Que deve fazer o fiel católico nestes tempos de crise e apostasia? – parte 8 | conclusão das reflexões sobre o Sedevacantismo


[AVISO: dentro deste tópico específico, tudo o que se afirma não representa necessariamente a posição da Fraternidade Laical São Próspero, mas expressa os pontos de vista defendidos pelos sedevacantistas, com o intuito de tentar esclarecê-los. Com este, encerramos a apresentação de suas principais argumentações, para posteriormente considerá-los segundo a nossa posição]

→ Leia a parte anterior desta série 

O Argumento Canônico


O Papa Paulo IV, ao perceber os graves perigos de sua época (1554) –, pois naquele tempo já havia cardeais na Igreja promovendo o protestantismo –, por receio de que algum desses inimigos da Fé viesse a ser eleito Papa mediante alguma manipulação, produziu a célebre Constituição apostólica Cum Ex Apostulatus Officio (leia), determinando que fosse válida perpetuamente. Neste documento repousa até o fim dos tempos, portanto, a Autoridade conferida por Cristo a Pedro. Eis o que reza e determina essa Constituição:

Se algum dia aconteça que um bispo, mesmo um arcebispo ou patriarca, ou primaz, seja ele um cardeal da Igreja romana ou um legado apostólico, se ele se desvie da Fé católica ou caia em alguma heresia, mesmo que sua eleição aconteça com o consentimento unânime de todos os cardeais, ela será nula, inválida e vã. Todas as suas palavras, todos os seus gestos, todos os seus atos administrativos, com tudo aquilo que daí decorra, não terá nenhum efeito jurídico, e não conferirá a qualquer pessoa o mínimo direito. Esta pessoa assim promovida, ipso facto, sem necessidade de nenhuma declaração posterior, não poderá se tornar Papa, e será privada de toda dignidade, posição, honra, título, autoridade, função e poder.
(Cum Ex Apostolatus Officio, Paulo IV, 15 de fevereiro de 1559)[1]


    Temos muitos que esperam que algum Papa no futuro venha a definir a situação de Francisco como ilegítima (bem como a de todos os papas ditos ‘pós-conciliares’), mas a verdade é que isso não é necessário, porque tudo já está decidido e foi definido infalivelmente há muito tempo. Os Papas posteriores a tal definição estão simplesmente obrigados a reconhecer que essa Constituição é sempre válida, porque assim é que foi escrita. Tudo o que se precisa fazer é aplicar a Doutrina da Igreja, nada mais.

    Isso, todavia, não significa que os Sacramentos aplicados na "igreja conciliar" sejam todos inválidos. Uma coisa é a ilegitimidade dessas autoridades; outra coisa é a validade dos Sacramentos que administram. Os cismáticos também podem celebrar Sacramentos válidos: este é um outro tema, que não deve ser confundido com a pauta posta aqui em questão. E prossegue a Constituição:

    Se alguém tiver a presunção de atentar contra essas determinações, incorrerá na indignação de Deus Todo-Poderoso e dos Bem-aventurados Pedro e Paulo. (Idem)

    Essa Constituição de Paulo IV foi acrescida ao Direito Canônico pelo Papa São Pio V, e assim permaneceu em todos os tempos seguintes, sendo que Pio XII confirmou a ilegibilidade (mais do que óbvia, de fato) de um não católico para o Trono de Pedro. Dizia ainda o cânon 985: “São irregulares ex-delicto para essa eleição a Papa os hereges, os apostatas da Fé e os cismáticos”.

    Mais ainda, o crime de heresia traz uma irregularidade de natureza perpétua; se alguém que tenha caído em heresia manifesta durante a sua juventude, mesmo que não tenha sido formalmente declarado herege por nenhuma autoridade da Igreja, basta que essa sua heresia tenha sido manifesta para que incorra em irregularidade perpétua. Se um homem em tais condições viesse a ser eleito papa, a sua eleição seria inválida e ele não poderia assumir o Papado. Analogamente, seria como “consagrar” durante a Missa uma hóstia feita de farinha de milho: isto seria um defeito de matéria, e a Transubstanciação, num caso assim, não acontece. De modo semelhante, um herege não é católico, e um não católico, por defeito de matéria, não pode ser eleito o Papa de toda a Igreja: ele não pode se revestir do Sumo Pontificado sem a Fé católica, que é a base e o fundamento para tal.

    Jamais poderia se eleger legitimamente alguém que não seja católico, que não confesse a Sã Doutrina em algum de seus elementos principais, e menos ainda quem a repudie como um todo, que é o que vemos acontecer hoje. Para que assim seja, não se faz necessária nenhuma declaração formal da parte da Igreja.


O Argumento Escatológico


Muitos encontram dificuldades para compreender ou aceitar que a Igreja permaneça por tanto tempo numa situação atípica, sem o Papa. Por quantos anos viveremos ainda sem o Papa, se os papas são ilegítimos desde o CV-II?

