Um pecado esquecido na Confissão – e lembrado depois – está perdoado?


HÁ UMA DÚVIDA que, de tempos em tempos, sempre aparece entre fiéis católicos – às vezes até entre os mais experientes. – A pergunta é a seguinte: se alguém, ao se confessar, esquece de um pecado grave que cometeu, e se lembra dele somente após a confissão, este pecado foi mesmo assim perdoado e deve ser definitivamente esquecido? Ou este pecado não é perdoado por não ter sido confessado, e o fiel só receberá o perdão e só poderá novamente comungar quando confessá-lo?

Nenhuma das duas opções acima é verdadeira. De fato, o pecado verdadeiramente esquecido é perdoado, mas o fiel precisa confessá-lo na próxima confissão, que deverá então ser feita o mais breve possível.

A resposta está dada, mas interessa aprofundarmos um pouco a questão: devemos saber, por exemplo, que uma coisa é um pecado do qual honestamente e de toda boa vontade se esqueceu, e que, portanto, realmente não pôde ser confessado. Como se poderia confessar algo de que não se lembrou? Outra coisa é alguém, ao fazer bem e honestamente o seu exame de consciência, lembrar-se deste pecado, e depois, durante a confissão, ter-se esquecido de contá-lo ao sacerdote. Uma terceira situação, ainda, é confessar-se desleixadamente, sem a atenção, a seriedade e o zelo que são necessários para que este Sacramento seja válido.

Nos dois primeiros casos, se a pessoa estiver sinceramente arrependida daquele pecado, – de modo que não o cometeria novamente se a mesma ocasião surgisse e, caso tivesse se lembrado de contá-lo, assim o teria feito, – então é perdoado (para ser confessado na próxima confissão, como já dito).

Já o terceiro caso, do desleixo no exame de consciência, é completamente diferente. Antes de se confessar, é preciso que a pessoa examine com seriedade e sinceridade sua própria consciência, – sem preguiça, sem receios, sem se preocupar com a vergonha de se acusar de algum ato, omissão ou pensamento vexatório.

É natural que muita coisa escape, por exemplo, de alguém que não se confessa há um tempo prolongado e não anota seus pecados. Imaginemos alguém que tenha mais de dez pecados para contar: é bem possível que, diante do padre, acabe por esquecer algum destes. Assim, o ideal é que se faça uso de algum meio auxiliar para favorecer a memória: poderíamos dizer que, em certos casos, anotar os pecados num papel, mais do que uma boa dica, é praticamente imprescindível.

Evidentemente, ainda assim, é possível que um fiel, sem culpa, se esqueça de contar um pecado. Aqui, abro parênteses para compartilhar um testemunho pessoal: certa vez, apenas poucas horas após ter me confessado, lembrei-me de um pecado que considero grave, cometido já há um bom tempo, mas que nunca tinha confessado (exatamente por ter me esquecido dele quase que completamente). É uma sensação desagradável, mas não perdi minha paz de espírito: sabendo que deveria confessar este pecado em minha próxima confissão, anotei-o num papel e guardei-o em minha carteira, para não correr o risco de esquecê-lo novamente. Dito e feito: a cada vez que eu abria a carteira para pagar alguma coisa ou usar um documento de identificação, via lá o papelzinho acusador: poucos dias depois, pude confessar aquela falta antiga.

Concluindo as orientações a respeito desta questão específica, importa dizer que, quando o fiel for confessar seu(s) pecado(s) esquecido(s), deve acusar somente este(s), e não todos os outros já confessados. Os que já foram ditos não devem ser ditos novamente (a não ser, é claro, se foram cometidos de novo).

Ao final desta, reproduzimos os tópicos do Catecismo de São Pio X a respeito destas questões, que, em formato de perguntas e respostas, traz esclarecimentos precisos e bastante claros1.


As qualidades necessárias para a confissão válida

As qualidades principais que deve ter a acusação dos pecados são cinco: deve ser humilde, íntegra, sincera, prudente e breve. Destas, analisaremos agora a questão da prudência, já que as demais nos parecem razoavelmente fáceis de entender.

A confissão deve ser prudente. Isto significa que, ao confessar os pecados, devemos servir-nos dos termos mais modestos e diretos possíveis, e que devemos nos guardar de descobrir os pecados alheios. É claro que, dentro desta obrigação, detalhes irrelevantes devem ser omitidos, assim como certas minúcias cuja gravidade possa ser dita de outras formas, as mais genéricas possíveis, desde que não se deixe de confessar o principal, isto é, o que faz com que aquele ato, palavra, pensamento ou omissão seja pecado.

