Você tem um projeto pessoal de vida?

Prof. Dr. Joel Gracioso
especialmente para 'O Fiel Católico'




EM TODO FINAL e início de ano, geralmente, sonhamos e prometemos muitas coisas. Ora, por que não aproveitar este entusiasmo inicial para de fato pensar um Projeto pessoal de vida?

Muitas pessoas constantemente não se sentem realizadas e não conseguem ver sentido algum naquilo que fazem. Trabalham, estudam, namoram, ajudam na igreja,mas no fundo fazem tudo isso de maneira automática e irrefletida. Infelizmente, muitas vezes, só paramos para pensar sobre o sentido da vida quando algum problema grave acontece conosco, como a morte de um ente querido, perda do emprego, um pecado grave, etc. Mas não precisa ser assim.

Na vida precisamos ter metas e saber fazer escolhas. Muitas vezes vamos vivendo sem rumo e objetivos claros. Isso colabora profundamente para nos sentirmos vazios, angustiados e desorientados.

É possível e devemos ter um Projeto pessoal de vida se quisermos cumprir a missão que Deus nos deu. Muitos desanimam e desistem no meio de suas caminhadas porque são indisciplinados e desorganizados. Não programam seu ano, mês ou semana. Têm, muitas vezes, uma Teologia da Graça e da Providência equivocada, achando que a Graça de Deus substitui a natureza, enquanto a Tradição cristã vem nos ensinar que a Graça pressupõe a natureza.

Deus nos deu duas coisas fundamentais: a inteligência e a vontade; a primeira para conhecermos a verdade e a segunda para querermos o bem. Para isso precisamos que a Graça de Deus toque essas duas faculdades da alma, – mas também é necessário que colaboremos com a Graça, educando-as. – Ou seja, com certeza Deus cuida dos seus filhos e os auxilia, porém isso não significa que nós não somos responsáveis por nada.

Para que você tenha um Projeto de vida é importante buscar, em primeiro lugar, o autoconhecimento, interrogando-se a si mesmo: quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Quais minhas competências e talentos? Quais meus pontos fortes e fracos? Qual minha opção fundamental? Quais escolhas estou fazendo de fato no dia a dia? O que fazer com minhas frustrações e fracassos? Qual é minha vocação?

A partir deste autoconhecimento primordial vamos formando uma imagem mais clara de nós mesmos e de nossa história, e enxergando com maior clareza, também, em que podemos colaborar na construção do Reino de Deus e qual o sentido real da nossa vida.

Enfim, percebemos que muitas coisas acontecem em nossas vidas pelas escolhas certas ou erradas que fazemos, e outras ocorrem independente das nossas escolhas. Entretanto, mesmo em relação àquelas coisas que ocorreram sem nosso desejo ou planejamento, somos livres, pois podemos nos posicionar perante elas.

Talvez o segredo para descobrir o sentido da vida e cumprir a missão que Deus nos deu seja: abrir-se à Graça de Deus e planejar a própria vida a partir de um autoconhecimento equilibrado; saber lidar com nossos fracassos e frustrações; ter claro, como um filósofo uma vez afirmou, que o importante não é o que fizeram conosco, mas sim o que fazemos com o que fizeram conosco.
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A busca da data histórica do Nascimento de Cristo: 25 de dezembro é uma possibilidade factual


O TEMPO LITÚRGICO do Natal vai da véspera do próprio Natal de Nosso Senhor até o primeiro domingo depois da Festa da Epifania, em 6 de Janeiro, quando se comemora o Batismo de Jesus.

