17 'truques' santos para ajudá-lo a chegar ao Céu


Alguns pequenos recursos que tenho tentado trabalhar no meu quotidiano... e funcionam!

OS SANTOS TÊM uma habilidade especial para viver e enxergar a vida e suas circunstâncias –, sejam coisas boas e momentos favoráveis, que nos sucedem a todos, ou os problemas e dificuldades que igualmente cada um de nós precisa enfrentar –, enquanto ardem de amor a Deus seguindo sua trilha espiritual. Assim, pelo contagiante exemplo de vida, levam outros com eles.

Talvez eu e você não tenhamos recebido as mesmas dádivas e carismas de um São Francisco de Assis, um Santo Antônio de Pádua ou um Padre Pio de Pietrelcina, e aqui estamos vivendo nossas vidas comuns, abastecendo nossos carros, comendo sanduíches quando o trabalho não nos deixa tempo para almoçar como deveríamos, checando nossa caixa de e-mails...

Mas podemos fazer tudo isso em espírito de oração, cultivando em nossos corações uma reverência profunda e constante pelo Criador, um amor incondicional ao nosso Pai do Céu. Como é que você procura cumprir o primeiro Mandamento em sua vida, amando Jesus sobre todas as coisas, mesmo se imperfeitamente?

Mas, oh! A rotina, as canseiras, as pequenas e grandes decepções desta vida, que vão se acumulando e roubando a nossa força vital... Seria possível elevar o nível de santidade em nossas vidas, mesmo na rotina do dia-a-dia, muitas vezes maçante e sem graça, para nos tornarmos católicos sempre cheios de vida e alegria, como devemos ser, dando exemplo ao nosso próximo?

Estou sempre atento a pequenos truques, que são formas criativas para maximizar o esforço nessa busca por disposição na santidade. Recentemente passei uma semana visitando meu pai de 92 anos. Isso me inspirou, ver o seu exemplo de vida até o final do seu percurso nesta Terra. Quando fomos à Missa, apesar de usar bengala, ele ainda genufletia todas as vezes que passava diante do tabernáculo, mesmo ficando numa posição muito desconfortável, precisando segurar em um banco com a mão esquerda e a bengala com a direita.

No início dos dias, acompanhei-o na caminhada que é o exercício físico que ainda pode fazer. Duas ou três voltas em torno de um parque próximo (duas ou três depende da intensidade do sol), enquanto reza o Terço do Rosário, meditando os Mistérios do dia. Faz questão de enumerar com toda clareza as intenções por que está oferecendo suas orações, e mais questão ainda de declarar que, em primeiro lugar, o oferecimento é para a glória de Nosso Senhor, e depois em honra de Nossa Senhora. Sua caminhada dura até o fim da récita. Algo próximo de 1 km, talvez um pouco menos, em cerca de 30 minutos.

Coisas assim, simples, podem nos ajudar muito a manter viva a fé – e a boa disposição que ela possibilita – no quotidiano. A seguir, elenquei uma lista daquilo que fui aprendendo em minha experiência pessoal e que me ajuda a ser um cristão católico cada vez melhor. Poderá ser útil também a você, dileto leitor.


1. Cultive pequenos hábitos santos

Eu li muitas vidas dos santos que me inspiram, mas suas vidas não se parecem com a minha. Algumas destas, honestamente, já me assustaram, pela dureza e crueza ou mesmo crueldade com que o mundo trata aqueles que pertencem à Verdade, que é Cristo. Mesmo Sta. Teresa de Lisieux, ou Sta. Teresinha, com a sua bela "Pequena Via", era uma freira clausurada. Recolher-se a um claustro pode até parecer atraente, às vezes, em determinados momentos em que sentimos que precisamos nos afastar do mundo com todos os seus problemas e incompreensões, mas não é um caminho para todos. Minha esposa e filhos, por exemplo tremem só de pensar em enfrentarem tamanha solidão. Além de tudo, eles precisam de mim –, e da minha presença –, em tempo integral.

Entretanto, ao longo dos anos, desenvolvi modos de superar os obstáculos à santidade que encontro na simplicidade, na monotonia e nas tribulações desta vida. Aqui estão alguns dos meus favoritos.

A citada "Pequena Via" de Sta. Teresinha revela-se tão possível e útil fora de um convento quanto dentro de um deles. Pequenas vias podem se tornar simples hábitos para a santidade, como deixar alguém avançar à sua frente no trânsito, deixar o último pedaço de pizza para outra pessoa ou pegar o lixo de outra pessoa.


2. Reze por pura gratidão (não só para pedir coisas)

Não há problema em levar nossas súplicas e necessidades a Deus; pelo contrário, devemos fazê-lo. Mas é preciso saber desapegar-se das meras necessidades desta vida, e simplesmente agradecer por todo o bem que nos é concedido, todos os dias, começando por nossa própria existência, a saúde que temos, as capacidades que recebemos, as pessoas que amamos, e também pelos problemas, obstáculos e dificuldades, que nos fazem aprender e crescer espiritualmente, assim como pelas pessoas que não nos amam, porque por meio delas recebemos preciosas lições.

A gratidão leva à humildade, faz crescer na perfeita caridade e nos aproxima da aceitação da Vontade de Deus. Poucos católicos compreendem que o conjunto dos Mistérios tradicionais do Rosário são mais como uma indicação ou sugestão da Igreja do que uma obrigação, à qual precisamos necessariamente nos engessar. Podemos variar, às vezes, por exemplo, meditando em algo por que somos profundamente gratos a Deus a cada dezena do Terço. É uma prática simples e fácil, mas transformadora.


3. Reze constantemente

"Orai sem cessar", disse o Apóstolo (1Ts 5,17). Em nossas multitarefas diárias, podemos fazer uso das tecnologias modernas para nos auxiliar a atender essa exortação. Podemos gravar nossas próprias mensagens, orações e salmos favoritos, por exemplo, em qualquer aparelho celular, e ouvi-las usando fone de ouvido enquanto cozinhamos, dobramos roupas, aguardamos na sala de espera do dentista ou cumprimos quaisquer tarefas.

Usar breves orações memorizadas ou rezar continuamente um permanente Rosário mental, em todos os enfadonhos atrasos desta vida, pode tornar-se um hábito que vai produzir belos e surpreendentes frutos. Os longos períodos de tempo perdido nos engarrafamentos deixarão de ser momentos de chateação para se tornarem sagrados momentos de edificação espiritual.


4. Peça o auxílio dos santos

Descubra o(a) santo(a) de cada dia, todos os dias, e peça-lhe suas orações, ainda que com uma brevíssima invocação. Eles podem ajudar muito mais do que você pode imaginar.


5. Não negligencie o seu anjo da guarda

“Não desprezeis os pequeninos: Eu vos afirmo que os seus anjos nos Céus vêem incessantemente a Face de meu Pai”, disse o Cristo (Mt 18,10). Fale sempre com o seu agente celestial especial – seu Anjo da guarda; faça-o todos os dias e procure estabelecer com ele um relacionamento estreito, contínuo e de intimidade. Como negligenciar tão grande amigo que recebemos de nosso Pai Celeste?


6. Torne-se um peregrino

Um santo hábito de nossos antepassados que vem sendo esquecido e desprezado em nossos tempos, pois os homens modernos só pensam em uma única coisa e tem uma única meta de vida: dinheiro e sucesso material.

Se for difícil viajar, escolha realizar uma peregrinação para um santuário ou catedral próxima. Brasileiros, sejamos mais criativos! Há muito mais lugares sagrados em nosso país, os quais podemos visitar em viagens de santa peregrinação, além de Aparecida! Em uma de nossas próximas edições listaremos algumas sugestões.

Acrescentar ás suas orações elementos como o caminhar, tomar um ônibus ou partir numa longa caminhada, um jejum equilibrado e saudável, além do próprio ato de se viajar a um lugar diferente e distante da rotina estressante do dia-a-dia – todas estas coisas podem elevar uma experiência simples ao nível de uma verdadeira peregrinação sagrada. Essa ideia consta do Manual do "Catholic Hipster": redescobrindo lugares onde viveram ou por onde passaram os santos, rezando suas orações esquecidas e revivendo certas práticas que hoje até nos podem parecer estranhas, chegamo-nos mais perto de Deus.


7. Um leve jejum, regularmente

Há um pequeno sacrifício escondido, que podemos fazer a cada refeição, como não comer a carne, as deliciosas batatas fritas ou algo de que se goste muito. O jejum é um sacrifício poderoso, então por que não praticá-lo com mais frequência? Não precisa ser feito todos os dias, mas que tal escolher uma ou algumas refeições específicas ou um certo dia da semana (além da sexta-feira) para maneirar um pouco?


8. Não coma carne às sextas-feiras!

Esta não precisaria aparecer aqui, já que se trata de uma obrigação de todo fiel católico. Observando a simples realidade, porém, vemos que apenas uma minoria observa este preceito. Apenas por isso resolvemos lembrar a regra: a legislação atual da Igreja continua determinando a abstenção de carne às sextas-feiras. Lembrando que o peixe nunca chegou a entrar na lista da abstinência por razões diversas: por ser um animal de sangue frio; porque sua presença era irrelevante nos banquetes medievais; porque é um alimento símbolo do próprio Cristo e do cristianismo. Já quanto ao frango, há alguma controvérsia. Ainda que seja um animal de carne branca, é de sangue quente, assim como o boi. Por isso, o seu consumo é geralmente proibido, com exceções específicas, como no caso de localidades paupérrimas onde o consumo do peixe se torna impossível devido ao custo mais elevado.


9. Ajuste o alarme para lembrá-lo(a), diariamente, da hora da Divina Misericórdia

Rezar o Terço da Divina Misericórdia (que é bastante breve) todos os dias às 15 horas seria uma belíssima devoção e prática de piedade na busca da perfeição cristã; mas, se não for possível, dizer ao menos uma breve oração ou jaculatório todos os dias neste horário, como: "Nós vos adoramos, Senhor Jesus, e vos bendizemos, porque pela vossa Santa Cruz remistes o mundo", ou "Meu Deus e meu Senhor, que com tantas dores e angústias nos remistes, perdoai-nos, que somos pecadores".

