Só em nome da Igreja Católica cometeram-se crimes ao longo da História?

Jovem crucificado pelo 'Estado Islâmico' pelo crime de ser cristão

UMA DAS MAIORES evidências de que nós, católicos, dispomos, de que é a Igreja Católica a verdadeira Igreja de Cristo, é o fato de ser ela, sempre, a vítima predileta dos caluniadores – sejam protestantes, ateus militantes, espíritas, gnósticos, marxistas, pseudointelectuais, etc.

Segundo a lógica de muitos "entendidos" que gravam e postam vídeos no Youtube, por exemplo, somente na história da Igreja Católica é que ocorreram abusos em nome da fé.

Enquanto hoje, agora, crianças estão sendo crucificadas vivas diante de seus pais, apenas por serem cristãos, os patéticos justiceiros da internet continuam atacando furiosamente a Igreja por conta de problemas ocorridos há muitos séculos... Apenas e tão somente a Igreja Católica.

Sobre o assunto favorito desses pobres ignorantes – a Inquisição – já falamos detalhadamente neste estudo específico. Mas será que, ao longo da História, somente católicos cometeram abusos em nome da fé? Será que a maldade humana só pôde se expressar em nome de Deus a partir da Igreja Católica? Por absurdo que seja, não são poucos os que pensam assim.

Este estudo se propõe a demonstrar que a realidade dos fatos é muito diferente. A seguir, apresentamos uma pequena relação de fatos históricos envolvendo crimes de perseguição, morte e violência em nome da fé nas principais religiões do mundo. Longe de buscar a própria justificação apontando pecados alheios, nosso objetivo é demonstrar que o pecado está no homem, e que neste mundo a maldade humana é capaz de se expressar por praticamente quaisquer meios, sejam instituições, grupos e/ou movimentos (religiosos ou não), por mais bem intencionados que sejam. Senão, vejamos...

• O judaísmo, raiz de praticamente todas as religiões ocidentais, em suas origens foi uma religião de práticas que hoje seriam consideradas hediondas. Desde homossexualidade e adultério até a mera desobediência aos pais era punida com a pena de morte, e o sistema de execução passava longe do que chamaríamos "humano": o apedrejamento até a morte. Sexo com uma virgem poderia custar a vida dele ou deles: se o homem mantivesse relações íntimas com uma virgem dentro da cidade, os dois morreriam; se o ato se desse no campo, só ele. Isso porque, dentro da cidade, alguém certamente ouviria a virgem gritando por socorro caso o ato não fosse consentido; se ninguém ouviu, ela não gritou, supunha a lei; e, se não gritou, cometeu crime também, o de consentir. Já no campo, não sendo possível saber se ela gritou ou não, pela dúvida, morreria só o homem. As prostitutas deviam ser também mortas a pedradas a não ser que a culpada fosse filha de um sacerdote. Neste caso, a punição seria ainda pior: morreria queimada viva. Já os filhos rebeldes e desobedientes deviam ser levados às portas da cidade e apedrejados até a morte, para que "o mal fosse eliminado" do meio do povo.

• O hinduísmo/brahmanismo
 legou à Índia um sistema que perpetua a crença na superioridade de certas classes de seres humanos sobre outras, e a cruel opressão da maioria sofredora. Este código sócio-religioso confunde-se com o próprio fundamento do hinduísmo, que influencia toda a estrutura daquela sociedade até os dias de hoje: os dalits (sem casta), são completamente excluídos da sociedade, denominados cruelmente "intocáveis” porque são considerados imundos e não podem ser sequer tocados pelos membros da sociedade. Recebem apenas serviços repugnantes, como lidar com lixo, esgoto, cadáveres e outros desse tipo. Até a sombra de um dalit deve ser evitada.

Para que se tenha uma ideia da gravidade da situação, quando os tsunamis de 2004 tragaram a costa de Tamil Nadu, o Estado indiano mais atingido, nem a tragédia foi capaz de fazer com que as vítimas superassem a discriminação: os "intocáveis" simplesmente não receberam nada das autoridades locais. Oficialmente, dez mil pessoas morreram por absoluta falta de cuidados! Registre-se que a sociedade indiana considerou o fato como perfeitamente normal, já que tudo é justificado pela crença na reencarnação (Soma Basu, 'Tsunami or Not, Dalits suffer Discrimination', em indianet.nl/a050712.html, 2005).

Mais: ao longo de toda a sua história o hinduísmo/brahmanismo perseguiu as outras religiões e seus adeptos, em especial os budistas. Pushyamitra Sunga (séc. II aC) foi um monarca brâmane que perseguiu os budistas destruindo mosteiros e matando monges. Nas cidades de Bodhgaya, Nalanda, Sarnath e Mathura, grande parte dos mosteiros foram convertidos à força em templos hindus. Esculturas, escritos antigos e obras de arte de valor inestimável foram destruídos (R. K. Pruth, 'Buddhism and Indian Civilization', Discovery Publishing House, 2004, p.83).

