Quem eram os nicolaítas?


RECEBEMOS DE UM LEITOR cujo nome não estamos autorizados a divulgar a mensagem que reproduzimos abaixo, seguido de nossa reposta, que julgamos poderá ser do interesse de outros:

(Sobre a passagem de ) Apocalipse 2,6 (que menciona e condena os 'nicolaítas'), procurei resposta em alguns sites. Tentei encontrar respostas em alguns sites, mais porém nada tão confiavel... Mtos protestantes falam somente abobrinha!! E o seu blog eu leio as vezes q tenho algumas dúvidas e confio. Gostaria que vc me ajudasse a achar essa resposta!! Obrigado."

Trata-se de um tema difícil, porque a simples verdade é que não temos hoje fontes documentais confiáveis suficientemente claras para compreendermos bem o fenômeno nicolaíta. Falsos entendidos já tentaram se aproveitar dessa passagem obscura para forçar interpretações sem nenhum fundamento, invariavelmente com o fito de atacar a Igreja Católica (só para não variar). Pelo teor da sua mensagem, parece que você já conheceu alguns desses textos repletos de "abobrinhas", como diz. – Eu não diria melhor. – Vejamos o trecho em questão, antes de nos debruçarmos sobre ele na tentativa de compreender o seu significado (o trecho citado pelo consulente está destacado em negrito):

Ao anjo da igreja em Éfeso, escreve: Eis o que diz aquele que segura as sete estrelas na sua mão direita, aquele que anda pelo meio dos sete candelabros de ouro. Conheço tuas obras, teu trabalho e tua paciência: não podes suportar os maus, puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste mentirosos. Tens perseverança, sofreste pelo meu Nome e não desanimaste. Mas tenho contra ti que arrefeceste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste. Arrepende-te e retorna às tuas primeiras obras. Senão, virei a ti e removerei o teu candelabro do seu lugar, caso não te arrependas. Mas isto tens de bem: detestas as obras dos nicolaítas, como eu as detesto. Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor darei de comer (do fruto) da Árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus."
(Ap 2,1-7)

Na Mensagem ao anjo da igreja em Éfeso, o Senhor, entre outras advertências e exortações, destaca como positivo o fato de que essa comunidade detesta as práticas dos nicolaítas (2,6), assim como também Ele próprio as detesta. É diferente no caso da igreja em Pérgamo, recriminada por tolerar os que se prendem à doutrina de Balaão, que incitava o povo a comer alimentos sacrificados aos ídolos e à prostituição/imoralidades sexuais, além de (mais uma vez) tolerar os sequazes da doutrina dos nicolaítas (Ap 2,14-15).

Quem eram os nicolaítas? A palavra deriva da junção dos termos nikh (= triunfo; vitória,  com sentido de dominação sobre) e laos (= povo; gente; multidão, que aqui aludiria aos filhos de Israel ou aos cristãos); ou laikos (= leigo, com sentido de povo em geral conforme o grego moderno – a partir do séc. IV). Assim, o título nicolaítas, composto destas duas palavras, tem sentido de "dominadores do povo". Segundo Richard, autor protestante, “provavelmente os nicolaítas eram cristãos ricos que participavam ativamente das estruturas econômicas, sociais, culturais e, necessariamente, religiosas da cidade; buscavam, pois uma doutrina que compatibilizasse o cristianismo com tal integração.” 1

Já Hemer, outro autor protestante, diz que:

Os nicolaítas eram um movimento antinomista cujos antecedentes remontam à interpretação equivocada da liberdade paulina e cuja incidência talvez esteja ligada às pressões específicas do culto ao imperador e a sociedade pagã. É possível que o importante  símile feito com a figura de Balaão indique uma relação com movimentos semelhantes enfrentados pela Igreja em outros lugares. Na ausência de dados concretos, contudo, a natureza dessa relação não passa de especulação. Pode ser que houvesse um elemento gnóstico no ensino nicolaíta, mas, em nossos textos primários, trata-se de um erro prático, não de gnosticismo propriamente dito."2

Fizemos questão, até aqui, de publicar o testemunho de autores protestantes reconhecidos, para que fique bem claro que qualquer suposta "explicação" da parte de certos "pastores" e/ou blogs/websites ditas "evangélicos" é forçada e totalmente desprovida de base. O que podemos auferir da esparsa documentação histórica existente é que os nicolaítas praticavam sexo ilícito e eram imorais, além de adotarem práticas pagãs, e que talvez procurassem secularizar a Igreja, propondo uma doutrina que compatibilizasse a Igreja e o mundo, já que comporiam uma casta de cristãos ricos apegados aos bens materiais.

Basicamente é isso. Os exegetas reconhecem que hoje não dispomos de meios para conhecer em detalhes quais seriam exatamente os erros dos nicolaítas condenados no Livro do Apocalipse. Finalizamos com a explicação muito honesta o do abalizado Prof. Luiz da Rosa3, publicada no portal "A Bíblia.Org":

O contexto no qual as passagens sobre os nicolaítas aparecem é aquele da comunidade de Éfeso e de Pérgamo, duas das 7 igrejas às quais é escrita uma carta em Apocalipse. Trata-se, portanto, de uma doutrina/heresia presente em Éfeso e Pérgamo, por volta do ano 90 depois de Cristo. Contudo, hoje não conhecemos mais as características de tal heresia e podemos falar apenas baseados em poucos dados concretos.

Quanto ao fundador, por exemplo, Irineu (140-200 dC) diz que quem fundou tal heresia foi o diácono Nicolau (um dos 7 escolhidos em Atos dos Apóstolos 6). Eusébio de Cesareia, um século mais tarde, invés, contesta tal afirmação.

Quanto às suas práticas, a partir do Apocalipse não conseguimos detectar claramente quais eram as ações específicas. A maioria dos estudiosos fala em tentativa de introduzir na práxis cristã elementos do paganismo. Quais eram esses elementos, porém, não sabemos. Alguns ligam o movimento à práticas sexuais errôneas, mas creio que isso acontece por influência da história da Idade Média. De ato, naquele período, os religiosos que não observavam o celibato eram chamados de 'nicolaítas'. Contudo, a Idade Média e o início do cristianismo são duas realidades distantes uma da outra."

______________
1. RICHARD, Pablo. Apocalipsis, reconstrución de la esperanza. Quito: C. B. Verbo Divino, 1999, p.80.
2. HEMER, Colin, J. Letters to the Seven Churches of Asia In their Local Setting
Sheffield: Sheffield Academic Press, 1989.
3. Luiz da Rosa é bacharel em Filosofia pelo Instituto Filosófico Franciscano de Curitiba; cursou 4 anos de Teologia em Jerusalém pelo Instituto Teológico Ierosolumitano e é Mestre em Ciências Bíblicas no Pontífico Instituto Bíblico de Roma, além de Mestre em Comunicação Institucional Religiosa pela Faculdade Blanquerna de Barcelona, Espanha. Foi Professor de Sagrada Escritura no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (1995 e 2001) e de Tecnologias da Comunicação em Âmbito Religioso (2009 a 2011) na Pontifícia Universidade Antonianum, em Roma.
www.ofielcatolico.com.br

2 comentários:

  1. Porque não é mencionado o significado do nome nicolaitas?

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    1. Muito obrigado pela sua mensagem, Crajo. O nosso texto já explica o significado do nome.

      A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo

      Apostolado Fiel Católico

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