Heresias, tão antigas e tão novas: diferença entre heresia, apostasia e cisma, e exemplos



INFELIZMENTE OU NECESSARIAMENTE, no decorrer da história da Igreja, muitas vezes ocorreram divisões e separações na Igreja, por vários motivos, gerando novas comunidades confessionalmente cristãs, inclusive devido a uma compreensão equivocada de determinados elementos da doutrina cristã. Por causa disso, aos poucos, surgiu a problemática da heresia como também do cisma e da apostasia. Mas qual seria a diferença entre estes termos?

O Código de Direito Canônico que rege a tradição da Igreja, promulgado no dia 25 de janeiro de 1983 pelo papa João Paulo II, no Cân. 751 diz:

“Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deva crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa de sujeito ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos”.

Vemos neste trecho que a heresia tem relação com uma postura de se negar ou de se duvidar de maneira persistente e contínua alguma verdade de fé ensinada pela Igreja como algo divinamente revelado. Enquanto a apostasia configura um abandono total da fé cristã. E o cisma uma rejeição explícita da autoridade papal.

Desde os primórdios do cristianismo a Pessoa e o exemplo de vida de Jesus de Nazaré sempre geraram certo desafio de compreensão. Num primeiro momento a fé no Mistério da Encarnação gerava certo escândalo para alguns. Como o Deus criador e onipotente poderia ter se tornado humano assumindo tal realidade com suas fragilidades, como a fome, o sofrimento, a morte?

Conceber Jesus de Nazaré como alguém que tivesse uma dimensão tanto humana quanto divina parecia algo inconcebível para muitos judeus.


Dois exemplos iniciais

Nesse contexto surgiram duas correntes religiosas que expressam bem a dificuldade que alguns tinham de conciliar o humano e o divino na Pessoa de Jesus Cristo, aparecendo assim os primeiros desvios da fé cristã. Por um lado, temos o docetismo, que relativizava ou negava profundamente a humanidade em Cristo, – seu nascimento, sua paixão, enfim a realidade concreta da Encarnação. Jesus teria assumido o humano de forma aparente e não real.

Por outro lado, encontramos o ebionismo, no extremo oposto. Para este, reconhecer tanto a divindade quanto a humanidade em Cristo feriria a fé monoteísta. Assim, na perspectiva ebionista, Jesus foi apenas um grande homem e profeta que no momento de seu batismo recebeu a Força de Deus, mas não era Deus.

Esses dois modos de conceber a Pessoa de Cristo não foram aceitos na comunidade cristã. São João Evangelista e a tradição joanina salientam continuamente que "o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. Há uma afirmação contínua do realismo da Encarnação nos textos joaninos, tanto no Evangelho como na primeira Epístola de São João.

Santo Inácio de Antioquia (séc.s I-II) foi um grande bispo e Padre da Igreja, isto é, um importante escritor do período antigo que colaborou profundamente na elaboração da doutrina cristã e na sua defesa. Sofreu o martírio em Roma por amor a Cristo e sempre defendeu uma cristologia que afirmasse tanto a humanidade quanto a divindade de Cristo. Na sua Carta aos Efésios (7,2), ele diz: “Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado. Deus feito carne, Filho de Deus e Filho de Maria Virgem, Vida verdadeira na morte, Vida primeiro passível e agora impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor”.

Percebemos, desta maneira, que desde o início da Igreja já havia uma fé clara no Mistério de Cristo como Deus e homem, e uma postura de recusa a qualquer pensamento que negasse este dado da Revelação.



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Esta é a segunda parte de uma série de postagens relacionadas entre si, adaptadas do conteúdo do recém-lançado (e precioso) opúsculo do Prof. Dr. Joel Gracioso, “Heresias: tão antigas e tão novas” (Kenosis/DDM, 2015), que divulgamos, pedindo a Nosso Senhor que renove, nos corações dos homens, o amor sincero pela Verdade eterna.

** O opúsculo pode ser adquirido por e-mail:
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Fonte:
GRACIOSO, Joel, Heresias: tão antigas e tão novas. São Paulo: Kenosis; DDM, 2015, pp. 15-17.
* O texto deste artigo contém excertos de Henrique Sebastião, autor/editor de 'O Fiel Católico'

Frei Galvão: histórias do ainda desconhecido santo brasileiro


GRATA SURPRESA terá quem ler o singelo livro da jornalista e pesquisadora Marleine Cohen, lançado no ano 2013 pela editora Benvirá, intitulado "Frei Galvão: a história do primeiro santo brasileiro".

Com simplicidade (mas sem perder a necessária profundidade) e correção, a autora nos leva a conhecer a vida e a obra deste grande personagem da Igreja de Nosso Senhor no Brasil. Com uma linguagem envolvente e leve, que faz com que não se queira largar o livro antes de concluir a leitura, a obra me deu a nítida impressão de conhecer pessoalmente o queridíssimo frei, de ter presenciado algumas passagens de sua impressionante vida de santidade (confesso que determinado trecho me levou às lágrimas, eu que não sou nem nunca fui 'chorão'). A pesquisa foi bem feita e merece respeito. Recomendo a leitura a todos os leitores fiéis católicos. Abaixo, reproduzo pequeno trecho da obra:

Coroando a figura de frei Galvão, os dons que manifestou ao longo da vida – e que orbitaram em torno dele,m aonde quer que fosse, como que para confirmar sua santidade – transformaram-no no mítico sacerdote das mil e uma graças que nenhum fiel jamais esquece.

 – Ué, senhor padre, então "vossemecê" anda sem pisar no chão?

A curiosa observação, feita por uma senhora idosa que vinha caminhando em sentido contrário quando a vistou o frade todo recolhido, como que... voando, encontra eco em numerosos testemunhos, guardados a sete chaves no Mosteiro da Luz, acerca da capacidade que ele tinha de levitar.

Essa fama de “levitador” deu origem ao seguinte refrão, identificado pelo historiador Afonso d’Escragnolle Taunay em Limeira:

"Nas minhas aflições
dai-me consolação
senhor meu frei Galvão
que não pisais no chão"

A quadrinha varreu cidades e foi se instalar em Araras, não sem antes amedrontar, fato comprovado, um bando de meninos que brincava numa fazenda no interior paulista. Certa feita, tarde da noite, assim que o frei se recolheu, as crianças pararam com suas brincadeiras para dedicar-se a uma em especial: descobrir o que o padre estaria fazendo no quarto. Amontoados debaixo da janela, um deles se acocorou sobe os demais e arriscou uma espiadinha para dentro do aposento. Arregalando os olhos, antes de sair em disparada, pôs-se a gritar: ‘Frei Galvão está voando! Frei Galvão está voando pelo ar!”. E pernas para que vos quero!

Nem sempre, porém as fantásticas habilidades de frei Galvão assustaram os fiéis. Ao contrário. Certa vez, no distrito de Potunduva (Airosa Galvão), município de Jaú, o seu dom de bilocação, longe de mantê-lo à distancia, resultou em que, poucas vezes, sua presença fosse tão suplicada.

Aconteceu na Fazenda Santa Cruz, nos idos de 1810, às margens do rio Tietê, na orla do sertão.

Naquela época, conta Afonso Taunay,

"no bairro de Potunduva, todos os moradores viviam do tráfego das monções1. Ali residiam algumas famílias de caboclos, cujos homens se empregavam como proeiros, remeiros e varejeiros dos canoões das flotilhas a trafegarem entre Porto Feliz e Cuiabá.
Entre os mestres das monções, era particularmente prestigioso Manuel Portes, graças à ordem que sabia manter entre as tripulações, o cuidado, ou antes, o rigor com que executava as encomendas e escrupulosa fidelidade na entrega de dinheiro e mercadorias. Era um mameluco de prodigiosa energia, hercúleo e violento, sobremodo propenso a deixar-se arrebatar pela cólera. Seus subordinados o temiam imenso, pois não trepidava em castiga-los do modo mais rude. 
Os negociantes de São Paulo e Mato Grosso nele depositavam grande confiança. E muitos esperavam ansiosos a sua presença de capataz de monção reiuna2 para lhe entregarem a mercadoria.
Vinha este sertanista conduzindo a monção reiuna que subia o Tietê rumo a Porto Feliz. Tinha queixas da desídia de um de seus homens (...), um certo Apolinário, caboclo indolente e pouco afeito à disciplina férrea do mestre. Já o repreendera este várias vezes e o ameaçara, e o homem se humilhara, mas não se emendara. Abicados os canoões à barranca do Tietê e desembarcadas as equipagens, para o jantar, pusera-se Manuel Portes à fazer a costumeira revista e ronda diária. E aí apanhara novamente o caboclo em falta.
Deixara-se então levar a uma das frequentes cóleras furibundas. Tomando uma açoiteira, chibateara rijamente o remeiro, que, aliás, não se defendera.
Pouco depois, estava Portes conversando com um de seus homens quando inesperadamente sentiu um forte murro às costas. Voltando-se, viu Apolinário que fugia a correr, empunhando enorme facão. Terrível fora a punhalada, não tardando que o apunhalado caísse prostrado por enorme hemorragia.
Sentindo que a vida o abandonava, no auge do desespero, Manuel Portes se pôs a gritar: ‘Meu Deus, eu morro sem confissão! Virgem Mãe de Deus, perdão! Perdão! Senhor Santo Antônio, pedi por mim! Dai-me confessor! Vinde, frei Galvão, assistir-me!'."

