Bispos italianos querem derrubar Summorum Pontificum


BISPOS ITALIANOS sugeriram, durante o seu atual encontro autunal, abolir o Motu Proprio Summorum Pontificum, que autoriza a celebração da santa Missa no rito tradicional em latim, conforme relatado pelo MessaInLatino.it (16 de novembro/2018).

O arcebispo de Gorizia, Carlo Radaelli (foto), de 62 anos, disse que Bento XVI cometeu um "erro" ao escrever, no Summorum Pontificum, que a Missa Antiga nunca foi revogada. Em vez disso, Radaelli afirma que a Missa Romana teria sido abolida por Paulo VI. A partir disso e em consequência, o Motu Proprio de Bento XVI seria nulo ou inválido.

Não é surpresa que muitos prelados apoiem as afirmações de Radaelli. Dentre estes, o modernista padre Luigi Girardi, que dirige o Instituto Romano da liturgia pastoral; o bispo de Novara, Franco Brambilla, e outros bispos anônimos do sul da Itália.

Radaelli e Brambilla foram, ambos, nomeados por Bento XVI.


* * *

Eu, Henrique Sebastião, tenho dito e repetido que se aproxima um novo cisma para a história da Igreja. Não estou só nessa análise: por exemplo o Padre Paulo Ricardo me disse, há alguns anos, que considera essa hipótese totalmente viável caso as coisas continuem no rumo em que se encontram. Há tempos, realmente desde antes do CVII – e com intensidade e fúria redobradas depois deste – temos o choque entre "duas igrejas" dentro da Igreja: uns querem a Igreja antiga, outros querem uma Igreja (literal e totalmente) nova. Diga-se, de passagem, que o mais lamentável é que poucos queiram a Igreja atemporal e de sempre.

De fato, ao assistir a Missa no rito tradicional (Missa de sempre) e a chamada "missa nova" de Paulo VI (da forma como é mais comumente celebrada hoje, com toda a sorte de inovações e total liberdade sobre a liturgia), temos a clara impressão de que não se trata da mesma celebração; sem nenhum exagero, alguém que nada conhecesse de catolicismo poderia duvidar seriamente de que fossem, ambas, expressões da mesma religião, e menos ainda do mesmo evento sagrado (o santo Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário). 

Acho difícil que venha a acontecer, ao menos por enquanto, mas a decisão de revogar o Summorum Pontificum de Bento XVI seria, sem dúvida, um marco importantíssimo, senão o ato central na concretização desse novo cisma. E pelo andar da carruagem, mesmo sabendo que a divisão jamais foi a vontade de Deus para os seus filhos, com honestidade tenho que dizer que já não sei se isso seria bom ou mau.

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Desabafo do Padre Luis Fernando Alves Ferreira

Diocese de Itumbiara – GO



SOU PADRE HÁ quase 5 anos. Fui seminarista por 7 anos. Já estive em vários lugares Brasil afora, já celebrei em tantos outros e guardo no meu coração uma tristeza profunda. Quando eu era criança, na roça, e ia com minha família à Missa uma vez por mês, eu sabia que naquela Hóstia "tinha Jesus". 

Eu sentia o cheiro da vela queimando e aprendi a me persignar toda vez que passava diante de uma Igreja. Eu achava tudo meio estranho, porque não entendia a Missa, mas sentava no primeiro banco e respondia a todas as perguntas que o padre fazia na hora do sermão. 

Daí eu cresci, fomos pra cidade e eu continuava inocente. Fui pro seminário e as escamas de meus olhos caíram. A Missa pela qual eu sempre nutri o maior religioso respeito

virou palco;

virou show;

virou passeata;

virou passarela;

virou camarim de estrela;

virou sambódromo;

virou terreiro;

virou tudo e suportou tudo;

menos ser de fato, Missa.

Já vi tanto desleixo… Alfaias pruídas, vasos sagrados zinabrados, Hóstias Consagradas carunchadas dentro do sacrário, um sacrário no meio de uma reforma de Igreja com Hóstias Consagradas dentro, consagração de vinho em tamanha quantidade que as sobras Eucarísticas precisaram de um exército de MESC para consumi-las, porque o padre não poderia fazê-lo sem ficar bêbado, e outros tantos abusos.

Capitaneada pelo dualismo marxista de tipo maniqueísta, a reinterpretação que a Missa sofreu nas décadas que sucederam o Concílio Vaticano II seguiu as pegadas da subjetividade humana. É odioso ouvir: “Ah, o jeito do outro padre é diferente...”. Isso denota uma personalização que a Missa não comporta. A Missa nunca foi a Missa do padre, mas a Missa da Igreja!

Essa mentalidade impregnou tanto a liturgia que quando um Padre quer celebrar a Missa da Igreja, aquela do Missal Romano, é chamado de retrógrado. O respeito às normas litúrgicas agora é sinônimo de "opressão". A Missa pura e simples foi esvaziada para poder ser enchida pela ideologia da enxada, da faixa, do cartaz, da freira, do padre TL… A Missa se transformou… Virou manifestação e protesto contra o Governo e o Sistema e
contra a Igreja;

contra os padres;

contra a fé católica de sempre;

contra a liturgia de sempre.

Enfiaram bananeiras, berrantes, espeto de churrasco, cuia de chimarrão, pão de queijo, cachaça, coco, faca e facão, pipoca, balões e ervas de cheiro na Missa, enfiaram panos coloridos para todos os lados, colocaram mães de santo manuseando o turíbulo e leigos lendo preces seminus. 

Para essa CORJA, a Missa já deixou há muito tempo de ser o Sacrifício redentor de Cristo PRO MULTIS e se tornou só mais uma mesa para comensais na qual vale o discurso e não a fé, na qual o que importa é o que o homem diz aos seus iguais e não o que Deus diz ao homem.

Lembro-me de um professor contando, todo garboso, que certa feita utilizou-se de uma Adoração ao Santíssimo Sacramento para dar uma aula de teologia ao povo – aos seus moldes é claro – porque para ele aquela Hóstia era "pobre de significado".

Aquela Hóstia pobre…

tão pobre quanto o cocho de Belém;

tão pobre quanto a cama em Nazaré;

tão pobre quanto a casa de Pedro em Cafarnaum;

tão pobre quanto a casa de Lázaro em Betânia;

tão pobre quanto o coração do Filho de Deus.

Ela só pôde se tornar Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Cristo porque Ele se fez pobre!

Sua pobreza não comporta reduções, tampouco acréscimos desnecessários.

Ele é aquele que é e nada mais.

Mas, só para quem tem fé!

Aos meus irmãos padres um apelo: que nós diminuamos e que Ele apareça. Não somos o noivo, apenas amigos do noivo! Rezemos a Missa da Igreja, a Missa do Missal. Que Ele fale aos corações e às mentes, inclusive às nossas mentes e corações! Que Ele toque as vidas, inclusive as nossas. Que sua voz ecoe nas consciências, também nas nossas. Que toda a nossa Liturgia seja feita Por Cristo, Com Cristo e em Cristo ao Pai, na Unidade do Espírito Santo. Só isso. Se fizermos isso bem feito, teremos feito tudo o que nos compete nesta vida.

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Ter religião é ser irracional?

ALGUNS AUTODENOMINADOS "racionalistas" argumentam que a religião é sempre irracional, na medida em que afirma que existe uma realidade além da razão e, logo, a sua própria base seria um tipo de fé cega. Há alguns anos, nosso irmão em Cristo e parceiro na evangelização Alessandro Lima, do apostolado Veritatis Splendor (um dos nossos grandes inspiradores), deu uma resposta bastante simples e didática a um de seus consulentes, na qual se baseia este nosso artigo.


Você pode se autodeclarar racionalista, mas isso não faz com que as posições que você assume sejam razoáveis. Na verdade, apesar de todo esse discurso sobre razão contrário à fé cega, os racionalistas estão muitas vezes entre as pessoas mais irracionais.

O cristianismo afirma que existem verdades que vão além do poder da razão necessário para demonstrá-las, mas isso não significa que sejam irracionais. Existe uma diferença entre o que é irracional (aquilo que vai contra a razão) e o que é supra-racional (aquilo que está além da razão).

Considere isto: a física quântica está acima das habilidades racionais de quem tem 4 anos de idade. Isso faz com que a física quântica seja irracional até para quem tem 4 anos de idade? Não.

Ou então pense nisto: conhecer tudo o que existe sobre ciência moderna está além das capacidade de qualquer ser humano. Por isso é que existem especialistas: divide-se a coisa toda em partes e várias mentes que seriam incapazes, sozinhas, de compreender o todo, especializam-se em uma dessas partes. Pois bem: nós não dizemos que a ciência é irracional porque a totalidade do conhecimento científico vai além do poder que uma pessoa tem para conhecer.

Em outras palavras, o fato de uma pessoa ser limitada naquilo que ela não compreende não significa que não possa existir algo além do que aquilo que ela compreende. Se passarmos do indivíduo para a raça humana como um todo, podemos dizer que um fato pode ser limitado para um homem, como criatura finita que é; isso, porém, não significa que algo que vá além daquilo que ela pode compreender não possa existir.

O cristianismo afirma possuir uma mensagem que ultrapassa o horizonte intelectual de um homem. Tal mensagem afirma que Deus – cuja existência, por sua vez, é cognoscível apesar das nossas habilidades racionais limitadas – revelou coisas que vão além da nossa razão, mas que não conflitam com ela. Essa mensagem também afirma que a realidade conforme a conhecemos evidencia – embora não prove empiricamente – que as verdades transcendentais existem. Tanto o afirmar categórico que isso é real, quanto afirmar que não é real, são ambas posições irracionais.

A partir da ótica cristã, o racionalismo é como um homem que possui o mapa da estrada, mas que, acreditando que o mapa é confiável da forma como foi retratado, conclui que apenas aquela imagem é real. O racionalista pensa que a estrada termina nos pontos em que o mapa não apresentam mais nenhuma estrada: esse é o racionalismo que provém de uma fé cega e que termina com a morte.

___
Ref.:
LIMA. Alessandro.
A religião é irracional porque ela afirma que existe uma realidade além da razão?
disp. em:
https://veritatis.com.br/a-religiao-e-irracional-porque-ela-afirma-que-existe-uma-realidade-alem-da-razao/
Acesso 14/11/2018

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Gírias do submundo no Enem é o de menos – a normalização do anormal


Por Carlos Ramalhete

VI TANTA BESTEIRA por aí, sobre a questão do Enem sobre a gíria do submundo hoje dito transgênero, que resolvi dar um pitaco.

