Que deve fazer o fiel católico nestes tempos de crise e apostasia? – parte 7 | reflexões sobre o Sedevacantismo III



[AVISO: dentro deste tópico específico, tudo o que se afirma não representa necessariamente a posição da Fraternidade Laical São Próspero, mas expressa os pontos de vista defendidos pelos sedevacantistas, com o intuito de tentar esclarecê-los.]


VIMOS NO ESTUDO anterior (leia) sobre a gravidade de se querer fazer da Igreja uma espécie de república democrática, reduzindo toda a realidade sagrada do seu inefável Mistério à condição de uma organização meramente humana. O Concílio Vaticano II, todavia, foi ainda mais longe e garantiu a todos o direito à liberdade religiosa, baseando-se para isso na dignidade inalienável do ser humano.

    Pergunta-se como é que a Igreja, posta no mundo para ser "Mãe e Mestra" de todos os povos e conduzir as almas à salvação trazida por Cristo, poderia aceitar bovinamente que seus fiéis simplesmente decidissem escolher o erro, o engano e a morte, no lugar da Verdade, do Caminho seguro e da vida eterna, como se tal escolha fosse igualmente digna e justa? Não se trata aqui de pretender obrigar quem quer que seja a se tornar católico: trata-se de perseverar na defesa da Verdade: há uma só Igreja e um só Caminho para a salvação.

    Fato é que os defensores dessa dignidade humana posta acima da própria Verdade, imbuídos do tal “espírito do Concílio”, agora não cessam de enaltecer as grandes qualidades das religiões estranhas à verdadeira Fé, mesmo as que renegam Jesus como o Cristo, Filho de Deus e Deus, base fundamental da Confissão de São Pedro – sobre a qual a Igreja desde sempre se sustentou.

    Ora se a todos é dado o direito de escolher a própria religião, pregando-se ao mesmo tempo que mesmo assim serão salvos – o que contraria o dogma “Extra Ecclesiam nulla salus”, ensinamento constante do Magistério e da Tradição firmado pelo IV Concílio Lateranense e reafirmado pelo Concílio de Florença como doutrina "que a Igreja sempre pregou e nunca deixará de pregar" – então não se crê mais no Sacrifício de Cristo, nem na sua condição de Salvador e único Mediador entre Deus e os homens. 


    Desde que a Igreja renunciasse ao direito e ao seu solene dever de afirmar-se como a única capaz de levar a Mensagem da Verdade e da salvação, porque Cristo é o único Deus e Salvador que se encarnou e morreu na Cruz por nós, a partir daí deixaria de ser a verdadeira Igreja. E foi exatamente isso o que houve! Pois se a Fé na salvação pela Morte e Ressurreição de Cristo é verdadeira – se é que continuamos crendo nisso – então continuamos tendo a obrigação de pregá-la e defendê-la, de dizer a todas as pessoas que sem essa Fé não poderão se salvar. Mas a nova igreja do Vaticano II deixou que todos se sentissem  inteiramente “livres” para escolher em que acreditar, e assim retirou o Fundamento da Pedra-Pedro, a Confissão de Fé do primeiro Papa. Sem fundamento, não há edifício que permaneça de pé. Esta não pode ser a Igreja verdadeira.



O Argumento Doutrinal


Assim, Bergoglio nem sequer pertence – e nem poderia pertencer – à verdadeira Igreja, porque ele não crê com a Igreja, não confessa a Fé da Igreja: ele está em claríssimo cisma com tudo o que de mais essencial afirmaram e promulgaram os 260 Papas antes do Vaticano II, e mesmo todos os 265 anteriores a ele (incluindo os últimos 5, provavelmente também ilegítimos). Em outras palavras, Bergoglio está em cisma com o Papado. É ele o cismático, e não os que apontam para esta simples e flagrante realidade.


    O Papa Leão XIII, em sua encíclica Satis Cognitum (de 29 de junho de 1896), reafirmou o que dizem as Sagradas Escrituras: para que alguém se possa considerar católico, é preciso que confesse a íntegra da Fé católica, toda esta, e não que assuma apenas uma ou outra parte da Sã Doutrina. Jesus Cristo não concebeu nem instituiu diversas igrejas, semelhantes entre si por determinados traços gerais, mas distintas umas das outras, não ligadas si pelos laços que são os únicos capazes de dar à Igreja, ao mesmo tempo, a individualidade e a unidade de que fazemos profissão no Símbolo da Fé: “Creio na Igreja una”.

