Entrevista: sacerdote ensina como viver bem o tempo do Advento

Por Felipe Marques – Associação São Próspero

APÓS CONCEDER a "O Fiel Católico", no ano 2015, uma entrevista riquíssima em fidelidade à Santa Igreja e amor ao tempo da Quaresma (leia), o digno e Revmo. Pe. Francisco Reginaldo Henriques de Miranda, atual pároco de Nossa Senhora das Graças (Jd Elba, SP), chamado comumente "padre Reginaldo", concede-nos agora a alegria e a honra de mais uma entrevista, desta vez sobre o tempo do Advento.


Padre Reginaldo de Miranda

Comentários Iniciais do padre Reginaldo – Eu gostaria de dizer que esse tempo do Advento, como nos diz a Igreja, possui duas características: 1) sendo um tempo de preparação para a solenidade do Natal, nós comemoramos neste sentido a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens 2) e é também um tempo em que, por meio dessa lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo, no fim dos tempos. Por esse duplo motivo, o Advento se apresenta como tempo de piedosa e alegre expectativa. Piedosa como nesse segundo domingo, quando celebramos dando mais ênfase à conversão, para que toda gente possa viver essa alegria profunda, essa espera que nos enche de sentido e que já é antecipação. A leitura de Isaías já falava desse gozo que vamos viver no Céu, que é a totalidade de Deus e já vai acontecer aqui na Terra.

Nesse sentido, para que possamos viver essa totalidade de Deus, já aqui, é preciso que haja esse desejo de conversão, de endireitar o caminho, e que não é fácil! O primeiro passo é vencer o orgulho, e às vezes o orgulho não nos deixa perceber que precisamos nos converter, precisamos melhorar de vida, mudar aquilo que não está de acordo com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo para que a vivamos plenamente essa espera profunda e cheia de sentido, que não é uma espera como a espera das coisas materiais, coisas efêmeras que a gente espera com ansiedade e que sabemos que não vão preencher a nossa vida, mas esta espera é a espera do "Deus conosco" que vai encher a nossa vida e é esperança para a nossa vida também nesse sentido.

E depois vem a questão de como se viver bem esse tempo, como exemplo a Missa: vemos que é um tempo de mais profundidade, e então o tom – pena que no Brasil se perdeu uma riqueza, o uso do órgão – mas seria um instrumento adequado nas igrejas; esse órgão dá um sentido de profundidade, dessa busca de Deus. Até mesmo a ornamentação, onde se ornamenta com poucas flores indica-se essa preparação profunda; há uma moderação, é questão de piedade.

Não tem o mesmo sentido do tempo da Quaresma, dessa conversão profunda, sabendo que é lógico que sempre se deve haver essa conversão profunda em nossa vida, porém, esse é um tempo diferente porque é um tempo que nos prepara para Deus que quer vir ao nosso encontro, vem ao nosso encontro no Natal. Aí temos a devoção popular onde temos a coroa do Advento que dá esse sentido, lembrando que primeiro se inicia com o verde da esperança e depois o sentido de conversão e da alegria, do Gaudete, onde podemos usar a cor rosa que simboliza essa alegria profunda quando viveremos esse grande momento na noite em que Deus vem fazer morada conosco e depois a cor branca.


Felipe Marques/OFC – Essa questão do tempo litúrgico é muito interessante, é um mistério! A primeira vinda de Deus, a vinda de Cristo – Deus que se faz homem no Natal – e então nós aguardamos durante o tempo da Igreja a sua segunda vinda gloriosa, pela qual Ele encerrará a História; aí também há uma coisa que muitas vezes nós não percebemos, que é uma outra vinda de Cristo, que pela Sua graça é uma vinda, digamos, diária: Ele nos visita diariamente, visita-nos em nossos caminhos. Como o Sr. vê essa falta de sensibilidade que nós temos, essa falta de atenção que nós temos em relação ao Cristo que habita em nós? Parece que nós perdemos a noção de que Cristo está conosco 24 horas por dia.

