A Igreja e o carnaval: o cristão pode 'brincar' o carnaval?


O CRISTÃO PODE participar das festas do carnaval? Muitos o perguntam, todos os anos, e há muita confusão a respeito do assunto. A dificuldade está no fato de que a Igreja não tem uma prescrição oficial a respeito, ao menos não há documento que fale explicitamente, textualmente, do carnaval propriamente dito. Ou será que a realidade não é bem essa?

Antes de tudo, precisamos reconhecer que existem festejos e grupos carnavalescos, principalmente em cidades interioranas e em Estados fora do eixo Rio-São Paulo, que comemoram o carnaval de maneira tranquila e saudável, e não é impossível encontrar ambientes onde se toque música decente e se encontrem pessoas que querem apenas descontrair, sem necessariamente cair nos abusos. Claro que não há pecado em se reunir com amigos e festejar o feriado, ou mesmo em procurar algum clube familiar para se divertir um pouco. Este artigo procura tratar o carnaval a partir de um ponto de vista mais genérico. Estamos falando daquilo que mais comumente se entende por carnaval, de suas origens e suas consequências.


* * *

Esclarecidos estes pontos, afora exceções e falsos moralismos, vemos que não é assim tão difícil responder à pergunta que dá título a esta postagem, afinal. Enquanto cristãos, temos direito à hipocrisia? Até que ponto? E até que ponto é correto dizer que a Igreja silencia quanto ao tema carnaval?

É verdade que, como dissemos, os documentos oficiais da Igreja não falam – literalmente – do carnaval; mas diversos deles tratam, sim senhor, da obrigação que temos de evitar as ocasiões de pecado, e do quanto é isso importante.

Ocasião de pecado é toda circunstância, coisa, lugar ou pessoa que estimule as paixões humanas, seduzindo a pessoa a pecar. E atire a primeira pedra quem for capaz de afirmar, conscienciosamente, que os bailes e festas de carnaval atuais não são ocasiões mais do que propícias para todo tipo de pecado.

Não. Não há como negar que os bailes e festas de carnaval que temos hoje são tremendas, imensas ocasiões para o pecado. E verdadeiramente, segundo a Sã Doutrina de sempre da Igreja Católica, sob o patrocínio de Santo Afonso Maria de Ligório, "expor-se a uma ocasião próxima de pecado mortal, que se poderia evitar, já é pecado mortal de imprudência".

E é por esse caminho que vemos, hoje, a cristandade como que a se derreter, como cera próxima do fogo. A necessária reforma das consciências cristãs requer que se restitua às almas o horror pelo pecado. Não é possível querer ser cristão e continuar brincando com a própria salvação eterna, expondo-se aos sutis laços do Inferno. Assim, pergunta a Sagrada Escritura: “Pode alguém caminhar sobre brasas sem queimar os próprios pés?” (Pr 6,28).

E como já dizia um velho e experiente diretor de almas: “Em fugir ou não fugir da ocasião, consiste o cair ou não cair no pecado”. Este mesmo autor faz, ainda, uma curiosa observação:

Somos muitas vezes nós que tentamos ao diabo! Por quê? Porque somos nós os que buscamos a ocasião, somos nós que chamamos por ela; e buscar a ocasião em vez de ela nos buscar é, em vez de o diabo nos tentar, tentarmos nós ao diabo... (Pe. Manuel Bernardes, Sermões e Práticas, II)

Nada auxilia tanto os planos do demônio quanto as ocasiões de pecado. São como que emboscadas em que a todo momento aquela antiga Serpente prepara o bote. Logo, não há outra alternativa para o homem: ou a fuga das más ocasiões ou a morte espiritual. Adverte-nos Sto. Afonso de Ligório:

Um sem número de cristãos se perde por não querer evitar as ocasiões de pecado. Quantas almas lá no inferno não se lastimam e queixam: 'infeliz de mim! Se tivesse evitado aquela ocasião, não estaria agora condenado por toda a eternidade!'. (...) O Espírito Santo diz: 'Quem ama o perigo, nele perecerá' (Eclo 3,27).
(LIGÓRIO, Santo Afonso Maria. Escola da Perfeição Cristã, comp. de textos do Santo Doutor pelo Padre Saint-Omer, CSSR, 4ª edição, Petrópolis: Vozes, 1955, p. 44)



Sobre a festa do carnaval

Alguns imaginam que o carnaval tem origem brasileira, mas a festa existe desde a Antiguidade. De fato, não se conhece ao certo a origem do carnaval, assim como a origem do nome. Historicamente é uma festa popular coletiva, transmitida através dos séculos como herança de  antiquíssimas festas pagãs realizadas entre 17 de dezembro (Saturnais – em honra a deus Saturno, na mitologia grega) e 15 de fevereiro (Lupercais – em honra a deus Pã, na Roma Antiga).

Dentre os pesquisadores, correntes diversas adotam prováveis origens diferentes. Há os que defendem que a comemoração do carnaval tem suas raízes em alguma festa primitiva, de caráter orgíaco, realizada em honra do ressurgimento da primavera. Em certos rituais agrários da Antiguidade (10.000 aC), homens e mulheres pintavam rostos e corpos e entregavam-se à dança, festa e embriaguez. Outros autores acreditam que o carnaval tenha se iniciado nas alegres festas do Egito em honra à deusa Ísis (2.000 aC).

O carnaval pagão começa quando Pisistrato oficializa o culto ao deus Dionísio na Grécia, no século VII aC. O primeiro foco de grande concentração carnavalesca de que se conhecem fontes seguras acontecia no Egito: era dança e cantoria em volta de fogueiras. Os foliões usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais.

Depois, a tradição se espalhou por Grécia e Roma, entre os séculos VII e VI dC. Nessa época, sexo e embriaguez já se faziam presentes na festa. Em seguida, o Carnaval chega em Veneza para, daí, se espalhar pelo mundo. Diz-se que foi lá que a festa tomou as características atuais: máscaras, fantasias, carros alegóricos, desfiles.

No início da Era Cristã, a Igreja deu uma nova orientação às festividades do carnaval. Ao contrário do que se diz, o catolicismo não "adotou" o carnaval, mas deu à festa popular um novo sentido, já que ela foi anexada ao calendário religioso antecedendo a Quaresma. A festa agora terminava em penitência, na Quarta-feira de Cinzas.

Entretanto, como se vê, lamentavelmente, apesar de a Igreja ter sempre tentado dar um novo sentido à festa da carne, não obteve nisso um grande sucesso. Se formos comparar o que ocorre hoje com as festas que ocorriam na antiguidade pagã, não veremos grandes diferenças. Orgias, embriaguez, brigas, violência... Excessos de todo tipo, enfim.

Como cristãos, somos sempre chamados a santidade, e o sentido original da palavra santo é "outro" ou "separado". Santo é aquilo/aquele que está separado do impuro ou do profano para o serviço de Deus. Não podemos, em situação alguma, fazer parte de algo que está em oposição a Deus.

Sempre é oportuno lembrar o que diz S. Paulo Apóstolo:

Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios." (1Cor 10,19-22)


Um interessante depoimento
do Prof. Felipe Aquino



___
Ref.:
• Miguel Maria Claret - "A Cera e o Fogo"
• MONTFORT Associação Cultural
http://montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=cera_fogo&lang=bra
Acesso 01/03/014
• Últimas e derradeiras graças, "A Fuga das Ocasiões de Pecado: um dos mais graves deveres da vida espiritual", disponível em:
http://derradeirasgracas.com/3.%20V%C3%A1rios%20Assuntos/A%20Fuga%20das%20ocasi%C3%B5es%20de%20pecado%20.htm
Acesso 1/3/014
ofielcatolico.blogspot.com

O Sacramento da Extrema-Unção ou Unção dos Enfermos


É POR MEIO dos Sacramentos da iniciação cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia) que o homem recebe a vida nova em Cristo. Esta vida nova e gloriosa, porém, mesmo nós, os batizados, trazemos oculta dentro de nós, como “um Tesouro em vaso de argila” (2Cor 4,7). Agora, esta vida está “escondida com Cristo em Deus”: estamos ainda em “nossa morada terrestre” (2Cor 5,1), sujeitos ao sofrimento, à doença e à morte. - E à concupiscência e as tentações. - Assim, a vida nova de filho de Deus pode se debilitar e até ser perdida pela ação contínua do pecado.

