São Francisco de Sales – Biografia e espiritualidade do autor de Filoteia


Por Ismael da Cunha – Oratório Secular de São Filipe Neri de São Paulo

FRANCISCO DE SALES, primogênito de uma nobre família francesa, nasceu em 1567, no castelo de Thorens, Savoia (França). Como era a tradição entre os nobres da época, durante todo o período dos seus estudos teve de exercitar-se como cavaleiro e espadachim para tornar-se também um guerreiro.

Sua vocação, no entanto, estava nas carreiras intelectuais. Aos quinze anos de idade já estava cursando Direito na Universidade de Paris (Sorbonne). Paralelamente a esse curso, completou os estudos em Filosofia e Teologia. Nesse período, a Universidade de Sorbonne era palco para o desfile das novas ideias que se apresentaram com a Renascença e a dita Reforma protestante.

Em 1588, já bacharel, Francisco de Sales iniciou doutoramento em direito civil e canônico em Pádua, na Itália. Finalizou esses estudos em 1591, retornando à França no ano seguinte. Novamente com a família, expôs sua decisão de ser da Igreja. Desde pequeno almejava ser sacerdote.

Não foi fácil convencer o pai, que já desenhara o futuro do filho: advogado do Senado da Savoia, casado com uma moça de boa posição e excelentes qualidades. A decisão do filho, contudo, se fez concretizar quando foi nomeado preboste[1] do capítulo catedrático[2] na diocese de Genebra (Suíça) pelo Mons. Claude de Granier, bispo de Genebra.


Castelo de Thorens, onde nasceu S. Francisco de Sales

A vida religiosa

A cidade para onde Francisco foi designado estava dominada pelas ideias protestantes e pela “república” de Calvino, a ponto de o bispo daquela diocese ter sido obrigado a passar a residir em Annecy, capital da Savoia, para fugir da fogueira calvinista.

Como religioso, Francisco enfrentaria muitos combates. Desde a sua ordenação, entregou-se às pregações, à celebração da Santa Missa e, sobretudo, às Confissões.

Em 1594, foi para uma região habitada por muitos protestantes denominada Chablais. Acompanhado por seu primo, Louis de Sales, passou a trabalhar pela conversão daquelas pessoas. Foi uma luta intensa. Quatro anos de esforços para, como dizem acerca desse episódio, “forçar as muralhas de Genebra pela oração e invadi-la com a caridade”. Suas ações principiaram com a publicação e distribuição em domicílio de cadernos que tratavam da Doutrina católica. Com o tempo, passou à pregação direta e à controvérsia.

Nesse período, foi nomeado bispo coadjutor[3] pelo papa Clemente VIII. Logo em seguida, em 1602, após o falecimento de Mons. Granier, foi sagrado bispo de Genebra. Dedicou-se às tarefas pastorais, atendendo exemplarmente às reformas recomendadas pelo Concílio de Trento.


A Ordem da Visitação

Em 1604, enquanto pregava os sermões de Quaresma em Dijon, França, Francisco de Sales conheceu Joana de Chantal, uma jovem senhora de origem nobre que se dedicava à família e também às obras de misericórdia e caridade. Órfã de mãe, aos vinte e oito anos Joana enviuvara do barão de Rabutin-Chantal.


Representação do encontro de S. Francisco de Sales
e Sta. Joana Francisca de Chantal

Santa Joana Francisca de Chantal

O Bispo de Genebra passou a se encarregar da direção espiritual de Joana e transmitiu a ela a importância do abandono em Deus. Seis anos após esse encontro, seguindo os conselhos e orientações de seu diretor, Joana fundava a Ordem da Visitação em Annecy, na França. Em seguida, coordenou a fundação do segundo mosteiro naquele país. Joana de Chantal faleceu em 1641 e foi canonizada em 1767, pelo papa Clemente XIII.


Basílica do Mosteiro da Ordem da Visitação em Annecy

A Visitação, ordem de vida monástica contemplativa, está presente também na Itália, com casas fundadas ainda no século XVII, no Uruguai e no Brasil. A primeira fundação em terras brasileiras se deu em Pouso Alegre (MG), em 1902. A comunidade de Minas, no entanto, transferiu-se em 1915 para a capital de São Paulo, no bairro de Vila Mariana, onde permanece até hoje (saiba mais).


