O Calvário e a Missa


Por Fulton John Sheen, Arcebispo, Venerável*

HÁ CERTAS COISAS na vida que são muito belas para que nos esqueçamos delas, como por exemplo o amor de uma mãe. Por isso, guardamos com carinho o seu retrato. O amor dos soldados que se sacrificam por sua pátria é igualmente belo demais para ser esquecido; portanto, reverenciamos sua memória em monumentos. Mas a maior bênção que já aconteceu a este mundo foi a vinda do Filho de Deus encarnado. Sua vida, mais que todas as outras, é bela demais para ser esquecida. Por isso, prezamos a divindade de suas palavras por meio das Sagradas Escrituras, e a caridade de suas obras por meio de nossas ações diárias. Infelizmente, algumas pessoas se limitam a lembrar apenas as palavras e as obras de nosso Divino Redentor; por mais importantes que sejam, não são estas as suas realizações mais grandiosas. O ato mais sublime da biografia de Cristo foi a sua morte.

A morte é sempre importante, porque sela um destino. Qualquer cenário de morte é um lugar sagrado. É por isso que os clássicos da literatura que lidam com emoções relacionadas à morte nunca saem de moda. E de todas as mortes da história da humanidade, nenhuma foi mais importante que a morte de Cristo. Nosso Senhor sempre soube que veio a este mundo para morrer. A morte era uma pedra de tropeço para Sócrates, mas para Cristo era a coroa da vida. Ele mesmo disse que tinha vindo para “dar a vida pela salvação de muitos” (Mc 14, 24) e que ninguém tomaria sua vida, mas que Ele mesmo a entregaria voluntariamente.

Se a morte foi o momento supremo para o qual Cristo viveu, foi também o modo com que desejou ser lembrado. Ele não solicitou aos homens que transcrevessem suas palavras em uma Escritura. Não pediu que sua generosidade para com os pobres fosse registrada na História. Mas pediu que a humanidade se lembrasse de sua morte. E para que sua memória não fosse abandonada ao acaso das narrativas humanas, Ele mesmo instituiu a maneira precisa de recordá-la.

Tal Memorial foi instituído na noite anterior à sua morte, e desde então foi chamado “A Última Ceia”. Tomando o pão em suas mãos, Jesus disse: “Este é o meu Corpo, que será entregue por vós”, ou seja, entregue à morte. Então, com o cálice nas mãos, disse: “Este é o Sangue da Nova Aliança, que será derramado por vós e por muitos, para a remissão dos pecados” (Mt 26, 28).

Assim, em um símbolo incruento da divisão do Sangue e do Corpo, pela consagração separada do pão e do vinho, Cristo ofereceu-se à morte diante de Deus e dos homens, e instituiu uma representação sacramental daquilo que aconteceria no dia seguinte, às três da tarde. Ele se ofereceu como vítima a ser imolada, para que os homens se recordassem que “não há amor maior do que o daquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13). Em seguida deu o divino Mandamento à Igreja: “Fazei isto em memória de Mim”.

No dia seguinte, que Jesus já havia prefigurado, levou a cabo, em plenitude, a sua missão: foi crucificado entre dois ladrões e seu sangue foi derramado para a redenção do mundo.

A Igreja fundada por Cristo preservou não apenas as Palavras ditas por Ele, e/ou as maravilhas que operou; também e sobretudo levou-o a sério quando disse: “Fazei isso em memória de Mim”. E a ação pela qual se atualiza a sua morte na Cruz é o Sacrifício da Missa, memorial daquilo que Ele realizou na Última Ceia como prefiguração de sua Paixão.

