As falsas virtudes


ANTES DE FALAR do que é a virtude, devemos descobrir e compreender, ao menos razoavelmente bem, aquilo que ela de fato não é.

A definição mais simples – embora também perigosa – de virtude é a que a qualifica como um “hábito bom”, ou seja, uma qualidade que uma pessoa tem e que se manifesta em certas atitudes e reações habituais, em determinadas condutas contínuas. Há, por exemplo, pessoas que possuem uma amabilidade habitual, outras que geralmente estão de bom humor, outras que sempre cumprem os horários, outras que não se descuidam da ordem material, outras que nunca desagradam seus próximos.

Todas essas coisas, você acha que são virtudes? Podem ser, mas nem sempre. Podem ser também pseudovirtudes que enganam, assim como miragens no deserto, que aparecem à imaginação dos que morrem de sede como se fossem lagos azuis.

Há vários critérios, muitos deles dados por Cristo, para desmascarar as falsas virtudes. Veremos a seguir alguns deles. Mas acho bom preveni-lo: com isso, não queremos convidar ninguém a pensar nos defeitos dos outros, ma bem pelo contrário, a identificar os seus próprios.

Para melhor desmascarar as "miragens", as falsas virtudes sugerimos uma classificação. Segue:


1) As “virtudes” vaidosas

Nosso senhor fala explicitamente delas. Já no início de sua pregação, no Sermão da Montanha, alerta: "Guardai-vos de fazer as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no Céu (cf. Mt 6,1). Quer dizer que, aos olhos de Deus, não têm valor as virtudes contaminadas pela vaidade.

Para serdes vistos! Esse "para" diz tudo: fala das virtudes praticadas com uma finalidade vaidosa.

a) Virtudes-vitrine

Vividas com fins de exibição, procurando glorificar a nossa imagem diante dos outros, indo atrás do aplauso, da publicidade, do louvor ou da "badalação", para obter vantagens. Jesus corta pela raiz essa hipocrisia.

Lembre que, no Sermão da Montanha, Ele nos manda praticar a esmola "sem tocar trombeta", sem que a mão esquerda saiba o que faz a direita, e assim o teu Pai, que vê o escondido, te recompensará.

Igualmente, o Cristo não quer que oremos – que façamos as nossas práticas religiosas – para sermos vistos pelos homens, visando criar uma boa imagem espiritual, que os outros admirem, e talvez nos aproveitar, de algum modo, dessa boa reputação.

Por fim, recomenda fazer sacrifícios sem “ar de vítima”, sem nos dar grande importância nem cobrar o agradecimento dos demais: “Quando jejuardes, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto; assim, não parecerá aos homens que jejuas (cf. Mt 6,2 ss). Virtude vaidosa não é virtude.

Em certas circunstâncias, talvez seja inevitável que nossas boas obras sejam vistas e até louvadas pelos homens, mas, sempre que possível, é melhor que pratiquemos o bem em oculto e, em toda situação, a finalidade deve ser o bem do outro, jamais a promoção pessoal, seja por vaidade ou qualquer outro tipo de ganho egoísta.

b) Virtudes-espelho

A vaidade funciona também como um espelho, no qual nos contemplamos, no íntimo de nós, com admiração e orgulho. Como fazia aquele de quem falava São Josemaria Escrivá, que dedicou um livro a si mesmo, escrevendo: «A mim mesmo, com a admiração que me devo» (Sulco, n. 719). Ao nos envaidecermos com as nossas qualidades, estragamos o bem que possa haver nelas.

Por causa disso, Jesus reprovou o fariseu que subiu ao Templo ufanando-se intimamente com as suas próprias virtudes: “Graças te dou, ó Deus, porque não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como este publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos os meus lucros” (cf. Lc 18, 9-14). O publicano, tão desprezado, só agradecia a bondade de Deus e pedia perdão. Este voltou para casa justificado, e não o outro (Lc 18, 9-14).

E nós? Que dizer de nós mesmos quando repetimos “eu não tenho pecado”, ou “não faço mal para ninguém” e/ou “eu não preciso me confessar”? Não há uma semelhança com o fariseu?


2) Os hábitos rotineiros

Existem pessoas muito cumpridoras – tanto do dever profissional, quanto do atendimento das necessidades familiares e dos deveres religiosos. Não são irresponsáveis e realmente não têm falhas graves. Mas fazem as coisas com uma rotina morna, como que forçados, sem alma. Nunca se renovam. Não se nota que estejam lutando por melhorar; estão sempre na mesma, ou melhor, estão “mofando” na mesma situação. Seu “cumprir” é um “cumpri-mentir”, para dizê-lo remendando um pensamento de Álvaro del Portillo.

