Nas mãos de Deus ou dos homens?

Bento XVI e o respeito à vida


O pequeno Charlie Gard, condenado à morte pelo poder estatal, e seus pais

Por Dr. Rudy Albino Assunção – Fraternidade São Próspero

O CASO DO MENINO britânico de quase 1 ano de vida, Charlie Gard, tem mobilizado o mundo. Não há quem não se comova com a sua imagem no hospital, deitado placidamente com os olhos fechados, como se dormisse serenamente em sua própria casa. Ele é portador de uma doença rara que lhe tirou os movimentos e a capacidade de respirar por conta própria. Tal doença foi pouco estudada, o que levou seus pais a quererem buscar tratamento nos EUA, decisão esta que encontrou oposição dos médicos que “cuidam” do menino e até mesmo do poder judicário inglês, que decidiu, contra a vontade paterna, que fossem desligados os aparelhos que sustentam a vida do pequeno Charlie.

O Papa Francisco, o presidente norte-americano Donald Trump e até mesmo o ex-primeiro ministro italiano Matteo Renzi se declararam a favor dos esforços dos pais do menino para salvar a vida dele. Vê-se que mesmo indivíduos com visões políticas claramente distintas podem concordar quando o assunto é a salvaguarda da vida. Acima de todas as discussões sobre os pormenores do caso – o liame entre eutanásia e distanásia – mais uma vez nos deparamos com a intromissão, com o intervencionismo estatal sobre a liberdade individual, a vontade paterna e, mais do que tudo, com uma flagrante visão da vida portadora de deficiência como algo de menor valor.

Li de relance numa rede social que estamos no tempo em que se requer o direito de matar a vida inocente, mas que não se dá o direito de defendê-la. Mas onde está a raiz de tudo isso? Porque assistimos a um movimento nas altas esferas políticas e jurídicas contrárias ao principío fundamental da vida? Como todo fenômeno complexo a resposta deveria aludir a muitas causas. Aqui me limito a uma delas, pois foi insistentemente acentuada por Bento XVI: a exclusão de Deus.


Sem Deus a vida corre perigo

Entre nós, católicos, é convicção básica que a vida é um dom de Deus. Ou seja, ela nos foi doada, nós a recebemos de um Outro, que é a sua Fonte e Sentido: “’Pois n’Ele nós vivemos, nos movemos e existimos’…” (At 17,28), conforme diz claramente a Sagrada Escritura. Mas em nossa sociedade, na qual a existência de Deus é cada vez mais colocada em xeque, é até lógico que a defesa da inviolabilidade ou mesmo da sacralidade da existência humana será como uma batalha ingente e contracorrente. Ainda que alguém que não creia em Deus possa defendar a vida como valor absoluto – a luta pró-vida não é confessional, menos ainda restrita ao catolicismo – dado o conhecimento que a razão pode obter da lei natural, é nítido que um processo jurídico e político de sistemática expulsão de Deus do debate público, fruto de um positivismo radical, até o ponto de uma assepsia nos códigos legais de toda referência a princípios transcendentes, elimina o garantidor máximo do respeito à vida em todas as suas etapas: Deus.


Sem Ele, sem uma Inteligência Criadora que nos pensou, que nos amou e, assim, deu-nos existência, restamos apenas como produtos acidentais do “acaso e da necessidade”. Somos meramente factíveis e manipuláveis. Por isso, é admirável uma frase de Bento XVI citada habitualmente e extraída da homilia de início do seu pontificado: nela o Papa afirmava que 

nós existimos para mostrar Deus aos homens. E, só onde se vê Deus, começa verdadeiramente a vida. Só quando encontramos em Cristo o Deus vivo, conhecemos o que é a vida. Não somos o produto casual e sem sentido da evolução. Cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário.[1]

Aí está o nosso valor fundamental.


A vida está nas mãos de Deus

Bento XVI – o autor que fundamenta as nossas reflexões nesta coluna – lembrava a Igreja, algum tempo depois, aproveitando a ocasião da Jornada pela Vida, celebrada na Itália todos os anos, e fazendo eco aos bispos italianos ao reafirmar

o dever prioritário de se ‘respeitar a vida’, porque se trata de um bem ‘indispensável’; o homem não é dono da vida, mas simples mente quem a preserva e administra. E sob a primazia de Deus nasce automaticamente esta prioridade de administrar, de preservar a vida do homem criada por Deus. Esta verdade – o homem é o guarda e o administrador da vida – constitui um ponto qualificante da lei natural, plenamente iluminado pela revelação bíblica. Ele apresenta-se hoje como ‘sinal de contradição’ em relação à mentalidade dominante.”[2]

De fato, quando excluímos o Senhor da Vida, o homem quer se tornar ele mesmo senhor da vida, querendo dispor dela – para usá-la ou descartá-la – segundo critérios ideológicos, pragmáticos, econômicos.