Além disso, se não for possível rezar o Terço da Divina Misericórdia diariamente, é mais que recomendável rezá-lo ao menos todas as sextas-feiras às 15 horas, e melhor ainda seria fazê-lo em uma igreja, diante do Sacrário.


10. Reze sempre e continuamente pelas pessoas que o irritam ou lhe fazem algum mal

Isto, além de ser um Mandamento de Nosso Senhor e de santificá-lo, ainda lhe fará uma pessoa mais feliz nesta vida, pois é como um santo remédio que cura mágoas e tristezas.

"Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos Céus" (Mt 5,44-45).


11. Não tenha medo de embasar suas opiniões e convicções na sua fé

Não caia na cilada do "Estado laico" que querem nos impor à força. Viver em um Estado laico não implica que precisemos renunciar à nossa fé e nem que tenhamos que nos comportar como ateus. Nas reuniões de pais e mestres ou do trabalho, nas conversas familiares, com colegas de serviço, nos encontros sociais e em todas as oportunidades, não tema demonstrar que você crê em Deus e pauta sua vida pela sua fé – e o quanto isto é bom e gratificante na sua vida e porquê. Mais do que isso, participe de petições públicas que combatam as ações anticristãs que nos ameaçam e contrariam nossos princípios sagrados no mundo de hoje. O site "Citizem Go" é um excelente ferramenta por meio da qual podemos manifestar a nossa vontade aos políticos e instituições.


12. Ajoelhe-se durante as orações

Evidentemente, nem sempre é possível, especialmente para os que cultivam o hábito de rezar continuamente, que citamos no item "3" deste artigo. Mas não reze desleixadamente; sempre que for possível, naqueles momentos em que realmente fizer uma pausa para rezar, ajoelhe-se diante de nosso Criador e Doador de todos os bens. Neste caso, isto será um gesto de adoração


13. Não receie identificar-se como cristão católico

Você pode, por exemplo, colocar uma etiqueta católica no seu carro. Isto não deixa de ser um modo de evangelizar até mesmo nos estacionamentos da vida, enquanto toma um rápido café espresso na sua cafeteria favorita.


14. Aproveite as indulgências

Aqui está um espécie de atalho para o Céu. As indulgências eliminam as penas temporais e são parte do ensino infalível da Igreja. As normas relativas às indulgências são relativamente complexas, mas rezando todos os dias pela manhã uma fórmula brevíssima, podemos garantir ganhar boa parte delas. É esta: "Tenho a intenção e o desejo de ganhar, hoje, todas as indulgências de que possa ser capaz, e as ofereço em satisfação dos meus pecados e em sufrágio pelas almas do Purgatório, especialmente as mais abandonadas. Amém!"


15. Distribua a Graça, que Deus lhe concede abundantemente, em público, o tempo todo e em todas as ocasiões 

Coisas simples como incluir as intenções de todos os que conhecemos, dos que nos pedem e dos que não pedem, mesmo aquelas que esquecemos, é uma forma de compartilhar a Graça divina. Outra forma é dizer a todos, sempre que possível, coisas como "Deus o abençoe", ou "Deus o acompanhe", "Deus o guarde" ou "Vá com Deus", inclusive ao zelador do prédio, à recepcionista do médico, ao caixa do banco, ao funcionário do metrô ou cobrador do ônibus, ao balconista da farmácia... São formas simples de testemunhar a sua fé e trabalhar pelo Reino de Deus, para que se mantenha sempre vivo nas mentes dos que lhe cercam, distribuindo e "fazendo circular" a Graça.


16. Nunca deixe de fazer o Sinal da Cruz ao passar diante de uma igreja ou entrar num cemitério

Já percebeu que muitos católicos não o fazem mais?


17. Quando alguém compartilha um problema com você, reaja como católico!

Além de aconselhar e encorajar, diga que vai rezar por ele, e faça-o realmente. Ofereça e, se possível e se não for constranger essa pessoa, reze com ela ali mesmo, na mesma hora e local.


† † †

Aí foi a lista dos que são alguns pequenos truques que eu tento usar na minha vida, embora eu ainda falhe muito e continue trabalhando no meu auto controle, no desapego das coisas deste mundo e amor cada vez mais incondicional a Deus antes de todas as coisas. Eu realmente preciso

fazer tudo isso um pouco mais e sem falhas, mas posso dizer, de boa consciência, que todos esses são bons e salutares objetivos. E você leitor, tem algum pequeno truque em sua vida de fé e piedade que gostaria de compartilhar com os seus irmãos em Cristo? Se quiser compartilhar, nos faria muito felizes. Você pode enviar para: ofielcatolico@gmail.com

Baseado em artigo de Patti Armstrong para o National Catholic Register

Publicado na revista O FIEL CATÓLICO n.23


** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

A vida de piedade e a felicidade que nunca tem fim


DILETOS LEITORES, estou incumbido atualmente da revisão e projeto gráfico para o lançamento da obra "A Mulher Piedosa", de Mons. Landriot, pela editora Caritatem. O conteúdo do livro é composto das transcrições de uma série de vinte e nove conferências ministradas por Monsenhor Jean François-Anne Landriot, Bispo de La Roche e Saints, França, às damas de caridade da mesma diocese, nos anos 1863/64.

As exortações de Mons. Landriot primam por uma clareza e um calor humano admiráveis. É admirável, especialmente, o frescor de suas palavras, proferidas há mais e um século e meio, comprovando que a mensagem do Evangelho é sempre atual e nunca perde sua vitalidade.

A décima quinta conferência, em especial, é de tal modo bela, convidativa à vida de santidade e própria para a nossa época – e este tempo do Advento – que fiz questão de vir compartilhá-la convosco, para a nossa frutuosa meditação conjunta. Aos que se interessarem, a campanha de financiamento para o lançamento desta valorosa obra (que compõe com a obra precedente do mesmo autor, 'A mulher forte', um  primoroso conjunto) encontra-se a todo vapor – mais informações aqui.

Apesar de se dirigir a senhoras, o texto serve indistintamente a todo o povo cristão que procura com honestidade pela autêntica vida espiritual. Segue, portanto, a íntegra da referida conferência. Que seja de proveito a todos.


Senhoras,

Sempre me pergunto: O que é a verdadeira piedade cristã? O que é a devoção? Essa pergunta é mais séria do que pode parecer à primeira vista. Em todas as coisas, as definições verdadeiras, as ideias justas, são da maior importância; mas, sobretudo, quando se trata dessas ideias-mãe, desses princípios fundamentais, que são, na vida humana, como que as fontes abundantes de onde jorram os mil riachos que correm pelos campos. O sentido que se dá a esta palavra – piedade – é uma dessas ideias-mãe que dão origem a uma multidão de consequências práticas: se a ideia que se tem da palavra é reta, e o sentido conferido a essa palavra é verdadeiro e cristão, a vida inteira será delicadamente iluminada e fecundada de uma maneira divina; ela será semelhante, na ordem religiosa, a esses prados atravessados por mil riachos de águas frescas e cristalinas. Desgraçadamente, nisso – como em todas as coisas – cada um interpreta um pouco a piedade segundo a sua maneira de ver; e em lugar de moldar sua alma pelo belo modelo que nos é apresentado pela Igreja, muitas vezes o desfiguram querendo apequená-lo e desnaturá-lo à imagem de sua própria personalidade: nesse terreno pode-se satisfazer todas as pequenas paixões da ignorância, do amor próprio e do egoísmo espiritual.

Veja aquela pessoa piedosa: para ela a piedade consiste essencialmente em se sobrecarregar de práticas, de recitar uma multidão de preces vocais. Outra se considera muito avançada na perfeição por inscrever-se em todas as irmandades. Uma terceira se toma por santa, ou ao menos deixa que outros o façam, porque comunga várias vezes por semana.

Que mais vos direi eu? Cada um tem seu ídolo da piedade, o acaricia, o contempla com admiração, o incensa todos os dias. Por que se faz da piedade simplesmente um ídolo, isto é, uma coisa vã, um simulacro, uma representação sem realidade?

Em outra ocasião já expus as características da piedade, tal como as compreendia São Francisco de Sales, este grande mestre da vida espiritual; mas me parece que nos caiba ainda estudar certos horizontes desse belo assunto, e é isso o que me proponho fazer em algumas instruções, nas quais me esforçarei em desenvolver a definição da verdadeira piedade, tal como os Doutores sempre entenderam e a praticaram.

O que é, então, a piedade cristã, segundo o espírito da Igreja Católica? Poderíamos defini-la assim: um sentimento interior, um sentimento amoroso, um movimento da inteligência e do coração que nos une a Deus, que aperfeiçoa nossa natureza inteiramente e nos dá uma facilidade maravilhosa para cumprir com alegria e prontidão todos os deveres da vida cristã e social. Completaremos nosso comentário em cinco conferências; detenhamo-nos hoje às primeiras palavras: a piedade é um sentimento interior.

Sem dúvida as senhoras já viram formular essa objeção contra os católicos: sua religião é um assunto de formas, de práticas, de movimentos exteriores que sufocam o sentimento religioso sob uma capa de areia, de terra infecunda, enquanto que o verdadeiro Reino do Evangelho consiste tão somente na adoração em espírito e em verdade. Há algo de certo, senhoras, nessas acusações, no sentido de que muitos católicos dão lugar a essas acusações com uma conduta supersticiosa e uma devoção pouco refletida. Mas a doutrina da Igreja responde admiravelmente a esses ataques, e para isso basta manifestá-la. Tal é a posição inexpugnável do católico: ele não está obrigado a justificar os desvios humanos e lhe basta que a doutrina seja pura e irrepreensível.