A Igreja é constituída na unidade por sua própria natureza: é una, embora as heresias tentem dilacerá-la em várias seitas. Dizemos que a antiga e católica Igreja é una: tem ela unidade de natureza, de sentimento, de princípio, de excelência. (...) Aliás, o ápice da perfeição da Igreja, como o fundamento da sua construção, consiste na unidade: é por aí que ela excede tudo no mundo, é por aí que ela não tem nada igual nem semelhante a si (Clemens Alexandrinus, Stromatum, lib. VII, cap. 17). Quando o Senhor Jesus fala desse edifício místico, menciona sempre uma única Igreja, a que Ele chama sua: 'Edificarei a minha Igreja'. Não sendo fundada por Jesus Cristo, qualquer outra que se queira imaginar fora dela não pode ser a verdadeira Igreja (...).

A missão da Igreja é, pois, espalhar ao longe entre os homens e estender a todas as idades a salvação operada por Jesus Cristo, e todos os benefícios que dela decorrem. É por isso que, consoante à vontade de seu Fundador, necessário se torna que ela seja única em toda a extensão do mundo, em toda a duração dos tempos.

(Papa Leão XIII, Satis Cognitum, 9 de Junho de 1896, §§7-8)


    Que completa diferença de tudo o que ensina Bergoglio! Mais que apenas diferente, ele diz o contrário do que disseram todos os outros Papas! Já no Catecismo de São Pio X encontramos a resposta direta e categórica a uma pergunta fundamental: 


Quem são os que se encontram fora da verdadeira Igreja?

Resposta: Encontram-se fora da verdadeira Igreja os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados.

(Catecismo de S. Pio X, questão 224)


    E mais:


Quem são os hereges?

Resposta: Os hereges são as pessoas batizadas que recusam com pertinácia crer em alguma verdade revelada por Deus e ensinada como de Fé pela Igreja Católica.

(Catecismo de S. Pio X, questão 227)


    E ainda mais:


Quem são os apóstatas?

Resposta: Os apóstatas são aqueles que abjuram, isto é, renegam, com ato externo, a Fé católica, que antes professavam.

Quem são os cismáticos?

Resposta: Os cismáticos são os cristãos que, não negando explicitamente dogma algum, separam-se voluntariamente da Igreja de Jesus Cristo, ou dos legítimos Pastores.


    Não há o que contestar. Resta somente reconhecer o nefando projeto de infiltração, pensado e planejado desde muito tempo antes do próprio Vaticano II, o qual foi implantado de modo organizado e sistemático dentro da Igreja, e que foi mais do que bem sucedido; seus feitores agora atingem o ápice dos seus mais pérfidos objetivos: a completa destruição da Fé católica e apostólica. 



O mal triunfou sobre a Igreja?


É preciso saber que reconhecer a realidade desses gravíssimos fatos não significa crer que estamos perdendo a Igreja, ou que a Promessa de Nosso Senhor ('o Inferno não prevalecerá') tornou-se sem efeito. Ao contrário: é apegando-nos a essa divina Promessa que cremos no triunfo final dos verdadeiros fiéis católicos e apontamos toda essa situação de absurda fraude, em que todas as estruturas e instâncias “legais” da Igreja foram tomadas por uma anti-igreja e um antimagistério, com um anticlero que prega uma antidoutrina e pratica uma antiliturgia, fazendo tudo ao contrário do que a Igreja sempre creu, prescreveu, ordenou e praticou durante sua história de quase dois milênios.


    A partir daqui se pode, com honestidade, refletir: se essa Igreja, cujo papa é Francisco, é verdadeira, por que nela prevalece a iniquidade? Por que dentro dela os infiéis não são punidos, nem afastados, nem advertidos, mas até incentivados? E por que aqueles que tentam ser fiéis, estes sim são punidos? 


    A única resposta satisfatória, honesta e suficiente a esses “por quês” é, assim como costumam ser as respostas verdadeiras, bastante simples: porque essa não é a verdadeira Igreja de Cristo.


    Essa falsa Igreja, revestida de aparência de Igreja Católica – assim como, por exemplo, a igreja anglicana – apresenta-se de posse de um álibi cruel, na medida em que tomou os próprios edifícios onde se situava a sede da Igreja de Cristo. E Deus o permitiu para que nós percebêssemos que chegamos já no processo final de um longo caminho, pavimentado pelos inimigos da Igreja para alcançar o que desde sempre mais queriam e cobiçavam: o Trono do Pontificado. 


