Uma fé adulta segundo Bento XVI


Prof. Dr. Rudy Albino Assunção – Frat. São Próspero

SEGUINDO COM O TEMA dos valores inegociáveis da Igreja, tal como foram defendidos no pontificado de Bento XVI (como visto em O FIEL CATÓLICO n.16), queremos agora falar do tema da fé adulta. Nestes nossos tempos, em que vivemos a exigência de um autêntico testemunho cristão, não nos é permitido viver uma fé infantil. Nunca nos esqueçamos, evidentemente, que Nosso Senhor nos pediu que fôssemos “como crianças” (cf. Mt 19 13-15; Mc 10, 13-16; Lc 18, 15-17), pois isso implica a acolhida do Reino com a pureza do coração delas. No entanto, se diante de Deus somos verdadeiras crianças –, pois Ele é o nosso Pai –, diante do mundo, ou ainda, no mundo, temos que ser verdadeiros adultos. O que o Iluminismo, o Esclarecimento (Aufklärung) pedia era que o ser humano saísse da menoridade – e Immanuel Kant o disse claramente: Sapere aude! – eis o seu lema. Só assim o ser humano alcançaria a verdadeira maioridade: a da autonomia, a de pensar por si mesmo[1]. Tudo o mais seria submissão e obscurantismo. Isso levou à contestação, pelo indivíduo, de toda instituição, de toda autoridade constituída. E isso afetou diretamente a Igreja.

Mas o Cristianismo sempre se entendeu como o verdadeiro Iluminismo, e Bento XVI o afirmou e repetiu incontáveis vezes[2]. Ele não traz as trevas da ignorância sobre o fiel, mas o ilumina com a Revelação, para levar a sua razão ao conhecimento cada vez mais amplo da realidade. Ela não cega, ela não o diminui, não o apequena; ao contrário, ela o engrandece, fazendo-o ver mais plenamente. E faz chamar a mentira e o erro com seus nomes próprios, não com eufemismos.

O não-conformismo cristão – Mas hoje, com o primado do indivíduo, da subjetividade, uma leitura parcial da história da Igreja também chegou a convencer muitos católicos, fazendo com que se opusessem a Igreja. Permanentemente. Abertamente. Belicosamente. Ser cristão seria contestar, revolucionar, rompendo com qualquer tradição. Só assim se é adulto, “esclarecido”. No entanto, para Bento XVI não é esse o verdadeiro espírito que perpassa a fé cristã, e o Papa alemão recorria à Carta de S. Paulo aos Efésios para demonstrá-lo. O Apóstolo dos Gentios dizia: “Não podemos mais permanecer como meninos inconstantes, levados por qualquer vento de doutrina...” (4, 14). Paulo deseja que os cristãos tenham uma fé “responsável”, uma “fé adulta”. A expressão “fé adulta”, nas últimas décadas, tornou-se um slogan difundido. Ouvimo-lo com frequência no sentido da atitude de quem já não dá ouvidos à Igreja e aos seus Pastores, mas escolhe autonomamente aquilo em que quer ou não crer; portanto, uma fé “ad hoc”. Esta é apresentada como “coragem”, de se expressar contra o Magistério da Igreja. Na realidade, todavia, para isso não é necessária coragem, porque se pode ter sempre a certeza do aplauso público. Pelo contrário, é necessária coragem para aderir à fé da Igreja, não obstante ela contradiga o “esquema” do mundo contemporâneo. Esse é o não-conformismo da fé, ao qual Paulo chama uma “fé adulta”. É a fé que ele quer. Por outro lado, qualifica como infantil o correr atrás dos ventos e das correntes do tempo. Assim, faz parte da fé adulta, por exemplo, empenhar-se pela inviolabilidade da vida humana desde o primeiro momento, opondo-se assim de forma radical ao princípio da violência, precisamente também na defesa das criaturas humanas mais inermes. Faz parte da fé adulta reconhecer o Matrimônio, entre um homem e uma mulher, para toda a vida, como ordenamento do Criador, restabelecido novamente por Cristo. A fé adulta não se deixa transportar aqui e ali por qualquer corrente. Ela se opõe aos ventos da moda. Sabe que esses ventos não constituem o sopro do Espírito Santo; sabe que o Espírito de Deus se expressa e se manifesta na comunhão com Jesus Cristo”[3]. 