O Senhor Jesus Cristo, Médico Supremo da alma e do corpo, que remiu os pecados do paralítico e restituiu-lhe a saúde física (Jo 5,1-18), quis que a sua Igreja continuasse, na força do Espírito Santo, sua obra de cura e de salvação também nos seus próprios membros. É esta a finalidade dos dois Sacramentos de cura: Reconciliação e Unção dos Enfermos ou Extrema-Unção.

A Unção dos Enfermos é também um Sacramento de Reconciliação: mediante a oração e a unção com o óleo santo, feita pelo sacerdote, concede ao doente a Graça e o alívio espiritual, e muitas vezes também o conforto corporal. A Unção dos Enfermos concede a saúde da alma e, em muitos casos, também do corpo.

O óleo utilizado neste Sacramento é um dos óleos que o Bispo abençoa na Quinta-feira Santa. O corpo da pessoa ungida pelo Batismo é santo, pois por meio deste corpo ela comungou com Nosso Senhor Jesus Cristo. O Sacramento da Unção faz com os Enfermos tenham forças para testemunhar Jesus Cristo em meio ao sofrimento que passam, unindo-se à Obra redentora do Filho de Deus.

Quem pode receber a Unção? Os fiéis que se encontram em perigo de morte, por doença ou velhice. O mesmo fiel pode recebê-la outras vezes, se houver um agravamento da doença. A celebração desse Sacramento deve ser, preferivelmente, precedida da confissão individual do doente (CIC §1514-1515/1528-1525).

Para receber a Unção dos Enfermos é preciso, se possível, confessar os pecados ao padre, e recebê-la com fé, esperança e com a aceitação da Vontade de Deus.

Os sinais sensíveis da Unção são a oração e a unção que produzem a Graça, e são ministrados pelo sacerdote. A matéria usada na unção é o azeite de oliveira ou outro óleo de extração vegetal, que é abençoado na Quinta-feira Santa (Constituição Apostólica Sacram Unctionem Infirmorum, 30/11/1972).

O sacerdote unge a pessoa na fronte e nas mãos, com o óleo devidamente benzido, dizendo uma só vez: “Por esta santa Unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a Graça do Espírito Santo; para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade alivie os teus sofrimentos. Amém. (Sacramentário - CNBB. Petrópolis: Vozes, 2ª ed. Pp. 157)”

“Com a sagrada Unção dos Enfermos e a oração dos presbíteros, toda a Igreja recomenda os doentes ao Senhor Sofredor e Glorificado, para que Ele os alivie e salve, e exorta-os a unirem-se livremente à Paixão e Morte de Cristo, e a contribuírem assim para o bem do Povo de Deus” (CIC §1499).

A doença faz parte da vida, mas é sempre uma experiência dolorosa: ela enfraquece, baixa o moral e revela a impotência humana, nossos limites e a fragilidade das nossas vidas. Em certo sentido, toda doença nos coloca diante da realidade da morte. E há muitos modos de enfrentar a doença: pode-se vivê-la com amargura, com revolta e espírito derrotista, ou pode-se vivê-la com amadurecimento, fé e oração. Para um fiel católico, a doença pode ser um meio de participar da Paixão do Senhor, em benefício de toda a humanidade.

Assim age o Sacramento: o óleo é símbolo da Graça do Espírito Santo, Espírito de força e consolação (Ele é o Paráclito Consolador). É o Espírito do Cristo Ressuscitado, e dá ao enfermo força para fazer de sua doença um modo de participar da Paixão do Senhor. A Unção dos Enfermos nos une à Páscoa do Senhor, como insiste São Paulo:

“Eu me rejubilo nos meus sofrimentos por vós, e completo na minha carne o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24).

“Cristo será engrandecido no meu corpo, pela vida ou pela morte. Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 20s).

“Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 19-20).

Desse modo, a doença é vivida com um sentido positivo, pascal, salvífico: o privilégio de participar da Cruz do Senhor, para com Ele chegar à Glória da Ressurreição. Triste na vida não é sofrer, mas sofrer sem ver sentido no sofrimento. O Sacramento da Unção dá um sentido cristológico, um sentido santo à doença. A debilidade humana é transfigurada em Cristo, assume aspecto de força na fraqueza e dá ao enfermo a serenidade de saber que seu calvário terminará na Ressurreição!

Jesus não somente curou os enfermos, como sinal da chegada do Reino de Deus, como também ordenou que seus discípulos fizessem o mesmo (Mc 6, 7ss; 16, 17s; Mt 10, 8). A Tradição da Igreja, desde os primeiros tempos, reconheceu neste gesto um dos sete Sacramentos. No entanto, o Senhor é soberano para conceder ou não a cura. Às vezes, nem a oração mais insistente a obtém. São Paulo, depois de muito pedir, recebeu do Senhor a resposta de que bastava ao Apóstolo Sua Graça, pois na fraqueza aperfeiçoa-se a Força de Deus (2Cor 12,9). Ninguém pode “forçar” Deus a realizar um milagre de cura. Deus é soberano e sabe o que é melhor para nós! Tristes daqueles cuja fé depende de milagres de cura. Muito cuidado, porém, com aqueles que prometem a cura "em nome de Jesus", até com hora marcada...

A Igreja busca cumprir a ordem de curar os doentes dada por Cristo, cuidando dos enfermos e intercedendo por eles na oração, com fé na Presença vivificante de Cristo, Médico do corpo e da alma. Ele está presente sobretudo nos Sacramentos e, de modo especial, na Eucaristia. A Igreja, desde os tempos dos Apóstolos, conhecia o rito próprio em favor dos enfermos:

“Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja para que orem por ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o levantará; se tiver cometido pecados, estes serão perdoados” (Tg 5, 14-15).

Quando tivermos alguém da família com uma doença muito grave, devemos rezar para que ela queira chamar o sacerdote, para que faça uma boa Confissão e receba a Extrema-Unção ou Unção dos Enfermos. Não devemos ter medo de ver um padre entrar na casa de um doente, ao contrário: ele não traz a morte, como muitos ignorantes pensam, mas sim a vida, - e a vida eterna!, - que é a Presença de Jesus na alma do doente. Com a Graça de Deus no coração, o doente muitas vezes recupera as forças físicas, mas se não for o caso recupera o mais importante: as forças da alma; passa a rezar e a se preparar para ir para o Céu. É verdade que a morte é muito triste, mas também é verdade que é pela morte que vamos para o Céu, para a felicidade que nunca se acaba e para ver a Deus na Plenitude. Graças a Deus!

______________
Fontes e bibliografia:
• FABER, Eva-Maria. Doutrina Católica dos Sacramentos. São Paulo: Loyola, 2008, pp. 202-207.
• KEELER, Helen & GRIMBLY, Susan. 101 Coisas que Todos Deveriam Saber Sobre Catolicismo. São Paulo: Pensamento, 2007, pp. 118-121.
• COSTA, Henrique Soares da, Pe. Unção dos Enfermos. Disponível em:
domhenrique.com.br/index.php/sacramentos/uncao-dos-enfermos/211-o-sacramento-da-uncao-dos-enfermos-i
Acesso em: 23 abr. 2012.
ofielcatolico.blogspot.com

O Sacramento da Confissão, Penitência ou Reconciliação



O SACRAMENTO QUE APAGA os pecados, como já vimos, é o Batismo. Assim como também já vimos que, mesmo após o Batismo, continuamos a experimentar as fragilidades próprias da natureza humana e a concupiscência, - isto é, o desequilíbrio que o Pecado Original deixou em nós, uma certa inclinação ou tendência para o pecado. - A concupiscência vem do pecado e pode levar ao pecado (CIC §405-409 / 418 / 1425-6 / 1484).