    Os inimigos da Igreja, que atacavam sempre o Papado, perceberam que nunca poderiam vencer os católicos, porque eram poderosos sob a condução do Sucessor de São Pedro. E assim permaneceu, até que tomaram a decisão de fazer o que sabem melhor: uma artimanha. Elaboraram um plano audaciosíssimo, e o levaram a cabo, de modo organizado, sistemático, com incrível persistência e contando sempre com toda a ajuda dos inimigos de Cristo, os demônios. E conseguiram o que sempre parecera impossível: fizeram com que um deles se tornasse o próprio “papa”! A partir daí, tinham o triunfo nas mãos, já que a Igreja nada pode contra o Papa: se os católicos reconhecem este ou aquele homem como o Papa legítimo, então obrigatoriamente terão que obedecê-lo.


    Essa imensa tragédia concretizou-se a partir do terrível momento em que Ângelo Giuseppe Roncalli se tornou “papa” em 1958. Sim, é um tempo já longo em que vivemos nesse processo abominável de demolição interna, de destruição – terrivelmente eficiente, porque é feita a partir de dentro, pelos alicerces. Não poderia haver maneira mais efetiva de se derrubar uma casa do que comprometendo a sua base, aquilo sobre o que a estrutura se sustenta.


    E por se tratar de um tempo já tão longo, muitas pessoas que querem ser católicas não conseguem mais compreender esse processo, porque já se acostumaram com essa falsa igreja, com esse estado catastrófico, com as paredes rachadas, o piso incerto, as heresias ditas em profusão, as monstruosas profanações com as quais quase ninguém mais se importa, com bispos que não passam de lobos travestidos de "pastores" e de ver o papa –, que ordinariamente não se prostra diante do Santíssimo Sacramento em razão de supostas dificuldades físicas –, prostrando-se aos pés de blasfemadores, ou a rastejar de quatro pelo chão, a beijar pés de políticos.


Numa das cenas mais constrangedoras da história do papado, Bergoglio rasteja de joelhos osculando os pés de líderes políticos do Sudão; já diante do Santíssimo Sacramento, repetidamente evita prostrar-se, ou ao menos fazer uma breve genuflexão (saiba mais).

    A maioria dos católicos atuais já nasceu no meio desse caos e, como diz o provérbio, “o peixe não percebe a água em que vive”: o pobre leigo comum dos nossos dias, qual peixe, já não sabe nem nota que respira água contaminada, pois ela sempre foi assim, desde que ele nasceu. A maioria, hoje, nunca soube que a verdadeira Igreja é outra coisa, completamente diferente (se vemos surgir nos nossos dias, como que por milagre, toda uma nova geração que tenta resistir, sentindo a falta do que nunca conheceu e gemendo de saudades por um tempo que não viveu, isso só se pode atribuir à Graça de Deus e à divina Providência, que nunca abandonará a Igreja).


    Assim, não podemos olhar para o trágico fenômeno do papado de Bergoglio, ou sobre ele tecer quaisquer considerações, se não considerarmos a obra iniciada por Roncalli, que escolheu o nome João XXIII. Não é possível analisar o “papa Francisco” sem considerar e entender o grave problema do Concílio Vaticano II: esta é a conclusão de muitos grandes teólogos e prelados, entre os quais Mons. Viganò. De fato, Francisco veio revelar o que estava por trás do Concílio desde sempre, ao menos em potência (qual bomba relógio programada para causar grande destruição no tempo devido). Aos poucos, vai-se destruindo a Igreja Católica pela força de documentos heréticos colocados na base estrutural das agendas de todas as dioceses do mundo. E o primeiro autor de tal atrocidade foi Roncalli-João XXIII.


    Diz-se que Roncalli foi iniciado em uma seita gnóstica, na Turquia, em 1935; depois (disso há fortes indícios), teria ingressado na Maçonaria; se tais informações forem mesmo exatas, ele estava, então, automaticamente excomungado (Latae Sententiae) quando foi eleito, na medida em que assim decretava o Código de Direito Canônico vigente. Em tal estado, pois, Roncalli jamais poderia sequer ter sido candidato à eleição papal. E, ainda que tal eleição fosse feita, não seria válida.


