Oração e alegria: a Via da Purificação e a Via da Iluminação

A Negação de S. Pedro - Caravaggio (1610)

A CONVERSÃO, no cristianismo, é um processo que se dá com base principalmente na vontade. Nesse processo, o elemento mais importante não é o intelecto, e menos ainda a emoção, por seu caráter efêmero, fugaz, inconstante. Atualmente, entretanto, florescem movimentos religiosos que valorizam o sentimentalismo, criando e alimentando nos fiéis a ideia de que o “sentir-se bem” deve servir como principal parâmetro para decidir se aquele caminho religioso é autêntico ou não.

"Aqui está Deus, porque aqui eu me sinto bem", é o pensamento dos frequentadores de certos grupos religiosos. Acham, por exemplo, que a oração ideal é aquela em que o sujeito fica emocionado, chora, sente um ardor no peito... As Missas e/ou cultos são excessivamente animados, muitas vezes com batucadas ou guitarras distorcidas e bateria alta, aplausos constantes e até danças coreografadas. Tudo isso cria um estado de euforia e empolgação, mas... Trata-se de uma alegria passageira. E a pessoa fica condicionada a querer sempre mais. Logo começa a pensar que, numa celebração em que não aconteça todo aquele ardor festivo, Deus não está presente. Será?

Grandes santos e doutores da Igreja, como Tomás de Aquino, João da Cruz e Catarina de Sena, entenderam que a construção da verdadeira alma cristã passa por etapas distintas, dentre as quais a Via da Purificação e a Via da Iluminação.


A Via da Purificação

O primeiro momento da Via da Purificação ocorre quando a alma encontra Deus: num primeiro momento, sente-se saciada e amada por Ele. Começa a reconhecer Deus como Amigo, Companheiro... Pai: o Deus que é Bom, que é Provedor, que nos ama e salva. As orações são fervorosas, a alma sente-se “enamorada” de Deus. Há muita alegria e entusiasmo nessa fase, que pode ser simbolizada pelo tempo em que os Apóstolos conviveram face a Face com Jesus. Eles compartilhavam da intimidade do Senhor, caminhavam juntos, tiveram a imensa graça de presenciar seus grandiosos milagres e de contemplar Jesus Glorioso no alto do Tabor (Mt 17,1-9; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36; 2Pd 1,16-18). Desfrutavam da reconfortante sensação de serem “amigos de Deus”.

No segundo momento da Via da Purificação, porém, a alma começa a perceber que continua com os mesmos defeitos, que tinha antes de conhecer a Deus, antes desta primeira conversão. É um momento difícil, delicado. Um símbolo desse estágio é a passagem em que S. Pedro, discípulo destacado em quem Jesus confiou de modo especial, e a quem concedeu as Chaves do Reino, nega o Senhor por três vezes, chegando mesmo a dizer “Não conheço esse homem!” (Mt 26,74). – É quando o convertido percebe que ainda precisa lutar, e lutar contra si mesmo, contra suas fraquezas, medos e antigos vícios, pois ainda é o mesmo ser humano pequeno e falho. – É a “luta da carne contra o espírito” referida no Evangelho segundo S. Marcos (14,38) e em todo o capítulo 7 da Epístola aos Romanos. A oração, então, perde fervor; a alma tem a impressão de que Deus não lhe responde. Surge um vazio. E é então que dois possíveis caminhos se abrem, e um deles deverá ser escolhido: o da purificação ou o da queda.

1ª possibilidade: a purificação – Acontece se a alma começa a aprender que, mesmo em Comunhão com Deus, continua somente humana e fraca; que tem de se entregar a Deus a cada dia, a cada instante, e que nada menos que essa entrega total será suficiente. Entende que ser cristão é tornar-se verdadeiramente manso e humilde diante do Criador. Não é preciso e de nada adiantará buscar Deus nas fortes emoções, nas sensações intensas… É a silenciosa e simples Presença de Deus que lhe dá força, e nada mais é necessário. E essa pessoa, – que não apenas confessa a fé no muito falar, mas ama a Deus em seu íntimo, – prossegue, esquecendo-se de si própria. É um outro processo delicado: o da eliminação do amor próprio.

Importante dizer que eliminar o amor próprio, nesse caso, não quer dizer desprezar-se ou odiar a si mesmo, num sofrimento doentio, esquizofrênico e estéril. Eliminar o amor próprio é "negar-se a si mesmo", como diz Nosso Senhor (Mc 8,34-35), no sentido de reconhecer-se pequeno, incapaz de alcançar a salvação por seus próprios méritos. Quer dizer aceitar suas limitações e render-se diante da Soberania Divina. Por nós mesmos, nada podemos fazer (Jo, 15, 5). É Deus Quem realiza em nós as grandes e pequenas coisas.

2ª possibilidade: a queda – acontece se a alma chega a não suportar mais o fato de que Deus não lhe responde. Não suporta e não aceita que seja tão fraca. Começa a achar que, ao procurar Deus, exagerou na dose, que na realidade tudo não passou de um furor vazio, uma ilusão. A fé começa a se enfraquecer, cai nos vícios; a pessoa se perde do caminho da purificação, retomando, por fim, sua vida antiga, a que levava antes da conversão, antes de ter se interessado por Deus.


A Via da Iluminação

Finalmente, aquele que vence a etapa da Via da Purificação começa a Via da Iluminação. É quando a alma adquire uma maior consciência da Presença de Deus, começa a ver o Toque de Deus no dia-a-dia, a manifestação do Amor de Deus às suas criaturas, mesmo no sofrimento, nas dores e dificuldades. Começa a perceber e saber que Deus está sempre com ela, e compreende que até mesmo as decepções deste mundo têm sua razão de ser, pois “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). A alma tem o que se chama de “Presença de Deus”, como diz o Senhor a Santa Catarina de Sena em sua obra clássica “Diálogos”:

“Nada foi feito e nada se faz sem a resolução da minha divina Providência. Em tudo o que permito, em tudo o que vos dou, nas tribulações e nas consolações, temporais ou espirituais, nada faço senão para o vosso bem, para que sejais santificados em Mim e para que minha Vontade se cumpra em vós.” (Diálogos, cap.166)

A via da iluminação, entretanto, tem ainda um risco: a alma está subindo importantes degraus em direção a Deus, sim, porém, quanto maior a altura, maior poderá ser a queda. A alma deve permanecer no seu caminho de encontro a Deus e o desafio nessa fase é superar o orgulho espiritual, isto é, o de achar-se melhor que os outros, julgar-se especial, mais santo, mais sábio, mais iluminado. Corre o risco de achar inválida ou até ridícula as manifestações de fé alheias. A alma pode viver um egoísmo, uma soberba espiritual. Sabe que Deus está com ela, e ama também a Deus, mas tem dificuldade em amar igualmente as demais pessoas, porque enxerga seus erros e não os compreende. Quer que as coisas sejam “do seu jeito”, não aceita quem vive de modo diferente.

Esta é uma etapa importantíssima a ser vencida. Se a alma conseguir superar mais este desafio, estará verdadeiramente próxima de Deus e de uma vida cristã abençoada. – O que, por sua vez, não significa estar livre de todos os problemas e dificuldades deste mundo, mas saber lidar realmente bem com todas as situações, de modo sereno e tranquilo. – A alegria não mais se dissipará, o desespero não mais encontrará lugar, pois existirá a consciência da permanente Presença de Deus em todos os momentos. Reinará nesta vida uma alegria calma, silenciosa, perene, refletida, prudente, sensata. Vemos esse tipo de comportamento, reflexo da autêntica Comunhão com Deus, nas vidas dos santos. É esta fé e é esta consciência que conferem o amor, a coragem, a paciência e a persistência necessárias para ser cristão na prática. O próximo estágio será o da transformação maior e definitiva da alma, a chamada Via Unitiva dos Perfeitos, em que se vive o mais alto estágio da perfeição cristã.