Basta ler a pitomba da questão para ver que não se está cobrando conhecimento da gíria dos caras. Do mesmo modo, tampouco é aquilo um incentivo a aprendê-la, mesmo porque, quando a molecada sai do Enem, a última coisa que ela quer fazer é ampliar seu conhecimento da bibliografia citada.

Aquilo é parte de outro joguinho: a normalização do anormal. O objetivo da questão é simples e, a seu modo tão eficiente quanto a Globo exibir ad nauseam o Pablo Vitar; o que eles querem é "mostrar que é normal" aquele submundo, tratar a prostituição de pessoas com sérios problemas mentais (duvida? Vai dar uma volta no balcão da delegacia de uma área onde esses caras fazem ponto pra ver) como se fosse uma coisa tão absoluta e completamente natural quanto um rapaz se apaixonar por uma mocinha e querer passar o resto da vida com ela.

É a mesma política que faz com que não se tenha sequer tentado criar mecanismos de união civil que servissem para, por exemplo, duas irmãs solteironas que moram juntas, criando ao invés disso uma falsa equiparação entre relações sexuadas entre pessoas do mesmo sexo e a constituição de uma família que gera e cria as futuras gerações (e por isso merece proteção e reconhecimento por parte da sociedade, inclusive do Estado), no dito "casamento gay".

Os pobres prostitutos que falam aquelas gírias todas enquanto quebram garrafas e avançam para cima dos próprios companheiros com o gargalo-arma na mão, assim como as pessoas que têm amizades sexuadas com gente do mesmo sexo, são meras buchas de canhão. A bucha, para quem não sabe, é um monte de pano que se coloca entre a bala e a pólvora, servindo para dar pressão e propelir a bala para mais longe, caindo contudo toda queimada e gasta a poucos metros do cano. O que se deseja, ao incentivar esse tipo de coisa, é diminuir a força da normalidade dita burguesa [tanto que até já criaram o bizarro termo 'heteronormatividade' para dar a entender que no que se refere às relações sexuais nada, absolutamente nada pode ser considerado anormal, nem mesmo pedofilia ou zoofilia].

Isso porque, na sua ignorância, os neomarxistas tomam fenômenos naturais e que existiram desde sempre – e que sempre perdurarão em qualquer sociedade, como a constituição de uma unidade familiar – por meros fenômenos transitórios de uma sociedade burguesa em decadência, na qual temos o desprazer de viver. 

Eles tratam, assim, a constituição de família exatamente do mesmo modo como tratam, por exemplo, as cadernetas de poupança, o uso de terno ou outras roupas "de representação", etc. Estes, sim, fenômenos burgueses. Como eles querem "apressar a passagem da sociedade burguesa para a próxima etapa do desenvolvimento", na sua visão materialista dialética, os bocós incentivam a destruição de tudo o que identificam como "burguês". A família inclusive, a civilidade inclusive.

Ao apresentar com ares de normalidade ou mesmo de "cultura alternativa e mais genuína" – verdadeiros Bons Selvagens de Rousseau! – por exemplo a prostituição e os psicóticos, o alvo é a família. É um alvo negativo, não positivo. Quanto é alcançado o objetivo de bagunçar as relações familiares, como o divórcio o fez, como o sistema pelo qual o único dever de um pai é dar uns caraminguás todo mês para o bebê, os que foram usados como bucha de canhão são deixados de lado. Eles não têm valor intrínseco aos olhos dos neomarxistas frankfurtianos; só servem como arma. Como buchas de canhão, descartadas no próprio ato do tiro.

Na verdade – e isso é perfeitamente previsível e aceito pelos próprios neomarxistas como inevitável e até desejável – o efeito imediato desse tipo de campanha e apresentação é o crescimento, não a diminuição, dos maus-tratos aos que foram usados. O papel deles, na dialética neomarxista, é justamente serem gastos, serem descartáveis, para aumentar os conflitos sociais e assim apressar o fim (que os neomarxistas consideram inevitável e conducente a algo melhor. O prostituto, a pessoa com atração sexual pelo mesmo sexo, etc., servem apenas para desmanchar a família (o que aliás é impossível, por ela ser intrínseca à natureza humana; mas como as antas dos neomarxistas não acreditam em natureza humana, eles não entendem o óbvio); não se busca como um valor em si a equiparação da família de verdade com a convivência sexuada de pessoas do mesmo sexo, assim como não se busca como um valor em si que haja, sei lá, lojas de prostituição masculina nos shoppings. O papel "histórico", no delírio neomarxista, desse pessoal que estaria teoricamente sendo "prestigiado", é apenas confundir, irritar e, depois, ser jogado no lixo quando não for mais útil.

Assim, não se preocupe com a ideia de que o seu filho estaria aprendendo gírias de prostitutos; preocupe-se com o fato de que ele está sendo condicionado a achar que o anormal é normal, de que ele está sendo treinado para ver no desmanche da sociedade em que vive um "passo à frente". O problema é esse, bem mais que algumas palavrinhas esquisitas que nem sei se existem de verdade.

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Agora, no Brasil... sobre filmar aulas, dialeto travesti e pornografia nas escolas


FILMAR AULAS NÃO pode... Minha esposa é professora e, assim como diversos amigos que tenho, também professores, dizem que não se importariam em ter suas aulas filmadas (até para que se mostre a falta de educação de boa parte dos alunos e o desrespeito a que são submetidos diariamente). De fato, é um argumento invencível o de que só pode ter tanto pavor da ideia aqueles que porventura estejam usando da sala de aula para ensinar o que não devem. Por outro lado, colocar questão sobre dialeto secreto de travesti em Exame Nacional do Ensino Médio, aí pode, sem problemas. Afinal, ninguém quer ser taxado de "preconceituoso" ou "homofóbico", não é mesmo?

Polícia na Universidade para fiscalizar denúncia de crime eleitoral, não pode... Mas usar página institucional para propaganda política, trocar ementa do curso por militância "Elenão", criar polícia ideológica autointitulada "Ação antifascista" para perseguir quem votou em Bolsonaro, o novo Presidente da República democraticamente eleito, aí pode.

Alguns conservadores estão lidando com os movimentos de resistência ao totalitarismo psicopedagógico como se vivêssemos em uma pura normalidade que veio a ser perturbada por "polêmicas" como o Escola Sem Partido (quem leu?) e pelas denúncias que o STF veio a público para tentar deslegitimar.

A realidade dos fatos é outra. Vivemos sob o império do culto à devassidão. A escola real é aquela da qual seu filho de sete anos volta implorando para você não votar no Bolsonaro porque ele é contra os negros e é fascista; é aquela em que uma professora desvairada dá aula de educação sexual para crianças de nove anos e expõe suas próprias fotos no Facebook manipulando pênis de borracha e simulando sexo oral em alunos; é aquela em que você se depara com livros paradidáticos indicados pelo MEC em que há um conto no qual o pai resolve se casar com uma de suas filhas ('Enquanto o sono não vem', editora Rocco) ou em que há uma crônica que conta a história de uma criança que vai a um passeio no lago vê uma mulher fazendo sexo oral em um homem ('Nu de botas', de Antonio Prata).

Não há como combater tantos e tão graves abusos sem ferir a fina delicadeza dos nossos tempos, em que a maioria dos homens têm vergonha de ser o que é, de pessoas adultas que sofrem uma epidêmica síndrome coletiva de Peter Pan, querendo permanecer adolescentes a vida inteira; gente tão frágil que não suporta que nenhuma medida um pouquinho mais áspera seja tomada da parte dos que ainda se atrevem a entrar em campo para defender nossos valores sagrados e as nossas crianças, os nossos (verdadeiros) adolescentes e jovens contra a tara ideológica da esquerda.

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Honestidade intelectual: um apelo

Um texto necessário de Igor Andrade
(Frat. Laical S. Próspero)



'Diógenes procurando por um homem honesto', por Jacob Jordaens

ESCREVO COMO MERO professor de filosofia sobre este assunto tão importante nestes tempos: a honestidade intelectual. A honestidade é uma virtude muito admirada; quem é desonesto é visto com maus olhos por qualquer um – porém, muitos, infelizmente, pensam nela como algo meio material. Para o vulgo, ser honesto consiste somente em entregar o troco certo, pagar as contas em dia e não roubar os cofres públicos.

Essa honestidade é importante, mas venho falar de uma mais importante ainda (porque mais importante que a matéria é a alma, da qual a razão e o intelecto são parte).

O homem é repleto de preconceitos desde a infância, e a biologia nos ensina que é graças a estes preconceitos que chegamos, através da História, até este estado de permanência e perpetuação da espécie humana – a palavra “preconceito”, aqui, deve ser bem entendida como um conceito prévio que se formula sobre algo ou alguém antes de conhecê-lo e de formular de fato um conceito definitivo e adequado após conhecê-lo.

Ponha-se o leitor no lugar de um homem pré-histórico que vivia numa civilização tribal, nas matas, e ainda não modificara o meio ambiente. Sua casa rústica servia apenas de abrigo do frio, das feras e de outros homens. Ao longo das gerações, esta tribo passou por diversas turbulências: ataques de animais, guerras contra outras tribos por alimento, água, território, etc. Assim, formou-se no imaginário comum que tudo aquilo que não pertencesse à tribo oferecia uma ameaça aos seus membros. Isto é, a tribo formou um pré-conceito sobre tudo aquilo de que não tinham um conceito formado. Um rugido perto, para eles, com certeza era uma fera que os atacaria; um grito humano era sinal de perigo, e assim por diante.

Aclarada a importância dos pré-conceitos (que são como que uma proteção do desconhecido), falemos do problema que geram: a ignorância comum.

Ponha-se o leitor, uma vez mais, no lugar de um outro membro da mesma tribo, porém algumas gerações à frente. Sua tribo cresceu, houve contato com outras tribos, formaram-se alianças, instauraram-se castas, desenvolveram-se técnicas. Finalmente era possível conhecer o que estava fora da tribo. Porém, estavam tão arraigados os pré-conceitos históricos que todo aquele que quisera conhecer mais além da mera realidade local era tido como louco, imprudente, desocupado. O preconceito, quando necessário para o bem (como no caso supracitado), é útil, mas quando cessa sua necessidade, torna-se um impedimento para o aprendizado do homem.