A piedade cristã é um sentimento interior, um movimento da alma que nos eleva energicamente a Deus, quer dizer, até o Ser infinito, Fonte de tudo o que é belo, verdadeiro e bom, tudo o que aperfeiçoa a inteligência e o coração. Se quisesse falar a língua dos poetas, eu diria que a verdadeira piedade é uma música inefável que ressoa continuamente no santuário íntimo, e faz do ser piedoso uma harmonia viva, cujos sons intraduzíveis em línguas humanas formam uma parte do concerto invisível que o Evangelho chama de adoração em espírito e em verdade. E, como disse Santo Agostinho, quando ouvimos essa música superior, aqueles sons tão doces aos quais nada pode ser comparado, superni cuiusdam soni nimium delectabilis, et incomparabilis, et ineffabilis, fatigamo-nos do tumulto deste mundo. Se quisesse imitar a linguagem dos Profetas, eu acrescentaria que a verdadeira piedade é uma flor requintada, escondida no mais misterioso canteiro da alma, e cujo perfume é tão delicado que os anjos a dirigem quase que inteiramente para as regiões celestes: Quasi flos rosarum in diebus vernis... et quasi thus redolens in diebus æstatis. Por isso, na história dos Santos, a parte mais admirável e divina é também aquela que escapa da visão dos homens.

Todo ser tem duas vidas, aquela que é visível e aquela que está escondida: a primeira, nos Santos, é bela e admirável, mas não pode ser comparada à segunda. É nos recantos mais misteriosos do coração que se deve penetrar para conhecer o que há de puro, de elevado, de nobre e de delicado na vida íntima da alma evangélica. Ali são todos os dias celebradas as mais belas festas da Terra, ali se consome o incenso mais perfumado da oração invisível, ali reside substancialmente o Espírito de Amor, que rende a Deus mesmo o culto mais puro da criatura racional, e produz gemidos inefáveis e ternos suspiros que exalam no seio de Deus: Postulat gemitibus inenarrabilibus! Oh! Como são belas e ternas essas solenidades interiores da alma piedosa! Não há nada nas festas públicas com que possam ser comparadas.

Muitas vezes, nos templos católicos a alma se sente piedosamente comovida: o canto dos salmos, o espetáculo imponente das cerimônias, a presença dos anjos na Terra, prostrados diante de Deus, tudo o que se vê, tudo o que se ouve domina o espírito e o eleva do mundo. No entanto, tudo isso nos pareceria pouca coisa se pudéssemos ver a vida interior de um Santo, contar as pulsações do seu coração, ouvir essa música contínua que nada mais é que o movimento de sua alma!

O que é a música? É o ar em movimento, mas o ar animado por um sopro inteligente? O que sentiríamos se pudéssemos ver e ouvir os movimentos contínuos de uma alma cujos pensamentos são hinos contínuos a Deus, cujas aspirações são cânticos melodiosos, cujos sentimentos são luz, vida, calor?

Senhoras, reuni com a imaginação tudo o que podeis conceber de mais belo, nobre e divino, não apenas na vida exterior, mas sobretudo, na vida da alma, e começareis a formar uma ideia ajustada da piedade cristã; compreendereis quão estranhamente a desfiguram quando fazem dela um simulacro exterior e a reduzem a práticas. A piedade é, antes de tudo, algo do coração e do sentimento íntimo: é uma seiva cuja fonte está no Céu e que cai primeiro nas cavidades íntimas da alma, logo difundindo-se até as folhas, ou seja, as ações da vida exterior.

“Não se honra a Deus senão com o amor”, disse Santo Agostinho: Nec colitur ille nisi amando. Também poderíamos dizer, e isto seria a confirmação da nossa definição, que a verdadeira devoção é o Amor de Deus no coração. O amor quer dizer o sentimento mais interior, mais suave, mais delicado, mais penetrante, mais irresistível. Coloque o amor em um coração e, como a chama que não se extingue jamais, este o invadirá inteiramente e, em violentas e pacíficas invasões, nada destruirá, mas criará por todas as partes novas formas e dará a tudo outra vida mais bela e mais elevada.

Um filósofo cristão dizia: “Para ensinar a virtude não há senão um meio: ensinar a piedade”. Esse pensamento parece a princípio errôneo, mas oculta uma profunda verdade. A virtude em si mesma, e segundo a etimologia da palavra, indica esforço, violência; e o esforço, sobretudo se é prolongado, se não for sustentado por uma força enérgica, acaba por fatigar a natureza. A virtude é o dever tomado por seu lado austero; mas a face austera do dever tem algo de espantoso: é a fisionomia do pai de família em seus dias de tristes preocupações; a piedade é, sem dúvida, o dever, e ainda mais que o dever, posto que abarca também o conselho evangélico. Ou seja, tudo o que não é estritamente controlado alegra o coração de Deus; a piedade é o dever, mas o dever com a fisionomia de uma mãe quando sorri para seus filhos; a piedade é o dever cumprido com amor, e é o amor que faz da virtude uma doce, fácil e agradável obrigação. Voluntariamente eu tomo emprestado um pensamento de São Francisco de Sales: “Seja a virtude uma planta, a piedade nela será a flor; seja ela uma pedra preciosa, a piedade nela será o seu brilho; seja ela um bálsamo, a piedade nela será seu perfume, suave perfume que conforta o homem e rejubila os anjos.

Estes princípios devem permitir que compreendam o pensamento de Joubert: “Para ensinar a virtude não há senão um meio: ensinar a piedade”. É difícil ser virtuoso por muito tempo sem ser piedoso, sem que a Religião seja uma prática de amor que envolva e transforme a vida inteira. O homem não pratica nada de bom se não o faz com amor. A piedade mesma, este sentimento interior que nos ensina a gostar e saborear a virtude; a piedade nos ensina amar a Deus e considerá-lo não como um ser abstrato que nos domina de tal modo que nunca se rebaixa ao nosso coração, mas como um pai, como uma mãe ternamente amada. A piedade nos ensina a tudo fazer para agradá-lo, como uma criança a quem nada é difícil no seio de sua família, que tudo sacrifica e contenta-se em seus sacrifícios porque sua mãe ali está e a recompensa com o seu olhar.

Portanto, não é de dever que falamos, é de amor, e isso é muito melhor até mesmo para fazer sólida a nossa virtude. A piedade cristã não é esta virtude seca e estoica dos antigos; não é tampouco esse sentimento austero e frio que existe em certas almas mais rígidas que a lei, mais “perfeitas” que os Santos. Não, a piedade é um sentimento pleno de doçura, que pacifica inteiramente o homem, alimenta-o de amor, sacia-o de ternura divina e une-o Deus com laços mais doces, mais fortes que todos os que podem ser expressos em línguas humanas. A piedade é o amor, e o amor mais verdadeiro, mais forte, mais penetrante que existe sobre a Terra; mas o amor, disse Santo Agostinho, é um peso que arrasta.

Considere um madeiro que tem um peso enorme em um dos flancos e pergunte por que ele submerge na água. Ele responderá: porque o peso me arrasta. Esta é, também, a razão pela qual o amor,

quando existe em alguma parte, faz o todo inclinar-se sobre esse ponto; o amor é a força que move os seres inteligentes, é o peso que inclina o coração e com frequência é o contrapeso das coisas do mundo: Pondus meum, amor meus. Aquilo que é pesado, o amor eleva facilmente para o alto; o que é leve, por outro lado, precipita-o no profundo abismo da caridade...

Mas quando o amor está ausente, não há força para suportar os fardos da vida e os pensamentos se evaporam na atmosfera secular cotidiana, porque não têm um lastro que os dirija. Sabeis porque há tão poucos homens verdadeiramente virtuosos? Porque há muito poucos sinceramente piedosos. Não amam o dever, porque a piedade não os habita para torná-los amáveis; e o dever ensimesmado é uma planta que seca rapidamente quando a piedade não umedece as suas raízes, e seu talo perde logo sua coroa de flores.

Pobre juventude! Por que não sois virtuosos? Por que todos os esforços aplicados a uma mais terna solicitude falham tão frequentemente? Não conheceis bem os encantos da piedade, as delícias do amor? Com demasiada frequência oferecem ao vosso coração, ávido de expansão e de amor, o talo seco e árido do dever, e vós o rejeitais. A Filosofia vos apresentará belas especulações sobre a virtude, quadros magníficos que deslumbrarão vossa imaginação e, contudo, na prática seu coração permanecerá frio. Frente ao perigo, não encontrará em si mesmo nada mais que uma desoladora debilidade: esse tem sido, continuará sendo o resultado das combinações da sabedoria humana! Tanto é verdade que o filósofo cristão tinha razão ao dizer: “Para ensinar a virtude não há senão um meio: ensinar a piedade”.

Poderíamos citar algumas exceções na prática das virtudes humanas, mas não fariam elas nada além de confirmar a regra.

A piedade é, portanto, um sentimento íntimo, um sentimento de amor que, partindo do interior, leva a vida ao exterior. Mas, então, para que servem todas essas práticas, todas essas cerimônias, orações e associações tão comuns na Igreja Católica? Parece, à primeira vista, que a Religião católica dá preferência às práticas, e que se dedica muito pouco a alimentar a alma.

Tratemos de compreender em toda sua perfeição o espírito da Igreja Católica: ele é dedicado plenamente a produzir almas esclarecidas e corações retos; mas quando a natureza das práticas católicas é alterada e, sobretudo, quando são praticadas sem que sejam compreendidas, facilmente julga-se encontrar nelas certa falsificação do Evangelho. O homem é composto de corpo e de alma, e geralmente as verdades e, de certo modo, as virtudes nos chegam através das coisas visíveis. Existe certa união entre o corpo e a alma, de tal forma que, reciprocamente, tudo o que se passa na vida material tem um caráter espiritual, e tudo o que se passa na vida espiritual tem uma manifestação material. Um olhar em direção ao Céu, uma palavra que transmita o perfume divino, uma atitude piedosa, uma genuflexão: estas são ações que podem ter a mais salutar influência sobre os nossos sentimentos interiores.

