encontram na História, quase sempre misturados. A conversão de Clóvis é um exemplo do primeiro. Frederico II do Sacro Império é um exemplo do segundo. A conversão de Constantino se deu pelo esforço de evangelização; já o mesmo Constantino querer dar palpite em concílio da Igreja é um exemplo do segundo.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

Ave Maria – uma introdução à Mariologia


A ORAÇÃO CRISTÃ só pode chegar até Deus no caminho que Ele próprio preparou. Do contrário, ela sairia do mundo em direção ao vazio, e cairia na tentação de tomar esse vazio por Deus, ou tomaria por Deus o próprio Nada. Deus não é um objeto mundano, mas não é, tampouco, um objeto supra-mundano que pode ser perseguido e conquistado em alguma espécie de viagem espacial do espírito, após uma preparação técnica adequada. Ele é a Liberdade infinita, que se torna acessível unicamente por sua própria iniciativa. Na medida em que Ele não apenas nos dirige sua Palavra, mas permite que ela habite entre nós, essa Palavra passa a ser não apenas a Palavra que vem de Deus, mas também aquela que a Ele retorna. O atalho entre Deus e nós, homens, foi aberto nas duas direções: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; “Eu vim como luz ao mundo; assim, todo aquele que crer em mim, não ficará nas trevas” (Jo 14,6; 12,46).

Mas de que modo chegou até nós o “Caminho”? Como a “Luz” nos invadiu e a “Palavra” habitou entre nós? Pois isso teria de acontecer, para que pudéssemos nos estabelecer em um caminho para Deus acessível aos homens. Se assim não fosse, a Luz teria apenas brilhado nas trevas e estas não a teriam percebido; a Luz teria vindo sobre o que é seu – pois o mundo, com efeito, pertence a Deus –, mas os seus não a teriam acolhido. Alguém teria de acolher a Palavra incondicionalmente, e de um modo tão pleno que nela se abrisse um espaço para que a própria Palavra se tornasse um homem, da mesma forma que um filho encontra espaço em uma mãe.

Essa mãe, que se abre e se oferece totalmente à Palavra de Deus, não somos nós: nenhum de nós diz a Deus o “Sim” incondicional. Por isso, o “sim” perfeito nos é, a priori, inatingível. E, no entanto, ele é uma das condições exigidas para que a Palavra de Deus realmente chegue até nós e se torne o Caminho que pode ser percorrido por nós, homens. Em um coração que se decidisse por Deus apenas pela metade, Ele não teria conseguido se fazer carne, pois o filho é essencialmente dependente da sua mãe; ele se nutre de sua substância físico-espiritual e é educado a se tornar um verdadeiro e fecundo ser humano. A precedência da Mãe, que faz parte do estabelecimento do Caminho entre Deus e nós, não significa o seu isolamento, mas a abertura da possibilidade de que também nós nos tornemos capazes de dizer “sim”, de que a Palavra também chegue até nós, e de que nós, nEla, cheguemos a Deus. “Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!” “Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,27-28). “Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3,35).

A permanente precedência de Maria é o fundamento da nossa participação. A comunidade, que une Deus e a humanidade nela, Maria, na medida em que Ele se torna um filho humano, é a base de uma comunidade que nos une entre nós, enquanto filhos de Deus, e que chamamos de Igreja. A Mãe é a premissa perene, a fonte, a plena realização da Igreja, da qual podemos participar – se assim o desejarmos – como aqueles que estão a caminho do “sim” pleno, e de seu enraizamento em toda a nossa existência. Sendo assim, nós, os incompletos, podemos e devemos dizer àquela que já está completa, e que nos conduz e atrai para a sua completude: Ave Maria. Não, porém, como se a separássemos do seu Filho: ela é apenas a resposta [Antwort]; Ele é a Palavra [Wort].

O evento entre o Filho e a Mãe constitui o centro do evento da redenção, que não pode jamais perder seu caráter de atualidade, uma vez que a autorrevelação graciosa de Deus acontece sempre aqui e agora, seu fluxo jamais se afasta da fonte. Quem quiser participar, tem de mergulhar nessa fonte, no seu inesgotável mistério, de que a Palavra de Deus tenha realmente se mostrado a nós, que ela realmente tenha sido recebida entre nós e entre nós habitado, e que ela não tenha voltado para Deus sozinha, mas junto conosco. O que isso significa nós podemos vislumbrar no relacionamento entre essa Criança e essa Mãe. Ela se coloca inteiramente à disposição da Palavra, para que esta possa se fazer carne a partir dela, carne da sua carne. Porém, na medida em que essa Criança cresce, e entrega sua carne divina para a reconciliação do mundo com Deus, oferecendo-se como alimento eucarístico para todos os que recebem a Palavra na fé, ela atrai aquele que a recebe para sua própria carne, em primeiro lugar sua Mãe, modelo e origem da Igreja. Ambos, Cristo e Maria-Igreja, são, portanto, “uma só carne”, um “Corpo”, em um acontecimento pleno de reciprocidade: primeiramente, é Cristo quem recebe a carne terrena de Maria, e, em seguida, é Maria-Igreja quem se torna participante de sua carne celestial. Maria é a “Bendita entre as mulheres” apenas porque, enquanto Mãe, coloca sua carne à disposição da encarnação da Palavra, mas isso é apenas o prelúdio para aquilo que vem a seguir, “Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”, que produziu a resposta da carne terrena, a resposta de Maria-Igreja, e continua a produzi-la na Eucaristia; também de nossa parte, os membros do Corpo, que, de acordo com a pureza e plenitude do nosso “sim”, podemos também nos tornar seus membros fecundos, tornado-nos um colo acolhedor.

Podemos, então, juntamente com o anjo enviado por Deus, saudar Maria e, em seguida, com Isabel, bendizê-la, pois “Deus está com ela”; com isso, podemos rezar junto com a própria Maria, em sua resposta à Palavra divina, em seu “Sim”, não mais nos dirigindo a ela, mas, com ela, a Deus. A “Ave-Maria” é um exercício e uma integração na oração mariana/eclesial. Mesmo a oração litúrgica oficial da Igreja – aberta ou veladamente, consciente ou inconscientemente – é sempre oração mariana. Apesar disso, aqui embaixo jamais atingimos a perfeição de Maria – enquanto condição constitutiva para o Caminho, que é Cristo, ela não é apenas exemplo, mas o protótipo original. Por isso, podemos sempre pedir sua intercessão: “agora e na hora de nossa morte”, ou seja, em cada momento da nossa vida, durante a qual permanecemos tentando sem jamais chegar ao êxito pleno, e naquela hora em que somos, forçadamente, levados ao caminho de Deus, àquela passagem amarga e abençoada em que nós, pelo bem ou pelo mal, “como que através do fogo”, teremos de aprender o “sim” perfeito. Nós vivemos para essa hora, para ela exercitamos nossa fé. E se Maria não exercitou o seu “sim”, senão como orante, muito menos ainda seremos nós capazes de realizar o nosso “sim” com as nossas próprias forças, mas teremos de nos remeter, agradecidos, a ela, que pôde verdadeiramente realizá-lo. É por essa razão que se pode sempre, após o final da saudação – “agora e na hora de nossa morte, amém” –, recomeçar imediatamente, desde o início – “Ave, Maria”.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

______
Ave Maria, introdução do livro 'A Tríplice Coroa', de Hans Urs von Balthasar. 

www.ofielcatolico.com.br

A Bíblia é infalível? Sobre a inerrância das Sagradas Escrituras


O CONCEITO DE INSPIRAÇÃO divina das Sagradas Escrituras implica na inerrância bíblica – uma expressão muito querida pelos protestantes – ou, em outras palavras, em sua infalibilidade. Sim, nós, católicos, cremos que a Bíblia é infalível por ter sido produzida sob inspiração divina. Todavia, como em tudo, devemos compreender bem o significado e a extensão dessa infalibilidade. Faz-se muita confusão nesta área, especialmente da parte daqueles que elevam o Livro Sagrado à categoria de "única regra de fé e prática".

