Regnum Dei intra vos est – O Reino de Deus está dentro de vós


Por Felipe Marques – Assoc. São Próspero e Movimento Somar para Vencer

CHESTERTON DISSE, CERTA vez, que a dificuldade que ele tinha em explicar o porquê de ser católico residia no fato de que havia mais de 10 mil razões para tal explicação... Entre estas, cito a seguinte: “(...) a Igreja Católica é a única que (...) assume a grande tentativa de mudar o mundo desde dentro; usando a vontade e não as leis...”[1]

Creio que esse grande autor, que possui o título de Defensor Fidei (Defensor da Fé), para afirmar isto, baseou-se especificamente na seguinte passagem do Evangelho:

“Naquele tempo, os fariseus perguntaram a Jesus sobre o momento em que chegaria o Reino de Deus. Ele respondeu: 'O Reino de Deus não vem ostensivamente. Nem se poderá dizer: Está aqui, ou: Está ali, pois o Reino de Deus está no meio de vós'".” ² (Lc 17,20-21)

A tradução do grego ἡ βασιλεία τοῦ θεοῦ ἐντὸς ὑμῶν ἐστιν para o português do Brasil desta passagem muitas vezes é equivocada. O uso correto não é exatamente: “está no meio de vós” como muitas vezes se usa, dando sentido de que o Reino de Deus está no meio de um coletivo. O mais correto é que o Reino de Deus está realmente dentro de nós, no interior de cada um! Isso significa que Cristo deve reinar em nosso interior, que Deus deve ser o Rei de nossa morada interior! Se isso acontecer, Cristo reinará no mundo, pois toda mudança exterior deve ser consequência de uma mudança interior e não o contrário.

Essa admoestação dura é extremamente necessária, principalmente nos dias atuais onde vivemos em um mundo de aparências e superficialidade. Sim! Cada católico deve fazer com que Cristo reine em sua vida, em sua alma, em seu coração – metaforicamente falando – para que então o meio à sua volta seja santificado; em outras palavras, é necessário lutar por santidade para que o mundo seja mais católico, para que haja mais fraternidade e paz, pois, como ensina São Josemaria Escrivá: “Um segredo em voz alta: estas crises mundiais são crises de santos. Deus quer um punhado de homens 'seus' em cada atividade humana. Depois... 'Pax Christi in regno Christi' – a paz de Cristo no Reino de Cristo.” (Caminho, 301)

Toda mudança deve partir do interior do homem que, se configurado à Deus, externará naturalmente o brilho e o “bom odor de Cristo”. Por isso as virtudes são tão importantes e deve ser um objetivo real de cada batizado alcançá-las, lutando até ao derramamento de sangue para vencer os vícios e a concupiscência da carne. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica:

A dignidade da pessoa humana radica na sua criação à imagem e semelhança de Deus (Artigo 1) e realiza-se na sua vocação à bem-aventurança divina (Artigo 2). Compete ao ser humano chegar livremente a esta realização (Artigo 3). Pelos seus atos deliberados (Artigo 4), a pessoa humana conforma-se, ou não, com o bem prometido por Deus e atestado pela consciência moral (Artigo 5). Os seres humanos edificam-se a si mesmos e crescem a partir do interior: fazem de toda a sua vida sensível e espiritual objecto do próprio crescimento (Artigo 6). Com a ajuda da graça, crescem na virtude (Artigo 7), evitam o pecado e, se o cometeram, entregam-se como o filho pródigo (1) à misericórdia do Pai dos Céus (Artigo 8). Atingem, assim, a perfeição da caridade.
(CIC 1700)

Quantas vezes agimos querendo que todos mudem (muitas vezes por razões até justas) porém, não mudamos a nós mesmos? Insistimos nos mesmos pecados que podem ser tidos como de “estimação”, não buscamos a mortificação mas exigimos isso de todas as outras pessoas? Não devemos abandonar a luta, não podemos desistir da santidade! Ser santo não é nunca ter pecado, é antes reconhecer-se necessitado da Graça de Deus, ser levantado por Ele (principalmente através do Sacramento da Confissão) e lutar para nunca mais cair. É uma caminhada de quedas e tropeços onde o ser humano nunca está sozinho, pois Deus está sempre com ele.