Pode-se dizer que certos pensamentos, certos afetos da alma são desenvolvidos sob os impulsos da vida corporal. Dessa maneira, as senhoras já devem ter reparado: geralmente saímos mais recolhidos de uma cerimônia religiosa na qual tudo nos tenha falado de Deus; quando o coração, farto dos desgostos da vida, se prostra ao pé da Cruz e recita uma dessas orações que a linguagem já não alcança, visto que é a explosão da vida interior, não é verdade que se levante mais forte, mais resignado e melhor? Além disso, a alma não é mesmo assim, ou seja, quando ela é fortalecida, deseja traduzir exteriormente o que não pode mais conter em si; e se o sentimento é reprimido no mais íntimo do coração, parece que não alcança sua perfeição e perde, em parte, a sua energia.

Aqui estão alguns dos motivos mais simples e ao mesmo tempo sérios que explicam perfeitamente o sentido das práticas de piedade, tal como são empregadas pela Igreja Católica. As práticas não são o fim, elas são o meio para alcançar a virtude. Assim nós não recitamos orações vocais apenas para mover os lábios, não comungamos para dar uma satisfação pueril ao nosso amor próprio. Rezamos para implorar o socorro do alto e o imploramos com todo o nosso ser, porque todo o nosso ser deve louvar a Deus, porque todas as nossas ações devem ter sempre, em razão de nossa natureza dual, alguma coisa que mantenha corpo e espírito. Comungamos a fim de receber a vida divina e exalá-la em todas as nossas obras.

Repetimos, com Pascal, que em alguns aspectos o homem é uma máquina. Sim, sobretudo depois de sua queda, o homem, muitas vezes, não passa de uma máquina bastante desorganizada. O homem tem de animal muito mais do que se crê, e tem muito do animal depravado; não compreendemos quanto imperam sobre nós os hábitos materiais. Nas comunidades religiosas, onde a vida cristã se encontra em toda a sua perfeição, alguns se admiram ao ver tantas cerimônias complicadas de coisas exteriores, de práticas, mortificações, de penitências, e são tentados a perguntar: esse é o Reino do Evangelho onde tudo é adoração em espírito e em verdade? Sim, esse é o Reino do Evangelho ou pelo menos sua preparação, um meio de domar o homem exterior e de atraí-lo progressivamente à adoração em espírito e em verdade.

Os Santos fundadores das ordens religiosas compreenderam que o homem caído tem algo de máquina, e que é necessário domar, amenizar e preparar essa parte animal do homem degradado. Os espíritos superficiais podem condenar esse sistema de educação; o homem ilustrado admira o que é profundamente verdadeiro. Assim como nos exercícios militares existem muitos movimentos com os braços, com a cabeça, com os pés, que à primeira vista parecem ridículos mas, no entanto, formam soldados valorosos e intrépidos capitães, do mesmo modo na vida religiosa existe uma preparação exterior, contínua, da parte inferior do nosso ser. Há também um sistema que se apodera do homem até em suas ações mais insignificantes, com uma vigilância que pode parecer exagerada, mas que o prepara para a prática das mais sublimes virtudes.

Terminarei com uma bela ideia de Fénelon: “As manifestações exteriores são boas quando saem do coração. Mas, ó Deus, vosso culto essencial não é outro senão o amor, e vosso Reino está inteiramente no interior: é necessário que não nos enganemos buscando a mudança no exterior”.

Todo o cristianismo, senhoras, se encerra nessas palavras; elas satisfazem todas as necessidades do coração humano. Sim, as manifestações exteriores são boas porque compraz aos filhos testemunhar ao pai o seu amor. E este testemunho é ele mesmo um sustento para a sua vontade. Sem embargo, essas manifestações de nada valem se o coração não tem parte com elas; porém, à medida em que o coração ama mais profundamente, ele necessita de silêncio e de recolhimento, busca menos ao seu redor porque se sente fortemente atraído à sua colmeia interior, onde encontra um mel delicioso; as coisas exteriores lhe fatigam com seu rebuliço. Então começa um novo reino para a alma, mais perfeito que o primeiro, no qual, sem negligenciar as ações práticas e concedendo-as a importância que aconselha a sabedoria cristã, buscam-nas com menos força. Nisto, a inteligência e o coração se tornam simples e, nesse processo, aproximam-se cada vez mais desse centro universal das almas, cujas fronteiras, diz a Escritura, estão guardadas pela paz, cujos habitantes vivem da paz, da confiança, do silêncio amoroso, muito mais que dos movimentos exteriores.

Sob esse ponto de vista a piedade corresponde a todos os sentimentos nobres das almas elevadas. Não é questão de formas; é um princípio divino que, apoiando-se com sabedoria e sobriedade nas formas, eleva-se gradualmente a um trono de glória e virtudes, onde se empenha cada dia em imitar a perfeição de Deus: “Sede perfeitos, como vosso Pai celeste é perfeito”, disse Jesus Cristo.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!


_____

Fonte:
LANDRIOT, Jean François-Anne. A mulher piedosa vol. II, Rio de Janeiro: Caritatem, 2019, pp. 13-22.

Sobre o cachorro do Carrefour e a desumanização nacional


Por Elício Nascimento
Colaborador da Frat. Laical S. Próspero


DE TEMPOS EM TEMPOS, que em nossa era digital duram cada vez menos [o caso em questão ocorreu há poucos dias e já cai no esquecimento], novas polêmicas surgem para nos fazer refletir sobre a sociedade e, observando-as mais a fundo, sobre a natureza humana. Das mais recentes dessas polêmicas é a que colocou, no centro do debate, a rede de supermercados Carrefour. 

A grande mídia e a internet têm divulgado de modo sensível e quase panfletário a covardia realizada por um segurança de uma unidade do grupo Carrefour, localizada em Osasco, grande São Paulo. Ele é acusado de ter espancado um cachorro até a morte e de, antes disso, ter tentado envenená-lo. O animal, segundo a denúncia postada em vídeo nas redes sociais, aparece com as patas traseiras feridas e marcas de sangue no chão da loja.

O cachorro chegou a ser socorrido pelo Centro de Controle de Zoonoses, mas não resistiu às agressões, vindo a óbito no local. Segundo a matéria veiculada no site da Revista Exame[1] o animal estava a alguns dias na unidade de Osasco do Carrefour. Chegou, inclusive, a ser alimentado por funcionários. As denúncias alegam que o segurança agrediu o animal a pauladas após ter recebido ordens superiores para "limpar" o estabelecimento por conta da visita de executivos naquele dia.

Ativistas de defesa dos animais protestaram na unidade no dia do ocorrido e, em pouco tempo, esse caso assumiu uma grande repercussão nacional que gerou enorme comoção.

Até aí, nada demais. Eu também defendo o respeito e a proteção aos animais. Contudo, manifesto aqui a minha discordância quanto à desproporção e à inversão de valores que me saltaram à (pouca) inteligência, a partir desse ocorrido.



No dia último 17 de novembro, a Sra. Antônia Conceição da Silva, de 106 anos (foto), foi morta a pauladas em Feira Nova do Maranhão, por um homem que invadiu a residência da idosa e, segundo a conclusão da investigação policial, realizou o crime porque foi reconhecido pela vítima. No fim, nada foi roubado.

Afinal, onde eu quero chegar? Talvez seja essa a pergunta do leitor. Bem, eu quero chegar à tamanha comoção pelo cachorro morto. Quero chegar aonde não chegou a comoção pela morte de uma indefesa cidadã honesta em avançada idade. Quero chegar, também, aos quase 1.700 abortos legais praticados no Brasil[2] por ano e aos anuais 850.000 abortos clandestinos[3]. Quero chegar ao número de homicídios praticados no Brasil que supera, em trinta vezes, os números de toda a Europa[4]. Eu quero chegar à humanização animal e à animalização humana.

Como assim? Sem querer generalizar, boa parte dos ativistas da causa animal também defende a descriminalização do aborto como um meio de proteção à vida das “mães”. Mas antes de pensar nas “mães” não se deveria pensar na parte mais indefesa da história, ou seja, o feto? Qual é o sentido do veganismo que abomina comer carne, por ser contra a morte dos animais, e aplaude ao direito feminista de exterminar vidas humanas intrauterinas? Qual é o sentido do humanismo que não se importa com a matança dos animais? E qual é a lógica do amor aos animais que “passa por cima” da quantidade de assassinatos que alcançam a todos, em nome da nova “modinha” cotista que só conta a morte dos indivíduos que integram o seu círculo de interesses?

Há duas formas de se enxergar a vida. Uma com e outra sem transcendência. Essas propostas visam explicar o mecanismo do mundo e o valor que pode ser dado à existência. Não há uma terceira via nessa abordagem. Onde não há nada além da matéria, toda vida se iguala. Assim, essa visão dá aos homens (pelo acaso) o mesmo valor das árvores, dos cães ou das formigas.

Mas se há transcendência no homem, há hierarquia. Imagine uma situação em que não há outra forma de sobreviver senão comendo cães e gatos – como, por exemplo, ocorre na Venezuela. Você deixaria seus familiares morrerem à míngua para proteger vidas de cães e gatos? Eu não. Em situações ordinárias, não comemos carne humana, correto? Mas alguns já comeram para não morrer. Caso não conheça, examine o caso do avião que despencou nos Andes chilenos no ano 1972. O uruguaio Roberto Canessa, um dos sobreviventes, disse em entrevista sem qualquer pudor: “Comi os meus amigos para sobreviver”[5].

Mais vale um humano morto ou um vivo? Animais são maravilhosos e, com certeza, devem ser amados. Mas entre salvar a vida de um cachorro e a de um ser humano, qual seria a sua escolha caso não fosse possível salvar as duas? Em nome da visão sem transcendência, eu salvaria à vida humana a favor da preservação da minha espécie. Em nome da transcendência eu salvaria a vida humana, por ser ela a expressão máxima de um Criador.