Neste sentido, talvez o melhor exemplo seja o da confissão dos pecados relacionados à imoralidade e impureza. Não é preciso esmiuçar todos os detalhes referentes ao ato sexual ilícito e/ou imoral. Bastaria dizer, por exemplo: "Pequei contra o 6° mandamento, com uma mulher solteira, ferindo a dignidade do ato sexual". Pronto, o padre já teria a medida da gravidade do ato, sem ter que se escandalizar com detalhes sórdidos.

A confissão verbal dos pecados deve ser praticada de modo a despertar no penitente o arrependimento e a consciência do mal cometido, bastando para isso o senso da medida e da natureza do ato pecaminoso. Querer se lembrar de todas as minúcias pode até afastá-lo da essência do mal cometido.

___________
1. O Catecismo de São Pio X, do n. 740 ao 792, trata do Sacramento da Confissão. Reproduzimos abaixo alguns trechos mais diretamente relacionados ao tema deste artigo:

749) Se uma pessoa não tiver a certeza de ter come tido um pecado, deve confessá-lo?
Se uma pessoa não tiver a certeza de ter cometido um pecado, não é obrigada a confessá-lo; se porém o quiser acusar, deverá acrescentar que não tem a certeza de o ter cometido

751) Quem deixou de confessar por esquecimento um pecado mortal, ou uma circunstância necessária, fez uma boa confissão?
Quem deixou de confessar por esquecimento um pecado mortal, ou uma circunstância necessária, fez uma boa confissão, contanto que tenha empregado a devida diligência no exame de consciência.

752) Se um pecado mortal esquecido na confissão volta depois à lembrança, somos obrigados a acusá-lo noutra confissão?
Se um pecado mortal esquecido na confissão volta depois à lembrança, somos obrigados,sem dúvida, a acusá-lo na primeira vez que de novo nos confessarmos.

753) Quem, por vergonha ou por outro motivo culpável, cala voluntariamente na confissão algum pecado mortal, que comete?
Quem, por vergonha, ou por qualquer outro motivo culpável, cala voluntariamente algum pecado mortal na confissão, profana o Sacramento e por isso torna-se réu de gravíssimo sacrilégio.

1460. Se o padre não dá a penitência no final da confissão, o que acontece? Como fica?
A penitência que o confessor impõe deve ter em conta a situação pessoal do penitente e procurar o seu bem espiritual. Deve corresponder, quanto possível, à gravidade e natureza dos pecados cometidos. Pode consistir na oração, num donativo, nas obras de misericórdia, no serviço do próximo, em privações voluntárias, sacrifícios e, sobretudo, na aceitação paciente da cruz que temos de levar. Tais penitências ajudam-nos a configurar-nos com Cristo, que, por Si só, expiou os nossos pecados uma vez por todas. Tais penitências fazem que nos tornemos co-herdeiros de Cristo Ressuscitado, «uma vez que também sofremos com Ele».

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Ref.:
Artigo 'Esquecimento na hora da confissão', do apostolado 'Tradição em foco com Roma', disp. em:
tradicaoemfococomroma.com/2013/09/esquecimento-na-hora-da-confissao.html
Acesso 8/8/015

11 comentários:

  1. Se eu creio em Jesus e não vou na igreja eu estou em comunhão com Cristo. Não sou católica nem crente sou de Jesus. A igreja católica aceita isso?

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    1. O que a Igreja ensina é isto:

      "Antes de mais, deve crer-se firmemente que a 'Igreja, peregrina na terra, é necessária para a salvação. Só Cristo é Mediador e caminho de salvação; ora, Ele torna-se-nos presente no seu Corpo que é a Igreja; e, ao inculcar por palavras explícitas a necessidade da fé e do batismo (cf. Mc 16,16; Jo 3,5), corroborou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo tal como por uma porta'. Esta doutrina não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus (cf. 1Tim 2,4); daí 'a necessidade de manter unidas estas duas verdades: a real possibilidade de salvação em Cristo para todos os homens, e a necessidade da Igreja para essa salvação'.
      A Igreja é 'sacramento universal de salvação', porque, sempre unida de modo misterioso e subordinada a Jesus Cristo Salvador, sua Cabeça, tem no plano de Deus uma relação imprescindível com a salvação de cada homem.Para aqueles que não são formal e visivelmente membros da Igreja, 'a salvação de Cristo torna-se acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa relação com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela, mas ilumina convenientemente a sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo'. Tem uma relação com a Igreja, que por sua vez 'tem a sua origem na missão do Filho e na missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai'.
      (Declaração Dominus Iesus nº 20)

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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  2. Não há dúvida que uma boa confissão tem um grande valor diante de Deus.