    Tal dificuldade realmente parece muito importante à primeira vista, mas a sua solução é, de fato, bem simples. Basta se considerar que estejamos já vivendo – e de fato tudo nos leva a crer nisto, em nossos tempos – os tempos da grande apostasia. Ora tal situação já é profetizada mesmo nas Sagradas Escrituras: "...Primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o filho da iniquidade, o filho da perdição" (1Ts 2,3)

    O que os Padres da Igreja entenderam desta palavra, apostasia? Entenderam exatamente isto: que haveria uma falsa igreja, a qual “abafaria”, por assim dizer, e perseguiria a verdadeira Igreja Católica, pondo-se acima dela e ocupando suas estruturas. A essa falsificação tremenda é que propriamente chamamos “apostasia”.

    Não há, pois, como se referir ao “papado” de Francisco sem ligá-lo ao fenômeno eclesial que ocupou todos os setores/dimensões do mundo inteiro. E também não se pode concluir a respeito desse assunto sem ligar esse evento aos gravíssimos acontecimentos que caracterizam o fim dos tempos.

    Por isso mesmo, Leão XIII, ao fim da celebração da Missa, viu o Demônio a pedir a Cristo que lhe desse permissão para entrar na Igreja. Saindo dali, escreveu seu conhecido exorcismo de São Miguel Arcanjo. E escreveu:

Hostes astuciosíssimas encheram de amargura a Igreja, Esposa imaculada do Cordeiro, e inebriaram-na com absinto; puseram-se em obras para realizar todos os seus ímpios desígnios. Ali onde está constituída a Sede do beatíssimo Pedro e Cátedra da Verdade para iluminar os povos, ali colocaram o trono de abominações de sua impiedade, para que, ferido o pastor, dispersassem-se as ovelhas.
(Exorcismo de Leão XIII)


*  *  *

Diante de todos esses argumentos – de caráter eclesial, doutrinal, histórico, canônico e escatológico (vide estudos anteriores) – constatamos com irresistível clareza que existe grave ilegitimidade em todos os “papas” que vieram após João XXIII, o qual também ocupou de forma ilegítima o Trono do Sumo Pontífice.

    A Profecia de La Salete, extremamente confiável, nos diz que a Igreja seria eclipsada. Profetizou Zacarias: "Ó espada, levanta-te contra o pastor, contra o varão que é meu companheiro, diz o Senhor. Fere o pastor e as ovelhas se dispersarão. Mas Eu voltarei minha mão para os pequenos" (Zc 13,7).

    Deus convoca a espada, e permite, por castigo e por um desígnio misterioso de sua Providência, assim como permitiu que seu Filho fosse crucificado no Mistério da nossa Salvação, que a Igreja seja provada, eclipsada e que se encontre em uma situação tal que parece estar, hoje, praticamente invisível. Mas a Igreja será purificada, restaurada e elevada a um grau de esplendor nunca visto. Primeiro, porém, é preciso passar por essa provação-purificação. Uma espada se volta contra o Companheiro – o Vigário de Cristo – e sua Igreja se torna em ruínas.

    Nós, ovelhas, erramos dispersos, mas não por nosso desejo nem por nossa iniciativa. Sem um Papa que pregue a verdadeira Doutrina, não é possível nenhuma unidade. A unidade – de que tanto falam agora os impostores – é totalmente falsa: o rebanho inevitavelmente se dispersará, simplesmente porque não há mais pastor. Mas aqui está a esperança: “Eu voltarei minha mão para os pequenos”. Logo, não são os poderosos, não são os “grandes” teólogos, nem os orgulhosos ou os “donos” da Igreja que vão restaurá-la, e sim os pequenos, os verdadeiros discípulos de Cristo: os que entenderam a Mensagem do Evangelhos e que estão unidos, de uma forma única, ao Coração do seu Senhor, como esteve São João, aos pés do Salvador e ao lado da Virgem Santíssima no momento mais terrível.

    Essas pessoas é que são capazes de entender estes tempos, e estas é que estarão junto da Igreja em sua provação, até o fim. Esses pequenos serão “levantados”, e estes restaurarão a Igreja, e assim, verdadeiramente, as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. Seja bendito Deus, e que esta Profecia se cumpra logo, e que nós vejamos os inimigos da Igreja – que hoje são exaltados – humilhados pela vitória devastadora que o Salvador, em sua Glória, dará à sua Igreja, que é Una, Santa, Católica e Apostólica.

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A FSSPX, bem como boa parte defende dos pensadores ditos tradicionalistas contrários ao sedevacantismo, adotam a tese de que a Bula Cum Ex Apostolatus Officio do Papa Paulo IV perdeu sua validade em razão da Constituição Vacante Sede Apostolica de Sao Pio X (1904) e da promulgação do Código de Direito Canónico de 1917. Por muitas e evidentes razões, tal posição não se justifica, Pode-se acessar uma explanação completíssima a respeito por
este link.


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Um comentário:

  1. Eu fico impressionado com o equilibro que vcs tem para falarr desses assuntos tão difíceis, isso é que falta em outros canais. E também é sempre muito esclarecedor. Parabéns ao apostolado!

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