Padre Reginaldo – Essa também é, podemos dizer, uma perda do sentido do sagrado no mundo em que vivemos hoje; um mundo que faz muito barulho, e esse barulho se faz presente dentro da própria Igreja, então é muito difícil captar essa presença do Sagrado. Deus conosco, Emanuel, Deus conosco! Deus que se faz presente em todos os momentos da nossa vida. Não confundir com as coisas, senão caímos no panteísmo, mas [é preciso] sentir essa Presença d’Ele que se faz presente em nossa vida. Então, precisa-se de alguns elementos para encontrá-Lo: o primeiro deles é o silêncio, vemos isso na passagem de Elias (1Reis 19), onde vem o vento fortíssimo, depois um terremoto, depois o fogo... e o Senhor não estava nessas coisas. E então vem aquela brisa leve, suave, e aí sim se manifesta a Presença do sagrado! Então, o silêncio... E talvez o mundo de hoje tenha medo do silêncio, porque quando nós nos encontramos com o grande Silêncio, Presença de Deus, Ele nos questiona... Questiona nossa vida, nossa maneira de viver, o nosso comportamento, e por isso a gente tem medo.

O outro dado é que no silêncio a gente se coloca em atitude de oração. E hoje, também, o mundo tem medo de fazer oração, essa oração profunda, oração pessoal e cotidiana. Esse silêncio, essa oração diária, vai fazendo com que eu perceba a presença desse Mistério na minha vida, no dia a dia, no decorrer da História, nos momentos bons e naqueles momentos que não são bons, mas em que a vamos descobrindo a ação bondosa e misteriosa de Deus na nossa vida. Deus que, ao mesmo tempo em que nos ama, também nos convida a mudar de vida, a dar passos e tomar decisões profundas. Penso que esses dois elementos são muito importantes: vida de oração e vida de silêncio, e que, depois, uma boa vida de oração nos leva a ascese, nos leva a fazer penitência, a buscar o sacramento da Confissão, nos leva a dizer a importância da Missa Diária para aqueles que podem. Infelizmente, há muitos que por motivos de trabalho não podem ir à Missa diariamente, mas também tem muita gente que pode e não dá valor.


Felipe Marques/OFC –  E a participação –, como eu lhe disse do Novenário, eu tenho essa experiência –, é incrível! A Santa Missa diária é algo magnífico. Em especial, no segundo domingo do tempo do Advento, nós vemos S. João Batista – a voz que clama no deserto – e vem muito ao encontro disso que o Sr. falou, que nos pede uma conversão; ele fala também dessa questão das obras. Como o Sr. vê, hoje, essa falta de senso do sagrado, como a falta de comunicação e de formação em relação ao Inferno, não como tema para assustar as pessoas, mas para alertar sobre uma realidade que é ensinada pela Santa Igreja?

Padre Reginaldo – O catecismo da Igreja fala justamente dos novíssimos, realidades escatológicas das quais temos que falar. Falar do Céu, do Inferno, da vida eterna... de tudo isso. E dificilmente se escuta ou se ouve uma pregação falando do Inferno. Se na primeira leitura (do Segundo Domingo do Advento) se falava justamente da Totalidade de Deus, o Inferno é justamente a ausência dessa Totalidade; é negar esse Deus que quer vir ao nosso encontro. Ou seja, falar de Inferno é falar da nossa realidade de pecado. Às vezes, é melhor fazer uma pregação que fala de Deus misericordioso e fiel, mas que também nos convida a uma transformação de vida. Como dizia o Evangelho: a conversão precisa de frutos! Ou seja, o desejo profundo de mudança de vida, de querer ser melhor, deve ser expresso no meu dia a dia, na minha maneira de me relacionar comigo mesmo, com Deus e com meus irmãos. A minha vida deve apresentar esses frutos!

