Carregar a cruz e ser feliz!

HÁ ALGUNS MESES postei um artigo sobre as relações entre a Religião e as expectativas humanas de felicidade [leia] (fruto de uma entrevista que concedi a uma estudante muito agradável e gentil), que parece ter provocado um efeito profundo em algumas almas, a julgar pelas reações em forma de mensagens e até pedidos de ajuda que tenho recebido desde então.

    
Na última destas  mensagens, um leitor especial — um sacerdote que se identifica como sendo “da Tradição” —, questionou com veemência os meus escritos, lembrando-me que o Caminho cristão é um Caminho de Cruz, e, portanto, um caminho de dores, de tribulações, de renúncias e sofrimentos sem fim, num combate tormentoso que durará até o último dia de nossas vidas neste mundo. Só depois desta vida é que, enfim, se perseverarmos e guardarmos a fé até o final, receberemos o prêmio eterno, e então — somente então —, saberemos o que é felicidade. Insistiu ainda esse Padre que a recusa da cruz é garantia de condenação ao Inferno.

    Eu encontrei algumas pregações desse Padre em vídeo, e notei que são pesadíssimas, realmente sempre focadas na cruz, na dor, na miséria humana e na inutilidade de quaisquer sonhos ou projetos que tenhamos neste mundo. E achei que devia responder a ele.

    
A partir deste ponto, compartilho a resposta que enviei para esse Padre (muito digno por sinal), porque considero que as questões aí abordadas sejam de interesse geral. Segue...


CONCORDO 100%, REVMO. PADRE, com todas as suas colocações, e de tudo o que disse eu não questiono absolutamente nada. Sem a cruz não há salvação e, por rejeitar a cruz, multidões perdem o Céu. Essa é a doutrina cristã e católica desde sempre, eu não tenho nada a contestar: somente digo o meu “amém” para tudo.

    Todavia, se eu puder e se me permitir, há só uma questão que eu gostaria de pontuar, não como  um questionamento, mas talvez como uma reflexão ou um complemento ao que diz. É que existem, quase sempre, modos diversos de se apresentar uma mesma verdade; no caso da Igreja, é a tal da "pastoralidade", tão falada ultimamente, quer dizer, a maneira pela qual se vai apresentar a Doutrina aos povos.

    Sabemos que por um longo tempo, até antes do infeliz Conc. do Vaticano II, a ênfase da pregação estava sempre no pecado e no castigo, e isso exageradamente em muitos casos, exagero esse que certamente ajudou a fomentar um anseio por mudanças no interior da própria Igreja. Isso foi crescendo e ganhando forças até se tornar incontrolável, culminando no próprio Concílio. Depois desse desastroso evento, houve a mudança radical que combatemos: migrou-se de um extremo diretamente para o outro: a ênfase recaía agora — total e exclusivamente —, sobre o amor divino, o perdão e a misericórdia, de maneira desproporcional e absurda, chegando-se ao ponto a renegar a própria pregação apostólica em nome do respeito humano.

    Mesmo assim, é um fato que, segundo o Apóstolo inspirado pelo Espírito Santo, Nosso Senhor mandou que nos ajudássemos uns aos outros a carregar as nossas cargas, isto é, que aliviássemos o peso das cruzes uns dos outros, tanto quanto pudéssemos. Diz até que fazer isso é cumprir a Lei de Cristo (Gl 6,2). Os pastores do rebanho, claro, têm esse mesmo dever, certamente até ampliado.

    Bem, alguns dos nossos irmãos são mais fortes para suportar as dores desta vida, outros são mais fracos. Uns sofrem mais, outros menos. Uns têm tendência para a consciência laxa, e levam tudo com leveza; mas os que tem consciência escrupulosa sofrem com tudo, muitas vezes desnecessariamente. Com isso, não poucos chegam a se desviar da fé.

    Para com os fracos devemos ter misericórdia e paciência, isso é certo. Então, como é que aquele que prega poderia ajudar esses irmãos que sofrem a levar as suas cruzes? Dizendo: “Vocês vão sofrer até o último dia de suas vidas miseráveis, e é isso que vocês merecem, porque já nasceram pecadores desgraçados”? Ou dizendo algo como: “Tenham bom ânimo, levantem as vossas cabeças, tenham fé em Deus que nos ama e nunca nos deixa sofrer em demasia”? Talvez esse pregador pudesse também lembrar aos fiéis que o mesmo Cristo, que nos impõe a cruz e nos ordena carregá-la, diz que o seu peso é leve e o seu fardo é suave, e isso depois de conclamar: “Vinde a Mim, vós todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

    Eu vos aliviarei! Alívio! Será que sente algum alívio o irmão que todos os domingos escuta uma longa pregação falando exclusivamente sobre culpa, castigo, condenação, dor, sofrimento? Ou ele sairá dali sentindo sua cruz ainda mais pesada? Talvez excessivamente pesada, porque o pregador a tenha tornado mais difícil de carregar do que realmente seria necessário. Será esse um bom jeito de ajudar o irmão a carregar o seu fardo?

