![]() |
| Os Padres do Instituto do Bom Pastor por ocasião da reeleição do Revmo. Pe. Luis Gabriel Barrero como Superior Geral para um segundo mandato, em 9.7.2025. |
A RECENTE DIVULGAÇÃO pelo Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF), sob o cardeal Victor Fernández (o polêmico 'dom Tucho'), quanto aos procedimentos para a reconciliação de sacerdotes e fiéis da FSSPX, coloca em evidência uma exigência clara: a adesão integral e irrestrita à doutrina do Concílio Vaticano II e a confissão da legitimidade da eterna "missa nova" imposta por Paulo VI são condições irrevogáveis para a plena comunhão com Roma.
Pouco antes das sagrações sem mandato de 2026, Leão XIV já dissera que os sacerdotes da FSSPX "se recusam a aceitar alguns elementos fundamentais da Igreja, começando por diversos pontos do Concílio Vaticano II" (!) e que, "se eles fizerem essa escolha, lamento, mas...". Sim, todos os pontos do Vaticano II são "elementos fundamentais" da nova igreja que surgiu após esse trágico evento.
O documento do DDF enfatiza a necessidade de um ato formal de "plena adesão à doutrina católica e obediência à hierarquia católica", aqui claramente entendidas como tudo aquilo que definiu o Concílio e assim assumidas com a assinatura da Professio Fidei.
Diante do fato, duas perguntas surgem inevitavelmente:
1) Mas, ora, o Vaticano II não foi, desde o início até a sua conclusão, assumido como um concílio meramente pastoral, que não teve a intenção de propor nenhum novo dogma e nem anatematizar nenhum erro? Que tipo de pastoral é essa que excomunga todo aquele que se atreve a questioná-la? Que obriga a subscrição de todo aquele que deseja ter comunhão com o Papa??
2) E quanto aos institutos ligados ao movimento Ecclesia Dei (órgão do Vaticano criado em 1988 por João Paulo II para reintegrar os seguidores de Dom Marcel Lefebvre e regulamentar as comunidades que faziam questão de continuar celebrando a Missa em rito tradicional), com o Instituto do Bom Pastor (IBP) à frente, que goza de situação canônica regular precisamente pelo seu direito à crítica?
Sim, esses institutos podem debater, respeitosamente e de forma filial, e expressar reservas teológicas em relação a certos pontos do Concílio Vaticano II. O principal exemplo disso é o mesmo IBP, cujo decreto de fundação, aprovado pela Santa Sé em 2006, confere explicitamente aos seus membros o direito de apresentar uma "crítica construtiva" a determinados ensinamentos conciliares.
Bem, e então? O IBP será submetido ao mesmo critério que a FSSPX? Ou a crítica construtiva continuará sendo, na prática, vista como um privilégio reservado apenas quando isso é conveniente para a Santa Sé?
O Padre Daniel Pinheiro, superior do IBP na América Latina, tem sido explícito em suas declarações:
"Há uma crítica construtiva a atos controversos do magistério recente, a atos em desacordo com aquilo que a Igreja sempre ensinou".
(Sermão para o Domingo do Bom Pastor, 2º Domingo depois da Páscoa, disp. no site oficial do IBP)
Isso se parece muito com uma fala de Monsenhor Marcel Lefebvre. Parece — e realmente é, de fato —, a mesma posição atual da FSSPX: reconhece a autoridade dos papas e submete-se a ela, ao mesmo tempo em que, por uma questão de consciência, recusa a aceitação cega daqueles pontos que, após a tempestade Vaticano II, estejam "em desacordo com aquilo que a Igreja sempre ensinou".
Mas o fundador do IBP, Padre Philippe Laguérie, foi além disso, ao falar da obrigação de corrigir o que houvesse de "ambíguo, e até de falso", nos textos do concílio Vaticano II.
O Padre Paul Aulagnier, um dos fundadores, criticou duramente a reforma litúrgica pós-conciliar como uma "revolução" acompanhada de uma fabricação apressada de novos ritos, citando o Cardeal Stickler e o Breve Exame Crítico dos Cardeais Ottaviani e Bacci.
O Padre Lucas Altmayer, do IBP Belém, também se manifestou com firmeza em sermão:
"O demônio sabe que não pode acabar com a Tradição, então o que o modernismo faz? Ataca as instituições que guardam a Tradição, que pedem revisão do novo rito, da nova forma de crer...".
(apud Francis Mauro Rocha, Assoc. Cultural Montfort)
Não se pode ignorar nem negar honestamente: essas falas não só se parecem com as de Mons. Lefebvre. Essas falas representam, à perfeição, a mesmíssima posição da FSSPX e de seu fundador.
Mas, então, surge essa questão inevitável para os sacerdotes e fiéis do IBP: se a FSSPX é tratada como "cismática" justamente por recusar as mesmas novidades conciliares que eles igualmente não aceitam, qual será a postura do próprio Instituto quando Roma exigir dele a mesma profissão formal de adesão que agora é exigida dos padres e até dos fiéis formais da Fraternidade?
Eles vão assinar o documento?
Vão aderir à revolução do Vaticano II em troca de manter a "plena comunhão" com Roma?
E se o fizerem, continuarão afirmando que existem "texto ambíguos e até falsos" no Concílio II, mesmo depois dessa adesão formal?