Neste mundo e nesta realidade em que agora vivemos, todas as coisas possuem seus limites próprios: mesmo as ferramentas de que dispomos para buscar a aproximação de Deus têm suas funções bem definidas e também suas limitações. Não é diferente nem mesmo para a Bíblia.

Precisamos conviver com aqueles que enxergam na Bíblia uma espécie de manual completo para a vida em todas as suas dimensões, inclusive para as ciências naturais, para a Medicina, a História, a Arqueologia, a Astronomia, etc, etc., e que a partir daí acabam por adotar uma visão de vida e de mundo extremamente limitante, que conhecemos bem ('se está na Bíblia, existe, vale, pode; se não está na Bíblia, não existe, não vale, não pode).

Por outro lado, não poucas vezes, nos defrontamos também com pessoas que querem “provar” a todo custo que a Bíblia está cheia de erros, que é incoerente e falha, que não há harmonia entre seus vários livros, que cai diversas vezes em contradição e tem muitas passagens mitológicas. Citamos abaixo apenas alguns exemplos de ótimas perguntas sem resposta satisfatória:

* Ao abandonar seus pais, com quem Caim se casou, já que não haviam outras pessoas no mundo e, logo, não haviam mulheres filhas de Adão e Eva? (Gn 4,17);

** O Segundo Livro de Samuel, no seu cap. 24, diz que em determinado período haviam 800 mil e 500 mil soldados em Israel e Judá, respectivamente; no Primeiro livro de Crônicas, no seu cap. 21 está escrito que eram 800 mil e 500 mil, respectivamente. Qual dos dois está correto? Mais: se um está correto, o outro necessariamente está errado; isso significa que a Bíblia contém uma falha de precisão histórica?

*** Em seu capítulo 27 (vs. 9), S. Mateus atribui ao profeta Jeremias uma profecia que, no AT, é de Zacarias;

**** Judas se suicidou por enforcamento segundo S. Mateus (27,5), mas no Livro dos Atos dos Apóstolos está escrito que ele saltou em um precipício (1,18). Qual dos dois está correto? Se um está correto, o outro necessariamente está errado; a Bíblia, então, contém falhas?

Existem muitos outros exemplos semelhantes a esses, e temos verdadeiros compêndios ateus sobre imprecisões históricas e falhas de concordância entre livros da Bíblia.

Tais argumentos fazem aparecer, em oposição, pessoas que se consideram especialmente “iluminadas” e que, crendo cegamente numa literal infalibilidade da Bíblia, esforçam-se para encontrar respostas para todas essas perguntas inúteis, e acabam defendendo teses por vezes ridículas, como a de que Judas se enforcou numa árvore próxima de um abismo, tendo caído neste quando a corda se rompeu... Bem, basta um pouco de imaginação para encontrar resposta para tudo. Ou quase tudo.

Da mesma forma, Galileu Galilei em sua época teve problemas e foi perseguido por fundamentalistas por defender que a Terra girava em torno do Sol e não o contrário, como todos até então acreditavam. Ocorre que a afirmação parecia contradizer a passagem do Livro de Josué que afirma que o Sol parou no céu por ordem do líder hebreu (10,12-13).

Vemos, assim, que tais discussões são simplesmente inúteis e, antes de tudo, despropositadas. Tudo por causa de um conceito equivocado da inerrância ou infalibilidade da Bíblia. E qual é, então, o verdadeiro sentido desse conceito?

É o de que a Bíblia é um livro de fé e não um livro de ciências ou de História. As Sagradas Escrituras são, sim, infalíveis para as doutrinas da verdadeira Religião, mas não para as ciências humanas, simplesmente porque não é essa a sua função nem é essa a sua finalidade.

A linguagem da Bíblia Sagrada é espiritual, e as respostas que nos dá para as questões do espírito são assombrosamente precisas em tudo o que tange à nossa vida espiritual. Na santa Bíblia temos o cerne da Revelação divina por escrito; por isso, juntamente com a Sagrada Tradição apostólica e a condução do Magistério da Igreja, forma o tripé da nossa fé. Neste sentido, é, sim, por excelência o manual de nossa vida espiritual. Mas não é na Bíblia que devemos procurar as respostas para as questões científicas – ainda que mesmo nesse campo ela possa nos dar certas pistas.

Deus Criador e Todo-Poderoso, quando inspirou os homens que escreveram a Bíblia, quis se fazer entender pela humanidade e, para isso, comunicou as verdades da fé usando, claro, a linguagem humana. Em certos trechos, vemos claramente a influência das características idiomáticas e linguísticas simples da época, além da forte influência da cultura em que certos textos foram produzidos. Claro, os conhecimentos científicos dos tempos bíblicos eram ainda bastante limitados. Não haveria como ser diferente: se Nosso Senhor Jesus Cristo falasse, por exemplo, de super computadores, viagens espaciais, TV por fibra ótica ou tratasse de física quântica, astronomia e genética em suas parábolas, Ele seria entendido por aquele povo? Haveria como os Apóstolos pregarem usando referências a realidades desconhecidas do seu tempo? O Cristianismo existiria hoje, se não tivesse sido transmitido por meio de imagens e analogias simples e fáceis de entender?

Para nós, que cremos em Deus, não interessa uma descrição minuciosa e científica da Criação, como saber se no princípio foi realmente criado somente um único casal de cada espécie ou se a linguagem veterotestamentária sobre tais questões está baseada mais em simbologias, analogias e metáforas do que numa descrição factual dos primeiros acontecimentos. O que nos interessa mais e verdadeiramente é saber que Deus criou o Universo e tudo o que contém; interessa-nos saber que Deus nos ama, apesar de a humanidade ter pecado contra Ele (pouco importando se foi porque comemos do fruto de uma árvore, literalmente falando, ou se essa foi a analogia encontrada pelo autor sagrado, divinamente inspirado, para dizer que desobedecemos a Deus e nos colocamos contra a sua Vontade). Devemos saber, isto sim, que, por amor, Deus nos mandou seu Filho único, verdadeiro e mesmo Deus feito homem, que nos libertou do pecado e da morte e nos alcançou a salvação.

Concluímos afirmando que a Bíblia é, portanto, infalível nos assuntos de fé, como sempre foi e sempre será, mas não deve ser tomada como manual científico, da mesma forma como as ciências humanas também não devem se intrometer nos assuntos de fé, para os quais permanece incompetente.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

______
** Adaptado de 'A Bíblia é infalível?', do apostolado Veritatis Splendor disp em:
https://www.veritatis.com.br/a-biblia-e-infalivel/
Acesso 17/5/2018
www.ofielcatolico.com.br

O jovem de caráter


Por Tihamer Toth, bispo e professor

O QUE É O CARÁTER? E o que queremos dizer quando falamos a alguém “Ali está um bom caráter”? 

A palavra caráter designa a vontade humana fixada no bem; e um jovem é um bom caráter se tem nobres princípios e se em nada os sacrifica, ainda quando tal constância lhe impõe renúncias. Aquele que, ao contrário, muda de princípios conforme as circunstâncias, a sociedade ou os amigos, que abandona um modo de agir até aqui reconhecido como bom, sob o pretexto que ele não lhe deve causar o menor desagrado, esse é volúvel e pouco seguro, tem caráter fraco, ou, pior ainda, falta-lhe inteiramente caráter.

Isto basta já para mostrar em que consiste a educação do caráter. Primeiro, cumpra-se procurar nobres princípios; em seguida, por um exercício contínuo, urge que se acostume a agir segundo esses princípios, em todas as circunstâncias. A vida moral de um homem sem princípios é tão agitada quanto uma pequena cana surpreendida pela tempestade. Ela faz hoje de um modo e amanhã de outro. A primeira necessidade é, pois, formar em nós princípios firmes, e a segunda é adquirir a força de que precisamos para seguir, sem tropeços, o caminho que tivermos reconhecido como direito.

