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| Entregar tudo a Deus é mesmo possível? |
SE VOCÊ, DILETO leitor, fizer esta oração com honestidade, verdade e entrega, experimentará infalivelmente um alívio inefável das dores e tormentos que o afligem. A oração de Santo Inácio de Loyola diz:
Tomad, Señor, y recibid toda mi libertad, mi memoria, mi entendimiento y toda mi voluntad, todo mi haber y mi poseer; Vos me lo disteis, a Vos, Señor, lo torno; todo es vuestro, disponed de todo a vuestra voluntad. Dadme vuestro amor y gracia que ésta me basta. Amén.
Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade; tudo o que tenho e possuo, recebi de Vós; a Vós, Senhor, o retorno. Tudo é vosso: disponde de tudo segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e a vossa graça, que isto me basta. Amém.
(Exercícios Espirituais, séc. XVI. Contemplação para Alcançar Amor, n. 234)
Abrir mão de tudo, abdicar da própria liberdade, de todo controle sobre a sua própria vida, até dos seus pensamentos, lembranças e expectativas, para confiar só e incondicionalmente em Deus. Entregar tudo a Ele, sem reservas, independentemente das circunstância, abandonando todos os seus desejos e anseios mais íntimos. Um passo absolutamente difícil, mas que liberta absolutamente. E confere uma paz intensa, libertadora, curativa. Experimente tentar isso, especialmente após a assistência da santa Missa e veja o que acontece.
* * *
Acontece que as pessoas rezam isso depois de pedirem várias coisas a Deus, durante a Missa. Pedem pela própria saúde, pelas almas dos seus queridos falecidos, pedem soluções financeiras para suas vidas... Enfim, pedem por suas necessidades espirituais e materiais. Como dizer, então, depois, que não querem nada de Deus, além do amor e da graça divina. Isso não é contraditório?A aparente contradição de se fazer a Oração Suscipe, Domine (ou 'Tomai, Senhor') de Sto. Inácio é intrigante e comum entre as pessoas que a rezam com a devida atenção. A belíssima prece, que aparece nos Exercícios Espirituais, especificamente na “Contemplação para Alcançar o Amor”, que conclui os exercícios, é um ato de entrega total (oferecimento de si mesmo) a Deus: liberdade, memória, entendimento, vontade, tudo o que se possui. Termina pedindo apenas e, aparentemente, exclusivamente o amor e a graça de Deus.
Essa oração não foi feita para ser rezada de forma isolada ou mecânica após uma lista de pedidos, mas como o coroamento de um processo de discernimento e desapego. Mas, ora, os pedidos que fazemos na Missa (ou na oração cotidiana) não só são legítimos e encorajados como constituem parte integrante da própria Missa. Ora os quatro fins da santa Missa são exatamente estes:
1º Adoração a Deus como convém (Finis latreuticus; fim latrêutico);
2º Dar graças a Deus pelos seus benefícios (Finis eucharisticus; fim eucarístico);
3º Aplacar a Deus e dar-lhe satisfação pelos nossos pecados (Finis propitiatorius; fim propiciatório ou satisfatório);
4º Alcançar todas as graças que nos são necessárias (Finis impetratorius; fim impetratório).
Ora o fim impetratório (Impetração ou Petição) significa justamente pedir e obter todas as graças necessárias para nós e para a santa Igreja. Toda a Tradição cristã, assim como as Sagradas Escrituras, são repletas de orações de súplica: pelos falecidos, pelas necessidades espirituais e materiais, pela saúde dos fiéis, etc. Jesus Cristo ensina diretamente a pedir pelo “pão nosso de cada dia” (Mateus 6,11) e exorta: “Pedi e recebereis” (Mateus 7,7). Como, então, é possível, ao fim da Missa, dizer a Deus: "Não quero nada de Vós além do vosso amor e da vossa graça"? Contradição?
Não. Não estamos diante de uma contradição real, mas sim de uma questão de hierarquia espiritual e de atitude interior, de coração e alma.
