Bispos italianos querem revogar o Summorum Pontificum


BISPOS ITALIANOS sugeriram, durante o seu atual encontro autunal, abolir o Motu Proprio Summorum Pontificum, que autoriza a celebração da santa Missa no rito tradicional em latim, conforme relatado pelo MessaInLatino.it (16 de novembro/2018).

O arcebispo de Gorizia, Carlo Radaelli (foto), de 62 anos, disse que Bento XVI cometeu um "erro" ao escrever, no Summorum Pontificum, que a Missa Antiga nunca foi revogada. Em vez disso, Radaelli afirma que a Missa Romana teria sido abolida por Paulo VI. A partir disso e em consequência, o Motu Proprio de Bento XVI seria nulo ou inválido.

Não é surpresa que muitos prelados apoiem as afirmações de Radaelli. Dentre estes, o modernista padre Luigi Girardi, que dirige o Instituto Romano da liturgia pastoral; o bispo de Novara, Franco Brambilla, e outros bispos anônimos do sul da Itália.

Radaelli e Brambilla foram, ambos, nomeados por Bento XVI.


* * *

Eu, Henrique Sebastião, tenho dito e repetido que se aproxima um novo cisma para a história da Igreja. Não estou só nessa análise: por exemplo o Padre Paulo Ricardo me disse, há alguns anos, que considera essa hipótese totalmente viável caso as coisas continuem no rumo em que se encontram. Há tempos, realmente desde antes do CVII – e com intensidade e fúria redobradas depois deste – temos o choque entre "duas igrejas" dentro da Igreja: uns querem a Igreja antiga, outros querem uma Igreja (literal e totalmente) nova. Diga-se, de passagem, que o mais lamentável é que poucos queiram a Igreja atemporal e de sempre.

De fato, ao assistir a Missa no rito tradicional (Missa de sempre) e a chamada "missa nova" de Paulo VI (da forma como é mais comumente celebrada hoje, com toda a sorte de inovações e total liberdade sobre a liturgia), temos a clara impressão de que não se trata da mesma celebração; sem nenhum exagero, alguém que nada conhecesse de catolicismo poderia duvidar seriamente de que fossem, ambas, expressões da mesma religião, e menos ainda do mesmo evento sagrado (o santo Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário). 

Acho difícil que venha a acontecer, ao menos por enquanto, mas a decisão de revogar o Summorum Pontificum de Bento XVI seria, sem dúvida, um marco importantíssimo, senão o ato central na concretização desse novo cisma. E pelo andar da carruagem, mesmo sabendo que a divisão jamais foi a vontade de Deus para os seus filhos, com honestidade tenho que dizer que já não sei se isso seria bom ou mau.

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Desabafo do Padre Luis Fernando Alves Ferreira

Diocese de Itumbiara – GO



SOU PADRE HÁ quase 5 anos. Fui seminarista por 7 anos. Já estive em vários lugares Brasil afora, já celebrei em tantos outros e guardo no meu coração uma tristeza profunda. Quando eu era criança, na roça, e ia com minha família à Missa uma vez por mês, eu sabia que naquela Hóstia "tinha Jesus". 

Eu sentia o cheiro da vela queimando e aprendi a me persignar toda vez que passava diante de uma Igreja. Eu achava tudo meio estranho, porque não entendia a Missa, mas sentava no primeiro banco e respondia a todas as perguntas que o padre fazia na hora do sermão. 

Daí eu cresci, fomos pra cidade e eu continuava inocente. Fui pro seminário e as escamas de meus olhos caíram. A Missa pela qual eu sempre nutri o maior religioso respeito

virou palco;

virou show;

virou passeata;

virou passarela;

virou camarim de estrela;

virou sambódromo;

virou terreiro;

virou tudo e suportou tudo;

menos ser de fato, Missa.