Assim aconteceu com Tales, o pai da filosofia ocidental. Tales fora habitante de Mileto, região da atual Turquia, e era fascinado pelo céu e pela natureza. Foi o primeiro a buscar a arché, o princípio das coisas. Como ficava mais tempo olhando as estrelas do que fazendo negócios comerciais, os demais habitantes de Mileto diziam que era um inútil, que aquilo não tinha futuro e coisas semelhantes. Conta-se que, certa vez, andando pelos campos, Tales estava tão distraído buscando no céu uma explicação para a realidade que caiu no fundo de um poço e lá ficou o resto da noite, preso. Quando o encontraram, caçoaram dele, provavelmente dizendo que deixasse daquilo porque os deuses cuidavam de tudo e que não havia mais nada a saber além de transações comerciais. “Você é um inútil, Tales, uma vergonha para sua família e para nós, habitantes desta rica cidade”, provavelmente lhe disseram.

Para dar uma lição aos seus concidadãos, segundo a narrativa de Diógenes Laércio, teria Tales empreendido diversos cálculos e observações dos astros, chegando à conclusão de que, naquele ano, a colheita de azeitonas seria maior que o normal.

Comprou, então, todos os moinhos da região. “Tales enlouqueceu mesmo, está comprando moinhos fora de época de colheita”, provavelmente disseram muitos. Mas, quando chegou a época certa, com a superprodução de azeitonas, não tinham onde deixá-las, e então tiveram que pagar a Tales a quantia que ele bem exigiu para que usassem os seus moinhos, o que fez dele o homem mais rico da região.

Depois disso, Tales foi deixado em paz e tido por todos como sábio. O povo de Mileto reconheceu que seus preconceitos eram vãos e teve a honestidade intelectual de dizer “Tales, ajude-nos, você conhece mais a natureza do que nós. Por favor, ensine-nos o que sabe!”.

Esse é um exemplo de que o preconceito pode atrapalhar no conhecimento das coisas – e como é importante a honestidade intelectual. Tales fora o primeiro a conhecer melhor os astros, a geometria e a natureza de modo geral. Foi o primeiro do ocidente que postulou a imortalidade da alma (algo extremamente importante para as discussões sobre a dignidade humana nos tempos atuais); foi ele quem firmou paz entre Ciro e Mileto; foi ele quem por primeiro dividiu o ano em quatro estações e que almejou explicar o princípio das coisas.

Sua explicação não é das melhores (segundo ele, a água é o princípio de tudo e está presente em tudo), porém o mérito está não na resposta, mas no fato de ter feito a pergunta (qual é o princípio das coisas?).

Hoje em dia, vergonhosamente, vemos isso impregnado na forma mentis vulgar. Não há, no vulgo, a honestidade de dizer “não sei”. Ainda muito pior, parece que a “elite” intelectual também não sabe dizer “não sei” quando realmente não sabe alguma coisa.

Recentemente, o candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro, participou de uma sabatina no programa "Roda Viva", da TV Cultura. Nenhum dos jornalistas que o entrevistou teve honestidade intelectual de conceder ao entrevistado o benefício da dúvida, algo como admitir para si que “talvez ele não seja tão ruim quanto eu penso”. Manteve-se a práxis preconceituosa marxista: "Se qualquer um disser algo que contrarie aquilo que eu penso sobre esses assuntos, com certeza é um 'burguês' que deve ser superado a qualquer custo pela dialética".

Que um marxista pense assim não é novidade alguma, pois seguem cegamente o seu profeta (Hegel), que anuncia seu deus: Marx, “aquele que salva”.

O problema é que, do outro lado, da parte da chamada “direita”, o modus operandi foi exatamente o mesmo. De toda a entrevista, o único acerto foi quando um jornalista disse que “Jesus também foi um refugiado”. E o que fez o pessoal da “direita”? Ignorou a narrativa bíblica (na qual dizem crer) e taxou o jornalista de idiota. Não nego que, de fato, aquele jornalista seja um idiota, mas a informação em questão é verdadeira, não podemos negar isto.

Na época em que Jesus nasceu, Judá era governada por um rei, Herodes (conivente com os romanos, mas rei); era um reino independente do Egito (que, embora província do Império Romano, era um país separado de Judá, com língua, cultura e leis diferentes), aonde a Sagrada Família buscou refúgio quando o Rei mandou matar todos os meninos com menos de um ano de idade. Assim, buscar refúgio em outro país tornam S. José, a Virgem Maria e Jesus Menino refugiados, e ponto final.

É evidente que o jornalista quis comparar a situação da Sagrada família à dos muçulmanos de hoje em dia (uma comparação totalmente absurda); assim, nesse caso específico, a melhor argumentação é a mais honesta, isto é, aquela que aponta para a verdade dos fatos: uma coisa não tem absolutamente nada a ver com outra, e o problema da migração em massa dos nossos tempos envolve uma série de graves problemas totalmente diversos e que nada tem a ver com o apresentado na narrativa evangélica. Mesmo assim, não podemos negar os fatos na tentativa de ter razão: só assim é que poderemos separar um fato da "forçação de barra" que se faz usando de um fato.

É preciso ter a honestidade intelectual para admitir erros, equívocos e acertos – nossos e de nossos opositores. Por suposto, honestidade intelectual não significa fazer crítica cega ao que comumente se tem por sabido. Crítica cega àquilo que já é conhecido não passa de petulância e de idiotice. 

Honestidade intelectual teve Sócrates, que reconheceu saber unicamente que nada sabia. Também a tiveram boa parte dos filósofos. Tiveram-na os Padres Capadócios, que deixaram claro que devemos estudar os pagãos, porque estes, embora tivessem errado quanto à religião, acertaram em muitos outros pontos. Honestidade intelectual teve Santo Tomás de Aquino, em cuja Suma Teológica diversas vezes citou muçulmanos (Avicena e Averróis), mostrando que eles também acertam. Honestidade intelectual teve Santo Agostinho, que publicou suas Retratações, obra na qual reconhece todos os erros filosóficos que cometera até então.

Tenhamos o bom senso de saber que não sabemos de tudo para que, antes de criticarmos o desconhecido, aprendamos e o conheçamos. Essa honestidade intelectual é o mínimo necessário para aprender – é a filha mais velha da Humildade. Saber que não se sabe é o primeiro passo para aprender.

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A vitória de Bolsonaro e a via dos cristãos


DEPOIS DE LONGOS DIAS, semanas e meses de tensão e muita guerra de nervos –, com direito a agressões, calúnias, a incessante divulgação de notícias falsas, ameaças, atentado e prenúncios de atentados –, e tudo o que de mais rasteiro, imoral e degradante o ser humano é capaz de conceber e produzir, chegamos, afinal, ao desfecho das eleições nacionais de 2018. Ufa!

Bolsonaro, como já disséramos, era a única alternativa possível aos católicos, por motivos óbvios: representava a única opção contra o criminoso, imoral e anticristão projeto de poder petista, arquitetado para se eternizar no governo do nosso país. Um projeto que foi, desgraçadamente, apoiado por uma grande quantidade de padres e bispos católicos, agindo debaixo das bênçãos da desmoralizada CNBB.

Todavia também não nos faltaram – graças ao Bom Pastor que nos prometeu que o Inferno jamais triunfará contra a sua verdadeira Igreja – honrados e dignos sacerdotes que se levantaram com firmeza e coragem em defesa do único candidato que, malgrado todos os seus muitos defeitos, posicionava-se como homem temente a Deus e a favor da família, da vida, das instituições tradicionais, das liberdades individuais, da propriedade privada, dos sãos valores pátrios – e contra o aborto, as ideologias perniciosas como a da "identidade de gênero", o controle social, a estatização de todos os meios de produção e a implantação do perverso bolivarianismo em nosso país. 

Ficou provado que, assim como o PT e o PC do B, também a CNBB (que até agora não saudou em nota pública o novo presidente democraticamente eleito, como sempre fez com Lula e Dilma) não representa o povo brasileiro. Assim como sucedeu na ocasião do plebiscito sobre o desarmamento (2005) e nos recentes debates sobre a maioridade penal, a conferência de bispos posicionou-se contra a vontade e os anseios da maioria do povo católico. Felizmente, não foram ouvidos, do mesmo modo como em 2015, quando não conseguiram adesão para a sua campanha de assinaturas para a reforma política. 

Faz-nos lembrar do que vaticinou Santo Atanásio de Alexandria, que passou 17 anos de sua vida exemplar no exílio, condenado por bispos hereges, ao escrever, de lá do longínquo século IV, sua eterna "Carta ao meu rebanho":

Ainda que os católicos fiéis à Tradição se reduzam a um punhado, são estes a verdadeira Igreja de Jesus Cristo.

Bravo! Os fiéis católicos – sacerdotes e leigos – triunfam. Mas não podem relaxar e desfrutar o sabor desse triunfo a não ser por um breve momento. O inimigo é formidável em persistência e não se deixa abater. Não foram capazes de esperar mais do que um mísero dia após o domingo da histórica eleição para dar vazão à sua frustração cheia de ódio e rancor: já começaram os protestos, a arruaça e o desrespeito à democracia nas mesmas velhas mentiras berradas a plenos pulmões em suas passeatas. Já o movimento "Povo sem medo" interrompe o trânsito da Avenida Paulista... "Povo"? Ora, mas foi o povo mesmo quem decidiu, pela via genuinamente democrática, escorraçar essas hostes do poder. 

De fato, é tragicômico que falem tão insistentemente em "democracia" quando não aceitam a escolha mais bela e exemplarmente democrática – por ser um fruto espontâneo da conscientização de um povo que tirou do ostracismo um homem simples e que mal sabe elaborar um belo discurso, porém honesto e que diz muito daquilo que queremos ouvir de um governante, que nos representa e é tão transparente quanto o mais fino cristal.

Fará um belo governo? Não sabemos. Decepcionará? Talvez. É um exemplo de cristão? Certamente que não, como já dissemos em outras oportunidades. Aliás, é muito difícil definir se ele é, afinal, católico ou protestante. Mas nós não votamos para Papa, e sim para o Presidente da República, e é certo que estamos diante de um homem que inegavelmente traz o valor da coragem, da humildade e de se posicionar sem meias palavras, qual  "Athanasius contra mundum", contra tudo e contra todos a favor daquilo que é certo. 