E Afonso de Taunay continua a descrição:

"De todos os lados acudiram os comandados, e dentro em breve estava ele por terra moribundo, já com voz sumida, a pedir a presença de um padre, a clamar por Nossa Senhora e os santos de sua devoção. Cercavam-no os homens da monção, impressionados com aquele desespero piedoso.
Mas onde, naquela selva, arranjar confessor que confortasse o moribundo?
Subitamente, gritou um dos circunstantes 'Aí vem um padre!'. E todos de olhos esbugalhados, absolutamente estarrecidos, viram um franciscano que se adiantava para o agonizante. Nele reconheceram frei Galvão, cuja figura lhes era familiar (...)."

Assim relataram as testemunhas:

"Aproximou-se o querido sacerdote, afastou com um gesto os espectadores da trágica cena, abaixou-se, sentou-se, pôs a cabeça de Portes sobre o colo em falou-lhe em voz baixa, encostando-lhe depois o ouvido aos lábios. Ficou assim alguns instantes, findos os quais abençoou o expirante. Levantou-se, então, fez um gesto de adeus e afastou-se de modo tão misterioso quanto aparecera, deixando estáticos os presenciadores de tão estranha ocorrência, certos de haverem presenciado um milagre."

Altar-Mor da Igreja do Mosteiro da Luz

Mas como pode? Reza o consenso popular que naquele instante frei Galvão se encontrava em São Paulo, pregando. Pois fato é que ele interrompeu a pregação pediu que se rezasse uma Ave-Maria pela salvação de um moribundo em lugar distante e, acabada a oração, levantou-se e prosseguiu com o seu sermão.

No Porto de Potunduva, sepultaram Manuel Portes sob um tosco cruzeiro. Mais tarde , no mesmo local onde uma tabuleta sustentava uma pirogravura representando o frade menor ouvindo a confusão de um moribundo, em alusão ao fato, foi erguida a Capelinha de Frei Galvão, que as águas de uma enchente arrastaram em 1950.

Essa tabuleta desapareceu – não se sabe como nem quando. Uns dizem que foi consumida pelo fogo dos círios acesos pelos devotos; outros sustentam que se perdeu porque os canoeiros do Tietê tinham o costume de leva-la consigo em suas viagens, à guisa de proteção. Seja como for, não faltou quem levantasse outra capela, sólida e definitiva, em local mais seguro. Em torno dela ainda ondeia a devoção popular, com sua festa estabelecida em 3 de maio.

Mas frei Galvão não só levitava e aparecia em dois lugares ao mesmo tempo: tinha o dom da telepatia e se comunicava à distância, por transmissão de pensamento e sensações. Sua premonição e telepercepção, isto é, a faculdade de prever o que vai acontecer e de tomar conhecimento de fatos ocorridos em regiões afastadas, também eram bastante apuradas. Além disso, era clarividente. Conta-se que, certo dia, os sinos do Mosteiro da Luz tocaram insistentemente fora de hora. Sempre que acontecia, a população atendia à convocação, temerosa: era como um alerta de que algo inusitado estava em curso.

Já bem idoso, frei Galvão tomou a palavra para anunciar: 

 – Rebentou uma revolução em Portugal – e pôs-se a descrever os detalhes do conflito, como se os estivesse vendo diante dos olhos.

Semanas depois, notícias do além-mar davam conta do fato: no dia 24 de agosto de 1820, eclodira no Porto um movimento com o objetivo de convocar as cortes e dotar Portugal de uma constituição.

Levitações, (bilocação) telepercepções, clarividência: tão preciosa lavra espiritual teria se perdido no tempo, não tivesse ela sido revestida de um húmus especial: as chamadas pílulas de frei Galvão, que deram perenidade às suas graças e ainda hoje o mantém quase vivo entre seus numerosos devotos em todo o mundo.

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Notas:
1. Antigas bandeiras ou expedições que partiam em exploração pelo interior, descendo e subindo rios das capitanias de São Paulo e Mato Grosso, nos séculos XVIII e XIX, pondo-as em comunicação. – Dicionário MICHAELIS, Melhoramentos, 2013.
2. Diz-se de certa espingarda ou fuzil de cano curto (hoje em desuso) – Idem.
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 Fonte:
COHEN, Marleine. Frei Galvão: a história do primeiro santo brasileiro. São Paulo: Benvirá, 2013, pp. 80-86.
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Publicações de inspiração católica vivem crise na Itália


UMA REVISTA DE INSPIRAÇÃO católica, que já foi líder entre as publicações de opinião nas discussões da Igreja, vai deixar de ser publicada até o fim de 2015, – mais uma evidência da crise que tem assolado as publicações católicas durante as últimas décadas.

A "Il Regno", uma revista bimestral que começou sua publicação em 1956 (antes do Concílio Vaticano II), vai deixar de ser publicada depois de uma decisão da Província Setentrional italiana dos padres Dehonianos, os editores da revista. Em comunicado, os padres ressaltaram que a decisão de terminar a publicação foi “sofrida”, pois enfraquece a presença de uma “protagonista da vida eclesial e da reflexão civil”, mas foi uma escolha inevitável devido a problemas econômicos.

Além do desaparecimento da "Il Regno" do cenário da mídia italiana, é preciso salientar que a maioria das outras revistas de inspiração católica do país também vivem hoje uma crise financeira. Algumas tiveram que se renovar, enquanto outras foram completamente extintas.

Em 2012, a "Trenta Giorni", publicação mensal do movimento Comunhão e Libertação, lançada em 1983, encerrou suas publicações. Principalmente focada na vida da Igreja, na diplomacia e na análise em profundidade, a revista mensal também era entregue gratuitamente para as missões católicas em quatro idiomas diferentes.

Em 2014, a revista "Ad Gentes", a única na Itália completamente dedicada às missões, encerrou também suas atividades porque não conseguia atrair assinaturas suficientes.

O padre Piero Gheddo, um antigo missionário, comentou sobre o encerramento da "Il Regno", dizendo que:

Em décadas anteriores “havia a clara afirmação da nossa identidade [católica]: ir ao encontro dos povos não cristãos, aonde a Santa Sé nos mandava, anunciar e testemunhar o Cristo e seu Evangelho, do qual todos precisam. Sim, também se falava das obras de caridade, educação, saúde, de promoção de direitos e obras de justiça pelos pobres e explorados. Mas, acima de tudo, estava emergia e o entusiasmo de sermos chamados por Jesus para levá-Lo a povos que vivem sem conhecer o Deus do amor e do perdão.

E hoje? Uma falta de identidade missionária atual poderia ser uma das razões pelas quais as revistas católicas estão enfrentando dificuldades agora. Junto com a "Il Regno", os padres dehonianos também decidiram descontinuar outra publicação, a "Settimana", revista mensal repleta de reflexões teológicas de alto nível, que era leitura obrigatória entre os sacerdotes, especialmente na Cúria vaticana.

Olhando para a frente, o fechamento da "Il Regno" levanta muitas questões: ainda há espaço para as informações de inspiração católica em um mundo saturado de mídia materialista e anticristã?

Encerramos reiterando nossos pedidos aos nossos leitores para que nos auxiliem, como puderem, na manutenção de nossa própria singelíssima publicação, que apesar das muitas dificuldades e de nossas limitações, já serviu como auxílio a muita gente. – Veja aqui como nos ajudar.

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Ref.:
Artigo homônimo de Andrea Gagliarducci para a Catholic News Agency (CNA)
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A Assunção da Santíssima Virgem

Francesco Botticini (1475-6), 'A Assunção da Virgem'

POR MAIS QUE REFLETÍSSEMOS, por mais que nos esforçássemos e exercitássemos a imaginação, jamais seríamos capazes de conceber uma glória maior do que a que recebeu a santíssima Virgem Maria, – que foi escolhida para ser a mãe de Jesus, isto é, ser mãe do Filho de Deus e, portanto, Mãe de Deus.

Entenda-se que Maria Mãe de Deus não é uma doutrina meramente humana, “inventada” pela Igreja muitos séculos após os eventos narrados nos Evangelhos, como imaginam alguns. Se cremos nas Sagradas Escrituras, precisamos aceitar que foi Deus mesmo Quem deu este título à Virgem de Nazaré, quando o Espírito Santo, pela boca de Isabel, a saudou chamando-a “mãe do meu Senhor” (Lc 1,39-45), – sendo que o título “Senhor”, aqui, inegavelmente quer dizer Deus, como em todo o contexto bíblico. – Quando chamamos Maria Mãe de Deus, é isto o que confessamos: do ventre virginal de Maria veio Deus, Nosso Senhor, ao mundo. Por isso é que Maria é Nossa Senhora e nossa Mãe do Céu. Também por isso quis Deus lhe conceder as maiores recompensas. Terminado o seu tempo de vida terrestre, Maria foi “assunta”, levada ao Céu, em corpo e alma.

Diz uma antiga e piedosa tradição (não a Sagrada Tradição) que Maria de fato não morreu, apenas “dormiu” e, então, foi levada aos Céus pelos arcanjos São Gabriel e São Miguel. Trata-se da chamada "dormição de Maria". Desse modo, teria Nosso Senhor conservado a integridade da carne daquela de quem quis tomar sua própria carne, para a salvação do mundo. Desse modo, a Virgem Maria teria sido assunta aos Céus imediatamente após o fim de sua vida terrena, sendo que seu corpo não teria sofrido corrupção como sucederá aos homens e mulheres que ressuscitarão até o fim dos tempos.

Esta tradição, porém, não é dogma da Igreja. Outras correntes de pensamento, também muito antigas e dignas de atenção, refletem que, se até mesmo o próprio Deus feito homem conheceu a morte, todo ser humano, sem nenhuma exceção, também haverá de experimentá-la (até mesmo aqueles que estiverem vivos por ocasião da Segunda Vinda do Cristo).

