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| Uma das imagens postadas pelo Pres. Trump que geraram controvérsia |
DE UM LADO, o "President" dos EUA criticou duramente o Pontífice católico em postagens nas suas redes sociais, chamando-o de "fraco no combate ao crime" e "péssimo em política externa". Trump afirmou que o papa deveria se concentrar em ser "um grande papa, não um político", especialmente após declarações do Vaticano contra a guerra no Irã e sobre migração.
Do outro lado, o papa Leão XIV — primeiro pontífice nascido nos EUA (eleito em maio de 2025) — reafirmou que continuará se manifestando pela paz e contra as guerras, sem entrar em debate político direto, mas guiado pelo Evangelho. Ele tem defendido o multilateralismo e a contenção de ações militares.
Fato é que, em outros tempos, a Igreja Católica desenvolveu e defendeu, de forma estruturada, o conceito de guerra justa (bellum iustum), o que nunca foi uma apologia à violência, mas uma tentativa de limitar o uso da força armada a condições morais estritas, sempre orientada à restauração da paz e da justiça.
Santo Agostinho de Hipona (séc. IV-V) é considerado o principal formulador cristão inicial da doutrina de guerra justa. Inspirado em Cícero, ele via a guerra como um mal necessário diante de situações extremas, em resposta à injustiça (iniquitas partis adversae), mas sempre com intenção reta e visando a ordem conforme a Vontade de Deus (tranquillitas ordinis). Não se tratava de ofensiva por conquistas, mas de defesa ou correção de males graves.
Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) sistematizou essa doutrina em sua Suma Teológica (II-II, q. 40) — para uma guerra ser justa, são necessárias três condições principais:
Autoridade legítima (auctoritas principis) — só o poder público pode declará-la.
Causa justa — reparar uma injustiça grave ou defender-se.
Intenção reta — buscar o bem comum, não ódio, vingança ou ganhos materiais.
Essa tradição influenciou o Direito internacional (Hugo Grócio, Francisco de Vitória etc.) e foi usada historicamente para justificar, entre outras, as Cruzadas e o direito à legítima defesa.
Mesmo os extremamente problemáticos Concílio Vaticano II e Catecismo de João Paulo II (§§ 2307-2314) mantêm essa mesma doutrina, enfatizando uma presunção contra a guerra e o dever de evitar conflitos.
De maneira inédita, os Papas ditoss pós-conciliares (com ênfase em Francisco e agora em Leão XIV) manifestaram-se com sucessivos apelos nos quais enfatizaram exclusivamenteà paz, o diálogo e à não-violência, destacando que, na prática contemporânea, os males da guerra quase sempre superam os bens. Leão XIV tem criticado explicitamente o uso do apelo a Deus e aos sentimentos religiosos para justificar os conflitos atuais (como no Irã), e lembrado que “Deus não está do lado daqueles que lançam bombas”. No entanto, bispos americanos e parte da tradição recordam que a legítima defesa permanece moralmente possível sob critérios rigorosos.
Verdade é que a Igreja nunca ensinou o pacifismo (que rejeita qualquer uso de força, inclusive para a justa defesa), mas sempre subordinou a guerra à ética cristã: a força só é tolerada como último recurso para proteger o inocente e restaurar a ordem justa.
Num novo e patético capítulo desta novela, em 12 de abril de 2026, pouco depois de criticar duramente o papa Leão XIV nas redes (chamando-o de 'fraco no combate ao crime' e 'terrível em política externa', pontos em que muitos defendem que ele tenha razão), Donald Trump publicou no Truth Social uma imagem gerada por IA que o retratava de forma messiânica: vestido com túnica branca e mantovermelho, impondo as mãos sobre um homem enfermo (como Jesus curando os doentes), com luz emanando de suas mãos, ao fundo bandeira americana, águias, aviões militares e figuras como uma enfermeira e uma criança em gesto de oração(!).
A imagem foi deletada no dia seguinte, após intensa repercussão negativa. Trump disse aos jornalistas que pensou que “era eu como médico, algo relacionado à Cruz Vermelha”, e não como figura divina. Posteriormente, ele compartilhou outra imagem de Jesus abraçando-o com a seguinte legenda: “Eu nunca fui um homem muito religioso… mas não parece que, com todos esses monstros satânicos, demoníacos e que sacrificam crianças sendo expostos… Deus pode estar jogando sua 'carta Trump'?”...
Ferveram críticas de líderes religiosos e conservadores: Bispos católicos, incluindo vozes conservadoras, condenaram o uso de imagética cristã para fins políticos, vendo mesmo como um tipo de blasfêmia e/ou idolatria. O prof. Michael Murphy, da Loyola University de Chicago, comentou a respeito: “Isso é uma atitude messiânica. Isso é terminantemente inaceitável. Isso incomoda profundamente os católicos de todas as vertentes. É demais para o nosso gosto”. Mesmo apoiadores evangélicos e católicos do Presidente expressaram seu desconforto.
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Fontes: ABC Chicago, BBC, PBS News.

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