Veja como Ele é misericordioso, como Ele é justo, imparcial na questão do julgar, porque Ele julga com justiça e vê o coração. Nós, não. Quando vamos julgar, já vamos carregados de sentimentos; então, se eu gosto de você, eu o coloco no Céu; se eu não gosto, eu o coloco no Inferno.

Ter essa consciência de que existe o Inferno é uma das ênfases das pregações da Idade Média; havia um autor, cujo nome não recordo agora, que dizia: "Quando o homem perde o medo do Inferno, perde também a vontade de servir a Deus". Precisamos ter a consciência de que o pecado é a chave que nos leva para o Inferno; é negar a Deus, que vem ao meu encontro; é não aceitá-Lo como Deus. Por isso, a insistência de S. João Batista com os fariseus e saduceus, que conheciam e deveriam conhecer essas realidades; nós também, que conhecemos e optamos por uma religião apenas exterior (piedoso e bonito), mas sei que não sou isso. Isso será perceptível depois, porque suas ações testemunharão contra aquilo que você quer aparentar.


Felipe Marques/OFC –  Sendo o orgulho a raiz do pecado; e a base do edifício espiritual composta pela fé e pela humildade, o Sr. crê que hoje falta humildade para as pessoas? Porque é incrível... Nós tivemos o Ano Santo da Misericórdia, que foi encerrado agora, e muitas vezes as pessoas querem falar de misericórdia, mas esquecem que para nós termos um verdadeiro encontro com a misericórdia de Deus, primeiramente nós devemos ter um encontro com as nossas misérias, pois aí sim veremos o nosso nada em comparação com o Tudo que é Deus, e como Ele é Bom. O senhor crê que falta humildade?

Padre Reginaldo – Sim, justamente, o contrário é a humildade, a humildade verdadeira faz com que reconheçamos que somos orgulhosos! E reconhecer, nesse sentido, a questão da humildade é reconhecer que eu sou pecador, que eu não sou Deus! O que o orgulho faz? Faz com que tenhamos uma "competição com Deus", onde não aceitamos nem admitimos que Ele é Deus, então acabamos por viver num mundo onde não se pede desculpas, não se pede perdão por nada, afinal, eu não faço nada de errado, e acabamos destruindo a humildade que nos faz reconhecer que somos criaturas, somos falhos e precisamos da misericórdia de Deus.

A humildade nos faz reconhecer que Deus é justo. O humilde é aquele que espera no Senhor. A humildade é a questão do Anahui; sabemos que há muitos pobres que são orgulhosos, mas esse pobre de verdade, como Maria, que canta "a humildade de Sua serva", é aquele que sabe que só pode esperar no Senhor, porque sabe que o julgamento do Senhor é justo. O orgulho não permite nos abrirmos, e muitas vezes achamos que a misericórdia de Deus não pode, ou então que só atua em mim e os outros estão todos condenados.

Por isso, esse Tempo do Advento tem esse duplo sentido. O Terceiro Domingo trata um pouco disso, do Deus que vem estar conosco, arma sua tenda entre nós e se preocupa conosco. O que é completamente diferente de quando fazemos uma analogia com os deuses das mitologias dos povos pagãos, onde as pessoas eram marionetes, joguetes nas mãos desses deuses. Nosso Deus, além de nos dar o livre arbítrio para podermos escolher se queremos caminhar com Ele, ainda vem, Ele mesmo vem ao nosso encontro! É Ele Quem toma a iniciativa, é ELE que desce.

Quando vemos algumas narrativas mitológicas gregas, percebemos que nelas é o homem que deve subir ao Olimpo. Nosso Deus não é assim! Ele desce das alturas e vem ao nosso encontro! Eis a demonstração de humildade de Deus Todo-Poderoso que cabe dentro da nossa fragilidade humana para nos resgatar, para nos ensinar esse gesto de humildade. Devemos trabalhar para não ter a falsa humildade, mas sim a verdadeira humildade que é fruto da oração, da busca pelo silêncio, uma vida regrada pelos Sacramentos, pelo Magistério, e que é diferente da falsa humildade que é muito simbólica. Deus não quer somente a exterioridade de nós, Ele quer um coração puro, e é difícil essa busca de humildade porque o orgulho sempre vem incomodar, como se fosse a voz do demônio.