Fato é que ao definir o dogma sobre a Assunção da Virgem, o Papa Pio XII preferiu não se pronunciar sobre esta questão: passou a Mãe do Senhor pela morte e ressurreição antes de entrar na Bem-aventurança celeste? Foi elevada diretamente da vida mortal ao Triunfo eterno? Diante do silêncio prudente e intencional do Magistério da Igreja sobre o assunto, fica ao arbítrio de cada fiel crer ou não na ressurreição de Maria.

A Assunção de Nossa Senhora, todavia, foi sempre transmitida no correr dos séculos. Não se encontra explicitamente nas Sagradas Escrituras, mas poderíamos dizer que está implícita em seu contexto. O testemunho preservado dos primeiros cristãos dá conta de que, na ocasião de Pentecostes, Maria Santíssima tinha aproximadamente 47 anos de idade. Permaneceu ela por mais 25 anos na Terra, a educar e formar a Igreja nascente, como outrora educara e protegera Deus Filho em sua infância. Conforme a opinião mais comum, terminou sua imensa missão neste mundo com a idade de 72 anos.

Diversos Padres da Igreja atestam que os Apóstolos foram milagrosamente levados à Jerusalém na noite que precederia o desenlace da Bem-aventurada Virgem Maria1. S. João Damasceno, um dos mais ilustres doutores da Igreja Oriental, atesta que os fiéis de Jerusalém, ao avisados do falecimento da Mãe querida (como a chamavam), vieram em multidão prestar-lhe as últimas homenagens, e que se multiplicaram os milagres ao redor do seu corpo. Três dias depois chegou S. Tomé Apóstolo, que pediu para ver o corpo da Virgem. Ao retirar-se a pedra, não se achava mais o corpo. Pela Virtude do Filho, ressuscitara Maria. Alma e corpo imaculado vivem na Glória celeste.

Estas antigas tradições da Igreja sobre o Mistério da Assunção da Mãe de Deus podem ser encontradas nos escritos dos Santos Padres e Doutores da Igreja dos primeiros séculos, e relatadas no Concílio geral de Calcedônia, de 451.



A solenidade da Assunção de Maria, no início era chamada “Dormição” de Nossa Senhora, pelos motivos que expostos no início. A celebração foi oficializada aos católicos orientais no século VII, com um édito do imperador bizantino Maurício. Ainda no ano 687, a Festa foi introduzida também em Roma pelo Papa Sérgio I, quando foi em procissão à Basílica de Santa Maria Maior celebrar o Santo Ofício. Logo depois, o nome “dormição” cedeu ao de “assunção”, como permanece até os nossos dias.

A assunção é o evento culminante da existência de Maria. Para a Igreja, depois da definição do papa Pio XII, com a Constituição dogmática Munificentissimus Deus (1950), é dogma; verdade a ser aceita pela fé. E esse processo de convicção de fé se explica – e a definição dogmática pontifícia se justifica – não somente pela Tradição, mas também pelo fato de a Assunção de Maria encontrar sua raiz implícita e indireta também no testemunho da Sagrada Escritura tal como foi gradualmente lida e aclarada pelos Padres da Igreja, pelos teólogos e pelo senso da fé dos santos sob a ação iluminadora do Espírito Santo, Inspirador da Palavra de Deus por escrito e Fiador da autenticidade da fé da Igreja de Cristo.
Aspectos desta verdade mariana:

1. Cristológico: a Mãe é “assemelhada” ao Filho glorioso; seguiu-o na fase definitiva e gloriosa de sua existência.

2. Eclesiológico: a Igreja, que tem em Maria o seu início e a sua imagem perfeita, também nela, que sobe ao Céu, pode contemplar seu futuro e ter um sinal de consolação e de segura esperança da própria realização.

3..Mariológico: Maria alcançou a plenitude de sua salvação e a realização de sua existência como criatura humana amada por Deus de modo sublime.

4. Antropológico: o humano alcançou nela, por favor divino, a plenitude de sua realização integral; nela pode, pois, contemplar o futuro a ele prometido por Deus e nessa contemplação reavivar o desejo de alcançá-lo.

A festa da Assunção, enfim, nos convida a meditar sobre a glória inefável concedida à Santíssima Virgem, “Porta do Céu” e “Refúgio dos Pecadores”. Nesta meditação, como dissemos no início, quanto mais o homem procura aprofundar-se no conhecimento de Deus, mais compreende que não conseguirá abarcá-Lo, tais as grandezas e mistérios com que se depara.

Deus Criador, – Todo-Poderoso e Todo-Sapiente, – estabelece as regras, mas podemos ver que se apraz em criar magníficas exceções, que muito nos inspiram. Uma criatura não poderia ter sido feita em grau mais excelente, ensina a Teologia: Maria, sendo humana, não poderia ser mais perfeita. Ela é o próprio Tabernáculo de Deus da nova e eterna Aliança, que por meio dela se doa aos Bem-aventurados. Maria é a Mãe da Vida!

** Leia um estudo mais completo sobre o dogma da Assunção de Nossa Senhora

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1. Alguns autores primitivos/patrísticos que trataram o tema: Pseudo-Melito de Sardes, Epifânio de Salamissa, Timóteo de Jerusalém, João o Teólogo, Gregório de Tours, Teoteknos de Livias, Modesto de Jerusalém, Germano de Constantinopla, São João Damasceno. Algumas obras primitivas sobre a assunção da Virgem Maria são: A Dormição da Santa mãe de Deus (João o Teólogo); A passagem da abençoada virgem Maria (José de Arimateia); A passagem da abençoada virgem Maria (Melito de Sardes); Homilia sobre a Dormição (Cirílo de Jerusalém); Homilia sobre a Dormição (Evódio de Roma); Homilia sobre a Dormição (Teodósio de Alexandria); Homilias sobre a Dormição da virgem (João Damasceno); “Os Seis Livros Apócrifos” (séc. IV)
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Fontes:
• ‘Assunção da Virgem Maria’, Portal Paulinas, disp. em:
paulinas.org.br/diafeliz/?system=santo&id=355#ixzz3gRq9pXjO
Acesso 20/7/015
• Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2004, n. 32, p. 18 à 20
• SAADEH, Fr. Ya’cub H. Saadeh; MADROS, Fr. Peter H. Fé e Escritura, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 1995, pp. 161-162.
• LEXICON, dizionario teologico enciclopedico. Casale Monferrato: Piemme Spa, 1993, pp.56-58
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São Filipe Neri, o apóstolo da santa alegria


NO DIA 21 DE JULHO do ano do Se 2015 celebramos o quinto centenário de nascimento de um dos santos mais marcantes da história da Igreja: o grande São Filipe Neri, nascido a 21 de junho de 1515.

Os santos são modelos para nós. Pelo modelo de suas vidas, nos ensinam de modo concreto como servir a Deus e praticar a virtude. Que lição especial nos dá Filipe Neri? Esse amável Santo italiano nos ensina a “servir o Senhor com alegria” (Salmo 99,2). Por seu caráter jovial, foi chamado “santo da alegria” ou “o jogral de Deus”. Ele é o padroeiro da santa alegria. Assim, pode ser um poderoso intercessor quando estivermos acabrunhados com o peso da vida ou em nossos períodos de tristeza ou depressão, infelizmente tão frequentes nos dias difíceis que vivemos.

Filippo Romolo Neri, segundo filho de Francisco Neri e Lucrecia da Mosciano, nasceu na bela cidade de Florença, Toscana, Itália. O casal tinha já uma filha, Catarina, nascida dois anos antes, e teria, três anos depois, Elizabetta (ou Isabel). Outro filho, Antônio, morreria em tenra idade.

Filipe foi batizado na igreja São Pedro Gattolino no dia seguinte ao do seu nascimento. O pai, modesto tabelião, era um bom católico. Sua família havia sido nobilitada no serviço do Estado por ter exercido, durante gerações, funções de relevo na cidade.

Menino de apenas cinco anos, Filipe perdeu a mãe. Encontrou na madrasta, Alexandra de Michele Lensi, uma digna sucessora, que o amou como a um filho. Era criança tão amável que logo era chamado “Pippo Buono”, o “bom Filipinho”. Essa bondade de coração e amabilidade contagiantes, permeadas pela Graça divina, seriam no futuro o grande segredo das conquistas do seu apostolado.

Sua irmã Isabel, testemunha no processo de beatificação, diz: “Ele jamais deu desgosto a seu pai, nem fez algo pelo qual o repreendesse (exceto uma zanga feita uma vez à irmã). (...) Pacífico, jamais se zangou; alegre [ou ‘brincalhão’], máxime com a madrasta, manso e paciente” (Cistellini, p.19).

Filipe aprendeu as primeiras letras com um professor chamado Clemente, que lhe ensinou a ler, escrever, contar. Da primeira infância restam-nos dois episódios narrados por seus primeiros biógrafos. Pippo tinha por volta de oito anos quando, num dia em que queria silêncio para refletir, sua irmã o perturbava. Estavam eles no alto de uma escada. O menino não teve dúvidas: aplicou-lhe um empurrão, e ela rolou escada abaixo. O outro fato é visto como a primeira intervenção visível da Providência divina em sua vida: mais ou menos com a mesma idade, Filipe foi brincar num terreiro perto da casa. Vendo uma mula carregada de frutas, de algum vendedor, não hesitou: pulou-lhe no lombo para cavalgá-la. A besta, assustada, desequilibrou-se e caiu. Mula, carga e menino rolaram pelo chão, caindo num profundo porão. Quando os pais e vizinhos acorreram pensando encontrar o menino morto, viram-no ileso e rindo da aventura.

Filipe estudou depois no convento dominicano de São Marcos, de sua cidade natal. Mais tarde dirá que devia muito do seu progresso intelectual a dois professores daquele convento, Frei Zenóbio de Medici e Frei Servanzio Mini.