Repito: a sua primeira tarefa é formar em si princípios justos. Ora, qual é o princípio justo no tocante aos estudos, por exemplo? “Devo estudar com aplicação constante, pois Deus quer que eu cultive os talentos que ele me deu”. Qual é o princípio justo a respeito dos colegas? “Devo fazer a eles o que eu quereria que eles fizessem a mim”. E assim por diante. Cumpre que tenha princípios justos em todas as coisas.

A segunda tarefa é muito mais difícil: seguir esses exatos princípios, isto é, exercitar-se no caminho do caráter.

Um belo caráter não se recebe de presente: nós o fazemos por um labor sólido e contínuo, trabalhando nisso durante longos anos, dezenas de anos muitas vezes. A influência do círculo de relações, as inclinações boas ou más recebidas de herança, podem produzir certa impressão no nosso caráter, mas, afinal de contas, o nosso caráter é obra pessoal nossa, é resultado do nosso trabalho de educação de nós mesmos. Por isso, é uma dupla educação a que recebemos: a primeira nos é dada por nossos pais e pela escola; a segunda, a mais importante, nos vem dos nossos próprios esforços.

Sabe o que é a educação? É a influência da nossa vontade que nos leva pelo bom caminho, em qualquer situação, sem hesitar, com alegria.

Sabe o que é o caráter? É agir em conformidade com os princípios fundamentais; é o esforço empenhado de nossa alma na realização da nobre concepção que fazemos da vida.

Já pode concluir que, nessa educação de si, o difícil não é a formação do justo princípio vital, porém o esforço que se deve fazer dia a dia para se conformar com ele. “Isto é o meu princípio, e não o abandonarei; ser-lhe-ei fiel, custe o que custar”. E é preciso dizer que isso exige, não raro, muitos sacrifícios; e aí está a razão por que se encontram tão poucos caracteres no mundo.

“Permanecer sempre fiel a seus princípios”, “nunca se divorciar da verdade”. Quem é que não se entusiasmaria por estes belos pensamentos? Ah! Se não fosse tão difícil converter esses pensamentos em ações! Se esses belos intentos não se desvanecessem em nós tão facilmente, sob o influxo contrário da sociedade, dos amigos, da moda, do nosso próprio “eu” que não gosta de ser continuamente molestado!


Faça você mesmo a sua educação

Formar nossa alma à imagem que Deus quis em nós, eis a obra sublime a que chamamos educação de nós mesmos. Esse trabalho, meu filho, ninguém pode fazê-lo por você; deve ser executado pessoalmente por todo homem. Os outros podem lhe dar conselhos, indicar o caminho exato; mas você é que deve sentir a necessidade de fazer avultar em sua alma a magnífica imagem que Deus ocultou nela, você é que deve sentir o desejo de ser nobre, forte e puro. Deve conhecer-se a si mesmo, saber o que sua alma tem de nocivo e o que lhe falta de bem. Deve fazer você mesmo essa educação da sua alma, sabendo, muito embora, que o êxito lhe custará muitos esforços, abnegação e domínio de si. Será preciso que se recuse com frequência àquilo que tanto quereria fazer, que faça também muitas vezes o que não é de seu gosto. Acima de tudo, precisará fechar os lábios e erguer corajosamente a cabeça para ficar firme, mesmo se as suas boas intenções viessem a fracassar repetidamente. Desses esforços depende a formação do seu caráter, depende toda a sua vida.

“Semeai um pensamento, ele produzirá um desejo: semeai um desejo, ele produzirá uma ação; semeai a ação, ela produzirá o hábito; semeai o hábito, ele produzirá o caráter; semeai o caráter, ele produzirá a vossa sorte”.

A sua sorte, como vê, é tecida afinal de contas por esses pensamentos e ações, que julgava sem importância.

Hora a hora, volva seu olhar para a virtude com amor e respeito; não deixe escapar nem uma ocasião sequer de fazer o bem; e, se isso contrariar às vezes o seu desejo ou proveito, treine a sua vontade para triunfar. É assim que o seu caráter se tornará apto a realizar grandes coisas e trabalhar para o presente tanto quanto para o futuro. É assim que será amado e honrado por seus contemporâneos.”
F. Kolcsey

Mas cumpre também que levemos a nossa vontade até confundir-se com a Vontade de Deus. A escola mais sublime do caráter é alcançar dizer do fundo do coração: “Senhor, seja feita a vossa vontade, e não a minha!”.

A melhor forma da educação de si próprio é nos perguntarmos tão frequente quanto possível, após as nossas ações, palavras e mesmo pensamentos: “Senhor, foi mesmo vossa vontade o que eu disse ou fiz? Vós quisestes realmente que eu dissesse ou fizesse assim?”.

E é já que urge começar essa educação do seu caráter, meu filho; agora, durante os anos da sua juventude. Se esperar para quando chegar a idade madura, será tarde demais. O caráter não se desenvolve no turbilhão da vida. Pelo contrário, aquele que mergulha na agitação do mundo sem um caráter firme, perde facilmente o exíguo caráter que trazia.


Vontade forte!

Sabe agora, filho, de quem é que podemos dizer “Eis um belo caráter”. De ninguém senão do jovem que tem princípios nobres, ideal bem alto, e que sabe permanecer fiel a eles. Sim, fiel àquilo que ele reconhece ser a verdade, mesmo se ninguém mais o aceita, mesmo se todos ao redor, sobre esse ponto, são descuidados e relaxados.

Fiel, apesar de mil exemplos contrários, fiel em todas as circunstâncias! Mas, ai! Como isso é difícil e penoso às vezes!

Quando meninos maus se divertem por cerca de meia-hora irritando um colega um pouco desajeitado, e este, como pobre carneirinho perseguido por cães de raça, implora socorro, em vão, com olhar suplicante; se você desviar brandamente a atenção desses garotos para fazê-los cessar a sua crueldade, isto é bondade, coragem, fidelidade aos princípios! Uma vontade forte!

Quando estudantes mais ou menos céticos, gracejando grosseiramente, põem-se a zombar das verdades mais sagradas da religião e tentam arruinar os ensinamentos do sacerdote com “argumentos” tirados de velhos livros achados não sei onde; elevar a voz em favor da verdade ultrajada, denunciar claramente os erros e sofismas desses “argumentos”, e isso sem medo, embora sem magoar ninguém: eis um caráter heroico! Uma vontade forte!

Quando você ouve os risos descuidosos dos seus camaradas pela janela aberta, dando-lhe vontade de mandar às favas o cansativo problema de álgebra que deve concluir antes de se divertir com os outros; ficar fiel ao dever, dizer a si mesmo “não” pura e simplesmente; é ainda prova de um caráter firme, de uma vontade forte.

No decurso das perseguições sangrentas dos primeiros séculos do cristianismo, um pobre camponês foi aprisionado e conduzido ante a estátua de Júpiter.

“Derrame incenso no fogo e faça sacrifício aos nossos deuses!”, ordenaram-lhe. “Não!”, responde ele simplesmente. Começam a torturá-lo: ele não vacila. Levantam-lhe o braço de modo que a mão chegue exatamente por cima da chama, e põem incenso dentro dela. “Derrame o incenso e estará livre!”. “Não!”, responde ainda Barlaão. E lá fica, imóvel, com o braço estendido. A chama se ergue, começa a lamber a mão dele. O incenso já fumega, mas o herói continua imóvel. A mão é queimada com o incenso, porém Barlaão prefere o martírio à negação do seu Deus. Uma vontade forte!

Meu caro jovem, como hoje em dia há, entre nós, poucos desses caracteres de mártires!

