A Septuagésima: o quê, por quê e como



PELA SABEDORIA DA IGREJA –, desgraçadamente tão e cada vez mais abandonada –, o ano litúrgico se divide basicamente em três partes: o Tempo Comum, o Tempo do Natal e o Ciclo Pascal. Segundo o rito de Pio V, porém, o tempo litúrgico se divide em dois tempos somente: o Ciclo do Natal e o Ciclo da Páscoa. Segundo este, o Ciclo do Natal encerrou-se no domingo que passou, com a celebração do domingo depois da Epifania. Agora começa o Ciclo da Páscoa, que se estende até o Advento deste ano. Este é o Tempo maior, que encerra o grande Mistério: o Mistério da Redenção.

Os bons católicos sempre amaram a penitência; os bem orientados estiveram sempre muito conscientes de que este mundo e esta vida são passageiros, e importa infinitamente mais o mundo que virá, a vida eterna, do que as coisas deste mundo, sejam as políticas dos homens, a economia e coisas desse tipo. Assim, já se adiantava o tempo de recolhimento e penitência nos três domingos anteriores à Quaresma, na Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima, que antecedem justamente a Quadragésima, o tempo santo da penitência. Serviam esses dias como preparação, quando já começavam a aparecer os primeiros sinais da penitência, com o recolhimento e a reflexão no Mistério central da salvação, que é a Cruz de Nosso Senhor.

A Liturgia da Palavra já desta Septuagésima mostra o quanto devemos nos esforçar em alcançar a salvação, pois com esse assunto não se brinca. Que poderia haver de mais importante do que a salvação de nossas almas? Diz o Apóstolo das Gentes que todos devem correr para a alcançar a "coroa incorruptível", a saber, a salvação eterna (1Cor 9,24). Mas diz também que Deus, dentre todos aqueles que o procuram "de muitos não se agrada" (1Cor 10,5).

Da mensagem insistente dada em Fátima – "Penitência, penitência, penitência; oração, oração, oração..." – devemos nos lembrar sempre e constantemente, em especial nestes nossos tempos insanos. Tempos de horrores seguidos sempre de novos e piores horrores. Enquanto a profecia do Papa João Paulo II se cumpre a passos largos (saiba mais), com o Islã invadindo irremediavelmente a Europa outrora cristã, e os que se atrevem a protestar sendo tachados de "racistas", "fascistas", "intolerantes" e outras coisas do tipo, o atual Papa, após ter recebido o recém-eleito presidente da Argentina (oportunidade em que não tocou no assunto do iminente projeto de lei favorável ao aborto do mesmo Fernández), foi rápido em acolher o pedido de receber o ex-presidente e criminoso Lula. Muito se especula-se de que o herege Leonardo Boff estará junto em tal visita.

Contudo e por tudo, a divisão entre católicos se aprofunda a cada dia. Agora não temos mais apenas conservadores de um lado e progressistas de outro. Temos os que apoiam e os que condenam Francisco. Grupos que se dividem em subgrupos diversos: entre os que apoiam, temos aqueles que o fazem incondicionalmente e que, aparentemente, continuarão a apoiar mesmo que Francisco amanhã venha a dizer que Cristo não é Deus ou que Maria não foi sempre virgem; e há os outros, que lhe são favoráveis mas com desconforto por conta de suas atitude. Já entre os que o condenam, temos os radicais, alguns que o chamam abertamente de "antipapa" e mesmo de "anticristo", e os que ainda o respeitam enquanto sucessor de Pedro, mesmo pronunciando-se contra alguns (ou muitos) dos seus gestos e posturas.

Retornando à Septuagésima, esta foi observado por muitos séculos no calendário romano tradicional. O terceiro domingo antes da Quarta-feira de Cinzas assim se chamava em referência ao “septuagésimo” dia antes da Páscoa, e assim sucessivamente a Sexagésima (sexagésimo dia) e a Quinquagésima (quinquagésimo dia). Desse modo, todo o tempo da Quaresma recebia o nome de Quadragésima.

[Todo o tempo da Quaresma é chamado tecnicamente de Quadragésima, embora haja mais de 40 dias entre a Quarta-feira de Cinzas e a Páscoa. Para se aproximar desse número, é preciso contar os dias da Quaresma excluindo os domingos e o Tríduo Pascal, que constitui um tempo litúrgico à parte.]

Já no calendário pós-Vaticano II, correspondente ao Novus Ordo do Papa Paulo VI, já não existe a "pré-Quaresma". Uma grande perda, assim como também a retirada da Oitava de Pentecostes. E lamentavelmente tais mudanças não se deram conforme a exigência da própria Constituição Apostólica Sacrosanctum Concilium – uma das quatro constituições do próprio Vaticano II de forma orgânica, isto é, em um processo decorrente das práticas anteriores ou em benefício dos fiéis.

Como um alento, com o documento Summorum Pontificum, de 2007, um verdadeiro presente do Papa Bento XVI, os domingos pré-quaresmais puderam recuperar ao menos uma parte da sua antiga posição. Os que optam por seguir o calendário tradicional mais antigo podem ainda desfrutar do benefício da pré-Quaresma.

Em termos práticos, a pré-Quaresma nos proporciona um período de transição que facilita a nossa disciplina quaresmal. Nesse tempo somos levados a meditar em que faremos durante a Quaresma, antes de começar, e não no dia seguinte à Quarta-Feira de Cinzas. Podemos considerar a pré-Quaresma um tempo para organizar nossa jornada quaresmal. Assim, quando chegar a Quarta-feira de Cinzas, estaremos prontos, tendo um plano em mente. Comecemos, então, desde agora a nos preparar.

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Um comentário:

  1. A paz de Jesus Cristo.

    Excelente texto, como sempre. "Tempo Comum" parece ser algo sem muita importância, tipo; um hiato entre o Tempo do Natal e o Ciclo Pascal, mas evidentemente, não é isso!

    Esse seu texto, caro irmão Henrique Sebastião, esclarece e põe os pingos nos is. Não existe um "Tempo Comum", para nós Católicos. Todos os 365 ( 366 nos anos bissextos, como 2020..), dias são de vivência, crescimento, aprimoramento, participação efetiva de todos os Católicos na fé, pois não há "férias" na Liturgia da Igreja, no Evangelho de Jesus Cristo.

    Oremos e seguimos vigilantes.

    Salve Maria!

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