O comércio ou o divino

Aos 18 anos, Pippo foi enviado para a Vila São Germano, aos pés do Monte Cassino, para a casa do tio (primo-irmão do pai) Bartolomeu Romolo, para ser iniciado na carreira de comerciante. Ganhou a confiança e afeição do tio, mas, apesar de se empenhar no negócio, suas cogitações estavam muito acima das mercadorias com que lidava. Logo se viu que não tinha tino comercial. Apenas terminado o trabalho do dia, retirava-se para alguma igreja ou oratório, abundantes na Itália. Servia-se também do emprego para fazer apostolado, perguntando aos fregueses se sabiam rezar, ou se haviam feito a Páscoa. O tio dizia: “Filipe nunca será bom comerciante. Eu lhe deixaria toda a minha herança, se não fosse a mania de rezar”. Para Filipe, a “mania” era uma necessidade. “Nada ajuda mais o homem do que a oração”, diria mais tarde.

Um local para onde Filipe se retirava com frequência era uma capela de montanha dos Beneditinos de Monte Cassino, construída sobre a Baía de Gaeta, na fenda de uma rocha que, segundo uma tradição, fendera-se na hora da Morte de Nosso Senhor.


Na Cidade Eterna

Em 1534, com 20 anos incompletos, movido por um impulso sobrenatural, sem avisar seus pais ou qualquer parente, Filipe partiu para Roma como peregrino, na mais completa pobreza.

Na Cidade Eterna, procurou Galeotto Del Caccia, aristocrata seu conterrâneo, aduaneiro; em troca de aulas para seus dois filhos, passou a receber pousada e uma renda de farinha, que transformava em pão para seu sustento. Seu quarto na casa do aristocrata era um verdadeiro cubículo, com apenas um leito, uma mesinha e uma corda presa à parede para pendurar suas roupas.

Filipe destinava quase todo seu tempo livre à oração. Sua vida era tão pura e edificante que logo chamou atenção: começou a se espalhar a sua fama de santidade, – fama que chegou até Florença. – Quando falaram dele à sua irmã Isabel, ela disse: “Não me surpreende. Desde seus primeiros anos, vendo suas virtudes, eu podia já conjeturar que se tornaria um grande santo”.


Estudos

Depois de dois anos de vida reclusa, Filipe resolveu recomeçar seus estudos, cursando Filosofia no Estudo Geral dos agostinianos. – Alguns de seus mestres participaram ativamente no Concílio de Trento. – Cursou ainda Teologia na Universidade La Sapienza. Esses estudos foram de pouca duração. Explica seu discípulo, Cardeal César Barônio: “Toda a organização acadêmica do tempo, o sistema escolástico, era-lhe áspero: as disciplinas filosóficas eram para ele verdadeiras cadeias, das quais logo se decidiu livrar... Dir-se-á, em seguida, que o fato de abandonar o estudo se dera pelo quotidiano encontro, nas aulas, de um grande crucifixo, que o comovia às lágrimas” (Cistellini, pp. 27-8).

Algumas fontes mostram que, em 1538, quando julgou ter aprendido bastante, Filipe vendeu seus livros para socorrer os pobres. Assim ajudou um jovem sacerdote calabrês em dificuldades, Guilherme Sirleto, que depois seria cardeal. Todavia, embora não tenha mais estudado com regularidade, sempre que chamado a dar seu parecer, apesar da habitual reticência, surpreendia os eruditos pela profundidade e clareza de seus conhecimentos teológicos. De fato, “até seus últimos anos discutia as questões mais elevadas e sutis com tanta facilidade e erudição como os que consagram a vida ao estudo. Não se esqueceu mesmo das controvérsias mais importantes, e espantava ouvi-lo repetir com exatidão, os sentimentos dos doutos sobre tais questões, e os raciocínios nos quais se apoiavam”(Guérin, p.217). Despojando-se dos livros, Filipe manteve dois: a Suma Teológica e a Bíblia. Considerava Santo Tomás o teólogo por excelência, e sempre, nos debates, apoiava-se no Doutor Angélico.

Foi provavelmente durante o ano em que servia como tutor dos filhos de Caccia que Filipe escreveu a maior parte de suas poesias, em latim e italiano, que, infelizmente, não passaram à posteridade, pois Filipe, antes de morrer, queimou todos os seus escritos, restando apenas alguns sonetos. Isso explica o pouco que temos de material de seu próprio punho.


Cristo no próximo

Por dezessete anos Filipe viveu como leigo, sem pensar em tornar-se sacerdote. Tendo conseguido juntar um pequeno pecúlio para atender às suas parcas necessidades, entregou-se totalmente ao apostolado com os doentes e pobres, o que lhe valerá mais tarde o título “Apóstolo de Roma”. Passou a frequentar os hospitais da cidade, e se inscreveu na confraria de Santa Maria da Purificação para assistência dos enfermos no Hospital São Tiago dos Incuráveis. Mesmo leigo, em harmonia com a assistência material Filipe pregava a todos a Palavra divina. O Santo passou a fazer, ainda, a visitação das “sete igrejas” (S. Pedro, S. Paulo extra-muros, S. Sebastião, S. João de Latrão, S. Lourenço extra-muros, Sta. Maria Maior e Sta. Cruz de Jerusalém) antiga devoção popular que depois legou ao Oratório.


Filipe e Inácio

Por aquele tempo, Filipe frequentava a igreja Santa Maria da Estrada, dos primeiros jesuítas; assim conheceu Santo Inácio de Loyola. Consta que esse Santo quis Filipe entre os seus, para enviá-lo às Índias, mas este preferiu aguardar os desígnios de Deus. Entretanto, enviou muitos recrutas para a recém-fundada Companhia de Jesus. Santo Inácio dizia que Filipe era como um sino, que chama os demais para entrar (na igreja), ficando do lado de fora...



O Pentecostes de São Filipe Neri

No ano 1544, – no qual Filipe dizia que tivera início a sua “conversão”, – Filipe estava na Catacumba de São Sebastião rezando ao Espírito Santo, quando se deu o grande milagre que ele próprio narrou ao cardeal Federico Borromeu.

Pouco antes da Festa de Pentecostes daquele ano, após a aparição de São João Batista, “golpeou-o um ímpeto de ardor, uma irrupção do Espírito Santo que o fez cair por terra e marcou seu corpo” (Cistellini, pp.30-31). Sobre tal, afirmou Vittori, seu médico: “Dizia-me que, aos trinta anos, tinha grande fervor e pedia ao Espírito Santo que lhe desse um cúmulo de espírito; disse-me que lhe fora dado tanto que o lançou por terra. Ao se levantar, sentiu elevado o peito e uma contusão por dentro, a qual durou enquanto viveu” (Cistellini,p.31).

Seu biógrafo Pietro Giacomo Bacci descreve assim o que sucedeu: “Quando ele estava com o maior empenho pedindo os Dons do Espírito Santo, apareceu-lhe um globo de fogo que entrou por sua boca e se alojou em seu peito; em seguida, ele ficou tomado por tal fogo de amor que, incapaz de suportá-lo, atirou-se ao solo; como alguém que tenta se refrescar, despiu seu peito para de algum modo moderar a chama que sentia. Após permanecer assim por algum tempo e recuperar-se um pouco, levantou-se cheio de inusitada alegria, e imediatamente todo seu corpo começou a tremer violentamente; pondo a mão no peito, sentiu no lado do coração um inchaço grande como o punho de um homem; mas, nem então nem depois, isso provocou a mais leve dor ou ferida” (Ritchie, op.cit).

Quando, depois da morte, os médicos examinaram seu corpo, constataram que o coração estava dilatado e que, para que houvesse espaço suficiente em seu peito para mover-se, haviam se quebrado duas costelas, que tomaram a forma de arco. Um dos médicos que fez a autópsia, Andrea Cesalpino, declarou: “Percebi que as costelas estavam rompidas naquele ponto, isto é, separadas da cartilagem. Só dessa maneira era possível que o coração tivesse espaço suficiente para levantar e abaixar. Cheguei à conclusão de que se tratava de algo sobrenatural, de uma providência de Deus para que o coração, batendo tão fortemente como batia, não se ferisse contra as duras costelas”.



Devorado pelo fogo divino

A partir desse milagre, seu coração palpitava violentamente a cada ação espiritual que praticava. “Crescia esta palpitação (...) estando em oração, e às vezes 6 o fazia tremer, bem como a cadeira ou cama onde se achava, e até mesmo o aposento, como se fosse um terremoto. Sentia ele também, naquela parte, um calor tão excessivo que, por mais frio que fizesse, e sendo já muito velho, era obrigado a desabrigar o peito e, às vezes, sendo inverno, abrir as portas e janelas do aposento para compensar o fogo que se espalhava por todo seu corpo” (Ribadeneira, pp.332).


O berço do Oratório

Por volta de 1547, Filipe passou a frequentar a igreja da Arquiconfraria de São Jerônimo da Caridade. Ali vivia um grupo de sacerdotes seculares de vida exemplar, constituindo pequena comunidade. Cada um vivia livremente das próprias rendas, a serviço do templo e da Confraria, tendo mesa em comum. Não se obrigavam a votos. Foi este o berço do Oratório de São Filipe Neri.

Por sua boa fama, tal igreja passou a ser o ponto de referência para eclesiásticos chegados a Roma, entre os quais estarão alguns dos filhos mais queridos de Filipe. Foi ali que o Santo encontrou seu primeiro confessor (primeiro de que se têm notícia), padre Persiano Rosa, a quem se afeiçoou pelo ânimo alegre e espírito sereno. Nesse tempo Filipe começou suas conquistas entre seus jovens conterrâneos, aprendizes e empregados de banco. Sentia-se atraído especialmente a cuidar dos jovens. Para pô-los em guarda contra as seduções da idade e conservar o frescor da virtude, dizia-lhes que se lembrassem sempre das palavras do Profeta: “Bem-aventurado o homem que leva o jugo do Senhor desde a juventude”; e os exortava à mudança de vida. Sua voz e suas maneiras eram tão atratentes que muitos, cedendo ao seu exemplo e benigna influência, renunciavam às frivolidades do mundo e se entregavam totalmente a Deus. Consta que, numa só ocasião, converteu trinta jovens dissolutos.