Apenas desejar algo errado é fruto da concupiscência. Mas se você consente e pratica o que pensou de ruim, aí cai no pecado. Um mal pensamento que vem a mente não é pecado até que você se entregue a este pensamento, desfrute dele, entretenha-se propositalmente com ele. Se você resiste, não peca: venceu o mal em Cristo! A concupiscência é, então, ocasião para “combater o bom combate e guardar a fé”, como disse o Apóstolo Paulo (2Tm 4,7).

Assim, o cristão, apesar de ser nova criatura, não mais vivendo no pecado, experimenta ainda situações de pecado: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8).


A Igreja pode perdoar os pecados?

O pecado é infidelidade e injúria a Deus: somente Deus pode perdoá-lo. Mas Jesus, que é Deus e tem o poder de perdoar os pecados (Mc 2,7-12) concedeu à sua Igreja este poder, para ser exercido em seu Nome: “O que ligares na Terra será ligado no Céu, e o que desligares na Terra será desligado nos Céus”, está dito clara e categoricamente, mais de uma vez, nos Evangelhos (Mt 16,19; 18,18; Jo 20,22ss). E os Apóstolos confirmaram que receberam esta missão diretamente do Senhor Jesus, como vemos na Escritura: “Tudo isso vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo e nos confiou o Ministério da Reconciliação” (2Cor 5, 18).

Para alguém que realmente crê e observa a Bíblia, não há como negar algo dito e confirmado assim, tão claramente, nas Escrituras. Espantosamente, porém, alguns insistem em procurar subterfúgios, apelando para os maiores "malabarismos mentais" na tentativa de negar esta realidade concreta, esta ordem divina explícita que é fundamental para todo cristão; o Cristo, que pode perdoar os pecados, deu à sua Igreja o poder de perdoar os pecados em seu Nome: “Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles aos quais os retiverdes (não perdoardes), serão retidos” (Jo 20,22ss).


Confissão, Penitência ou Reconciliação?

O Sacramento que ora estudamos é corretamente chamado tanto "da Penitência", "da Confissão" ou "da Reconciliação", mas estes três termos aparentemente diversos estão não só relacionados como também se integram harmoniosamente.

Se eu me converti, fiz a conversão, isto é, mudei o sentido da caminhada da minha vida. Mas se num determinado momento olhei para trás ou voltei atrás, retomando a direção anterior, é preciso retomar a minha conversão. É para isso que serve o Sacramento de que estamos tratando. - É enquanto convertido que eu confesso os meus pecados, os meus erros, os meus desvios do Caminho que escolhi, que é o próprio Cristo, porque escolhi ser fiel, porque fiz um pacto com Deus e comigo mesmo, que é para toda a vida. - Se eu pequei, se rompi este pacto, é preciso reatá-lo, a não ser que eu não o queira mais. Assim, confessar-me é um gesto de profunda humildade, no qual eu me prostro diante de Deus, na pessoa de um sacerdote, e digo: "Errei. Perdoa-me, e eu me esforçarei ao máximo para nunca mais cometer o mesmo erro novamente".

Confesso os meus pecados também como uma forma de reconhecimento, para dizer que eu assumo aquela culpa, pois sem isso não é possível uma verdadeira conversão, isto é, uma mudança de direção autêntica: o Mea Culpa. O que vem a ser isto? Quer dizer que, depois do exame de consciência, - que é quando eu me coloco diante de Deus para examinar como vivi, se fui realmente fiel e em quais ocasiões eu falhei, e como falhei, - eu preciso assumir os meus erros, para que possa verdadeiramente me comprometer a não repeti-los. Se eu não assumo que errei, se não aceito a responsabilidade por aquelas falhas, como poderei dizer que não errarei novamente? Ora, se não há nada de errado com o que eu fiz, porque não voltaria a fazê-lo?

Confessados os meus pecados, é hora de cumprir a penitência. Normalmente o sacerdote prescreve algumas orações, ma a penitência vai muito além disso. A contínua conversão e reconversão pela penitência é o remédio para o pecado. A penitência, falando do modo mais simples possível, é um conjunto de atitudes e gestos que buscam e revelam a mudança interior, a conversão do coração.

“A conversão interior impele à expressão exterior, com gestos e sinais visíveis, gestos e sinais de penitência (...) A penitência interior é a reorientação de toda a vida, um retorno, uma conversão a Deus, de todo o coração, a ruptura com o pecado, a aversão ao mal, juntamente com a reprovação das más ações cometidas.” (CIC §1421; §1430)

Vemos então como a Penitência é coisa muito diferente (e infinitamente mais profunda) do que simplesmente deixar de comer chocolate no período da Quaresma, - embora esse gesto possa ser válido, sem dúvida. - A Penitência é como um reflexo da fé, ou uma consequência sua, ou ainda uma forma de expressar e viver esta mesma fé. É expressão do próprio processo de conversão, que não é simples, mas se dá num avanço que precisa ser contínuo e constante.

É por meio, portanto, da Confissão e da Penitência que se dá a Reconciliação com Deus, que precisa ser praticada diariamente, todo o tempo. O ato da confissão dos pecados é parte da penitência, que é necessária para a reconciliação. Daqui por diante, portanto, para facilitar a leitura, usaremos o termo "Sacramento da Reconciliação", que nos parece, de algum modo, mais abrangente, embora não exclusiva nem necessariamente.


O que é preciso para receber a Reconciliação?

Antes de tudo, é preciso a contrição, - isto é, o sincero reconhecimento do pecado cometido e um verdadeiro arrependimento. - A contrição é uma certa dor da alma e uma profunda aversão ao pecado cometido, com a decisão de não pecar mais. Cristo perdoou a mulher adúltera que seria apedrejada, mas advertiu: “Vai e não peques mais!” (Jo 8,11).

Para essa contrição sincera, como já vimos, é necessário o exame de consciência conforme a Igreja orienta. Não devo confessar o que é pecado “para mim”, mas o que realmente é pecado, segundo a Fé de toda a Igreja, da qual sou membro. O verdadeiro cristão precisa manter sempre em mente que “Eu” não sou a medida de todas as coisas, pelo mesmo motivo que a leitura da Sagrada Escritura não é para a interpretação pessoal, do Eu que se coloca como o insofismável intérprete da Vontade divina (cf. 2 Pd1,20).

Assim, no exame de consciência, é bom questionar-se principalmente sobre três áreas: minha relação com Deus, minha relação com os outros e minha relação comigo mesmo. Quanto mais cuidadoso for o exame de consciência e mais sincera e profunda a contrição, mais frutuosa será a Reconciliação. Se não há um exame de consciência cuidadoso, não se chega a um sincero arrependimento. Atenção: nesses casos, o Sacramento pode ser inválido. Sacramento não é “mágica”, é encontro entre o SENHOR, que concede a Graça, e o ser humano, sedento da Misericórdia e da vida que vêm de Deus. Existem alguns bons livrinhos que orientam muito bem sobre a prática do exame de consciência e a confissão. Recomendaria a obra do Padre Rafael Stanziona de Morais, cujo título é: "Por que confessar-se?" (Quadrante, 52 pág.s, esgotado na editora mas pode ser encontrado em livrarias especializadas ou secretarias de paróquias) e o "Orações do Cristão" (Quadrante, formato de bolso, 120 pág.s, adquira aqui), que da página 76 até a 94 trata do assunto, com muita competência.


Efeitos da Confissão

O pecado é a ruptura da Comunhão com Deus, que nos desordena internamente e nos faz romper com a Igreja, e com os irmãos de fé, deste mundo e do Céu. O pecado provoca uma ferida não só em nós mesmos, mas também no Corpo de Cristo, a Igreja. Você é um membro desse Corpo, e um membro ferido prejudica todo o Corpo do Senhor. Com a Confissão e a Penitência, vem a Reconciliação, as feridas são curadas e o membro volta a ficar são: todo o Corpo ganha.

Além de tudo, confessar os pecados também é, psicologicamente falando, um bálsamo. Dom Aloísio Roque Oppermann, scj, Arcebispo de Uberaba (MG), aponta: “Muito tempo antes de Freud, o Sacramento da Penitência já era um alívio para as angústias. A confissão pode provocar uma cura da alma que a ciência não pode. Pela Graça do Divino Espírito Santo, a Penitência pode restituir a vida em Cristo!"1...


