Você tem um projeto pessoal de vida?

Prof. Dr. Joel Gracioso
especialmente para 'O Fiel Católico'




EM TODO FINAL e início de ano, geralmente, sonhamos e prometemos muitas coisas. Ora, por que não aproveitar este entusiasmo inicial para de fato pensar um Projeto pessoal de vida?

Muitas pessoas constantemente não se sentem realizadas e não conseguem ver sentido algum naquilo que fazem. Trabalham, estudam, namoram, ajudam na igreja,mas no fundo fazem tudo isso de maneira automática e irrefletida. Infelizmente, muitas vezes, só paramos para pensar sobre o sentido da vida quando algum problema grave acontece conosco, como a morte de um ente querido, perda do emprego, um pecado grave, etc. Mas não precisa ser assim.

Na vida precisamos ter metas e saber fazer escolhas. Muitas vezes vamos vivendo sem rumo e objetivos claros. Isso colabora profundamente para nos sentirmos vazios, angustiados e desorientados.

É possível e devemos ter um Projeto pessoal de vida se quisermos cumprir a missão que Deus nos deu. Muitos desanimam e desistem no meio de suas caminhadas porque são indisciplinados e desorganizados. Não programam seu ano, mês ou semana. Têm, muitas vezes, uma Teologia da Graça e da Providência equivocada, achando que a Graça de Deus substitui a natureza, enquanto a Tradição cristã vem nos ensinar que a Graça pressupõe a natureza.

Deus nos deu duas coisas fundamentais: a inteligência e a vontade; a primeira para conhecermos a verdade e a segunda para querermos o bem. Para isso precisamos que a Graça de Deus toque essas duas faculdades da alma, – mas também é necessário que colaboremos com a Graça, educando-as. – Ou seja, com certeza Deus cuida dos seus filhos e os auxilia, porém isso não significa que nós não somos responsáveis por nada.

Para que você tenha um Projeto de vida é importante buscar, em primeiro lugar, o autoconhecimento, interrogando-se a si mesmo: quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Quais minhas competências e talentos? Quais meus pontos fortes e fracos? Qual minha opção fundamental? Quais escolhas estou fazendo de fato no dia a dia? O que fazer com minhas frustrações e fracassos? Qual é minha vocação?

A partir deste autoconhecimento primordial vamos formando uma imagem mais clara de nós mesmos e de nossa história, e enxergando com maior clareza, também, em que podemos colaborar na construção do Reino de Deus e qual o sentido real da nossa vida.

Enfim, percebemos que muitas coisas acontecem em nossas vidas pelas escolhas certas ou erradas que fazemos, e outras ocorrem independente das nossas escolhas. Entretanto, mesmo em relação àquelas coisas que ocorreram sem nosso desejo ou planejamento, somos livres, pois podemos nos posicionar perante elas.

Talvez o segredo para descobrir o sentido da vida e cumprir a missão que Deus nos deu seja: abrir-se à Graça de Deus e planejar a própria vida a partir de um autoconhecimento equilibrado; saber lidar com nossos fracassos e frustrações; ter claro, como um filósofo uma vez afirmou, que o importante não é o que fizeram conosco, mas sim o que fazemos com o que fizeram conosco.
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A busca da data histórica do Nascimento de Cristo: 25 de dezembro é uma possibilidade factual


O TEMPO LITÚRGICO do Natal vai da véspera do próprio Natal de Nosso Senhor até o primeiro domingo depois da Festa da Epifania, em 6 de janeiro, quando se comemora o Batismo de Jesus.

"Epifania" é a manifestação de Jesus como o Messias de Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. A esse respeito, diz o seguinte o Catecismo da Igreja Católica:

A Epifania é a manifestação de Jesus como Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. Com o Batismo de Jesus no Jordão e com as bodas de Caná, ela celebra a
adoração de Jesus pelos 'magos' vindos do Oriente. Nesses 'magos', representantes das
religiões pagãs circunvizinhas, o Evangelho vê as primícias d(e todas) as nações que acolhem a Boa Nova da salvação pela Encarnação. A vinda dos 'magos' a Jerusalém para 'adorar ao Rei dos Judeus' mostra que eles procuram, em Israel, à Luz messiânica da estrela de Davi, aqu'Ele que será o Rei das nações. Sua vinda significa que os pagãos podem descobrir Jesus e adorá-lo como Filho de Deus e Salvador do mundo (...).
(CIC §528)

Antes de tudo, no estudo sério do assunto que dá título a este artigo, precisamos reconhecer que não existe certeza quanto a data historicamente precisa do Nascimento de Jesus Cristo. Os evangelistas não a mencionam. S. Lucas informa que pastores estavam em vigília noturna, guardando o rebanho nos campos, atividades mais comuns na primavera e verão do Hemisfério Norte, mas de modo algum totalmente ausentes no outono/inverno. Bispos dos primeiros séculos fizeram numerosas especulações: alguns aderiram ao 25 e/ou 28 de março; outros, ao 19 de abril ou ao 20 de maio.

No mundo pagão do século III, o culto de Mitra, também chamado de “Sol Invencível”, adquiriu grande importância no mundo romano. O Império promovia, todo dia 25 de dezembro, grandes festas e jogos em homenagem ao dies natalis (dia do nascimento) desse deus. No século seguinte, para conter o paganismo e instaurar a celebração do Nascimento de Cristo, Luz dos homens e verdadeiro Sol que traz a Luz ao mundo, teria a Igreja situado definitivamente a celebração do Nascimento do Filho de Deus no lugar da festa pagã. Ou seja, tratar-se-ia de uma decisão mais religiosa e evangelizadora do que de uma fixação científica da data do Evento histórico. – Saiba mais sobre o assunto neste estudo.

O próprio ano do Nascimento de Jesus é também motivo de debates. Mateus diz que Jesus nasceu no reinado de Herodes, o Grande, que morreu no ano 4 a.C. – Cristo, evidentemente, não poderia ter nascido antes de Cristo. – Ocorre que, no século VI de nossa era, o monge Dionísio Exíguo foi incumbido de empreender cálculos para determinar o início da Era Cristã, e a fixou em 754 após a fundação de Roma. Ele reconhecidamente se equivocou. Além disso, não lhe ocorreu a necessidade de fixar um ano zero entre -1 a.C e + 1 d.C.