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

____
Fonte:
TOTH, Tihamer. O jovem de caráter, São Paulo: Molokai, 2018, cap. 2.

www.ofielcatolico.com.br

Ciência encontra mais de 1.500 diferenças genéticas entre homens e mulheres

Como se fosse preciso, surgem agora as pesquisas mais recentes da ciência genética com mais provas irrefutáveis de que a dita ideologia de gênero não passa, definitivamente, disso mesmo: mais uma ideologia totalmente alienada da simples e demonstrável realidade objetiva dos fatos.

Por Pete Baklinski para o LifeSite News




CIENTISTAS DESCOBRIRAM 1.559 diferenças genéticas entre machos e fêmeas, relacionadas não apenas aos órgãos sexuais, mas com órgãos como cérebro, pele(!) e coração.

“No geral, os genes específicos do sexo são expressos principalmente no sistema reprodutivo, enfatizando a notável distinção fisiológica entre homens e mulheres”, descobriram os cientistas. “No entanto, dezenas de genes que não se associam diretamente com a reprodução também foram encontrados na formação da expressão específica do sexo (por exemplo, os genes da pele dos homens)”, acrescentaram.

As descobertas sugerem que há muito mais envolvido na ideia de "mudar de sexo" do que simplesmente cirurgia e tratamento hormonal.

“Nossos resultados podem facilitar a compreensão de diversas características biológicas no contexto dos sexos [masculino e feminino]”, afirmaram os pesquisadores em sua conclusão.

O estudo, intitulado "A paisagem do transcriptoma sexual-diferencial e sua consequente seleção em adultos humanos"[1], foi publicado na BMC Biology no início deste ano.

No estudo, os pesquisadores Moran Gershoni e Shmuel Pietrokovski, do Departamento de Genética Molecular do Instituto Weizmann de Ciência, mapearam milhares de genes – os bancos de dados biológicos de todas as informações que tornam cada pessoa única – de 53 tecidos semelhantes a machos e fêmeas, como pele, músculos e cérebro.

O estudo foi conduzido para examinar até que ponto os genes determinam como certas doenças visam machos e fêmeas de forma diferente.

“Homens e mulheres diferem de maneiras óbvias e menos óbvias – por exemplo, na prevalência de certas doenças ou reações a drogas. Como estas estão ligadas ao sexo? Os pesquisadores descobriram recentemente milhares de genes humanos que são expressos – copiados para produzir proteínas – de forma diferente nos dois sexos ”, afirma relatório do Instituto Weizmann sobre as descobertas.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

____
1. GERSHONI, Moran & PIETROKOVSKI, Shmuel. The landscape of sex-differential transcriptome and its consequent selection in human adults, para a BMC Biology, disp. em:
https://bmcbiol.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12915-017-0352-z
____
Fonte:

https://www.lifesitenews.com/news/researchers-find-over-1500-genes-that-make-men-and-women-different
www.ofielcatolico.com.br

A eterna frustração do homem


O Venerável arcebispo Fulton John Sheen (8 de maio de 1895 – 9 de dezembro de 1979), se vivesse hoje, certamente seria chamado pelos jovens católicos de “mito”... Ele foi, poderíamos dizer, uma espécie de “Padre Paulo Ricardo norte-americano” (porém livre das lutas e dificuldades impostas a este em nossos tempos de crise na Igreja), isto é, um sacerdote fiel à Tradição e também um grande comunicador. Teve a felicidade de exercer a maior parte do seu ministério no período dito “pré-conciliar”, quando as coisas eram mais claras e a mesma Sã Doutrina era igualmente ensinada por todos os bispos, no mundo inteiro.

O artigo abaixo é o primeiro capítulo de um de seus 70 livros publicados, intitulado “Peace of Soul” (‘A Paz da Alma’, republicado pela Molokai em 2017, com revisão e projeto gráfico de Henrique Sebastião), que trata de psicologia e psicanálise, e da incapacidade do mundo moderno em as angústias de milhões que vivem atormentados por conflitos internos e frustrações sem fim, em uma sociedade dominada pela degradação moral e em que imperam as ideologias materialistas. Tenha uma proveitosa leitura!



SE AS ALMAS não forem salvas, nada se salvará. Não poderá haver paz no mundo se não houver paz na alma, em cada alma. As guerras mundiais não passam de projeções dos conflitos travados dentro das almas dos homens modernos, pois nada acontece no mundo exterior que não tenha primeiro acontecido dentro de uma alma.

Durante a Segunda Guerra Mundial, disse Pio XII que o homem do pós-guerra ficaria mais mudado do que o mapa da Europa do pós-guerra. É esse desiludido homem do pós-guerra –, ou a alma moderna –, que nos interessa neste estudo.

Ele se mostra, como o Santo Padre predisse, diferente dos homens de épocas mais remotas. E essa diferença está em que a silma moderna não mais procura descobrir Deus na natureza. Em outras gerações, o homem, contemplando toda a vastidão da criação, si beleza do firmamento e a ordem dos planetas, disso deduzia o poder, a beleza e a sabedoria do Deus que criou e manteve esse mundo. Infelizmente, porém, o homem moderno está impedido dessa aproximação por vários obstáculos, Mostra-se muito menos impressionado pela ordem da natureza do que pela desordem de seu próprio pensamento, tornado sua principal preocupação. A bomba utópica destruiu seu temor de uma natureza que o homem pode sora manipular, tanto para destruir outros homens, quanto para someter o suicídio cósmico. E, finalmente, a ciência da natureza é demasiado impessoal para esta era concentrada em si mesma. A antiga aproximação não só torna o homem mero espectador da realidade, em vez de seu criador, mas também exige que a personalidade do buscador da verdade não se intrometa a si mesma sua investigação. Mas é a personalidade humana e não a natureza que realmente interessa e perturba os homens de hoje.

Esta mudança em nossos tempos não significa que a alma moderna tenha abandonado a busca de Deus, mas que abandonou o mais racional – e mesmo o mais normal— caminho de descobri-Lo. Não a ordem no cosmos, masa desordem em si mesma; não as coisas visíveis do mundo, mas as desilusões invisíveis, os complexos e ansiedades de Sua própria personalidade; eis o ponto de partida do homem moderno, quando se volta interrogativamente para a religião. Em dias mais felizes, os filósofos discutiam o problema do homem; agora discutem o homem como um problema.

Em virtude de seu ceticismo, o homem moderno foi repelido sobre si mesmo. Suas energias correm para sua fonte e fazem vir à tona aqueles conteúdos psíquicos que ali estão permanentemente, mas jazem ocultos na vasa, enquanto a corrente flui mansamente no seu curso. Quão totalmente diverso aparecia o mundo ao homem medieval! Para ele, a Terra estava eternamente fixa e em repouso no centro do Universo, cercada pela trajetória de um sol que lhe dispensava com solicitude seu calor. Os homens eram todos filhos de Deus, sob o cuidado amoroso do Mais Alto, que os preparava para a eterna bem-aventurança. E todos Sabiam exatamente o que deveriam fazer e como deveriam conduzir-se, a fim de erguer-se dum mundo corruptível a uma vida incorruptível e jubilosa. Vida semelhante não mais nos parece real, mesmo em nossos sonhos. A ciência natural de há muito que estraçalhou esse formoso véu. Essa era se acha tão distanciada no passado como a meninice, quando o pai da gente era inquestionavelmente o homem mais belo e mais forte da Terra.[1]

Antigamente, Vivia o homem em um universo tridimensional onde, de uma Terra que ele habitava com seus vizinhos, avistava acima o céu e abaixo o inferno. Esquecendo Deus, a visão do homem ficou ultimamente reduzida a uma só dimensão. Acha agora que sua atividade esteja limitada à superfície da Terra: um plano sobre o qual se move, não subindo para Deus ou descendo para Satanás, mas somente para a direita ou para a esquerda. A velha divisão teológica dos que se acham no estado de graça e dos que não estão deu lugar à separação política entre direitistas e esquerdistas. A alma moderna limitou definitivamente seus horizontes. Tendo negado os destinos eternos, chegou a perder até sua confiança na natureza, pois a natureza sem Deus é traidora.