O Sacramento da Reconciliação ou Confissão na Prática

Por que confessar os pecados ao padre? Porque é ele o ministro deste Sacramento. “Jesus Cristo confiou o Ministério da Reconciliação aos seus Apóstolos, aos seus sucessores, os bispos, e aos presbíteros, seus colaboradores, os quais são instrumentos da Misericórdia e da Justiça de Deus. Eles exercem o poder de perdoar os pecados em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (CIC §1461-1466/1495).


Com que frequência confessar os pecados?

“Todo fiel, tendo atingido a idade da razão, é obrigado a confessar os próprios pecados graves pelo menos uma vez ao ano, e sempre antes de receber a Santa Comunhão” (CIC §1457). Os pecados mortais devem ser  confessados diretamente ao padre, sempre que forem cometidos e com a máxima urgência. Já os pecados veniais são confessados em toda Santa Missa, no momento do Ato Penitencial, para que possamos comungar em estado de graça. Isso não quer dizer que não é preciso confessar também os pecados veniais ao padre.

Note que o Catecismo esclarece que os pecados que devemos confessar são os nossos próprios, e não os pecados de outras pessoas. O momento da confissão não é para desabafar mágoas nem para acusar defeitos de ninguém. É o momento para aliviar e purificar a sua própria alma.


"O Filho Pródigo" - Pompeo Batoni (1708-1787)

Não é preciso ter receio de confessar suas faltas ao padre!

“Dada a delicadeza desse ministério e o respeito devido às pessoas, todo confessor é obrigado, sem exceção alguma e sob penas muito severas, a guardar o sigilo sacramental, ou seja, segredo absoluto acerca dos pecados conhecidos na confissão.” (CIC §1467)

Não é preciso ter receio algum, por mais grave ou constrangedor que seja o seu pecado, de confessá-lo, pois absolutamente ninguém ficará sabendo dele, além do sacerdote, na condição exclusiva de ministro da Reconciliação, a Aquele que já conhecia muito bem as suas faltas: Deus. Agora, se você se sente realmente muito envergonhado, talvez seja o caso de procurar um padre de uma paróquia mais distante, que não a sua, alguém que possivelmente você não tornará a ver nesta vida. Mas saiba que o padre não está preocupado em saber quais foram os seus pecados, por curiosidade ou interesse pessoal. Logo após ouvir o que você disse, ele como que "deleta" tudo o que ouviu, - o que, aliás, é sua obrigação: seu único objetivo é ser um canal entre quem confessa e o Perdão de Deus.

A belíssima fórmula de Absolvição Sacramental revela, de modo admirável, o sentido do Sacramento da Reconciliação: “Deus Pai de Misericórdia, que pela Morte e Ressurreição de Seu Filho reconciliou o mundo consigo e infundiu o Espírito Santo para a remissão dos pecados, te conceda, pelo Ministério da Igreja, o perdão e a paz. Eu te absolvo dos teus pecados, em Nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”, e todo cristão fiel sabe quanto peso sai de suas costas logo após ouvirmos estas santas palavras!

_____________________
Fontes e referência bibliográfica:

1. OPPERMANN, Aloísio Roque, scj. Confissão: prática mais do que moderna. Disponível em:

http://comshalom.org/formacao/exibir.php?form_ id=2918
 Acesso em: 20 abr. 2012.

• COSTA, Henrique Soares da, Dom. O Sacramento da Penitência. Disponível em: 

http://padrehenrique.com/index.php/sacramentos/penitencia
Acesso em: 20 abr. 2012.

• MIRANDA, Mário de França. Sacramento da Penitência. 5ª ed. São Paulo: Loyola, 1996.

• MORAIS, Rafael Stanziona. Por que confessar-se?. São Paulo: Quadrante, 2012, pp. 76-94.
http://ofielcatolico.blogspot.com.br/

O Sacramento da Ordem


NA ANTIGUIDADE, CHAMAVA-SE Ordem a um grupo de pessoas que tinham determinada responsabilidade ou função, ou que compartilhassem de uma determinada missão, como, por exemplo, a Ordem dos Juízes e as Ordens de cavaleiros. Ordem, na linguagem civil romana, era um grupo de cidadãos que exerciam as mesmas funções, reconhecidas publicamente. A entrada de uma pessoa numa determinada Ordem era chamada “ordenação”.

Na Igreja, desde os primeiros séculos, é costume chamar de Ordem ao grupo dos ministros consagrados. Assim, desde os tempos antigos, encontramos nos documentos e livros litúrgicos da Igreja as expressões “Ordem dos Bispos”, “Ordem dos Presbíteros” e “Ordem dos Diáconos”. E como um ministro da Igreja deve receber o Sacramento próprio para exercer o seu ministério, esse Sacramento passou a ser chamado Sacramento da Ordem, que é o Sacramento pelo qual alguém que tenha a necessária vocação é inserido na Ordem dos Ministros Sagrados. A Igreja conservou o termo “Ordem” porque, além de ser o costume, tinha respaldo na Sagrada Escritura: o próprio Senhor Jesus Cristo é chamado “Sacerdote Eterno segundo a Ordem de Melquisedec” (Sl 110, 4; Hb 5, 6; 7, 11).

Ordem, portanto, é o nome do Sacramento; ordenação é a sua celebração, o rito litúrgico praticado pelos Apóstolos, que insere na Ordem dos Bispos, Presbíteros ou Diáconos os escolhidos para o ministério sagrado.


O que é um sacerdote?

É, antes de tudo, o dispensador do Amor de Deus aos homens. Que missão sagrada e maravilhosa é a do sacerdote! Evidentemente, um sacerdote é um ser humano comum, sujeito à fraqueza e ao erro. Porém, esse homem foi chamado especialmente por Deus (e aceitou o Chamado) a “separar-se” do mundo e das outras pessoas, consagrando sua vida inteira, todo o seu ser, corpo, coração e alma, ao exercício da doação de Deus aos homens, por meio da Igreja.

O Sacerdote é também chamado padre ou presbítero, ou, ainda, pontífice, palavra que deriva da somatória de “ponte” e “artífice”, embora esse título seja mais formalmente atribuído ao Papa. O padre é um construtor de pontes que ligam o Céu à Terra, que unem os homens a Deus; o temporal ao Eterno; o pecado à Misericórdia Divina. É por meio dele que são administrados todos os Sacramentos, sendo que o ministro da Ordem, o bispo, também é um sacerdote.


Origem do Sacerdócio

Nosso Senhor Jesus Cristo deu aos Apóstolos a plenitude do poder sacerdotal, e eles a transmitiram aos seus sucessores, pela imposição das mãos. Desde o início, a Igreja têm consagrado bispos e ordenado padres pela imposição das mãos e oração. Pela ordenação Sacerdotal, Cristo conferiu à sua Igreja, na pessoa do sacerdote, o poder de celebrar a Santíssima Eucaristia, administrar os Sacramentos, consagrar e abençoar pessoas e objetos, etc.

A ordenação sacerdotal imprime um caráter que nunca acaba: isto é chamado Sinal Indelével. O sacerdote jamais perde o seu poder sacerdotal, a menos que seja dispensado por seus legítimos superiores através da ordem expressa do Sumo Pontífice, o Papa. Pela ordenação, o sacerdote, mesmo permanecendo um homem comum, fica unido de modo especial a Jesus, tornando-se extensão de Cristo no mundo, dispensando a salvação do Senhor por meio da Igreja. Podemos dizer que, quando está entre nós, o padre é um ser humano comum, mas quando está ao Altar, presidindo a Celebração Eucarística, “reveste-se de Deus”, sendo que por suas mãos o próprio Senhor Jesus Cristo vem ao mundo!

Jesus chama jovens de todas as nações, classes sociais, raças e culturas ao Seu serviço. Os candidatos ao sacerdócio devem ter os requisitos básicos de todo cristão verdadeiro: fé viva e ativa; disposição para o sacrifício, até da própria vida, no serviço a Deus; trabalhar pela salvação de todos os homens, sem distinção.