Já vi tanto desleixo… Alfaias pruídas, vasos sagrados zinabrados, Hóstias Consagradas carunchadas dentro do sacrário, um sacrário no meio de uma reforma de Igreja com Hóstias Consagradas dentro, consagração de vinho em tamanha quantidade que as sobras Eucarísticas precisaram de um exército de MESC para consumi-las, porque o padre não poderia fazê-lo sem ficar bêbado, e outros tantos abusos.

Capitaneada pelo dualismo marxista de tipo maniqueísta, a reinterpretação que a Missa sofreu nas décadas que sucederam o Concílio Vaticano II seguiu as pegadas da subjetividade humana. É odioso ouvir: “Ah, o jeito do outro padre é diferente...”. Isso denota uma personalização que a Missa não comporta. A Missa nunca foi a Missa do padre, mas a Missa da Igreja!

Essa mentalidade impregnou tanto a liturgia que quando um Padre quer celebrar a Missa da Igreja, aquela do Missal Romano, é chamado de retrógrado. O respeito às normas litúrgicas agora é sinônimo de "opressão". A Missa pura e simples foi esvaziada para poder ser enchida pela ideologia da enxada, da faixa, do cartaz, da freira, do padre TL… A Missa se transformou… Virou manifestação e protesto contra o Governo e o Sistema e
contra a Igreja;

contra os padres;

contra a fé católica de sempre;

contra a liturgia de sempre.

Enfiaram bananeiras, berrantes, espeto de churrasco, cuia de chimarrão, pão de queijo, cachaça, coco, faca e facão, pipoca, balões e ervas de cheiro na Missa, enfiaram panos coloridos para todos os lados, colocaram mães de santo manuseando o turíbulo e leigos lendo preces seminus. 

Para essa CORJA, a Missa já deixou há muito tempo de ser o Sacrifício redentor de Cristo PRO MULTIS e se tornou só mais uma mesa para comensais na qual vale o discurso e não a fé, na qual o que importa é o que o homem diz aos seus iguais e não o que Deus diz ao homem.

Lembro-me de um professor contando, todo garboso, que certa feita utilizou-se de uma Adoração ao Santíssimo Sacramento para dar uma aula de teologia ao povo – aos seus moldes é claro – porque para ele aquela Hóstia era "pobre de significado".

Aquela Hóstia pobre…

tão pobre quanto o cocho de Belém;

tão pobre quanto a cama em Nazaré;

tão pobre quanto a casa de Pedro em Cafarnaum;

tão pobre quanto a casa de Lázaro em Betânia;

tão pobre quanto o coração do Filho de Deus.

Ela só pôde se tornar Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Cristo porque Ele se fez pobre!

Sua pobreza não comporta reduções, tampouco acréscimos desnecessários.

Ele é aquele que é e nada mais.

Mas, só para quem tem fé!

Aos meus irmãos padres um apelo: que nós diminuamos e que Ele apareça. Não somos o noivo, apenas amigos do noivo! Rezemos a Missa da Igreja, a Missa do Missal. Que Ele fale aos corações e às mentes, inclusive às nossas mentes e corações! Que Ele toque as vidas, inclusive as nossas. Que sua voz ecoe nas consciências, também nas nossas. Que toda a nossa Liturgia seja feita Por Cristo, Com Cristo e em Cristo ao Pai, na Unidade do Espírito Santo. Só isso. Se fizermos isso bem feito, teremos feito tudo o que nos compete nesta vida.

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Ter religião é ser irracional?

ALGUNS AUTODENOMINADOS "racionalistas" argumentam que a religião é sempre irracional, na medida em que afirma que existe uma realidade além da razão e, logo, a sua própria base seria um tipo de fé cega. Há alguns anos, nosso irmão em Cristo e parceiro na evangelização Alessandro Lima, do apostolado Veritatis Splendor (um dos nossos grandes inspiradores), deu uma resposta bastante simples e didática a um de seus consulentes, na qual se baseia este nosso artigo.