Atualmente, cristãos são perseguidos e mortos na Índia por motivos religiosos (se você tiver estômago forte, assista este vídeo).

• O taoísmo, filosofia espiritualista de origem chinesa, de doutrina introspectiva e supostamente pacífica, também causou destruição e mortes em sua história. Na China, ao fim da Dinastia Tang (1845), o imperador taoísta Wuzong proibiu todas as influências religiosas estrangeiras (zoroastrismo e cristianismo, entre outras), com o objetivo de apoiar o taoísmo. Ao longo de todo o território chinês o imperador mandou confiscar os bens de sacerdotes e fiéis cristãos, bem como de outros religiosos, além de destruir templos, capelas, mosteiros e casas de oração, causando derramamento de sangue de gente inocente pelo único motivo de compactuarem com a religião estabelecida (John Kieschnick. 'The Impact of Buddhism on Chinese Material Culture', Princeton, 2003, p.71). - E não estamos falando da Idade Média: isso aconteceu em pleno século XIX!

• O islamismo dispensa maiores dissertações. Esta é certamente a religião em nome da qual mais se cometeram crimes bárbaros, e que mais deu ao mundo facções terroristas, como as atuais Al Qaeda, Taliban, Irmandade Muçulmana, o terrível Estado Islâmico e outros. É também, provavelmente, o regime que mais oprimiu as mulheres em toda a História (saiba mais). Note-se que, neste caso, não estamos falando de um mal de séculos passados, mas que continua ainda hoje. Tudo isso sem falar na pedofilia institucionalizada por esta sociedade teocrática.

Poderíamos avançar ainda muito nessa abordagem das religiões. O espiritismo, por exemplo, por ser um sistema proporcionalmente recente no quadro das religiões mundiais (surgido depois dos períodos históricos marcados pela truculência), não possui um histórico de violência, mas nasceu de um embuste perpetrado por duas irmãs galhofeiras (veja aqui). Iludir pessoas que sofrem a perda de queridos falecidos, oferecendo um falso consolo, isto não é uma forma sutil de violência e crueldade? Quanto às religiões da "nova era", consideradas pacíficas, não é um fato que já nos deram Jim Jones, Charles Manson e David Koresh, entre tantos outros? Mesmo assim, muitos dos comentários que vemos e ouvimos nos dão a nítida impressão de que muita gente realmente acredita que crimes e arbitrariedades em nome da religião tenham ocorrido com exclusividade no seio da Igreja Católica.

Antes, porém, que os ateus militantes digam que o problema é com a religião, e que uma sociedade ateia seria a mais perfeita comunidade que poderíamos alcançar, lembramos que as piores e mais gigantescas atrocidades da História foram cometidas por grupos e governos ateístas. No último século, os regimes ateus mais poderosos – a Rússia e a China comunista e a Alemanha nazista, – fizeram vítimas em números astronômicos. Stalin, por exemplo, foi o responsável direto por cerca de vinte milhões de mortes, por meio de genocídios, campos de trabalho forçado, julgamentos-espetáculos seguidos de pelotões de fuzilamento, deslocamento de população, fome extrema e assim por diante.

O recente estudo de Jung Chang e Jon Halliday, publicado no livro "Mao: a História Desconhecida" (Companhia das Letras, 2013), atribui ao regime de Mao Tsé-Tung um número espantoso de setenta milhões de mortes(!). Um detalhe que faz muita diferença é que as matanças provocadas por Stalin e Mao, ao contrário daquelas causadas pelos expedicionários das Cruzadas ou pelos envolvidos na Guerra dos Trinta Anos, aconteceram em tempos de paz e foram contra seus próprios compatriotas. No cômputo geral, o regime arreligioso de Hitler surge em um distante terceiro lugar, com cerca de dez milhões de assassinatos.

Tudo isso sem contar os assassinatos e massacres ordenados por outros ditadores soviéticos como Lenin, Khrushchev e Brezhnev, ou uma outra grande lista de tiranias ateias como as de Pol Pot, Enver Hoxha, Nicolae Ceausescu, Fidel Castro, Kim Jing-il, todos déspostas assassinos e sanguinários. Pol Pot, líder do Khmer Vermelho, facção do Partido Comunista que governou o Camboja de 1975 a 1979, dentro desse período de apenas quatro anos, junto com seus ideólogos revolucionários, lideraram matanças e deslocamentos sistemáticos da população que eliminaram aproximadamente um quinto da população cambojana (número estimado entre 1,5 e 2 milhões de inocentes). Em termos de porcentagem, Pol Pot matou mais compatriotas que Stalin e Mao.