Felipe Marques/OFC –  Esse é o famoso “Non serviam” de Satanás, o "não servirei". Como o Sr. vê essa relação da espera do Advento, ou seja, a espera do Cristo que vem, com a Liturgia voltada ao Oriente (versus Deum, ad Orientem)? Como o Sr. vê essa relação e o que a Igreja perdeu hoje, por não se optar pela celebração nessa forma?

Padre Reginaldo – Nós vemos também essa relação do Versus Deum, onde está lá o padre e o povo voltados para Deus, juntos, onde o povo oferece e o sacerdote entrega [o Sacrifício] a Deus. Novamente essa importância do sagrado, do sacerdote! Tanto que o povo responde errado na Oração Eucarística, dizendo: "Recebei, Ó Senhor...". O correto é: "Recebei o Senhor, por tuas mãos, este Sacrifício...". Ou seja, é o sacerdote quem oferece o Sacrifício em nome do povo! Há também, nesse sentido, uma perda do sentido do Sagrado, da importância do sacerdócio nesse oferecimento do Sacrifício. Devido às ideologias, perdeu-se muito essa questão da Beleza do Sagrado. Diversas religiões têm essa questão do voltar-se ao Oriente, creio que seja mais uma questão de conscientizar o povo para que conheçam essa riqueza.

É importante também mostrar a beleza da Missa de Paulo VI, fazer com que o povo tome consciência disso. E muitas vezes falamos do que não conhecemos. Há uma beleza no rito bem celebrado.


Felipe Marques/OFC –  Sim, tanto no rito de Paulo VI (desde que bem rezado) quanto no rito de São Pio V.

Padre Reginaldo – Hoje há esse interesse de querer se redescobrir o valor da Missa de São Pio V. Devemos ensinar isto através do Motu Proprio [Summorum Pontificum] e também ensinar a beleza da Missa de Paulo VI, porque hoje há uma grande confusão com "missa afro", "missa de cura e libertação" [toda Missa legítima e validamente celebrada é de cura e libertação], missa isso e aquilo... Então, temos que ensinar e redescobrir o Valor da Missa.


Felipe Marques/OFC –  O problema é que as pessoas ideologizam.

Padre Reginaldo – Sim, ideologizam e, como vemos no documento do Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, a Igreja está no mundo porque é portadora de salvação. Ela sempre tem uma palavra de salvação para o mundo, ou seja, é Ela [Corpo de Cristo e continuidade de Cristo no mundo] que, quando está no mundo, purifica-o e transforma-o. Porém, o que vemos hoje são muitos elementos do mundo para dentro da Liturgia; é o contrário. Às vezes, trazemos elementos do mundo para a Igreja em nome de uma inculturação equivocada, em nome de uma interpretação errada, e começamos a trazer valores que não condizem com o Evangelho, com a Liturgia.


Felipe Marques/OFC –  Creio que a falta de convicção gera isso.

Padre Reginaldo – Ou então, às vezes, é feito em nome do público, da plateia. Nós queremos plateia e, nesse sentido, vamos nos desviando da Fonte, e nos perdemos, porque trazemos elementos exteriores [e de fato pagãos] ao Sagrado. Para onde, na verdade, é o Sagrado que transforma a realidade do mundo.


Felipe Marques/OFC –  Interessante isso, porque eu comentava com uma pessoa: Agradar às pessoas, não conseguiremos. Por isso, não devemos lutar simplesmente para agradar às pessoas, mas sim para fazer a Vontade de Deus e da Santa Igreja, sem público. Não buscar o público e a plateia.