Mesmo sem apoio e sem tempo na TV, esse homem investiu obstinadamente e sem medo contra as velhas raposas da velha política, contra a militância estúpida da grande mídia de massa, contra a maior parte dos nossos "artistas" mais populares (e até artistas internacionais icônicos!), contra todos os principais veículos tradicionais de informação do país (que não se furtaram a falsear notícias contra ele) e até contra boa parte da mídia internacional (que lhe taxava com os mesmos rótulos claramente injustos que seus mais radicais adversários inventaram por aqui), contra uma gigantesca seita de professores que domina as nossas escolas e universidades, contra os bispos da CNBB, contra padres midiáticos... E, mesmo assim, mesmo com todos esses poderosos influenciadores de opinião trabalhando juntos, o bom senso venceu: num país cuja população majoritariamente se confessa cristã, a ideologia socialista-materialista foi defenestrada. Ladraram os cães, passou a caravana. 

Não, o povo verdadeiramente cristão não está órfão, ainda que muitos dos seus pastores tenham se bandeado para o lado dos lobos. Quantos testemunhos desesperados recebemos nós, que dirigimos um modesto apostolado, de fiéis católicos que se viram, forçados por suas consciências, a confrontar seus párocos que insistiam em fazer dos Altares sagrados palanques políticos! Mas não se deixaram confundir. O Deus de infinita misericórdia teve piedade de nós. 

Para ao futuro da Igreja no Brasil e o indisfarçável mal-estar que tomou conta das nossas paróquias, é impossível prever um desfecho. Particularmente, creio em um novo cisma, caso as coisas continuem a avançar da mesma maneira como hoje. Num artigo muito feliz, o polêmico e por vezes imprudente, porém necessário apostolado "Fratres in Unum" comparou a situação a "uma procissão em que o andor foi para um lado e o povo foi para o outro…" (leia). 

Sim, é verdade: avançando em direções opostas, cada um segue o seu rumo: os verdadeiros fiéis católicos, que amam a Cristo e se colocam sob a proteção de sua Mãe santíssima, procurando santificar as suas vidas, vão para um lado; para outro, vão os bispos insensatos que clamam contra uma "ditadura" imaginária, enquanto apoiam indiretamente as reais e concretas ditaduras socialistas, sanguinárias e anticristãs, ao redor do mundo de hoje. 

Perceberão esses príncipes da Igreja, algum dia, que abandonaram suas ovelhas? Que, enquanto fazem política, seus filhos erram, abandonados e confusos, desejando ardentemente por quem lhes pregue o autêntico Evangelho? Não notarão que as almas que lhes foram confiadas estão migrando aos milhões para as seitas, onde serão impiedosamente exploradas, até perderem totalmente a fé? Até quando os ungidos de Cristo escolherão servir como cabos eleitorais para os inimigos da vida, da família e do próprio Cristo? Quantos dentre eles entenderão que a grande apostasia já chega? Verão, porventura, os sinais dos tempos? Perceberão que os brasileiros quiseram, por temor a Deus e obedientes ao Evangelho, tomar um rumo oposto ao seu próprio? Regressarão ao bom Caminho e retomarão a verdadeira Fé da Igreja como sempre foi? 

Para essas questões cruciais, não temos as respostas. Mas sabemos que a Verdade liberta e que a oração dos justos pode muito. Reforcemos a cada dia o nosso pacto com a Verdade, que é Jesus Senhor, e peçamos aos Céus com fé inabalável. Nosso Senhor nos dá o poder de decisão e o direito de escolha: façamos uso desses dons preciosos com temor, com amor e com a sabedoria que Ele mesmo nos dá!

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Bolsonaro e o deus ex machina


Por Igor Andrade – Fraternidade Laical São Próspero

NASCIDO NO INTERIOR do Brasil, numa região pobre entre as regiões mais pobres, Enéas Carneiro trabalhou desde os nove anos para sustentar a família. Com esforço e dedicação raros, alcançou lugar de destaque no meio científico. O homem barbudo, formado em Medicina, Matemática e Física, foi professor de Matemática, Física, Química, Biologia e Língua Portuguesa, especializou-se em Cardiologia e ministrou aulas de Fisiologia e Semiologia Cardiovascular e publicou um livro – “O Eletrocardiograma” – estudado mundialmente.

Em meio ao caos da “redemocratização” do Brasil, logo após o chamado Regime Militar, Dr. Enéas Carneiro concorreu à presidência da república, mas perdeu. Seguiram-se após esse evento inúmeras tentativas para cargos políticos, no executivo e no legislativo.

Como pode um homem tão bem formado, referência mundial em um ramo científico, professor de  excelência, amante das ciências naturais e da Pátria, de origem popular e fama internacional, não ter reconhecida sua capacidade para gerir a nação e – ao contrário! – perder o cargo para outro barbudo, um bêbado semianalfabeto amante de uma ideologia antipatriótica?

Alguns poderiam dizer que “Lula era próximo do povo, mas o Enéas não” – e essa é uma infame falsidade que se prova com as seguintes perguntas: a maioria do povo trabalha (como Enéas) ou vive com dinheiro de sindicato (como Lula)? Qual deles amava o povo e a cultura nacional e qual amava mais uma ideologia globalizante, antinacional e inimiga dos homens individuais?

Além dessas respostas, que se olhe para o fim de ambos. O primeiro morreu no ostracismo, mas viveu honestamente, não se vendendo para ideais escusos; o outro viveu uma vida infame, queda preso e (queira a Providência) será esquecido pelo tempo e enterrado na vala comum dos hipócritas totalitários.

Ainda fica a pergunta inicial: o que houve? Houve que a política brasileira, que, desde que o Magnânimo fora expulso de seu trono, é, não a arte do bem comum, como ensinou Aristóteles, mas a arte do “parecer ser”. Porém, recentemente um raio de luz iluminou as trevas da política nacional. Desviamo-nos de nosso “destino” de miséria socialista pela ação de um “deus ex machina”, como dizia-se na antiguidade, um deus da máquina, cuja graça é a Internet. Fruto da mera ação humana ou da Providência agindo por meio dela, o fato é que a Internet deu a homens da linha de Enéas a visibilidade que lhes fora negada.

Da mesma estirpe de Dr. Carneiro, demorará para aparecer um homem no Brasil; contudo, apareceram alguns que possibilitarão este surgimento. Um deles é Jair Bolsonaro, que só tem a devida visibilidade por dois motivos: o primeiro é o fenômeno de loucura ideológica devida aos (des)governos gerados pela “redemocratização”; o segundo é o deus ex machina, a internet.

O conceito de “deus ex machina” surgiu no teatro grego. Geralmente, em uma peça teatral, quando o protagonista não tinha alternativas e se encontrava num “beco sem saída”, era assistido por um deus que o livrava da desgraça. Este deus era representado por alguém preso a uma máquina, daí o nome “deus da máquina”.

Numa conversa com um compadre, a imagem à que chegamos é a de um rio correndo em seu leito “normal”. O rio é a política corrupta imposta pelo Golpe da República que deságua na desgraça nacional. Homens da linha de Enéas estavam caminhando com um barco às margens deste rio, aparentemente tentando mudar a política pelo trabalho e pela honestidade – uma mosca branca no meio político nacional. A internet foi uma pedra enorme que caiu no leito deste rio, desviando seu curso justamente para o lado das moscas brancas.

Onde este rio desaguará, não se sabe. Por alguma ironia do destino, pode voltar novamente ao seu curso “normal” e desaguar ainda na desgraça nacional, ou pode mudar completamente seu curso e o nosso destino poderá ser um pouco mais ameno – ainda que nunca perfeito.


Fake news

Alguns anos após a explosão das redes sociais no Brasil (nomeadamente o Facebook e o WhatsApp), popularizadas por volta de 2011, surgiu uma nova expressão: "Fake News". Para aqueles que acompanham o famoso Olavo de Carvalho, este termo tornou-se conhecido em meados de 2016 (talvez antes), mas somente em 2018 as massas populares tomaram conhecimento deste conceito; paradoxalmente, através da grande mídia.

Notícias falsas são muito, mas muito anteriores à Internet. Além do desejo burguês em importar expressões estrangeiras, não há motivo para chamarmos de “fake news” aquilo que popularmente conhecemos por fofoca, diz-que-diz, mentira, intriga, difamação, mexerico, boato, balela e, finalmente, notícia falsa.

Por exemplo, que a proclamação da república teve respaldo popular é fake news, balela; que a Família Imperial era opulenta é fake news, puro boato; que os integralistas eram os “nazistas brasileiros” é fake news, difamação; que a intervenção militar de 64 não teve respaldo popular é fake news, notícia falsa [que os grupos comunistas que deram origem a essa intervenção queriam 'democracia', é outra fake news...].

Os maiores propagadores de notícias falsas não são recentes, mas os maus historiadores (na esmagadora maioria das vezes, ideólogos) e a grande mídia. Mais notícias falsas espalhou a Rede Globo do que qualquer internauta. Digo notícias falsas porque é falsa toda informação manipulada para este ou aquele lado.

Contudo, houve esta explosão de notícias falsas recentemente. A que se deve isso? À falta de confiança que as pessoas comuns têm na grande mídia, que anda de quatro à frente dos líderes totalitários – não só aqui, no Brasil de hoje, mas desde que o ídolo dos comunicadores começou a fazer propaganda nazista. Ele mesmo: Goebbels.

Acabar com esta tosca situação é tão fácil quanto se molhar no mar. Se cada um que recebe uma notícia fizer o simples trabalho de checar a fonte, findado será o problema. Basta fazer duas perguntas básicas: pergunte a si mesmo se isto que é noticiado pode ter acontecido; se a resposta for afirmativa, faça a segunda pergunta a quem te deu a notícia: de onde você tirou isto?

Com essas duas perguntas, as pessoas se libertarão de vez da grande mídia, que criou a “fact-checking” – outro nome importado pelo espírito de porco da classe média estúpida que ama farejar rabo gringo – que nada mais é que o simulacro de uma checagem de fatos. Ora, se você não tem capacidade de, por si mesmo, checar um mero fato, que capacidade terá de agir politicamente? Ater-se à grande mídia para checar um fato é agir como os caipiras da anedota popular que diz que dois compadres andavam quando avistaram algo na estrada. Um deles parou e disse: “Óia, uma bosta”, ao que o outro respondeu: “Num é bosta, não, cumpádi”. E ficaram ambos numa longa discussão de “é” ou “não é”, até que ambos comeram daquilo e concluíram: “É bosta memo, inda bem que nóis num pisô”.