    João XXIII foi, clara e publicamente, um dos primeiros grandes adeptos do modernismo e do falso ecumenismo na Igreja; foi um entusiasta da proposta para um chamado “catolicismo social”; foi ele quem propôs à Igreja mudar radicalmente os seus caminhos e a sua direção, e que tomasse uma outra atitude, completamente alheia, inteiramente nova; que deixasse de condenar os erros, mas passasse a aceitar a tudo e a todos; que todas as coisas, apenas por virem do homem, deveriam ser usadas pela Igreja, de algum modo.


    A partir do momento em que a Igreja toma a atitude de deixar de fazer o que sempre fez –, especialmente deixar de condenar os erros –, imediatamente, todos os erros invadem a Igreja; a única coisa que passa a ser excluída dessa nova religião é a própria Igreja Católica verdadeira. Pois, se não se pode mais condenar os erros, logo a verdadeira Igreja, que sempre os condenara fortemente, não é mais bem-vinda.


    É preciso entender também o que é o Papado. Pois o Papado não é simplesmente como um cargo vitalício, como aqueles que são ocupados pelos ditadores nos países de sistemas totalitários, mas sim um dom muito especial, uma grande graça concedida por Cristo à sua Igreja. Por isso, é falso o argumento frequentemente utilizado, mesmo por grupos tidos como tradicionalistas, de que não importa o que faça qualquer papa, ou mesmo que ele pregue graves heresias: por piores que sejam, de toda maneira ele continuará sempre sendo o Papa de toda a Igreja, e manterá sempre o seu poder e a sua autoridade. 


    Alguns comparam a figura de um “papa herege” (?) a de um mal pai de família: todo papa seria como que o pai da família-Igreja, tendo a própria Igreja como sua esposa, e os fiéis como filhos. Assim, mesmo que esse pai seja mal e violento, mesmo que ensine o erro, mesmo que seja infiel e até espanque a mãe diante dos filhos, ainda assim deverá ser “respeitado” e amado como o pai que sempre será. 


    Tal comparação é evidentemente absurda, porque compara questões subjetivas com uma questão objetiva. Ora é verdade que um pai, mesmo que seja adúltero e cruel, mesmo que espanque violentamente a mãe e seus filhos, continua sendo pai. Porém, a partir dessas atitudes, já não será mais respeitado como tal, e a partir do momento em que puser em risco de morte essa família, não poderá manter os seus direitos como o seu chefe. Mais: essa esposa e esses filhos não necessariamente terão que permanecer junto dele, porque nesse caso teriam o direito, eles sim (garantido pela Igreja), à separação de corpos, até para preservar a sua integridade física e sua saúde psicológica-mental. Não havendo obediência, nem respeito, nem mesmo convivência, foi totalmente perdido os direito de chefiar essa família e também a autoridade sobre ela. Logo a mãe se tornará a líder, ou o irmão mais velho, ou talvez algum outro parente. A comparação, pois, não cabe.


    Um outro argumento fútil tenta comparar os que se atrevem a criticar um papa, ainda que seja herege e infiel a Cristo, a Cam, filho de Noé, e/ou a Canaã, seu neto, que zombaram do Patriarca depois que se embriagou, sendo por isso amaldiçoados; de modo semelhante, também nós não deveríamos nunca “desrespeitar” nosso pai o papa, mesmo que cometa grandes bobagens, para que não terminemos igualmente amaldiçoados.


    Desnecessário dizer que também essa comparação infantil é inválida. Noé, apenas por ter-se embriagado, não merecia o desrespeito do filho e do neto: trata-se, neste caso, de um erro subjetivo, uma falha moral apenas. Noé não cometeu um erro objetivo que o fizesse perder a prerrogativa de chefe da família, como se tivesse atentado contra a vida de seu filho e de seu neto, ou se os tivesse abandonado sumariamente, partindo para outro lugar com outra mulher; se ele tivesse procedido assim, é claro que teria perdido não só o respeito, mas igualmente os seus direitos de chefe de família, por sua própria decisão.


