Progredir na vida espiritual – 2


DEPOIS DE VIGIAR-NOS durante algum tempo, perceberemos se conseguimos vencer, ou não, o nosso defeito ou pecado dominante. É então que a presunção poderá se apoderar de nós. Convém refletir honestamente sobre si próprio, constantemente.
Claro que qualquer superação do nosso defeito dominante é um bom sinal e motivo de alegria (estamos preparando para a próxima edição um estudo completo sobre o exercício fundamental do cristão para identificar e vencer o seu defeito/pecado dominante), mas poderá não ser uma prova real de progresso, pois é possível que nossas tentações estejam apenas momentaneamente mais fracas, por qualquer motivo.

O demônio pode, com sua sutileza e assombrosa inteligência, prever que haveríamos de nos examinar sobre esse ponto; talvez queira se aproveitar disso para nos incutir uma falsa confiança, e assim tenha talvez retirado temporariamente suas tropas de nossas vidas, deixando-nos desfrutar de uma paz temporária com o intuito de retornar mais tarde à carga, até com força redobrada, e nos pegar desprevenidos.

Ou, então, poderá ser que nossos defeitos estejam mudando, devido a alguma alteração da vida exterior, seja pelo peso dos anos, seja por qualquer outra causa; o certo é que os defeitos também mudam, e que essas mudanças dão lugar a alguns dos mais notáveis fenômenos da vida espiritual.

É possível, ainda, que a sensibilidade e a delicadeza de nossa consciência estejam como que turvas devido a alguma pequena infidelidade à graça e, por conseguinte, estejamos menos conscientes dos nossos próprios defeitos. Haverá quem não tenha experimentado semelhante situação e que só depois, olhando para trás, percebeu o engano?

Não há, portanto, nenhum fundamento para a presunção espiritual pelo fato de notarmos menor número de reincidências em algum dos nossos pecados mais habituais. Tampouco deverá ser causa de desânimo se tivermos ultimamente tropeçado e caído com mais frequência. Da mesma maneira que no caso da presunção, porém em sentido contrário, pode ser que –, por diversas razões –, tenhamos agora mais consciência das quedas do que antes, e isto é que nos dê a sensação de tudo estar pior; ou então, Deus poderá estar permitindo essas quedas afim de nos manter humildes, talvez até ocultando nossos progressos em outras frentes.

Pode ser também que nosso grande inimigo invista fortemente contra nós nesse ponto em particular; talvez estejamos de fato sofrendo um assédio espiritual de grande intensidade, e não somente atravessando terras árduas, como é normal na caminhada de todo cristão. Não temos, pois, bastante conhecimento de nós mesmos para desanimarmos com estes sinais.

Devemos continuar a nos observar atentamente por muito tempo antes de poder, com segurança, medir os nossos progressos. Somos sujeitos, como vimos nas edições anteriores, à presunção ou ao desânimo, conforme tivermos ou não a devoção sensível nos nossos sinceros exercícios espirituais.
A presunção deve lembrar-se, portanto, que o suave sentimento de estar fazendo tudo certo pode resultar de causas físicas, como a boa saúde, o bom tempo ou um temperamento naturalmente feliz: meia hora de oração sob o céu azul e o ar inebriante de uma bela praia, ou diante da paisagem luxuriante de uma região serrana, é um trabalho mais fácil do que meia hora de oração entre os gases tóxicos do trânsito engarrafado em plena Avenida Paulista num final de tarde de sexta-feira...
Embora a devoção seja uma operação da Graça, se desordenada, até ela pode ser prova de enfermidade ou infância espiritual.

A verdadeira devoção piedosa é como que o "imã" com que Deus, em sua santa condescendência, nos atrai, quando ainda não temos uma virtude bastante sólida para distingui-lo dos seus dons ou para servi-lo por sua causa, por amor de Quem Ele é, e não por medo da morte e do Inferno ou para ganhar alguma graça.

Sim, um imã que devemos procurar e reter sempre conosco, com ardor, porque produzirá frutos verdadeiramente sólidos, contanto que seja dom de Deus e não mero resultado de nossas ilusões ou soberba. Se é dom, não é virtude; Deus a dá a quem quer, quando quer e na medida do seu Desejo insondável. De mais a mais, ao contrário do que pode parecer, a própria privação é às vezes um grande favor divino que poderá nos ajudar mais do que todas as bençãos, com o fim de elevar nossa alma a um estado mais alto e aumentar-lhe o amor e os méritos. Mesmo um castigo, vindo de Deus, pode ser um grande favor, pois Deus tira de todo mal um bem maior, conforme ensinou Sto. Agostinho. Não é sensato, portanto, desanimar pela ausência da devoção sensível.