De fato, verificamos que, apesar de haver em sentido geral uma ampla convergência sobre o valor da vida, contudo quando se chega a este ponto, duas mentalidades opõem-se de maneira inconciliável. Para nos expressarmos em termos simplificantes, poderíamos dizer: uma das duas mentalidades considera que a vida humana esteja nas mãos do homem, a outra reconhece que ela está nas mãos de Deus. A cultura moderna enfatizou legitimamente a autonomia do homem e das realidades terrenas, desenvolvendo assim uma perspectiva querida ao Cristianismo, a da Encarnação de Deus. Mas como afirmou claramente o Concílio Vaticano II, se esta autonomia leva a pensar que ‘as coisas criadas não dependem de Deus, e que o homem as pode usar sem as relacionar com o Criador’, então dá-se origem a um desequilíbrio profundo, porque ‘a criatura sem o seu Criador perde o sentido’ (Gaudium et spes, 36). É significativo que o documento conciliar, no trecho citado, afirme que esta capacidade de reconhecer a voz e a manifestação de Deus na beleza da criação seja característica de todos os crentes, seja qual for a religião a que pertencem.

Disto podemos concluir que o respeito pleno da vida está ligado ao sentido religioso, à atitude interior com a qual o homem se coloca em relação à realidade, se se considera dono ou preservador. De resto, a palavra ‘respeito’, deriva do verbo latino respicere-guardar, e indica o modo de ver as coisas e as pessoas que conduz a reconhecer nelas a consistência, a não se apropriar delas, e a respeitá-las, ocupando-se delas. Em última análise, se as criaturas forem privadas da sua referência a Deus, como fundamento transcendente, elas correm o risco de estar à mercê do livre arbítrio do homem que pode dispor delas como vemos, fazendo delas um uso desatinado.[3]

O Papa alemão nos ensina a olhar o mundo com os olhos de Deus. A olhar a vida com a veneração, com o amor e o cuidado daqueles que se sabem agraciados com um valor e uma grandeza que nos escapam, pois vem de um Outro.

Ainda dentro de nossa temática, quero remeter à viagem que Bento XVI fez ao Brasil em 2007. Na época, durante o voo para o nosso país, ele foi questionado sobre a proposta de referendo para a legalização do aborto aqui e à despenalização do mesmo na Cidade do México. Para lá das questões acerca da excomunhão dos parlamentares envolvidos na legalização, ele recordava o empenho do seu santo predecessor, João Paulo II, neste campo, enunciando alguns princípios importantes para o debate:

Naturalmente, prosseguimos com esta mensagem de que a vida é um dom de Deus e não uma ameaça. Parece-me que, na base destas legislações haja, por um lado, um certo egoísmo, e por outro uma dúvida sobre o futuro. E a Igreja responde sobretudo a estas dúvidas: a vida é bela, não é algo duvidoso, mas é um dom e também em condições difíceis a vida permanece sempre um dom. Portanto, (é preciso) voltar a criar esta consciência da beleza do dom da vida.[4]

Nós tendemos a olhar o feio, o sujo, o grotesco, o doloroso. A Igreja mostra, como Bento XVI frisa muito bem, que mesmo na vida sofredora e limitada há beleza. O menino que sofre – ou não – num leito de hospital é imagem de Cristo, que se fez menino e sofreu perseguição desde o primeiro momento. A vida de Charlie Gard já foi salva e redimida pelo sangue daquele Menino que nasceu perseguido pelo poder do Estado e, tendo logrado crescer, morreu pelas mãos da mesma força totalitária.

Mas Jesus venceu no fim. Rogamos aos Céus que a mesma sorte recaia sobre o menino de nosso tempo que virou símbolo da luta pela vida. Pois a batalha da Igreja é que a vida seja preservada contra todo cálculo de poder, seja ele político ou econômico. Pois este admirável dom que Deus nos deu simplesmente não tem preço.

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Notas:
1. Bento XVI, Homilia na Santa Missa, Imposição do Pálio e entrega do Anel do Pescador para o Início do Ministério Petrino do Bispo de Roma, 24 de abril de 2005.

2. Id., Homilia durante a visita à Paróquia de Sant’Ana, Vaticano, 5 de fevereiro de 2006.

3. Ibid.

4. Id., Entrevista concedida aos jornalistas durante o voo para o Brasil, Viagem Apostólica ao Brasil por ocasião da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, 9 de maio de 2007.
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