        Pois o que faz o Papa Francisco é exatamente isto: como um pai da grande família que é a Igreja, atira seus filhos às feras, para serem devorados; afaga os lobos devoradores e açoita os que esperam dele proteção segurança; não só espanca a mãe, mas verdadeiramente mete-lhe a faca nas costas, atenta contra a vida dela, querendo vê-la morta e enterrada. Os erros dos papas ditos "pós-conciliares" não são apenas morais e subjetivos, mas são objetivos, relacionam-se à Fé, à Doutrina, àquilo mesmo que os fundamentaria como pontífices. Estão diretamente relacionados à salvação das almas a eles confiadas: isso é verdadeiramente gravíssimo! De fato, o que fazem esses “pais” é ainda bem pior do que “apenas” querer matar a mãe e atirar às feras os filhos indefesos, para serem devorados: o que eles fazem é atirá-los às chamas infernais, onde sofrerão eternamente! Nesse caso, que “respeito” poderão ainda esperar? Que direitos sobre a família poderão ainda granjear? 



'Não é tão grave, não é a primeira vez que algo assim acontece...'


Há ainda outro falso argumento para sustentar a legitimidade de Bergoglio, o qual defende que a situação atual não é inédita, e por isso não deveríamos nos escandalizar tanto, nem entender que a crise de hoje seja assim tão grave.

    Sim, é um fato irrecusável que tivemos diversos Papas na História que apresentaram graves defeitos humanos e sérios desvios morais. Estes sim, poderiam ser meramente comparados a maus pais de família. Mas nenhum deles jamais pregou ou defendeu falsas doutrinas, nem ajudou a promover erros sempre condenados pela Igreja. O padre Iran Corrêa, em sua monumental “Biografia dos Papas”, trata o problema com clareza: "O leitor não se surpreenda ao se deparar com as deficiências humanas na pessoa de algum Pontífice. no Sólio Romano assentaram-se 263 governantes, dos quais (apenas) 80 são canonizados e 7 beatificados".


    Tivemos Papas santos e também diversos outros que não deram bom exemplo com suas vidas. Mas nenhum deles ensinou o erro em termos de Doutrina[1]. Nenhum manchou o Trono Petrino proclamando solenemente alguma heresia. Pio IX disse que Deus prometeu ao Sucessor de Pedro uma assistência especial e permanente. Quando o entendemos, dentro da lógica da Tradição e do Magistério, fica evidente que a terrível questão que se nos impõe, mesmo dolorosíssima, é muito simples de se resolver: temos um impostor no lugar do Papa.

    O que (muito) dificulta essa resolução é que hoje temos pessoas desesperadas em defender o falso papa a qualquer custo, juntamente com os seus bispos maus e infiéis, porque acreditam que a Igreja acabaria se não tivéssemos um verdadeiro Papa. Tais pessoas têm levantado discussões havidas no século VII entre dominicanos, jesuítas e outros, que tratavam da – então absurda e inconcebível – hipótese de um Papa herético. O que tais não percebem é que esse tipo de discussão ocorreu antes mesmo do Concílio Vaticano I. Isso faz muita diferença, porque a partir do século XIX não se encontra mais esse tipo de discussão em nenhum ambiente da Igreja: a questão foi encerrada, por ser considerada simplesmente absurda e impossível de acontecer. Assim, ao invés de procurar nesses teólogos antigos, o que deveriam fazer é estudar o Magistério, para perceber que este nos explica muito bem que um “papa herético” jamais poderá existir. O que já tivemos foram homens que se apresentaram como papas, mas eram ilegítimos e, desse modo, defenderam heresias.


    Vejamos, por exemplo, o que diz a Constituição Dogmática Dei Filius:


Devemos crer, como de fé divina e católica, em todas as coisas que estão contidas na Palavra de Deus, seja escrita ou transmitida pela Tradição que a Igreja, seja pelo julgamento solene ou pelo Magistério ordinário e universal, propõe, como divinamente revelado e, portanto, digno de crédito.

(Vaticano I, Dei Filius, 24 de abril de 1870, cap. III)


    Está bem claro. Não é em vão que São Paulo, em sua Primeira Carta a Timóteo, declara que a Igreja é a coluna e o fundamento (ou o sustentáculo, ou a firmeza, em outras possíveis traduções) da Verdade (cf. 1Tm 3,15). A Igreja é como uma pessoa espiritual, representada pelo Papa e pelos Bispos em comunhão com ele; esse conjunto docente ensina a Fé, é o sustentáculo da Verdade para os fiéis. Não há espaço para o erro. É Deus Quem faz com que essa Igreja não erre: ela é infalível. E essa Promessa de Cristo, esse grande Dom de Deus à sua Igreja, faz com que a Igreja Católica e Apostólica se diferencie de todas as muitas igrejas falsas e heréticas.



