Fulton Sheen vai ser beatificado. O que isso representa para a Igreja de hoje?


A DATA OFICIAL é 24 de setembro de 2026. Em St. Louis, no Missouri (EUA), o Venerável Fulton Sheen será oficialmente declarado Beato, a última etapa antes da canonização. A cerimônia será presidida pelo Cardeal Luis Antonio Tagle, como representante do papa Leão XIV. Neste artigo opiniático, trataremos mais sobre o significado deste evento para a Igreja Católica dos nossos tempos do que sobre seus detalhes históricos, técnicos ou litúrgicos (falaremos dessas coisas em momento oportuno).     Fulton Sheen é uma figura emblemática para a Igreja dos nossos tempos. Conservador e bispo ortodoxo por um lado, cegamente obediente à hierarquia por outro, mesmo diante dos muitos e gravíssimos abusos que pululavam durante a tempestade pós-Vaticano II. Por exemplo, criticou a ação do corajoso Dom Lefebvre, que bravamente lutava contra a revolução em marcha. Em uma carta privada (21 de setembro de 1978), embora não tenha mencionado Lefebvre pelo nome, foi claro e bastante radical contra a FSSPX, revelando uma tensão difícil de conciliar entre seu conservadorismo doutrinal e sua obediência hierárquica inabalável, mesmo diante das situações inaceitáveis que se desenrolavam diante de seus olhos.     Sheen defendeu as reformas litúrgicas do Vaticano II e de Paulo VI: “O Concílio Vaticano aprovou a atualização da Liturgia e, entre as mudanças, estavam as recomendadas para a Missa. As mudanças feitas (...) não foram doutrinais, apenas mudaram do latim para a língua vernácula(!). Houve muitas mudanças na Missa ao longo dos séculos...”. Com essa argumentação rasa e totalmente insuficiente diante das profanações que se sucediam (e que só fizeram piorar até os nossos dias), dizia que o objetivo era apenas tornar a Escritura mais acessível. Sabemos bem que as mudanças foram radicais e que não envolveram apenas o idioma da liturgia, mas ele claramente estava preocupado em evitar um escândalo maior. Seu tom era pastoral e cheio de preocupação paternal — típico do pastor zeloso que sempre foi.     Conservador e ortodoxo: Sheen foi um dos maiores combatentes do comunismo, do relativismo moral e do materialismo secular no seu tempo. Defendia tudo na Doutrina perene sobre pecado, inferno, Eucaristia, a Virgem Maria e a importância da família, com uma clareza que hoje soa “tradicionalista”. Ele via a grande batalha final da Igreja exatamente do mesmo modo que Lefebvre a via: na família, na moral e na necessária preservação da Tradição.     Obediência hierárquica radical: participou ativamente do Vaticano II (falou sobre as missões), aceitou passivamente as reformas litúrgicas (embora criticasse pontualmente os abusos posteriores) e nunca questionou, ao menos publicamente, a validade do Concílio ou do Novus Ordo como tal. Para ele, o verdadeiro inimigo era externo (comunismo, secularismo). A crise interna seria resolvida com fidelidade ao Papa. Ingênuo? Por um lado, reconhecia os abusos litúrgicos e a grande confusão pós-conciliar, com o gravíssimo risco que implicava para as almas; por outro, acreditava que a solução passava pela obediência aos agentes próprios de todo o caos, não pela resistência aberta. Em seus escritos e pregações finais (faleceu em dezembro de 1979), insistia que a Igreja passaria por “morte e ressurreição”. Mas sempre sob Pedro.     