Ao dizer “não desejo outra coisa”, o cristão que a reza não está negando as necessidades humanas essenciais. Somos humanos e não Anjos do Céu, sim, precisamos ainda de muitas coisas para viver neste mundo. O que Santo Inácio está afirmando aí é que o amor e a graça de Deus são o bem maior, o bem supremo, suficiente para a felicidade plena. Tudo o mais (saúde, bens, soluções para problemas) deve ser recebido ou não conforme a Vontade divina, sem que isso abale a paz interior.
É um ato de indiferença ignaciana (que não significa apatia ou uma indiferença emocional, mas sim a liberdade interior): estar disposto a aceitar o que Deus dispuser, porque confiamos que Ele sabe melhor do que nós o que é melhor para nós mesmos, e mais além, como nos ama, saberá nos conduzir para um bem sempre maior.
Do mesmo modo, entregar a liberdade a Deus representa o modo mais perfeito de ser verdadeiramente livre, ao passo que se entregar à falsa noção de liberdade humana (fazer tudo o que eu quiser como eu quiser e quando eu quiser, sem nenhuma reserva) termina sempre em algum tipo de escravidão.
Quem possui o amor e a graça de Deus tem o mais essencial. Todos os outros bens são secundários e transitórios. São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila expressaram ideias semelhantes: a união com Deus basta, mesmo em meio à aridez ou aos sofrimentos.
Não se trata aqui do desprezo gnóstico pelo mundo, mas de ordenação correta dos afetos. Inácio era um homem prático: fundou a Companhia de Jesus para atuar no mundo, para ser missionária e educar para a Fé. A entrega total que propõe não leva ao quietismo, mas a uma ação verdadeiramente livre e generosa.
“Amor e graça” de Deus incluem, em última análise, tudo de que realmente precisamos para a salvação e a santificação. Nossos pedidos concretos são apenas meios ou expressões dessa relação filial. Não disse o Cristo (em Mt 6,33) que se buscarmos primeiro o Reino de Deus e sua justiça, todas as outras coisas nos serão acrescentadas? Assim, dizer que só desejo o amor e a graça não quer dizer que também não desejo que a alma de meu pai esteja no Céu ou que a saúde física do meu parente seja restabelecida, ou que eu encontre os meios materiais necessários para honrar as minhas obrigações de estado. Só quer dizer que há uma espécie de hierarquia nos desejos, e o desejo por Deus não só é o primeiro e o mais importante, mas também, como disse Nosso Senhor, de uma certa maneira engloba todos os outros. Quem tem Deus, tem tudo de que realmente precisa. O resto é distração.
O contexto imediato é a preocupação com comida, bebida, roupa — necessidades materiais legítimas. Jesus não as condena, mas coloca-as na ordem correta: o Reino (relação com Deus, justiça, vontade divina) vem em primeiro lugar. Quando isso acontece, “todas estas coisas” (as demais necessidades) são acrescentadas segundo a providência de Deus — nem sempre como esperamos, mas conforme o que realmente contribui para o bem eterno.
Dizer “concedei-me somente o vosso amor e a vossa graça, que isto me basta” não anula os outros pedidos justos. Significa que seu desejo fundamental e unificador é a união com Deus e que todos os outros desejos bons devem ser subordinados a esse e integrados nele.
Quem realmente tem Deus, tem o essencial; todo o resto (mesmo bens bons como saúde ou consolo) é secundário e passageiro. Tal pessoa é verdadeiramente livre e feliz.
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Fontes principais:
Bíblia Sagrada, Mateus 6,33.
Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola (Contemplação para Alcançar o Amor — edições padrão).
Texto latino e espanhol dos Exercícios Espirituais (edições críticas).
Versões oficiais em sites de espiritualidade inaciana (IgnatianSpirituality.com, Loyola Press).
Sites especializados em espiritualidade inaciana como IgnatianSpirituality.com e Loyola Press.
Análises teológicas como as de David Coffey sobre o texto original ('The Ignatian Suscipe Prayer: Its Text and Meaning', publicado no Journal of Jesuit Studies, vol. 5, Issue 4 (2018), pp. 511–529.
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