O Aborto e o Limbo, ou Diante do Supremo Tribunal Celestial – parte I


Por Frei Zaqueu (freizaqueu@gmail.com)

À GUISA DE INTRODUÇÃO, não sou teólogo. Nem doutor da Igreja, profeta, santo ou vidente. Mas sobre o assunto tenho a data venia de colocar-me[1], também por se tratar de um tema ainda em aberto[2]. Isto posto, vamos ao que interessa.

Dia 8 de dezembro festejamos a Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Desconfio, porém que o seio de Maria está suando, e suando sangue. Por milhões de seios sangrentos porque maculados, expelindo pelos poros filhos esquartejados e envenenados; pelo templo que deveria ser o mais sagrado, pelo quartel que deveria ser o mais guarnecido, pela guardiã que deveria ser a mais vigilante.

Sete dias. E tivemos a satânica, imoral e ilegal legalização do matricídio/parricídio para proles de até três meses de idade, intrauterina. Pelo Supremo Tribunal Federal. Pelo que conclamo a que unamos a Festa ao Luto pelos milhões mais que morrerão agora “legalizados” e com nosso cofinanciamento, mesmo a contragosto. O que significa, sem a mais pequena possibilidade de erro, que esperemos o pior. Todo o Brasil! Do Caburaí ao Chuí. Pelo pecado de muitos maus e a omissão de muitos bons, o que dá no mesmo. E dê-se voz a quem de direito:
Aí onde se aprova o aborto por lei, ou alguma lei anticristã, há mais demônios presentes, e aos milhares, que em qualquer outro ato do maligno. Evidentemente, uma lei que legaliza e normaliza o mal permite muitos milhares de males para a sociedade (grifo nosso).[3]

Muito justo. EUA, México e outros tantos que o digam, afinal “a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades, os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo espaço” (Ef VI, 12).

Assim que é hora de fazer ressoar estrondosamente as trombetas dos "ais" apocalípticos sobre as muralhas supremas. Ai!, ai!, ai de vós, pobres juízes do Supremo, ao comparecerdes diante do Supremo Juiz para a derradeira sessão de vossas vidas. Ali, a cessão da justiça negada aos indefesos e inocentes; ali, a seção destinada “a quem muito foi dado” (Lc XII, 47s), onde se chorará e rangerá dentes por muito e muito – e muito – tempo; ali, por esse e por um sem número de injustos despachos, também vós sereis despachados, sem toga, anel, terno ou gravata. Agora, pelo Supremo Tribunal Celestial. Agora, pela pérfida simbologia, pela Trindade Santa. Agora, na justa medida, e sem apelação. Que a suprema Bondade, que é suprema Justiça e suprema Verdade, não o permita!

Aos “beneficiados” com a medida, também uma consideração. E rogamos que a considerem. Como dito em outro lugar[4],  as mulheres de hoje ganham em perversa crueldade em relação à prostituta dos tempos de Salomão. Esta “...não se importava que dividisse, em dois pedaços, a criança que não era sua, por mágoa e inveja” (Cf. 1Rs III, 16-28). As hodiernas “... não se importam em deixar retalhar, em vários pedaços, às suas próprias, por vaidade e covardia. E o que é pior: aquelas (mulheres) ainda não conheciam o amor em pessoa, na figura do Menino-Deus. Estas, sim.”. E a cumplicidade, conivência e covardia dos “companheiros” não ficará atrás de quem os abaliza para o mal uso da liberdade, que os escravizará pela eternidade sem fim. Também estes haverão – se a misericórdia não se antepuser à justiça, do que não temos garantia em termos absolutos – de chorar e ranger os dentes até serem destroçados por completo pelo medonho bruxismo, o que jamais ocorrerá.



De outra parte, muitos são os justos e acertados enfoques dados, hoje em dia, pelos grupos e pessoas pró-vida especialmente nos campos médico, jurídico e moral. Quero somar-me a estes, mas por outra via, quase nada vista, apesar de válida, porque não condenada pela Igreja, ainda que nossos bem intencionados, mas mal (in)formados clérigos digam – como já ouvi – que “isso deixou de ser dogma”. Como se algum dia tivesse sido; ou sendo, pudesse deixar de sê-lo. Falamos do Limbo das Crianças! Aqui, de meu livro, o extrato de um capítulo dedicado ao Batismo e o Limbo das Crianças, temas umbilicalmente ligados ao aborto, creiam-me[5]:

Para um tema de crucial importância na vida de todos nós existe uma teoria ainda não definida como dogma pela Igreja, o que não impede de encontrar em Santo Tomás de Aquino, considerado o doutor por excelência, um argumento sólido e consistente seguido por muitos doutores, santos e teólogos: o Limbo das Crianças.