Você pode se autodeclarar racionalista, mas isso não faz com que as posições que você assume sejam razoáveis. Na verdade, apesar de todo esse discurso sobre razão contrário à fé cega, os racionalistas estão muitas vezes entre as pessoas mais irracionais.

O cristianismo afirma que existem verdades que vão além do poder da razão necessário para demonstrá-las, mas isso não significa que sejam irracionais. Existe uma diferença entre o que é irracional (aquilo que vai contra a razão) e o que é supra-racional (aquilo que está além da razão).

Considere isto: a física quântica está acima das habilidades racionais de quem tem 4 anos de idade. Isso faz com que a física quântica seja irracional até para quem tem 4 anos de idade? Não.

Ou então pense nisto: conhecer tudo o que existe sobre ciência moderna está além das capacidade de qualquer ser humano. Por isso é que existem especialistas: divide-se a coisa toda em partes e várias mentes que seriam incapazes, sozinhas, de compreender o todo, especializam-se em uma dessas partes. Pois bem: nós não dizemos que a ciência é irracional porque a totalidade do conhecimento científico vai além do poder que uma pessoa tem para conhecer.

Em outras palavras, o fato de uma pessoa ser limitada naquilo que ela não compreende não significa que não possa existir algo além do que aquilo que ela compreende. Se passarmos do indivíduo para a raça humana como um todo, podemos dizer que um fato pode ser limitado para um homem, como criatura finita que é; isso, porém, não significa que algo que vá além daquilo que ela pode compreender não possa existir.

O cristianismo afirma possuir uma mensagem que ultrapassa o horizonte intelectual de um homem. Tal mensagem afirma que Deus – cuja existência, por sua vez, é cognoscível apesar das nossas habilidades racionais limitadas – revelou coisas que vão além da nossa razão, mas que não conflitam com ela. Essa mensagem também afirma que a realidade conforme a conhecemos evidencia – embora não prove empiricamente – que as verdades transcendentais existem. Tanto o afirmar categórico que isso é real, quanto afirmar que não é real, são ambas posições irracionais.

A partir da ótica cristã, o racionalismo é como um homem que possui o mapa da estrada, mas que, acreditando que o mapa é confiável da forma como foi retratado, conclui que apenas aquela imagem é real. O racionalista pensa que a estrada termina nos pontos em que o mapa não apresentam mais nenhuma estrada: esse é o racionalismo que provém de uma fé cega e que termina com a morte.

___
Ref.:
LIMA. Alessandro.
A religião é irracional porque ela afirma que existe uma realidade além da razão?
disp. em:
https://veritatis.com.br/a-religiao-e-irracional-porque-ela-afirma-que-existe-uma-realidade-alem-da-razao/
Acesso 14/11/2018

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Gírias do submundo no Enem é o de menos – a normalização do anormal


Por Carlos Ramalhete

VI TANTA BESTEIRA por aí, sobre a questão do Enem sobre a gíria do submundo hoje dito transgênero, que resolvi dar um pitaco.

Basta ler a pitomba da questão para ver que não se está cobrando conhecimento da gíria dos caras. Do mesmo modo, tampouco é aquilo um incentivo a aprendê-la, mesmo porque, quando a molecada sai do Enem, a última coisa que ela quer fazer é ampliar seu conhecimento da bibliografia citada.

Aquilo é parte de outro joguinho: a normalização do anormal. O objetivo da questão é simples e, a seu modo tão eficiente quanto a Globo exibir ad nauseam o Pablo Vitar; o que eles querem é "mostrar que é normal" aquele submundo, tratar a prostituição de pessoas com sérios problemas mentais (duvida? Vai dar uma volta no balcão da delegacia de uma área onde esses caras fazem ponto pra ver) como se fosse uma coisa tão absoluta e completamente natural quanto um rapaz se apaixonar por uma mocinha e querer passar o resto da vida com ela.