Conclusão

Talvez aquelas celebrações citadas no começo deste artigo, fundamentadas na emoção e na euforia, coloquem os fiéis que delas participam no caminho da purificação, naquele primeiro estágio em que a pessoa "encontra Jesus": é aquele momento muito feliz, alegre e agradável, que vem após a conversão espiritual. É quando a pessoa começa a chegar perto de responder às grandes perguntas existenciais (Quem eu sou? De onde venho? Por que existo? Quem é Deus?).

Os movimentos pentecostais ou carismáticos valorizam esse clima de emoção, e não há problema nisso. Ocorre que, se a emoção é posta como condição ou parâmetro para a prática religiosa, com o tempo surgirá a inevitável crise de identidade espiritual. A alegria inicial não dura para sempre, ao menos não no plano sensitivo (expansivo). E então, quando a pessoa começa a sentir que está “enfraquecendo” na fé, pois o seu entusiasmo começa a esmorecer, se o esforço se concentrar somente em manter aquela emoção inicial, o risco de cair é grande. É aí que o católico mal orientado deixa de ir à Missa, abandona a Igreja, esquece Deus. Sente como se tudo tivesse ficado no passado, quer resgatar a alegria inicial, não se conforma com o esfriamento dos sentidos. Muitos, nesse momento de fragilidade, acabam encontrando alguma seita fundamentalista e, na ânsia por recuperar as emoções iniciais, aderem a uma nova religião. Comumente, a partir daí continuam migrando de uma "igreja" para outra, num processo angustiante, sem nunca encontrarem verdadeiramente o que buscam.

Sem uma formação sólida, abrem-se as portas para a perda da fé verdadeiramente católica. É inútil querer "prender" alguém somente pela emoção. O pretenso e forçado "carismatismo" se situa fora da fé, fora da Verdade, fora da religião tal como Deus a criou. Ninguém pode depender das próprias emoções, tornando-se seu "refém" para continuar fiel a Deus. Deus está na alegria da conversão, mas está também na oração silenciosa, na contemplação do Mistério Divino, na quietude da adoração interior e verdadeiramente espiritual, no silêncio de uma reflexão cheia de amor e devoção sincera.

________
• Referência:
LAGRANGE. Garrigou. As Três Vias e as Três Conversões, 4ª ed. Rio de Janeiro: Permanência, 2011.
www.ofielcatolico.com.br

Diferença entre orar e rezar – as "vãs repetições"


ASSIM COMO bem atestam o Aurélio, o Michaellis e todos os dicionários da língua portuguesa, os termos "orar" e "rezar" são sinônimos. É importante notar, aliás, que essa duplicidade de termos que expressam uma mesma realidade é bem característica da nossa língua pátria. Em inglês, por exemplo, o verbo to pray significa exatamente o mesmo: orar ou rezar, tanto faz. Em italiano, usa-se a palavra pregare, que poderia ser traduzida como "suplicar" e que tem o mesmo sentido de orar ou rezar em nosso idioma.

No desenvolvimento do português – esta língua tão complexa – surgiram muitos termos sinônimos, como: andar e caminhar; experimentar e experienciar; trabalhar e laborar; alimentar e nutrir; orar e rezar, etc, etc... De fato, não há absolutamente nenhuma razão para se diferenciar radicalmente os termos orar e rezar. Na Santa Missa, por exemplo, o sacerdote tanto usa a expressão "oremos" quanto, – na oração dos fiéis ou na homilia –, pode dizer "rezemos". Infelizmente, porém, de algum tempo para cá, muitos "pastores" andam imaginando que têm autoridade para mudar a língua portuguesa, e por conta própria vem "ensinando" às pessoas simples e despreparadas que existe uma grande diferença entre orar e rezar.

E assim, sem pensar, grande parte dos nossos irmãozinhos afastados assume essa ideia equivocada. Pior: como de costume, considerando-se os únicos entendedores da Bíblia Sagrada, essas pessoas são rápidas em nos acusar por conta deste assunto: criou-se a esdrúxula ideia de que "rezar" seria repetir "vãs palavras", enquanto que "orar" seria, verdadeiramente, falar com Deus. Analisaremos bem a questão, a seguir. Antes, vejamos o que a própria Escritura tem a dizer sobre questões como esta:

Esses tais demonstram um interesse doentio por controvérsias e contendas acerca das palavras, que resulta em inveja, brigas e atritos constantes...”
(1Tm 6, 4)

Como vemos, esse tipo de controvérsia sobre palavras não é nenhuma novidade. Voltando à questão, por que se apegam alguns a essa grande diferença 100% inventada, entre palavras que sempre foram e continuam sendo, na realidade, sinônimas? O que alegam, como já dissemos, é que "rezar" seria uma vã repetição de palavras decoradas, feita mecanicamente, enquanto que "orar" seria falar a Deus daquilo que vem do coração, com entrega, com verdade, fé e amor. – Para um fiel católico, entretanto, desmontar essa construção falsa e muitas vezes maldosa é bem fácil, simplesmente porque é desprovida de qualquer base sólida. Vejamos...

Admitimos que o termo "orar" pode ter sido preferido, por certos autores, para significar as orações espontâneas, e "rezar" tenha sido mais utilizado com enfoque na sua raiz semântica latina "recitare", que significa récita. Isto, porém, não é e nem foi nunca regra geral, e para confirmá-lo basta demonstrar que o vocábulo "orar" deriva do latim "orare", cujo sentido original é exatamente o mesmo, isto é, "pronunciar uma fórmula ritual, uma súplica, um discurso"[1], além de significar também (exatamente do mesmo modo que o 'recitare') o "pedir, rogar, pleitear, advogar". Estas acepções estão presentes nos cognatos "oração" (do latim 'oratione') e "orador"; todavia ambos os verbos, "orare" e "recitare", justamente por influência do latim eclesiástico, especializaram-se com sentido de súplica a Deus.

Mais além, não é verdade que os católicos só podem se utilizar de orações pré-definidas para falar a Deus. Todo católico pode e deve elevar suas próprias orações espontâneas ao Criador, usando as palavras que lhe vêm ao coração, para pedir, louvar, dar graças e falar a Nosso Senhor como quem fala a um dileto amigo.


Como o próprio Jesus Cristo ensinou

O uso das fórmulas prontas sempre serviu (e serve) como uma espécie de guia para orientar quanto à maneira correta de falar a Deus, conforme nos instruiu o próprio Senhor Jesus Cristo. Quando um dos discípulos lhe perguntou como deveriam orar (Lc 11,1-4. Mt 6,9-14), Ele não respondeu: "falem como quiserem, digam as palavras que lhes vierem ao coração". Não. O que o Senhor fez foi ensinar a oração do Pai-Nosso, dizendo com muita clareza: "Quando orardes, dizei assim...". O Filho de Deus e Salvador da humanidade, pessoalmente, ensinou uma fórmula pré-definida, para que nós pudéssemos compreender o que é mais importante pedir a Deus, e em que ordem e de que maneira devemos fazê-lo.

Por meio desse modelo, Jesus nos ensinou como devem ser as nossas orações e como elas se tornam aceitáveis a Deus, nosso Pai do Céu. Vemos que pode ser muito útil, então, usar as fórmulas prontas como orientadoras para os nossos momentos de oração. Foi assim que o Cristo nos ensinou, e isso não quer dizer, de modo algum, que nossa oração será feita mecanicamente, sem entrega, sem verdade, sem devoção, sem amor.