Até aqui, preparamos um singelo "pano de fundo" para a introdução do tema, sem apresentar novidade alguma. A novidade, – que já não é tão nova assim, pois se baseia numa descoberta que já completou mais que uma década, – é a contestação daquilo que há tempos vinha sendo pacificamente aceito como realidade pela maioria dos historiadores e pesquisadores mais reconhecidos: a afirmação de que a data de celebração do Natal havia sido essa escolha arbitrária (descrita acima), baseada em motivações desvinculadas da preocupação com a precisão histórica e sem ligação com a data real do Nascimento de Jesus, a qual, por fim, ninguém teria condições de poder determinar.

Se começamos dizendo que o estudo sério precisa reconhecer que não há certeza quanto à data historicamente correta, igualmente é preciso saber e reconhecer que existe a possibilidade de a maioria dos especialistas ter se enganado, ao menos até recentemente.

O fato histórico concreto é que hoje –, graças em boa parte aos documentos de Qumran[1] –, estamos em condições de repensar a questão com precisão inédita: Jesus pode, sim, ter nascido mesmo no dia 25 de dezembro. Uma descoberta extraordinária, que não recebeu ainda a devida atenção da parte dos grandes autores e menos ainda da grande mídia. Mesmo assim, estamos falando de uma proposição historicamente honesta e que não pode ser alvo de suspeitas de fins apologéticos católicos, dado que a devemos primeiramente a um docente judeu, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Antes de entrarmos nas explicações que levaram a essa fascinante descoberta, cabe salientar que, ainda que até o século III não tenhamos documentação mais concreta quanto a data do Nascimento de Cristo, e os primeiros testemunhos dos Padres e autores eclesiásticos assinalem datas diversas, o primeiro testemunho de que o Natal do Senhor tenha ocorrido a 25 de dezembro parte de Sexto Júlio Africano, e provém já do ano 221. Além disso, referência direta à mesma data é a do calendário litúrgico filocaliano, do ano 354, que atesta: VII kal. Ian. natus Christus in Betleem Iudeae ('a 25 de dazembro nasceu Cristo em Belém da Judeia'). E então, a partir do século IV, os testemunhos dessa data como a do Nascimento do Senhor são comuns na tradição ocidental, enquanto que na tradição oriental prevalece o 6 de janeiro (uma diferença de poucos dias, portanto).

Outra explicação plausível faz depender a data do Nascimento de Jesus e a data de sua Encarnação (Concepção), que por sua vez se relacionava com a data de sua Morte. Num tratado anônimo sobre solstícios e equinócios afirma-se que "Nosso Senhor foi concebido às 8 das kalendas de abril do mês de março (25 de março), que é o dia da Paixão do Senhor e o da sua Concepção, pois foi concebido no mesmo dia em que morreu"[2]. Teria, então, nascido aos 25 de dezembro. Na tradição oriental, apoiando-se em outros calendários, a Paixão e a Encarnação do Senhor celebram-se aos 6 de abril, data que coincide com a celebração do Nascimento aos 6 de janeiro.

A relação entre Paixão e Encarnação é uma ideia que está em consonância com a mentalidade antiga e medieval, que admirava a perfeição do Universo como um todo, onde as grandes intervenções de Deus estariam vinculadas entre si. Trata-se de uma concepção que também encontra suas raízes no judaísmo, onde criação e salvação se relacionavam com o mês de nisan. A arte cristã refletiu abundantemente essa mesma ideia ao longo da História, por exemplo, ao retratar, na Anunciação à Virgem, assim como em diversos outros ícones que retratam a divina Infância, o Menino Jesus descendo do Céu com a cruz. Assim, mais do que possível, é provável que os cristãos vinculassem a Redenção operada por Cristo com a sua Concepção, e esta determinasse a data do Nascimento. Como disse Joseph Ratzinger, o agora Papa emérito Bento XVI: "O mais decisivo foi a relação existente entre a Criação e a Cruz, entre a Criação e a Concepção de Cristo"[3].

Vemos, então, que a explicação da cristianização da data de 25 de dezembro, visando a conversão dos pagãos – conforme nós mesmos divulgamos por aqui – não é uma certeza acadêmico-histórica, mas apenas a versão mais difundida e aceita.

Retomando a partir daqui a proposição da data do Nascimento do Senhor como sendo historicamente o 25 de dezembro, apresentamos a sua explanação, talvez algo complexa, mas fascinante.

Se Jesus nasceu aos 25 de dezembro, então, como é óbvio, sua Concepção ocorreu 9 meses antes. Com efeito, os calendários cristãos datam a Anunciação de S. Gabriel Arcanjo a Maria Santíssima em 25 de março. Sabemos, pelo Evangelho segundo S. Lucas, que, precisamente seis meses antes, João o Precursor, que será chamado o Batista, tinha sido concebido por Isabel. A Igreja Católica não tem uma Festa litúrgica para essa concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente entre os dias 23 e 25 de setembro; seis meses antes da Anunciação a Maria.

Estaríamos diante de uma sucessão de datas lógica e plausível, mas baseada em tradições não verificáveis, e não em acontecimentos localizáveis no tempo? Era nisso que se acreditava quase que unanimemente, até há pouco tempo. A realidade, porém, pode ser outra.

Para entender o que se propõe, devemos partir da concepção do Batista: o Evangelho segundo S. Lucas se abre com a história do velho casal – Zacarias e Isabel – já resignado à esterilidade, que era considerada uma das piores desgraças em Israel naquele tempo. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, quando estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de S. Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher teriam um filho. Deveriam lhe dar o nome João, e ele seria grande "diante do Senhor".

Atenção: Lucas teve o cuidado de precisar que Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias e, que à ocasião da aparição "desempenhava as funções sacerdotais no turno da sua classe" (Lc 1,8). Com efeito, no antigo Israel, os que pertenciam à casta sacerdotal estavam divididos em 24 classes, as quais, alternando-se segundo uma ordem fixa e imutável, deviam prestar o serviço litúrgico no Templo, por uma semana, duas vezes por ano.

Prof. Shemarjahu Talmon
(1920-2010)
Já se sabia que a classe de Zacarias (a de Abias) era a oitava no elenco oficial; mas não se sabia quando é que ocorriam esses seus turnos de serviço. Ocorre que este enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na biblioteca essênia de Qumran. O estudioso, assim, conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma destas era na última semana de setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que põe entre os dias 23 e 25 de setembro a data do anúncio a Zacarias. Verosimilhança esta que aproximou-se da certeza quando estudiosos, estimulados pela descoberta do Prof. Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão de que esta provinha diretamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Essa memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.