É a mesma política que faz com que não se tenha sequer tentado criar mecanismos de união civil que servissem para, por exemplo, duas irmãs solteironas que moram juntas, criando ao invés disso uma falsa equiparação entre relações sexuadas entre pessoas do mesmo sexo e a constituição de uma família que gera e cria as futuras gerações (e por isso merece proteção e reconhecimento por parte da sociedade, inclusive do Estado), no dito "casamento gay".

Os pobres prostitutos que falam aquelas gírias todas enquanto quebram garrafas e avançam para cima dos próprios companheiros com o gargalo-arma na mão, assim como as pessoas que têm amizades sexuadas com gente do mesmo sexo, são meras buchas de canhão. A bucha, para quem não sabe, é um monte de pano que se coloca entre a bala e a pólvora, servindo para dar pressão e propelir a bala para mais longe, caindo contudo toda queimada e gasta a poucos metros do cano. O que se deseja, ao incentivar esse tipo de coisa, é diminuir a força da normalidade dita burguesa [tanto que até já criaram o bizarro termo 'heteronormatividade' para dar a entender que no que se refere às relações sexuais nada, absolutamente nada pode ser considerado anormal, nem mesmo pedofilia ou zoofilia].

Isso porque, na sua ignorância, os neomarxistas tomam fenômenos naturais e que existiram desde sempre – e que sempre perdurarão em qualquer sociedade, como a constituição de uma unidade familiar – por meros fenômenos transitórios de uma sociedade burguesa em decadência, na qual temos o desprazer de viver. 

Eles tratam, assim, a constituição de família exatamente do mesmo modo como tratam, por exemplo, as cadernetas de poupança, o uso de terno ou outras roupas "de representação", etc. Estes, sim, fenômenos burgueses. Como eles querem "apressar a passagem da sociedade burguesa para a próxima etapa do desenvolvimento", na sua visão materialista dialética, os bocós incentivam a destruição de tudo o que identificam como "burguês". A família inclusive, a civilidade inclusive.

Ao apresentar com ares de normalidade ou mesmo de "cultura alternativa e mais genuína" – verdadeiros Bons Selvagens de Rousseau! – por exemplo a prostituição e os psicóticos, o alvo é a família. É um alvo negativo, não positivo. Quanto é alcançado o objetivo de bagunçar as relações familiares, como o divórcio o fez, como o sistema pelo qual o único dever de um pai é dar uns caraminguás todo mês para o bebê, os que foram usados como bucha de canhão são deixados de lado. Eles não têm valor intrínseco aos olhos dos neomarxistas frankfurtianos; só servem como arma. Como buchas de canhão, descartadas no próprio ato do tiro.

Na verdade – e isso é perfeitamente previsível e aceito pelos próprios neomarxistas como inevitável e até desejável – o efeito imediato desse tipo de campanha e apresentação é o crescimento, não a diminuição, dos maus-tratos aos que foram usados. O papel deles, na dialética neomarxista, é justamente serem gastos, serem descartáveis, para aumentar os conflitos sociais e assim apressar o fim (que os neomarxistas consideram inevitável e conducente a algo melhor. O prostituto, a pessoa com atração sexual pelo mesmo sexo, etc., servem apenas para desmanchar a família (o que aliás é impossível, por ela ser intrínseca à natureza humana; mas como as antas dos neomarxistas não acreditam em natureza humana, eles não entendem o óbvio); não se busca como um valor em si a equiparação da família de verdade com a convivência sexuada de pessoas do mesmo sexo, assim como não se busca como um valor em si que haja, sei lá, lojas de prostituição masculina nos shoppings. O papel "histórico", no delírio neomarxista, desse pessoal que estaria teoricamente sendo "prestigiado", é apenas confundir, irritar e, depois, ser jogado no lixo quando não for mais útil.

Assim, não se preocupe com a ideia de que o seu filho estaria aprendendo gírias de prostitutos; preocupe-se com o fato de que ele está sendo condicionado a achar que o anormal é normal, de que ele está sendo treinado para ver no desmanche da sociedade em que vive um "passo à frente". O problema é esse, bem mais que algumas palavrinhas esquisitas que nem sei se existem de verdade.

