Do pó à vida eterna
Prezados irmãos em Cristo,
NO CALENDÁRIO LITÚRGICO da santa Igreja Católica, a Quarta-Feira de Cinzas surge como que um portal solene para o tempo da Quaresma, marcando o início de quarenta dias de preparação espiritual para a celebração da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Esta data, enraizada na tradição milenar da Igreja, não se configura em apenas algum tipo de ritual externo, mas em uma profunda experiência espiritual que nos convida a refletir sobre nossa fragilidade humana e nossa constante necessidade de conversão. Para nós, católicos tradicionais, ela representa a beleza da penitência autêntica, onde o pó das cinzas se transforma em símbolo de esperança eterna.
O significado espiritual da Quarta-Feira de Cinzas remonta às práticas da Igreja primitiva, quando os fiéis, inspirados nas tradições judaicas antigas, usavam cinzas como sinal de arrependimento e retorno a Deus. As cinzas, impostas na forma de uma cruz na testa, recordam as palavras do Livro do Gênesis: "Lembra-te de que és pó e ao pó hás de voltar" (Gn 3,19), enfatizando nossa mortalidade e a efemeridade da vida terrena. Essa imposição não é um gesto de tristeza vazia, mas um sacramental que nos desperta para a misericórdia divina, convidando-nos a uma penitência que purifica a alma e fortalece a fé. Na tradição católica, este dia é um dos poucos em que o jejum é prescrito, junto à Sexta-Feira Santa, reforçando o compromisso com a ascese espiritual.
O que torna esta data particularmente bela para os católicos tradicionais é a harmonia entre a liturgia e a espiritualidade interior. A cerimônia das cinzas, com sua simplicidade austera, reflete a humildade de Cristo no deserto, onde Ele jejuou por quarenta dias, resistindo às tentações e preparando-Se para Sua missão redentora. Essa beleza reside na transformação: o que parece cinza e pó é, na verdade, um convite à renovação. A Quaresma, iniciada nesta quarta-feira, é um período de oração intensa, caridade e leitura da Sagrada Escritura, contrapondo o hedonismo do mundo com uma vida ascética voltada para Deus. Na visão da Igreja, as cinzas simbolizam não apenas a fragilidade, mas também a vitória sobre o pecado através da graça, ecoando as práticas penitenciais do Antigo Testamento, como vistas em Jonas e nos profetas.
Nesta Quarta-Feira de Cinzas somos chamados a abraçar essa profunda beleza espiritual com fervor: participando da santa Missa, recebendo as cinzas com coração contrito e iniciando nossa jornada quaresmal com firmes propósitos de conversão. Para concluir, recordemos as palavras eternas do Catecismo Romano:
A penitência verdadeira consiste na dor da alma e no ódio ao pecado cometido, com firme propósito de não mais pecar. [...] Esta dor deve ser interior e sobrenatural, procedente do amor a Deus acima de todas as coisas, ou pelo menos do temor do castigo divino. [...] A Igreja, em sua sabedoria, instituiu a Quaresma como tempo de penitência pública e particular, para que os fiéis, mortificando a carne, purifiquem a alma e se preparem dignamente para a Páscoa do Senhor.[1]
Que esta Quarta-feira de Cinzas nos leve a uma verdadeira conversão do coração, e que este tempo nos leve a uma Páscoa mais luminosa, onde a Ressurreição do Cristo, nossa Esperança e nossa Vida, ilumine nossas almas.
Em união de orações,
Henrique Sebastião, FLSP
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[1] Catecismo Romano, ed. clássica de 1566, Parte II, Dos Sacramentos, sobre a Penitência; tradução adaptada de edições fiéis como a de 1905 ou fontes tradicionais disponíveis em sites como o Vatican Archive e edições em português pré-conciliares. Ver também: https://newadvent.org/cathen/04153a.htm para o texto em inglês do Catecismo Tridentino, seção sobre penitência).

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