Vemos, assim, como aquilo que parecia mítico tem fundamento na realidade histórica; uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em setembro, o anúncio a Zacarias, e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em março, o Anúncio a Maria; três meses depois, em junho, o nascimento de João; seis meses depois, o Nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de dezembro; uma data que neste caso não foi, de modo algum, fixado ao acaso ou com objetivos secundários.

Depois de tantos séculos de investigação, eis que os Evangelhos – que nunca cessam de nos surpreender e nos fornecer informações novas – revelam, em detalhes aparentemente inúteis (o que é que importava se Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias ou não? Nenhum exegeta prestava atenção a isso) a sua razão de ser, a sua realidade enquanto sinais de verdades precisas, às vezes explícitas, às vezes ocultas.

É, portanto, no mínimo uma possibilidade concreta e real que o Natal de Nosso Senhor tenha realmente ocorrido, como fato histórico e cientificamente demonstrável, no dia 25 de dezembro.

A Fraternidade Laical São Próspero roga a Deus por um santo e abençoado Natal a todos os nossos leitores e assinantes.


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Notas:
1. Os manuscritos de Qumran foram descobertos em 1947, perto das margens do Mar Morto, na localidade de Qumran, localidade onde a seita hebraica dos essênios tinha sua sede principal no tempo de Jesus. Os manuscritos foram encontrados em ânforas, provavelmente escondidos pelos monges da seita, quando tiveram que fugir dos romanos, provavelmente entre 66 e 70 d. C. Estes pergaminhos nos deram os textos de quase todos os livros da Bíblia copiados num período entre dois e um século antes de Cristo, e perfeitamente coincidentes com os que são usados hoje por judeus e cristãos (cf. MESSORI, Vittorio, Hipóteses sobre Jesus, Porto: Ed. Salesianas, 1987, p. 101).
2. Cf. BOTTE, B. Les Origenes de la Noël et de l'Epiphanie, Louvain: Bélgica, 1932, pp. 230-233.
3. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia, São Paulo: Loyola, 2000, p. 131.
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Fontes:
• VARO, Francisco et al. 54 perguntas sobre Jesus Cristo. • São Paulo: Gabinete de Informação do Opus Dei, 2015.
• Corriere della Sera, 9 de Julho de 2003, com o apostolado Veritatis Splendor, disp. em:
veritatis.com.br/doutrina/deus/970-jesus-nasceu-mesmo-num-dia-25-de-dezembro
• SALLES, Catherine. Revista 'História Viva' virtual, ed. Duetto disp em:
www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/jesus_nasceu_em_dezembro.html
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O Nascimento de Jesus em Belém – conclusão

Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a Glória do Senhor envolveu-os de luz"
(Lc 2,8-9)


** Ler a primeira parte deste estudo

** Ler a segunda parte deste estudo

AS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS do grande Acontecimento são pastores que estão em vigília. Muito se refletiu sobre o significado que possa ter o fato de os primeiros a receber a Mensagem terem sido precisamente pastores. Parece-me que não seja necessária demasiada perspicácia para superar tal questão: Jesus nasceu fora da cidade, num ambiente circundado por todos os lados de pastagens, para onde os pastores traziam seus rebanhos. Por isso, era normal que os primeiros chamados para ver o Menino na manjedoura fossem os pastores que estavam mais perto do Acontecimento.

Naturalmente, pode-se desenvolver reflexões diversas a respeito: talvez os pastores vivessem não só externamente, mas também interiormente, mais perto do Acontecimento do que os habitantes da cidade, que dormiam tranquilos. Também intimamente não estavam longe daquele Deus que se fez Menino. Coincide com isso o fato de pertencerem aos pobres, às almas simples, pelas quais Jesus havia de bendizer o Pai, porque é sobretudo a elas que está reservado o acesso ao Mistério de Deus (cf. Lc 10,21-22). Os pastores representam os pobres de Israel, os pobres em geral: os destinatários privilegiados do Amor de Deus.

Um novo realce foi aduzido mais tarde, principalmente pela tradição monástica: os monges eram pessoas que velavam. Queriam permanecer acordados neste mundo, o que pode ser visto como analogia à necessidade que todo cristão tem de estar interiormente vigilante, ser sensível à chamada de Deus através dos sinais de sua Presença.



Pode-se pensar na narrativa da escolha de Davi como rei. Deus rejeitara Saul; Samuel foi enviado a Belém para ter com José, para ungir como rei um de seus filhos que o SENHOR lhe havia de indicar. Dois filhos que se apresentam diante dele; nenhum é o escolhido. Falta ainda o mais novo, mas está apascentando o rebanho, explica Jessé ao profeta. Samuel manda-o chamar da pastagem e, por indicação de Deus, unge o jovem Davi "na presença dos seus irmãos" (cf. 1Sm 16,1-13). Davi vem do meio das ovelhas que apascenta, e é constituído pastor de Israel (cf. 2Sm 5,2). O profeta Miqueias fixa o olhar num futuro distante e anuncia que de Belém sairia aqu'Ele que haveria de apascentar um dia o povo de Israel (cf.Mq 5,1-2; Mt 2,6). Jesus nasceu entre os pastores; Ele é o grande Pastor dos homens (cf. 1Pd 2,25; Hb 13,20).

Voltemos ao texto da narração do Natal. O Anjo do Senhor aparece aos pastores e a Glória do SENHOR envolve-os de Luz. "E ficaram tomados de grande temor" (Lc 2,9). Mas o Anjo dissipa o medo neles e anuncia-lhes "uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi" (Lc 2,10-11). Como sinal, é-lhes dito que haviam de encontrar um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura.

"De repente, juntou-se ao Anjo uma multidão do Exército Celeste, a louvar a Deus e dizendo: 'Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens que Ele ama' (Lc 1,12-14). O evangelista afirma que os anjos "dizem", isto é falam. Mas, desde o início, para os cristãos era claro que esse falar dos anjos é um cântico, no qual todo o esplendor da grande Alegria por eles anunciada se torna sensivelmente presente. E assim, a partir daquele momento, nunca mais cessou o cântico de louvor dos anjos; continua, através dos séculos, com formas sempre novas e, na celebração do Natal de Jesus, ressoa sempre de novo. Bem compreensível é que o povo simples dos crentes tenha depois ouvido cantar também os pastores e, na Noite Santa, se junte às suas melodias, desde então até o fim dos tempos, exprimindo a todos com o canto da grande Alegria.