É evidente, quando o objeto da notícia está fora do seu campo de conhecimento, é natural que se recorra à opinião de terceiros, desde que conheçam do assunto. Sobre economia, pergunta-se a um economista (ou mais), sobre medicina a um médico (ou mais), sobre matemática a um matemático (ou mais), e assim por diante, e não a quem é alheio ao tema.

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Igualitarismo, imoralidade, justiça e impiedade

Em uma fábrica de salsichas, exige o controle de qualidade que sejam feitas todas iguais
Pelo Revmo. Padre João Batista de A. Prado Ferraz Costa– Capela Santa Maria das Vitórias

AINDA PRÓXIMOS DO centenário da Revolução Comunista Russa e das Aparições de Nossa Senhora de Fátima, desejaria registrar a publicação de duas obras muito boas que contribuem notavelmente para a compreensão do erro do igualitarismo, um dos erros espalhados pela Rússia comunista, conforme profetizou Nossa Senhora. 

Com efeito, o igualitarismo representa um atentado, que diria de inspiração satânica, contra a obra da criação. Deus estabeleceu uma ordem hierárquica no reino da criação. No reino mineral há minerais mais preciosos ou nobres e outros mais vis; igualmente no reino vegetal onde se veem, por exemplo, árvores mais nobres, como o carvalho e o cedro, e outras mais baixas. Assim também no reino animal. Nenhum criador de cavalo da raça manga-larga diria que um cavalo desta raça substitui perfeitamente a outro da mesma raça e muito menos pode ser substituído por um pangaré. Nenhum chefe de família, nenhum pai, dirá que um filho seu substitui a outro ou que sua mulher amada pode ser substituída por outra. Cada um é único e insubstituível com suas qualidades e defeitos próprios.

O que quero dizer é que igualdade plena só pode haver entre os artefatos humanos produzidos em série: um parafuso pode ser igual a outro e ser substituído por outro, uma fechadura pode ser trocada por outra igual que venha a ocupar o seu lugar e desempenhar perfeitamente sua função. Mas nas criaturas de Deus não há jamais igualdade.

O igualitarismo denunciado pelas obras que passarei a resenhar em seguida tem consequências perniciosas, produzindo um caos em todas as instituições sociais a partir da família, comprometendo o progresso cultural e sócio-econômico de toda uma civilização, na medida em que impede o desenvolvimento das qualidades e aptidões humanas que se encontram distribuídas pelo Criador de forma escalonada e harmoniosa, de maneira que cada criatura concorra para o bem comum. É por isto que Santo Agostinho diz: "Ubi enim nulla est invidentia, concors est differentia" (onde não há inveja a diferença gera a concórdia). E como não há sociedade sem autoridade, o igualitarismo, se não destrói a autoridade, ao menos lhe diminui o prestígio, o que a impede de coordenar as atividades e esforços de todos os membros da sociedade em prol do bem comum.

Uma das boas contribuições para entender os malefícios do igualitarismo no centenário da Revolução Comunista (que prometeu o paraíso da igualdade na terra e instaurou o pior regime de escravidão que jamais houve na história do mundo) é o livro Utopia igualitária – Aviltamento da dignidade humana, do Eng. Adolpho Lindenberg, publicado pela editora Ambientes e Costumes.

De leitura amena e rica de informações e conceitos, a referida obra trata do problema do igualitarismo em uma perspectiva, diria, histórico-sociológica, tantos são os exemplos tirados da história e do dia-a-dia. Recordando inicialmente a igualdade essencial entre os homens decorrente da mesma natureza humana, o autor em seguida desenvolve uma boa explicação das razões pelas quais as desigualdades acidentais são justas e benfazejas. O autor refuta um erro muito comum em nossos dias, segundo o qual a proximidade física entre ricos e pobres é fator de desunião e conflito. O Eng. Adolpho Lindenberg mostra que, pelo contrário, tal proximidade, quando bem concebida, promove a cooperação. E a título de ilustração recordo um fato da vida do grande pintor brasileiro Batista da Costa. Quando era menino pobre, retratava paisagens nos carreadores das fazendas no interior Estado do Rio de Janeiro. Um belo dia um fazendeiro passeando a cavalo encontrou o menino, reconheceu-lhe o talento e a partir de então tornou-se seu benfeitor. Depois que se tornou um artista afamado, Batista da Costa expressava ao benfeitor sua gratidão, presenteando-o com suas belas obras. É um exemplo de uma mentalidade nobre anti-igualitária que vê sempre no superior um benfeitor.

O autor se reporta também a grandes historiadores franceses que estudaram a fundo o Antigo Regime e mostraram como as desigualdades acidentais entre os homens, quando vividas em uma sociedade realmente cristã, não ferem mas sempre concorrem para o bem e aperfeiçoamento de toda a sociedade. O autor analisa como o igualitarismo moderno está destruindo a noção do respeito e da reverência devidos aos mais velhos e aos mestres que se sacrificaram pelas novas gerações. Explica também que defender a autoridade em nome da desigualdade entre os homens não significa defender um regime centralizado, autoritário e muito menos ainda totalitário. Para tanto, o autor explana muito bem o conceito de sociedade orgânica, traçando um paralelo entre a monarquia orgânica medieval e o regime absolutista centralizador. Na minha modesta opinião, poderia ter acrescentado que tal tendência à centralização só fez crescer após a Revolução Francesa como observa Alexis de Tocqueville em O Antigo Regime e a Revolução. Quem sabe, em uma desejável segunda edição, se acrescente esta observação além de uma revisão de alguns lapsos de digitação.

Vale assinalar que o Eng. Adolpho Lindenberg faz ver uma arguta relação de causa e efeito entre o igualitarismo e o ateísmo contemporâneo citando um teórico marxista francês. Com efeito, o igualitarismo, o sufrágio universal, o republicanismo revolucionário, a meu ver, sempre impediram que o homem visse a bondade de Deus no mistério da Encarnação do Verbo. Como um igualitarista poderá reconhecer o aniquilamento de um Deus que se faz homem? Achará que o Verbo Encarnado e ele são iguais.

Por fim, cumpre dizer que são saborosas as recordações do autor com relação a algumas personalidades marcantes que foram exemplos de autoridade moral depois de uma vida de servidos prestados à nação. O autor refere-se ao prestígio do Presidente Wenceslau Brás, à gratidão de toda uma cidade de que gozava a Professora Mimi (que golpeou com sua sombrinha um milico bajulador do Getúlio Vargas) e o respeito de que era cercado o Presidente Washington Luís Pereira de Sousa. deposto em 1930. De fato, as pessoas mais velhas testemunham como o melhor da sociedade paulistana acorreu ao Pacaembu em 1946 para saudá-lo quando o estadista retornou do exílio.

A outra obra que me parece recomendável para compreender o problema do igualitarismo é Le dérèglement moral de l’Occident, de Philippe Bénéton. Infelizmente, até o momento, conheço-a apenas por meio de uma entrevista concedida pelo autor à revista Valeurs Actuelles. Em uma perspectiva filosófica o autor disseca o igualitarismo, dizendo que a igualdade moderna é vazia de substância: “O outro é meu igual, não porque tenhamos em comum algo de substancial que nos distingue como seres humanos, mas porque nós não temos nada em comum senão a liberdade de não ter nada em comum. Os indivíduos são iguais porque eles são livres de ser diferentes e as diferenças não fazem a diferença (…) A orientação geral é clara: trata-se de despojar a natureza para guarnecer o cesto da vontade. Todos somos senhores. Nenhuma ordem criada, nenhuma natureza das coisas que fixe uma hierarquia nas maneiras de viver, nenhuma diferença de natureza que seja uma diferença significativa.”

Na mesma entrevista, Philippe Bénéton mostra o absurdo da nova ideologia dos direitos humanos: “Os direitos do homem tornaram-se essencialmente os direitos do indivíduo e esses direitos individuais multiplicaram-se. Não há, no fundo, senão duas categorias legítimas: o indivíduo e a humanidade. Desaparecem então os direitos do cidadão, os direitos da nação e os dos corpos intermediários (em particular os da família), entrementes a lista dos direitos não cessou e não cessa de crescer: direito ao aborto, à criança, à igualdade de gêneros, às diversas “orientações sexuais”

Desenvolvendo sua reflexão, Bénéton diz que o que mudou é o fundamento dos direitos: “Todos esses direitos novos podem basicamente ser agrupados em duas categorias: o direito à autonomia pessoal, o direito a não discriminação. Os princípios que os justificam são as novas versões da liberdade e da igualdade. Em consequência, os novos direitos estão no fundamento de uma nova moral que se substituiu por completo à moral tradicional. A moral das virtudes cede lugar à moral dos que podem tudo (la morale des ayants droit). Sirvam de exemplo as coisas da carne (empregando uma linguagem dos tempos obscuros): a falta não está mais na impureza, ela se encerra, confunde-se doravante com a violação dos direitos do outro. A libertinagem é uma excelente coisa contanto que nenhuma suspeita de desigualdade lance uma sombra sinistra sobre os entretenimentos que se deseja sejam os mais livres possível”.

E conclui Bénéton:
A consciência moral tende, pois, a confundir-se com a consciência jurídica. O permitido e o proibido delimitam o bem e o mal. O direito dos direitos do homem tornou-se nossa nova bússola. Por outro lado, ele é hoje um direito metapolítico que se impõe aos cidadãos sem que os cidadãos possam dizer sua palavra. Os juízes (na Europa, os juízes da Corte europeia dos direitos do homem) desempenham um papel chave em consonância com as minorias ativas. O pequeno número decide pelo grande número.

Como se vê pela análise do filósofo Philippe Bénéton, o  igualitarismo é um dos pilares da democracia totalitária moderna. Esta, baseada no igualitarismo, no individualismo e no relativismo, vem destruindo a sociedade orgânica tradicional. A família tradicional, instituída conforme o direito natural e divino pela união de um homem e de uma mulher para a propagação da espécie, está sacrificada nas aras dos direitos e garantias individuais. Não pode mais haver homens membros de uma família com história e glória próprias. Só pode haver indivíduos. Não pode haver mais cidadãos de uma república e muito menos ainda súditos de um reino. Só pode haver indivíduos representantes da humanidade, membros de uma república maçônica universal. É esta ideologia dos direitos humanos que está destruindo a Europa com a invasão de muçulmanos que conta com as bênçãos de Francisco I. É esta ideologia, tão bem denunciada por Philippe Bénéton, que influenciou o Vaticano II (Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa e Gaudium et spes sobre a Igreja e o mundo contemporâneo) que está originando uma nova religião do igualitarismo que não reconhece mais a diferença entre o Criador e a criatura, não dá mais glória à Majestade Divina e zomba do Onipotente. Mas de Deus não se zomba.