'É dogmaticamente impossível que a Igreja fique sem um Papa legítimo'


Realmente, a Constituição Pastor Aeternus (de 18/7/1870, do C. Vaticano I/Pio IX), no seu capítulo II, afirma a perpetuidade do Primado do “Bem-aventurado Pedro nos Romanos Pontífices”, e diz que:


se alguém afirma que não é por disposição do próprio Cristo Senhor, isto é, por direito divino, que o Beato Pedro tem sucessores para sempre no Primado sobre a Igreja universal, ou que o Romano Pontífice não é o sucessor do Beato Pedro em o mesmo Primado, que seja anátema.


    Alguns acham que acusar a ilegitimidade de qualquer suposto papa seria o mesmo que negar que Pedro tenha perpetuamente um sucessor na pessoa do Papa. Mas estes não percebem que a condenação contida neste documento se refere àqueles que diziam que um dia a Igreja não precisaria mais do Papa, porque estaria em um processo pleno de vida espiritual e não necessitaria mais de alguém que institucionalmente dissesse qual é a Fé e qual a Doutrina que se deve seguir. 


    Há muita confusão também em torno desta Constituição nas mentes daqueles que imaginam que o texto ensine que o Papa só é infalível quando fala a partir do Magistério Solene, ou  Ex Catedra. Ora o Magistério Solene é perene e irreformável, nunca poderá ser mudado, enquanto o Magistério ordinário (aquele que se refere às leis canônicas, disciplinas e coisas do dia a dia) pode ser reformado. Isso, porém, não significa que esse Magistério ordinário poderá existir impregnado de gravíssimos erros, heresias, tolerância para com os blasfemadores ou mesmo ensinando uma doutrina não só diferente, mas radicalmente contrária ao Depósito da Fé.


    É, pois, como já vimos anteriormente, totalmente errado pensar que, pelo fato de um Papa, em certo momento, não estar exercendo o poder supremo do seu Magistério, esteja então livre para desobedecer à Fé da Igreja, ou para contrariar a Tradição e o Magistério perene, e menos ainda para propagar e ensinar heresias, falsidades e semear a confusão entre os fiéis católicos.


    Na obra supracitada diz ainda o padre Iran Corrêa: “Na Igreja, acima dos defeitos humanos, pairam brilhantes os divinos ensinamentos de Nosso Senhor. Estes, pontífice algum jamais os falseou”. E, reproduzindo em extensas biografias a história de todos os Papas, vai demonstrar que de fato esse argumento é verdadeiro: jamais um Papa ensinou heresia ou algo que contrarie frontalmente o que mandou Nosso Senhor Jesus Cristo, como faz agora Bergoglio-Francisco.


    Já quanto ao argumento do “Papa herege”, este foi sempre sustentado pelos inimigos da Igreja, de tal maneira que difamaram a pessoa de Libério – um Papa canonizado, tratamos aqui de São Libério – o qual, durante seu pontificado, sofreu exemplarmente para defender a Fé e o Símbolo de Niceia, e que protegeu a Santo Atanásio, juntamente com outros bispos que perseveravam em defender a verdadeira Fé católica. A mesma coisa tentaram fazer com a memória do Papa Honório, acusado de assinar uma fórmula monotelista, e também com o Papa Formoso, cujo corpo foi posto fora de seu sepulcro para ser julgado – não por heresia nem por algum outro Papa, e sim por motivações políticas dos seus inimigos, responsáveis por esse ato sacrílego. Dizem ainda o mesmo de João XXII e de alguns outros, mas o Saepenumero Considerantes de São Leão XIII denuncia que mentiras desse tipo desde sempre foram produzidas contra os Pontífices da Igreja, especialmente pelos protestantes, que no fim do século XVI produziram as “Centúrias de Magdeburgo”, às quais acrescentaram absurdas invenções e fábulas, manipuladas especialmente para que o povo não acreditasse mais nos Papas (vide nota 1).