O 'X' da questão

Como sempre, quando discutimos com "evangélicos", não podemos encerrar a questão sem entrar no argumento bíblico. "Está na Bíblia", "não está na Bíblia", "onde é que está na Bíblia...", é o que invariavelmente ouviremos como resposta. E ao tentar esclarecer essa questão específica, há um argumento que virá inevitavelmente, em algum ponto da conversa: a citação do texto do Evangelho de Mateus:

...Orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos.”
(Mt 6,7)

A tradução acima é a do protestante português J. F. de Almeida (das versões 'corrigida e revisada' ou 'revisada imprensa bíblica'), as mais usadas pelos "evangélicos". Outras versões trazem traduções diferentes, e existe, no mínimo, uma controvérsia em se usar a expressão "vãs repetições". Neste nosso estudo, entretanto, o que realmente importa, mais do que as diferenças entre traduções, é saber o que verdadeiramente diz o Texto Sagrado. Finalizemos então o assunto da melhor maneira possível: analisando o texto bíblico original, em grego.

Προσευχόμενοι δὲ μὴ βατταλογήσητε ὥσπερ οἱ ἐθνικοί, δοκοῦσιν γὰρ ὅτι ἐν τῇ πολυλογίᾳ αὐτῶν εἰσακουσθήσονται”

[Transliteração: 'Proseukomenoi de me battaloyesete osper oi etnikoi, dokusin gar oti en te polylogia auton eisakustesontai']

O vocábulo-chave aí é πολυλογίᾳ, que se pronuncia polylogia, e se traduz da seguinte maneira: poly quer dizer muito, bastante, em grande número; logia quer dizer palavra, discurso, descrição, linguagem, estudo, teoria. No contexto em questão, o termo está mais diretamente relacionado ao sentido de palavra. Polylogia, portanto, quer dizer algo como tagarelice, falatório, verborragia, prolixidade. Como vemos, na fiel tradução desta passagem, dificilmente caberia a expressão “vãs repetições”, tão alardeada.

Outro ponto importantíssimo é compreender que Jesus diz que não devemos falar muito, multiplicando as palavras do mesmo modo como fazem os pagãos. Atenção: não devemos orar do mesmo modo como fazem os pagãosÉ claro que os pagãos não recitavam os salmos, nem as orações dos judeus e muito menos o Pai Nosso, que o Senhor mesmo ensinou aos seus discípulos. Se o fizessem, seriam recriminados? Certamente que não.

Agora, se "rezar" fosse o mesmo que usar de "vãs repetições", no sentido de repetir as mesmas palavras, então Jesus mesmo rezava, como vemos no Evangelho segundo S. Marcos, que mostra o Cristo falando a Deus Pai no jardim de Getsêmani, antes de Judas o trair:

E, afastando-se de novo, orava dizendo novamente a mesma coisa..."
(Mc 14, 39)

Se esta cena se passasse no Brasil, hoje, certos "pastores" diriam que Jesus estava cometendo um erro, "rezando" em vez de "orar", usando de "vãs repetições"...

Isso acontece porque muitos memorizam a Bíblia, mas poucos entendem o seu contexto e seus significados realmente profundos. Além disso, certas comunidades ditas "evangélicas" procuram valorizar sempre as diferenças, por menores que sejam, aumentando cada vez mais o fosso da separação entre cristãos. Ainda pior, querelas fúteis como esta servem de pretexto para alimentar a confusão entre os que buscam o verdadeiro cristianismo. Acentuando as diferenças, seja no culto ou nas palavras, imediatamente se identificam como “crentes” ou “evangélicos” e se distanciam de católicos e ortodoxos. É uma tática inteligentemente adotada para crescer e prosperar: levar os ingênuos a acreditarem que somente eles são os detentores da salvação e da Verdade divina: somente eles é que conheceriam os sentidos das palavras, quando a realidade é o exato oposto.

Além de tudo, sejamos francos: quantos falsos profetas – que já conhecemos tão bem – são verdadeiros mestres da oratória, gênios dos belos discursos? Dizem que "oram" e berram elaboradas palavras diante da assembleia deslumbrada, mas suas vidas estão repletas de podridão, luxúria, ostentação, idolatria ao dinheiro e às riquezas. Já uma certa Madre Teresa de Calcutá era tímida no falar, assim como Irmã Dulce dos Pobres e Frei Damião, apenas para citar alguns exemplos bem conhecidos: todos estes diziam "rezar", e suas vidas foram exemplos de caridade cristã. Quem se atreveria a dizer que essas pessoas não rezavam com o coração, com fé e grande amor a Deus?

Para finalizar, observemos o Salmo 135/6, que reproduzimos abaixo (fizemos questão de usar a tradução protestante de J. F. de Almeida):

Louvai ao SENHOR, porque ele é bom;
Porque a sua benignidade dura para sempre.

Louvai ao Deus dos deuses;
Porque a sua benignidade dura para sempre.

Louvai ao Senhor dos senhores;
Porque a sua benignidade dura para sempre.

Aquele que só faz maravilhas;
porque a sua benignidade dura para sempre.

Aquele que por entendimento fez os céus;
Porque a sua benignidade dura para sempre.

Aquele que estendeu a terra sobre as águas;
Porque a sua benignidade dura para sempre.

Aquele que fez os grandes luminares;
Porque a sua benignidade dura para sempre (...)"...

E assim prossegue a oração do salmista, repetindo sempre a mesma fórmula, de novo e de novo, até o final dos vinte e seis versículos. Assim também é que cai por terra, definitivamente, o argumento de que os católicos usam de "vãs repetições" nas suas orações, junto com a suposta importante diferença existente entre os termos "orar" e "rezar".

Tanto "rezar" quanto "orar" podem englobar todos os gêneros de súplicas a Deus, desde aqueles de petição e agradecimento até as orações de louvor e glorificação ao Criador. E não estamos aqui a tratar de nenhum segredo: o leitor pode comprovar esta  simples realidade através de breve pesquisa virtual. Tudo que precisamos fazer é deixar de dar ouvidos àqueles que se consideram donos da verdade, e buscar a Vontade de Deus com amor soberano, pureza de alma, fé desapegada e absoluta sinceridade.

___
Nota:
1. DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO, verbete 'Orar, Recitar e Rezar', disp. em:
http://www.dicionarioetimologico.com.br/orar-recitar-e-rezar/
Acesso 25/5/014

www.ofielcatolico.com.br

G. K. Chesterton: "Por que sou católico"

Por G. K. Chesterton



A DIFICULDADE EM EXPLICAR “Por que eu sou Católico” é que há dez mil razões para isso, todas se resumindo a uma única: o catolicismo é verdadeiro. Para falar da Igreja Católica eu poderia preencher todo o meu espaço com sentenças separadas, todas começando com as palavras “é a única que...”.

Como por exemplo, a Igreja Católica é a única que previne um pecado de se tornar um segredo; é a única que fala como um mensageiro que se recusa a alterar a verdadeira Mensagem; é a única que assume a grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis...

Ou posso tratar o assunto de forma pessoal e descrever minha própria conversão. Acontece que tenho uma forte impressão de que esse método faz a coisa parecer muito menor do que realmente é. Homens muito mais importantes, em muito maior número, se converteram a religiões muito piores. Preferiria tentar dizer, aqui, coisas a respeito da Igreja Católica que não se podem dizer o mesmo nem sobre suas mais respeitáveis rivais. Em resumo, diria apenas que a Igreja Católica é católica. Preferiria tentar sugerir que ela não é somente maior do que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; que ela é realmente maior que o mundo. Mas, como neste pequeno espaço disponho apenas de uma pequena seção, abordarei sua função como guardiã da Verdade.