O que diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC §1590-§1600)

Toda a Igreja é um povo sacerdotal. Pelo Batismo e Confirmação, todo cristão participa do Sacerdócio Único de Cristo: é o sacerdócio comum dos fiéis. Assim, todo fiel participa da Missão de Cristo na salvação do mundo: é evangelizador, é testemunha e, com seu sacrifício, oração e participação na Liturgia, colabora na Obra da Salvação. Desde o tempo dos Apóstolos, porém, destaca-se de modo especial, do meio deste povo sacerdotal, o Sacerdócio Ministerial: são os ministros ordenados que santificam e dirigem o povo de Deus.

E desde as suas origens, a Igreja confere o ministério ordenado em 3 graus: Episcopado (bispos), Presbiterato (padres ou presbíteros) e Diaconato (diáconos). São ministérios insubstituíveis, com origem nos Apóstolos e preparados por Deus. Sem esses ministérios não há Igreja em plenitude.

O bispo, pela ordenação, é ligado à Igreja Diocesana e inserido no Colégio Episcopal (bispos do mundo inteiro), em comunhão com o Sucessor de Pedro, o Papa. Os padres são unidos ao bispo e seus cooperadores. Em comunhão com ele, santificam e dirigem o povo de Deus. O bispo não age sozinho, mas sempre unido ao Presbitério (padres). O Presbitério não é independente do bispo, e o bispo deve ouvir sempre o Presbitério. A Igreja existe em Comunhão, à imagem da Trindade Santa.

Os diáconos não formam um colégio nem são ordenados para o sacerdócio. Eles participam do sacerdócio comum dos fiéis, mas pelo Sacramento da Ordem são constituídos auxiliares diretos do Bispo e exercem funções importantes no ministério da Palavra e no culto divino.

O Sacramento da Ordem é conferido pela imposição das mãos do bispo, seguida pela oração consecratória, na qual a Igreja suplica que o Pai derrame sobre o eleito o Espírito do Cristo Ressuscitado. Marcado pelo Espírito Santo para sempre, o ordenado recebe a graça de agir na Pessoa de Cristo. O Sacramento da Ordem não pode ser repetido. Não é privilégio, nem honra, nem um direito: é Graça de Deus para o serviço do Seu povo.

____________
Fontes e referência bibliográfica:
• BAIGORI, Luis. Ordem Sagrada. São Paulo: Loyola, 1992.
• HORTAL, Jesus. Sacramentos da Igreja na sua Dimensão Canônico - Pastoral. São Paulo: Loyola, 2003, pp. 197-218.
ofielcatolico.blogspot.com

O Sacramento do Matrimônio


É ADMIRÁVEL e até surpreendente que o amor humano, o amor entre um homem e uma mulher – amor que envolve doação, parceria, cumplicidade, carinho, carícias e intimidade sexual e erótica, – seja marcado por Cristo com a sua Graça, isto é, que seja um Sacramento. O amor entre homem e mulher, amor carnal, também é sinal do Amor de Deus. Vejamos...

O Catecismo da Igreja Católica afirma o seguinte:

“O pacto matrimonial pelo qual o homem e a mulher estabelecem entre eles a comunidade [comum unidade] por toda a vida, por sua própria natureza ordenado ao bem dos esposos   e à procriação e educação dos filhos, entre os batizados foi elevado por Cristo Senhor à dignidade de Sacramento.” (CIC §1601)

Há uma grande beleza nesta realidade: homem e a mulher, pelo amor, assumem uma aliança para toda a vida. E para quê? Primeiro por amor, para desfrutarem e viverem o amor entre eles: amando-se e sendo "felizes para sempre”. – É disso que o Catecismo está falando quando diz “bem dos esposos”. Em segundo lugar, porém não menos importante, o Matrimônio é assumido para que o casal partilhe seu amor com os filhos que Deus lhes enviar. O perfeito amor é assim, difusivo: espalha-se, difunde-se, aumenta... Quanto mais amor, mais partilha. E mais expansão de amor.

O Catecismo diz ainda que esse amor, entre um cristão e uma cristã, foi elevado por Cristo à dignidade, à condição de Sacramento, quer dizer, de sinal eficaz da Graça de Cristo(!). Até São Paulo, admirado, exclamou sobre essa realidade: “Mas é grande esse mistério!” (Ef 5,32). O Catecismo recorda ainda que a Escritura, do começo ao fim, fala do Matrimônio e do seu mistério profundo: basta lembrar que, logo no Gênesis, está a criação do homem e da mulher e a ordem de crescerem e se multiplicarem. E vemos ali a primeira palavra do homem, que não foi uma oração a Deus, mas uma declaração de amor: “Eis agora, aqui, o osso dos meus ossos e a carne de minha carne!” (Gn 2,23). E o Apocalipse, último livro da Bíblia, termina com a visão mística das Núpcias do Cordeiro, que é o próprio Cristo, com sua Igreja, a Jerusalém Celeste (cf. Ap 19,7.9).


O Matrimônio na ordem da Criação

O Matrimônio, enquanto união sagrada entre homem e mulher, não começou a existir com o cristianismo; existe desde que existem os seres humanos. A Escritura diz que Deus nos criou à sua imagem, e semelhança. Entre outras coisas, isso significa que o homem, assim como Deus, é capaz de amar e de ser amado. Todos nós temos sede de dar e receber amor. Você já parou para pensar que somente amando é que nos humanizamos, amadurecemos, crescemos, não só espiritualmente como também emocionalmente e até intelectualmente? Amando é que crescemos enquanto seres humanos, em sentido integral. Quem não ama se desumaniza. Aquele que se fecha para o amor se animaliza, de um modo ou de outro.

Por isso mesmo, - veja que interessante é isto, - no Gênesis lemos que Deus cria e vê que tudo o que cria é bom; mas, ao criar o homem, exclama: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2,18). O SENHOR, então, do homem cria a mulher. Belíssima e profunda esta parábola, esta linguagem simbólica do Antigo Testamento da Bíblia! E a Escritura diz que então Deus mandou um sono ao homem, o que deixa claro que ele, homem, não participa da criação da mulher: ela é criada diretamente por Deus, assim como o homem. E Deus a tira da costela, do lado do homem, do seu íntimo, para que lhe seja companheira, para que sejam os dois "uma só carne" (Gn 2,24). Como dizia Sto. Agostinho, Deus não tirou a mulher dos pés do homem (porque ela não é inferior a ele) e nem lhe tirou da cabeça (ela também não lhe é superior): tirou-a do lado.

Significativo também é o fato de Deus não ter novamente assoprado sobre a mulher para dar-lhe a vida: ambos vivem do mesmo Sopro de Deus, pois foram feitos um para o outro. E o amor do homem pela mulher, logo que a viu, foi instantâneo (Gn 2,23).

Assim vemos que o Matrimônio não é uma realidade exclusivamente cristã. Ainda que somente o Matrimônio entre cristãos seja Sacramento, as uniões entre homens e mulheres, fundamentadas no amor, são de algum modo abençoadas por Deus, pois estão inscritas naquele propósito inicial do SENHOR para a humanidade. Em todas as culturas e épocas, enquanto o ser humano existir, homem e mulher largarão tudo, sairão de seu ninho afetivo, deixarão a família em que nasceram e assumirão uma grande aventura: formar uma nova família, um novo lar, uma nova vida totalmente compartilhada, na qual o destino dos dois esteja entrelaçado, e desse laço dependa o destino dos filhos! Realmente, “é grande este mistério”...


O Matrimônio sob o regime do pecado

A doutrina cristã católica trata da experiência do mal que cada um de nós e toda a humanidade vivencia: somos como que quebrados em nossas almas, incoerentes, muitas vezes egoístas. Tal situação atinge todos os aspectos da existência humana, e também a relação afetiva entre o homem e a mulher. Mesmo algo tão bonito como o amor verdadeiro de um casal não é sempre um "mar de rosas". Também esse amor é ameaçado pela discórdia, pelo espírito de domínio, pelo ciúme, pela infidelidade e por tantos conflitos que, acumulados, podem fazer com que, num desfecho extremo e trágico, esse sentimento sublime chegue a tornar-se ódio.