Temos que reconhecer, pela simples força dos fatos, que os regimes ateístas assassinaram, em um único século, mais de cem milhões de pessoas(!). Os crimes de algum modo inspirados pela religião simplesmente não podem competir com os assassinatos cometidos por regimes ateístas. Mesmo levando em conta os níveis populacionais, a violência ateísta supera a violência religiosa em termos proporcionais simplesmente indiscutíveis.

• A Inquisição protestante – Talvez o mais grave dos erros seja imaginar que a Inquisição Católica foi a única inquisição religiosa que existiu. Naquele período histórico, os governos de todas as nações eram extremamente violentos, comparados aos de hoje; a lei e a ordem eram mantidas com mão de ferro e as penas eram sanguinárias em todas as culturas, tanto cristãs quanto islâmicas, hindus e pagãs em geral. Parece que uma página muito especial é descartada deste capítulo da História, por muita gente, quando se discute o assunto Inquisição. Responda rápido o leitor:

1) Que instituição religiosa condenou mais de 300 pessoas pela prática de bruxaria, decretando tortura e pena de morte na forca às famosas "bruxas de Salem"?1

2) Que instituição religiosa levou à morte mais de 30.000 camponeses anabatistas na Alemanha?2

3) Sob que ordens o médico espanhol Miguel Servet Grizar, o descobridor da circulação sanguínea, foi condenado a morrer na fogueira?3

4) Quem mandou para a fogueira mais de mil mulheres escocesas, num período de seis anos (1555 - 1561)?4

Sem dúvida muita gente responderia rapidamente, sem pensar e sem medo de errar, que a responsável por todas as barbaridades citadas acima foi a Igreja Católica. Resposta errada: todos esses crimes foram cometidos pela Inquisição Protestante, que quase nunca é mencionada pelos maiores críticos da Igreja Católica, simplesmente porque esses críticos, na maioria das vezes, são protestantes. Conhecimento seletivo? Parece que sim. Certos "pesquisadores" de porta de boteco só procuram conhecer os fatos que parecem confirmar aquilo em que eles querem crer.

Ocorre que também aqui, em terra brasilis, a maior parte dos que atiram pedras contra os católicos por conta da Inquisição é formada por protestantes/"evangélicos", como é o caso do blogueiro Júlio Severo, que em sua página publicou um lamentável artigo intitulado, simplesmente: "Como querem combater a cultura da morte (...) quando se sentem à vontade com a cultura da tortura e morte da Inquisição?", julgando que pode colocar-se, enquanto protestante, acima da questão e julgando-se moralmente apto a julgar, de camarote, a Igreja Católica.

O que mostra a História real, porém, é que o Sacro Imperador Romano-Germânico Fernando I deu liberdade aos luteranos na luta contra os anabatistas, e o próprio Lutero escreveu um discurso, em 1528, no qual encorajava a perseguição dos que considerava hereges2. Como resultado, grupos da Inquisição Protestante esfolaram vivos os monges da Abadia de São Bernardo (Bremen), e depois passaram sal em suas carnes vivas, antes de pendurá-los no campanário do mosteiro3. Em Augsburgo, em 1528, cerca de 170 anabatistas foram aprisionados por ordem do poder público protestante, sendo que muitos deles foram queimados vivos e outros marcados com ferro em brasa nas bochechas ou tiveram a língua cortada.2 O célebre teólogo Johann Matthäus Meyfart (protestante ele próprio) descreveu a tortura aplicada pela Inquisição protestante, que ele presenciou, qualificando-a como uma intolerável “bestialidade”2, nos seguintes termos:

Nos países católicos não se condena um assassino, um incestuoso ou um adúltero a mais de uma hora de tortura. Na Alemanha protestante, porém, a tortura é mantida por um dia e uma noite inteira; às vezes, até por dois dias, outras vezes até por quatro dias e, após isto, é novamente iniciada. Esta é uma história exata e horrível, que não pude presenciar sem também me estremecer"
('Christliche Erinnerung, an Gewaltige Regenten und Gewissenhafte Prädikanten', 1629-32)

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Notas:

1. ROSENTHAL, Bernard. Salem History, reading the withc trials of 1692. Cambridge: Cambridge, 1993.


2. HARVEY, Ralph V. & Verna, Ralph's Documents, artigo "Anabaptists and the Free Churches", disp. em 
http://www.rvharvey.org/d-anabaptists.htm
Acesso 10/2/014.

3. MC'NEILL, John T. The History and Character of Calvinism, New York: Oxford University Press, 1954, p.176  [Miguel Grizar Servet foi queimado na fogueira como herege por ordem do Conselho de Genebra, presidido por João Calvino].

4. CAMMILIERI, Rino. La Vera Storia dell´Inquisizione, Piemme: Casale Monferrato, 2001.
www.ofielcatolico.com.br

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