Ou deixarão de fazer a "crítica construtiva" que sempre apresentaram como a própria razão de ser do Instituto?
Essa postura de crítica aberta ganha contornos ainda mais agudos quanto confrontada com documentos recentes do próprio Dicastério que um dia foi o Santo Ofício e agora é chefiado por "dom Tucho" Fernández. Padres do IBP têm visto com preocupação a orientação doutrinal atual da Santa Sé, especialmente nos temas marianos.
Em novembro de 2025, a Nota Doutrinal do mesmo DDF intitulada Mater Populis Fidelis restringiu significativamente o papel de Maria na doutrina oficial do Vaticano II, rejeitando os títulos tradicionais de "Medianeira de Todas as Graças" e "Corredentora", argumentando, junto com os protestantes, o risco de isso obscurecer a Mediação única de Cristo: posição que contrasta fortemente com a piedade mariana tradicional defendida pelo IBP — igualzinha à dos padres da FSSPX.
Também aqui cabe perguntar: se essas orientações passarem a exigir adesão explícita, os padres do IBP continuarão denunciando os problemas ou simplesmente silenciarão, em nome dessa tão falada "obediência"?
O IBP não se encontra em "irregularidade canônica" como a FSSPX. Sua fundação foi justamente pensada como uma ponte para atrair sacerdotes e fiéis da Fraternidade para a tal plena comunhão, oferecendo em troca a liturgia tradicional e esse tal espaço de crítica construtiva dentro da estrutura regular. Algo que muitos tradicionalistas viram como uma estratégia de Roma para dividir e enfraquecer a resistência católica, mantida com maior firmeza na Fraternidade.
Agora, porém, a situação pode mudar drasticamente.
Se Roma exige da FSSPX uma adesão formal e irrestrita ao Vaticano II, por que e como não exigir o mesmo daqueles que já estão em situação regular?
Haverá assim, tão explícita e assumidamente, a adoção de dois pesos e duas medidas para cada caso?
Ou a hora de assinar abaixo do erro também chegará para o IBP?
Parece inevitável.
E, quanto esse momento vier, o que dirão os padres e fiéis que, durante anos, criticaram duramente a FSSPX por não aceitar se submeter às condições impostas pela dita "igreja conciliar"? Assinarão aquilo que seus próprios fundadores chamaram de "ambíguo" e "falso"?
Ou reconhecerão que a resistência da Fraternidade sempre girou, precisamente, em torno dessas mesmíssimas questões doutrinais?
A tensão entre unidade e obediência à hierarquia eclesiástica, de um lado, e fidelidade ao Direito Divino e à Sã Doutrina, de outro, continua escalando. O futuro dirá se a "crítica construtiva" continuará sendo um caminho viável dentro da plena comunhão ou se as mesmas exigências hoje dirigidas à FSSPX alcançarão também aqueles que, há 20 anos, vivem em uma "situação regular" um tanto instável.
Porque, no fim das contas, a pergunta permanece simples: se a FSSPX deve assinar, também o IBP, como todos os outros que mantém objeções e lutam pela Liturgia e pela sagrada Tradição, não deveriam também ter que fazê-lo?
Mas, se o IBP assinar, poderá continuar a sustentar que o Concílio contém "ambiguidades" e "erros"?
Ou descobrirá, de repente, confuso e sem saber para onde fugir, que a permissão para criticar e defender a Verdade dentro da estrutura de Roma tinha prazo de validade?
![]() |
| Adquira a melhor e mais completa edição da Bíblia Sagrada já impressa em português com desconto exclusivo para nossos leitores (use o cupom ofielcatólico ao fechar a compra) |
_______
** Este artigo contém trechos de texto publicado na conta de Instagram do apostolado "Nova Cristandade Oficial".


Muito bom o artigo! Obrigado por se debruçar sobre este tema, pois foi exatamente o que pensei quando o Santo Padre deu aquela entrevista: "Se recusam a aceitar alguns elementos fundamentais da Igreja, começando por diversos pontos do Concílio Vaticano II" e que os pontos são "elementos fundamentais"
ResponderExcluirFoi essa a pergunta que me surgiu: e o IBP? Que tem isso em seu Estatuto, conforme muito bem mencionado no artigo.
Não ouvi nenhuma resposta até o momento, nem dos sacerdotes, nem dos defensores. Pelo menos não publicamente. Não duvido que, em círculos fechados, questionem essa situação.
Alguns grupos ligados ao IBP fizeram muito barulho pela suposta "falta de obediência" da FSSPX aos sagrados bispos. Parece, pelo menos para mim, que a Santa Sé "tolera" esses institutos porque sabe que os tem em suas mãos. Dá a impressão de que ainda considera necessária a existência da FSSPX, pois, como pontuado no artigo, ambos lutam pelos mesmos pontos.
Outra dúvida, também relacionada a esses institutos: muitos leigos ligados a eles elogiam e defendem a ação de Dom Marcel em 1988, mas criticam severamente as novas sagrações. Para mim, isso não faz nenhum sentido. Estamos realmente em uma situação melhor do que em 1988? Tucho na posição que esta e tudo o que vem acontecendo, juntamente com o reinado que foi o de Francisco, e o atual de Leão, leva-me a pensar que não.