Outro dia, um conhecido escritor, muito bem informado em outros assuntos, disse que a Igreja Católica é uma eterna inimiga das novas ideias. Provavelmente não ocorreu a ele que esta observação, que ele próprio fez, não é exatamente nova: é uma daquelas noções que os católicos têm que refutar continuamente, porque é uma ideia muito antiga.

Na realidade, aqueles que reclamam que o catolicismo não diz nada novo, raramente pensam que talvez seja necessário dizer alguma coisa nova sobre o catolicismo. De fato, o estudo real da História mostra que os católicos sempre sofreram, e continuam sofrendo continuamente por apoiarem ideias realmente novas; desde quando elas eram muito novas para encontrar alguém que as apoiasse. O católico foi não só o pioneiro na área, mas o único; até hoje não houve ninguém que compreendesse o que realmente se tinha descoberto lá, naquele tempo (na origem do cristianismo).

Mas não apenas aí. São muitos os exemplos que se poderiam citar. Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução Francesa, numa era devotada ao orgulho e ao louvor dos príncipes, o Cardeal Bellarmine, juntamente com Suarez, o Espanhol, formularam lucidamente toda a teoria da democracia real. Mas naquela era do Direito Divino, eles somente produziram a impressão de serem jesuítas sofisticados e sanguinários, insinuando-se com adagas para assassinarem os reis. Então, novamente, os casuístas das escolas católicas disseram tudo o que pode ser dito e que constam de nossas peças e romances atuais, duzentos anos antes de eles serem escritos. Eles disseram que há sim problemas de conduta moral, mas eles tiveram a infelicidade de dizê-lo muito cedo, cedo de dois séculos. Num tempo de extraordinário fanatismo e de uma vituperação livre e fácil, eles foram simplesmente chamados de mentirosos e trapaceiros por terem sido psicólogos antes da psicologia se tornar moda.

Seria fácil dar inúmeros outros exemplos, e citar o caso de ideias ainda muito novas para serem compreendidas. Há passagens da Encíclica do Papa Leão XIII sobre o trabalho (Rerum Novarum, 1891) que somente agora estão começando a ser usadas como sugestões para movimentos sociais muito mais novos do que o socialismo. E quando o Sr. Belloc escreveu a respeito do Estado Servil, ele estava apresentando uma teoria econômica tão original que quase ninguém ainda percebeu do que se trata. Então, quando os católicos apresentam objeções, seu protesto será facilmente explicado pelo conhecido fato de que católicos nunca se preocupam com ideias novas...

Contudo, o homem que fez essa observação sobre os católicos quis dizer algo; e é justo fazê-lo compreender muito mais claramente o que ele próprio disse. O que ele quis dizer é que, no mundo moderno, a Igreja Católica é, - isto sim, - uma inimiga de muitas modas influentes; muitas delas ainda se dizem novas, apesar de algumas delas começarem a se tornar um pouco decadentes. Em outras palavras, se alguém disser que a Igreja frequentemente ataca o que o mundo, em cada era, apóia, aí está perfeitamente certo. A Igreja sempre se coloca contra as modas passageiras do mundo, e ela tem experiência suficiente para saber quão rapidamente as modas passam. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessário tomarmos um ponto de vista mais amplo e considerar a natureza última das ideias em questão; considerar, por assim dizer, a ideia da ideia.

Nove dentre dez do que chamamos novas ideias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos cometam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados "livres". A verdade sobre a atitude católica frente à heresia, ou como alguns diriam, frente à "liberdade", pode ser mais bem expressa utilizando-se a metáfora de um mapa. A Igreja Católica possui uma espécie de mapa da mente que parece um labirinto, mas que é, de fato, um guia para o labirinto. Ele foi compilado a partir de um conhecimento que, mesmo se considerado humano, não tem nenhum paralelo humano.

Não há nenhum outro caso de uma instituição inteligente e contínua que tenha pensado sobre o pensamento por dois mil anos. Sua experiência cobre naturalmente quase todas as experiências; e especialmente quase todos os erros. O resultado é um mapa no qual todas as ruas sem saída e as estradas ruins estão claramente marcadas, bem como todos os caminhos que se mostraram sem valor, pela melhor de todas as evidências: a evidência daqueles que os percorreram.

Nesse mapa da mente, os erros são marcados como exceções. A maior parte dele consiste de playgrounds e alegres campos de caça, onde a mente pode ter tanta liberdade quanto queira; sem se esquecer de inúmeros campos de batalha intelectual em que a batalha está eternamente aberta e indefinida. Mas o mapa definitivamente se responsabiliza por fazer certas estradas se dirigirem ao nada ou à destruição, a um muro ou ao precipício. Assim, ele evita que os homens percam repetidamente seu tempo ou suas vidas em caminhos sabidamente fúteis ou desastrosos, e que podem atrair viajantes novamente no futuro. A Igreja se faz responsável por alertar seu povo contra eles; e disso a questão real depende. Ela dogmaticamente defende a humanidade de seus piores inimigos, daqueles grisalhos, horríveis e devoradores monstros dos velhos erros.

Agora, todas essas falsas questões têm uma maneira de parecer novas em folha, especialmente para uma geração nova em folha. Suas primeiras afirmações soam inofensivas e plausíveis. Darei apenas dois exemplos. Soa inofensivo dizer, como muitos dos modernos dizem: “As ações só são erradas se são más para a sociedade”. Siga essa sugestão e, cedo ou tarde, você terá a desumanidade de uma colmeia ou de uma cidade pagã, o estabelecimento da escravidão como o meio mais barato ou mais direto de produção e a tortura dos escravos pois, afinal, o indivíduo não é nada para o Estado: e assim surge a declaração de que um homem inocente deve morrer pelo povo, como fizeram os assassinos de Cristo.

Então, talvez, voltaremos às definições da Igreja Católica e descobriremos que a Igreja, ao mesmo tempo que diz que é nossa tarefa trabalhar para a sociedade, também diz outras coisas que proíbem a injustiça individual. Ou novamente, soa muito piedoso dizer: “Nosso conflito moral deve terminar com a vitória do espiritual sobre o material”. Siga essa sugestão e você terminará com a loucura dos maniqueus, dizendo que um suicídio é bom porque é um sacrifício, que a perversão sexual é boa porque não produz vida, que o demônio fez o sol e a lua porque eles são materiais. Então, você pode começar a adivinhar a razão de o cristianismo insistir que há espíritos maus e bons; que a matéria também pode ser sagrada, como na Encarnação ou na Missa, no Sacramento do matrimônio e na ressurreição da carne.


A espetacularmente bela Catedral de Milão, na Itália...
...e a capelinha do município de Primavera, Pernambuco, Brasil: igualmente católicas; em ambas, comunga-se Corpo e Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo

Não há nenhuma outra mente institucional no mundo pronta a evitar que as mentes errem. O policial chega tarde, quando tentar evitar que os homens cometam erros. O médico chega tarde, pois ele apenas chega para examinar o louco, não para aconselhar o homem são a como não enlouquecer. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas para esse propósito. E isso não é porque elas possam não conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contém uma verdade; e estão contentes por conter uma verdade. Nenhuma delas pretende conter a Verdade. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado ou mesmo do presente, mas igualmente contra aquelas do futuro, que podem estar em exata oposição com as do presente. O catolicismo não é ritualismo; ele poderá estar lutando, no futuro, contra algum tipo de exagero ritualístico supersticioso e idólatra. O catolicismo não é ascetismo; repetidamente, no passado, reprimiu os exageros fanáticos e cruéis do ascetismo. O catolicismo não é mero misticismo; ele está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmatistas.