Mas, segundo a narração de S. Lucas, o que é que cantaram os anjos? Eles unem a Glória de Deus nas alturas com a paz dos homens na Terra. A Igreja retomou essas palavras e, com elas, compôs um hino inteiro. Nos detalhes, porém, é controversa a tradução das palavras do Anjo.

O texto em latim, que nos é familiar, até há pouco era traduzido assim: "Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade"; mas essa tradução é rejeitada pelos exegetas modernos, – e com boas razões, – enquanto unilateralmente moralizante. A Glória de Deus não é algo que os homens possam produzir. A Glória de Deus existe; Deus é glorioso e isto é verdadeiramente um motivo de alegria: existe a verdade, existe o bem, existe a beleza. Estas realidades existem, – em Deus, – de forma indestrutível.

Mais relevante é a diferença na tradução da segunda parte das palavras do Anjo. Aquilo que há pouco tempo era traduzido por "homens de boa vontade", exprime-se agora, na tradução da Conferência Episcopal Alemã, pelas palavras "Menschen seiner Gnade", – "homens da sua Graça". – Na tradução da Conferência Episcopal Italiana, fala-se de "homens que Ele ama". Isto, porém, leva-nos a pôr a questão: Quais são os homens da Graça de Deus? Quais são os que Deus ama? Para a compreensão deste problema, encontramos ajuda no Novo Testamento: na narração do Batismo de Jesus, Lucas conta que, enquanto o Senhor estava em oração, o céu se abriu e veio uma Voz que dizia: "Tu és o meu Filho amado; em Ti pus todo o meu agrado" (Lc 3,22). O homem do agrado de Deus é Jesus , porque vive totalmente voltado para o Pai; vive com os olhos fixos n'Ele e em Comunhão de vontade com Ele. Portanto, as pessoas do agrado de Deus são aquelas que têm o comportamento do Filho; são as pessoas configuradas com Cristo.

Por trás das diferença entre as traduções está, em última análise, a questão sobre a relação entre a Graça de Deus e a liberdade humana. Aqui são possíveis duas posições extremas: num extremo temos a ideia da exclusividade absoluta da ação de Deus, de modo que tudo depende da sua predestinação. No outro extremo, entretanto, aparece uma posição moralizante, segundo a qual, no final das contas, tudo é decidido por meio da boa vontade do homem. A tradução anterior, que falava dos homens "de boa vontade", podia ser mal interpretada.

Todo o testemunho das Sagradas Escrituras não deixa nenhuma dúvida sobre o fato de que nem uma nem outra dessas posições extremas é correta. Graça e liberdade compenetram-se mutuamente, e não podemos encontrar fórmulas claras para exprimir o seu operar uma na outra. A verdade é que não poderíamos amar se primeiro não fôssemos amados por Deus; a Graça de Deus sempre nos precede, abraça e sustenta. Mas é verdade também que o homem é chamado a tomar parte nesse Amor; ele não é um simples instrumento, sem vontade própria, da onipotência de Deus; pode amar em comunhão com o Amor de Deus, como pode também recusar esse Amor. Parece que a tradução literal "do agrado", – seja a que melhor respeita esse mistério, sem o dissolver unilateralmente.

Outro aspecto da mensagem do Anjo: nesta aparecem as categorias de fundo que caracterizam a visão do mundo e a compreensão de si mesmo que tinha o imperador Augusto: sõter (salvador), paz, ecumene, – aqui naturalmente alargadas para além do mediterrâneo e referidas ao Céu e à Terra, – como também a palavra sobre a Boa Nova (Evangélion). Esses paralelismos certamente não são casuais; Lucas quer nos dizer o seguinte: aquilo que o imperador Augusto pretendeu para si realiza-se de modo mais sublime no Menino que nasceu indefeso e sem poder na gruta de Belém e cujos hóspedes foram pobres pastores. A Paz de Jesus é uma Paz que o mundo não pode dar (cf Jo 14,27). Em última análise, a questão aqui é saber o que se entende por redenção, libertação e salvação. Valores temporais e mundanos, que se aplicam unicamente à efêmera existência terrestre? Ou valores inestimáveis por se aplicarem à vida eterna em Deus? Uma coisa é óbvia: Augusto pertence ao passado, enquanto Jesus Cristo é o presente, que consuma e sublima o passado, e o futuro: "é o mesmo ontem, hoje e eternamente" (Hb 13,8).



"Quando os anjos os deixaram (...), os pastores disseram entre si: 'Vamos já a Belém e vejamos o que aconteceu, o que o SENHOR nos deu a conhecer!'. Foram então às pressas e encontraram Maria, José e o Recém-Nascido deitado na manjedoura" (Lc 2,15-16). Os pastores foram apressadamente. De forma análoga, o evangelista narrara que Maria, depois da alusão do Anjo à gravidez de sua parenta Isabel, dirigiu-se "apressadamente" para a cidade de Judá, onde viviam Zacarias e Isabel (cf. Lc 1,39). Os pastores foram apressadamente, com certeza movidos pela curiosidade humana, ou seja, para ver o Prodígio que lhes fora anunciado, mas seguramente sentiam-se também cheios de ardor devido à alegria gerada neles pelo fato de agora ter nascido verdadeiramente o Salvador, o Messias, o Senhor, de quem tudo estava à espera, e eles seriam os primeiros a poderem vê-lo. 

Quantos cristãos se apressam hoje, quando se trata das coisas de Deus? E, no entanto, se há algo que mereça pressa, – talvez o evangelista nos queira dizer tacitamente isto mesmo, – são precisamente as coisas de Deus!



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Fonte:
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus, 3ª ed. São Paulo: Planeta, 2013 pp. 63-69

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O Nascimento de Jesus em Belém – parte 2

Enfaixado numa manjedoura, o Portador da Salvação de toda a humanidade



Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias par o parto, e ela deu à luz o seu Filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala (Lc 2,6-7).