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Agora, no Brasil... sobre filmar aulas, dialeto travesti e pornografia nas escolas


FILMAR AULAS NÃO pode... Minha esposa é professora e, assim como diversos amigos que tenho, também professores, dizem que não se importariam em ter suas aulas filmadas (até para que se mostre a falta de educação de boa parte dos alunos e o desrespeito a que são submetidos diariamente). De fato, é um argumento invencível o de que só pode ter tanto pavor da ideia aqueles que porventura estejam usando da sala de aula para ensinar o que não devem. Por outro lado, colocar questão sobre dialeto secreto de travesti em Exame Nacional do Ensino Médio, aí pode, sem problemas. Afinal, ninguém quer ser taxado de "preconceituoso" ou "homofóbico", não é mesmo?

Polícia na Universidade para fiscalizar denúncia de crime eleitoral, não pode... Mas usar página institucional para propaganda política, trocar ementa do curso por militância "Elenão", criar polícia ideológica autointitulada "Ação antifascista" para perseguir quem votou em Bolsonaro, o novo Presidente da República democraticamente eleito, aí pode.

Alguns conservadores estão lidando com os movimentos de resistência ao totalitarismo psicopedagógico como se vivêssemos em uma pura normalidade que veio a ser perturbada por "polêmicas" como o Escola Sem Partido (quem leu?) e pelas denúncias que o STF veio a público para tentar deslegitimar.

A realidade dos fatos é outra. Vivemos sob o império do culto à devassidão. A escola real é aquela da qual seu filho de sete anos volta implorando para você não votar no Bolsonaro porque ele é contra os negros e é fascista; é aquela em que uma professora desvairada dá aula de educação sexual para crianças de nove anos e expõe suas próprias fotos no Facebook manipulando pênis de borracha e simulando sexo oral em alunos; é aquela em que você se depara com livros paradidáticos indicados pelo MEC em que há um conto no qual o pai resolve se casar com uma de suas filhas ('Enquanto o sono não vem', editora Rocco) ou em que há uma crônica que conta a história de uma criança que vai a um passeio no lago vê uma mulher fazendo sexo oral em um homem ('Nu de botas', de Antonio Prata).

Não há como combater tantos e tão graves abusos sem ferir a fina delicadeza dos nossos tempos, em que a maioria dos homens têm vergonha de ser o que é, de pessoas adultas que sofrem uma epidêmica síndrome coletiva de Peter Pan, querendo permanecer adolescentes a vida inteira; gente tão frágil que não suporta que nenhuma medida um pouquinho mais áspera seja tomada da parte dos que ainda se atrevem a entrar em campo para defender nossos valores sagrados e as nossas crianças, os nossos (verdadeiros) adolescentes e jovens contra a tara ideológica da esquerda.

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Honestidade intelectual: um apelo

Um texto necessário de Igor Andrade
(Frat. Laical S. Próspero)



'Diógenes procurando por um homem honesto', por Jacob Jordaens

ESCREVO COMO MERO professor de filosofia sobre este assunto tão importante nestes tempos: a honestidade intelectual. A honestidade é uma virtude muito admirada; quem é desonesto é visto com maus olhos por qualquer um – porém, muitos, infelizmente, pensam nela como algo meio material. Para o vulgo, ser honesto consiste somente em entregar o troco certo, pagar as contas em dia e não roubar os cofres públicos.

Essa honestidade é importante, mas venho falar de uma mais importante ainda (porque mais importante que a matéria é a alma, da qual a razão e o intelecto são parte).

O homem é repleto de preconceitos desde a infância, e a biologia nos ensina que é graças a estes preconceitos que chegamos, através da História, até este estado de permanência e perpetuação da espécie humana – a palavra “preconceito”, aqui, deve ser bem entendida como um conceito prévio que se formula sobre algo ou alguém antes de conhecê-lo e de formular de fato um conceito definitivo e adequado após conhecê-lo.