Para onde pode ir a alma, agora que um bloco de pedra foi lançado contra todas as saídas exteriores? Como uma cidade, cujos baluartes externos foram todos tomados, deve o homem retirar-se para dentro de si mesmo. Assim como uma massa líquida bloqueada se volta sobre si mesma, juntando espuma, resíduos e lama, da mesma maneira a alma moderna (que não tenha nenhum dos objetivos ou canais do cristão) se dobra sobre si mesma e, nessa condição de obstruída, recolhe todo o sedimento sub-racional, instintivo, negro e inconsciente que nunca se teria acumulado, se não tivessem sido fechadas as saídas normais dos tempos normais. O homem descobre agora que está encarcerado dentro de si mesmo, que é seu próprio prisioneiro. Encarcerado por si mesmo, tenta agora compensar a perda do universo tridimensional da fé, descobrindo três novas dimensões dentro de seu próprio pensamento. Acima do seu ego, seu nível consciente, descobre ele, em lugar do céu, um tirano inexorável a quem chama de superego. Abaixo de sua consciência, em lugar do inferno, aceita ele um mundo oculto de instintos e solicitações, desejos primitivos e necessidades biológicas, a que chama de id.

Essa concepção da pessoa humana, composta de três camadas ou regiões, foi posta em relevo por Sigmund Freud. Forma um elemento essencial na doutrina psicanalítica da natureza humana.

O traço mais importante dessa doutrina é a crença de que a vida mental consciente do homem, suas experiências e sua conduta São determinadas, não pelo que ele conhece, sente ou pretende, mas por forças em grande parte ocultas à sua percepção. Seu ego ou percepção interna é apenas o campo de batalha onde se trava uma guerra incessante entre suas necessidades biológicas e primitivas e os poderes corporificados no superego. Esses poderes tomam o lugar da consciência e se originam, não do conhecimento de uma lei natural e de uma obrigação do homem diante da lei divina, mas da pressão social, das influências ambientais postas a pesar sobre a mente plástica da criancinha. Uma vez que a satisfação das necessidades primitivas se acha colocada sob o mando da sociedade (como no uso de trajes), tornam-se elas “frustradas”. Seus objetivos originais não podem permanecer na nossa consciência por causa do seu intolerável conflito com os padrões do meio ambiente e por isso se tornam “recalcados”. De modo que a criança se assenhoreia de todas as leis, pontos de vista e valores do mundo adulto, quando aceita esses padrões como próprios. Faz isso identificando-se com a pessoa a quem veria como um antagonista em uma Sociedade primitiva. Assim, o superego se ergue e adquire seu conteúdo - as leis, tabus e ideais que sucedem ser os do mundo que cerca a criança.

De acordo com tal moderna concepção da vida subjetiva, aparece o homem como um escravo dentro de seu próprio pensamento e como uma vítima de forças que não pode reconhecer. Para libertar-se, se for isso possível, deve conhecer ainda mais a sua prisão.É essa uma das razões da grande popularidade de que goza hoje a psiquiatria. Esta ciência promete explicar o homem a si mesmo, capacitá-lo a ajustar-se melhor com sua trágica situação. Certo tipo de psiquiatria tenta explicar o homem por meio de uma teoria que afirma ser o consciente destituído de valor e somente graças ao inconsciente poderá ter o homem moderno a esperança de descobrir um meio de evadir-se de sua infelicidade. Segundo essa crença, o consciente é ao mesmo tempo impelido de baixo pelo id e comprimido de cima pela pressão do superego. O homem consciente fica assim desamparado entre eles. A psiquiatria tornar-se então uma espécie de lima de ferro, por meio da qual espera evadir-se dessa prisão mental onde ele próprio se aferrolhou, agindo como carcereiro de si mesmo.

Esta teoria psicanalítica vê a explicação de toda a conduta humana enterrada dentro das mentes dos homens individuais. Mas o paralelo entre as modernas teorias do mundo interior e do mundo exterior é chocante. Ambos os sistemas de pensamento exaltam a tensão e a possibilidade de uma explosão. O profeta de um é Marx, cuja filosofia tem como centro o conflito social; o profeta do outro é Freud, cujo principal interesse gira em torno dos conflitos individuais. Em ambas as concepções, afirma-se que o estado caótico e desgraçado dos negócios humanos se origina da tensão entre a aparência superficial de um lado e do outro as forças ocultas, negras e irracionais que, embora desconhecidas, são as verdadeiras determinantes de tudo o que acontece. Assim como no marxismo a condição manifesta social, política e cultural é apenas uma “superestrutura”, construída sobre as forças econômicas subjacentes, da mesma maneira no sistema de Freud a conduta consciente é apenas um produto de forças localizadas no inconsciente. “Em ambos, as situações humanas são Vistas em termos de interesses antagônicos. A psicologia de Freud analisou neuroses como resultados de um choque dialético entre o desejo e a lei. Ao mesmo tempo que lida Freud com contradições dentro dos processos psíquicos, seu método para explicar essas contradições segue uma estratégia materialista” [2].

Quando o conflito entre as forças inconscientes e o ego consciente atinge certa intensidade, o efeito, segundo Freud, é a comoção violenta, seguida de uma ruptura da vida e da conduta. Para Marx, de maneira análoga, a paz social se rompe quando o proletariado se levanta e isto ocorrerá quando as forças econômicas de baixo forem bastante fortes para derrubar a ordem social, política e econômica existente. Freud e Marx concordam ainda em que todos os acontecimentos, sociais e pessoais, são estritamente determinados. A liberdade espiritual é por ambos negada. O marxismo sustenta que a história é determinada pelas forças econômicas; o freudista, que o destino pessoal do homem depende de suas forças instintivas. Ambos encaram a abolição das inibições como o meio de atingir uma melhor condição de negócios. A própria existência deste paralelismo de pensamento indica como o homem moderno compreende ou não a si mesmo, dentro do “clima” geral cultural, intelectual e filosófico da época. O materialismo histórico, a filosofia de Marx, e o materialismo psicológico, a filosofia de Freud, são filhos da mesma era e exprimem as mesmas atitudes básicas.

Os complexos, ansiedades e temores da alma moderna não existiam com tal extensão em gerações anteriores, porque foram arrancados e integrados no grande organismo socioespiritual da Civilização Cristã. Formam, porém, tamanha parte do homem moderno que se pensaria estarem tatuados nele. Qualquer que seja a Sua condição, deve o homem moderno ser reconduzido a Deus e à felicidade. Mas como? Deveria o cristão, com suas verdades eternas, insistir para que o homem moderno deva regressar ao caminho tradicional, cujo argumento partiu da natureza? Que deva aproximar-se de Deus por meio dos cinco argumentos de São Tomás? Seria um mundo mais são, se ele o pudesse fazer. Mas é o objeto deste livro mostrar que devemos começar tomando o homem moderno como ele é e não como gostaríamos que ele fosse. Pelo fato de haver esquecido este ponto é que a nossa literatura apologética está atrasada cerca de cinquenta anos. Deixa fria a alma moderna, não porque seus argumentos não sejam convincentes, mas porque a alma moderna se encontra demasiado confusa para apreendê-los.

Mas nós que somos herdeiros de vinte séculos de pensamento profundo não devemos lidar com o sobrenatural como um cachorro com um osso. Se a alma moderna quiser começar sua busca de paz pela psicologia, em vez de o fazer com a nossa metafísica, começaremos pela psicologia. A verdade de Deus teria poucas facetas, Se não pudesse emparceirar-se com a natureza humana em qualquer grau de perfeição ou mesmo de degradação. Se o homem moderno quiser ir do Demônio até Deus, por que, então, não começaremos mesmo com o Demônio? Foi por onde começou O Divino Mestre com Madalena e disse a Seus discípulos que, com oração e jejum, também eles poderiam começar ali sua obra evangélica.