A mudança interior e a aquisição de virtudes não acontecem da noite para o dia; são um processo onde a pessoa deve ser paciente consigo mesma e com os demais, e deve lutar para, através dos seus bons hábitos, criar bons costumes que sejam impulsos naturais para boas ações. Tudo isso por amor ao Cristo e sua Santa Igreja e não por motivos pessoais e egoístas, pois, infelizmente muitos desejam ser perfeitos não porque Deus nos quer assim, mas porque querem vangloriar-se de sua própria perfeição.

Além do que foi dito acima, quero utilizar-me de mais uma passagem do Evangelho para que as coisas fiquem mais claras:

O Reino dos Céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo. ”
(Mt 13, 44)

Para possuir esse incomparável Tesouro, o homem sábio de imediato se prontifica a desfazer-se de tudo o mais que possui. O mesmo exemplo pode ser utilizado também para tudo o que foi apresentado até aqui, pois, como diz Santo Agostinho:

Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro, e eu fora. Eu estava, Senhor, longe de Ti, porque estive longe de mim. Eu te procurava nas formosuras que criastes, chora o bispo de Hipona, Tu porém nunca me deixastes; eu é que me esqueci de Ti e procurei-te onde não estavas. [2]

Que possamos vender tudo o que temos, abrir mão de tudo o que nos afasta de Deus para podermos enfim, pertencer ao Bom Pastor! Para alargar as fronteiras do Reino dos Céus na terra é necessário que primeiro essas fronteiras tenham sido alargadas dentro de mim, dentro de você, caro leitor. É necessário que cada um seja de Cristo para que o mundo seja de Cristo; é necessário que Jesus viva dentro de nós para dizermos com o Apóstolo: “Não sou eu que vivo, mas é o Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20)!

___
Ref.:
1. CHESTERTON, G. K. "Por que sou católico". Grupo Chesterton Brasil, traduzido por Antonio Emilia Angueth de Araujo. - do site Chesterton Brasil
2. Confissões X, 27
www.ofielcatolico.com.br

6 comentários:

  1. Me desculpe, não entro no mérito da interpretação, mas a tradução da septuaginta, "Bíblia de Jerusalém" e Bíblia "Ave Maria" é, realmente, "No meio de vós". Ambas são oficialmente usadas pelos católicos.

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    1. Entramos aqui num longo e complexo assunto, anônimo. Se você observar, verá que a nota ('a') desta passagem na Bíblia de Jerusalém reconhece a tradução "dentro de vós" e esclarece que a opção por "no meio de vós" foi feita em razão do "contexto" da passagem; em outras palavras, trata-se de uma opção pastoral que não reflete a literalidade do texto.

      De fato, a palavrinha em questão (ἐντὸς ou ενδο) no grego original significa, literalmente "intra"/"endo", que é a raiz de "intra" e quer dizer "dentro de"; "interno".

      Apenas para apresentar aqui um panorama superficial do problema, ocorre que a versão "entre vós" ou "no meio de vós" vem sendo preferencialmente adotada nos últimos tempos principalmente por questões pastorais, já que desde outras épocas grupos ocultistas procuraram deturpar esta passagem com a tradução "dentro de vós", na elaboração de doutrinas pseudo-místicas que preconizam a inutilidade da Igreja. Como disse, é um longo assunto.

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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    2. Perfeita colocação. Não tenho nada a acrescentar!

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  2. ótima reflexao, veio em um momento importante para mim. obrigado.

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    1. Nós que agradecemos! Se esse texto ajudar uma alma no caminho rumo ao céu, o objetivo foi alcançado.

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  3. Que belo texto, muito obrigado...

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