Padre Reginaldo – Não julgando, porém, em certas realidades temos que tomar cuidado para não nos deixarmos ser levados pelas coisas, porque temos que pagar contas e afins, mas o padre deve ser também aquele que acredita na Providência! A Providência não falha se estivermos fazendo um trabalho que de fato seja para a maior honra e glória d’Ele e não nossa. Desde que a Igreja é Igreja, a Providência está aí. Vemos isso claramente nas vidas dos santos que optaram por uma radicalidade do Evangelho. Por um lado, alguns se desesperam para pagar contas, mas até que ponto vale a pena perder as convicções por causa de modismos ou plateias?


Felipe Marques/OFC –  Henrique Sebastião gostaria de saber a sua resposta para uma questão específica. O Sr. poderia comentar sobre a dimensão penitencial do tempo do Advento, e como essa dimensão penitencial se ordena com a alegria da espera pelo Nascimento do Salvador?

Padre Reginaldo – Tem a ver com o que nós falamos: esse convite de S. João Batista, de endireitar os caminhos para que o Senhor venha. Num outro sentido, para que seja compreensível – óbvio que todo exemplo e comparação fica distante da realidade em si – endireitar o caminho é ver aquilo que não está de acordo com as verdades do Evangelho e da Igreja, e que está distante do Senhor. Por isso esse momento é também de penitência: como eu devo preparar a minha vida interior para receber Deus de novo?

Quando nós entramos nesse desejo da busca do Senhor, o próprio Senhor ilumina a nossa vida e nos mostra o que não está de acordo, onde é que preciso mudar de vida e onde o orgulho está atrapalhando minha vida espiritual. E meus desejos? Minha vontade está prevalecendo sobre a Vontade de Deus? É necessário mudar aquilo que não está de acordo com a Vontade d'Ele, para que de fato, quando o Senhor vier ao nosso encontro, nós estejamos totalmente preparados e não haja nenhum obstáculo para esse encontro.


Felipe Marques/OFC –  Tanto um momento de penitência quanto de alegria, e tudo gira em torno da conversão.

Padre Reginaldo – Sim, e não é fácil! Sabemos que não é fácil o processo de conversão. Tanto que, muitas vezes, queremos que o outro se converta e esquecemos que nós também temos que nos converter.

É preciso muito silêncio e oração para descobrir que eu devo viver essa experiência, a experiência daquele que clama no deserto: "Preparai o caminho do Senhor!". Eu devo preparar o caminho! Exijo do outro que seja santo, mas eu não sou. Muitas vezes, temos um discurso tão bonito, mas sabemos que não é fácil se converter, mudar de vida, controlar o olhar que deseja, que é impuro, que julga. Que não é fácil controlar a língua, os instintos! Pensamos sempre que para o outro é fácil...

 Eu tive uma experiência interessante em velórios, porque antes eu "falava pelos cotovelos" [risos]... Então, depois que eu tive a experiência de perder a minha mãe, acompanhar todo o processo de liberar o corpo e voar 5h para resolver tudo... Então eu descobri que, nesse sentido, mais que as palavras o que conta é a simples presença. Você estava lá, foi solidário com a minha dor. Mesmo que não falou nada, você estava lá!

Devemos pedir também que Deus nos converta nesse sentido de ver que não é fácil para o outro, que eu exijo do outro, mas... E eu? Devemos pedir a graça de Deus para termos consciência de sabermos que, como dizia meu professor de metafísica: [com o perdão da expressão coloquial] "Somos sacos de merda, daquela bem fedida" e, se "fedemos" menos, é porque a graça de Deus habita em nós. Sejamos humildes! Sempre devemos nos colocar no lugar do outro, e então seremos melhores.


Felipe Marques/OFC –  É muito fácil apontar o dedo para quem está fora e dizer: você precisa mudar isso e aquilo, mas é difícil apontar o dedo para si mesmo com a mesma atitude.

Padre Reginaldo – Sim, muitas vezes é fácil ser solidário com a dor de quem está longe de mim, mas e quem está próximo? O meu próximo é quem está realmente próximo de mim [é exatamente o que a expressão bíblica quer dizer – amar o que está distante é sempre muito mais fácil]. Somos misericordiosos com o outro, que está distante, porque assim não nos envolvemos! É bem mais difícil dar atenção para o familiar, por exemplo.