Ponha-se o leitor no lugar de um homem pré-histórico que vivia numa civilização tribal, nas matas, e ainda não modificara o meio ambiente. Sua casa rústica servia apenas de abrigo do frio, das feras e de outros homens. Ao longo das gerações, esta tribo passou por diversas turbulências: ataques de animais, guerras contra outras tribos por alimento, água, território, etc. Assim, formou-se no imaginário comum que tudo aquilo que não pertencesse à tribo oferecia uma ameaça aos seus membros. Isto é, a tribo formou um pré-conceito sobre tudo aquilo de que não tinham um conceito formado. Um rugido perto, para eles, com certeza era uma fera que os atacaria; um grito humano era sinal de perigo, e assim por diante.

Aclarada a importância dos pré-conceitos (que são como que uma proteção do desconhecido), falemos do problema que geram: a ignorância comum.

Ponha-se o leitor, uma vez mais, no lugar de um outro membro da mesma tribo, porém algumas gerações à frente. Sua tribo cresceu, houve contato com outras tribos, formaram-se alianças, instauraram-se castas, desenvolveram-se técnicas. Finalmente era possível conhecer o que estava fora da tribo. Porém, estavam tão arraigados os pré-conceitos históricos que todo aquele que quisera conhecer mais além da mera realidade local era tido como louco, imprudente, desocupado. O preconceito, quando necessário para o bem (como no caso supracitado), é útil, mas quando cessa sua necessidade, torna-se um impedimento para o aprendizado do homem.

Assim aconteceu com Tales, o pai da filosofia ocidental. Tales fora habitante de Mileto, região da atual Turquia, e era fascinado pelo céu e pela natureza. Foi o primeiro a buscar a arché, o princípio das coisas. Como ficava mais tempo olhando as estrelas do que fazendo negócios comerciais, os demais habitantes de Mileto diziam que era um inútil, que aquilo não tinha futuro e coisas semelhantes. Conta-se que, certa vez, andando pelos campos, Tales estava tão distraído buscando no céu uma explicação para a realidade que caiu no fundo de um poço e lá ficou o resto da noite, preso. Quando o encontraram, caçoaram dele, provavelmente dizendo que deixasse daquilo porque os deuses cuidavam de tudo e que não havia mais nada a saber além de transações comerciais. “Você é um inútil, Tales, uma vergonha para sua família e para nós, habitantes desta rica cidade”, provavelmente lhe disseram.

Para dar uma lição aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Diógenes Laércio, teria Tales empreendido diversos cálculos e observações dos astros, chegando à conclusão de que, naquele ano, a colheita de azeitonas seria maior que o normal.

Comprou, então, todos os moinhos da região. “Tales enlouqueceu mesmo, está comprando moinhos fora de época de colheita”, provavelmente disseram muitos. Mas, quando chegou a época certa, com a superprodução de azeitonas, não tinham onde deixá-las, e então tiveram que pagar a Tales a quantia que ele bem exigiu para que usassem os seus moinhos, o que fez dele o homem mais rico da região.

Depois disso, Tales foi deixado em paz e tido por todos como sábio. O povo de Mileto reconheceu que seus preconceitos eram vãos e teve a honestidade intelectual de dizer “Tales, ajude-nos, você conhece mais a natureza do que nós. Por favor, ensine-nos o que sabe!”.

Esse é um exemplo de que o preconceito pode atrapalhar no conhecimento das coisas – e como é importante a honestidade intelectual. Tales fora o primeiro a conhecer melhor os astros, a geometria e a natureza de modo geral. Foi o primeiro do ocidente que postulou a imortalidade da alma (algo extremamente importante para as discussões sobre a dignidade humana nos tempos atuais); foi ele quem firmou paz entre Ciro e Mileto; foi ele quem por primeiro dividiu o ano em quatro estações e que almejou explicar o princípio das coisas.