A espiritualidade salesiana

Praticamente todos os ensinamentos de São Francisco de Sales, bem como sua espiritualidade, têm origem em suas experiências de vida.

Os tempos de estudo e o contato com algumas ideias protestantes renderam a Francisco uma profunda dúvida acerca de sua própria salvação. O tormento só cessou na ocasião em que, ajoelhado diante de uma imagem de Nossa Senhora, ele realizou um ato de abandono e de esperança em Deus. Declarou ao Senhor que estava disposto a amá-lo durante esta vida, mesmo que o seu destino fosse a condenação eterna. Todas as dúvidas acerca da sua salvação foram então confiadas à Misericórdia divina.

S. Francisco de Sales oferece seu coração à Virgem Maria, acompanhado de Sta. Joana Francisca de Chantal, Catedral de Saint-Siffrein, França

Esse abandono em Deus, – ensinado também à Joana de Chantal, – marcou o caráter de Francisco de maneira muito acentuada e tornou-se uma das linhas-mestras da sua espiritualidade. Do abandono vêm a suprema serenidade e a paz características deste santo, que lutou para harmonizar uma alegria permanente e o esforço intenso parar cumprir a Vontade de Deus.

O bispo de Genebra encarregou-se ainda da direção espiritual de muitos, desde soldados e camponeses protestantes até nobres e freiras. Os conselhos que a eles dirigia venceram o tempo, pois chegam a nós por meio de suas duas principais obras: "Introdução à Vida Devota" ou "Filoteia" (1608) e o "Tratado do Amor a Deus" (1619).

Em "Introdução à Vida Devota", lemos:

Quase todos os autores que até esta data têm estudado a devoção, tiveram por pauta ensiná-la aos que vivem afastados do mundo. O meu objeto agora é doutrinar os que habitam nas cidades, vivem com suas famílias, tendo de seguir externamente uma conduta comum.

Francisco de Sales acolhia os pecadores, buscando compreendê-los. E os ensinava. Convidava à devoção e à prática de um amor a Deus que fosse ativo, preocupado em agradar a Deus em tudo. Ensinava como meditar, recomendando uma forma dialogada e simples, num método precioso e permeado de afeto, que deveria ser buscado por todo cristão católico. Dirigia ainda sua preocupação às qualidades que gerassem uma convivência amável entre as pessoas.

Todavia, em contrapartida à doçura, humildade e paciência, Francisco também era firme e enérgico. Foi essa luta por suavizar o caráter lhe permitiu apresentar aos seus dirigidos um quadro amável da luta interior.

Francisco morreu em Lyon, no ano 1622, quando visitava o convento de suas religiosas. No ano seguinte, seu corpo foi trasladado a Annecy. Seus ensinamentos marcaram profundamente a espiritualidade dos últimos quatro séculos.

Em 1664, Francisco de Sales foi canonizado; a Igreja celebra o seu dia aos 24 de janeiro. Em 1877, Pio IX o nomeou Doutor da Igreja e, em 1923, foi proclamado padroeiro dos jornalistas e escritores católicos pelo papa Pio XI, sendo, portanto, um dos padroeiros deste nosso apostolado.

São Francisco de Sales, rogai a Deus por nós!


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Notas:
1. Juiz civil ou militar da antiga magistratura francesa. O preboste, hierarquicamente, está abaixo do abade em uma ordem ou convento e o substitui em caso de ausência.
2. O termo 'capítulo catedrático' refere-se a certos corpos eclesiásticos da Igreja; 'capítulo' ainda designa as reuniões para a discussão de assuntos de interesse de uma ordem ou mosteiro.
3. Bispo coadjutor é um bispo titular que auxilia e também substitui um bispo ou arcebispo em caso de ausência. Diferentemente do auxiliar, o bispo coadjutor pode suceder o bispo, a exemplo do que aconteceu com Francisco de Sales.
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2 comentários:

  1. o mundo precisa de santos como Francisco de Sales. e acredito que pode ser erguido com base nos ensinamentos da sua bela obra filoteia. o verdadeiro amor, para com Deus, assim como para os semelhantes esta bem patente na obra supra citada.

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  2. Concordo plenamente! Amém!

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