INICIAMOS ESTE SEGUNDO estudo (leia a primeira parte) a partir das últimas palavras desta frase: “por não haver lugar para eles na sala”. A meditação, na fé, dessas palavras, encontrou  nessa afirmação um paralelismo íntimo com as palavras, cheias de profundo conteúdo, que temos no Prólogo do Evangelho segundo S. João: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (1,11). Para o Salvador do mundo, aqu'Ele para quem todas as coisas forma criadas (cf. Cl 1,16), não há lugar. “As raposas têm tocas e as aves do céu tem seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Aqu'Ele que foi crucificado fora das portas da cidade (cf. Hb 13,12) também nasceu fora das portas da cidade.

Tudo isso nos deve fazer pensar, nos deve recordar a inversão de valores que se verifica na figura de Jesus Cristo, na sua Mensagem. Desde o seu Nascimento, Jesus não pertence àqueles ambientes que, aos olhos do mundo, são importantes: contudo é precisamente este homem irrelevante e sem poder que se revela como o verdadeiramente Poderoso, como aqu'Ele de quem, no final das contas, tudo depende. Por conseguinte, faz parte do tornar-se cristão este sair do âmbito daquilo que todos pensam e querem, sair dos critérios predominantes, para entrar na Luz da Verdade sobre o nosso ser e, com essa Luz, alcançar o Caminho de nossa redenção e salvação.

Maria pôs o Menino recém-nascido numa manjedoura (cf. Lc 2,7). Daqui, com razão, se decidiu que Jesus nasceu num estábulo, num ambiente pouco confortável; vem-nos mesmo então a tentação de dizê-lo, um ambiente indigno, – que todavia, proporcionava a discrição necessária para o Acontecimento sagrado mais importante de todos os tempos. 

Desde sempre, na região ao redor de Belém, usaram-se as grutas como estábulo (cf. Stuhmacher, Die Geburt des Immanuel, p.51). Já no mártir Justino (†165) e em Orígenes (†254 aprox.) se encontra a tradição segundo a qual o lugar do Nascimento de Jesus teria sido uma gruta, que os cristãos na Palestina indicavam. O fato de Roma, – depois da expulsão dos judeus da Terra Santa no segundo século, – ter transformado a gruta num lugar de culto a Tammuz-Adonis, pretendendo desse modo, evidentemente, suprimir a memória cultual dos cristãos, confirma a antiguidade de tal lugar de culto, e mostra também a importância com que era avaliado pelos romanos; muitas vezes as tradições locais são uma fonte mais atendível que as informações escritas. Pode-se, portanto, reconhecer uma medida notável de credibilidade na tradição local de Belém, à qual está ligada a própria Basílica da Natividade.

Maria envolveu o Menino com faixas. Sentimentalismos à parte, podemos imaginar o amor com que Maria aguardara a sua hora e como terá preparado o Nascimento de seu tão amado e esperado Filho. A tradição dos ícones, com base na Teologia dos Padres, interpretou teologicamente também a manjedoura e as faixas: o Menino rigorosamente envolvido com faixas aparece como uma alusão antecipada à hora de sua morte: Jesus é, desde o início, o Imolado. Por isso, a manjedoura era representada como uma espécie de Altar.

Agostinho interpretou o significado da manjedoura com um pensamento que pode, à primeira vista, parecer quase inconveniente, mas, se examinado mais atentamente, encerra uma verdade profunda. A manjedoura é o lugar onde os animais encontram seu alimento. Agora, porém, jaz na manjedoura aqu'Ele que havia de apresentar-se a Si mesmo como o verdadeiro Pão descido dos Céus, como verdadeiro Alimento de que o homem necessita. É o Alimento que dá ao homem a Vida verdadeira: a Vida eterna. Dessa forma, a manjedoura torna-se uma alusão à Mesa de Deus, para a qual é convidado o homem a fim de receber o Pão de Deus. Na pobreza do Nascimento de Jesus, delineia-se a grande realidade, em que, misteriosamente, se realiza a Redenção dos homens.


A Natividade por Giotto (séc. IV)

Como se disse, a manjedoura faz pensar nos animais que encontram nela o seu alimento. Aqui, no Evangelho, não se fala de animais; mas a meditação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testamento correlacionados, não tardou a preencher esta lacuna, reportando-se a Isaías (1,3): “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer. O meu povo não pode entender”.

Peter Stuhlmacher observa que provavelmente teve influência também a versão grega (dos Setenta, ‘LXX’) de Habacuc 3,2: “No meio de dois seres vivos (...) Tu serás conhecido; quando vier o tempo, tu aparecerás” (cf. STUHLMACHER, Die Geburt des Immanuel, p.52). Aqui, como "os dois seres vivos", evidentemente entende-se os dois Querubins que, segundo Êxodo (25,18-20), estavam postos sobre a cobertura da Arca da Aliança, indicando e simultaneamente escondendo a Presença misteriosa de Deus. Assim, como Maria Virgem, a manjedoura tornar-se-ia, de certo modo, uma nova Arca da Aliança, na qual Deus, misteriosamente guardado, está no meio dos homens e à vista da qual chegou, para “o boi e o jumento”, para a humanidade, formada por judeus e gentios, a hora do conhecimento de Deus.

Portanto, na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2 e Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, – diante da aparição humilde de Deus no estábulo, – chega ao conhecimento e, na pobreza de tal Nascimento, recebe a epifania que agora ensina todos a ver Deus. Bem depressa, a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação autêntica do presépio prescindirá do boi e do jumento.

Depois dessa pequena divagação, voltemos ao texto do Evangelho. Nele lemos: Maria “deu à luz o seu Filho primogênito” (Lc 2,7). O que significa isso?

O primogênito não é necessariamente o primeiro de uma série em sucessão. O termo “primogênito” não alude a uma numeração em ato, mas indica uma qualidade teológica expressa nas mais antigas coleções de leis de Israel. Nas prescrições relativas à Páscoa, aparece esta frase: 

O SENHOR falou a Moisés, dizendo: ‘Consagra-me todo o primogênito, todo o que abre o útero materno entre os filhos de Israel. Homem ou animal, será meu’” (Ex 13,1-2). “Todo primogênito do homem, entre teus filhos, tu o resgatarás.
(Ex 13,13)

Primogênito é aquele que "abre o útero", seja filho único ou não. Assim, a frase sobre o primogênito é também já uma alusão antecipada à narração sucessiva da apresentação de Jesus no Templo. Seja como for, com essa palavra, acena-se a uma particular pertença de Jesus a Deus.