Assim, quando o mundo era puritano, no século XVII, a Igreja era acusada de exagerar a caridade a ponto da sofisticação, por fazer tudo fácil pela negligência confessional. Agora que o mundo não é puritano, mas pagão, é a Igreja que está protestando contra a negligência da vestimenta e das maneiras pagãs. Ela está fazendo o que os puritanos desejariam fazer, quando isso fosse realmente desejável. Com toda a probabilidade, o melhor do protestantismo somente sobreviverá no catolicismo; e, nesse sentido, todos os católicos serão ainda puritanos quando todos os puritanos forem pagãos.

Assim, por exemplo, o catolicismo, num sentido pouco compreendido, fica fora de uma briga como aquela do darwinismo em Dayton. Ele fica fora porque permanece, em tudo, em torno dela, como uma casa que abarca duas peças de mobília que não combinam. Não é nada sectário dizer que ele está antes, depois e além de todas as coisas, em todas as direções. Ele é imparcial na briga entre os fundamentalistas e a teoria da origem das espécies, porque ele se funda numa Origem anterior àquela origem; porque ele é mais fundamental que o fundamentalismo. Ele sabe de onde veio a Bíblia. Ele também sabe aonde vão as teorias da evolução. Ele sabe que houve muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos, e que eles foram eliminados somente pela autoridade da Igreja Católica. Ele sabe que há muitas outras teorias da evolução além da de Darwin; e que a última será sempre eliminada pela novíssima teoria da ciência mais recente. Ele não aceita, convencionalmente, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência ainda não chegou a uma conclusão. Concluir é se calar; e o homem de ciência dificilmente se calará. Ele não acredita, convencionalmente, no que a Bíblia diz, pela simples razão de que a Bíblia não diz nada. Você não pode colocar um livro no banco das testemunhas e perguntar o que ele quer dizer.

A própria controvérsia fundamentalista se destrói a si mesma. A Bíblia por si mesma não pode ser a base do acordo quando ela é a causa do desacordo; não pode ser a base comum dos cristãos quando alguns a tomam alegoricamente e outros literalmente. O católico se refere a algo que pode dizer alguma coisa, para a mente viva, consistente e contínua da qual tenho falado; a mais alta consciência do homem guiado por Deus.

Cresce a cada momento, para nós, a necessidade moral por tal mente imortal. Devemos ter alguma coisa que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossos experimentos sociais ou construímos nossas utopias. Por exemplo, devemos ter um acordo final, pelo menos em nome do truísmo da irmandade dos homens, que resista a alguma reação da brutalidade humana. Nada é mais provável, no momento presente, que a corrupção do governo representativo solte os ricos de todas as amarras e que eles pisoteiem todas as tradições com o mero orgulho pagão. Devemos ter todos os truísmos, em todos os lugares, reconhecidos como verdadeiros. Devemos evitar a mera reação e a temerosa repetição de velhos erros. Devemos fazer o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas na condição da moderna anarquia mental, nem um nem outro ideal está seguro. Tal como os protestantes recorreram à Bíblia contra os padres, porque estes podem ser questionados, e não perceberam que a (sua interpretação particular da) Bíblia também poderia ser questionada, assim também os republicanos recorreram ao povo contra os reis e não perceberam que o povo também podia ser desafiado.

Não há fim para a dissolução das idéias, para a destruição de todos os testes da verdade, situação tornada possível desde que os homens abandonaram a tentativa de manter uma Verdade central e civilizada, de conter todas as verdades e identificar e refutar todos os erros. Desde então, cada grupo tem tomado uma verdade por vez e gastado tempo em torná-la uma mentira. Não temos tido nada, exceto movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento e sim um lugar de encontro, um lugar de encontro para todas as verdades do mundo.

____
Fonte:
CHESTERTON, G. K. "Por que sou católico". Grupo Chesterton Brasil, traduzido por Antonio Emilia Angueth de Araujo. - d
o site Chesterton Brasil
www.ofielcatolico.com.br

Aparições de Nossa Senhora das Graças


AS APARIÇÕES marianas são vistas como um sinal da divina Promessa de salvação aos fiéis, e também, muitas vezes, como um prelúdio do Apocalipse. Entretanto, a maioria desconhece que os relatos das visitas especiais da Virgem Maria a este mundo remontam, no mínimo, ao século III, quando Gregório, o Taumaturgo, atestou que Maria lhe aparecera uma noite, acompanhada de João Batista, para introduzi-lo no Mistério da piedade.

Popularmente, considera-se que as modernas aparições marianas tiveram início com as visões da camponesa Bernardete Soubirous, em Lourdes, na França, no decorrer do ano de 1858: essas visões até hoje inspiram o interesse de religiosos e pesquisadores de fenômenos supranaturais do mundo inteiro.

Mas, na realidade, as aparições da Virgem Maria na era moderna começaram 28 anos antes do ocorrido em Lourdes, no Convento das Irmãs de Caridade da Rue du Bac, em Paris, França. Ali, uma freira chamada Catarina Labouré afirmou que a Virgem lhe aparecera como uma figura cercada de luz, com um pé sobre um globo branco e o outro pisando a cabeça de uma serpente com manchas amarelas. Nas mãos, disse Catarina, a Virgem levava uma esfera dourada que representava o mundo, - imagens fortemente relacionadas com o que se lê no Livro das Revelações (Apocalipse), no qual se lê que uma “Mulher vestida de Sol” luta contra Satanás pelo destino das almas humanas.

Catarina Labouré
(Catherine Laboure)
Catarina Labouré contou que a Virgem lhe prevenira de que o mundo estava prestes a ser dominado por “males de toda espécie”, e também relatou que Maria Santíssima a encarregara de mandar cunhar uma medalha que reproduzisse a forma com que ela se apresentara: por isso, essa aparição ficou conhecida como a de Nossa Senhora das Graças ou da Medalha Milagrosa.

As aparições da Santíssima Virgem Maria a Santa Catarina Labouré, em 1830, marcaram, portanto, o início de um ciclo de grandes revelações marianas. Um ciclo que prosseguiu em La Salette (1846), em Lourdes (1858) e culminou em Fátima, em Portugal (1917).

Invariavelmente, as mensagens de Nossa Senhora deploram os pecados do mundo, mostram e relembram à humanidade o Caminho, seu Filho e Nosso Senhor Jesus Cristo, única possibilidade de perdão e misericórdia à humanidade pecadora, e previnem contra severos castigos em caso de não conversão. Mas também anunciam que, após esses castigos, virá o esplendoroso triunfo do Bem.

A Catarina Laboré, a Imaculada Virgem Maria se manifesta do Céu para trazer-nos um sinal, o seu retrato em uma Medalha bendita, derramando Suas Graças aos filhos que pedirem a sua intercessão; e por causa dos milagres a esta relacionados, o povo cristão deu a esta medalha o título de “milagrosa”.

A Medalha Milagrosa é um rico presente que Maria Imaculada quis oferecer ao mundo no século XIX, como penhor de suas bênçãos maternais, como canal de milagres e como meio de preparação para a definição dogmática de 1854. Foi na comunidade das Filhas da Caridade, fundada por São Vicente de Paulo, que a Santíssima Virgem escolheu a confidente dos Desígnios divinos, recompensando a devoção que o santo Vicente sempre teve à Imaculada Conceição de Nossa Senhora, e que deixou por herança aos seus filhos e filhas espirituais.