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  3. Aprendi amar o sacramento da confissão na Filosofia, porque a Filosofia é uma atividade de busca incessante pelo esclarecimento aonde mistérios, coisas que nunca podem ser inquiridas ou ditas são extremamente incômodas para o filosofante que está sempre na busca radical pela verdade.

    Visite meu blog, caro amigo http://joaoemilianoneto.blogspot.com.br

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  4. Eu esqueci de um pecado mortal,posso comungar?

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    1. O texto já responde à sua pergunta, Leandro:

      "o pecado verdadeiramente esquecido é perdoado, mas o fiel precisa confessá-lo na próxima confissão, que deve então ser feita o mais breve possível."

      Se está perdoado, mesmo tendo sido esquecido, então pode comungar, desde que exista a firme intenção de confessá-lo assim que possível. E "assim que possível", normalmente, não é daqui há um mês, certo?

      O Catecismo de S. Pio X, na nota de rodapé do post, é ainda mais claro:

      "751) Quem deixou de confessar por esquecimento um pecado mortal, ou uma circunstância necessária, fez uma boa confissão?
      Quem deixou de confessar por esquecimento um pecado mortal, ou uma circunstância necessária, fez uma boa confissão, contanto que tenha empregado a devida diligência no exame de consciência.

      752) Se um pecado mortal esquecido na confissão volta depois à lembrança, somos obrigados a acusá-lo noutra confissão?
      Se um pecado mortal esquecido na confissão volta depois à lembrança, somos obrigados,sem dúvida, a acusá-lo na primeira vez que de novo nos confessarmos."

      Lembrando que os pecados que precisamos confessar são exatamente os mortais, porque os veniais são perdoados na celebração da Santa Missa. Logo, todo pecado esquecido na confissão e que precisará ser confessado na próxima é mortal. Os pecados veniais podem ser confessados também, e é recomendável fazê-lo, especialmente para que não se tornem "pecados de estimação", do tipo que praticamos sempre porque nos acostumamos com eles e já não lhes damos importância.

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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    2. Muito bem explicado pelo Sr. Henrique caro Leandro...

      Contudo, estando nessa situação, confessaria-me desde já, ANTES de receber a Sagrada Comunhão. (opinião pessoal)

      Caso não tenha um bom exame de consciência para as próximas confissões, segue o link:

      http://www.santidade.net/folhetos.htm

      (EXAME DE CONSCIÊNCIA PARA ADULTOS)

      Eu costumo anotar os meus pecados, justamente para não esquecê-los, e não me envergonho nem um pouco disso, depois da confissão "molho" o papel para destruí-lo completamente e jogo no lixo.

      Conforme nos ensina Nossa Senhora:

      "Devemos nos aproximar do Confessionário com Confiança e Alegria".

      Portanto, estejamos sempre confiantes na Infinita Misericórdia do Senhor, que é maior que os nossos inúmeros pecados, desde que estejamos verdadeiramente arrependidos dos nossos pecados e tenhamos o firme propósito de emenda.

      Salve Maria Imaculada!

      A Paz de Cristo!

      André

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    3. Obrigado irmãos,tenho outra pergunta rsrsrsrs,quem não fala as vezes que cometeu o pecado porque não se lembra das vezes fez uma boa confissão

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  5. Comunguei sem confessar, mas na confissão esqueci de falar quantas vezes, e já comunguei novamente. Tenho que me confessar de novo ?

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    1. Amigo.

      Acredito que a quantidade de vezes que vc comungou sem a confissão não seja um detalhe que comprometa sua confissão.

      Comungando uma ou cinco vezes, o pecado é o mesmo e você se arrependeu, então não houve nada demais aí.

      Agora, se você acha que precisa voltar e falar sobre isso com o padre para acabar com seu sentimento de culpa, não há problema.

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  6. Uma vez feito sexo antes do casamento,não se pode mais comungar ? Mesmo tendo confessado e parado de fazer ?
    Desde já,obrigado

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