A Teologia paulina, em duas etapas, desenvolveu ainda mais este pensamento de Jesus como Primogênito. Na Carta aos Romanos, Paulo designa Jesus como “o Primogênito entre muitos irmãos” (8,29); como Ressuscitado, Ele é agora de modo novo “Primogênito” e, ao mesmo tempo, o início de uma multidão de irmãos; no novo Nascimento da Ressurreição, Jesus já não é apenas o primeiro na ordem da dignidade, mas é aqu'Ele que inaugura uma nova humanidade. Demos graças a Deus!

Agora, depois de se ter derrubado a porta férrea da morte, são muitos os que por ela podem passar, juntamente com Ele: todos aqueles que, no Batismo, morreram e ressuscitaram com Ele.

Na Carta aos Colossenses, esse pensamento é ampliado ainda mais: Cristo é designado o “Primogênito de toda criatura” (1,15); “o Primogênito dos mortos” (1,18). “N’Ele foram criadas todas as coisas” (1,16); “Ele é o Princípio” (1,18). O conceito de primogenitura adquire dimensão cósmica: Cristo, Deus e Filho de Deus encarnado, é, por assim dizer, a "primeira ideia" do Deus Uno e Trino e antecede toda criatura que está ordenada para Ele e a partir d’Ele. Por isso, é também Princípio e Fim da nova Criação, que teve início com a Ressurreição.

Em Lucas não se fala de tudo isso, mas para os sucessivos leitores do seu Evangelho, – isto é, também para nós, – sobre a pobre manjedoura na gruta de Belém está já presente este Esplendor cósmico: aqui o verdadeiro Primogênito do Universo entrou no meio de nós!

** Ler a terceira e conclusiva parte






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Fonte:
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus, 3ª ed. São Paulo: Planeta, 2013 pp. 59-63

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O Nascimento de Jesus em Belém

O quadro histórico e teológico da narração do Nascimento de Jesus nos Evangelhos


César Augusto[1]
Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado."
(Lc 2,1)

COM AS PALAVRAS acima, S. Lucas introduz sua narrativa sobre o Nascimento de Jesus e explica por que esta aconteceu em Belém: um recenseamento, com a finalidade de determinar e depois cobrar impostos, é a razão pela qual José com Maria, sua esposa que está grávida, se deslocam de Nazaré até Belém. O Nascimento de Jesus na cidade de Davi situa-se no quadro da grande História universal, embora o Imperador pouco ou nada saiba dessa gente simples que, por causa dele, tem de viajar num momento difícil, e assim, aparentemente por acaso, o Menino Jesus nascerá no lugar da Promessa.

Para Lucas, o contexto histórico-universal é importante. Pela primeira vez é registrada a expressão "toda o mundo habitado", ou "toda a Terra", isto é, o ecumene no seu todo. Pela primeira vez, existe um governo e um reino que abraça o orbe. Pela primeira vez, existe uma grande área pacificada, em que todos os bens podem ser registrados e postos ao serviço da comunidade. Só nesse momento, em que existe uma comunhão de direitos e de bens em larga escala e em que uma língua universal permite a uma comunidade cultural o entendimento no pensamento e no agir, uma mensagem universal de salvação, e logo um portador universal de salvação, pode entrar no mundo: de fato, é "a plenitude dos tempos".

Mas a ligação entre Jesus e Augusto situa-se numa profundidade ainda maior. Augusto não queria ser apenas mais um soberano, como os que vieram antes dele e os que haveriam de vir depois. A inscrição de Priene, que remonta ao ano 9 a.C., faz-nos ver como Augusto queria ser visto e considerado. Lá se diz que o dia do nascimento do Imperador:

(...)conferiu uma fisionomia diversa a todo o mundo. Este teria ido à ruína, se nele que nasceu agora não tivesse brilhado uma felicidade comum (...). A providência, que divinamente dispõe a nossa vida, cumulou este homem, para a salvação dos homens, de tais dons que o mandou a nós e às gerações futuras como salvador (sõter) (...). O dia de nascimento do deus foi para o mundo o início das boas notícias ('evangelhos') com ele relacionados. A partir do seu nascimento, deve começar uma nova contagem do tempo."
(cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, p. 74)

Com base em texto desse gênero, torna-se claro que Augusto era visto não apenas como político, mas também como figura teológica, já que a nossa separação entre política e religião, e entre política e teologia, não existia de modo algum no mundo antigo. Já no ano 27 a.C., três anos depois de sua tomada de posse, o Senado romano tinha-lhe conferido o título de Augustus (ou, em grego, sebastos): "o adorável". Enquanto, na literaturam esse título era atribuído a Zeus, mas também a Epicuro e a Esculápio, na tradução grega do Antigo Testamento é reservado exclusivamente para Deus. Aplicado a Augusto, tal título possui uma conotação divina: o Imperador suscitou uma mudança no mundo, introduziu um novo tempo. Isto, de fato, Augusto o fez, e torna-se muito difícil não enxergar neste  inesperado "precursor" do Messias, ao contrário das interpretações tendenciosas dos ateus, um claro Ato da Providência divina: não fosse por essa inédita "globalização" do mundo civilizado, não teria sido possível a rápida expansão da Mensagem do Cristo "até os confins da Terra".

É como se não apenas o povo de Israel, mas a própria civilização humana como um todo, esperasse, de algum modo inconsciente, a vinda do Messias por aqueles tempos. Na quarta écloga de Virgílio1, já encontramos essa esperança em um mundo novo, a expectativa do regresso do paraíso. Embora em Virgílio, como vimos, se apresente um horizonte mais vasto, sente-se a influência do modo como se concebia a vida na era de Augusto: "Agora tudo deve mudar...".