Não digo que não devamos ser solidários também com quem está longe; devemos, sim. Porém, não podemos nos esquecer da dor do próximo, de quem está do lado, o parente, os pais...

A Igreja é muito sábia, e como sabe que somos frágeis Ela coloca esses dois momentos: Quaresma e Advento para que nos voltemos para Deus, e como e difícil voltar para Deus! A primeira coisa que se apresenta para quem deseja voltar é o orgulho! Por isso, vem a experiência do Filho Pródigo: "Eu errei"!

É bonito reconhecer que erramos, e assim o orgulho vai por terra. Porque somente Deus não erra. O orgulho é terrível. Veja, a distância é a mesma, porém, exigimos que o outro se mova e nós ficamos parados! Por exemplo: estamos brigados, e o Espírito Santo indica-nos que devemos fazer as pazes. Se nós dois tomamos essa consciência, então nos encontraremos no meio do caminho.

É preciso voltar para Deus, e isso ocorre através do sacramento da Confissão.


Felipe Marques/OFC –  Para encerrar, que "dicas" e conselhos práticos o Sr. daria para bem viver esse Tempo do Advento? Além do silêncio e oração, quais outras práticas de piedade o senhor recomenda?

Padre Reginaldo – A oração do santo Terço, a leitura do bons livros de espiritualidade e dos Padres da Igreja. Mas acho que, de fato, o que nos cura e santifica são os Sacramentos; penso que, primeiro, viria o sacramento da Confissão! É ele que, de fato, nos transforma, Deus nos quer curar e mudar através dos Sacramentos.

E com isso meditamos, novamente, na questão da humildade, porque Deus se fez homem para nos curar e ainda nos perdoa. Uma boa confissão faz com que sejamos mais misericordiosos e aí, quando vamos julgar, vamos com mais calma, analisamos melhor as coisas, somos mais pacientes.

Devemos saber que todos os dias da nossa vida devemos nos converter, porque muitas vezes até dormindo a gente peca(!). Que não tenhamos medo de receber a misericórdia de Deus no sacramento da Confissão, porque sabemos que não é fácil reconhecer que erramos, admitir nossos pecados sem justificativas. Lembrando que na Confissão não se deve falar de terceiros, do erro da sogra ou do sogro; deve-se falar do próprio erro, acursar-se!


Felipe Marques/OFC –  Essa questão do autoconhecimento é muito importante e São Bernardo de Claraval diz no “Tratado do conhecimento de si mesmo ou da consciência” que "o homem começa a ser justo quando acusa a si mesmo".

Padre Reginaldo – Sim, porque é mais fácil acusar os outros; sabemos que, quando acusamos muito os outros, é porque não estamos bem espiritualmente. O homem justo cuida de sua alma, de sua casa, de seus filhos! Oxalá não precisássemos passar pela experiência do filho pródigo, porém, infelizmente muitas vezes precisamos perder tudo para dar valor ao que tínhamos.

Que nesse tempo do Advento tomemos consciência do nosso pecado e que Deus na Sua infinita misericórdia nos ajude a vermos os nossos próprios pecados!

Veja o Cristo Menino: Deus Todo-Poderoso se faz tão pequeno para que você tenha coragem de se aproximar d’Ele!
(São Josemaria Escrivá)
www.ofielcatolico.com.br

3 comentários:

  1. Nossa Padre Reginaldo,suas palavras foram muito esclarecedoras, eu me vi me muitas situações que o senhor descreveu. Como o orgulho nos faz mal, nos torna pequenos, que devemos reconhecer nossas misérias, eu me senti tendo uma catequese, com as palavras claras e diretas sobre minhas falhas. Gostaria de agradece-lo pelas palavras.

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  2. Peçamos a Jesus que nos purifique e nos satifica.

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  3. Palavras sábias que nós fazem entender o verdadeiro e real sentido da vida. Obrigada Padre.

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