Confraria da Santíssima Trindade

Em 1548 Filipe fundou, com Persiano Rosa, a Confraria da Santíssima Trindade. Sua finalidade era totalmente devocional, com preeminência ao culto eucarístico. Os confrades se reuniam na igreja de São Salvador in Campo para a Comunhão e exercícios de piedade. Aí o Santo introduziu pela primeira vez em Roma a exposição do Santíssimo Sacramento, na devoção das 40 Horas. Durante o ano jubilar de 1550, o Vicariato de Roma conferiu à Confraria uma nova e estável finalidade: a assistência aos peregrinos e convalescentes que, saindo do hospital, necessitavam ainda cuidados. Crescendo a associação, “as obras que os confrades exercitavam com os peregrinos e convalescentes causaram tanta edificação que muitos quiseram imitá-los, vindo pessoas de grande qualidade e prelados eclesiásticos servir aos pobres; até o papa Clemente VIII vinha lavar-lhes os pés, abençoando-lhes muitas vezes a mesa, e servindo-lhes nela” (Ribadeneira, p.333).

Não contente com a visita a hospitais, Filipe se punha também a percorrer ruas e praças, falando às pessoas sobre a religião e as coisas de Deus, de maneira comovedora e cativante. A um perguntava: “Então, meu irmão, quando é que começamos a amar a Deus?”; a outro: “É hoje que nos decidimos nos comportar bem?” Era, sobretudo, um semeador da santa alegria dos filhos de Deus.


Costumes angélicos

Como um ímã, Filipe continuava a atrair gente para seu grupo. Era todo fervor e alegria; entretinha o crescente núcleo de discípulos com fervorosos sermões. Atingia o auge da maturidade, sendo assim descrito por um conterrâneo: “Era de belíssimas feições (...) e sempre foi tido como de grande bondade e de costumes angélicos”. Sua natureza “sempre alegre e prazenteira”, seu rosto “alegre e jovial”, sua “hilaridade” (atributo que se nomeia com frequência) concorrem até agora para explicar o fascínio que vai exercendo, e sua crescente popularidade” (Cistellini, pp.36-37).

Seus discípulos o admiravam profundamente e testemunharam: “Com todos se familiarizava: crianças, grandes, medianos, mulheres, senhores, cardeais, prelados. Todas as pessoas que falavam com o Padre uma vez, regressavam, e não podiam se separar dele” (Cistellini, p.73). O Cardeal Panfili afirma: “Era afável, agradável e carinhoso com todos, de modo que, com grandíssima facilidade e alegria, atraía para o caminho de Deus qualquer pessoa que com ele tratasse, e eram raros os que escapavam de suas mãos” (idem).



Amor à Eucaristia e à Santíssima Virgem

Outra nota marcante na vida de Filipe Neri foi o amor pela Eucaristia. Era tão grande seu fervor que, em vez de se concentrar na celebração da Missa, tinha que procurar deliberadamente uma distração, para ser capaz de prestar atenção no rito externo do Sacrifício.

“Deus o gratificou com extraordinários carismas: êxtases, levitações (especialmente durante a Celebração eucarística), discernimento dos espíritos, predições, intuição das profundidades do
coração, intervenções prodigiosas para os enfermos” (Cistellini, p.66).

Também “junto com o culto eucarístico, na experiência e na direção, tem notória relevância a devoção à Virgem, que Filipe recomenda como elemento indispensável no progresso da virtude. Sua experiência (...) de uma devoção mariana terna, afetiva, quase infantil, o leva a sugerir aos seus uma singela e compendiada jaculatória repetida como um rosário: ‘Virgem Maria, Mãe de Deus, roga a Jesus por mim’”(Cistellini, p.122-123).


Sacerdote para a Eternidade

Quando Filipe tinha 36 anos, o Pe. Rosa ordenou-lhe, em nome de Deus, que se ordenasse sacerdote. Somente assim, depois de mais estudos, foi-lhe conferido o sacerdócio, a 29 de maio de 1551.

Como sacerdote, o Santo dedicou-se especialmente ao confessionário, onde passava grande parte do dia. “Dedicou-se ao exercício da confissão, no qual consumiu o resto de seus dias”, dirá um de seus discípulos. “O título ideal, que o qualificará para sempre, será o de confessor, conselheiro, guia e mestre das almas” (Cistellini, p.40). Muitos de seus penitentes, levados pelo desejo de recolher a doutrina do pai espiritual, passaram a visitá-lo diariamente. “Pouco a pouco os discípulos se tornaram tão numerosos que foi preciso se reunirem numa igreja; por fim, a concorrência
cresceu tanto que foi necessário distribuir grupos, à frente dos quais o mestre punha seus discípulos mais capazes. Assim nasceu o instituto do Oratório, sem mais regras que os cânones, sem mais
votos que os compromissos do batismo e da ordenação, sem mais vínculos que a caridade”(Urbel, p.457).

O número de seguidores crescia. Um sapateiro, um miniaturista, um notário, outros que convertera quando leigo... As reuniões com o grupo eram informais. “No princípio, liam-se páginas
edificantes e interessantes, de fácil compreensão; seguia-se um comentário do Padre. (...) Alguém tomava a palavra, dialogava-se e se continuava discorrendo durante longo período, sem um programa determinado” (Cistellini, p.42).

Entre seus discípulos estavam Francisco Maria Tarugi, nobre de Montepulciano aparentado com o Papa, depois Arcebispo de Avinhão e cardeal; o célebre historiador da Igreja Cesar Barônio,
doutor em leis, admitido ao grupo em 1557 e que seria dos primeiros a receber o sacerdócio, e depois o sucessor de Filipe na direção do Oratório, e que também se tornou cardeal.


O sonho das Índias

Ouvindo contar as maravilhas operadas por São Francisco Xavier na Índia, e de outros missionários no Novo Mundo, Filipe e seus discípulos pensavam muito em ir também ao Oriente. Entretanto,
querendo conhecer a Vontade de Deus, São Filipe procurou outro Santo: Agostinho Ghettini, religioso cisterciense, seu conterrâneo muito favorecido por Deus, pedindo-lhe que consultasse o Senhor sobre esse seu projeto. A resposta divina foi: “Filipe não deve buscar as Índias, mas Roma, onde o destina Deus, assim como a seus filhos, para salvar almas”. Mais tarde, Filipe diria aos discípulos: “Quem faz o bem em Roma, o faz a todo o mundo”.


Os fidelíssimos padres da Congregação do Oratório de São Paulo, a única
em atividade no Brasil atualmente. – Sentados, a partir da direita,
Padre. Fabiano Micali, Padre Paulo Sampaio Sandes e Ir. Danilo

A singular Congregação

O Oratório surgiu, como vimos, muito modestamente. Sua denominação veio da extensão da palavra, que no princípio se referia a um pequeno edifício, a um sinônimo de confraria. “Foi desde
o princípio uma experiência de agrupamento totalmente singular, nem sequer poderia chamar-se de associação, porque era de participação livre, sem estatutos e elenco de inscritos; uma acolhida
espontânea, regulamentando-se necessariamente na prática”.

“Ao longo de todo o processo de restauração que se construía na Igreja [no século XVI], o aporte de Filipe foi, sem dúvida, o de modelar e propor – com sua esplêndida vida e através de
sua restringida família presbiterial – a singela figura do sacerdote secular, em sua expressão original e genuína”.

“Exatamente por suas características singulares, esta família sacerdotal é absolutamente um unicum na Igreja: não existem instituições, entre inumeráveis, afins a esta. Afirmava-o com autoridade o primeiro sucessor de São Filipe, o padre (depois cardeal) César Barônio, apresentando o texto das Constituições revistas por ele. A Igreja, recordava ele, é a rainha das vestes de jaspe celebrada pelo salmo Circumdata Varietate (Sl 44). A Congregação do Oratório se preza por representar, em sua humilde particularidade, um dos tantos vestidos reais da santa Igreja de Cristo” (Cistellini, p.42).

“O exercício quotidiano da palavra de Deus ‘de modo fácil, familiar, frutífero’ representava a essência particular do Oratório... Neste sistema oratoriano não há nada de escolástico, de retórico, de difícil compreensão: falar ao coração era o método: ‘exortações e fervores mais afetivos que intelectuais’ eram os assim chamados ‘arrazoados’. Filipe não quis jamais que o oratório ‘entrasse
em coisas escolásticas’, para as quais não faltavam escolas ou cátedras em Roma” (Cistellini, p.53).

Em 1564 Filipe também ficou encarregado da igreja de São João dos Florentinos, para lá mandando alguns de seus discípulos. E, em 1575, o papa Gregório XIII concede ao querido filho Filipe Neri, sacerdote florentino e preposto de alguns sacerdotes e clérigos, a igreja de Santa Maria in Vallicella, dedicada à Natividade de Maria (bula Copiosus in Misericordia). Esta bula “ficará como o documento solene de fundação da sociedade oratoriana. A agrupação designada expressamente com esta locução pela bula de Oratorio Nuncupandam, define a congregação por antonomásia:
‘Congregação do Oratório’... Nas Constituições aprovadas pelo papa Paulo V em 1612, o Pontífice declara expressamente que tal convivência presbiterial (mais tarde se agregarão irmãos leigos), ‘instituída por divina inspiração pelo santo Padre Filipe’, estava cimentada só pelo vínculo da caridade, fora de todo vínculo por voto, juramento ou promessa, e assim devesse perseverar na igreja santa ‘de vestiduras variadas’ (Sl 44)” (Cistellini, pp.142-143).


