Cristão pode comer carne de porco?


RECEBEMOS DE UM LEITOR cujo nome não estamos autorizados a divulgar, uma mensagem contendo a seguinte pergunta:

Se na biblia proibe comer a carne do porco, porque os católicos comem esse alimento? (...) A igreja católica não segue a Bíblia? Isso não é um pecado ?"

Em primeiro lugar, consideramos oportuno indicar a leitura de um artigo já publicado por nós e que trata especificamente da correta relação que deve haver entre o comportamento dos cristãos e a observância das Sagradas Escrituras que pode ser lido aqui.

A partir daí, podemos esclarecer diretamente a dúvida apresentada e dizer que não, não é pecado, comer carne de porco. Todavia, conhecemos a motivação de sua pergunta. 

No mundo judaico, – no qual, como cristãos, temos nossas raízes, – o tema da pureza é muito importante, e o porco era considerado um animal impuro. O fundamento bíblico se encontra no capítulo 11 de Levíticos, versículos 7 a 8: "Tereis como impuro o porco porque, apesar de ter o casco fendido, partido em duas unhas, não rumina. Não comereis da sua carne e nem tocareis o seu cadáver, e vós os tereis como impuros".

A questão que você apresenta foi também muito importante para os primeiros cristãos. De um lado, os judeus-cristãos pretendiam observar os preceitos que haviam aprendido em casa, de suas famílias que praticavam a religião judaica, e onde os preceitos descritos em Levítico eram observados. Do outro lado existia a pressão dos gentios, os convertidos que não eram judeus, vindos do mundo helênico, e que não queriam observar tais prescrições. O auge desse conflito é descrito em Atos dos Apóstolos (15), no Concílio de Jerusalém. Naquela ocasião o nó da discórdia era a circuncisão, que os de origem hebraica queriam impor aos gentios. O Concílio deliberou que aos gentios não fosse imposto nenhum peso “além destas coisas necessárias: que vos abstenhais das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas, e das uniões ilegítimas” (Atos 15,28-29).

O texto não menciona especificamente a carne de porco, mas o tema das regras de alimentação está implícito na discussão. Podemos, sem dúvida, tomar a conclusão dos Apóstolos reunidos em Jerusalém como alicerce do nosso julgamento quanto à ortodoxia na observância da Lei do Antigo Testamento, e assim o faz a Igreja.

Em outra passagem que é fundamental para o contexto em questão, como bem nos recorda o leitor Luis André Marques, no capítulo 10 dos Atos dos Apóstolos, o Senhor mostra a Pedro que nenhum animal é impuro:

No dia seguinte, enquanto estavam em viagem e se aproximavam da cidade, – pelo meio-dia, – Pedro subiu ao terraço da casa para fazer oração. Então, como sentisse fome, quis comer. Mas, enquanto lho preparavam, caiu em êxtase. Viu o céu aberto e descer uma coisa parecida com uma grande toalha que baixava do céu à terra, segura pelas quatro pontas. Nela havia de todos os quadrúpedes, dos répteis da terra e das aves do céu. Uma voz lhe falou: 'Levanta-te, Pedro! Mata e come'. Disse Pedro: 'De modo algum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma profana e impura'. Esta voz lhe falou pela segunda vez: 'O que Deus purificou não chames tu de impuro'. Isto se repetiu três vezes e logo a toalha foi recolhida ao céu."
(At 10,9-16)

A. J. Jacobs
Poucas pessoas se preocupam com as prescrições da Lei de Moisés citadas no Antigo Estamento e que eram observadas pelos judeus: ora, a Lei proibia aparar a barba (Lv 19,27), usar roupas cujo tecido misturasse lã e linho (Lv 19,19), tocar mulheres no período menstrual (Lv 15,19) e misturar leite e carne numa mesma refeição (Lv 11,21), além de proibir o consumo do porco; isso sem mencionar as questões de compreensão realmente muito complexa para o homem comum do nosso tempo, como a obrigação de apedrejar os adúlteros (Lv 20,10) e os filhos desobedientes até a morte, fora das portas da cidade (Dt 21,18-21). Em 2011, o norte-americano A. J. Jacobs submeteu-se à curiosa experiência de tentar observar, "ao pé da letra", todas as prescrições do Antigo Testamento por um ano, e a registrou o seu cotidiano num livro no mínimo curioso, e por outro lado também bastante elucidativo. Saiba mais aqui.

Mesmo se concentrarmos a nossa atenção apenas na problemática das restrições alimentares, descobriremos que, junto com a carne de porco há muitos outros tipos de carnes proibidas: coelho, peixes sem escama e/ou barbatanas, o avestruz e todos os répteis. Se quiséssemos manter a fidelidade à letra da Lei, teríamos que observar a mesma preocupação que reservamos à carne suína para com os outros alimentos, e também, para seremos coerentes, às outras restrições dos tempos de Moisés. Provavelmente a questão da carne de porco, em particular, acaba ganhando maior importância porque também os muçulmanos, além dos judeus, não a podem comer. 