Cabe ainda sublinhar, de modo particular, dois aspectos relevantes da percepção de si mesmo, própria de Augusto e dos seus contemporâneos. Este "salvador" trouxe ao mundo, sobretudo, a paz. Ele mesmo fez representar essa sua missão de portador da paz, de forma monumental e para todos os tempos, na Ara Paciss Augusti, cujos restos preservados evidenciam ainda hoje, de maneira impressionante como a paz universal, que ele garantiu por um certo tempo, teria permitido às pessoas um profundo suspiro de alívio e esperança. A esse respeito, citando Antonie Wlosok, Marius Reiser escreve:

No dia 23 de setembro (nascimento do Imperador), a sombra deste relógio de sol avançava de manhã até a noite, por cerca de 150 metros, direto sobre a linha do equinócio, precisamente até o centro da Ara Pacis; há, portanto, uma linha direta que vai do nascimento deste homem à pax e assim se demonstra, de modo visível, que ele é natus ad pacem (nascido para a paz). A sombra provém de uma esfera (...), [que] é ao mesmo tempo a circunferência do céu e também o globo da Terra, símbolo do domínio sobre o mundo que agora foi pacificado."
(Wie wahr ist die Weihnachtsgeschichte? p, 459)

Aqui transparece ainda outro aspecto da autoconsciência de Augusto: a universalidade, que o próprio –, numa espécie de narração de sua vida e obra, o chamado Monumentum Ancyranum –, documentou com dados concretos e pôs em grande destaque.

E aqui retomamos o recenseamento, isto é, o registro de todos os habitantes do Império, fato este que liga o Nascimento de Jesus de Nazaré ao imperador Augusto. Sobre essa cobrança de impostos, há uma discussão acadêmica em cujos detalhes não entraremos neste estudo. 

Um primeiro problema é bastante fácil de esclarecer: o recenseamento teve lugar no tempo do rei Herodes, o Grande, que, porém, morreu já no ano 4 a.C. O início de nossa contagem no tempo –, a determinação do Nascimento de Jesus –, remonta ao monge Dionísio, o Exíguo († aprox. 550), que evidentemente errou alguns anos nos seus cálculos. Portanto, temos que fixar a data histórica do Nascimento de Jesus alguns anos antes.

Mas temos outras duas datas que causaram grandes controvérsias. De acordo com Flávio Josefo, a quem principalmente devemos os nossos conhecimentos da história judaica na época de Jesus, o recenseamento ocorreu no ano 6 d.C. sob o governador Quirino e –, porque nele se tratava em última análise de dinheiro –, levou à insurreição de Judas, o Galileu (cf. At 5,37). Além disso, a ação de Quirino no ambiente siro-judaico ter-se ia verificado apenas naquele período e não antes. Esses fatos, porém, em si mesmos não são seguros; de todos os modos, há indícios de que Quirino, por encargo do Imperador, já atuava por volta do ano 9 a.C. na Síria. Desse modo, revelam-se convincentes as indicações de diversos estudiosos, – por exemplo, Alois Stöger –, segundo as quais o "recenseamento" nas circunstâncias de então se desenrolava lentamente, estendendo-se por alguns anos. Aliás, o mesmo efetuava-se em duas etapas: primeiro, a inscrição de todas as propriedades em terras imóveis, e depois, em um segundo momento, a determinação dos impostos a se pagar. Assim, a primeira etapa ocorreu nos dias do Nascimento de Jesus; a segunda, que por motivos óbvios era para o povo muito mais irritante, suscitou a insurreição (cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, 372ss.).

Por último, objetou-se também que, para tal inventário, não teria sido necessária a deslocação de "cada um na sua própria cidade" (Lc 2,3). Mas, por várias fontes, sabemos que os interessados deviam apresentar-se na localidade onde tinham as terras de sua propriedade. De acordo com isso, podemos supor que José, da Casa de Davi, possuísse um terreno em Belém, pelo que tinha de ir lá para a cobrança dos impostos.

Acerca de muitos detalhes, poder-se-á sempre discutir. Evidentemente, permanece difícil lançar um olhar na vida diária de um organismo tão distante de nós e tão complexo como foi o Império Romano. Mas os conteúdos essenciais dos fatos referidos por Lucas permanecem, apesar de tudo, historicamente credíveis, já que ele resolveu expô-los –, como faz questão de dizer no prólogo de seu Evangelho –, “após acurada investigação de tudo” (1,3). Tal investigação foi feita, obviamente, com os meios à sua disposição. Entretanto, Lucas estava muitíssimo mais perto das fontes e dos acontecimentos do que nós –, apesar de toda a erudição histórica –, o possamos pretender.

Voltemos ao contexto global do momento histórico em que se sucedeu o Nascimento de Jesus. Com a referência ao imperador Augusto, e à “ecumene inteira”. Lucas criou deliberadamente um quadro ao mesmo tempo histórico e teológico para os acontecimentos que ia narrar.

Jesus nasceu num período que se pode determinar com precisão. No início da atividade pública de Jesus, Lucas oferece mais uma vez uma datação detalhada e cuidadosa desse momento histórico: é o décimo quinto ano do governo de Tibério César; além disso, são mencionados o governador romano daquele ano e os tetrarcas da Galileia, da Itureia e da Traconítide, bem como de Abilene, e depois os sumos-sacerdotes (cf. Lc 3,1-2).

Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido "uma vez" (ou 'houve um tempo') típico do mito; mas pertence a um tempo histórico, que se pode datar com precisão, e a um ambiente geográfico exatamente definido: o universal e o concreto tocam-se mutuamente. N’Ele, o Logos, a Razão criadora de todas as coisas, entrou no mundo. O Logos eterno fez-Se homem, e a isto pertence contexto bem definido de lugar e tempo. A essa realidade concreta está ligada a Fé cristã, ainda que depois, em virtude da Ressurreição e dos desdobramentos históricos, o espaço temporal e geográfico fique superado.

Importante ainda um outro elemento. O decreto de Augusto para o registro fiscal de todos os cidadãos da ecumene leva José, juntamente com sua esposa Maria a Belém, à cidade de Davi, e desse modo favorece o cumprimento da Promessa feita pelo Profeta Miqueias segundo a qual o Pastor de Israel havia de nascer naquela cidade (cv. 5,1-3). Sem o saber, o Imperador contribui para o cumprimento da Promessa: a história do Império Romano e a da Salvação, iniciada por Deus com Israel, entrelaçam-se uma na outra. A história da eleição feita por Deus, até então limitada a Israel, entra na vastidão do mundo, toma a História universal. Deus, que é não é apenas "o Deus de Israel", mas também de todos os povos, demonstra ser o verdadeiro Guia de toda a História.