O amor não é algo que "cai do Céu"... É um sonho, um desejo do coração, porém é constantemente ameaçado pela nossa desordem interior, e mais ainda pela desordem do mundo que nos cerca. De onde vem tais desordens? A fé nos diz que vem da situação de pecado na qual a humanidade toda se encontra. Esta situação de pecado, – que teologicamente chamamos Pecado Original, – provém do início da humanidade: o homem decidiu viver sua vida do seu jeito, quis ser seu próprio deus e, assim, desarrumou-se completamente: consigo mesmo, com Deus, com a natureza, com os outros... E a relação homem-mulher também foi gravemente prejudicada.

A Sagrada Escritura está repleta de histórias que nos mostram como o amor humano muitas vezes degenera em egoísmo, o afeto em ciúme, a atração sexual em pura relação de domínio e desfrutamento carnal e egoísta. Mas, apesar de toda desordem, o plano de Deus para o amor humano continua vivo, belo, alto, nobre! Com a Graça que nos vem por Jesus Cristo, o homem e a mulher podem se superar e viver um amor realmente digno desse nome. É necessário, porém, investir nele, construí-lo, sabendo renunciar, dialogar, perdoar, aprender a ser feliz na felicidade do outro. O amor se aprende, o amor se constrói. Quem não está disposto a se construir e se formar no dia a dia não deveria se casar, porque não saberá amar de verdade, e o Sacramento do Matrimônio necessita de amor.

Amar é saber ser verdadeiramente feliz pelo bem do outro, é saber sair de si para ir ao encontro do outro, com seus sonhos, projetos e jeito de ser. O amor real, de carne e osso, não se dá entre dois seres perfeitos e totalmente integrados; mas entre duas pessoas com virtudes, defeitos e feridas deixadas pela vida. Pessoas "em construção", pessoas que precisam ser perdoadas, acolhidas, amadas, aceitas. Nesse sentido, o Matrimônio é um belíssimo meio para sair de si, para abrir-se para o outro, para aprender a partilhar. O Matrimônio é caminho de superação, humanização e amadurecimento. É como um santo simulacro da relação ser humano - Deus.


O Matrimônio sob a pedagogia da Lei

Como aparece o Matrimônio no Antigo Testamento? No início não é muito clara toda essa profundidade do amor matrimonial e sua dignidade. Nos textos mais antigos da Escritura, vemos que os patriarcas eram polígamos. - Contudo, pelos Profetas, Deus vai comparando sua Aliança com o povo de Israel a uma aliança matrimonial. E nessa relação de amor, Deus exige que Israel seja totalmente de seu Deus, assim como Deus lhe é e será sempre fiel. Sobre isso há páginas de grande beleza e poesia no Antigo Testamento (como Os 1-3; Is 54; Jr 2-3; Ez 16). Basta-nos o exemplo encantador do Livro de Oséias (2,16.21s), em que Deus se compara a um esposo apaixonado que vai seduzir Israel, sua amada:

“Eis que vou, eu mesmo, seduzi-la, conduzi-la ao deserto e falar-lhe ao coração. Eu te desposarei a mim para sempre, eu te desposarei na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu te desposarei a mim na fidelidade e conhecerás o Senhor!”

Já o magnífico Cântico dos Cânticos celebra, a um só tempo, o amor humano e o amor entre o SENHOR, Esposo amoroso, e sua esposa, o povo de Israel:

Que me beije com beijos de sua boca! Teus amores são melhores do que o vinho, o odor dos teus perfumes é suave, teu nome é como óleo que escorre, e as donzelas se enamoram de ti... Arrasta-me contigo, corramos! Leva-me, ó rei, aos teus aposentos e exultemos! Alegremo-nos em ti! Mais que ao vinho, celebremos teus amores! (Ct 1,2-4)

Sim isto é Palavra de Deus! O amor humano em todo o seu realismo e sublimidade, que nos surpreende por ser capaz de exprimir o Amor da Aliança entre Deus e o seu povo.


O Matrimônio no Novo Testamento

Cristo, Senhor e Salvador, veio para estabelecer uma nova Aliança, não somente entre Deus e Israel, mas, agora, entre Deus e a humanidade inteira, congregada num novo povo que é a Igreja. Nesta Aliança, que é nova e definitiva, o Esposo é o Cristo e a Esposa é a Igreja. Esta aliança é selada no Espírito Santo, simbolizado pelo Vinho novo. Assim, podemos compreender por que o primeiro sinal de Jesus foi numa festa de núpcias em Caná da Galileia (cf. Jo 2,1-12).

Jesus ainda contou parábolas sobre o banquete de casamento (cf. Mt 22,1-14), falou das virgens que esperam o noivo (cf. Mt 25,1-13), falou em sentar-se à Mesa do Banquete com Abraão, Isaac e Jacó (cf. Mt 8,11s), e João Batista afirmou claramente que Jesus é o Esposo que vem desposar Israel (o novo Israel, que é a Igreja – cf. Jo 3,29). Então, Cristo é o Esposo, e a Igreja, a Esposa, numa Aliança de Amor eterno.

Por isso, o Matrimônio entre um cristão e uma cristã, entre dois batizados, é um Sacramento. É um sinal real e eficaz da graça de Cristo: o esposo cristão é, no seu amor, imagem viva do amor do Cristo-Esposo pela Igreja-Esposa; a esposa cristã é, no seu amor, imagem do amor da Igreja-Esposa pelo seu Cristo Jesus. É o que São Paulo proclama na Carta aos Efésios: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela”... (5,21ss).

Então, pela Graça do Sacramento, os esposos cristãos recebem a força do Espírito Santo, Espírito de amor, Espírito da Nova e Eterna Aliança, para se amarem como Cristo e a Igreja se amam, sendo, em suas vidas, sinal (= Sacramento) do Amor entre Cristo e a Igreja. O esposo cristão terá como ideal de amor e atitude esponsal o Cristo, que amou sua Igreja até entregar-se por ela, tornando-se com ela um só Corpo; a esposa terá como modelo a Igreja, toda dedicada ao Esposo Jesus, sendo seu Corpo e a ele permanecendo fiel mesmo nos momentos mais difíceis. Cristo e a Igreja, uma só Carne. Numa Aliança de Amor eterno, celebrada em cada Eucaristia, quando o Cristo-Esposo entrega sua Carne pela Igreja-Esposa.

Do mesmo modo, marido e mulher, uma só carne, uma só vida: no dia-a-dia, no leito conjugal, na mesa da família... Sim, “é grande este mistério”! – Que o amor humano seja sinal sacramental do Amor divino!


O Sacramento do Matrimônio na prática

Curso de Preparação ao Matrimônio: A Igreja pede aos noivos que participem do curso de preparação da paróquia onde vão casar-se, que tem por objetivo ajudar os noivos a se prepararem bem para o casamento, tendo em vista a reflexão e orientações sobre vida a dois, com base em testemunhos de casais já casados. A equipe do curso normalmente é constituída de um casal coordenador, assistentes e casais animadores. São pessoas que têm experiência nas alegrias e dificuldades da vida de casado e partilham seu testemunho. A duração do curso depende da paróquia. O ideal é que seja realizado alguns meses antes da data do casamento, para que haja uma reflexão real sobre o Matrimônio.

Padrinhos: o Sacramento do Matrimônio não exige a presença de padrinhos, e sim de duas testemunhas. O Código de Direito Canônico (Cân. 1108) determina que somente é válido o Matrimônio contraído perante um ministro assistente e duas testemunhas.

Notemos bem: exatamente porque a relação entre marido e mulher cristãos é sinal/Sacramento do Amor entre Cristo e a Igreja, somente quem realmente tem uma vida cristã deveria receber o Sacramento do Matrimônio. Como é que duas pessoas que não têm uma vida de fé, uma prática verdadeiramente cristã, poderiam viver essa relação sagrada em suas vidas? Como um casal que não vivencia realmente a experiência cristã poderá viver esta realidade maravilhosa: nosso amor é sinal de um Amor maior, nosso amor tem o Selo da Graça que nos sustenta na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, como entrega amorosa entre o Cristo e sua Esposa, a Igreja? É claro que o mundo não compreenderá nunca tal realidade! O Matrimônio é mistério de fé e somente na fé pode ser acolhido, somente na oração pode ser vivido e somente na graça pode ser mantido!