    Não tenho como não me lembrar também o que disse Nosso Senhor sobre os fariseus que impunham fardos excessivamente pesados aos ombros dos outros homens (Mt 23,4). E não consigo deixar de citar novamente Apóstolo, que ainda disse e insistiu, divinamente inspirado: "Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos!". Sim, é uma ordem divina para que nos alegremos! Carregar a nossa cruz não implica viver uma vida acabrunhada, focada só em sofrimentos e dores, mas o contrário.

    Ora, todos vemos e somos obrigados a reconhecer que a cruz é onipresente em nossas vidas, desde o nosso nascimento até o dia da nossa morte. Temos também prazeres, temos consolações e alívios, graças a Deus. Temos pausas ao longo desse caminho, para descansar e até para relaxar um pouco, mas a cruz está sempre presente: mesmo nos momentos alegres desta vida, mesmo naqueles períodos em que tudo dá certo e nos sentimos felizes, há sempre alguma angústia "em segundo plano"; algum desgosto, alguma preocupação, seja pessoal ou para com alguma pessoa querida... A cruz, a cruz, esta companheira que nos pesa, mas nos salva.

    Digo de passagem que considero interessante notar que, na fase final desta nossa passagem, como num gesto especial de misericórdia da Providência divina, as dores desta vida se intensificam, tanto as físicas quanto as mentais-espirituais, pois esse é justamente o tempo em que as nossas ilusões vão se dissipando, os nossos antigos sonhos, fantasias da juventude e expectativas com relação ao tempo que temos neste mundo vão perdendo força, deixando de nos encantar, e todos os atrativos fúteis desta passagem, antes tão coloridos e chamativos, vão, um a um, tornando-se cinzentos, até desprovidos de sentido... Digo que é uma especial misericórdia que seja assim porque é justamente nesse tempo que as almas mais se aproximam de Deus: é quando passam a rezar mais, a buscar mais, a meditar mais na eternidade e nas coisas do espírito, tanto porque as distrações do mundo diminuem quanto porque sentem a proximidade da morte, experimentando, como nunca antes, a realidade inevitável da finitude desta vida...

    Por isso eu insisto mais uma vez em que não vejo erro algum na sua pregação, Padre. Só vejo uma ênfase na dor e no sofrimento que poderia, talvez, ceder um pouquinho de espaço para a misericórdia, para o amor, o perdão, as muitas maravilhas que Deus fez e faz por cada um de nós. Sei que os padres da nova igreja do Vaticano II, que o Sr. e eu abominamos, já fazem isso demais, apontando exclusivamente para o amor e a misericórdia, e assim levam à perdição muitas almas, e isso é terrível. Mas eu creio que é preciso resistir à tentação de querer compensar as coisas, de tentar reequilibrar essa balança enfocando unicamente na dor, no castigo, no sofrimento, nas tribulações, na condenação.

    Se me permitir uma paupérrima analogia, vou dizer que o modo de restaurar as coisas está em trazer de volta a cor da verdade da Sã Doutrina como ela é, não em tentar compensar a falsa pigmentação que lhe deram os traidores. Ora, se a verdade é verde, e do lado de lá a estão pintando de azul, não faz sentido eu a pintar de amarelo por aqui, para que, na mistura dessas duas, resulte o verde. Não! Eu tenho que apresentar o verde como é, porque é a cor certa. Se eles apontam para a esquerda, não adianta eu forçar a mão para a direita. Porque a verdade e a virtude se encontram longe dos extremos, no caminho reto, do qual "não te desvies, nem para a direita e nem para a esquerda, mas afasta o mal dos teus pés” (Pr 4,27).

    Nosso Senhor nos dá, sim, como Pai justo e austero, a bendita cruz, para a nossa salvação; e também nos dá forças, e nos consola, e nos carrega aos ombros se preciso for, como Bom Pastor que é; nossa vida será, por certo, eivada de dores, de tribulações, de angústias, decepções e obstáculos: teremos espinhos até o fim. Mas também teremos belas flores a nos alegrar a alma, e nos trarão felicidade já aqui, especialmente se as soubermos apreciar e agradecer por elas, não reparando somente nos espinhos.

    
Deus me perdoe e corrija se eu estiver errado, porque tudo faço para a sua maior glória.


2 comentários:

  1. Maravilhoso! Realmente é, tem muita escrupulosidade na Tradição.

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  2. Maravilhoso mesmo . Consolador esse textoo

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