Reconhecidos representantes da exegese moderna são de opinião que a informação fornecida pelos dois evangelistas –, Mateus e Lucas –, de que Jesus nasceu em Belém, seria uma afirmação teológica, não histórica. Para estes, na realidade Jesus teria nascido em Nazaré. Com as narrativas do Nascimento em Belém, a história teria sido teologicamente reelaborada de acordo com a Promessa, para poderem assim –, com base no local do Nascimento –, indicar Jesus como o Pastor esperado de Israel (cf. Mq 5,1-3; Mt 2,6).

A realidade objetiva é que não se pode apresentar fontes verdadeiras que confirmem, apoiem  ou mesmo sugiram tal teoria. De fato, em relação ao Nascimento de Jesus, não temos outras fontes além das narrativas da infância feitas por Mateus e Lucas. É muito importante observar que ambos dependem de representantes de tradições muito diferentes; são influenciados por perspectivas teológicas diferentes, tanto que, inclusive, suas informações divergem parcialmente.

Por exemplo, parece que Mateus desconhecia que tanto José quanto Maria habitavam inicialmente em Nazaré. Por isso, quando voltam do Egito, a primeira intenção de José é ir para Belém, e só a notícia de que na Judeia reina um filho de Herodes é o que o induz a retirar-se para a Galileia. Ao passo que, para Lucas, é claro desde o início que a Sagrada Família, depois dos acontecimentos do Nascimento, voltou para Nazaré. São duas linhas diversas de tradição, que no entanto concordam na informação de que o local do Nascimento foi Belém. Se apenas nos ativermos às fontes disponíveis, fica evidente que Jesus nasceu de fato em Belém e cresceu em Nazaré.

** Ler a segunda parte deste estudo






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1. Fundador do Império Romano e seu primeiro imperador, governando de 27 a.C. até sua morte, em 14 d.C.
2.
Públio Virgílio Maro ou Marão foi um poeta romano clássico, autor de três grandes obras da literatura latina, as Éclogas, as Geórgicas, e a Eneida. Uma série de poemas menores, contidos na Appendix vergiliana, são por vezes atribuídos a ele

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Fonte:
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus, 3ª ed. São Paulo: Planeta, 2013 pp. 53-59

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Pedidos das crianças ao Menino Jesus no Natal

Com esta postagem encerramos as nossas atividades neste ano 2017 e entramos em recesso de final de ano, desejando um abençoado Natal e proveitosas meditações a todos os nossos irmãos, assinantes e leitores, no fechamento de mais este ano de Nosso Senhor! Aguarde-nos já na primeira semana do ano que se aproxima, para continuar trabalhando na defesa da verdade e na instrução do povo católico, se nosso Bom Deus assim quiser e para tanto nos agraciar e fortalecer. Um santo Natal e boas festas, em Cristo, a todos!

Por Dom Carlos Lema Garcia – Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e Vigário Episcopal para a Educação e a Universidade

Dom Carlos Lema Garcia
VOCÊ JÁ PENSOU em escrever uma carta para o menino Jesus, pedindo um presente de Natal? O jornal italiano Corriere della Sera publicou, há uns anos, trechos de cartas de crianças dirigidas ao Menino Jesus. Tratava-se de uma amostra do que costumam escrever nas redações da escola, nas aulas de Catecismo e nos bilhetinhos de final de ano. Na Itália, o Papai Noel não toma conta do imaginário infantil. Tal como em outros países de raízes cristãs, é o Menino Jesus quem traz os presentes no dia do Natal.

Vejamos algumas frases: “Querido Menino Jesus, todos os meus colegas da escola escrevem para o Papai Noel, mas eu não confio nele. Prefiro você”; “Querido Menino Jesus, obrigado pelo irmãozinho. Mas, na verdade, eu tenho rezado para ganhar um cachorro”; "Querido Jesus, por favor ponha um pouco mais de férias entre o Natal e a Páscoa. No meio, agora, está sem nada”; “Querido Jesus, o Padre Mario é seu amigo ou você o conhece só do trabalho?"; “Querido Menino Jesus, por gentileza, mande-me um cachorrinho. Eu nunca pedi nada antes: pode conferir”; “Querido Jesus, Caim e Abel não brigariam tanto se tivessem um quarto pra cada um. Com meu irmão funciona”; “Querido Jesus, eu gosto muito do Pai-Nosso. Você escreveu tudo de uma só vez, ou teve que ficar apagando? Qualquer coisa que eu escrevo, tenho que refazer um monte de vezes”; “Querido Jesus, você é invisível mesmo ou é só um truque?"; “Querido Jesus, na minha opinião, é impossível existir um Deus melhor que você. Bom, eu só queria que você soubesse, mas não estou lhe dizendo isso só porque você é Deus"; “Querido Menino Jesus, não compre os presentes na loja embaixo do prédio, a mamãe diz que eles são uns ladrões. Muito melhor no supermercado”; “Querido Jesus, nós estudamos na escola que Thomas Edison inventou a luz. Mas no Catecismo dizem que foi você. Pra mim, ele roubou a sua ideia”.



Brincadeiras à parte, todos nós esperamos que o Natal nos permita estar com Jesus. Recebê-lo em nossas casas, em nossas vidas. Vamos imaginar se tivéssemos a chance de entrar na gruta de Belém, de conversar com Maria e José e de contemplar o Menino Jesus recém-nascido. Vamos considerar, também, que se trata de um Menino especial: Deus verdadeiro e Homem verdadeiro. Por isso, Ele nos vê e nos conhece, entende os nossos pensamentos e afetos. Conhece o nosso coração.

A partir da chegada de Jesus a nós, podemos aproximar-nos dos Sacrários das nossas igrejas sempre que desejarmos e contar-lhe todas as nossas coisas, expor as nossas dúvidas, pedir ajuda nas necessidades e sabedoria para resolver os nossos problemas. Vamos aproximar-nos de Jesus com toda confiança e contar-lhe tudo o que precisamos para nós, nossas famílias, pelas famílias que passarão o Natal como refugiados, fora de suas casas...

Este ano, teremos um Natal especial, porque estará dentro do Ano Santo da Misericórdia. Vamos aproveitar para praticar a misericórdia, reconciliando-nos com as pessoas, servindo-as com generosidade e pedindo-lhes perdão das nossas faltas. Vamos também aproximar-nos do Sacramento da Reconciliação: não há melhor preparação para o Natal que uma boa Confissão.




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Fonte:

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, jornal “O São Paulo” nº 3081, ano 60, 12/015 p. 5.

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