Catarina Labouré nasceu em 2 de maio de 1806, na Côte d'Or, França, e aos 24 anos de idade tomou o hábito das Filhas da Caridade. Noviça ainda, muito humilde, inocente e unida com Deus, era ternamente devota à Santíssima Virgem, a quem escolhera por Mãe desde que, pequenina ainda, ficara órfã. Ardia em contínuos desejos de ver Nossa Senhora e instava com seu Anjo da Guarda para que lhe alcançasse este favor especialíssimo.


Primeira Aparição: 18/19.11.1830

A primeira aparição ocorreu durante a noite do dia 18 a 19 de julho de 1830. A Virgem Gloriosa apareceu à irmã Catarina Labouré, às onze e meia da noite. Irmã Catarina acordou-se e ouviu claramente chamar por 3 vezes: "Irmã"...

Olhou para o lado de onde vinha a voz, afastou a cortina e viu um menino vestido de branco; Catarina viu nele o seu Anjo da Guarda. O menino lhe disse: "Vem à Capela, a Santa Virgem te espera".

Ela vestiu-se depressa e seguiu o Anjo, tendo-o sempre à esquerda. As luzes por onde passaram estavam acesas, o que lhe causou admiração; mas muito maior foi o seu espanto quando, ao chegar à Capela, a porta se abriu, mal o menino a tocou com a ponta dos dedos. Na capela, todas as velas estavam acesas. O menino a conduzia ao Santuário, junto à cadeira do padre diretor. Catarina espera e reza. Passado uma meia hora, o Anjo diz de repente: "Eis a Santíssima Virgem".

Ao lado do Altar, onde normalmente se lê a epístola, Maria desceu, dobrou o joelho diante do Santíssimo e foi sentar-se numa cadeira no coro dos sacerdotes. Num abrir e fechar de olhos, a vidente atirou-se aos seus pés, apoiado suas mãos sobre os joelhos maternais da Santa Virgem. Foi esse o momento mais belo de sua vida. Durante duas horas, Maria falou com Catarina duma missão que Deus queria confiar-lhe e também das dificuldades que iria encontrar na realização da mesma.

Conta-nos Catarina: “Ela me disse como eu devia proceder para com meu diretor, como devia proceder nas horas de sofrimento e muitas outras coisas que não posso revelar”. Essas coisas que ela não podia contar, em 1830, revelou-as depois: “Várias desgraças vão cair sobre a França; o trono será derrubado; o mundo inteiro será revolto por desgraças de toda sorte”. Falou também de “grandes abusos” e “grande relaxamento” nas comunidades de sacerdotes e freiras vicentinas, e que deveria alertar disso os superiores.

Voltou, em seguida, a falar de outros terríveis acontecimentos que ocorreriam em futuro mais distante, prevendo com 40 anos de antecedência as agitações da Comuna de Paris e o assassinato do Arcebispo; prometeu sua especial proteção, nessas horas trágicas, aos filhos e às filhas de São Vicente de Paulo. Depois Maria desapareceu, e o Anjo a reconduziu para o dormitório.


Segunda Aparição: 27.11.1830

A Segunda aparição aconteceu no dia 27 de Novembro de 1830, sábado antes do primeiro domingo do Advento. Neste dia, estando a venerável irmã na oração da tarde, às 5h30, nessa Capela da Comunidade, à rue du Bac, a Rainha do Céu se lhe mostrou, primeiro, junto do arco cruzeiro, do lado da Epístola, onde hoje está o Altar "Virgo Potens", e depois por detrás do Sacrário, no Altar-mor.
"Depois de ter lido a primeira parte, a Virgem Santíssima", - diz a irmã, - "aparece e estava de pé sobre um globo, vestida de branco, com o feitio que se diz à Virgem, isto é, subido e com mangas justas; véu branco a cobrir-lhe a cabeça, manto azul prateado que lhe descia até aos pés. Suas mãos erguidas à altura do peito seguravam um globo de ouro, encima do globo havia uma cruz... Tinha os olhos erguidos para o céu, e seu rosto iluminava-se enquanto oferecia o globo a Nosso Senhor Jesus Cristo".

Enquanto se extasiava em contemplá-la, Catarina ouviu uma voz que lhe disse:

Este globo que vês representa o mundo inteiro e especialmente a França, e cada pessoa em particular. Os raios são o símbolo das Graças que derramo sobre as pessoas que mas pedem. Os raios mais espessos correspondem às graças que as pessoas se recordam de pedir. Os raios mais delgados correspondem às graças que as pessoas não se lembram de pedir.

Enquanto Maria estava rodeada por luz brilhante, o globo desaparece das suas mãos. Formou-se então em torno da virgem um quadro de forma oval em que havia, em letras de ouro, estas palavras: "Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós". Então uma voz se fez ouvir, e dizia:

Manda cunhar uma Medalha por este modelo; as pessoas que a trouxerem indulgenciada receberão grandes graças, mormente se a trouxerem ao pescoço; hão de ser abundantes as graças para as pessoas que a trouxerem com confiança.

No mesmo instante, a imagem luminosa transformou-se. As mãos carregadas de anéis, que seguravam o globo, abaixaram-se, abrindo-se e despejando raios sobre o globo em que a Virgem pousava os pés, esmagando a serpente infernal. Depois, o quadro voltou-se, mostrando no reverso um conjunto de emblemas, no centro um grande "M", o monograma de Maria, encimada por uma cruz sobre uma barra: abaixo do monograma havia dois corações: o da esquerda cercado de espinhos, o da direita transpassado por uma espada: os Corações de Jesus e de Maria. Enfim uma constelação de doze estrelas, em forma oval, cercando este conjunto.

Passaram-se dois anos sem que os superiores eclesiásticos decidissem o que se haveria de fazer; até que, depois do inquérito canônico, cunhou-se a Medalha por ordem e com aprovação do Arcebispo de Paris, Monsenhor Quélen.

Paris sofria com a peste que dizimava milhares todos os dias, e aos doentes nos hospitais onde as Irmãs da Caridade serviam foram distribuídas as primeiras medalhas. Ficaram estes milagrosamente curados, daí que grande parte do povo, na época, passou a crer e usar as medalhas (como ocorre até os nossos dias), sendo que as curas são incontáveis. Tudo isso aconteceu exatamente nos tempos de uma França que era o berço do iluminismo, na negação da fé e de um materialismo crescente.

Entre outros prodígios, é célebre a conversão do judeu Afonso Ratisbonne (que já publicamos aqui), acontecida depois da visão que ele teve na Igreja de Santo Andrea delle Frate, em Roma, em que a Santíssima Virgem lhe apareceu como se representa na Medalha Milagrosa.

Diante de tantos sinais maravilhosos, rapidamente começou a se espalhar, com muita rapidez e pelo mundo inteiro, esta santa devoção, acompanhada sempre de prodígios e milagres, reanimando a fé quase extinta em muitos corações, produzindo notável restauração dos bons costumes e da virtude, sarando os corpos e convertendo as almas.

O primeiro a aprovar e abençoar a Medalha foi o Papa Gregório XVI, confiando-se à proteção dela e conservando-a junto de seu crucifixo. Pio IX, seu sucessor, o "Pontífice da Imaculada", gostava de dá-la como prenda particular de sua benevolência pontifícia. Não admira que, com tão alta proteção e à vista de tantos prodígios, a devoção se propagasse rapidamente. Apenas no espaço de quatro anos, - de 1832 a 1836, - foram cunhadas dois milhões delas, em ouro e prata, e dezoito milhões em cobre.

Graças a esta difusão prodigiosa, foi-se radicando mais e melhor no povo cristão a crença na Imaculada Conceição de Maria e sua devoção. Este grande privilégio da Virgem de Nazaré foi proclamada dogma em 1854 pelo Papa Pio IX. Em 1858, Nossa Senhora veio confirmar essa verdade de fé por suas aparições em Lourdes à pequena Bernadette, que trazia a medalha ao pescoço; Maria fez-se conhecer com estas palavras: "Eu sou a Imaculada Conceição".