Vejamos que acima está toda a lista de valores inegociáveis que a moral cristã defende a todo custo. É fantástico ver como Bento XVI mostra que deve existir sempre um “não-conformismo” cristão. O católico não rejeita o mundo, mas quer purificá-lo daquilo que o afasta de Deus, da vontade salvífica do Senhor. Assim, a Igreja perde precisamente sua voz profética quando quer fazer um uníssono com as correntes societárias mais dissonantes do Evangelho.

Criticar o Papa e os bispos é muito fácil. Difícil é viver uma comunhão de fé diária; difícil é viver uma purificação pessoal para que o próprio pecado não atinga o corpo da Igreja, difícil é enfrentar o establishment que financia programas governamentais antirreligiosos, que patrocina a “cultura da morte”, que fabrica mordaças para tolher a liberdade cristã, sobretudo e que ataca o matrimônio e só exalta o sexo.

Agir na verdade e na caridade – Mas Bento XVI lembra ainda que
Paulo não se detém na negação, mas leva-nos ao grande ‘sim’. Descreve a fé madura, verdadeiramente adulta, de maneira positiva com a expressão: ‘agir segundo a verdade na caridade’ (cf. Ef 4, 15). O novo modo de pensar, que nos foi dado pela fé, verifica-se antes de tudo em relação à verdade. O poder do mal é a mentira. O poder da fé, o poder de Deus, é a verdade. A verdade sobre o mundo e sobre nós mesmos torna-se visível quando olhamos para Deus. E Deus torna-se-nos visível no rosto de Jesus Cristo. Olhando para Cristo, reconhecemos mais uma coisa: verdade e caridade são inseparáveis. Em Deus, ambas são inseparavelmente uma só coisa: a essência de Deus é precisamente esta. Por isso, para os cristãos verdade e caridade caminham juntas. A caridade é a prova da verdade. Sempre de novo, deveríamos ser medidos em conformidade com este critério, para que a verdade se torne caridade e a caridade nos torne verídicos.[4]


O que está por trás dessa afirmação de Bento XVI? Toda a sua apreciação do relativismo moderno. Aqueles que elencam a “caridade” –, o amor –, como princípio único e exclusivo, tendem a classificar todos os que levantam a bandeira da verdade como “intolerantes” (ao que aludi no artigo anterior). Sobretudo no tempo em que se fala de “pós-verdade”, falar em verdade, ou melhor, na Verdade, parece a mais pura autoimposição e falta de sensibilidade pós-moderna diante do “diferente”. Mas a posição da Igreja, defendida por Bento XVI na mais estrita fidelidade ao pensamento paulino, é que o anúncio da verdade deve vir acompanhado da postura amorosa, caridosa. Ou melhor, dizer a verdade é caridade. Um mundo que se engana, um mundo cheio de grandezas mas que caminha para o abismo, precisa ouvir a verdade.

A Verdade não admite compromissos – Ainda dentro da nossa temática, certa reflexão de Bento XVI feita numa memória litúrgica de S. João Batista nos ajuda também aqui. Lembrando a fidelidade do Precursor aos Mandamentos de Deus, paga com o preço do próprio sangue, o Papa dizia “que o martírio de são João Batista nos recorda, também a nós cristãos deste nosso tempo, que não se pode ceder no compromisso com o amor a Cristo, à sua Palavra e à Verdade. A Verdade é Verdade, não existem compromissos. A vida cristã exige, por assim dizer, o ‘martírio’ da fidelidade quotidiana ao Evangelho, ou seja, a coragem de deixar que Cristo cresça em nós e que seja Cristo quem orienta o nosso pensamento e as nossas ações”[5]. Ainda que isso nos custe os mais variados dissabores e sofrimentos. O que é próprio daquele que é adulto em Cristo. 

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1. Cf. KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o Esclarecimento. Cognitio,
São Paulo, v. 13, n. 1, p. 145-154, jan./jun. 2012.C.
2. Para citar apenas uma delas, cf. RATZINGER, Joseph; D’ARCAIS, Paolo Flores.
Deus existe? São Paulo: Planeta do Brasil, 2009, p. 40.
3. Bento XVI, Homilia nas Primeiras Vésperas por ocasião do Encerramento
do Ano Paulino, Solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, Basílica de São
Paulo Fora dos Muros, 28 de junho de 2009.
4. Ibid.
5. Id., Audiência geral, 29 de agosto de 2012.

Artigo publicado na revista O FIEL CATÓLICO n. 18
www.ofielcatolico.com.br

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