"Epifania" é a manifestação de Jesus como o Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. A esse respeito, diz o seguinte o Catecismo da Igreja Católica:

A Epifania é a manifestação de Jesus como Messias Israel, Filho de Deus e Salvador do mundo. Com o Batismo de Jesus no Jordão e com as bodas de Caná, ela celebra a
adoração de Jesus pelos 'magos' vindos do Oriente. Nesses 'magos', representantes das
religiões pagãs circunvizinhas, o Evangelho vê as primícias d(e todas) as nações que acolhem a Boa Nova da salvação pela Encarnação. A vinda dos 'magos' a Jerusalém para 'adorar ao Rei dos Judeus' mostra que eles procuram, em Israel, à Luz messiânica da estrela de Davi, aqu'Ele que será o Rei das nações. Sua vinda significa que os pagãos podem descobrir Jesus e adorá-lo como Filho de Deus e Salvador do mundo (...).
(CIC §528)

Antes de tudo, no estudo sério do assunto que dá título a este artigo, precisamos reconhecer que não existe certeza quanto à data historicamente precisa do Nascimento de Jesus Cristo. Os evangelistas não a mencionam. S. Lucas informa que pastores estavam em vigília noturna, guardando o rebanho nos campos, atividades mais comuns na primavera e verão do Hemisfério Norte, mas de modo algum totalmente ausentes no outono/inverno. Bispos dos primeiros séculos fizeram numerosas especulações: alguns aderiram ao 25 e/ou 28 de março; outros, ao 19 de abril ou ao 20 de maio.

No mundo pagão do século III, o culto de Mitra, também chamado de “Sol Invencível”, adquiriu grande importância no mundo romano. O Império promovia, todo dia 25 de dezembro, grandes festas e jogos em homenagem ao dies natalis (dia do nascimento) desse deus. No século seguinte, para conter o paganismo e instaurar a celebração do Nascimento de Cristo, Luz dos homens e verdadeiro Sol que traz a Luz ao mundo, teria a Igreja situado definitivamente a celebração do Nascimento do Filho de Deus no lugar da festa pagã. Ou seja, tratar-se-ia de uma decisão mais religiosa e evangelizadora do que de uma fixação científica da data do Evento histórico. – Saiba mais sobre o assunto neste estudo.

O próprio ano do Nascimento de Jesus é também motivo de debates. Mateus diz que Jesus nasceu no reinado de Herodes, o Grande, que morreu no ano 4 a.C. – Cristo, evidentemente, não poderia ter nascido antes de Cristo. – Ocorre que, no século VI de nossa era, o monge Dionísio Exíguo foi incumbido de empreender cálculos para determinar o início da Era Cristã, e a fixou em 754 após a fundação de Roma. Ele reconhecidamente se equivocou. Além disso, não lhe ocorreu a necessidade de fixar um ano zero entre -1 a.C e + 1 d.C.



Até aqui, preparamos um singelo "pano de fundo" para a introdução do tema, sem apresentar novidade alguma. A novidade, – que já não é tão nova assim, pois se baseia numa descoberta que já completou mais que uma década, – é a contestação daquilo que há tempos vinha sendo pacificamente aceito como realidade pela maioria dos historiadores e pesquisadores mais reconhecidos: a afirmação de que a data de celebração do Natal havia sido essa escolha arbitrária (descrita acima), baseada em motivações desvinculadas da preocupação com a precisão histórica e sem ligação com a data real do Nascimento de Jesus, a qual, por fim, ninguém teria condições de poder determinar.

Se começamos dizendo que, no estudo sério deste tema, é preciso reconhecer que não existe certeza quanto à data historicamente correta do Nascimento de Jesus Cristo, igualmente é preciso saber e reconhecer que existe a possibilidade de essa maioria de especialistas ter se enganado, ao menos até recentemente.