História, apologética e música

Para combater o protestantismo, São Filipe encarregou o discípulo César Barônio de escrever uma verdadeira e documentada História da Igreja, refutando as falsas versões dos heréticos.

O futuro Cardeal levou trinta anos para produzir os seus monumentais Annales Ecclesiatici, que se tornaram paradigma de historiografia católica e mereceram ao seu autor o título de Pai da História Eclesiástica.

Também a música tinha papel importante no apostolado de São Filipe. Ele introduziu, entre os sermões e no final, o cântico de motetes latinos e italianos. E, como ao Oratório acorreram muitos com talento musical, a música ficou nele incorporada como parte importante de sua espiritualidade.

São Filipe era o “Santo da Alegria” mas nunca olvidou sua dignidade e responsabilidade. Exigia dos membros e hóspedes do nascente Oratório obediência total, sob pena de expulsão. Ao morrer, deixou um documento no qual fazia severo juízo sobre vários membros da Congregação, não os querendo como sucessores. Chegou a denunciar ao Santo Ofício como herege a um dos seus mais antigos discípulos. Este, mantido na prisão por um ano, foi depois absolvido. Entretanto Filipe não quis recebê-lo de volta na comunidade, apesar das súplicas de autorizados intercessores.


São Filipe e o Papa

Apesar de ardoroso defensor do Papado, houve um momento em que Filipe discordou do Soberano Pontífice. Foi quando se tratou de aceitar a conversão, e consequente habilitação, do uguenote, futuro Henrique IV, para o trono da França. “Clemente VIII mostrou-se indeciso e vacilante. Filipe mostrou-se desde o primeiro momento partidário da reconciliação, e aconselhou ao Papa nesse sentido, mas sem lograr dele uma decisão eficaz. Filipe atuou através de Barônio, confessor do Papa. Deu-lhe instruções no sentido de que, inclusive, lhe negasse absolvição enquanto não aceitasse um conselho reconciliatório. Barônio triunfou nesta empresa tão delicada. A França contará mais adiante a Filipe entre seus santos protetores”.

A máscara mortuária de São Filipe Neri,
que preservou para a posteridade os
contornos da face do grande Santo

Calúnias e incompreensões

Como todos os santos, Filipe enfrentou muitas calúnias. O próprio Cardeal-Vigário de Roma, levado por algum preconceito e pelos rumores de que o santo mantinha assembleias perigosas e semeava novidades entre o povo, chegou a repreendê-lo severamente, retirando-lhe a licença para atender confissões durante quinze dias. Mas, tendo o purpurado adoecido repentinamente,
o papa Paulo IV, chamado a julgar o caso, não só absolveu como recomendou-se às orações de Filipe.

O “Santo da Alegria” entregou sua alma a Deus em 26 de maio de 1595, sendo canonizado apenas 27 anos depois, juntamente com Santo Isidoro Lavrador, Santo Inácio de Loyola, São Francisco Xavier e Santa Teresa de Ávila.


Por Plínio Mario Solineo (revista ‘Catolicismo’) e Henrique Sebastião
para o informativo 'A Voz do Oratório' dos padres da Congregação do Oratório

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Fontes:
• CISTELINI, Antonio, San Filippo Neri: Breve storia di una grande vita. Torino: San Paolo, 2014
• RIBADENEIRA, Pedro de. Flos Sanctorum, in D. Eduardo Maria Vilarrasa, La Leyenda de Oro, Barcelona: L. González y Compañia, tomo II, 1896, p. 332.
• GUÉRIN, Paul. L’Oratoire de Rome: la vie, les vertus et l’esprit de saint Philippe
de Néri, son fondateur. Paris: L. de P. Frères, 1852
• RITCHIE, Charles Sebastian, Philip Néri, The Catholic Encyclopedia, ed online
• URBEL, Justo Perez, O.S.B., Año Cristiano, Madri: Ed. Fax, 1945, vol. II, p. 457

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A Invocação do Nome de Jesus ou Oração de Jesus


ESTA INVOCAÇÃO de fé, simples e ao mesmo tempo piedosa, – e muitíssimo poderosa em seus efeitos, – desenvolveu-se como tradição da oração cristã em várias fórmulas parecidas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, embora tenha sido sempre mais praticada na Igreja Oriental. Trata-se de um tipo de oração pessoal que, por muitos séculos, vêm exercendo um papel extraordinariamente importante na espiritualidade cristã, e que pode ser bem compreendida com a leitura do livro "A Invocação do Nome de Jesus", que tem por autor anônimo "um monge Igreja Oriental".

A invocação mais comum, transmitida pelos monges do Sinai, da Síria e do monte Athos, tem a seguinte forma: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende piedade de mim, pecador”, usando às vezes o complemento "Vivo", em alusão à confissão de São Pedro, resultando em: “Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador”. Através da simples repetição desta fórmula, feita com entrega e devoção sincera, o coração do devoto fiel se põe em consonância com a infinita Misericórdia de seu amado Criador e Salvador.

Existe uma profunda relação entre a devoção à Sagrada Face de Jesus, ao seu Santo Nome,  ao seu Sagrado Coração e à Santíssima Eucaristia (a devoção por excelência). Essas quatro devoções se referem aos aspectos mais significativos do Cristo encarnado (a Face/Rosto, o Nome, o Coração e o Corpo íntegro), e é por meio deles que buscamos o Deus Todo-Poderoso que se fez humano: todas essas devoções são eficazes instrumentos para conduzir a pessoa humana à Pessoa Jesus Cristo/Deus.

Quando se ama profundamente uma pessoa, como quando a noiva está apaixonada por seu noivo, diz o seu nome de um modo diferente; e o diz muitas vezes. Não é como quando chama outra pessoa qualquer: ao pronunciar o nome do bem amado, é como se o estivesse chamando, louvando suas qualidades, aquelas que a tornam cativa do seu amor, e mais e mais apaixonada fica quanto mais clama por ele; de fato, parece declarar o seu amor a cada vez que pronuncia o nome do amado. O tom de voz muda, o coração se entrega.

Assim também todo membro da Igreja, – a Noiva do Cristo, Cordeiro de Deus e Salvador do mundo, – ao pronunciar o santo Nome de Jesus, deve fazê-lo com o mais ardente e agudo amor de que sua alma é capaz, com o mais profundo desejo por sua Presença e Graça. O Amor é a Força que define a Divindade. Assim o Apóstolo João resumiu Deus (cf. IJo 4,8-16). Desse Ser, que é Amor, enquanto cristãos, nós participamos. Pronunciar o Nome do Senhor é clamar sua Pessoa, sua Graça, sua Luz, sua Força restauradora: quando o invocamos, suplicamos pelo Nome à Pessoa, implorando sua Ajuda e Misericórdia.



A origem

A Oração da Invocação do Nome de Jesus remonta aos primeiros tempos da Igreja e às práticas dos primeiros monges, sendo anterior até mesmo à prática do santo Rosário. Diadoco de Fotice1, já no século IV, escreveu: “O que não cessa de meditar, nas profundezas de seu coração, no Nome santo e glorioso de Jesus, poderá ver um dia a Luz em seu espírito”.

A origem da prática, porém, é muito mais antiga. Sua fonte primária está nos Evangelhos, em pelo menos três passagens:

A primeira, a súplica do cego de Jericó, que gritava com insistência: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!” (10, 46-52). Pela sua fé foi curado e então "seguiu Jesus pelo caminho".

A segunda, o clamor dos dez leprosos nas terras de Samaria: “Jesus, Mestre, tem piedade de nós!” (Lc 17,11-14), e todos eles foram curados, graças à sua fé no clamor pelo Nome do Senhor.

A terceira, o exemplo do humilde publicano, que no Templo batia no peito e repetia: “Ó Deus, tem piedade de mim, pecador!”... E Jesus declara que este voltou para casa justificado, pois “todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado” (Mc 10,47 / Lc 17,11-14;18-13).

A invocação contínua do Nome de Jesus é, então, biblicamente, das mais perfeitas práticas de oração para se buscar a Comunhão com nosso Senhor e a sua Misericórdia, quando feita com um espírito cheio de amor, fé, devoção, doçura e esperança. A persistência nesta prática piedosa faz com que o coração do devoto transborde de bem-aventurança, até chegar à completa serenidade. Nos momentos de angústia ou necessidade, o pensamento do devoto deve invocar várias e várias vezes o Nome de Jesus, seu Deus amado, que se torna Luz e Calor do conhecimento de Deus que dissipa as trevas da alma. Também em nossas realizações devemos nos lembrar de invocar o Santo Nome do Senhor com espírito de gratidão e alegria, compartilhando com o Doador de todos os dons e todas as graças a nossa felicidade.

Como fica claro, a oração do Nome de Jesus é semelhante à oração do Rosário à Santíssima Virgem Maria, em sua origem e nos seu objetivos: ambas as práticas têm raízes nos meios monásticos; em ambas imploramos aquilo de que realmente necessitamos, mesmo que não saibamos, pois podemos desconhecer aquilo de que precisamos; em ambas utilizamos palavras da Escritura; ambas são orações para todos, que produzem tranquilidade e, com o tempo e a perseverança, a paz duradoura e a restauração da vida.

