Minha noite escura — por que nosso apostolado está quase parando?


O APOSTOLADO FRATRES IN UNUM, nosso velho parceiro, deixou de atualizar seu site em 18 de janeiro de 2024. Infelizmente, não há nenhuma explicação pública ou anúncio oficial sobre os motivos do cessar abrupto das suas atividades. O blog parou de receber novas postagens naquela data e desde então permanece inativo, sem qualquer comunicado de despedida, explicação do motivo ou transição para outro canal.

    Pelo que se observa em fontes tradicionais católicas brasileiras, o silêncio é total. Vários leitores e comentadores notaram a parada repentina e expressaram lamentação, mas ninguém (nem os administradores visíveis, nem colaboradores conhecidos) deu quaisquer detalhes a respeito. Não há indícios de transferência para Instagram, YouTube, Telegram ou outro site.

    
Possíveis razões (especulações baseadas no contexto tradicionalista brasileiro) incluem o desânimo, um cansaço insuperável que só piora diante da situação da Igreja nestes tempos sombrios. Manter um apostolado como o "Fratres..." (desde 2008) ou como "O Fiel Católico" (desde 2007) — com postagens diárias ou quase, por tantos anos — exige um desgaste enorme, não só de tempo e energia, mas também emocional e espiritual. Chegar a um ponto em que a crise na Igreja (especialmente desde o pontificado de Francisco, com documentos como Amoris Laetitia, sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Vivência Comum, assinado em conjunto com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyib, Traditionis Custodes, Fiducia Supplicans e tantos outros, além de constantes pronunciamentos afirmando que todas as religiões dizem a mesma coisa, que nenhuma é melhor que outra, que "Deus não é católico", que é pecado querer converter os povos, etc., etc, etc... (aqui cabem reticências depois do 'etc', sim senhor), tudo leva a um cansaço profundo.

    No meu caso, depois do esgotamento, passei a buscar a solução no oposto do que me fazia sofrer, e assim 
flertei com as correntes tradicionalistas mais radicais, incluindo o sedevacantismo, numa tentativa de combater o erro migrando diretamente de um extremo para o outro. E então me decepcionei novamente. Nada mais parecia fazer sentido... e sei que isso é algo que muitos católicos tradicionalistas no Brasil e no mundo estão vivendo nesses últimos anos. É uma espécie de "noite escura" coletiva para muitos que defenderam a Tradição com zelo durante décadas: a sensação de que o barco da Igreja está como que à deriva, que as vozes de alerta são ignoradas ou silenciadas, e que as soluções "puras" acabam se revelando insuficientes ou problemáticas.

    
Santa Teresa d'Ávila, São João da Cruz e até o próprio São Pio X passaram por fases de aridez espiritual e desânimo diante da crise da Igreja do seu tempo. O cansaço com a situação é, muitas vezes, o peso de carregar sozinho (ou quase sozinho) uma preocupação que deveria ser compartilhada pela hierarquia. Reduzir o ritmo por aqui é como uma forma de autopreservação. Tento manter o fogo aceso, baixo, ao invés de me queimar completamente.

    
A decepção com o sedevacantismo: muitos que passaram por isso (inclusive figuras conhecidas no meio tradicional brasileiro) chegam à mesma conclusão: o sedevacantismo resolve a "crise papal" na teoria, mas na prática leva a fragmentação e a um isolamento que não edifica a Igreja. Outras posições mais "moderadas" (como uma resistência forte sem ruptura) também geram fadiga porque parecem uma luta sem fim. O que resta, para muitos, é uma fidelidade mais "interior": apegar-se à doutrina imutável, aos Sacramentos tradicionais (quando disponíveis), à oração pessoal e à formação de pequenos grupos de fiéis, sem esperar uma solução geral e definitiva imediata.