O fato histórico concreto é que hoje, – graças em boa parte aos documentos de Qumran1, – estamos em condições de repensar a questão com precisão inédita: Jesus pode, sim, ter nascido mesmo no dia 25 de dezembro. Uma descoberta extraordinária, que não recebeu ainda a devida atenção por parte da mídia em geral, e mesmo entre os grandes autores. Ainda assim, estamos falando de uma proposição historicamente séria e que não pode ser alvo de suspeitas de fins apologéticos católicos, dado que a devemos primeiramente a um docente judeu, da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Antes de entrarmos nas explicações que levaram a esta fascinante descoberta, cabe salientar que, ainda que até o século III não tenhamos documentação mais concreta quanto a data do Nascimento de Cristo, e os primeiros testemunhos dos Padres e autores eclesiásticos assinalem datas diversas, o primeiro testemunho de que o Natal do Senhor tenha ocorrido a 25 de dezembro parte de Sexto Júlio Africano, e provém do ano 221. Além disto, referência direta à mesma data é a do calendário litúrgico filocaliano, do ano 354, que atesta: VII kal. Ian. natus Christus in Betleem Iudeae ('a 25 de dazembro nasceu Cristo em Belém da Judeia'). Então, a partir do século IV, os testemunhos desta data com a do Nascimento do Senhor são comuns na tradição ocidental, enquanto que na tradição oriental prevalece o 6 de janeiro.

Outra explicação plausível faz depender a a data do Nascimento de Jesus e a data de sua Encarnação (Concepção), que por sua vez se relacionava com a data de sua Morte. Num tratado anônimo sobre solstícios e equinócios afirma-se que "Nosso Senhor foi concebido às 8 das kalendas de abril do mês de março (25 de março), que é o dia da Paixão do Senhor e o da sua Concepção, pois foi concebido no mesmo dia em que morreu"2. Teria então nascido aos 25 de dezembro. Na tradição oriental, apoiando-se em outros calendários, a Paixão e a Encarnação do Senhor celebram-se a 6 de abril, data que coincide com a celebração do Nascimento aos 6 de janeiro.

A relação entre Paixão e Encarnação é uma ideia que está em consonância com a mentalidade antiga e medieval, que admirava a perfeição do Universo como um todo, onde as grandes intervenções de Deus estavam vinculadas entre si. Trata-se de uma concepção que também encontra as suas raízes no judaísmo, onde criação e salvação se relacionavam com o mês de nisan. A arte cristã refletiu abundantemente esta mesma ideia ao longo da História, por exemplo, ao retratar, na Anunciação à Virgem, assim como em diversos outros ícones que retratam a divina Infância, o Menino Jesus descendo do Céu com a cruz. Assim, mais do que possível, é provável que os cristãos vinculassem a Redenção operada por Cristo com a sua Concepção, e esta determinasse a data do Nascimento. Como disse Joseph Ratzinger, o agora Papa emérito Bento XVI: "O mais decisivo foi a relação existente entre a Criação e a Cruz, entre a Criação e a Concepção de Cristo"3.

Vemos, então, que a explicação da cristianização da data de 25 de dezembro, visando a conversão dos pagãos, – conforme nós mesmos divulgamos por aqui, – não é uma certeza acadêmico-histórica, mas apenas a versão mais difundida e aceita. Retomando a partir daqui a proposição da data do Nascimento do Senhor como sendo historicamente o 25 de dezembro, apresentamos a sua explanação, talvez algo complexa, mas fascinante.

Se Jesus nasceu aos 25 de dezembro, então, como é óbvio, sua Concepção ocorreu 9 meses antes. Com efeito, os calendários cristãos datam a Anunciação de S. Gabriel Arcanjo a Maria Santíssima em 25 de março. Sabemos, pelo Evangelho de S. Lucas que, precisamente seis meses antes, João, o Precursor, que será chamado o Batista, tinha sido concebido por Isabel. A Igreja Católica não tem uma Festa litúrgica para esta concepção, mas a Igreja do Oriente celebra-a solenemente, entre os dias 23 e 25 de setembro; seis meses antes da Anunciação a Maria.

Estaríamos diante de uma sucessão de datas lógica e plausível, mas baseada em tradições não verificáveis, e não em acontecimentos localizáveis no tempo? Era nisso que se acreditava quase que unanimemente, até há pouco tempo. A realidade, porém, pode ser outra.