Jesus se refere a eles quando cita estas palavras do profeta Isaías: Este povo somente me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim (Mt 15,7; Is 29,13). E também quando censura os “mornos”: Não és nem frio nem quente... Tenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor (Ap 3,15; 2,4).

Não há virtude “viva” na pessoa rotineira, que não tem amor criativo nem renovação de atitudes, e isto é, sim, importante para o cristão.


3) As inclinações emocionais/temperamentais

Há outros que parecem ter virtudes excelentes, mas que de fato não são virtudes e sim apenas bons sentimentos ou inclinações emocionais supérfluas. Têm alguns bons hábitos que lhes são naturais e não requerem esforço, mas correspondem à sua personalidade inata, e esses hábitos lhes são agradáveis e até os divertem. Quantos virtuosos "de fachada" têm essas características!

Mas, nestes casos, por trás da fachada veem-se dois sinais típicos da falsa virtude:

• O primeiro sinal é que não fazem nada por adquirir “outras” virtudes, as verdadeiras, aquelas que não são sentimentais ou tão fáceis, e que são muito mais importantes. Pense no homem amável e sociável, pronto para ir visitar um amigo e viver com ele bons momentos, mas que é preguiçoso, que trabalha mal e não cumpre os compromissos mais incômodos ou exigentes, nem sequer com os familiares.

• O segundo sinal consiste em que eles têm dupla face. Fora de casa, são simpáticos e camaradas com todos (por vaidade ou simplesmente por prazer), e assim são geralmente queridos também por todos, mas em casa – onde mais do que um bom temperamento é preciso a abnegação – são insuportáveis. 

Fazem lembrar aquela história do velório de um marido beberrão e violento, que fazia da esposa um saco de pancadas. Os amigos de boteco rodeavam o caixão, compungidos, e comentavam de longe: “Que homem! Grande amigo!”. Já a esposa, ao ouvir isso, arregalou os olhos e pediu ao filho mais novo: "Vá até o caixão e veja se o defunto é mesmo o do seu pai...”.

Talvez a esses, Jesus diria: "Sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios [...] de hipocrisia e de iniquidade" (cf. Mt 23, 27-28).


4) As virtudes-fogueira

Finalmente, neste quadro de miragens, poderíamos colocar aquelas virtudes que são como fogueira de São João. Arde e ilumina durante uma noite. No dia seguinte, só restam cinzas. São febres efêmeras.

Lembro-me do que contavam, muitos anos atrás, algumas pessoas que, infelizmente, foram mobilizadas para participar de uma guerra. Durante os combates, havia jovens soldados que mostravam exemplos espetaculares de bravura, de renúncia, de coragem. Mas, ao chegar o tempo de paz, eram incapazes de vencer pequenas batalhas como, por exemplo, resistir às tentações da carne ou defender as suas convicções de fé em sociedade!

Também no Evangelho temos exemplos claros disso. São Pedro, na Última Ceia, diz a Jesus, com veemência, de coração: "Darei a minha vida por Ti!" (Jo 13,37), e: "Ainda que seja preciso morrer contigo, não te renegarei!" (Mc 14,31). Horas depois, não consegue nem acompanhar Jesus em oração no horto, e o Senhor tem que lhe dizer: "Simão, dormes? Não pudeste vigiar comigo uma hora?" (Mc 14,37)... E, após a prisão do Cristo, foge e nega-o, não uma, mas três vezes...

Pedro, naquela ocasião, tinha virtude emocional, tinha ardor e bons sentimentos, mas faltava-lhe a firmeza da verdadeira virtude, a qual veio a adquirir depois, por Graça do Espírito Santo. De fato, sem Deus, nada podemos fazer (Jo 15,5). 

* * *

São muito apreciáveis as virtudes emotivas, e aquelas que possuímos naturalmente, e até mesmo aquelas que fazemos para conquistar a admiração alheia. Mas, se tivermos apenas estas – ainda que haja sinceridade, e por mais sentidas que sejam – não seremos santos nem bons cristãos. 

O bom perfume das virtudes cristãs, como lembra São Josemaria, «faz-se sentir entre os homens, não pelas labaredas de um fogo de palha, mas pela eficácia de um rescaldo de virtudes: a justiça, a lealdade, a fidelidade, a compreensão, a generosidade, a alegria» (É Cristo que passa, n. 36).

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Ref.:
Faus, Francisco. A Conquista das Virtudes / Francisco Faus – São Paulo : Cultor de Livros, 2014. p.13-17.

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