Cuba antes e depois da Revolução – uma análise livre de ideologias


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IMAGINE UM PAÍS latino americano no meio do século vinte, com uma taxa de alfabetização de 76%, uma renda per capita maior que a de diversos países europeus (como a Itália, por exemplo), uma capital com mais salas de cinema que Nova York, um número impressionante de estações de rádio (160) e o quinto maior número de televisões per capita do mundo.

Não, não estamos falando de nenhuma potência atual ou de alguma nação com alguns dos maiores índices sócio-econômicos do planeta. Esta é – ou melhor, era – Cuba durante a década de 1950, antes da revolução castrista.

Ao primeiro olhar, pode parecer que o governo socialista acabou com tudo isso. Mas a realidade é um pouco diferente: na verdade, eles mantiveram muitos desses recordes (o número de salas de cinema, por exemplo, têm se mantido estável de lá pra cá). Por outro lado, o mundo mudou muito de 1950 pra cá. A renda da Itália cresceu. Nova York ganhou mais cinemas. O número de estações de rádios ao redor do mundo explodiu. Igualmente o de emissoras de TV. Mas Cuba não evoluiu na mesma velocidade.

Em 1958, a renda per capita média de um cubano era o equivalente a $11.300 dólares anuais, em valores atualizados. Para efeito de comparação, a renda média de um britânico na mesma época equivaleria a 11.800 dólares atuais. 
Mas, em 1959, algo aconteceu em Cuba: a Revolução. Com armas nas mãos, Fidel Castro, Che Guevara, Raúl Castro e um grupo de revolucionários depuseram Fulgencio Batista e instauraram um governo socialista na ilha.

Hoje, 65 anos depois, Cuba tem muito pouco para comemorar, e os números, frios e exatos, o comprovam. Sua renda caiu drasticamente. Seu número de rádios já não é mais relevante (o próprio rádio, outrora tão importante para a identidade cultural da ilha, perdeu o brilho). As televisões per capita sequer são lembradas, embora a taxa de alfabetização ainda mantenha índices muito bons (acima de 99%). Mas é importante destacar que essas taxas não são reflexo do modelo político econômico cubano, como costumam alardear os seus entusiastas, já que também estão presentes em nações com modelos totalmente distintos, como o Azerbaidjão, a Letônia e a Estônia. É possível perceber como Cuba avançou nos últimos 65 anos, ainda que apenas em termos nominais. Em comparação com 1950, sua renda já mais que duplicou – os 9.421 dólares se transformaram em 19.379.

Mas o avanço de Cuba, quando comparado com o de outros países, é medíocre. Se em 1949 sua renda aproximava-se da do Reino Unido e da Itália, hoje não. Outros, como Hong Kong e a Coreia do Sul, que hoje apresentam índices elevadíssimos de renda, estavam muito distantes do padrão de vida cubano naquela época. O crescimento de Cuba nos últimos anos chega a ser pior que o de países africanos, como Botswana, que saiu de uma renda inferior aos mil dólares anuais, para quase 15 mil no mesmo período. Apesar de não ter ultrapassado Cuba, o crescimento de Botswana, sob influência da administração inglesa, é notável no gráfico abaixo.

A vida de um cubano da era pré-castro talvez não fosse a melhor do mundo. Em relação às potências da época, o país ainda tinha atrasos, tirando alguns dados que realmente poderiam ser descritos como “de primeiro mundo”. Desigualdade, racismo e corrupção eram problemas evidentes na sociedade cubana. O Estado também era repressivo com seus opositores, e a censura, tornou-se algo relativamente comum no governo de Fulgencio Batista, último presidente pré-castrista. Por outro lado, não foi com a Revolução que tudo isso acabou – bem pelo contrário.

Em Cuba a desigualdade, tão abominável no discurso socialista, só não existe na teoria e no papel. Na prática, os membros da elite daquele país, assim como em qualquer outro lugar do mundo, tem acesso a carros importados e outros luxos, enquanto cidadãos com altos cargos dentro do governo envolvem-se em corrupção e enriquecem ilicitamente, aumentando seu patrimônio às custas do Estado gigantesco, além de serem constantemente subornados por outros cidadãos em troca de favores ou de algum pequeno poder – prática popularmente conhecida, em Cuba, como “sociolismo”. O mesmo se aplica aos moradores com parentes e amigos no exterior, de quem podem conseguir bens “raros” para o padrão de vida da ilha e revendê-los nos abundantes mercados negros.

Com essas desigualdades, promovidas principalmente pela centralização da economia, se perpetuou o racismo. Como os brancos já eram mais ricos no período anterior à revolução, continuaram ocupando melhores cargos e residindo em casas melhores que as dos negros. Após a permissão do governo cubano para a existência de pequenos negócios pré-definidos na ilha,
a situação se agravou, já que os brancos continuaram morando nas melhores casas, que hoje servem como pequenos hotéis e geram renda para essas famílias – enquanto os negros são relegados à maioria dos empregos estatais com minguados salários e ao socialismo forçado.