Sua explicação não é das melhores (segundo ele, a água é o princípio de tudo e está presente em tudo), porém o mérito está não na resposta, mas no fato de ter feito a pergunta (qual é o princípio das coisas?).

Hoje em dia, vergonhosamente, vemos isso impregnado na forma mentis vulgar. Não há, no vulgo, a honestidade de dizer “não sei”. Ainda muito pior, parece que a “elite” intelectual também não sabe dizer “não sei” quando realmente não sabe alguma coisa.

Recentemente, o candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, participou de uma sabatina no programa "Roda Viva", da TV Cultura. Nenhum dos jornalistas que o entrevistou teve honestidade intelectual de conceder ao entrevistado o benefício da dúvida, algo como admitir para si que “talvez ele não seja tão ruim quanto eu penso”. Manteve-se a práxis preconceituosa marxista: "Se qualquer um disser algo que contrarie aquilo que eu penso sobre esses assuntos, com certeza é um 'burguês' que deve ser superado a qualquer custo pela dialética".

Que um marxista pense assim não é novidade alguma, pois seguem cegamente o seu profeta (Hegel), que anuncia seu deus: Marx, “aquele que salva”.

O problema é que, do outro lado, da parte da chamada “direita”, o modus operandi foi exatamente o mesmo. De toda a entrevista, o único acerto foi quando um jornalista disse que “Jesus também foi um refugiado”. E o que fez o pessoal da “direita”? Ignorou a narrativa bíblica (na qual dizem crer) e taxou o jornalista de idiota. Não nego que, de fato, aquele jornalista seja um idiota, mas a informação em questão é verdadeira, não podemos negar isto.

Na época em que Jesus nasceu, Judá era governada por um rei, Herodes (conivente com os romanos, mas rei); era um reino independente do Egito (que, embora província do Império Romano, era um país separado de Judá, com língua, cultura e leis diferentes), aonde a Sagrada Família buscou refúgio quando o Rei mandou matar todos os meninos com menos de um ano de idade. Assim, buscar refúgio em outro país tornam S. José, a Virgem Maria e Jesus Menino refugiados, e ponto final.

É evidente que o jornalista quis comparar a situação da Sagrada família à dos muçulmanos de hoje em dia (uma comparação totalmente absurda); assim, nesse caso específico, a melhor argumentação é a mais honesta, isto é, aquela que aponta para a verdade dos fatos: uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra, e o problema da migração em massa dos nossos tempos envolve uma série de graves problemas totalmente diversos e que nada tem a ver com o apresentado na narrativa evangélica. Mesmo assim, não podemos negar os fatos na tentativa de ter razão: só assim é que poderemos separar um fato da "forçação de barra" que se faz usando de um fato.

É preciso ter a honestidade intelectual para admitir erros, equívocos e acertos – nossos e de nossos opositores. Por suposto, honestidade intelectual não significa fazer crítica cega ao que comumente se tem por sabido. Crítica cega àquilo que já é conhecido não passa de petulância e de idiotice. 

Honestidade intelectual teve Sócrates, que reconheceu saber unicamente que nada sabia. Também a tiveram boa parte dos filósofos. Tiveram-na os Padres Capadócios, que deixaram claro que devemos estudar os pagãos, porque estes, embora tivessem errado quanto à religião, acertaram em muitos outros pontos. Honestidade intelectual teve Santo Tomás de Aquino, em cuja Suma Teológica diversas vezes citou muçulmanos (Avicena e Averróis), mostrando que eles também acertam. Honestidade intelectual teve Santo Agostinho, que publicou suas Retratações, obra na qual reconhece todos os erros filosóficos que cometera até então.

Tenhamos o bom senso de saber que não sabemos de tudo para que, antes de criticarmos o desconhecido, aprendamos e o conheçamos. Essa honestidade intelectual é o mínimo necessário para aprender – é a filha mais velha da Humildade. Saber que não se sabe é o primeiro passo para aprender.

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