Por ser sinal da relação entre Cristo e a Igreja, a união matrimonial tem três características fundamentais presentes na relação Cristo-Igreja: a fidelidade, a indissolubilidade e a fecundidade. Sem estas três características não há nem pode haver Sacramento do Matrimônio. Assim, aqueles que se casam “no SENHOR”, ou seja, aqueles que desejam receber o Sacramento do Matrimônio, devem ter plena consciência de que estão assumindo o projeto de Cristo para o amor humano entre homem e mulher. Um casal cristão não pode pensar em viver seu Matrimônio "do seu jeito", como se o casamento fosse algo meramente privado; uma formalidade que serve aos desejos egoístas de duas pessoas que querem "juntar os trapos". Assumir um casamento perante Deus é assumir o que a Igreja do Senhor crê e professa sobre o Matrimônio.

_________________________
Fontes e referência bibliográfica:

• COSTA, Henrique Soares da, Bispo. "O Sacramento do Matrimônio", disponível em:
http://domhenrique.com.br/index.php/sacramentos/matrimonio/202-o-sacramento-do-matrimonio-i
acesso 21/2/014

• TABORDA, Francisco. Matrimônio Aliança - Reino, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2001.

• MOSER, Hilário. O Sacramento do Matrimônio: Guia Prático em Perguntas e Respostas. Tubarão: Diocesana de Tubarão, 1999.
ofielcatolico.blogspot.com

7º Domingo do Tempo Comum, ano A, Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus (5,38-48)


“SEDE PERFEITOS como vosso Pai dos Céus é perfeito” (Mt 5,48). Esta frase do Evangelho é incômoda. Pode sem dúvida ser aplicada com um peso indevido. Sim, pois quem é perfeito nesta vida? E quantos, em busca de um ideal de perfeição, acabaram sucumbindo no meio do caminho ou ficaram paralisados diante de culpas ou de um sentimento de culpa demasiado? É interessante observar que esta fala de Jesus se dá depois de um longo discurso sobre o amor ao próximo. Isso indica que a perfeição exigida por Cristo não é uma exortação à impecabilidade absoluta, na vida ou no culto, ou de uma construção aparentemente impecável de pureza; nem tão pouco indica a necessidade de uma relação irretocável com Deus.

A nossa busca pela perfeição é um crescimento no Amor, que se concretiza por um novo modo de se relacionar com Deus e também com nossos irmãos. “Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa res­posta de amor também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pes­soais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma "caridade por re­ceita", uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar ou anestesiar a consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4,43); trata-se de amar verdadeiramente e praticamente a Deus. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos” (Evangelii Gaudium §180). 

“Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem. Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos” (Mt 5,44-45). As palavras de Jesus devem nos incomodar, tiranr-nos do comodismo, fazer-nos dar mais do que aquilo que é justo, mais do que se pode calcular pela lógica da retribuição humana. É preciso entrar na dinâmica da gratuidade, que tem a sua força na encarnação do Filho de Deus: Deus que se torna humano e ama os pecadores, não retribui mal com mal, mas dá a vida também pelos seus agressores. Ele faz chover sobre maus e bons, não ama apenas os santos. Jesus nos ensina a amar de modo gratuito, sem prestar atenção no limite do irmão, pois somos todos falhos, pequenos, participantes solidários do pecado.

Diante dos enfrentamentos humanos, o primeiro movimento costuma ser a vingança. Parece ser justo retribuir o mal com o mal, destruir o agressor. É preciso ter consciência dos movimentos de nosso coração, com a clareza de que somos capazes de agredir, vingar, bater e até matar. A consciência de que somos também agressores ajuda-nos a crescer no Amor. É preciso que se tenha clareza de que é muito fácil e espontâneo viver uma vida narcísica, egoísta. Disse a poetisa Cecília Meireles: “É difícil fazer alguém feliz, assim como é fácil fazer triste. É difícil dizer eu te amo, assim como é fácil não dizer nada. É difícil valorizar um amor, assim como é fácil perdê-lo para sempre”. 

Estamos diante da concupiscência humana, esta fraqueza que nos faz tender sempre para o mal. Precisamos lutar contra esse tendência todos os dias, a todo instante. Diante do movimento de ódio e ressentimento, Jesus nos dá o remédio da oração. Não é possível orar por alguém sem que haja algum movimento positivo no coração. Quando oramos por alguém, amamos esta pessoa em Deus. Por isso, este é o primeiro passo para destruir a corrente de vingança e ódio. Dar a outra face não significa uma atitude ingênua e talvez meio suicida, mas sim a capacidade de dar uma nova chance. Todos, inclusive nós, queremos sempre uma nova oportunidade de tentar ser bom, de reconstruir o que foi destruído. 

É preciso viver o amor genuíno: o santo Amor de Jesus. Viver na dinâmica do ódio e da vingança é paganismo. Assim, o Evangelho nos questiona sobre o sentido mais profundo de nossa religião. Somos realmente seguidores de Jesus? Que atitudes nossas vêm demonstrando sintonia com as exigências desta Palavra de Deus? Só pela fidelidade no Amor é que podemos nos considerar filhos do Pai Celeste.

___________
Adaptado da homilia do  Pe. Roberto Nentwig, para o 7º Domingo do Tempo Comum, ano A, disponível em:

http://catequeseebiblia.blogspot.com.br/2014/02/homilia-do-7-domingo-do-tempo-comum-ano.html
Acesso 22/2/014
ofielcatolico.blogspot.com

Corpus Christi: o Santíssimo Sacramento da Eucaristia


O CATECISMO DA IGREJA Católica, referência para a doutrina da fé cristã, proclama que a preciosa Eucaristia “é a Fonte e o Ápice de toda a vida cristã". Diz ainda que "os demais Sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, se ligam à sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Pois a Santíssima Eucaristia contém todo o Bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa" (CIC §1324).

A instrução do Catecismo diz que a Eucaristia é a excelência e a perfeição dos Sacramentos; pois apesar das maravilhas que os outros Sacramentos produzem na alma, todos eles são instrumentos usados por Deus para nos dar a sua Graça. Na Sagrada Eucaristia, entretanto, não temos um instrumento que nos comunica a Graça Divina, e sim o próprio Autor da graça! - Jesus Cristo, real e verdadeiramente Presente, faz-se Alimento para a nossa salvação!

A Presença de Cristo no Santíssimo Sacramento começa no momento da Consagração e dura enquanto permanecem as Espécies Eucarísticas. Cristo está presente inteiro em cada uma das Espécies e inteiro em cada parte delas, de maneira que a fração do Pão não o divide. A Eucaristia, portanto, é o Sacramento que contém, sob as formas de pão e de vinho, verdadeiros, reais e substancialmente presentes o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, para Alimento de nossas almas.


“Quem come da minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim, e Eu nele" (Jo 6, 56)

Todos os Sacramentos, todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas se ligam à Sagrada Eucaristia, e a ela se ordenam, porque o Santíssimo Sacramento do Altar contém todo o Bem espiritual da Igreja, que é o próprio Senhor Jesus Cristo, nosso Deus!

Diz mais o Catecismo:

A Eucaristia realiza a Comunhão de Vida com Deus e a unidade do povo de Deus, pelas quais a Igreja é ela mesma. Na Eucaristia está o clímax tanto da ação pela qual, em Cristo, Deus santifica o mundo, como do culto que no Espírito Santo os homens prestam a Cristo e, por Ele, ao Pai. Pela Celebração Eucarística já nos unimos à Liturgia do Céu e antecipamos a vida eterna, quando Deus será Tudo em todos (1 Cor 15, 28). A Eucaristia é o resumo e a suma da nossa fé: “Nossa maneira de pensar concorda com a Eucaristia, e a Eucaristia, por sua vez, confirma a nossa maneira de pensar.
(Sto. Irineu – séc. II) [CIC §1324-7]

Seria desnecessário dizer mais do que isso. A Eucaristia é, simplesmente, o auge, o clímax, a santificação, a união, dos santos da Terra e os do Céu, a antecipação da vida eterna, o resumo e a suma da nossa fé! Pela Eucaristia podemos viver, em certo sentido, o Céu já aqui na Terra! Santo Tomás de Aquino diz que “todos os Sacramentos estão ordenados para a Eucaristia, como para o seu fim”: toda a riqueza dos Sacramentos se cumpre no Santíssimo Sacramento.