A primeira parte das profecias de Fátima já se cumpriu ('A Rússia espalhará seus erros pelo mundo'). Aguardemos com fé e esperança o cumprimento da segunda parte: "Por fim, meu Imaculado Coração triunfará".

Anápolis, 29 de novembro de 2017


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Publicado em O FIEL CATÓLICO n.29
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Cenário político do Brasil de hoje


Venho confessar que me incluo no grupo daqueles que já se cansaram do assunto "eleições" no Brasil. Não aguento mais esse massacre. Cansei da maldita, vergonhosa e atrasada polarização que tomou conta de todo e qualquer debate político neste país. Cansado e farto de ver que quase ninguém procura tomar a verdade como regra de suas ações, mas cada um escolhe um lado para integrar e defender, irracionalmente, e, pior, considera que para combater o seu adversário, visto como inimigo mortal, vale usar de toda e qualquer arma disponível: vale mentir, caluniar, maquiar ou escamotear os fatos, propagar boatos, tentar assustar os ignorantes, alarmar a população mais humilde...

Não aguento mais essas hordas que sequer escutam qualquer argumento contrário àquilo que escolheram tomar por verdade, que trocam argumentos e razões por vaias e gritos de guerra, porque veem a todos aqueles que se atrevem a existir fora do seu próprio grupo como vermes desprezíveis. Já não aguento mais a pífia novela dos noticiários, com suas bizarrices e desonestidades diárias, das tentativas cada vez mais baixas e covardes de caluniar adversários. Como católico, não suporto mais ver a atuação patética e podre de tantos daqueles que deveriam ser – por missão e dever sagrado – os zelosos pastores das almas, tomando o partido dos lobos. E ajudando os maus no seu trabalho de espalhar mentiras, desinformação, medo.

Estou cansado de ver a irresponsabilidade criminosa de veículos de mídia importantes, poderosos e tradicionais, que deveriam zelar – ao menos o mínimo – pela imparcialidade e pelo bom senso nas matérias que publicam. Não aguento mais ver militantes partidários imorais travestidos de "jornalistas". Não aguento mais essa gente que não sabe perder e não sabe ganhar. Estou farto de ver que ninguém tenta abrandar o incêndio; ao contrário, vai-se lançando cada vez mais gasolina à fogueira, e ninguém está preocupado com o fim a que isso vai chegar. Não vejo a hora de terminar mais esta (última, ufa!) semana e acabar logo com tudo isso.

Todavia, como desanimar não é opção, venho compartilhar o lúcido texto de Carlos Ramalhete (adaptado para O FIEL CATÓLICO) que, no meu entender, retrata com fidelidade o nosso momento presente. Textos assim são como um bálsamo, porque algo de que precisamos muito é lucidez. Deus nos ilumine a todos.
(Henrique Sebastião, Editor)



* * *

A SITUAÇÃO DO BRASIL é preocupante. Além de todos os problemas costumeiros – miséria, níveis inauditos de criminalidade, corrupção, grupos guerrilheiros que por aqui são chamados de "trabalhadores (sic) sem-terra", etc. Fato é que os anos perdidos com o país nas garras do petismo nos deixaram uma triste herança de divisão. Uma coisa sem base alguma na nossa cultura, mas importada, como costuma acontecer, da política americana pelas esquerdas. Foram 13 anos, ou muito mais (já que o grosso da grande mídia apoiou as campanhas do PT desde muito antes de sua subida ao poder, assim como continua em grande medida a fazê-lo), em que se tentou lançar brasileiro contra brasileiro: pretos contra brancos, pobres contra ricos, ciclistas contra motoristas, "sem-terra" contra fazendeiros, homossexuais contra heterossexuais...

O modo de fazer política do PT é, na verdade, a antipolítica, baseada na divisão da pólis em grupos identitários que só existem por oposição uns aos outros (se deixassem de disputar, a divisão desapareceria e uma colaboração concreta seria possível e viável). Dividir para reinar. Fazendo-se de aliado dos grupos soi-disant (que pretendem ser alguma coisa) minoritários ou "oprimidos", o PT deixou uma herança de ódio que teve sua confirmação mais trágica no horrendo atentado contra o candidato presidencial Bolsonaro.

O próprio Bolsonaro assumiu, e de muito bom grado, aliás, ser a figura de alvo das investidas petistas, com suas declarações politicamente incorretas e, muitas vezes, grosseiras. O atentado que sofreu, diga-se de passagem, foi justamente em decorrência disso: demonizaram-no a tal grau que um militante louco achou estar agindo em nome de Deus ao esfaqueá-lo. Independente de ter havido mandantes do atentado (sérios indícios apontam que sim), não há como negar que o criminoso agiu também tomado por puro ódio. Há deficientes mentais que incendeiam o Reichstag, ainda que outros lhes ponham o archote nas mãos. Em outro nível, mas ainda na lista de ataques absurdos que têm como único objetivo demonizar Bolsonaro, foi um alívio não ter convencido a grotesca acusação de "racismo" feita contra ele por conta de simples grosserias proferidas numa palestra ao eleitorado judeu. Aliás, em flagrante contraste com as delirantes acusações de que ele seria nazista(!), este eleitorado o apoia entusiasticamente em grande medida. É até interessante notar que sua assessoria dispensou a UTI aérea do hospital árabe Sírio-Libanês, que já voara a Juiz de Fora logo depois do atentado para pegá-lo, e transferiu-o, em vez disso, para o Hospital Israelita Albert Einstein.

Mas o problema perdura. O próximo presidente herdará um país dividido, um país em que o ódio e a adesão a visões identitárias da realidade – que, repito, só existem por oposição, pois o preto é o não branco, e não deveria jamais ser o antibranco; o homossexual é o não heterossexual, mas agora é também, em grande medida, anti-heterossexual. Chegamos ao cúmulo dos cúmulos do absurdo de que não poucas mulheres se tornaram (orgulhosamente) anti-homens! Os homens, aliás, andam com medo de ser simplesmente aquilo que são, conforme a natureza lhes fez, e agora tentam a todo custo se parecer mais e mais com as mulheres, por medo de serem tachados de "machistas", "sexistas" ou outro rótulo semelhante. E assim caminhamos, inseridos nessa bizarra e violentíssima visão de mundo que o PT nos legou e que impede a realização de uma verdadeira e honesta política, que só pode ser baseada na civilidade comum. Civis e polis: a origem etimológica da "civilidade" e da "política", são a mesma palavra em latim e em grego.

Far-se-ia necessário um estadista, alguém que conseguisse voltar a unir o país em torno de um projeto comum, de uma visão comum de pátria em que houvesse lugar para todos, lado a lado, sem oposição – pois uma nação dividida contra si mesma jamais prosperará, como já nos advertiu Nosso Senhor (conf. Mt 12,25).

Não há razão alguma para essas oposições identitárias violentas importadas de uma cultura de origem calvinista e, portanto, dualista, em que a divisão (entre winneers/'vencedores' e loosers/'perdedores', pretos e brancos, etc.) é impensada e incontestada. A nossa cultura é outra: aqui somos pelo diálogo, pela tolerância, pela busca do consenso, por uma união que a cultura americana nunca conheceu e não conhece. Importar tal modo de fazer antipolítica foi não apenas um atentado à própria política, à própria arte do compromisso e da busca de consenso, como também um verdadeiro atentado contra a nossa própria cultura brasileira.

Aqui é que surge o problema: onde está o necessário estadista? Que eu saiba, em lugar algum. Bolsonaro tem a vantagem de, nesse "nós contra eles" petista (em que o 'eles' é a maioria da população, mesmo que muitos não o percebam), fazer parte deste último grupo. Na realidade não é difícil perceber, se tivermos um mínimo de boa vontade, que ele não é (ao contrário do que pregam ad nauseam petistas e aliados) um propagador da violência. Bem ao contrário, ele parece ser o único verdadeiramente indignado com os altíssimos níveis da violência – contra os cidadãos honestos – que nos assola. Também não é racista, machista, "homofóbico" ou qualquer coisa desse tipo. Na verdade, costumo dizer que ele poderia ser substituído por algum trabalhador humilde anônimo, aleatório, e ninguém perceberia a diferença. Ele diz o que a maioria de nós pensa, e defende aquilo em que a maioria de nós ainda crê – mesmo depois de décadas de maciça pregação ideológica marxista por professores nas escolas, pelos meios de comunicação de massa, pela maioria dos próprios políticos, etc.

Estamos simplesmente diante de uma pessoa comum, um homem que não se envergonha de ser homem, dotado de inteligência emocional suficiente para "sacar" os anseios do pai e da mãe de família comuns; possuidor de um sistema de valores morais moldado pela experiência militar e sua ênfase em um certo "rusticismo" que, para os desacostumados (ou doutrinados na nova ordem mundial), pode parecer grosseira; ele tem uma religiosidade difusa, confusa e infelizmente desordenada, como é agora a praxe, após mais de meio século de mistura entre espiritismo e protestantismo pentecostalista sobre a base genuinamente católica da nossa cultura.

Ele espertamente assumiu no Congresso, quando o discurso único socialista parecia invencível, uma postura de "bobo da corte" em que seus exageros e grosserias o faziam parecer tão absurdo que ninguém o levaria a sério, e usou esse palco para fazer chegar ao grosso da população a percepção de que havia alguém ali que ainda não tinha enlouquecido. O que parecia loucura para a esquerda militante foi percebido como sanidade pelo eleitorado, ou por uma grande parcela deste. São Paulo Apóstolo aprovaria.

Mas, não, Bolsonaro não é um estadista. Mais ainda: nem ele e nem seu concorrente são estadistas, muito menos o estadista de que o Brasil precisaria. O modo pelo qual ele operou sua subida à posição que hoje ocupa foi derivado da política divisiva do PT, colocando-se como a mais autêntica antítese de todas as teses pregadas por eles. Todavia, na realidade objetiva, não é nem de uma antítese e nem de uma síntese que precisamos, ao contrário do que prega o materialismo dialético que, em versão pós-moderna, orienta o maquiavelismo petista. Precisamos, ou antes precisaríamos (dada a sua inexistência), de alguém que soubesse se colocar acima dessas divisões, não de alguém que as surfa e as usa de rampa de laçamento, como Bolsonaro fez e faz.