_______
Referências:
[1] BARBOSA, Vanessa. Morte de cachorro em loja do Carrefour gera onda de protestos. Disponível em: < https://exame.abril.com.br/marketing/morte-de-cachorro-a-pauladas-em-loja-do-carrefour-gera-onda-de-protestos/>Acesso: 05/12/18.


[2] FERNANDES, Marcella. Aborto no Brasil. Como os números sobre abortos legais e clandestinos contribuem no debate da descriminalização. Disponível em: Acesso: 06/12/18. 

[3] AUN, Heloísa. 8 fatos chocantes sobre o aborto no Brasil que você precisa saber. Disponível em: Acesso: 06/12/18. 

[4] SALGADO, Daniel. Atlas da Violência 2018: Brasil tem taxa de homicídio 30 vezes maior do que Europa. Disponível em: Acesso: 28/11/18.


[5] BRASIL, News. “Comi meus amigos para sobreviver”, relembra vítima de acidente aéreo. Disponível em:

Acesso: 06/12/18. 


** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

Sobre Damares Alves – uma brevíssima reflexão para hoje


Por Padre Silvio Roberto

A NOSSA FUTURA Ministra da Família e dos Direitos Humanos – Damares Alves – é mulher, foi vítima de violência sexual na infância e adotou uma criança indígena. Teria tudo, portanto, para ser respeitada pela esquerda, se nos basearmos naquilo que eles costumam defender com veemência e em que se baseiam para atacar Bolsonaro (machista, racista, intolerante, etc.). Soma-se a isso, ainda, a sua formação técnica.

Mas na prática nada disso vale para os esquerdistas. Como ela não é feminista, nem defensora do aborto e da destruição da família, então não serve para eles, e por isso é atacada e desrespeitada de todas as formas, principalmente por meio do deboche

Esclarecendo que os eles aqui são "artistas", políticos do PT, PC do B e PSOL, alguns comentaristas famosos como Leandro Karnal, etc. Fiéis católicos, fiquemos atentos com essa gente!

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

'João de deus'(?) e o espiritismo


Por Bruno Braga e Henrique Sebastião

UMA CONSIDERAÇÃO A MAIS sobre as denúncias que envolvem o charlatão João Tarado, chamado "médium 'João de Deus'". Na realidade, o nome dele é João Teixeira de Faria. De nossa parte, ficamos impressionados com a desfaçatez com que toda a mídia trata esse patife por 'médium' – como se essa invenção espírita fosse um fato inquestionável – e, mais além, como continuam chamando um maníaco que usa e abusa da crença e da fragilidade das pessoas de "João de Deus".

Aqui nos concentraremos na justificativa mais comum, que sempre ouvimos e lemos – até da parte de cristãos de boa-fé – para tentar distanciar o acusado do espiritismo como um todo: a prática das obras de caridade. Antes, porém, convém refletir: ora, se os atos praticados em Abadiânia são contrários àquilo em que creem os espíritas e vão contra as determinações da Federação Espírita Brasileira (FEB), que vem agora emitir nota (leia) dizendo que não recomenda o tipo de "atendimento" individual que fazia o tal João, então por que nenhum representante do espiritismo se manifestou antes, publicamente, condenando o farsante?

Há realmente muitíssimos casos semelhantes a este (como por exemplo o de um outro 'médium' paranaense acusado de abuso sexual por mais de 60 menores), que, se não envolvem necessariamente crimes sexuais, estão sempre ligados a charlatanismo, abuso da voa vontade alheia e, principalmente, enriquecimento ilícito. Quem não se lembra, entre tantos, do engenheiro Rubens de Faria Júnior, outro "médium" que dizia incorporar o espírito do "Doutor Fritz" (um fictício médico alemão que teria ajudado judeus durante a 1ª Guerra Mundial) e fez uma fortuna milionária em curto espaço de tempo, cobrando, à época, R$20,00 de cada uma das mais de 2 mil pessoas que diariamente procuravam os galpões que mantinha no Rio de Janeiro e em São Paulo? Rubens se fingia de "humilde" e andava em carros simples, sem que ninguém soubesse que possuía uma coleção de automóveis Mercedes, em nome de terceiros. Na época, foi comprovado que tinha sete carros importados, apartamentos no Rio e em Miami, e seus bens não-declarados à Receita superavam R$ 1 milhão.

Fato é que a nossa podre grande mídia, que segundo muitos caminha a passos largos para cair – de podre – ajudou o quanto pôde no estabelecimento de toda essa situação, em inúmeras reportagens e "documentários" que faziam uma verdadeira apologia do espiritismo e nos quais o tal "João de deus" era sempre tendenciosamente retratado como um grande homem, um exemplo de amor ao próximo, um santo desapegado que só sabia fazer o bem e a caridade... Algo muito parecido com o que fizeram com Chico Xavier. Aliás é esta, como dissemos, a bandeira e a tese mais comum dos que tentam justificar o espiritismo, alegando que se trata de uma doutrina válida: a das "obras de caridade".

"Os espíritas realizam muitas obras sociais", "os espíritas ajudam muita gente", etc., etc. Sim, é verdade que os espíritas têm suas "boas obras", e é verdade também que uma obra de caridade é, em si, uma coisa boa. No entanto, a obra de caridade não pode ser o critério último para atestar uma prática ou ação, sobretudo no âmbito da fé. Dou um exemplo que pode, em princípio, ser visto como radical, mas ao qual se aplica o mesmo princípio fundamental. A famigerada "Church of Satan" também realiza determinadas obras de caridade. Porém, é preciso no mínimo especular, tomando-se um horizonte mais amplo: como a "igreja de Satanás" conduz e coloca as pessoas envolvidas por essas obras diante da perspectiva da eternidade?

A mesma pergunta deve ser feita com relação ao espiritismo ou, de forma mais apropriada, com relação ao espírita em pessoa. Sabe-se – por meio da experiência e do testemunho de autoridades eclesiásticas – que a invocação de espíritos expõe tanto o médium quanto o seu eventual "paciente" a influências maléficas e em muitos casos à possessão demoníaca[1].

Quanto ao juízo referente a tal prática, ele é bastante claro:

Não recorrais aos que evocam os espíritos, nem consulteis os adivinhos, para não vos tornardes impuros. Eu sou o SENHOR vosso Deus.
(Lv. 19, 31)

Quando tiveres entrado na terra que o SENHOR teu Deus te dá, não imites as práticas abomináveis dessas nações. Não haja em teu meio quem faça passar pelo fogo o filho ou a filha, nem quem consulte adivinhos, ou observe sonhos ou agouros, nem quem use a feitiçaria; nem quem recorra à magia, consulte oráculos, interrogue espíritos ou evoque os mortos. Pois o SENHOR abomina quem se entrega a tais práticas. É por tais abominações que o SENHOR teu Deus deserdará diante de ti estas nações.
(Dt. 18, 9-12)

Ademais, é preciso considerar que a obra de caridade supre uma necessidade temporal; mas em última análise, o que está em jogo, aí, é a eternidade – dado o contexto acima, determinada obra pode conduzir a uma situação de risco a pessoa e o seu destino eterno. Por isso, importa recordar a lição do Papa Bento XVI, que não hesitou em afirmar:

Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé.[2]

Enfim, óbvio que nem todo alegado "médium" – ou espírita – é um abusador sexual ou é desonesto. Evidente que não. Mas é igualmente evidente que, se João de deus, por conta da própria natureza da prática de invocar e de se submeter a espíritos, pode ter sido exposto à influência maléfica e à possessão demoníaca, da mesma forma se expõe todo e qualquer espírita, e todas as pessoas que de alguma forma se aproximam dessa prática [3].



_______

Ref.s e bibliografia

[1]. Cf. [http://bit.ly/2Ed5S4B]; [http://bit.ly/2UF4q0I];
LARA, Duarte Sousa. Demônio, exorcismo e oração de libertação em 40 questões. São Paulo: Canção Nova, 2014. pp. 61-63, questões 7, 8, 9, 10.

[2]. Bento XVI, Caritas in Veritate, 3 [http://w2.vatican.va/…/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-v…].

[3]. Idem à nota 1.

* Blog do Bruno Braga
www.ofielcatolico.com.br

Mensagem aberta de Bernardo P. Küster aos católicos do Brasil


Recebida ontem, 11/12/2018

MUITOS, CONTRASTANDO as denúncias que faço sobre problemas na Igreja Católica no Brasil, abrem os braços para o desespero e um pessimismo quase insuperável. 

Comunico que um grande número de fiéis, religiosos e membros da hierarquia nunca estiveram tão ávidos para resgatar o melhor do Catolicismo em nossa terra. São tempos alvissareiros! Desde agosto do ano passado até dezembro do presente ano, realizei mais de sessenta viagens dentro e fora do Brasil. Vi, ouvi e senti a temperatura dos católicos em dezenas de cidades e pontuo sem medo: o futuro é promissor. Muito promissor.

Centros católicos brotam em todos os estados da União, artistas talentosíssimos surgem sem medo, jovens escritores audaciosos e historiadores sérios estão por toda parte. Teólogos, futuros filósofos, uma miríade de vidas consagradas. Santo Tomás de Aquino tem guiado mentes curiosas, Santos místicos inspirado e ensinado a intimidade com Nosso Senhor e Sua Mãe, editoras e mais editoras católicas publicam em profusão; há congressos, fóruns, reuniões de oração e terço, ardente devoção mariana e ao Sagrado Coração de Jesus, um ímpeto militante pelo Reinado Social de Cristo, congregações renovadas, igrejas restauradas, iconógrafos brilhantes, compositores inspiradores, apego à Doutrina e à Tradição, estudo meticuloso das Sagradas Escrituras, turmas e professores de latim por toda parte, famílias numerosas, comunhão diária, confissão frequente e corações até dispostos ao martírio. 