Se o governo não conseguiu desenvolver avanços significativos nas áreas mais comprometidas pela revolução, as que foram esquecidas tiveram avanço nulo ou presenciaram um retrocesso. Ainda em 1958, um ano antes da revolução terminar, Cuba tinha a segunda maior taxa de carros per capita da América Latina – eram 24 veículos para cada mil habitantes – atrás somente da Venezuela. Passados 30 anos, por incrível que possa parecer, esse número reduziu, como consequência direta do regime socialista. Enquanto em todos os outros países da região houve um aumento significativo no acesso à veículos pela população, as estatísticas atuais mostram que hoje o país possui uma taxa de míseros 38 veículos para cada mil habitantes – a mesma taxa de países paupérrimos como Angola e Tajiquistão.



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Outras estatísticas continuaram praticamente inalteradas após a revolução. Dados de 1959 mostram que o país tinha uma taxa de 2,6 telefones para 100 habitantes, e esta era a maior taxa de toda América Latina. Dados coletados em 1995 mostraram, incrivelmente, uma taxa de apenas 3 linhas de telefone para cada 100 habitantes do país(!).

O cubano de 1950 também era bem educado. Além da alta taxa de alfabetização, os moradores de Cuba tinham acesso a um imenso número de jornais: cerca de 70 publicações circulavam pela ilha. A tiragem total desses periódicos era tão alta que pode ser contabilizada em termos de mil habitantes, totalizando cerca de 101 exemplares para cada mil cubanos, comprovando a existência de um amplo mercado de jornais e acesso à informação no país.

A medicina e o acesso à saúde também eram avançados e, ao que tudo indica, as tão alardeadas e exageradas boas condições de saúde no país só foram possíveis graças aos avanços realizados antes do governo castrista. Com uma taxa de mortalidade infantil de 3,76, Cuba figurava como o país latino com as melhores condições de saúde para as crianças. A mortalidade anual também era uma da menores do mundo: cerca de 5,8 mortes anuais por mil habitantes, um número impressionante, melhor que o registrado nos Estados Unidos (9,5) e no Canadá (7,6) no mesmo período. Existiam 190 habitantes para cada cama de hospital, um número um tanto à frente da média dos países mais desenvolvidos (cujo índice situava em torno de 200 habitantes por cama). O número de médicos também era expressivo: existia um médico por 980 pessoas, taxa que, em toda a América Latina, só perdia para a Argentina.

O salário atual de um cubano mal consegue custear coisas tidas como barataíssimas em outros países, como por exemplo o mero acesso a uma lan house, por exemplo. Para que se tenha uma ideia, o salário integral médio de um cubano é suficiente para pagar somente 4 horas de acesso a internet(!). Aqui se faze importante notar que o país já teve um dos maiores salários do mundo.

Ainda em 1958, o salário pago na indústria do país girava em torno dos 6 dólares por hora, o mesmo valor pago aos trabalhadores noruegueses e dinamarqueses. De fato, Cuba tinha o 8º maior salário industrial do mundo. Nas fazendas, o pagamento era de US$ 3 por hora, o 7º maior do mundo. E mesmo antes do socialismo, existia pleno acesso ao trabalho: cubanos desempregados ou ativos no mercado informal somavam apenas 7% da população – a menor taxa de desocupação da América Latina. Eram empregos dignos, que permitiam o sustento e produtivos para o país.


O embargo e o colapso da indústria


A principal defesa dos simpatizantes do socialismo, quando se fala na falência de Cuba pós-Revolução, é o embargo econômico. A culpa não seria do modelo socialista, e sim dos Estados Unidos, opressores impiedosos e fascistas. A pergunta que precisa ser direta e honestamente respondida é: até que ponto o embargo econômico imposto pelos EUA (que chega agora ao seu fim) impede o avanço econômico de Cuba?

Primeiramente, como em toda e qualquer questão, é preciso entender o que, de fato, foi o embargo. Tudo começou em 1960, quando o presidente norte-americano Dwight Eisenhower impôs um bloqueio ao comércio com a Ilha, após atritos entre refinarias norte-americanas e o irredutível governo revolucionário. O bloqueio de Eisenhower, no entanto, não incluía alimentos e nem insumos médicosEm 1961, após o governo cubano declarar-se marxista e alinhar-se com a União Soviética em pleno auge da guerra fria, o Congresso norte-americano aprovou uma lei, que mais tarde seria usada pelo presidente John Kennedy, para enfim, impedir o comércio com a Ilha.

Fruto principalmente de pressões corporativistas (reza a lenda que Kennedy, grande apreciador dos charutos cubanos, não queria, num primeiro momento, proibir a importação do produto, mas entrou em atrito com fabricantes americanos), o embargo trouxe, sim, consequências negativas para a Ilha. Todavia, não pode ser apontado como o único e nem mesmo principal culpado pelos problemas no país. Ao contrário do que muito se propaga, o embargo não proibiu (e nem teria como proibir, na prática) o país de comercializar com o resto do mundo. Apesar de constar nas regras que mantém o bloqueio comercial a permissão aos EUA para impor sanções aos países aliados que realizassem comércio com os Castro, isso nunca de fato aconteceu. Na realidade, diversos países negociam livremente com Cuba, incluindo… os Estados Unidos!