Como rezar:

"Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus Vivo, tende piedade de mim, pecador!" Simplesmente repita algumas vezes esta simplérrima fórmula, tantas vezes quantas o seu coração pedir, enquanto não cansar, com amor, serenidade e devoção. Se você realmente necessitar de alguma graça, mentalize-a entre as invocações, ou, se preferir, vocalize o seu pedido, crendo firmemente que será atendido. Mantenha a consciência, porém, de que se não for atendido, será sempre o melhor, pois tudo nos é dado segundo a Vontade do Pai para o nosso bem, e de todo mal Deus tira um bem maior. Muitas vezes fazemos pedidos que, se fossem atendidos, mais nos prejudicariam do que ajudariam.

A Oração de Jesus é de uma maravilhosa versatilidade: apesar de ser ideal para iniciantes, ao mesmo tempo conduz aos mais profundos mistérios da vida contemplativa. Pode ser usada por qualquer um, a qualquer momento, em qualquer lugar: nas salas de espera, nas filas, andando, viajando, no trabalho, quando não se consegue dormir à noite ou em momentos de especial ansiedade, quando é impossível concentrar-se em outros tipos de oração. Ajusta-se perfeitamente ao conselho evangélico de orar incessantemente. É o caminho mais simples da oração contínua. Repetida várias vezes por um coração humildemente atento, ela não se dispersa numa torrente de palavras (Mt 6,7), mas conserva a Palavra e produz fruto pela perseverança.

(Clique para ampliar)
Porém, enquanto todo cristão pode, naturalmente, recitar a Oração de Jesus de forma ocasional, outra situação é recitá-la continuamente. Para alguns, chega uma hora em que a Oração de Jesus "entra no coração", de uma certa maneira que deixa de ser recitada por um esforço deliberado, mas espontaneamente, continuando mesmo quando a pessoa fala ou escreve, ficando presente nos seus sonhos, acordando-a de manhã. Nas palavras de Santo Isaac, o Sírio: "Quando o Espírito de Deus faz morada num homem, ele não cessa de rezar, porque o Espírito (Santo) vai rezar constantemente nele. Então, nem quando ele dorme nem quando está acordado, a oração será tirada de sua alma; mas, quando ele come e quando bebe, quando se deita ou quando faz qualquer trabalho, mesmo quando está em profundo sono, os perfumes da oração exalarão do seu coração espontaneamente" ('Tratados Místicos', ed. Wensinek, p.174).

Os ortodoxos acreditam que o Poder de Deus está presente no Nome de Jesus, de forma que a invocação ao divino Nome atua "como um sinal efetivo da Ação de Deus, como uma espécie de Sacramento" ('Un Moine de l'Église d'Orient, La Priére de Jésus', Chevetogne, 1952, p. 87).

Tanto aqueles que a recitam continuamente quanto os que a recitam ocasionalmente têm, na Oração de Jesus, uma grande fonte de segurança e júbilo. Citando o Peregrino russo:

E é assim que eu ando agora e, incessantemente, repito a Oração de Jesus, que é para mim mais doce e preciosa do que qualquer outra coisa no mundo. Às vezes, eu ando até 43 ou 44 milhas num dia e nem sinto que estou caminhando. Tenho consciência apenas de estar recitando minha oração. Quando o frio intenso me penetra, começo a recitar minha oração com mais intensidade e, rapidamente, me aqueço todo. Quando a fome começa a me perturbar, chamo mais frequentemente o Nome de Jesus e esqueço minha vontade de comer. Quando fico doente e o reumatismo ataca minhas costas e pernas, eu fixo meus pensamentos na oração e não sinto a dor. Se alguém me faz mal, tenho apenas que pensar: 'como é doce a Oração de Jesus', e tanto o ferimento quanto a raiva passam e esqueço tudo... Agradeço a Deus porque agora compreendo o significado destas palavras ouvidas na Epístola: 'Rezai sem cessar' (1Ts 5, 17). ('O Caminho do Peregrino', p.17-18)

Jesus ensinou: “A boca fala do que o coração está cheio” (Mt 12,34). Na história da espiritualidade, encontramos santos que não se cansavam de repetir o Nome de Jesus, para manter no coração, continuamente, a Presença do Bem-Amado Salvador. Podemos e devemos rezar em todos os lugares e situações, pois ninguém poderá nos impedir de pensar em Jesus. E quem ama o Filho de Deus, torna-se mensageiro desse Amor em todos os lugares, sempre.

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1.  RIGGI C. Diadoco de Fótice en Di Berardino, Angelo, Diccionario Patrístico y la Antigüedad Cristiana, Tomo I, 2ª Ed. Verdad e Imagen, Salamanca, 1991.

Fontes e ref. bibliográfica:

A Invocação do Nome de Jesus [um Monge da Igreja Oriental], 8ª ed. São Paulo: Paulus, 2008.
• SCIADINI, Patrício, OCD. Catecismo da Oração, 2ª ed. São Paulo:Loyola, 2002.
• O «'Rosário' Ortodoxo, a Oração de Jesus», artigo do Bispo Kallistos Ware, em [ecclesia.com.br/biblioteca/espiritualidade/o_rosario_ortodoxo_kalistos_ware.html], acesso 7/7/015
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A mística no contexto cristão


A PALAVRA “MÍSTICA” provém do grego MISTIKOS (lê-se 'mistikós'), e se refere ao conhecimento direto e experimental de DEUS em seus Mistérios. Tomada num sentido mais amplo, a mística pode designar realidades ocultas, secretas, misteriosas. Neste sentido, note-se que a raiz da palavra "Mística", no grego, é a mesma da palavra "Mistério".

No contexto da vida cristã, mística tem basicamente três significados:

1. Quer dizer, antes de tudo, aquilo que se refere a celebração dos Mistérios cristãos. Os Padres da Igreja utilizaram com muita frequência essa palavra na Liturgia, de modo que, para eles, místico é aquilo que tem relação com os santos Mistérios, e eles o aplicaram sobretudo para expressar a transformação operada nos cristãos através dos Sacramentos;

2. Quer dizer algo que é simbólico ou o que é simbolizado. Ou algo que é expresso através de símbolos. No que diz respeito ao culto, pode-se usar a expressão mística por dois motivos: porque se refere aos Mistérios, e porque esses Mistérios se exprimem através de símbolos. – Pela própria natureza das coisas, não há como ser diferente. – Em um símbolo, temos dois elementos: o invisível e o sensível. Os Sacramentos por exemplo, são por definição os sinais sensíveis da Graça invisível. Porém, o uso mais importante do termo místico, dentro dessa concepção, temos no que se chamou de “leitura e busca do sentido místico da Escritura”, onde se diz que cada texto da Escritura tem sempre um sentido simbólico, que revela uma realidade escondida sob a aparência do sentido histórico. Um dos mais próprios exemplos disto temos no livro veterotestamentário Cântico dos Cânticos.

3. Por mística entende-se, também, os segredos da Graça nas almas, ou seja, aqui se entende por mística toda comunicação sobrenatural com Deus, através da fé que adere à sua Palavra, da esperança e do amor que conduzem a Ele, e da graça que nos faz participar da sua Vida.

Durante muito tempo se confundiu a mística com os fenômenos místicos: visões, aparições sensíveis, revelações e etc. De fato, porém, ainda que os fenômenos místicos, – se autênticos, – sejam parte da mística, contudo, não são essenciais ao estado místico. O essencial da mística é a amorosa e misteriosa comunhão do cristão com Deus.


Características da mística cristã:

1. Gera um conhecimento mais íntimo e profundo de Deus e dos seus Mistérios e se distingue do conhecimento dos teólogos e dos simples cristãos. E isso se deve ao fato de que o místico teve uma particular experiência de Deus.

2. O místico tem uma percepção, por assim dizer, experimental e direta da Presença de Deus, ainda que simultaneamente Deus permaneça sempre Infinito, e por isso é que os místicos frequentemente definem a experiência que têm de Deus como “impossível de expressar por palavras", porque ele não sabe exatamente o quê experimentou e vivenciou.

3. O místico, – e isso é o que o distingue dos demais cristãos, – é alguém movido diretamente por Deus, porque se abriu docilmente à sua ação. E que tem plena consciência de que o conhecimento que adquiriu de Deus lhe foi dado, que é uma experiência infusa, na qual a alma se sente passiva sob a moção do Espírito Santo, e não que atingiu as alturas por suas próprias capacidades, qualidades ou méritos. Em outras palavras, o místico é alguém que se sente atraído e seduzido por Deus, e de tal modo que já não pode viver sem Ele.

Alguns santos se destacaram por suas experiências místicas que, muitas vezes, se exteriorizaram, tornando-se fenômenos místicos. Por isso, são chamados de “santos místicos da Igreja”. Alguns exemplos são: Santo Agostinho, São Bernardo, São Boaventura, Santa Catarina de Sena, São Francisco de Assis, Santa Gemma Galgani, São João da Cruz, São Luis de Montfort, Santa Tereza d’ Ávila, Santa Teresinha de Lisieux (Santa Teresinha do Menino Jesus), São Tomás de Aquino.

Em suma, a mística pode ser definida como uma experiência de Deus Presente e Infinito, provocada na alma por um especial impulso do Espírito Santo.

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Ref.:Revista Católicos, disp. em
revistacatolicos.blogspot.com.br/2012/08/o-que-significa-ser-um-mistico-da-igreja.html
Acesso 16/7/015
www.ofielcatolico.com.br

O grandioso milagre de Calanda


VITTORIO MESSORI, conhecido escritor, jornalista e historiador italiano, publicou em 1998 um dos estudos mais completos sobre um fato absolutamente inexplicável para a medicina e para a ciência, ocorrido no vilarejo de Calanda (Espanha) no ano 1640.