Ninguém me contou. Eu vi!

Dito isto, acrescento: há problemas e desafios nababescos pela frente, sim. Jamais fechemos nossos olhos para estes. Encaremo-los, todavia, como motivo ainda maior de esforço na busca da santidade, para a maior glória de Deus.

Meus caros, Deus tem atendido as orações dos que clamam com fé. Fiquemos firmes e confiantes. Não desanimemos. Progridamos sem medo, pois Deus é conosco!

Uma semana de muita oração e trabalho a todos.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

A Igreja de Cristo dividida em grupos?


QUANTOS GRUPOS EXISTEM, hoje, na Igreja Católica? Logo de imediato, ao ouvir essa pergunta, qualquer católico minimamente atento poderia mencionar dois: o dos modernistas e o dos tradicionais. Porém a questão é muito mais complexa. Vejamos...

Ocorre que, inseridos dentro desses mencionados dois grandes grupos, temos uma variação de subgrupos que os compõem, como por exemplo os adeptos e simpatizantes da herética “'teologia' da libertação” (TL), que se incluem no grupo dos modernistas. Claro, nem todo modernista é, necessariamente, adepto da TL, embora todo simpatizante da TL seja necessariamente um modernista. Por outro lado, existem católicos favoráveis a toda sorte de inovação na Igreja e “invenções” na Liturgia, mas que não adotam nem apoiam a deturpação marxista da Doutrina sagrada.

Por outro lado, não é conveniente e nem é correto citar o grupo que adere à TL como um grupo "católico", porque de fato não é. Para dizer de modo claro e sem embromações, estamos tratando, aqui, de um grupo de hereges excomungados latae sententiae; simples assim. Descontados aqueles que apoiam o movimento por ingenuidade e/ou mera ignorância, trata-se de gente que não têm fé católica, que não crê na autoridade da Igreja, na materialidade dos Sacramentos, nos milagres de Deus, etc. Por fim, não creem nem sequer na Ressurreição de Nosso Senhor.

Ainda entre os modernistas, não há como não se mencionar o povo da Renovação Carismática Católica (RCC). Um grupo modernista, sim, porém com peculiaridades distintivas. Conheço gente da RCC que é fidelíssima no estudo da Doutrina, lê Sto. Tomás de Aquino e as vidas dos santos, manda carta para o bispo criticando atitudes de padres marxistas, etc. Ainda assim, claro, não podem se incluir entre os tradicionais por dois motivos bastante evidentes: os abusos na Liturgia e a protestantização da fé.

Muito, e em muitos lugares, já se falou sobre a grande polêmica envolvendo a RCC. Nós, da Fraternidade Laical São Próspero, apesar de não nos identificarmos com esse tipo de espiritualidade e nem com esse tipo característico de pregação (que apela sempre ao sentimentalismo, com musiquinha emotiva tocada ao fundo) respeitamos o movimento carismático na Igreja por alguns motivos: 1) porque é um movimento majoritariamente composto por pessoas de boa vontade, que têm uma fé viva e autêntica; 2) porque, catolicamente, ali não se faz acepção de pessoas, como ocorre em outros grupos; 3) principalmente porque esse movimento não deixa de ser uma grande porta de entrada e de retorno à Igreja Católica: já o foi, de fato, para uma verdadeira multidão (em nossa fraternidade temos gente que retornou à Igreja por essa via, ainda que hoje viva uma outra experiência de fé).

Nada disso, porém, anula a realidade dos abusos litúrgicos da RCC, que em muitos casos são realmente graves. Também é impossível negar que a responsabilidade maior por esse problema é dos padres muito “criativos” (muitos destes igualmente bem intencionados) que se portam como verdadeiras “estrelas”, fazendo-se o centro das celebrações.

Sobre esse problema, particularmente incomoda-nos o fato bastante óbvio de que seria muito fácil resolver tudo e de uma vez por todas, se todas as expressões que provocam a polêmica (os louvores gritados, a música agitada tocada com instrumentos no volume máximo, a liberdade de expressão total durante o culto, etc.), fossem realizadas em encontros de oração próprios, organizados pela mesma RCC. Aí, sim, seria o momento e o ambiente ideais para se dar vazão a toda essa energia especialmente característica dos brasileiros (já que em outros países os encontros da RCC são bem mais moderados do que os nossos). Bastaria não confundir esses eventos de louvor com a celebração da santa Missa e a renovação do Santo Sacrifício, compreendendo-se que são realidades distintas, e assim, de modo realmente simples, tudo se resolveria.

Outro problema sério da RCC é a nítida protestantização da fé da Igreja, se não na Doutrina teórica, certamente na prática, com certas deturpações (ainda que pontuais) e na ideia de que novas “revelações” divinas surjam a todo momento entre eles (‘Deus me falou agora que tal irmão deve fazer isso e aquilo...’), em cada reunião desses grupos.

Mas esta reflexão não é sobre a RCC. É sobre divisões na Igreja. E entre os católicos tradicionais temos também algumas subdivisões. Temos aqueles mais radicais, que só assistem Missa em latim, rezam em latim e recusam qualquer valor no Concílio Vaticano II; estes são geralmente chamados tradicionalistas ou radtrads (tradicionais radicais). Há outros ainda mais radicais, os que adotam o sedevacantismo e creem que o Trono de Pedro está vago; são os sedevacantes (a maioria destes crê que o último papado válido foi o de Pio XII, mas há outros que creem que Bento XVI foi o último papa eleito canonicamente, rejeitando apenas Francisco).

Quanto aos sedevacantes, porém, como no caso do povo da TL, torna-se difícil chamá-los ainda “católicos”, mesmo que pela minha experiência (como diretor de apostolado há mais de dez anos) eu perceba, conheça e reconheça que muitos dentre eles são sérios e procuram honestamente santificar suas vidas. Acreditam piamente e com pureza de alma que estão fazendo o certo, e (alguns dentre estes) o fazem por amor a Cristo. Fato é que Deus julgará a todos.

Para não deixar este artigo sobre grupos longo e enfadonho demais, não falaremos em detalhes sobre os populares católicos “isentões”, aqueles que apreciam se manter sempre "em cima do muro", em todas as situações difíceis, nem dos chamados “católicos jujuba”, aqueles que, muito bonitinhos e sempre "politicamente corretos", têm para si o respeito humano como se fosse o principal de todos os mandamentos. Confundem a ordem de Cristo sobre não julgar com aceitar tudo, achar tudo normal e viver um catolicismo que se assemelha muito, na prática, ao espiritismo: questões relativas à moral e à Doutrina objetivamente não importam; para eles, basta "fazer o bem" e praticar a caridade para ser um bom cristão.

Não falaremos em detalhes, ainda, dos católicos “vaquinhas de presépio”, que elevam o respeito à hierarquia eclesiástica acima da própria obediência aos Mandamentos de Deus e os da Igreja, achando que absolutamente tudo que o padre ou o bispo dizem é verdade inquestionável e dogma imutável (muitos destes são verdadeiros 'papólatras'), nem dos tradicionalistas fariseus” ou legalistas, que se preocupam e se empenham muitíssimo em todas as aparências de santidade e com a Liturgia em suas minúcias, mas que não têm noção do significado da palavra caridade, odeiam os pobres e não são capazes de mover sequer um dedo para ajudar algum irmão que sofre e que legitimamente lhes pede auxílio.


* * *

Apresentados, desse modo breve e geral, os grupos e subgrupos em que vem se dividindo a Igreja, cabe concluir expondo aquilo que identificamos como uma grande tragédia, um dos maiores problemas que vivemos em nossos tempos: ocorre que, dos dois grandes grupos principais, com suas particularidades e desafios, a imensa maioria dos nossos pastores vêm valorizando, assistindo e incentivando apenas um, o dos modernistas. Por que isso acontece? Por um lado, porque há uma dificuldade de se identificar a realidade objetiva; não se enxerga ou não se quer enxergar essa diversidade. Por outro lado, há, da parte de membros poderosos e infiéis do clero, o desejo (já antigo) de superar definitivamente todo o passado santo e glorioso da Igreja pré-Vaticano II, enterrá-lo bem fundo e esquecê-lo, como se nunca tivesse existido. Note-se que essa corrente existe e atua já desde bem antes do próprio Concílio e foi o que motivou, em grande medida, a realização deste.

Além disso, há a grande novidade imposta após o mesmo Vaticano II (ainda que o próprio Concílio não o tenha determinado em nenhum momento): a novidade de elevar a comunidade – “o povo, o povo” – como centro e ápice da vida litúrgica. De fato, na Igreja tal como era antes, não seria possível ocorrer essas divisões e subdivisões em grupos, porque havia um conjunto de regras realmente muito claras, uma doutrina moral muito bem definida, uma celebração Eucarística (que é o centro da vida da Igreja) igual em todas as igrejas e a absoluta submissão e discrição dos sacerdotes. E os que não o aceitassem ou se insubordinassem contra bispos fiéis, eram rapidamente afastados.

Sim, é inescapável: se refletirmos por alguns instantes em cada um desses grupos, torna-se inegável que o seu surgimento não seria possível na Igreja que existia antes do Concílio.

Porém o mais importante é manter em mente que essa Igreja dita “pós-conciliar” simplesmente não existe. Ora, Cristo e os Apóstolos são “pré-conciliares”! E a Igreja, enquanto continuidade histórica da Encarnação do Cristo, assim como Ele é sempre a mesma, ontem, hoje e eternamente (conf. Hb 13,18).

Logo, que não se pense que existam “duas Igrejas”, uma modernista, com os subgrupos que a compõem, e outra “tradicional”, com seus próprios subgrupos. Só há uma Igreja, como só há um Corpo santo, e essa Igreja persiste naqueles que lhe são fiéis. É a esta Igreja-Cristo que queremos servir, é a esta que amamos tão profundamente, é desta que queremos ser membros e instrumentos no mundo. E ela perdurará e triunfará sobre o Inferno –, em Cristo com Cristo e por Cristo –, até o fim dos tempos, porque assim nos prometeu Nosso Senhor (Mt 16, 18; 28,19-20).