    Por fim, São Leão XIII nos exorta à vingança pelo injusto ataque à dignidade e à honra da santa Sé Apostólica. A verdadeira história da Igreja demonstra com clareza que não há sentido nem fundamento na teoria de que Papas legítimos, em algum momento, tenham caído em heresia. Aliás, se tal proposição fosse verdadeira, nós poderíamos dizer que hoje a melhor ou verdadeira Igreja estaria com os cismáticos do Oriente, os ditos ortodoxos, porque nesse caso eles teriam por justiça rompido com Roma, pelo fato de o Papa ter traído a sua missão sagrada, preservando eles a Fé original. 

_______
[1] O célebre caso do Papa Libério parece configurar-se numa exceção a essa regra, mas observe-se que o que houve neste caso foi um desvio pontual, localizado, do qual este Pontífice arrependeu-se, redimiu-se por ele e o corrigiu, restituindo a ordem e a ortodoxia.

    Já de Honório, outro caso costumeiramente citado, o Papa João IV, que o sucedeu, disse que ele jamais defendeu uma heresia. Se houve heresia em algum texto que produziu, constava de cartas particulares, não em documentos magisteriais. Para demonstrar que ele não foi herege, há muitas comprovações:

'[o caso do Papa Honório] foi discutido a fundo tantas vezes, especialmente por ocasião do Concílio do Vaticano, que não há mais nada a descobrir aí. Demonstrou-se peremptoriamente que as cartas desse Papa que são objeto do debate não contêm nenhuma definição ex cathedra nem erro algum contra a Fé. Demonstrou-se, igualmente, que o anátema pronunciado pelo VI Concílio contra Honório é uma condenação de seu imprudente conselho, mas não de sua doutrina' (Revmo. Pe. Pierre BOUVIER, S. J., in: rev. Études, t. 102, jan.-fev.-mar. 1905, pp. 250-257; cit. à p.253).

    Além de Pe. Pierre Bouvier e do Papa João IV, também Anastásio o Bibliotecário, São Roberto Belarmino e muitos especialistas concordam nesse ponto: o que alguns disseram é que Honório poderia ter sido herege. São Francisco de Sales, Doutor da Igreja (séc. XVII), disse que “talvez” ele tenha sido:

(…) não dizemos que o Papa não possa errar em suas opiniões privadas, tal como aconteceu a João XXII, ou ser um completo herege, como talvez o foi Honório. Agora, quando ele [o Papa] é explicitamente um herege, aí sim ele cai ipso facto da sua dignidade e para fora da Igreja… (São Francisco de Sales, A Controvérsia Católica, pp.305-306)

    Se nos colocamos, pois, no campo especulativo de que Honório tenha sido verdadeiramente herege, para demonstrar que ainda que ele tenha ensinado heresia o teria feito privadamente, agindo enquanto doutor particular e não enquanto Papa, podemos apresentar a seguinte citação:

(…) as atas do VI Concílio onde estava exarado o anátema contra Honório e contra os principais monotelitas como Sérgio não foram confirmadas pelo Papa. O Sumo pontífice limitou-se a censurar o modo de proceder de Honório sem o anatematizar, como fez aos outros, e não lhe infligiu a nota de herege. Podemos, portanto, concluir: 1) que Honório não ensinou e nem definiu o monotelismo. Quando muito pode dizer-se que não foi clarividente e que em certo modo favoreceu a heresia, abstendo-se de definir e recomendando o silêncio quando devia falar, proporcionando assim aos monotelitas um pretexto para sustentarem a sua doutrina. 2) Ainda que houvesse erros nas suas cartas e, por este motivo, fosse condenado pelo VI Concílio, o erro e a condenação só o atingiriam como doutor particular e não como doutor universal(Manual de Apologética – Cônego A. Boulenger – p.411)

    Cônego A. Boulanger chegou a essa conclusão depois de ter estudado a fundo a questão: nas páginas 452 e 453 ele cita a bibliografia em que embasou suas conclusões a respeito de Honório e lá consta um grande número de obras dos mais diferentes séculos tratando do assunto.

    Obs.: para o que nos interessa neste estudo, ainda que se provasse que um Papa, por meio de seu Magistério autêntico, pudesse emitir em momentos específicos alguma formulação herética, como se relacionaria tal coisa com a realidade atual? Teria a ver com a promulgação de uma missa em desacordo com a Fé católica? Teria a ver com a promulgação de documentos como encíclicas, condenações, etc, baseando-se universalmente nos ensinamentos ditos 'pós-conciliares'? Teria a ver com o abandono público da Fé católica, como demonstra Bergoglio praticamente a cada vez que se manifesta sobre qualquer assunto doutrinal?