Venerável Fulton Sheen
Por isso é que a Santa Missa é para nós o ato mais importante do culto cristão. Um púlpito a partir do qual as palavras de Nosso Senhor sejam repetidas não nos unirá a Ele; um coral que entoe belas melodias não nos levará mais perto da Cruz. Templos sem altar de sacrifício existiram para povos primitivos, mas não têm significado algum para os cristãos. Na Igreja Católica, o Altar –, não a pregação do púlpito, ou o canto do coral, ou o som do órgão –, é o centro da cerimônia, pois ali é atualizado o memorial da Paixão de Nosso Senhor. Seu valor não depende de quem celebra ou assiste; depende d’Ele, que é o supremo Sacerdote e Vítima, Jesus Cristo. A Ele somos unidos, apesar da nossa insignificância. Em certo sentido, por um momento, perdemos a nossa individualidade; nosso intelecto e nossa vontade, nosso coração e nossa alma, nosso corpo e nosso sangue unem-se tão intimamente a Cristo que o Pai celeste não olha principalmente as nossas imperfeições, mas antes vê em em nós seu Filho amado, em quem se compraz. A Missa é, por tudo isso, o maior evento na história da humanidade; o único ato sagrado que protege o mundo pecador da ira de Deus, porque sustenta a Cruz entre o Céu e a Terra, renovando aquele momento decisivo em que nossa triste e trágica jornada humana repentinamente tomou o rumo da plenitude de uma vida sobrenatural.

O importante, aqui, é que tenhamos a atitude mental adequada a respeito da Missa, e que nos recordemos do importantíssimo fato de que o Sacrifício da Cruz não é algo acontecido há dois mil anos, mas que continua acontecendo hoje – agora. Não é como algum fato histórico, um evento do passado, como a assinatura de Declaração da Independência dos Estados Unidos, por exemplo. O Sacrifício do Cristo é um drama permanente, ao final do qual a cortina ainda não caiu.

Não podemos acreditar que a Paixão tenha acontecido há muito tempo e que, portanto, já não nos diz mais respeito, assim como qualquer coisa do passado. O Calvário pertence a todos os tempos e a todos os lugares. É por isso que, quando Nosso Senhor subiu ao Calvário, foi oportunamente despojado de suas vestes. Ele quis salvar a humanidade sem os ornamentos de um mundo passageiro. Suas vestes pertenciam ao tempo, pois elas o identificavam como um morador da Galileia. Assim, despojado de todas as coisas terrenas, Ele não pertencia mais à Galileia, nem a uma província romana, mas ao mundo inteiro. Ele se tornou o pobre homem universal, pertencendo não a um povo, mas a toda a humanidade.

Para melhor exprimir a universalidade da Redenção, a Cruz foi erguida em um ponto central entre as três grandes culturas: Jerusalém, Roma e Atenas, em cujos nomes Ele foi crucificado. A Cruz foi, portanto, afixada ante aos olhos dos homens para arrebatar o indolente, cativar o insensato e despertar o mundano. Foi o único fato inescapável ao qual as culturas e civilizações de seus dias não puderam resistir. É, igualmente, o único fato inevitável dos nossos dias a que não podemos resistir.

Os personagens presentes junto à Cruz foram símbolos de todos os que crucificaram e continuam a crucificar o Cristo. Nós estávamos lá, na pessoa desses nossos representantes. O que infligimos agora ao Cristo Místico, eles infligiram em nosso nome ao Cristo histórico. Se temos inveja dos bons, estávamos lá, nos escribas e fariseus hipócritas. Se temos medo de perder algum bem temporal ao abraçarmos a Verdade e o Amor divinos, estávamos lá em Pilatos. Se confiamos nas forças materiais e procuramos vitórias por meio do mundo e não do espírito, estávamos lá em Herodes. Assim a história continua para todos os pecados típicos do mundo. Todos eles nos cegam ao fato de que Ele é Deus. Houve, portanto, uma certeza irrefutável sobre a crucificação. Os homens que estavam livres para pecar, também estavam livres para crucificar Deus. Enquanto houver pecados no mundo, a crucificação é uma realidade. Como disse a poetisa:

“Eu vi o Filho do homem passando,
Coroado com uma coroa de espinhos.
‘Não estava terminado, Senhor’, disse eu,
‘E todo o sofrimento já suportado?’.
Ele voltou para mim seu olhar aterrador:
‘Ainda não entendeste?
Toda alma é um Calvário
E todo pecado é um madeiro’.”

Nós estávamos lá durante aquela crucificação. O drama já estava completo no que diz respeito ao Cristo, mas ainda não havia sido revelado a todos os homens e mulheres de todos os lugares e tempos. Se um rolo de filme, por exemplo, tivesse consciência de si mesmo, saberia o drama do início ao fim, mas os espectadores do cinema não saberiam até que tivessem visto o desenrolar da trama na tela. Do mesmo modo, Nosso Senhor na Cruz viu, com sua Mente eterna, o drama completo, a história de cada alma individual e como mais tarde iria reagir à sua crucificação. Mas, embora Ele nos tenha visto a todos, nós não poderíamos saber como reagiríamos à Cruz até que a história da nossa vida se desenrolasse na tela do tempo.