O meio psicológico não nos oferece dificuldade, pois a teologia cristã é, em certo Sentido, uma psicologia, uma vez que seu principal interesse é a alma, a mais preciosa das coisas. Nosso Senhor pesou um universo em confronto com uma alma e achou a alma mais digna de ser ganha do que o universo. Estudar almas não é nada de novo. Em toda a gama da psicologia moderna nada há escrito a respeito de frustrações, temores e ansiedades que possa ser mesmo fracamente comparado, em profundeza ou vastidão, com o tratado de São Tomás sobre as Paixões, com as Confissões de Santo Agostinho ou com o tratado de Bossuet sobre a concupiscência.

Mas, pode-se indagar, não será a alma moderna tão diferente da de épocas anteriores que falte aos antigos escritores experiência de tal fenômeno e assim nem mesmo o Evangelho poderia oferecer um remédio? Não. Não há nada de realmente novo no mundo. Há apenas os velhos problemas afetando novas pessoas. Não há diferença, exceto a de terminologia, entre a alma desiludida de hoje e as almas desiludidas que se encontram no Evangelho. O homem moderno se caracteriza por três alienações: está separado de si mesmo, de seu próximo e de seu Deus. São estas as mesmas três características do moço desiludido da terra de Gerasa.

Separação de si mesmo — O homem moderno não é mais uma unidade, mas um molho confuso de complexos e nervos. Acha-se tão desassociado, tão alienado de si mesmo, que se vê menos como uma personalidade do que como um campo de batalha, onde uma guerra civil se trava raivosa entre mil e uma antagônicas lealdades. Não há um propósito único, a todos os respeitos, em sua vida. Sua alma pode ser comparada a uma jaula na qual numerosas feras, cada qual buscando sua própria presa, rolam umas sobre as outras. Pode ser ainda comparado a um rádio ligado para várias estações. Em vez de ouvir alguma delas claramente, recebe apenas uma estática intolerável.

Se a alma frustrada é educada, possui um Verniz de desconexos pedaços de informação, sem a filosofia que os unifique. Por isso a alma frustrada pode dizer a si mesma: “Penso às vezes que há dois eus em mim: uma alma viva e um doutor em filosofia”. Tal homem projeta sua própria confusão mental no mundo exterior e conclui que, visto não conhecer a verdade, ninguém pode conhecê-la. Seu próprio ceticismo (que ele torna universal numa filosofia da vida) o repele cada vez mais para aquelas forças que rastejam nas escuras e úmidas cavernas de seu inconsciente. Muda sua filosofia, como muda de roupa. Na segunda-feira, assenta os trilhos do materialismo; na terça, lê um livro afamado, arranca os Velhos trilhos e assenta os novos de um idealista; na quarta, sua nova estrada é comunista; na quinta, os novos trilhos do liberalismo são colocados; na sexta, ouve uma irradiação e decide viajar sobre trilhos freudianos; no sábado, toma uma demorada bebida para esquecer sua viagem e, no domingo, fica a matutar na tolice do povo em ir à igreja. Cada dia tem ele novo ídolo, cada semana, novo capricho. Sua autoridade é a opinião pública. Quando esta muda, sua frustrada alma muda com ela. Não há ideal fixo, grande paixão, mas apenas uma fria indiferença pelo resto do mundo. Vivendo num estado contínuo de referência a si próprio, os “eus” de sua conversa se repetem com crescente frequência, ao achar que todos os seus semelhantes se tornam cada vez mais enfadonhos por insistirem em falar a respeito de si mesmos, em vez de falar a respeito dele.

Isolamento do próximo – Esta característica revela-se não só pelas duas guerras mundiais, num espaço de vinte e um anos, e pela constante ameaça de uma terceira; não só pelo aumento do conflito de classes e do egoísmo no qual cada homem procura apenas a sua satisfação; mas também pela quebra do homem com a tradição e a herança acumulada dos séculos. A revolta da criança moderna contra seus pais é uma miniatura da revolta do mundo moderno contra a memória de 2000 anos de cultura cristã e das grandes culturas hebraica, grega e romana que os precederam. Qualquer respeito por essa tradição é chamado de “reacionário”, dando em resultado haver-se a alma moderna transformado em uma mentalidade comentadora que julga o ontem pelo hoje e o hoje pelo amanhã. Nada é mais trágico para um indivíduo que foi sábio outrora, do que perder sua memória e nada é mais trágico para uma civilização do que a perda de sua tradição. A alma moderna, que não pode viver consigo mesma, não pode viver com seus semelhantes. Um homem, que não está em paz consigo mesmo, não estará em paz com seu irmão. As guerras mundiais não passam de sinais macrocósmicos das guerras psíquicas que se travam no íntimo das turvas almas microcósmicas. Se já não houvesse batalhas em milhões de corações, nenhuma haveria nos campos de batalha do mundo.

Numa alma alienada de si mesma, logo a desordem se segue. Uma alma que mantém uma luta dentro de si mesma, em breve manterá luta fora de si mesma contra outras. Uma vez que um homem deixa de ser prestativo a seu vizinho, começa a tornar-se uma carga para este. Basta um passo, de recusar a viver com os Outros, para recusar a viver para os outros. Quando Adão pecou, acusou Eva, e quando Caim assassinou Abel, fez a pergunta antissocial: “Serei o guardião de meu irmão?” (Gn 4,9.) Quando Pedro pecou, saiu sozinho e chorou amargamente. O pecado de orgulho de Babel terminou em uma confusão de línguas que tornou impossível a manutenção da convivência.

Nosso ódio pessoal de nós mesmos sempre se torna ódio ao próximo. Talvez seja esta uma das razões da atração básica do comunismo, com sua filosofia da luta de classes. O comunismo possui especial afinidade pelas almas que já têm uma luta travada dentro de si mesmas. Associada a este conflito íntimo, existe uma tendência a tornar-se hipercrítico: as almas infelizes quase Sempre censuram os outros, que não a si mesmas, por suas misérias. Fechadas dentro de si mesmas, estão necessariamente fechadas para os outros, exceto para criticá-los. Desde que a essência do pecado é a oposição à vontade de Deus, segue-se que o pecado de um indivíduo é forçado a opor-se a qualquer outro indivíduo, cuja vontade esteja em harmonia com a vontade de Deus. O afastamento do próximo que daí resulta é intensificado, quando se começa a viver só para este mundo. Então os bens do vizinho são olhados como algo que foi injustamente arrebatado da gente. Uma vez que o material se torna o alvo da vida, nasce uma sociedade de conflitos. Como disse Shelley: “O acúmulo de matéria da vida externa excedeu a quantidade de força para assimilá-la às leis internas de nossa natureza”.

A matéria divide, assim como o espírito une. Divida uma maçã em quatro partes e sempre haverá possibilidade de uma questão para saber a quem deve caber a parte maior. Mas se quatro homens aprendem uma oração, nenhum deles priva o outro de possuí-la, tornando-se a oração a base de sua unidade. Quando o objetivo de uma civilização consiste, não na união com o Pai Celestial, mas na aquisição de coisas materiais, há um aumento nas potencialidades da inveja, da cobiça e da guerra. Divididos, os homens procuram então um ditador que os ajunte, não na unidade do amor, mas na falsa unidade dos três Pês – Poder, Polícia e Política.