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Um comentário:

  1. ABANDONAREM A IGREJA DE NS JESUS CRISTO FOI PÉSSIMO, MAS, OS SEDEVACANTISTAS POSSUEM EM ALGUNS PONTOS CERTA RAZÃO!
    O controverso sedevacantismo entre os que o defendem, possuem concepções diferentes, apologizada por uma minoria e dissensa entre si em determinados pontos conflitantes; em suma, não são uníssonos crendo no mesmo modelo de abordagem de seus discordantes, embora se reduzam a uma pequena quantidade numérica, inclusive por neo fundadas sedizentes igrejas "católicas" recém fundadas, como a do prof. Emílio, da tv Nossa Senhora de Fátima, para o qual e seguidores dessa seita o papa a quem fielmente seguem é o papa emérito Bento XVI, sendo-lhes considerado como o papa legítimo - conferir no Youtube.
    Os sedevacantistas compõem-se de uma minoria de católicos tradicionalistas que afirmam e consideram que a Santa Sé está vacante, portanto, desocupada desde o falecimento do Papa Pio XII, em 1958 e daí em diante a Sede de São Pedro está vazia pelo fato de o papa João XXIII teria aberto as portas para os desafetos da Igreja por não usar mais de severidade de outrora, mas seria uma Igreja misericordiosa, fato esse que teria facilitado a infiltração em massa de seus mais ferozes desafetos, como protestantes-comunistas-maçons na Igreja para implodi-la, de dentro para fora! Assim sendo, falecendo, foi eleito a papa Paulo VI, o qual teria afirmado que seguiria os trâmites de seu antecessor, adotando semelhantemente de ideias consideradas à época como modernistas, assim como mudanças significativas nas celebrações até da S Missa!
    O termo "sedevacantismo" é derivado da frase em latim "sedes vacans - sede vazia - querendo literalmente transmitir a existência de "a cadeira vaga", onde a cadeira em questão é a de um bispo. A utilização específica da frase está, à verdade, no contexto da vacância da Santa Sé, ocorrendo entre o falecimento ou renúncia de um Papa - caso papa Bento XVI, forçadamente ou não - e a eleição de seu sucessor, aliás ao qual, embora divirjam bastante, comprometeu-se a respeitá-lo; enquanto isso, os sedevacantistas-SV afirmam que a Igreja Católica por ora não têm um Papa para a governar, seria inverdade.
    A Igreja católica fundada por NS Jesus Cristo e perseguida desde Si mesmo e que não veio trazer a união, a divisão entre pessoas e grupos, e os primeiros 300 e anos de existência o sangue jorrou como se fosse uma imensa fonte d'água e, atualmente, prosseguem os mesmos procedimentos sanguinolentos anti Igreja católica, como no Oriente Médio dos adoradores da deusa lua Alah, os arquiinimigos e vingativos muçulmanos!
    Provindos do sedevacantismo, há os que tiveram a sua alternativa particularizada por elegeram e reconheceram um dos seus como o verdadeiro e legítimo Papa, caso acima e, devido ao fato de eles confirmarem que a Santa Sé não é dirigida pelo seu candidato, poderíamos crer que seriam "cardeais" realizando um conclave à parte, também os acunharíamos de conclavistas!
    A principal dificuldade do sedevacantismo é explicar como a Igreja pode continuar a existir de uma maneira visível embora contrastante - ela recebeu de Nosso Senhor Jesus Cristo a promessa de que duraria até o fim do mundo. Porém, estando privada da sua cabeça visível na terra?
    Um erro muito comum é atribuir aos grupos SV de cismáticos, termo inconveniente, pois não negam o poder de jurisdição do sucessor de Pedro, relutam não ser Papas Vaticano II adiante! Não hereges, não negam a verdade da fé católica, apenas um grupo de católicos em “adesão a um erro teológico com graves conseqüências, inclusive de celebrações inválidas.
    Diversos grupos que aderiram ou elegeram seus papas, como a igreja católica Palmariana, na Espanha - Espanha- a Igreja Católica de sempre - EUA - no Brasil, salvo engano, SC, a de Pedro II e outras mais, considerando que a Santa Sé não está mais vaga, porque os conclavistas elegeram seu papa, embora não Pedro, mas, um eleito por eles, apesar de seguirem critérios de grupos dissidentes entre si, similares às seitas protestantes!

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