Ainda assim, Bolsonaro permanece, de longe, sendo o mal menor na comparação com seu concorrente; uma ascensão sua ao poder fatalmente fará recrudescer a política divisiva petista, que já conseguiu pregar nele, com a sua infeliz colaboração, uma coleção de rótulos tão raivosos quanto falsos. Se ele não se colocou como inimigo da divisão e sim como um componente desta, assumindo a postura de defensor da maioria que ainda pensa, é honesta, cristã, a favor da família e da vida, etc., contra minorias ensandecidas e até criminosas às quais, desgraçadamente, foi dado grande poder pelos últimos governos. Essa postura está longe de ser a ideal, mas não há como não reconhecer que é um papel necessário no parlamento, dado o nosso cenário catastrófico. E afinal, se não fosse por essa via, teria ele chegado onde chegou? Certamente não.

Chegando ao poder, será capaz de realizar uma necessária transição para uma postura mais equilibrada e dialogante? Ele assumiu um papel nesse grande teatro, certamente não por falsidade ideológica, mas por convicção. Seria capaz de desempenhar o papel do estadista, se isso lhe for permitido?

Não sei, sinceramente, se a sua assessoria conseguiria retirá-lo da posição em que se colocou. Com certeza, o PT e seus aliados (basicamente os partidos de todos os seus concorrentes na campanha presidencial, mais a mídia, mais os professores, os sindicalistas, 'artistas', os subversivos profissionais, as inúmeras ONGs e grupos organizados militantes de esquerda, etc, etc.) de tudo farão para continuar a mantê-lo nesse papel e minar todas as suas decisões. Se isso acontecer, o que poderia e deveria ser feito pacificamente por um estadista talvez tenha que ser feito de maneira bruta, calando o discurso divisivo. Problema: como efeito colateral, isso daria àqueles que amam se fazer de vítimas – e que desde sempre atrelaram o vitimismo à sua própria identidade – a oportunidade perfeita; isso fortaleceria o discurso de "coitadinho" do PT, PC do B e aliados. É uma armadilha da qual Bolsonaro, mal menor, teria enorme dificuldade de escapar, por melhores que sejam os seus assessores. Ele saiu do Exército capitão, logo, sem a Escola de Estado-Maior. Ele conhece tática, não estratégia. Curto, não longo prazo. Ação local, não global. Nesse ponto é um alívio que tenha se cercado de generais, mas resta saber o quanto ele os ouviria no Planalto.

E quem é o opositor?

Fernando Haddad (vulgo 'Malddad' e, mais recentemente, 'Falsiddad') é uma piada, nada mais. Um ficha suja que, em outros países, sequer poderia estar concorrendo ao cargo máximo da nação, responde a nada menos que 32 processos na Justiça, que vão do recebimento de dinheiro da Lava Jato a denúncias por improbidade administrativa e superfaturamento de obras. Um candidato que tenta se apresentar como "novo" mas representa à perfeição o modelo petista de malfeitos na gestão pública.

Haddad saiu corrido da prefeitura de São Paulo depois de ter feito fama derramando tinta vermelha pela cidade afora afirmando criar ciclovias. Era o segundo poste/fantoche de Lula. Depois de a Lava Jato ter posto a nu alguns dos horrores e roubalheiras da gestão PT, só os muito ignorantes dos fatos ou aqueles vitimados por lavagem cerebral (ministrada numa escola perto de você, nas aulas que deveriam ser de História, Geografia, Filosofia, Sociologia… e mesmo de Matemática ou Química) conseguem levar a sério o presidiário barbudo. Infelizmente, não são tão poucos e, destes, alguns passam a votar Haddad por ordem do poderoso chefão. Mas Haddad presidente é algo que provavelmente nem a mãe dele quer de fato. Pobre senhora.


* * *

Não tem jeito, sobra Jair Bolsonaro. Para vencer como um político de verdade (e não só nas urnas), ele precisa operar a mágica – que a facada talvez ajude a conjurar – de abrandar sua persona de "bobo da corte" parlamentar, do representante de um lado na disputa entre fulanos e beltranos impetrada pelo PT, e mostrar-se como quem verdadeiramente é: não ainda, infelizmente, o estadista necessário ao Brasil, mas um cidadão de bem. Ele não é um monstro racista, fascista, nazista, eletricista... o que seja. É simplesmente um brasileiro médio com um bom talento para perceber a extrema gravidade do momento que vivemos. Na Presidência, talvez, quem sabe, um brasileiro médio consiga iniciar o que há de ser a longa obra de restaurar a unidade do Brasil.

Ajude-nos Deus a ajudar nossa nação a tomar o caminho da restauração!


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Breves notas sobre o fascismo – real


Por Igor Andrade – Frater. Laical São Próspero

NAS (PRETENSAS) DISCUSSÕES sobre política que abundam nas redes sociais nos nossos dias –, em boa parte das vezes empreendidas por homens e mulheres igualmente incapazes de enxergar um palmo à frente do nariz –, muito se usa um termo obscuro à grande maioria: o fascismo.

Não explicarei a fundo o desenrolar e pormenores dessa ideologia por dois motivos: primeiro, como nenhuma ideologia presta, prefiro estudar as coisas que realmente fazem sentido; segundo, por não gostar do assunto, não dediquei o tempo e o esforço que seriam necessários para que pudesse explicar  o tema em todos os seus numerosos detalhes; então, limito-me a apenas algumas breves notas que não podem ser ignoradas.


O mito

Certo fazendeiro tinha um filho muito orgulhoso de si mesmo. Para ensiná-lo a ser generoso entre seus pares, esse homem mandou o filho recolher e carregar vários gravetos (soltos) de uma vez. O jovem lutou, mas os gravetos quebravam e se espalhavam.

O homem, então, juntou vários dos gravetos espalhados num feixe, amarrou-os juntos e apertou-os bem. Deu a mesma ordem ao filho, que então pôde carregá-los com maior facilidade. O pai lhe explicou:

-Quando os homens são soberbos e não se ajudam mutuamente, qualquer inimigo com facilidade os quebrará. Porém, quando se unem num feixe, tornam-se fortes e facilmente podem ser conduzidos para fazer frente aos inimigos.

Desta fábula tomei conhecimento ao estudar italiano, e, pasmem, é uma fábula usada para disseminar o fascismo na Itália.


Origem do termo

Muitos [possivelmente a esmagadora maioria] dos que usam o termo “fascismo” não fazem a mínima idéia de sobre o que estão falando. Isso se prova pelo desconhecimento da simples origem do termo. O leitor já se perguntou o porquê de fascismo ser escrito com “sc”?

Quem conhece um pouco de italiano sabe que “sc” representa o mesmo som que “ch” em português. Sabe também que “fascismo” (se pronuncia 'faxismo') é muito semelhante a outro termo italiano, “fascio”, que em português pode ser traduzido como “facho” ou “feixe” – é por isso que na bandeira da Itália fascista vemos uma águia com um feixe nas patas.

Percebe?

O fascismo tem uma certa origem mitológica e é melhor compreendido através da fábula supracitada.

Essa ideologia carrega em si (no próprio significado da palavra) a idéia de que os homens não são pessoas, mas indivíduos; que esses indivíduos são todos fracos e não subsistem em si. Por conta dessa suposta “fraqueza ontológica”, todos os indivíduos deveriam ser unidos num grande “indivíduo nacional” – cujo nome é Estado.

Para a ideologia fascista, o Estado nada mais é que o indivíduo no qual todos os homens são encerrados. Essa idéia é muito semelhante a um mito maniqueísta (se não me falha a memória) que diz que, no fim, os homens iluminados são como pedaços de manteiga que serão derretidos num grande tacho de leite em fervura, deixando de ser indivíduos e sendo incorporados a um indivíduo maior (ou algo do tipo). Este é um dos motivos pelos quais o fascismo é completamente antagônico ao cristianismo.


Il Duce

Logo depois de fazer o feixe de gravetos, o pai explica ao filho que isso facilita o trabalho de levar os gravetos para onde devem ir. No caso dos homens, eles se tornam mais facilmente conduzidos – aí entra a figura do "condutor", em italiano duce (pronuncia-se 'dutche').

Como Benito Mussolini era conhecido, mesmo?

O condutor, nesse caso, não passa de um manipulador. Como os indivíduos foram todos incorporados pelo Estado, não há mais vontade pessoal dos homens, nem propriedade por direito privada, nem liberdade individual. Essas idéias foram eternizadas na famosa frase: “Tudo pelo Estado, nada fora do Estado” – porque o fascismo, por necessidade, é estatizante.

O duce, porém – interessantemente – não tem sua personalidade encerrada no Estado, mas está fora dele “conduzindo”. Ele é uma espécie de "iluminado" que acha que sabe melhor do que o povo o que o povo precisa. Assemelha-se muito a um certo sindicalista sem um dedo que virou presidente do Brasil e, em 2005, ignorou a vontade popular, majoritariamente contrária ao desarmamento. É como se dissesse: “O povo não sabe o que quer” [e ele, claro, como o 'ser superior' que é, vai fazer o que é melhor para o povo...].

Assim é que procede o Estado brasileiro há muito tempo (vê-se pelas leis absurdas que regulamentam a vida de todos).


O patriotismo

Fascismo não pode ser confundido com amor à pátria, à língua ou à cultura. Cícero ensina que o amor à pátria equivale ao amor devido aos pais – e chamar Cícero de fascista é, no mínimo, um anacronismo desonesto.

O amor à pátria é natural do homem e deve ser fomentado, mas isso não é papel do governo ou do Estado e sim é parte integrante da formação intelectual e cultural do homem. Claro, esse amor deve ser honesto e regido pelo bom-senso. Impedir as pessoas de incorporar em sua cultura certas características de outras culturas é cercear impropriamente as liberdades – e é isto que o fascismo faz.


Coordenadas políticas

Sendo estatizante, o fascismo é de esquerda? Sendo nacionalista é de direita?

Não e não.

Primeiro porque a dicotomia esquerda-direita não reflete a realidade. Fascismo é fascismo, é uma ideologia – e sendo ideologia deve ser descartado como inútil.

Digo-o porque ideologias não têm vínculo integral com a realidade. No site Contra os Acadêmicos há inúmeros textos explicando isso, que todos podem ler, então não serei redundante.


Resumindo

Antes de usar um termo desconhecido, tenha o mínimo de humildade e procure saber as origens desse termo. Liberte-se das amarras dicotômicas e ideológicas e pense como um ser humano decente.