Em outras aparições subsequentes, a Santíssima Virgem falou a Catarina de Labouré da fundação de uma Associação das Filhas de Maria, que depois o Papa Pio IX aprovou, a 20 de junho de 1847, enriquecendo-a com as indulgências da Prima-primária.

Leão XIII, a 23 de junho de 1894, instituiu a Festa da Medalha Milagrosa; a 2 de março de 1897 encarregou o Cardeal Richard, Arcebispo de Paris, de coroar em seu nome a estátua da Imaculada Virgem Milagrosa que está no Altar-mor da Capela da Aparição (foto acima), o que se fez a 26 de julho do mesmo ano. Pio X não esqueceu a Medalha Milagrosa no ano jubilar: a 6 de junho de 1904 concedeu 100 dias de indulgência de cada vez que se diga a invocação: "Ó Maria, concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós", a todos quantos tenham recebido canonicamente a santa Medalha; a 8 de julho de 1909 instituiu a "Associação da Medalha Milagrosa" com todas as indulgências e privilégios do Escapulário azul. Bento XV e Pio XI encheram a Medalha e a Associação de novas graças e favores.

Hoje, todo o interior da Igreja de Nossa Senhora das Graças em Paris e o pátio externo são cheios de marcas das manifestações dos fiéis pelas graças alcançadas, principalmente placas de mármore com a palavra "Merci" (obrigado) acompanhada da data em que a dádiva foi recebida. Ainda estão lá algumas placas da época em que os primeiros milagres aconteceram, pouco depois da distribuição das primeiras medalhas ao povo, na década de 1830(!).


Mais sobre Santa Catarina Labouré

Na pequena aldeia de Fain-les-Moutiers, na Borgonha, nasceu Catarina a 2 de maio de 1806, a nona dos onze filhos de Pedro e Luísa Labouré, honestos e religiosos agricultores.

Aos nove anos de idade, Catarina perdeu a mãe. Após o funeral, a menina subiu numa cadeira em seu quarto, tirou uma imagem de Nossa Senhora da parede, beijou-a e pediu à Santíssima Virgem que substituísse sua mãe falecida.

Três anos depois, sua irmã mais velha entrou para o convento das Irmãs da Caridade de São Vicente de Paulo. Couberam a Catarina, então com 12 anos, e à sua irmã Tonete, com 10, todas as responsabilidades domésticas. Foi nessa época que ela recebeu a Primeira Comunhão. A partir de então a menina passou a levantar-se todos os dias às quatro horas da manhã para assistir Missa e rezar na igreja da aldeia. Apesar dos inúmeros afazeres, não descuidava sua vida de piedade, encontrando sempre tempo para meditação, orações vocais e mortificações.

O tempo passava, Catarina crescia em graça e santidade. Certo dia ela sonhou que estava na igreja e viu um sacerdote já ancião celebrando a Missa. Quando terminou, o sacerdote fez-lhe um sinal, chamando-a para perto de si. Tímida, Catarina retirou-se do recinto sagrado e foi visitar um doente. O mesmo sacerdote apareceu-lhe, e disse: “Minha filha, é uma boa obra cuidar dos enfermos; você agora foge de mim, mas um dia será feliz de me encontrar. Deus tem desígnios sobre você, não se esqueça”. E Catarina acordou sem entender o significado do sonho.

Mais tarde, visitando o convento das Irmãs da Caridade de Chatillon, onde estava sua irmã, viu na parede um quadro representando o mesmo ancião. Perguntou quem era, e responderam-lhe que se tratava de São Vicente de Paulo, fundador da Congregação. Catarina entendeu então que sua vocação era a de ser uma das filhas do Santo da caridade.
Mas seu pai não queria ouvir falar disso. Para ele, já bastava ter dado uma filha a Deus, e ele tinha muito apego a Catarina. Para distraí-la dessa ideia, mandou-a a Paris, ajudar seu irmão que tinha lá uma pensão. Foi uma provação para a jovem ver-se em meio aos rudes fregueses do estabelecimento, o que a fez redobrar as orações para manter sua pureza de coração e o fervor de espírito.

Então uma cunhada a convidou a ir para sua casa, em Chatillon, onde mantinha uma escola para moças. Ali Catarina podia ir frequentemente ao mosteiro das Irmãs da Caridade, que ficava perto. E foi nessa casa religiosa que ela entrou a 22 de janeiro de 1830, quando seu pai deu-lhe finalmente a devida permissão. Catarina tinha então 24 anos de idade.

E foi neste mesmo ano de 1830 que Nossa Senhora lhe apareceu, mostrando-lhe a Medalha Milagrosa e mandando que a propagasse. De início, encontrou resistência até do seu diretor espiritual, mas afinal as autoridades eclesiásticas convenceram-se da verdade das aparições. Muitos milagres, curas de doentes e conversões Deus quis conceder por meio da Medalha Milagrosa. Catarina desejava ficar oculta. Faleceu aos 31 de dezembro de 1876. Deus, porém, glorificou a fiel serva: foi ela beatificada por Pio XI em 28 de maio de 1933, domingo entre a Ascensão de Nosso Senhor e Pentecostes, e solenemente canonizada por Pio XII em 27 de julho de 1947; por ordem do Arcebispo, seu corpo foi exumado. Nessa ocasião verificou-se que seu corpo estava perfeitamente conservado(!). Depositaram-no então num caixão de cristal, depois colocado sob o Altar das aparições, na famosa Igreja de Nossa Senhora das Graças da rue du Bac, 140, no centro de Paris.



A cada ano, milhões de peregrinos se dirigem até lá para implorar a intercessão de Maria Santíssima e de Santa Catarina Labouré.



Significados da Medalha Milagrosa


A mulher que esmaga a cabeça da serpente, que é o demônio, já estava predita na Bíblia, no livro do Gênesis: "Porei inimizade entre ti e a mulher... Ela te esmagará a cabeça e tu procurarás, em vão, morder-lhe o calcanhar". É em Maria que se cumpre essa sentença de Deus: a mulher finalmente esmaga a cabeça da serpente, quando por meio dela, Porta do Céu, veio ao mundo o Salvador, para que a morte não mais pudesse escravizar os homens.

Os raios: Simbolizam as Graças que por meio de Nossa Senhora Deus derrama sobre seus devotos. A Santa Igreja, por isso, a chama "Tesoureira de Deus".

As 12 estrelas: Simbolizam as 12 tribos de Israel. Maria Santíssima também é saudada como "Estrela do Mar" na oração Ave, Maris Stella.

O Coração cercado de espinhos: É o Sagrado Coração de Jesus. Nosso Senhor prometeu a Santa Margarida Maria Alacoque a graça da vida eterna aos devotos do seu Sagrado Coração, que simboliza o seu infinito e ilimitado Amor.

O coração transpassado por uma espada: É o Imaculado Coração de Maria, inseparável do de Jesus: mesmo nas horas difíceis de Sua Paixão e Morte na Cruz, Ela estava lá, compartilhando de sua dor.

A letra "M": Significa Maria. Esse "M" sustenta o travessão e a Cruz, que representam o Calvário. Essa simbologia indica a íntima ligação de Maria e Jesus na história da salvação.

O travessão e a Cruz: Simbolizam o Calvário. Para a doutrina católica, a Santa Missa é a renovação do Sacrifício do Calvário, portanto, ressaltam a importância do Sacrifício Eucarístico na vida do cristão.