Aqui esboçaremos muito superficialmente o pensamento do santo doutor, sendo aconselhável seu aprofundamento através da Suma Teológica que elaborou(1) ou através de pesquisa sobre o tema do Limbo em Santo Tomás. Para expô-lo, comecemos com a continuação das palavras de Cristo acima mencionadas: “... o que, porém, não crer, será condenado” (Mc XVI, 16b). Na primeira parte do versículo, como visto, Nosso Senhor deixa claro quais os critérios de entrada em seu Reino. Compreendendo o que seja a mancha do pecado original teremos uma ideia da perfeição e justeza desta sentença: nada de impuro pode entrar no céu, na presença de Deus, que é pureza absoluta. Em contrapartida, ao declarar que somente a falta de fé pressupõe a condenação e não a falta do batismo, abre-se outra perspectiva, que podemos resumir da seguinte forma: Se para o inferno basta a falta de fé (que em última instância será a negação de Deus, se não da criança, de seus pais, que sobre ela possuem autoridade), mas para o céu há a necessidade da fé e do batismo, é lógico inferir que deva existir outro lugar para os que, apesar de não ter o batismo não tiveram tempo ou condições de pecar, negar a Deus. Que não tiveram as duas condições necessárias para obter o paraíso, mas também não passaram pela condição necessária à condenação eterna. Lugar semelhante existiu para receber os que morriam na graça de Deus, mas que ainda não podiam entrar no céu antes que Cristo nascesse, morresse, ressuscitasse e lhes abrisse as portas, pois ainda não tinham sido batizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”: era o Limbo dos Justos, o “Seio de Abraão” narrado nas Escrituras(2).

Sabemos todos que o fato de algo não ser mencionado na Bíblia de forma explícita não significa que não possa existir ou ser verdadeiro(3). No caso do Limbo das Crianças, apesar de não ser explicitamente declarado também não foi explícita ou implicitamente negado (da mesma forma que o batismo para os pequenos). Não será por isso difícil entender sua lógica, pois a doutrina defendida por S. Tomás e vários teólogos, além de razoável, se bem analisada não possui contradição alguma com a Revelação. Para entendê-la precisamos antes saber como seria este lugar.

O Doutor Angélico(4) o explica como possuindo basicamente duas características: as crianças que para lá se dirigem, primeiro em espírito e após o juízo final também em corpo, jamais verão a Deus “face a face”, porém jamais terão sofrimento ou dor. O que a princípio parece contraditório e intricado, de fato não o é. É que estas alminhas, que por negligência dos pais ou outro motivo não receberam a “vacina”, ainda que não tenham culpa (pecados atuais) não ficarão imunes à doença do pecado original, que já nasce com elas, permanecendo suas almas manchadas (impuras, maculadas) ao morrer. Como no céu nada de impuro pode entrar, por uma questão de justiça não entrarão, mas também por justiça não irão ao Inferno pois não cometeram pecados voluntários, não negaram a Deus ou blasfemaram seu santo nome. Daí ser destinado a estes pequeninos um lugar sem sofrimento ou dor, apesar de não ser o paraíso. Qual o sentido de justiça de tais disposições? Justamente em não conhecer o Céu.

Sigamos com a explicação tomista.

Só se deseja o que se conhece. Se desconhecemos a existência de algo não sofremos sua falta... Com o Limbo ocorre algo semelhante. Segundo S. Tomás, por misericórdia e justiça Deus não permite que estes pequenos tomem conhecimento da existência do céu, para que não o desejem e assim sofram eternamente sua não participação. Acontece que devido a este lugar ser isento de sofrimentos ou dores, o que podemos deduzir se tratar de um local agradável e feliz, para elas ali será o paraíso, o melhor lugar do mundo, não havendo assim injustiça por parte de Deus. O fato de não ser citado nos relatos referentes ao juízo final se justificaria em que as almas do Limbo também não participariam dele, dado que seremos julgados pelos nossos atos, o que pressupõe inteligência e vontade suficientes para pecar. Sua ressurreição, por isso, se daria à parte (para a ressurreição não há exceção, pois todos haveremos de ressuscitar(5), sem um juízo, pois nenhum pecado atual haverá nelas para ser julgado.

Por fim, entender atualmente a doutrina do Limbo das Crianças por este prisma também nos dá condições de melhor entender a “cultura da morte” impregnada nas sociedades cada vez mais paganizadas, que vem promovendo um número crescente de abortos pelo mundo, passando por cima das leis natural e divina ao legalizar o assassinato infantil, privando milhões de crianças não só da vida, mas do batismo, porta de entrada para a eterna visão de Deus(6). O problema maior não é a morte, mas as condições em que se morre. Ao demônio não interessa tanto matar, mas fechar as portas do paraíso. Por isso vem inspirando cada vez mais celeremente os homens a criar leis desordenadas e falsas doutrinas que acarretarão, pela falta do batismo, o impedimento de se chegar a Cristo um número significativo de 'meninos'.
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Há teólogos que discordam deste posicionamento de S. Tomás, como p.ex., S. Carlos Borromeu, bispo e doutor. Outros que concordam em parte. Ao analisar os argumentos contrários veremos que os de Santo Tomás ainda prevalecem em lógica e clareza, por isso os adotamos neste livro.