Muitas pessoas entregam-se à tristeza porque estão certas de que determinado sintoma de sua vida espiritual é um castigo divino, que Deus lhes retirou a sua Face, que já não espera delas mais nada e que seu destino está traçado. Ah! quando uma pessoa devota fica de mau humor, torna-se o mais desarrazoado dentre todos.

Não há nada de desanimador em ser punido por Deus: ao contrário, quando Ele pune é sinal de que não nos esqueceu! Se nos esquecesse, então, isso sim seria terrível. Além de que o seu castigo é castigo de Pai; a dureza da repreensão e a dor da severidade divina são, na verdade, apenas sinais da afeição que nos tem. Se amamos mesmo a Deus sobre todas as coisas (artigo específico na próxima edição), saberemos ser verdadeiramente gratos pelo fato de o Pai Celeste querer nos corrigir.

Nunca desejemos que Deus nos poupe dos seus castigos. Seria esse um desejo que Ele poderia facilmente satisfazer, mas pelo qual haveríamos de pagar muito caro, no fim. Deus interessa-se por nós e, quando nos castiga, suas intenções são cheias de misericórdia e divino Amor. Sua Mão é temível, mas contém sempre graças especiais que nos dará quando nossa natureza estiver pronta e suficientemente mortificada.

Entre as desnecessárias preocupações, figura a de reparar se a oração mental e a meditação (estudo especial sobre meditação na próxima edição) se vão tornando mais fáceis. A meditação em si é, normalmente, tão cheia de dificuldades que o menor sinal de que a pratiquemos com um pouco mais de facilidade nos desperta logo sentimentos de presunção. Devemos, porém, lembrar-nos de que o hábito da oração não é a mesma coisa que a graça da oração; a meditação é um método de oração em que o raciocínio desempenha papel tão importante que é muito fácil formar-se-lhe um hábito, sem que ela nos penetre ou nos afete a vida interior.

Exemplos disso apresentam-se continuamente diante de nós. Há pessoas que nunca abandonam a meditação diária[1], sem por isso parecerem melhores, levarem uma vida mais digna ou modesta, vencerem sua paixão dominante, governarem suas línguas ou se tornarem-se mais santas em qualquer aspecto.

Não nego que o hábito da oração seja coisa excelente, mas este ainda não é o dom da oração, e somos tentados a exagerar-lhe a importância, confundindo-o com o dom divino. Pode também acontecer que, em certas ocasiões, os assuntos de meditação sejam mais fáceis, por serem mais conformes ao nosso gênio, ou se inspirarem no ciclo litúrgico.

1. A récita do Rosário tem por objetivo a meditação dos Mistérios da Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor; entretanto, o hábito muito salutar de se fazer meditação diariamente era bem mais comum do que hoje na época em que esta obra foi escrita.


Para uns será o Natal, para outros a Quaresma ou Corpus Christi. Alguns têm mais facilidade em meditar sobre a Paixão do que sobre a santa Infância; outros encontram descanso e devoção nas narrativas do Evangelho e nas Parábolas do Mestre, mas permanecem vacilantes diante da perspectiva de meditar diariamente os Mistérios de Nosso Senhor como se faz tradicionalmente pelo uso do santo Rosário. Outros sentem-se mais dispostos quando a saúde está melhor, o sono mais restaurador, as circunstâncias exteriores mais felizes e as emoções andam serenadas, mas têm dificuldades quando há muitos problemas para resolver. Outros, ainda, esquecem-se de rezar quando tudo vai bem e só procuram a Deus quando sofrem. De todo modo, tudo deveria servir para nos lembrar e precaver contra o perigo da presunção, que pode surgir durante aqueles tempos quando a meditação corre mais suave.

Do mesmo modo, não há razão para desanimarmos quando a meditação, ao contrário, em vez de se tornar mais fácil, parecer tornar-se impossível. A facilidade na oração mental exige longo trabalho, e resulta mais da mortificação do que do hábito; e o progresso na mortificação, conquanto deva ser constante e generoso, deve também ser gradual e cauteloso, para não cairmos nos perigosos excessos. Lembremo-nos que, em vista de nossa desgraçada fraqueza, muitas vezes é preferível fazer menos do que mais.

Além de tudo, como mostraremos a seguir, as meditações áridas são muitas vezes as mais proveitosas, e é justamente a aridez que cria a dificuldade. No mais, porque encarar tudo pelo pior lado? Não há pecado algum em sentir dificuldade na oração. Que não admita o cristão o direito de ficar desanimado em relação aos seus pecados, e tenha ainda maior certeza de que aquilo que não chega a ser pecado nunca, jamais deverá desanimá-lo.

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Adaptado da obra do Pe. Frederick Willian Faber, 'Pogresso na vida espiritual', 1ª edição (Vozes, 1939).

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