Afastamento de Deus – A alienação de si mesmo e do próximo tem suas raízes na separação de Deus. Uma vez perdido o eixo da roda, que é Deus, os raios, que são os homens, caem soltos. Deus parece bastante distante do homem moderno. Isto se deve, em grande parte, a sua própria conduta sem Deus. A Divindade sempre aparece como uma censura àqueles que não estão vivendo direito e esta censura da parte do pecador se expressa em ódio e perseguição. Existe raramente uma alma dilacerada e frustrada a criticar e a invejar o seu próximo, que não seja ao mesmo tempo um homem antirreligioso. O ateísmo organizado da hora presente é assim uma projeção do ódio de si mesmo. Nenhum homem odeia a Deus sem que primeiro odeie a si mesmo. A perseguição à religião é um sinal da indefensibilidade da atitude antirreligiosa ou ateística, pois pela violência do ódio espera ela escapar à irracionalidade do ateísmo. A forma final desse ódio à religião é um desejo de desafiar Deus e manter o seu próprio mal em face de Sua Bondade e de Seu Poder. Revoltando-se contra a existência inteira, tal alma pensa que a refutou; começa a admirar seu próprio tormento, como um protesto contra a vida. Tal alma não quererá ouvir falar de religião, com medo de que o alívio se torne uma condenação de sua própria arrogância. Desafia-a, em vez. Incapaz sempre de dar sentido à sua própria vida, universaliza sua discórdia íntima e vê o mundo como uma espécie de caos em face do qual desenvolve a filosofia de “viver perigosamente”, “Funciona como um átomo perplexo em um caos crescente empobrecido pela sua riqueza, esvaziado pela sua plenitude, reduzido à monotonia pelas suas autênticas oportunidades de variedade”.[3]

Existe tão confusa alma no Evangelho? Estará a psicologia moderna estudando um tipo de homem diferente daquele que o Divino Mestre veio redimir? Se consultarmos S. Marcos, acharemos um jovem da terra de Gerasa, descrito como tendo exatamente as mesmas três frustrações da alma moderna.

Estava afastado de si mesmo, pois quando Nosso Senhor perguntou: “Qual é o teu nome?”, o jovem respondeu: “Meu nome é Legião, porque somos muitos” (Marcos 5,9). Note o conflito de personalidade e a confusão entre “meu” e “somos muitos”. Está claro que ele é um problema para si mesmo, entorvelinhada ressaca de mil e uma ansiedades antagônicas. Por isso chamou a si mesmo de “Legião”. Nenhuma personalidade dividida é feliz. O Evangelho descreve esta infelicidade ao dizer que o jovem estava “gritando e ferindo-se com pedras” (5,5). O homem confuso é sempre triste. É seu próprio pior inimigo, uma vez que utiliza indevidamente o intento da natureza para sua própria destruição.

O jovem estava também separado de seus semelhantes, pois o Evangelho assim o descreve: “E sempre de dia e de noite andava pelos sepulcros e pelos montes”. (Marcos 5:5). Era uma ameaça para os outros homens. “Pois tendo sido muitas vezes amarrado com grilhões e cadeias, havia rebentado as cadeias; despedaçado os grilhões e ninguém podia dominá-lo”. (Marcos 5,4). O isolamento é uma qualidade peculiar ao ateísmo, cujo habitat natural é afastado dos outros homens, entre os túmulos, na região da morte. Não há cimento no pecado. Sua natureza é centrifugal, divisiva e dilacerante.

Estava separado de Deus, pois quando viu o Divino Salvador, gritou: “Que tens Tu comigo, Jesus Filho de Deus Altíssimo? Eu Te esconjuro por Deus que me não atormentes”. (Marcos 5,7). Quer isto dizer: “Que temos nós em comum? Tua presença é a minha destruição”. É um interessante fato psicológico o ódio das almas frustradas contra a divindade e seu desejo de separar-se dela. Todo pecador oculta-se de Deus. O primeiro assassino disse: “E eu me esconderei da Tua face e serei vagabundo e fugitivo na Terra” (Gn 4,14).

Parece, afinal de contas, que a alma moderna não é lá tão moderna assim. Como o moço de Gerasa, está afastada de si mesma, de seu próximo e de seu Deus. Mas há, não obstante, uma diferença: o jovem de Gerasa era pré-cristão, a alma moderna é pós-cristã. Fundamental como é a distinção, deixa ainda de pé o problema: Como tratar com o homem de hoje?

Uma coisa é certa: a alma moderna não conseguirá encontrar paz enquanto estiver aprisionada dentro de si mesma, remoendo a escória e o sedimento de seu pensamento inconsciente, presa de forças inconscientes cuja natureza e existência glorifica. É interessante que Freud, que julgava tal Solução de auto-concentração a verdadeira, tenha tomado como epígrafe de um de seus primeiros trabalhos, a frase: “Se não puder curvar os deuses lá no alto, lançarei o inferno todo em algazarra”. Não é a resposta! Destronando os valores conscientes do mundo, lança-se, de fato, o inferno em algazarra e acaba-se em neuroses ainda mais complicadas.

A verdadeira resposta é libertar o homem de sua prisão íntima. Ficará louco se tiver de contentar-se em perseguir a cauda de seu próprio pensamento, sendo ao mesmo tempo perseguidor e perseguido, lebre e lebréu. A paz da alma não pode provir do próprio homem, da mesma maneira que não pode ele erguer-se, puxando suas próprias orelhas. O auxílio deve vir de fora e não deve ser auxílio meramente humano, mas divino. Nada, fora de uma invasão divina que restaure o homem na realidade ética, pode tornar o homem feliz, quando está só e na escuridão.

O desiludido jovem de Gerasa só ficou curado quando Nosso Senhor o restaurou para si mesmo, para seu próximo e para Deus. Então recuperou ele o objetivo da vida. Não mais se chamou “Legião” e o Evangelho o descreve “sentado, vestido e são do juízo” (Marcos 5,15). Na nossa linguagem, estava ele se sentindo “como ele próprio”. Em vez de estar isolado da Vida da comunidade, nós o vemos restaurado para a fraternidade por Nosso Senhor, Que lhe disse: “Vai para tua casa, para os teus”. (Marcos 5,19). Finalmente, em vez de odiara Deus, nós vemos que ele começa a “publicar pela Decápole quão grandes coisas lhe tinha feito Jesus: e todos se admiravam” (Marcos 5,20). O mesmo se dá com o homem de hoje. Se a alma moderna está demasiado atormentada por temores e ansiedades para vir a Deus, graças à beleza de uma estrela, poderá então chegar até Ele graças à solidão de um coração, dizendo com o salmista: “Desde o mais profundo clamei a Ti, Senhor”. (Salmos 129). Se não pode encontrar Deus por meio do argumento do movimento, pode alcançá-lo por meio de seus próprios desgostos — ai! – e mesmo com o cabo de seus pecados.

A questão importante não é: “O que será de nós”, mas “O que seremos nós”. A bomba atômica tirou-nos das mentes a existência e a sua finalidade. Contudo, é ainda hoje Verdadeiro que não é tão importante saber como sair do tempo, quanto saber como se está na eternidade. A bomba atômica nas mãos de um Francisco de Assis seria menos perigosa do que uma pistola na mão de um estrangulador. O que faz a bomba perigosa não é a energia que ela contém, mas o homem que a utiliza. Por conseguinte, é o homem moderno quem deve ser refeito. A menos que consiga parar as explosões dentro de seu próprio pensamento, provavelmente - armado com a bomba – prejudicará o próprio planeta, como advertiu Pio XII. O homem moderno trancou-se na prisão de seu próprio pensamento e somente Deus pode pô-lo em liberdade como fez Pedro sair de sua prisão. Tudo quanto o próprio homem deve fazer é contribuir com o desejo de libertar-se. Deus não faltará. Só o nosso desejo humano é que é fraco. Não há razão para desencorajamento. Foi o cordeiro balindo nas moitas, mais do que O rebanho nas tranquilas pastagens, que atraiu o Coração e a Mão prestante do Salvador. Mas a recuperação da paz por meio de sua Graça implica uma compreensão da ansiedade, a grave queixa do homem moderno aprisionado.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!