Jean Martini Charcot, famoso líder do positivismo religioso do século XIX, disse certa vez: “Ao consultar o catálogo de curas chamadas milagrosas, nunca se pôde comprovar que a fé tenha feito reaparecer um membro amputado”. Pois foi exatamente isso o que aconteceu em Calanda: uma perna amputada foi reimplantada miraculosamente ao corpo de um ser humano, sem nenhuma intervenção médica. Mais do que isso, essa perna foi reintegrada depois de mais de dois anos enterrada(!). Este acontecimento mais do que extraordinário foi estudado exaustivamente, sob todo o rigor científico, e os resultados publicados por Messori
em sua obra “Il Miracolo” (O Milagre).


O milagre

Em 3 de agosto de 1637, o jovem empregado agrícola Miguel Juan Pellicer, nascido em Calanda no ano 1617, ao cochilar, voltando do trabalho, caiu de um reboque, em Castellón de la Plana. Uma das rodas atingiu-lhe a perna direita, esmagando a tíbia. Foi socorrido e tratado no hospital local, sendo transferido depois para o Hospital Real de Valência, onde permaneceu internado por 5 dias.

Miguel desejava ardentemente e pedia transferência para o Hospital Real e Geral de Nossa Senhora da Graça, em Saragoza, porque queria visitar o Santuário de Nossa Senhora do Pilar, sua grande devoção. Mesmo torturado por dores insuportáveis que não lhe davam descanso, Miguel foi autorizado a viajar a Saragoza para se colocar sob a proteção da Santíssima Virgem do Pilar. Paupérrimo, a viagem só lhe foi possível “de carona em carona”, motivo pelo qual demorou cinquenta dias(!), numa longa ascese pessoal. Além de tudo, era preciso percorrer 300 difíceis quilômetros sob o calor de um sol violento.

No início de outubro, afinal, o jovem chegou ao seu destino. Extenuado, sentia-se próximo da morte. Arrastando-se de joelhos até o Santuário, entregou-se totalmente nas mãos de sua tão amada Virgem do Pilar, a quem suplicou: “Salva-me, pois estou morrendo!”.

Somente depois de confessar-se e assistir à santa Missa, foi, enfim, internado no Hospital de Saragoza. Ao final daquele mês, sua perna precisou ser amputada “quatro dedos acima do joelho“, única solução para lhe salvar a vida. Cirurgiões e enfermeiros procederam à cauterização do toco que restara da perna com um ferro em brasa. Só voltou a obter alta um ano após, já na primavera de 1638, recebendo muletas, perna de madeira e uma carteirinha que lhe permitia exercer a atividade da mendicância.

Assim, “oficialmente” reduzido à condição de mendigo, pedia esmolas em frente ao Santuário. Em sua fé simples, como gesto de devoção, untava diariamente seu toco de perna com o azeite das lâmpadas acesas na Capela do Pilar, embora o médico lhe advertisse de que, além do risco de infecção, o óleo mantinha uma umidade que retardava a completa cicatrização da ferida.

Durante toda sua estadia em Zaragoza, Miguel passava os dias pedindo esmolas à porta da Basílica do Pilar. À noite ia dormir no “Mesón de las Tablas”, quando tinha dinheiro para pagar; quando não, dormia num banco do hospital.

Meses e anos se passaram. Todos conheciam Miguel, o jovem pedinte de uma perna só. Certo dia, alguns peregrinos vindos de Calanda o incentivaram a voltar à casa dos pais, pois sua vida era sofrida. Afinal, em março de 1640, esgotado pela vida miserável que levava, Miguel decidiu voltar a Calanda, para a casa paterna, apesar de seu manifesto desejo de permanecer junto à Basílica de “La Virgen del Pilar”. Já eram passados dois anos e cinco meses após a amputação.

Precisamente no dia do 16º centenário da visão que São Tiago Apóstolo teve de Nossa Senhora, e do aparecimento do Pilar que dá título à esta devoção1, na quinta feira, 29 de março de 1640, em torno das 22 horas, Miguel Juan Pellicer jantou com seus pais, dois vizinhos e um soldado da cavalaria, que estava de passagem e a quem a família havia oferecido hospedagem. Miguel deixou a conversa e foi se deitar, – porque se sentia especialmente cansado àquela noite, – no quarto dos pais, porque ao soldado havia sido oferecido seu quarto.

Pouco depois, entrou a mãe do jovem no aposento; sentiu um intenso e agradabilíssimo perfume, que ela descreveu “como de Paraíso”. Então percebeu que, por baixo da coberta, dois pés se mostravam(!). Chamou o pai, e logo pensaram que se tratava do soldado, que teria errado de quarto; ao levantarem a coberta, porém, descobriram que era seu filho, – e que a perna amputada reaparecera! – Trêmulos, viram marcas e características que a perna tinha antes de ser amputada, e um círculo vermelho no exato local onde fora seccionada!



Miguel só sabia explicar que se havia encomendado, como todas as noites, a Nossa Senhora, sob a invocação da Virgem do Pilar, e que sonhara que estava na Basílica, como de costume, untando seu toco de perna com o óleo das lamparinas do Santuário, – que para ele era sagrado, – como um gesto de fé.

Nessa mesma noite, testemunharam o milagre o soldado, Bartolomé Ximeno, e os vizinhos Miguel Barraxina e Úrsula Means. Os três, minutos antes, haviam conversado com o jovem coxo, e viram-no tirar a perna de madeira antes de retirar-se para dormir. Foi chamado e veio, ainda, o pároco Pe. José Herrera.

Ao amanhecer, espalhou-se a notícia pelo povoado. O Pároco foi à casa dos Pellicer, e uma multidão. Estava presente o primeiro magistrado, juiz e responsável pela ordem pública, Martín Corellano; o jurado maior, prefeito Miguel Escobedo; o “jurado segundo”, Martín Galindo; o notário real, Lázaro Macario Gomez. Encontravam-se também os dois cirurgiões locais, que certificaram o fato profissionalmente. Ambos declarariam, depois, que se renderam “à evidência, que deixara por terra sua instintiva incredulidade”. O notário lavrou uma ata constatando o fato ocorrido.

A esta expedição inesperada devemos um documento extraordinário e único: estamos diante de uma intervenção divina autenticada por ata notarial, diante de um milagre com a “garantia” de documento conforme à normativa vigente, e corroborado por dez testemunhas oculares, escolhidas entre as de maior confiança dentre muitíssimas outras disponíveis. Como se não bastasse, a ata notarial foi escrita e autenticada poucas horas depois do sucedido, e no próprio local. – Processo e investigação foram abertos apenas 68 dias depois e se prolongaram por meses, presididos pelo Arcebispo de Zaragoza assistido por nove juízes, com dezenas de testemunhos e rigoroso respeito às normas prescritas pelo Direito Canônico.

A Prefeitura de Zaragoza, em 8 de maio de 1640, reuniu-se em conselho extraordinário e plenário, e nomeou três procuradores para apurar o caso, além de solicitar ao Sr Arcebispo que instaurasse um acurado processo canônico, às expensas da Prefeitura, que foi iniciado em 5 de junho de 1640. Conservam-se todas as atas de ambos os inquéritos. O da Prefeitura começou dois meses após o milagre. O canônico, após três meses. Inquéritos detalhadíssimos, com muitas comprovações e numerosos depoimentos de pessoas fidedignas que conheceram e conviveram com Miguel Juan Pellicer, antes e depois do acidente e da amputação.

No dia 22 de abril de 1641, a Câmara Municipal de Calanda elegeu Nossa Senhora do Pilar Padroeira da cidade. No dia 27 do mesmo mês, Monsenhor Apaolaza, Arcebispo de Saragoza, anunciou:

“Nós dizemos, pronunciamos e declaramos que Miguel Juan Pellicer (…) recuperou, milagrosamente, sua perna direita que havia sido amputada; esta restituição não foi obra da natureza, mas operada de maneira admirável e milagrosa e deve ser registrada como um milagre.”

A partir do testemunho do protagonista e outros, conclui-se, como não poderia deixar de ser, que o milagre se deu devido à intercessão de Nossa Senhora do Pilar, de quem o jovem sempre fora devoto, à quem se havia encomendado antes e depois da amputação e em cujo santuário tinha pedido e obtido autorização para esmolar.

Quando a notícia do milagre chegou a Zaragoza, mandou-se verificar no cemitério do Hospital Real, onde a perna de Miguel Pellicer havia sido enterrada. Sob a direção do Dr. Juan Lorenzo García, comprovou-se que a perna (ou os ossos que deveriam restar) havia desaparecido sem deixar vestígios! – Exames posteriores mostraram que a perna direita, milagrosamente recuperada, conservava marcas de antes de ser amputada, especialmente a da grande ferida provocada pela carroça e que ocasionara a gangrena. Havia também a cicatriz, perfeitamente fechada como todas as outras, onde se havia feito a amputação. Tratava-se da mesma perna que havia sido amputada, a mesma que havia sido enterrada, anos antes! Ficara “a marca”, como condescendência divina para observação científica.

Após a conclusão positiva do processo, o rei da Espanha, Felipe IV, ordenou que chamassem ao palácio de Madrid o “jovem do milagre”. Ajoelhando-se em sua presença, beijou-lhe a perna milagrosamente restituída. Um grande tapete que ainda hoje está no Palácio Real de Madri, representa o Rei Felipe IV beijando a perna regenerada de Miguel Juan Pellicer.

Novas pesquisas, realizadas em tempos recentes e com abundante levantamento de documentos, reconfirmaram a autenticidade do grandioso milagre de Calanda.

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Fontes e ref. bibliográfica:
ORIENTE-FRANCIULLI, Paulo. O Milagre de Calanda, São Paulo: Quadrante, 2004
QUEVEDO, Oscar Gonzales. Os Milagres e a ciência, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2000, pp. 268-273.

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