Para comprovar "biblicamente" (ao gosto protestante) que não há pecado em se consumir uma bom sanduíche de linguiça calabresa, além do texto dos Atos dos Apóstolos, poderíamos tomar o texto do Evangelho segundo S. Marcos:

E ele (Jesus) disse-lhes: 'Então, nem vós tendes inteligência? Não entendeis que tudo o que vem de fora, entrando no homem, não pode torná-lo impuro, porque nada disso entra no coração, mas no ventre, e daí sai para a fossa?'"
(Mc 7,18-19)

Impossível não apreender daí que o Senhor declara puros todos os alimentos. Evidentemente, essa perícope não alude exclusivamente às regras alimentares, mas nos dá uma inestimável base para refletirmos sobre a dimensão mais ampla, – espiritual, – de pureza e impureza, que tem a ver bem mais com santidade de vida do que com um conjunto de normas práticas sobre o que se pode ou não levar ao prato.

As leis alimentares e outras regras de comportamento veterotestamentárias têm sua origem na necessidade que a religião tinha de transmitir valores e linhas de conduta que ajudassem o bem estar geral e até a preservação das vidas dos seus seguidores. É óbvio que estes valores, com o tempo, adquiriram valores que ultrapassam esses elementos práticos/objetivos. A carne de porco, como bem sabemos hoje, é um alimento de delicado preparo e dificílimo de conservar num ambiente hostil como o deserto, – ainda mais dentro das condições sanitárias de séculos passados, como bem podemos imaginar. – Abolindo-se o seu uso, quantos e quão graves danos à saúde (consequentemente à própria sobrevivência) não foram evitados? Ainda hoje, mesmo que os animais criados para abate tenham passado a receber alimentação adequada e local limpo para crescerem e se reproduzirem, temos que ter cuidados muito especiais no preparo da carne de porco. Não há, entretanto, uma ligação direta entre esses cuidados a uma obrigação religiosa.

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Fonte/ref.:
ROSA, Luiz da. 'Comer carne de porco é pecado?', do portal 'A Bíblia.Org', disp. em:

abiblia.org/ver.php?id=2822
Acesso 4/11/015
www.ofielcatolico.com.br

6 comentários:

  1. Em Atos 10, 9 - 16, o Senhor mostra a Pedro que nenhum animal é impuro, assim como a partir daquele momento mostra que nenhum homem é impuro por não ser judeu.

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  2. ''Para os puros todas as coisas são puras. Para os corruptos e descrentes nada é puro: até a sua mente e consciência são corrompidas.'' (Tito 1,15)

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  3. Obrigado por esse conteúdo aqui , vai me ajudar muito .

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  4. Alguns ensinamentos que são muito disseminados hoje é em relação à vida do animal.

    Alguns dizem que é errado matar o animal para consumo. Outros, que o animal sofre muito e que também é da criação de Deus e então não deveríamos comê-lo.

    Já vi também falarem de "espiritualidade"; se você come a carne de um animal, você está absorvendo a energia dele.

    Perante essas "afirmações", qual seria a resposta ideal e fundamentos para que aqueles que não tem conhecimento, não caiam nessas teorias?

    Abraços

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    Respostas
    1. O que diz a Santa Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, a respeito da relação entre homens e animais:

      “Deus confiou os animais à administração daquele que criou à sua imagem. E, portanto, legitimo servir-se dos animais para a alimentação e a confecção das vestes. Podem ser domesticados, para ajudar o homem em seus trabalhos e lazeres. Os experimentos médicos e científicos em animais são práticas moralmente admissíveis, se permanecerem dentro dos limites razoáveis e contribuírem para curar ou salvar vidas humanas”. (§2417 do CIC)

      “O domínio concedido pelo Criador sobre os recursos minerais, vegetais e animais do universo não pode ser separado do respeito às obrigações morais, inclusive para com as gerações futuras”. (§2456 do CIC)

      “Os animais são criaturas de Deus, que os envolve com sua solicitude providencial. Por sua simples existência, eles o bendizem e lhe dão glória. Também os homens lhes devem carinho. Lembremos com que delicadeza os santos, como S. Francisco de Assis ou S. Filipe de Neri, tratavam os animais”. (§2416 do CIC)

      “Os animais são confiados à administração do homem, que lhes deve benevolência. Podem servir para a justa satisfação das necessidades do homem”. (§2457 do CIC)

      Caríssima Natália, para melhor compreender a fé Católica, adquira um exemplar do Catecismo da Igreja Católica (CIC), disponível em todas as livrarias católicas.

      Seja Louvado Nosso Senhor Jesus Cristo!

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  5. Soh acho que impuro é aquilo quesai da boca do ser humano, e nao o que entre. O que adianta nao comer carne de animais quaisquer q seja, se bira as costas e vive falando mal da vida alheia.

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