...E, ainda que para a nossa fé não fosse necessário, assim também confirmou Nossa Senhora a permanência e o triunfo da Igreja, em Fátima, na aparição de 13 de julho de 1917, depois de mostrar o inferno aos Pastorinhos e de prometer que viria pedir a consagração da Rússia, a Devoção Reparadora dos Cinco Primeiros Sábados e lhes mostrar o futuro apocalíptico: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.


* * *

Em qual grupo nós, da Fraternidade Laical São Próspero, nos incluímos? Frequentemente nos perguntam. E a resposta não varia: a nenhum. Somos católicos. Ponto.

Sabemos todavia o que não somos: não somos modernistas e nem queremos inovações daquilo que é atemporal, pois a Igreja não admite modismos e nem precisa "evoluir" enquanto tal, e sim permanecer firme na Tradição recebida dos Apóstolos. Somos, então, tradicionais, sim, porquanto a verdadeira Igreja é a que observa a Tradição dos Apóstolos (2Ts 2,15). Mas não nos consideramos tradicionalistas radicais; tudo o que queremos é que a verdadeira Igreja de Cristo, que é Una e que reúne os santos do Céu (muitíssimo mais numerosos) e os que agora caminham sobre a Terra, assuma e viva aquilo que é: o Corpo Místico de Cristo, a Casa do Deus Vivo, que tem um só Senhor e professa uma só Fé e um só Batismo (conf. Ef 4,5).

Não nos arrogamos o direito ou a autoridade – assim como não poderíamos mesmo fazê-lo – de ditar regras ou dizer quem está ou não em Comunhão com a Igreja. Isso é diferente de denunciar os erros, onde existam e sejam claros, o que se configura, aí sim, em uma prerrogativa dos leigos garantida inclusive pelo Código de Direito Canônico (Cân 212, §§ 2-3).

Sendo assim, a nossa postura é a da prudência e da busca diária, incessante – nas súplicas e na perseverança – da Fé, da Esperança e da verdadeira Caridade. Entristecemo-nos com a situação cada vez mais difícil e sofremos junto com a Santíssima Virgem que, em tantas aparições, como em La Salete, chora por seus filhos. Indignamo-nos com a falta de zelo de tantos dos nossos pastores, e com as verdadeiras traições de outros tantos. Queremos apenas e tão somente servir como um útil instrumento para todo aquele que busca a Verdade e erra confuso nestes nossos dias de tempestades.


** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!
www.ofielcatolico.com.br

Estátua satanista é levantada no Capitólio de Ilinois, EUA, para as festas de Natal e Ano-novo


ENTRE UMA BELA ÁRVORE de Natal e uma exposição de menorás (castiçais judaicos tradicionais) na capital do estado de Illinois, EUA, foi instalada uma estátua do Templo Satânico para representar, igualmente, a temporada de festas de final de ano.

Trata-se da representação de uma maçã sustentada por um braço cercado por uma serpente, referência direta a Satanás, "inimigo de Deus" e da humanidade. As palavras “Conhecimento é o maior presente” estão escritas defronte de sua base negra. Pretendem significar que o que o diabo tinha  – ou tem – a oferecer à humanidade é o conhecimento, que nos fará "iguais a Deus".

O tributo satânico foi erguido na rotunda do Estado, em Springfield. Próximo da exibição está afixada uma explicação oficial do governo local. Diz o documento:

O Estado de Illinois é exigido pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos a permitir exibições temporárias e públicas no Capitólio do Estado, desde que essas exibições não sejam pagas pelos dólares dos contribuintes. Como o primeiro andar da Rotunda do Capitólio é um lugar público, as autoridades estaduais não podem censurar legalmente conteúdos de fala ou exibições.

O Templo Satânico em Chicago fez uma campanha no "GoFundMe", chamanda "Snaketivity" (em oposição à 'Nativity'/Natividade de Jesus, celebrada pelos cristãos). O projeto conseguiu obter um financiamento ainda maior que a meta estabelecida pelos satanistas, sendo que as receitas restantes devem ser doadas ao Templo Satânico.

Os organizadores disseram que o objetivo da exibição é "não mais permitir que uma perspectiva religiosa domine o discurso na rotunda do Capitólio do Estado de Illinois durante a temporada de férias".

O Templo Satânico foi fundado em 2012, em Salem, Massachusetts. O grupo se descreve como não teísta e afirma não crer em um Satanás literal. No seu website, a organização diz que o objetivo do grupo é "exercitar um agnosticismo razoável em todas as coisas". Em outras palavras, o que eles defendem e representam é um ateísmo militante e anticristão.

O grupo lançou campanhas semelhantes no passado. Em 2015, propôs uma outra exibição satânica nos terrenos da capital do estado de Oklahoma. Pouco tempo depois, , a pedido do mesmo templo, um tribunal ordenou a remoção de um monumento aos Dez Mandamentos de Deus no terreno do Capitólio.

Eles também entraram com uma ação contra o estado do Missouri, em razão dos panfletos informativos que o Estado exige que os provedores do aborto  distribuam, argumentando que a exigência violava a "liberdade religiosa" de seus membros.

Professem ou não uma literal devoção espiritual a Satanás e aos demônios, de fato e sem nenhuma dúvida o o templo satânico norte-americano está fazendo, e muito bem feito, o trabalho do diabo no mundo, a começar pela propagação da teoria de que o próprio diabo não existe – que é a maior meta de Satanás em nosso mundo nos nossos tempos. Se você, leitor fiel católico, chegou a este ponto da leitura, faça uma breve pausa para rezar ao menos a breve fórmula de desagravo ensinada em Fátima pelo Anjo de Portugal, seguida da oração de Leão XIII a São Miguel Arcanjo:

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos.Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu vos adoro profundamente e vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da Terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido; e pelos méritos infinitos de seu Sacratíssimo Coração e os do Imaculado Coração de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores. Amém.

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede nosso refúgio contra a maldade e as ciladas do demônio! Ordene-lhe Deus, instantemente o suplicamos, e vós, príncipe da milícia celeste, pela Virtude divina, precipitai ao inferno Satanás e todos os espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

_____
Fonte:
Catholic Herald
Satanist statue erected for the holidays in Illinois-Capitol, em:
catholicherald.co.uk/news/2018/12/06/satanist-statue-erected-for-the-holidays-in-illinois-capitol/
Acesso 5/11/2018

www.ofielcatolico.com.br

O primeiro Natal de Paul Claudel


PAUL LOUIS CHARLES CLAUDEL nasceu aos 6 de agosto do ano 1868, em Villeneuve-sur-Fère-en-Tardenois, uma pequena aldeia do Aisne, na França. Apesar de terem saído vários padres da família de Claudel, depois de chegar a Paris ele mesmo era indiferente à Religião, conforme escreveu em sua obra "Ma Conversion" (de 1913): “Tornei-me nitidamente um estranho às coisas da Fé”. E isso não deveria nos surpreender, considerando-se o que se passou com as mentes de numerosas famílias burguesas na segunda metade do século XIX.

Claudel acrescentou ainda aos seus escritos: “Tinha feito uma boa primeira Comunhão, que, como ocorre com a maioria dos jovens, foi ao mesmo tempo o coroamento e o fim das minhas práticas religiosas...”.

Como descrever a atmosfera dos idos de 1880 em termos diferentes dos que emprega o próprio Claudel? Parecia que o cristianismo tinha sofrido um eclipse quase que total no plano intelectual:

Com dezoito anos, minhas crenças eram as da maioria das pessoas consideradas cultas na época. A noção clara do individual e do concreto estava meio adormecida em mim. Aceitava a hipótese monista e mecanicista com todo o seu rigor; acreditava que tudo estava submetido às leis físicas e que o mundo era um rígido encadeamento de efeitos e causas que a ciência logo explicaria perfeitamente. Tudo isto me parecia, entretanto, muito triste e aborrecido.

Claudel conservou, destes anos passados na descrença e "na imoralidade”, como ele próprio diz, uma lembrança opressiva. Evocou-os em pelo menos vinte passagens das suas obras, como por exemplo na primeira estrofe de "L´Ode Jubilaire pour le Sixcentième Anniversaire de Dante Alighieri" ('Ode jubilar pelo sexto centenário de Dante Alighieri'), de 1921:

O mundo, por si só, dificilmente nos poderia persuadir de que é completo e suficiente. Difícil nos é acreditar seriamente que não temos direito a mais nada. Esta parede de figuras imutáveis, com as mesmas enervantes questões, onde colocamos nossas histórias inconsistentes... Difícil é impedir que desmorone e que se torne bizarra e transparente. Difícil é vendar os olhos todo o tempo e pensar em outra coisa. Difícil é, como se não o soubéssemos, ouvir os elogios ao vinho e à rosa que amamos: as armadilhas que são armadas, peça a peça sob nossos pés, a doença e o pecado; é humilhante nelas cair sempre, e sentir-se sempre um imbecil e um fraco; é humilhante sofrer a imposição da grosseira máquina corporal quando sabemos que fomos feitos para comandá-la; e é idiota a vanglória da carcaça de que somos inquilinos desconfortáveis, este palácio sobre o mar em que nada compensa o tédio espantoso...