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Atualmente, cerca de 80% da comida distribuída pelo governo no país é importada, já que a falida indústria e a agricultura coletivizada do país não são capazes de produzir alimento suficiente para a população.

O comércio exterior é aquecido: só em 2009, o país registrou US$ 10 bilhões em importações e exportou mais de US$ 3 bilhões. Seus principais parceiros comerciais são Venezuela, China, Espanha, Canadá, Estados Unidos e Brasil. O dinheiro, entretanto, não aparece no bolso do cidadão comum.

Desde 2000, os EUA permitem que fazendeiros norte-americanos comercializem com a Ilha. Desde então, o comércio entre os dois países só cresceu: até 2007, a "Terra do Tio Sam" mal aparecia na lista de importações; hoje já está entre os 5 maiores parceiros comerciais dos cubanos.

De suas exportações, cerca de 48% são alimentos. Aqui está o ponto central que ajuda a entender porque o país tem se saído tão mal no comércio internacional e porque tudo parece ter parado nos anos 50. Desde que o socialismo avançou de fato no país, a indústria foi sucateada. 25% do dinheiro que hoje Cuba ganha no comércio internacional vem da exportação de açúcar, uma das indústrias que mais se deterioraram nas últimas décadas.

Em meados de 1950, a produção diária de cana-de-açúcar no país equivalua a 507 mil toneladas. Com toda essa cana, Cuba conseguia produzir mais de 5 milhões de toneladas de açúcar todos os anos. Mas a produção foi-se estagnando. A famigerada estatização forçada das indústrias não foi capaz de atrair o mesmo número de investimentos anteriormente alcançados. Hoje, Cuba produz apenas algo em torno de 1 a 1,5 milhão de toneladas de açúcar anualmente. 

O governo tentou mudar o cenário, expandindo a mineração de níquel, cobre, ferro, magnésio e zinco, mas tais esforços não geraram resultados. Apenas o níquel se destacou, e com a queda do preço da commodity, sua importância para o comércio exterior se reduziu; voltou então o açúcar a tomar a primeira posição.

Se 80% do que os cubanos põem à mesa tem origem no exterior, isso deve-se à baixíssima mecanização da agricultura do país. Tirando algumas poucas refinarias de açúcar, praticamente todo alimento produzido em Cuba é feito com trabalho manual, como resultado de uma ideologia forçada, romântica e mofada. A pouca mecanização, é claro, afeta também as exportações e a pouca cana-de-açúcar que o país hoje exporta é vendida a preços pouco competitivos.

Para finalizar, as usinas cubanas estão numa situação desoladora. Desde o colapso da União Soviética, Cuba não conseguiu continuar as reformas estruturais e as manutenções adequadas em suas usinas, que começaram a parar. Os problemas atingiram seus níveis mais alarmantes em 2004, quando a absurda falta de manutenção e os problemas ambientais levaram as usinas a parar. Em Havana, houveram blackouts que chegaram a durar 6 horas. Outras regiões chegaram a ficar 12 horas ininterruptas no escuro e mais de 118 fábricas foram paralisadas. Até hoje, a baixa capacidade do sistema de energia cubano tem gerado prejuízos para a escassa produção industrial do país.

Com seus tijolos corroídos, pelo tempo e pelo famigerado socialismo, hoje os muros de Havana contam várias tristes histórias. Certamente não são as mesmas do muro de Berlim, mas já viram de perto como o planejamento central pode transformar um dos países mais proeminentes de um continente numa imensa ilha de estagnação, onde até mesmo seus últimos e escassos números positivos, mantidos com toda a cautela, resistem à falta de dinamização e mentalidade antenada com o mundo.

Enquanto a atual corrente não for quebrada, o retrato de Cuba provavelmente será o de um país que parou na década de 1950 e que, cada dia mais, parece retroceder. A triste notícia para o seu povo é que, infelizmente, as leis da economia continuarão valendo; o socialismo, que jamais funcionou, em tempo algum, em nenhum dos países em que foi implantado, sempre pela força e pelo terror, continuará gerando privação, estagnação ou atraso e sofrimento. Continuará padecendo sem eletricidade, sem mecanização, sem investimentos, sem incentivo ao empreendedorismo que construiu as maiores nações do planeta e o direito à individualidade característico dos povos livres e das democracias. Enquanto não for definitivamente derrubada esta ideologia caduca, não haverá embargo ou desembargo capaz de mudar a sua desoladora situação.

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Fonte:
Spotnik, 'Cuba antes e depois da Revolução' (adaptado), disp. em:
http://spotniks.com/como-era-cuba-antes-da-revolucao/

Acesso 2/12/016
www.ofielcatolico.com.br

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