Falamos muito para dizer que a riqueza espiritual da Eucaristia é inesgotável, e por isso a Igreja tenta explicá-lo nos diversos nomes que lhe dá, sendo que cada um evoca algum dos seus muitos aspectos: Ceia do Senhor; Fração do Pão; Celebração Eucarística; Santa Missa; Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor: Santo Sacrifício; Divina Liturgia; Santo Mistério; Santíssimo Sacramento do Altar; Santa Comunhão (cf. CIC §1328-1332). Outros modos de chamar o Sacramento da Eucaristia, menos comuns, são: Coisas Santas; Pão dos Anjos; Pão do Céu; Remédio de Imortalidade... A Celebração da Eucaristia é chamada Santa Missa porque a Liturgia na qual se realiza o Mistério da Salvação termina com o envio dos fiéis em missão na vida cotidiana. E a palavra “Missa”, que vem do latim Missio, quer dizer exatamente envio ou missão.

Por ser tão importante, quando necessário a Eucaristia vai às casas dos doentes, com a visita de um sacerdote que cumpre a ordem do Senhor à sua Igreja, de curar e consolar os enfermos.


A Instituição da Eucaristia

Na véspera da Páscoa judaica, Jesus sabia que havia chegado a sua hora. Caía a noite sobre o mundo, sobre os velhos ritos, e os antigos sinais da Misericórdia de Deus para com a humanidade iriam realizar-se plenamente, abrindo caminho a um verdadeiro amanhecer: a nova Páscoa. A Eucaristia foi instituída durante a noite, em preparação à Manhã da Ressurreição.

“FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM” O Mandamento de Jesus para repetir seus gestos e palavras até a sua volta, não é somente para nos recordarmos do que Ele fez. É para a Celebração Litúrgica de sua Vida, Morte e Ressurreição, - e de sua Intercessão única e exclusiva pela nossa salvação.

Diz a Sagrada Escritura que especialmente no domingo, dia da Ressurreição de Jesus, os primeiros cristãos se reuniam para “partir o Pão" (At 20, 7). Assim a celebração da Eucaristia permanece até os nossos dias, com a mesma estrutura fundamental. E assim, de celebração em celebração, anunciando o Mistério Pascal de Jesus “até que Ele venha (1Cor 11, 26)”, o povo de Deus peregrina pelo mundo em direção à Pátria Celeste, quando todos os eleitos se assentarão à Mesa do Reino.

Deus pode o que nós não podemos. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito homem, não nos deixou somente um "símbolo", mas ficou Ele mesmo conosco. O Senhor foi para o Pai, mas permanece com os que o amam. Não nos deixou uma "lembrança", uma imagem que se dilui com o tempo, como fotografia que amarela e não tem significado para os que não conheceram a pessoa. Sob as espécies do Pão e do Vinho, encontra-se o próprio Cristo, realmente Presente.

Da Igreja primitiva temos o testemunho detalhado de S. Justino Mártir (séc. II) sobre o desenrolar da Celebração Eucarística:

Os cristãos celebram a Eucaristia desde as origens, e sob uma forma que, em sua substância, não sofreu alteração através da grande diversidade do tempo e das liturgias, porque temos consciência de estarmos ligados ao Mandato do Senhor, dado na véspera de sua Paixão: ‘Fazei isto em memória de Mim (1Cor 11, 24-25)’. (...) Ao fazermos isto, oferecemos ao Pai o que Ele mesmo nos deu: os dons de sua Criação, pão e vinho, que pelo poder do Espírito Santo e pelas palavras de Cristo tornam-se Corpo e Sangue de Cristo, que, assim, se torna Real e misteriosamente Presente. (...) No ‘dia do Sol’ (domingo), como é chamado, reúnem-se num mesmo lugar os habitantes, quer das cidades, quer dos campos. Leem-se ora os comentários dos Apóstolos, ora os escritos dos Profetas. Depois, o que preside toma a palavra para aconselhar e exortar à imitação de tão sublimes ensinamentos. Seguem-se as preces da comunidade e, quando as orações terminam, saudamo-nos uns aos outros com o ósculo. Em seguida, leva-se àquele que preside aos irmãos o pão e o vinho. (...) Ele os toma e faz subir louvor e glória ao Pai do Universo, no Nome do Filho e do Espírito Santo, e rende graças (no grego Eucharistian) longamente, pelo fato de termos sido julgados dignos destes Dons. Terminadas as orações e ações de graças, o povo presente aclama, dizendo amém. Depois de o presidente ter feito a ação de graças e o povo ter respondido, os diáconos distribuem a Eucaristia e levam-na também aos ausentes.
- Carta de S. Justino ao imperador Antonio Pio (S. Justino, ano 155 dC, em Apologeticum 1,65)

Neste fascinante registro histórico da Igreja primitiva, vemos que a Santa Missa sempre foi celebrada da mesmíssima maneira como fazemos até hoje, até nos seus principais detalhes!


Receber a Comunhão na língua, de joelhos: um gesto de adoração e um direito de todo católico

Prefigurações e Adoração Eucarística

O Maná ou “Pão do Céu”, com o qual Deus alimentou o povo hebreu durante 40 anos no deserto, na ocasião da fuga do Egito (Ex 16, 4-36), era uma prefiguração da Eucaristia, assim como a ceia pascal judaica, celebração da libertação da escravidão (Lv 23, 4-14). Também as multiplicações dos pães pelo Senhor (Mt 14, 13-21 e 15, 29-39) foram prefiguração da Eucaristia, anúncio feito pelo próprio  Jesus (Jo 6, 35-51).

Foi na Quinta-Feira Santa que Jesus instituiu a Eucaristia, declarando: “Isto é o meu Corpo” e “Isto é o meu Sangue”. Até hoje, a cada Missa, pelo poder dado por Cristo a todo sacerdote, o pão e o vinho transubstanciam-se, isto é, tornam-se verdadeiramente Corpo e Sangue do Salvador (§CIC 1376-7/1413). Torna-se presente, mais uma vez, o Sacrifício de Cristo por nossa salvação.

A Igreja aconselha e exorta todo cristão a adorar, agradecer e louvar a Nosso Senhor Jesus Cristo na preciosa Eucaristia: na Missa, especialmente na Consagração e no momento da Comunhão; na Adoração ao Santíssimo Sacramento, a qualquer hora, em qualquer Tabernáculo do mundo; nas Horas Santas, nas Procissões do Corpo de Deus (Corpus Christi), acompanhando-o com profunda reverência. Para recebermos com adoração e dignidade a Eucaristia, devemos estar em estado de graça (sem pecado mortal), estar em paz com todos, ter fé na Presença Real de Cristo no Pão Consagrado e comungar com extremo respeito e devoção.

Nesse momento sagrado, os anjos presentes rezam por nós e oferecem nossas orações a Deus. O presente mais agradável que podemos oferecer à Santíssima Trindade é a Eucaristia. Cada Missa eleva nosso lugar no Céu, aumenta a nossa felicidade eterna. Cada vez que olhamos cheios de fé para o Pão Consagrado e o Cálice da Salvação, ganhamos uma recompensa no Céu. A Missa é a maior, mais completa e mais poderosa oração, a mais perfeita prática dada aos cristãos.

_______________
Fontes e bibliografia:
• HASTENTEUFEL, Zeno, Pe. O Catecismo ao Alcance de Todos: Uma Síntese do Catecismo da Igreja Católica. Porto Alegre: EdiPUC-RS, 2001.
• GIRAUDO, Cesare. Redescobrindo a Eucaristia, 4ª ed. São Paulo: Loyola, 2006.
• VEIGA, Alfredo, Pe. Cura pela Eucaristia. São Paulo: Loyola, 2006.
• BALAGUER, Mons. Josemaria Escrivá de. É Cristo que Passa. S. Paulo: Quadrante, 1975.
ofielcatolico.blogspot.com

Receba O Fiel Católico em seu e-mail