A ideia da morte incomodava Claudel. Tinha sentido muito o falecimento do seu avô e o de uma tia-avó – que gritara tanto durante a agonia final que todos a escutaram, de uma extremidade a outra de sua aldeia. Nessa época, Claudel conheceu a obra de Arthur Rimbaud (foto), gênio poético precoce – que lançou sua primeira coletânea ('Le Bateau Ivre') aos dezessete anos de idade e que defendia a ideia de que a poesia nasce de uma “alquimia” da musicalidade e dos sentidos. Escreveu Claudel aos 12 de março de 1908 ao também escritor Jacques Rivière:

Rimbaud foi a influência maior que sofri. Outros, principalmente Shakespeare, Ésquilo, Dante e Dostoievski, foram meus mestres e mostraram-me os segredos da minha arte. Mas Rimbaud teve uma influência que chamarei de paternal, e que me fez crer realmente que há uma geração espiritual assim como há uma geração corporal.

Lembrar-me-ei sempre da manhã de junho de 1886, quando comprei o pequeno folheto de 'La Vogue' que continha o começo de 'Les Illuminations' (Iluminações). Foi uma revelação para mim. Saía enfim do mundo odioso de Taine, de Renan e de outros Moloques (divindades semíticas pagãs a quem os pais sacrificavam seus filhos) do século XIX, desta prisão, desta insípida mecânica inteiramente governada por leis perfeitamente inflexíveis e, para cúmulo do horror, conhecidas e ensinadas. Eu tinha a revelação do Sobrenatural. O gênio mostra-se, em Rimbaud, sob sua forma mais sublime e mais pura, como uma inspiração realmente vinda não se sabe de onde.

Alguns meses mais tarde, Claudel leu "Une Saison en Enfer" (Uma Temporada no Inferno). Pode nos surpreender a influência exercida por Rimbaud, que ele não sabia nem mesmo se era cristão, pelo menos quando escreveu as "Illuminations" e "Une Saison en Enfer". E aqui nos deparamos com um mistério desconcertante: a obra de arte tem seguramente outra significação além da que lhe quis dar o autor. Quais poderiam ser as intenções de Rimbaud no momento em que escrevia seus poemas – que fossem blasfematórias, como alguns sustentaram, ou que, ao contrário, Rimbaud fosse o “místico em estado selvagem”, de quem Claudel falou em um de seus escritos, não importa. O fato inegável é que Claudel ficou profundamente abalado pela leitura de Rimbaud e, talvez, preparado para receber sua iluminação, alguns meses depois, em pleno dia de Natal.


A grande iluminação

Enfim chegou o dia do renascimento para Paul Claudel. E nesse ponto da história, não tenho alternativa a não ser passar a palavra ao próprio, porque realmente não existe outra maneira melhor para descrever o grande e inefável acontecimento da sua vida. Prepare-se o leitor para este verdadeiro mergulho na Graça divina:

Assim era a infeliz criança que, aos 25 de dezembro de 1886, foi a Notre-Dame de Paris para assistir aos ofícios de Natal. Tinha começado a escrever, e parecia-me que nas cerimônias católicas, consideradas com um diletantismo superior, encontraria um excitante apropriado e a matéria de alguns exercícios decadentes.

Foi com essas disposições que, conduzido e apertado pela multidão, assisti, com um prazer medíocre, à grande Missa. Depois, não tendo nada melhor a fazer, voltei para assistir às vésperas. As crianças do coro, vestidas de branco, e os alunos do seminário-menor de Saint-Nicolas-du-Chardonnet, que os ajudavam, estavam se aprontando para iniciar o canto que mais tarde eu soube ser o Magnificat.

Estava misturado ao povo, junto do segundo pilar à entrada do coro, à direita da sacristia. E foi então que se produziu o acontecimento que domina toda a minha vida. Em um instante, meu coração foi tocado e acreditei. Acreditei com tal força, com tal adesão de todo o meu ser, com tão poderosa convicção, com tal certeza sem deixar lugar a qualquer espécie de dúvida que, depois, todos os livros, todos os raciocínios, todos os acasos de uma vida agitada, não puderam abalar-me a fé, nem mesmo, para ser mais preciso, tocá-la de leve que fosse.

Tive de súbito o forte sentimento da inocência, da eterna juventude de Deus, uma Revelação inefável. Tentando, como o fiz várias vezes, reconstituir os minutos que se seguiram a esse instante extraordinário, encontro os elementos seguintes que, entretanto, não formam senão um clarão, uma única arma de que a Providência Divina se servia para atingir e abrir enfim o coração de uma pobre criança desesperada: 'Como aqueles que creem são felizes! E se fosse verdade? É verdade! Deus existe, Ele está em toda parte, É alguém, é um Ser tão pessoal como eu. Ele me ama, Ele me chama!'.

As lágrimas e os soluços vieram... e o canto tão doce do Adeste aumenta ainda mais a minha emoção. Emoção bem doce, mas à qual se misturava um sentimento de espanto o quase de horror. Porque minhas convicções filosóficas não estavam destruídas. Deus as havia deixado desdenhosamente onde estavam, e eu nada via a mudar nelas; a Religião católica me parecia continuar o mesmo tesouro de anedotas absurdas, seus padres e fiéis me inspiravam a mesma aversão, que ia até o ódio e ao desgosto. O edifício de minhas opiniões e de meus conhecimentos permanecia de pé e nada via de falho nele. Tinha apenas me retirado. Um novo e terrível ser, com exigências terríveis para o jovem e o artista que eu era, tinha se revelado e não sabia como conciliá-lo com coisa alguma que me cercava.
O estado de um homem que fosse arrancado de um golpe de seu corpo, para ser colocado em um corpo estranho, no meio de um mundo desconhecido, é a única comparação que posso encontrar para exprimir este estado de confusão completa. O que mais repugnava a minhas opiniões e a meus gostos, é que era a verdade, e com o que seria necessário que de bom ou de mau grado eu me adaptasse. Ah! E isso não aconteceria sem que eu tentasse tudo o que me fosse possível para resistir.

Um outro texto de sua autoria, este poético, encontra-se na terceira das suas "Cinq Grandes Odes", de 1907, e traduz o mesmo acontecimento de uma outra maneira:

Oh, os longos e amargos caminhos de outrora, do tempo em que estava só!

Caminhar em Paris, nesta longa rua que desce para Notre-Dame!

Então, como o atleta que se dirige ao estádio em meio a seus amigos e treinadores,

E alguém lhe fala à orelha, e o braço que abandona, e as luvas que lhe são ajustadas,

Eu marchava por entre os pés caídos de meus deuses.

Há menos murmúrios na floresta de Sant-Jean, no verão,

Menos gorjeio em Damasco, quando, ao ruído das águas que descem dos montes em tumulto

Se une o suspiro do deserto e a agitação dos altos plátanos à brisa da tarde,

Que palavras neste jovem coração cheio de desejos.

Oh, meu Deus, o filho da mulher vos é mais agradável que um touro novo!

E me encontro diante de Vós como um combatente que se curva;

Não por se acreditar fraco, mas porque o Outro é mais Forte.

Vós me chamastes pelo meu nome,

Como alguém que o conhecesse, Vós me escolhestes entre todos de minha geração.

Oh, meu Deus, sabeis quanto o coração dos jovens é cheio de afeição, e quando ele não se apega às suas máculas e vaidades...

Eis que sois alguém, subitamente!

Aterrastes Moisés com vossa Força, mas estais em meu coração, assim como se eu não tivesse pecado.

Oh, como sou bem o filho da mulher! Porque a razão, a lição dos mestres e o absurdo, tudo isso nada vale

Contra a violência de meu coração e contra as mãos estendidas desta Criança.

Oh lágrimas! Oh coração fraco! Oh mina de lágrimas que correm!

Vinde, fiéis, e adoremos a Criança que nasceu!

Sim, ninguém poderia falar do renascimento de Claudel tão bem quanto ele próprio. Não apenas por ser um grande escritor, mas porque sua conversão está nas origens de toda a sua obra. Parece, com efeito, que ele se tornou ao mesmo tempo um iluminado cristão e um poeta.

Desde a conversão de Saulo de Tarso no caminho para Damasco, não creio que tenha havido exemplo mais perfeito de uma iluminação ao mesmo tempo tão repentina e tão total. “Em um instante” é a expressão que resume tudo. E, ao mesmo tempo, como costuma acontecer em casos assim, o bom combate começa, um combate que não devia durar menos do que quatro longos anos de estudos, busca angustiosa pela Verdade e luta conta si. São quatro anos de batalhas que transcorrem entre esse inesquecível 25 de dezembro de 1886 e o 25 de dezembro de 1890, dia em que Paul Claudel, tendo se confessado, voltou enfim à Comunhão da Igreja. “O combate espiritual”, escreveu ele, citando mais uma vez Rimbaud, “é mais duro que a batalha dos homens. O sangue seco fumega em meu rosto”. O que foram esses quatro anos, em que o poeta despojou-se pacientemente de suas convicções, destruiu pedra a pedra o edifício no qual se tinha até então encerrado, nós o podemos imaginar por intermédio do “Fragment d´un drame” (Fragmento de um drama, de 1887) e especialmente através das suas primeiras obras: “Tête d´Or” (Cabeça de ouro, de 1889, “La ville” (A cidade, de 1897), “La Jeune Fille Violaine” (A jovem Violaine, de 1892), “L´Echange” (A troca, de 1893) e “Le Repos du Septième Jour” (O descanso do sétimo dia, de 1900).


O Evangelho fala muitas vezes do grão de mostarda, a menor de todas as sementes, que termina produzindo uma árvore enorme. Essa imagem parece convir perfeitamente a toda a carreira de Claudel a partir daquele 25 de dezembro de 1886. Nesse dia foi-lhe dado, subitamente, o germe que devia frutificar em seguida, durante mais de sessenta anos. De maneira que a conversão de Claudel, se é repentina e virtualmente completa desde o primeiro dia, não vai cessar, até o fim, de desenvolver suas conseqüências.

Baseado em texto de Jacques Madaule

** Assine a revista O FIEL CATÓLICO e tenha acesso a muito mais!

______
Fonte:
LELLOTE, F. SJ. Convertidos do Século XX, Rio de Janeiro: Agir Editora, 1960.
www.ofielcatolico.com.br

Receba O Fiel Católico em seu e-mail