____________
1. C. G. Jung, Modern Man in Search of a Soul, p. 135.

2.
Harry Slochower, No Voice is Wholly Lost, p. 316. Creative Age Press, Inc., 1945.


3. Refere-se a passagem do endemoniado geraseno ou gadareno, conf. Mc 5,1-20 (N. E.).

____

Fonte:
SHEEN. Fulton John. A Paz da Alma 2ª ed. São Paulo: Molokai, 2018, pp. 9-24.
www.ofielcatolico.com.br

Frei Daniele Natale e os tormentos do Purgatório

Depois deste episódio, Frei Daniele retomou sua vida de apostolado, como fiel discípulo de São Pio

Por Pe. Ramón Ángel Pereira Veiga, EP


No alto, Fr. Daniele Natale com o santo Padre Pio e, logo acima, ele mesmo anos depois do episódio aqui narrado

TAREFA NADA FÁCIL a de descrever o estado de alvoroço em que se encontrava a clínica Regina em Roma, naquele dia de 1952. Lá se internara Frei Daniele Natale, religioso capuchinho de trinta e três anos de idade, para a extirpação de um tumor canceroso no baço. O Dr. Riccardo Moretti recusava-se em realizar a delicada operação por estar a doença muito avançada, mas a insistência do paciente levou-o a fazer uma tentativa in extremis.

Infelizmente, os temores do médico foram confirmados: Frei Daniele entrou em coma logo após a cirurgia e faleceu três dias depois. Emitida a certidão de óbito, parentes e conhecidos acorreram junto ao corpo sem vida do capuchinho para rezar por ele. Até aqui, nada de anormal. Tudo se passou dentro da rotina de qualquer estabelecimento hospitalar.

O alvoroço começou, ou melhor, explodiu, três horas depois de declarada a morte do religioso. Subitamente, o cadáver se desvencilhou do lençol que o cobria, levantou-se com decisão e pôs-se a falar!… Todos correram apavorados para fora da sala, gritando pelos corredores. Uma polvorosa sem par tomou conta do hospital. E não era para menos!

O próprio Frei Daniele narra, com a simplicidade dos relatos evangélicos, o que aconteceu nesse intervalo de três horas:

Apresentei-me ante o Trono de Deus. Eu via Deus, não como um severo Juiz, mas como um Pai afetuoso e cheio de amor. Compreendi então tudo quanto Ele havia feito por amor a mim, como cuidara de mim desde o primeiro até o último instante de minha vida, amando-me como se eu fosse a única criatura existente na Terra.

Dei-me conta, porém, de que eu não só não havia correspondido a esse imenso amor divino, mas o tinha recebido com inteira indiferença. Fui condenado a passar duas ou três horas no Purgatório. Mas então, pensei, só duas ou três horas e depois permanecerei para sempre junto de Deus, eterno Amor?! Saltei de alegria, sentindo-me como um filho predileto.[1]

O júbilo de Frei Daniele, entretanto, não foi duradouro…

A visão desapareceu e me encontrei no Purgatório. A pena de duas ou três horas foi-me imposta, sobretudo, por faltas contra o voto de pobreza. As dores lá eram terríveis. As almas as sentiam intensamente sem saber de onde provinham. Os sentidos que mais haviam ofendido a Deus neste mundo sofriam maiores tormentos.

Era algo incrível, porque ali a pessoa se sente como se tivesse corpo, conhece e reconhece os outros, como acontece no mundo. Entretanto, os poucos instantes de pena transcorridos me pareciam uma eternidade. O que mais atormenta no Purgatório não é o fogo, por mais intenso que seja, mas o sentir-se afastado de Deus. E o que mais aflige é o fato de ter tido à disposição todos os meios para se salvar e não ter sabido aproveitá-los.

Procurei então um frade do meu convento para lhe pedir que rezasse por mim. Admirado porque ouvia minha voz, mas não me via, ele perguntou: ‘Onde estás? Por que não te vejo?’. Eu insistia e, sem outro meio para conseguir meu objetivo, procurei tocá-lo, e só então me dei conta de que estava sem corpo. Contentei-me, pois, de insistir que rezasse muito por mim e saí.

A situação em que o capuchinho se encontrava parecia não corresponder com o veredito recebido durante o juízo particular. “Perguntava a mim mesmo: já transcorreram trezentos anos, e eu deveria passar apenas duas ou três horas no Purgatório… Como é isto?”

Apareceu-me de repente a Bem-Aventurada Virgem Maria e eu lhe implorei: ‘Ó Virgem Santíssima, Mãe de Deus, obtende-me a graça de retornar à Terra para viver e agir só pelo amor a Deus!’. Notei também a presença do Padre Pio e lhe supliquei: ‘Ó Padre Pio, pelos teus atrozes sofrimentos, pelos teus benditos estigmas da Paixão de Cristo, roga por mim a Deus que Ele me livre destas chamas e me deixe passar na Terra o restante do meu tempo de Purgatório!’.

Em seguida, não vi mais nada. Observei que o Padre Pio falava a Nossa Senhora. Poucos instantes depois, apareceu-me de novo a Virgem Maria. Ela inclinou a cabeça e me sorriu… Naquele preciso momento retomei posse de meu corpo, abri os olhos e estendi os braços; depois, com um movimento brusco, desembaracei-me do lençol que me cobria. Tinha sido atendido. Recebera a graça!

E não foi imaginação…

As pessoas que rezavam e me velavam precipitaram-se espantadíssimas para fora da sala, à procura dos médicos e enfermeiros. Em poucos minutos a confusão tomou conta da clínica. Todos julgavam que eu era um fantasma. O médico que havia atestado meu falecimento entrou precipitadamente no aposento e disse, com lágrimas nos olhos: ‘Sim, agora creio. Creio em Deus, creio na Igreja, creio no Padre Pio!’.

Depois deste episódio, Frei Daniele retomou sua vida de apostolado, como fiel discípulo de São Pio de Pietrelcina, que lhe havia feito esta categórica promessa: “Onde estiveres tu, estarei também eu. […] O que dizes tu, digo-o também eu”[2]. Viveu mais quarenta e dois anos (até o ano 1994) e sintetizou nesta curta prece seu ardente desejo de salvar almas: “Enviai-me, Senhor, todos os sofrimentos que Vos aprouver, mas fazei que um dia eu encontre no Paraíso todas as pessoas das quais me aproximei!”.

Quando alguém lhe manifestasse qualquer dúvida a respeito do Purgatório, ele saberia expor com clareza a doutrina da Igreja, mas, sobretudo, poderia acrescentar seu testemunho pessoal: “Eu vi aquele fogo! Senti o terrível ardor daquelas chamas! Muito pior do que o fogo, sofri o pavoroso tormento de estar separado de Deus!”.

Diante dos castigos do Purgatório, os sofrimentos do Servo de Deus Frei Daniele Natale nesta Terra tornaram- se toleráveis e até doces[3].

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

_________
1. As palavras de Frei Daniele foram retiradas do livro: FIORE, Remigio. Fra Daniele Natale racconta… le sue esperienze con Padre Pio. San Giovanni Rotondo:
Frati Cappuccini, 2001.

2. LEONE, Roberta. Fra Daniele Natale, il 'riconquistatore di anime' prediletto da Padre Pio. In: Vatican Insider News: www.lastampa.it.

3. A fase diocesana da causa de beatificação de Frei Daniele Natale foi iniciada no dia 5 de novembro de 2016, com uma cerimônia na Igreja de Santa Maria das Graças, em São Giovanni Rotondo.

____
Fonte:
Revista Arautos do Evangelho, n.187
www.ofielcatolico.com.br

Receba O Fiel Católico em seu e-mail