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Vida e obra de São Domingos de Gusmão


Por SS o Papa Bento XVI

EM MINHA AUDIÊNCIA anterior [leia] apresentei a figura luminosa de Francisco de Assis, e hoje gostaria de vos falar de outro santo que, na mesma época, ofereceu uma contribuição fundamental para a renovação da Igreja do seu tempo. Trata-se de São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores, também conhecidos como Padres Pregadores.

O seu sucessor na orientação da Ordem, Beato Jordão da Saxônia, oferece um retrato completo de São Domingos no texto de uma oração famosa: “Inflamado de zelo por Deus e de ardor sobrenatural, pela tua caridade sem confins e o fervor do espírito veemente, consagraste-te inteiramente com o voto da pobreza perpétua à observância apostólica e à pregação evangélica”. É ressaltada precisamente esta característica fundamental do testemunho de Domingos: ele falava sempre com Deus e de Deus. Na vida dos santos, o amor pelo Senhor e pelo próximo, a busca da glória de Deus e da salvação das almas caminham sempre juntos.

Domingos nasceu em Caleruega, na Espanha, por volta de 1170. Pertencia a uma nobre família da Velha Castela e, ajudado por um tio sacerdote, formou-se numa célebre escola de Palência. Distinguiu-se imediatamente pelo interesse no estudo da Sagrada Escritura e pelo amor aos pobres, a tal ponto que chegou a vender os livros, que na sua época constituíam um bem de grande valor, para socorrer com o lucro as vítimas de uma carestia.

Tendo sido ordenado sacerdote, foi eleito cônego do cabido da Catedral na sua Diocese de origem, Osma. Embora essa nomeação pudesse representar para ele algum motivo de prestígio na Igreja e na sociedade, ele não a interpretou como um privilégio pessoal nem como o início de uma carreira eclesiástica brilhante, mas como um serviço a prestar com dedicação e humildade.

Não é porventura uma tentação –, a da carreira, do poder –, uma tentação da qual não estão imunes nem sequer aqueles que desempenham um papel de animação e de governo na Igreja? Recordei-o há alguns meses, durante a consagração de alguns Bispos: “Não procuremos o poder, o prestígio e a estima para nós mesmos... Sabemos como as coisas na sociedade civil e, com frequência, também na Igreja, sofrem pelo fato de que muitos deles, aos quais foi conferida uma responsabilidade, trabalham para si mesmos e não para a comunidade” (Homilia durante a Capela Papal para a Ordenação episcopal de cinco Excelentíssimos Prelados, 12 de setembro de 2009).

O Bispo de Osma, que se chamava Diogo, um pastor verdadeiro e zeloso, observou depressa as qualidades espirituais de Domingos, e quis valer-se da sua colaboração. Juntos, partiram para o Norte da Europa a fim de realizar missões diplomáticas que lhes eram confiadas pelo rei de Castela. Viajando, Domingos descobriu dois desafios enormes para a Igreja do seu tempo: a existência de povos ainda não evangelizados, nas extremidades setentrionais do continente europeu, e a laceração religiosa que debilitava a vida cristã no Sul da França, onde a ação de alguns grupos heréticos criava confusão e o afastamento da verdade da fé.

A ação missionária a favor daqueles que não conheciam a luz do Evangelho e a obra de reevangelização das comunidades cristãs tornaram-se, assim, as metas apostólicas que Domingos se propôs alcançar. O Papa, a quem o Bispo Diogo e Domingos visitaram para pedir conselho, pediu a este último que se dedicasse à pregação aos Albigenses, um grupo herético que defendia uma concepção dualista da realidade, ou seja, com dois princípios criadores igualmente poderosos, o Bem e o Mal. Por conseguinte, esse grupo desprezava a matéria como proveniente do princípio do mal, rejeitando até o matrimônio, chegando mesmo a negar a Encarnação de Cristo, os Sacramentos em que o Senhor nos “toca” através da matéria e a Ressurreição dos corpos. Os Albigenses apreciavam a vida pobre e austera – nesse sentido, eram exemplares – e criticavam a riqueza do Clero daquela época.

Domingos aceitou com entusiasmo essa missão, que realizou precisamente com o exemplo da sua existência pobre e austera, com a pregação do Evangelho e com debates públicos. A esta missão de pregar a Boa Nova ele dedicou o resto de sua vida. Os seus filhos teriam realizado inclusive os outros sonhos de São Domingos: a missão ad gentes, ou seja, àqueles que ainda não conheciam Jesus, e a missão àqueles que viviam nas cidades, sobretudo nas universitárias, onde as novas tendências intelectuais eram um desafio para a fé dos cultos.

Este grande santo recorda-nos que no coração da Igreja deve sempre arder um fogo missionário, que impele incessantemente a fazer o primeiro anúncio do Evangelho e, onde for necessário, a uma nova evangelização: com efeito, Cristo é o bem mais precioso que os homens e mulheres de todos os tempos e lugares têm o direito de conhecer e de amar! E é consolador ver que até na Igreja de hoje são muitos – pastores e fiéis leigos, membros de antigas ordens religiosas e de novos movimentos eclesiais – que com alegria despendem a sua vida por este ideal supremo: anunciar e testemunhar o Evangelho!

Depois, a Domingos de Gusmão uniram-se outros homens atraídos pela mesma aspiração. Deste modo, progressivamente, da primeira fundação de Toulouse teve origem a Ordem dos Pregadores. Com efeito, Domingos, em plena sintonia com as diretrizes dos Papas do seu tempo, Inocêncio III e Honório III, adotou a antiga Regra de Santo Agostinho, adaptando-a às exigências de vida apostólica que o levaram, bem como aos seus companheiros, a pregar, passando de um lugar para outro, mas depois voltando aos próprios conventos, lugares de estudo, oração e vida comunitária. De modo particular, Domingos quis dar relevo a dois valores considerados indispensáveis para o bom êxito da missão evangelizadora: a vida comunitária na pobreza e o estudo.

Antes de tudo, Domingos e os Padres Pregadores apresentavam-se como mendicantes, isto é, sem vastas propriedades de terrenos para administrar. Esse elemento tornava-os mais disponíveis ao estudo e à pregação itinerante, e constituía um testemunho concreto para as pessoas. O governo interno dos conventos e das províncias dominicanas estruturou-se segundo o sistema de cabidos, que elegiam os seus próprios Superiores, sucessivamente confirmados pelos Superiores maiores; portanto, uma organização que estimulava a vida fraterna e a responsabilidade de todos os membros da comunidade, exigindo fortes convicções pessoais.

A escolha desse sistema nascia precisamente do fato que os Dominicanos, como pregadores da verdade de Deus, tinham que ser coerentes com tudo quanto anunciavam. A verdade estudada e compartilhada na caridade com os irmãos constitui o fundamento mais profundo da alegria. O Beato Jordão da Saxônia diz de São Domingos: 

Ele acolhia cada homem no grande seio da caridade e, dado que amava a todos, todos o amavam. Fez para si uma lei pessoal de se alegrar com as pessoas felizes e de chorar com aqueles que choravam”.
(Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum autore Iordano de Saxonia, ed. H. C. Scheeben [Monumenta Historica Sancti Patris Nostri Dominici, Romae, 1935])

Em segundo lugar, com um gesto intrépido, Domingos quis que seus seguidores adquirissem uma formação teológica sólida e não hesitou em enviá-los às Universidades dessa época, embora não poucos eclesiásticos vissem com desconfiança tais instituições culturais. As Constituições da Ordem dos Pregadores atribuem muita importância ao estudo como preparação para o apostolado. Domingos queria que os seus Padres se dedicassem a isto sem poupar esforços, com diligência e piedade; um estudo fundado na alma de todo o saber teológico, ou seja, na Sagrada Escritura, e respeitador das interrogações formuladas pela razão.

O desenvolvimento da cultura impõe àqueles que desempenham o ministério da Palavra, em vários níveis, que sejam bem preparados. Portanto, exorto a todos, pastores e leigos, a cultivar essa “dimensão cultural” da fé, a fim de que a beleza da verdade cristã possa ser melhor compreendida e a fé seja verdadeiramente alimentada, fortalecida e também defendida. Neste Ano sacerdotal, convido os seminaristas e os sacerdotes a estimar o valor espiritual do estudo. A qualidade do ministério sacerdotal depende também da generosidade com que [o sacerdote] se aplica ao estudo das verdades reveladas.

Domingos, que quis fundar uma Ordem religiosa de pregadores-teólogos, lembra-nos que a Teologia tem uma dimensão espiritual e pastoral, que enriquece a alma e a vida. Os presbíteros, os consagrados e também todos os fiéis podem encontrar uma profunda “alegria interior” na contemplação da beleza da verdade que vem de Deus, verdade sempre atual e viva. O lema dos Padres Pregadores – contemplata aliis tradere – ajuda-nos a descobrir, além disso, um anseio pastoral no estudo contemplativo de tal verdade, pela exigência de comunicar aos outros o fruto da própria contemplação.

Quando Domingos faleceu, em 1221 em Bolonha, cidade que o declarou padroeiro, a sua obra já tinha alcançado grande sucesso. A Ordem dos Pregadores, com o apoio da Santa Sé, difundiu-se em muitos países da Europa, em benefício da Igreja inteira. Domingos foi canonizado em 1234, e é ele mesmo que, com a sua santidade, nos indica dois meios indispensáveis a fim de que ação apostólica seja incisiva.

Em primeiro lugar, a devoção mariana, que ele cultivou com ternura e deixou como herança preciosa aos seus filhos espirituais, que na história da Igreja tiveram o grande mérito de difundir a recitação do santo Rosário, tão querida ao povo cristão e tão rica de valores evangélicos, uma autêntica escola de fé e de piedade.

Em segundo lugar, Domingos, que assumiu o cuidado de alguns mosteiros femininos na França e em Roma, acreditou até ao fundo no valor da oração de intercessão pelo bom êxito do afã apostólico. Só no Paraíso compreenderemos quão eficazmente a oração das irmãs claustrais acompanham a obra apostólica! A cada uma delas dirijo o meu pensamento grato e carinhoso.

Estimados irmãos e irmãs, a vida de Domingos de Gusmão estimule todos nós a sermos fervorosos na oração, corajosos na vivência da fé e profundamente apaixonados por Jesus Cristo! Por sua intercessão, peçamos a Deus que enriqueça sempre a Igreja com autênticos pregadores do Evangelho.

AUDIÊNCIA GERAL (quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010)


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