Podemos não ter consciência dessa nossa presença ativa no Calvário, naquele dia, mas Ele, o Senhor, estava consciente da nossa presença. Hoje sabemos o papel que desempenhamos no drama do Calvário, ainda que nós vivamos e atuemos agora no drama do século XXI.

Por isso o Calvário é sempre atual; porque a Cruz é a crise, o motivo de, em certo sentido, as cicatrizes dos cravos continuarem abertas; pois a dor de Cristo permanece divinizada e o seu Sangue continua a derramar-se sobre as almas, qual estrelas cadentes. Não há como escapar da Cruz, nem negando-a, como fizeram os fariseus, nem vendendo Jesus, como fez Judas, nem muito menos matando-o, crucificando-o como fizeram os carrascos. Nós todos comprovamos que é assim, quer abracemos a Cruz como nossa salvação, quer fujamos dela até a desgraça.

Mas como a Cruz se torna visível para nós? Onde encontrar o Calvário perpetuado? Encontraremos o Calvário renovado, revivido, reapresentado na Missa. O Calvário é um com a Missa, e a Missa é um com o Calvário, pois em ambos há o mesmo Sacerdote e a mesma Vítima. As Sete Palavras derradeiras são como as sete partes da Missa. E, assim como há sete notas musicais que admiten uma variedade infinita de harmonias e combinações, também na Cruz há como que sete notas divinas que a morte de Cristo vem tocando ao longo dos séculos, e que se combinam para formar a bela harmonia da redenção do mundo.

Cada palavra é uma parte da Missa. A primeira palavra, “Perdoa-os”, é o Confíteor (‘Confesso a Deus...’); a segunda palavra, “Hoje estarás comigo no Paraíso”, é o Ofertório; a terceira palavra, “Eis aí tua Mãe”, é o Santo; a quarta palavra, “Por que me abandonastes?”, é a Consagração; a quinta palavra, “Tenho sede”, é a Comunhão; a sexta palavra, “Tudo está consumado”, é o Ite, Missa Est (ou Rito de despedida); e a sétima palavra, “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” é o Evangelho final.

Imaginemos, pois, Cristo, o Sumo Sacerdote, deixando a Sacristia do Céu pelo Altar do Calvário. Ele já se revestiu da nossa natureza humana, tomou o manípulo do nosso sofrimento, a estola do sacerdócio, a casula da Cruz. O Calvário é sua Catedral; a rocha do Calvário é a pedra do Altar; o sol poente é a lâmpada do santuário; Maria e João são as imagens vivas dos altares laterais; a Hóstia é o Corpo de Jesus; o Vinho é seu Sangue. Ele, em pé, é o Sacerdote; prostrado, é a Vítima. Sua Missa está prestes a começar.

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* O conteúdo deste artigo é a íntegra do prefácio do autor para o livro 'O Calvário e a Missa', a ser relançado no mês de junho do ano 2017 pela editora Molokai, com revisão, diagramação e capa de Henrique Sebastião

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Fonte:
SHEEN, Fulton John. O Calvário e a Missa. São Paulo: Molokai, 2016, pp. 13-19
www.ofielcatolico.com.br

5 comentários:

  1. SANTO FULTON SHEEN, ROGAI POR NÓS!
    Urbano Medeiros - músico e performer em MG

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  2. A missa renova as graças obtidas por nós no calvário. é ocasião para comunhão do corpo de Cristo que nos fortalece para permanecer na graça santificante mediante a frequência aos sacramentos.

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  3. REalmente um texto belíssimo. O que pensaria o Fulton Sheen se vivesse hoje, com tanto desrespeito a liturgia da Missa que estamos assistindo?

    Ricardo

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  4. Caríssimos, em complemento a este belicismo post, vejam um vídeo de uma palestra proferida pelo saudoso Dom Fulton Sheen, sobre:"Qual significado da Santa Missa"

    https://www.youtube.com/watch?v=rM54GJ4MsBc

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  5. "SE TODOS SOUBESSEM O REAL VALOR DA SANTA MISSA,TERIA QUE TER MUITOS GUARDAS NAS IGREJAS" santo pe pio de pietrelcina

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