Como essa postura se insere no panorama atual? No debate de hoje, essa postura de Sheen é exatamente o que divide e polariza a Igreja: a visão “sheeniana” (majoritária na hierarquia de então e ainda defendida pelos conservadores): o Concílio foi bom em si; os problemas vieram das más interpretações ('hermenêutica da ruptura') e da instrumentalização que revolucionários infiltrados fizeram dele. A obediência ao Papa, mesmo quando ele parece fraco, ambíguo ou mesmo herege, é o antídoto contra o verdadeiro modernismo. Lefebvre teria sido, sim, um bravo herdeiro dos Apóstolos, mas teria sido também imprudente — o caminho certo seria a reforma da reforma a partir de dentro da Igreja e em união com a hierarquia. Algo que, precisamos dizer, parece muito bom, mas que veio a se revelar, cada vez mais, impossível na prática. A revolução e a traição do Evangelho só cresceu, com os bons sendo punidos e os maus sendo favorecidos, desde Paulo VI até hoje.     A visão da maior parte dos tradicionalistas atuais a respeito dessa visão de Sheen — apesar de todo o seu inegável brilho como pregador e apologista —, é que se trata do olhar de um excessivo otimista: aquilo que hoje chamariam "negacionista". Não percebeu ou não quis ver o que era muito claro: boa parte dos documentos conciliares e das reformas litúrgicas continham sementes de ruptura. A vitória dos revolucionários no Concílio é um fato inegável, e aquilo que plantaram teria que ser revogado, sob pena de milhões de almas se perderem. Sua obediência foi cega no sentido de priorizar uma unidade artificial, meramente visível, em detrimento da fidelidade à Fé integral e à Sã Doutrina do próprio Cristo, pregada desde sempre, desde os Apóstolos. Lefebvre, ao contrário, foi um leão que escolheu obedecer antes a Deus do que aos homens (At 5,29), a fides sobre a obedientia, se esta última conflitasse com as Escrituras, a Tradição e tudo o que o Magistério havia já definido até ali.     Sheen nunca foi um “progressista”, seria injusto dizer isso. Ele simplesmente se recusou a ver o Vaticano II como aquilo que foi: o triunfo da revolução no seio da Igreja, algo que necessariamente exigia resistência pública. Achava que aquele concílio meramente pastoral precisava apenas de correção nos seus excessos.     Sua postura representa à perfeição o dilema que vivemos hoje. Sua beatificação próxima é celebrada com entusiasmo pelos católicos que valorizam a ortodoxia combinada com a fidelidade romana incondicional ou mesmo conformista — e vista com reserva por aqueles que consideram a situação atual como semelhante (ou até pior, por muitas razões) à da Grande Crise Ariana, e que, portanto, deve ser combatida com a mesma postura de verdadeiros guerreiros da Fé como Santo Atanásio, Santo Hilário de Poitiers, São Basílio Magno, São Gregório de Nazianzo, São Gregório de Nissa e outros, que não se dobraram diante da deturpação da Sã Doutrina e do verdadeiro Depositum Fidei[1] em nome da mera obediência hierárquica.

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[1] Depositum Fidei (ou Fidei Depositum, em latim) significa literalmente “Depósito da Fé”. Trata-se de um conceito central na Teologia católica: é o conjunto completo e imutável da Revelação divina confiada por Cristo aos Apóstolos, que a Igreja deve guardar fielmente, transmitir intacta e interpretar autenticamente ao longo dos séculos. A expressão tem raízes bíblicas e foi desenvolvida pelos Padres da Igreja: São Paulo usa a palavra grega parathēkē ('depósito' ou 'o que foi confiado') nas Cartas pastorais (1Tm 6,20; 2Tm 1,14). O conceito aparece cedo nos Padres da Igreja (séculos II-V), por exemplo em Santo Irineu de Lião (Contra as Heresias), Tertuliano (Prescrição contra os hereges) e São Vicente de Lérins (Commonitorium), ainda que a fórmula exata possa ter se consolidado um pouco depois.
    A fórmula latina tornou-se comum no vocabulário teológico ao longo da Patrística e da Idade Média e foi usada em documentos magisteriais para enfatizar a imutabilidade da doutrina contra heresias ou inovações.

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