    Nota aos leitores e amigos de O Fiel Católico


    Caros irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo e na Ssma. Virgem Maria,


    Desde 2007 este apostolado procura defender, pela graça de Deus, a Fé católica integral, tal como sempre foi ensinada pelos Apóstolos, pelos mártires, pelos Doutores da Igreja e pelos Papas até o Concílio Vaticano II. Foram quase 17 anos de postagens diárias e quase diárias, revistas, cursos, respostas a dúvidas de consulentes, tudo feito por amor à verdade e às almas.

    Nos últimos meses, porém, todos terão notado que nossas atualizações se tornaram mais raras. Não foi por preguiça, falta de material ou mudança de prioridades externas. Foi por um motivo bem mais profundo e doloroso: um cansaço espiritual que me atingiu com força e que, confesso humildemente, ainda parece longe de cessar.

    Durante décadas acreditei — e ensinei — que a Igreja Católica é indefectível, que o Papa é o princípio visível da unidade, que a doutrina não pode mudar no seu conteúdo, que a infalibilidade papal e conciliar protege a Fé de contradições substanciais. Hoje vejo e ouço, com meus próprios olhos e ouvidos, declarações e atos dos Romanos Pontífices e de grande parte do episcopado que parecem contrariar frontalmente o que a Igreja sempre ensinou sobre a unicidade salvífica da Igreja, a gravidade objetiva de certas condutas, a imutabilidade da doutrina e da moral e o valor absoluto da liturgia tradicional.

    Quando o próprio Papa diz ou deixa dizer — e não corrige — que “todas as religiões são caminhos para Deus”, que a evangelização (conforme praticada pelos apóstolos e por todos os Santos Mártires) é proselitismo e “um grave pecado”, que se pode abençoar uniões que a Igreja sempre considerou objetivamente contrárias à lei natural, que a Missa de sempre pode ser restringida ou até suprimida… fica muito difícil ou praticamente impossível continuar repetindo, com a mesma convicção de antes, que “nada mudou” ou que tudo “é só questão de interpretação”, ou explicar "o que o papa realmente quis dizer", sempre em oposição àquilo que efetivamente disse...

    Não estou aqui afirmando categoricamente que o Papa não é Papa (embora continue considerando que a dúvida é honesta e tem razão de ser, diante da situação concreta em que vivemos), menos ainda que a Igreja Católica deixou de ser a Igreja de Cristo. Isso seria cair em soluções extremas com as quais já compactuei e das quais me afastei por não encontrar nelas paz nem segurança, nem união nem a necessária caridade cristã e católica. Estou dizendo apenas que, para mim, a crise atual é de uma gravidade que eu jamais poderia imaginar que viveria algum dia. E que, diante dela, sinto-me muitas vezes sem palavras para continuar “explicando” o inexplicável ou “defendendo” o que é condenável, como se tudo estivesse perfeitamente normal, como fazem tantos. Minha honestidade não o permite.

    Por isso decidi reduzir drasticamente as publicações. Não quero escrever por escrever, nem fingir um entusiasmo que não tenho mais. Prefiro o silêncio à hipocrisia. Quando (e se) Deus me der novamente clareza e força, voltarei com mais regularidade. Por ora, mantenho o site no ar para que o material antigo continue ajudando quem precisar, e respondo, dentro do possível, mensagens privadas de quem busca orientação.

    Peço a todos orações. Rezem por mim, pecador, para que eu não perca a Fé nem a caridade. E orem pela Igreja, pela conversão do clero, pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria, pelo reinado total de Nosso Senhor Jesus Cristo.

    Não sei quando voltaremos ao ritmo antigo. Mas sei que Nosso Senhor não abandona os seus, mesmo quando tudo parece desabar. Nossa Formação Teológica continua e com a mesma qualidade, embora com ritmo mais lento: continua sendo o que sempre foi, um meio de auxílio para aqueles que desejam me ajudar a continuar em atividade.

    Com afeto, em Jesus e Maria,

    Henrique Sebastião

    O Fiel Católico

    Fevereiro de 2026

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