__________
Fontes e bibliografia:

• BÖING, Mafalda Pereira. Nossa Senhora das Graças, a Medalha Milagrosa. São Paulo: Loyola, 2007.

• SULLIVAN, Randall. Detetive de Milagres. São Paulo: Objetiva, 2005.

• 'Aparição de Nossa Senhora das Graças na França em 1830', 'Últimas e Derradeiras Graças', disp. em:
http://www.derradeirasgracas.com/4.%20Apari%C3%A7%C3%B5es%20de%20N%20Senhora/Nossa%20Senhora%20das%20%20Gra%C3%A7as.htm
Acesso 29/3/014
ofielcatolico.com.br

Aparições e revelações na Igreja Católica


EPIFANIAS SÃO acontecimentos inexplicáveis e raros. São aparições através das quais a Graça de Deus se manifesta e nos exorta a permanecer no Caminho, que é Cristo, e guardar a Fé. A partir da próxima edição da revista impressa Fiel Católico, publicaremos uma série de artigos a respeito das aparições da Virgem Maria reconhecidas pela Igreja, ao redor do mundo. Um assunto fascinante, cujo estudo cuidadoso muito pode nos ajudar e fortalecer em nossa caminhada de fé.

Antes de entrar no assunto, porém, achamos conveniente publicar alguns esclarecimentos a respeito de como a Igreja Católica vê as revelações e aparições chamadas particulares.


Revelação Natural e Revelação Sobrenatural

Atesta a Sagrada Escritura que Deus nunca cessou de se interessar, por assim dizer, pelos seres humanos, nem de se manifestar a nós: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus, outrora, aos nossos pais, pelos Profetas; agora, nestes dias, falou-nos por meio do Filho” (Hb 1,1-2)... Deus é Amor (1Jo 4,8) e quer partilhar vida e felicidade com seus filhos e filhas; por isso, se revela de muitas maneiras.

“Revelar” quer dizer “retirar o véu” para dar-se a conhecer. Desde a origem do mundo, Deus dá-se a conhecer por meio das coisas criadas, que, em sua beleza e harmonia, são um testemunho perfeito da Bondade do Criador, como diz São Paulo: “O eterno Poder e Divindade de Deus, desde a criação do mundo, são claramente vistos e percebidos mediante as coisas criadas” (Rm 1, 19-20). Assim, em todo o mundo, mesmo aqueles que nunca ouviram falar em Jesus Cristo podem “reconhecer” Deus, ao menos como Sumo Bem, Princípio e Fim de todas as coisas, através da razão natural (Conc. Vaticano I: DS 3004; DV 6; CIC §36).

Além dessa capacidade que o Criador concedeu naturalmente a todos os homens, de conhecê-lo através de sua Criação, Deus, que "habita em Luz inacessível” (1Tm 6,16), comunica-se aos homens também de maneiras muito especiais e bem mais raras. Para isso, escolheu Abraão, em quem foram abençoadas todas as nações da Terra (Gn 12, 3); depois, tornou Israel o seu povo, revelando-se a este de maneira particular, para que a partir deste povo viesse ao mundo a salvação.

Esta comunicação mais direta de Deus realizou-se plenamente na Encarnação do Verbo, Jesus Cristo: “Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não haverá outra Palavra senão esta” (CIC §65). Por isso, “já não há que se esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Cristo no final dos tempos” (DV 4). Essa Revelação especial está registrada nas Sagradas Escrituras e é garantida pela Assistência do Espírito Santo, que conferiu aos Escritores Sagrados os carismas extraordinários da Revelação e da Inspiração. Dessa maneira é que dizemos que a Bíblia, embora escrita por homens diversos, é “Palavra de Deus”.

Por outro lado, embora a Revelação esteja dada por completo e definitivamente, ela não está totalmente compreendida; cabe a toda a Igreja captar, gradualmente, todo o seu alcance, ao longo dos tempos. É nesse sentido que devemos entender o desenvolvimento dos dogmas na Igreja: não se tratam de novas revelações, mas de um aprofundamento, um desabrochar das verdades já contidas no Depósito da Fé. – Lembrando que o Depósito da Fé é o patrimônio sagrado da fé cristã, contido na Sagrada Escritura e na Sagrada Tradição, confiado aos Apóstolos (Magistério da Igreja) por Jesus Cristo e, por eles, à totalidade da Igreja. A Verdade eterna não muda; nossa compreensão a respeito desta Verdade é que pode e deve aperfeiçoar-se cada vez mais.


Revelações Particulares

No correr dos tempos houve revelações denominadas “particulares”, e algumas delas foram e têm sido reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, porém, ao Depósito da Fé. Sua função não é “melhorar” ou “completar” a Revelação de Cristo, que é definitiva, mas sim ajudar a vivê-la com mais plenitude, em determinadas épocas da História.

Essas revelações constituem, isto sim, um apelo de Cristo ou de seus santos à Igreja (§CIC 67). É o caso, por exemplo, das aparições de Maria Santíssima em Salete, Fátima, Lourdes ou Guadalupe. Importante notar que o termo “revelação particular” não quer dizer que tais revelações não possam ser conhecidas do povo, ou que digam respeito apenas aos videntes ou a um círculo limitado de pessoas: pelo contrário, podem ser fenômenos de repercussão nacional ou mesmo mundial. No entanto, tais revelações são ditas “particulares” porque não fazem parte do Depósito da Fé universal, isto é, católica. Em outras palavras, nenhum católico está obrigado a aceitá-las, mesmo quando já consagradas pela devoção do povo.

Fundamental: “A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou 'corrigir' a Revelação da qual Cristo é a Perfeição. Este é o caso de certas religiões não-cristãs e também de certas seitas recentes que se fundamentam em tais ‘revelações’” (CIC 67), o que se aplica, por exemplo, aos mórmons e espíritas.



Avaliação das Aparições

Nos últimos tempos, têm-se multiplicado os fenômenos de aparições atribuídas a Nossa Senhora, em diversas partes do mundo (inclusive no Brasil). A respeito de tais fenômenos, existem sempre opiniões favoráveis e opiniões contrárias. O que a Igreja, oficialmente, tem a dizer a respeito?

A Igreja é cautelosa, como deve ser; antes de se pronunciar a respeito de alguma aparição, procede a um exame criterioso dos fatos, pois muitas vezes os fiéis, mesmo com toda piedade e boa fé, podem sofrer alucinações, “ver” e “ouvir” projeções mentais. É preciso levar em conta os desvios do psiquismo e a fragilidade humana, sujeita ao engano, aos delírios, etc. Além disso, quem conta um fato facilmente acrescenta ou subtrai algum detalhe que pode ser importante; é assim que um acontecimento estranho ou incomum, porém natural, torna-se “milagre” na boca dos narradores. Leve-se em conta, também, a tendência dos meios de comunicação de massa, de provocar as emoções fáceis do público e o sensacionalismo, sem compromisso com a verdade. Por isso é que se faz necessária toda prudência.


Resumo

Aparições e revelações particulares não devem ser admitidas precipitadamente. Os fenômenos devem ser estudados e criteriosamente avaliados pela Igreja antes de dados como comprovados.

Como católicos, cremos que, enquanto peregrinos neste mundo, Maria será nossa mãe e educadora na fé (LG 63), sempre a cuidar para que o Evangelho nos penetre intimamente e produza em nós frutos de santidade (Puebla, 290).

____________
**
Adaptado da Carta Pastoral "Orientações sobre Revelações Particulares" (São José dos Campos, 25 de março de 1996), de Dom Nelson Westrupp, SCJ.
ofielcatolico.com.br

Receba O Fiel Católico em seu e-mail