1. Cf. Lc XVI, 26

2. Cf. Jo XXI, 25 e XIV, 26

3. Assim chamado por ter tratado do tema da natureza angélica de forma sublime e destacada. É ainda chamado de Aquinate (derivação de Aquino, lugar de onde veio).

4. Cf. Lc XX, 37s; 1Cor XV, 51

5. Cf. Rm VI, 4

6. Cf. Mt X, 28
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Em favor da doutrina tomista há ainda outra defesa de peso. Sabemos que existem revelações públicas e privadas por parte de Deus. As primeiras, de fé obrigatória, residem nas Sagradas Escrituras e são corroboradas pela Tradição e o Magistério. As segundas, de fé opcional, as recebem os santos e santas de Deus ou os de boa vontade. Aqui se trata das segundas. A extraio da mesma fonte acima e com ela encerro, não sem antes recordar aos pais e mães especialmente católicos, cujos filhos mortos não receberam o batismo ao menos em uma de suas três possibilidades[6]: vocês serão os primeiros da lista de cobranças. Seguidos pelos pastores que não lhes formaram devidamente a consciência. Ou vice-versa. Listo, Señor[7].

Com relação ao Limbo, mui interessante é o relato de outra revelação de Jesus a Santa Brígida, que corrobora a doutrina do Aquinate. Tais revelações chamadas “particulares” ou “privadas”, apesar de não ter a autoridade do dogma e não obrigar ao fiel à sua aceitação, em alguns casos recebem o aval da autoridade Eclesiástica que atesta não haver erro teológico ou relativo à fé e à moral, o que aqui é o caso; por isso nos permitimos transcrever parte de uma destas revelações, em que Cristo fala sobre o tema. Ela se encontra no livro 2, capítulo 1 de As profecias (e Revelações) de Santa Brígida (da Suécia): “Devido ao meu grande amor, eu dou o reino dos céus a todos os batizados que morrem antes de atingirem a idade do discernimento. Como está escrito: É do agrado do meu Pai conceder o Reino dos Céus a tais como estes. Devido ao meu terno amor, Eu mostro misericórdia até mesmo às crianças dos pagãos (as não batizadas de nenhuma forma – grifo nosso). Se qualquer um deles morre antes de atingir a idade do discernimento, eles não podem me conhecer face a face, e vão para um lugar que não é permitido que se saiba, mas onde eles viverão sem sofrimento”[8].

Com isso nos sobra um rogo: Regina sine labe originali concepta, ora pro nobis!


Na Festa da Imaculada Conceição de Maria
do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2016
Frei Zaqueu

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Em tempo: 

1) O enfoque proposto, como entrevisto, não se antecipa ao juízo da Igreja, estando a ela submetido. Por isso, nada afirma-se. Sobre os ombros das Escrituras, da Tradição e do Magistério se propõe o tema como uma via possível e mesmo plausível, porque já anteriormente defendida por competências abalizadas.

2) valerá a pena a leitura desta feliz matéria cuja reconhecida história a resgata, neste nefasto momento de nossa história, O Fiel Católico: http://www.ofielcatolico.com.br/2006/12/medico-campeao-em-abortos-convertido.html

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Notas:

1. Ver Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici, disp. em:
http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_exhortations/documents/hf_jp-ii_exh_30121988_christifideles-laici.html

2. Catecismo da Igreja Católica (C.I.C) 1261.

3. Vide:
http://sensusfidei.com.br/2016/11/30/um-discipulo-do-pe-amorth-fala-amplamente-sobre-exorcismos/#.WEFjNvkrLIV

4. FREI ZAQUEU. Evangélico, graças a Deus!(?) – V.1. Uberaba, 2016. Pg. 28 (nota 25).

5. Ibidem. Pgs 66-73.

6. Cf. C.I.C 1257-1260.

7. Do espanhol: com o sentido de 'está avisado'.

8. Cabe lembrar que esta revelação a Santa Brígida recebeu ainda o aval de um Beato Papa, Pio IX.
www.ofielcatolico.com.br

2 comentários:

  1. Lindo texto que nos mostra o horror do aborto, as leis criadas para o infanticídio de inocentes e a crescente paganizacao da nossa sociedade.

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  2. Oportuna reflexão, Frei. Todos nós, católicos nos sintamos no dever de denunciar essa monstruosidade, agora vista pela nossa Suprema Corte como necessária. Ah! Como falta Deus nos corações dessas pessoas. São desprovidos do Amor de Cristo, e egoístas ao extremo. Por não terem sido abortados, se acham no direito de se colocarem no lugar de Deus, decidindo quem deve ou não viver.
    Esio Firmino.

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