Para entender o que se propõe, devemos partir da concepção do Batista: o Evangelho segundo S. Lucas se abre com a história do velho casal, – Zacarias e Isabel, – já resignado à esterilidade, que era considerada uma das piores desgraças em Israel daquele tempo. Zacarias pertencia à casta sacerdotal e, um dia, quando estava de serviço no Templo de Jerusalém, teve a visão de S. Gabriel (o mesmo anjo que aparecerá seis meses mais tarde a Maria, em Nazaré), o qual lhe anunciou que, não obstante a idade avançada, ele e a mulher teriam um filho. Deveriam lhe dar o nome João, e ele seria grande "diante do Senhor".

Atenção: Lucas teve o cuidado de precisar que Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias e, que à ocasião da aparição "desempenhava as funções sacerdotais no turno da sua classe" (Lc 1,8). Com efeito, no antigo Israel, os que pertenciam à casta sacerdotal estavam divididos em 24 classes, as quais, alternando-se segundo uma ordem fixa e imutável, deviam prestar o serviço litúrgico no Templo, por uma semana, duas vezes por ano.

Prof. Shemarjahu Talmon
(1920-2010)
Já se sabia que a classe de Zacarias (a de Abias) era a oitava no elenco oficial; mas não se sabia quando é que ocorriam esses seus turnos de serviço. Ocorre que este enigma foi desvendado pelo professor Shemarjahu Talmon, docente na Universidade Hebraica de Jerusalém, utilizando investigações desenvolvidas também por outros especialistas e trabalhando, sobretudo, com textos encontrados na biblioteca essênia de Qumran. O estudioso, assim, conseguiu precisar em que ordem cronológica se sucediam as 24 classes sacerdotais. A de Abias prestava serviço litúrgico no Templo duas vezes por ano, tal como as outras, e uma destas vezes era na última semana de setembro. Portanto, era verosímil a tradição dos cristãos orientais que põe entre os dias 23 e 25 de setembro a data do anúncio a Zacarias. Verosimilhança esta que aproximou-se da certeza, porque os estudiosos, estimulados pela descoberta do Prof. Talmon, reconstruíram a “fileira” daquela tradição, chegando à conclusão de que esta provinha diretamente da Igreja primitiva, judaico-cristã, de Jerusalém. Esta memória das Igrejas do Oriente é tão firme quanto antiga, tal como se confirma em muitos outros casos.

Vemos, assim, como aquilo que parecia mítico tem fundamento na realidade histórica; uma cadeia de acontecimentos que se estende ao longo de 15 meses: em setembro, o anúncio a Zacarias, e no dia seguinte a concepção de João; seis meses depois, em março, o Anúncio a Maria; três meses depois, em junho, o nascimento de João; seis meses depois, o Nascimento de Jesus. Com este último acontecimento, chegamos precisamente ao dia 25 de dezembro; uma data que neste caso não foi, de modo algum, fixado ao acaso ou com objetivos secundários.

Depois de tantos séculos de investigação, eis que os Evangelhos, – que nunca cessam de nos surpreender e nos fornecer informações novas, – revelam, em detalhes aparentemente inúteis (o que é que importava se Zacarias pertencia à classe sacerdotal de Abias ou não? Nenhum exegeta prestava atenção a isto) a sua razão de ser, a sua realidade enquanto sinais de verdades precisas, às vezes explícitas, às vezes ocultas.

É, portanto, no mínimo uma possibilidade concreta e real que o Natal de Nosso Senhor tenha realmente ocorrido, como fato histórico e cientificamente demonstrável, no dia 25 de dezembro.

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Notas:
1. Os manuscritos de Qumran foram descobertos em 1947, perto das margens do Mar Morto, na localidade de Qumran, localidade onde a seita hebraica dos essênios tinha sua sede principal no tempo de Jesus. Os manuscritos foram encontrados em ânforas, provavelmente escondidos pelos monges da seita, quando tiveram que fugir dos romanos, provavelmente entre 66 e 70 d. C. Estes pergaminhos nos deram os textos de quase todos os livros da Bíblia copiados num período entre dois e um século antes de Cristo, e perfeitamente coincidentes com os que são usados hoje por judeus e cristãos (cf. MESSORI, Vittorio, Hipóteses sobre Jesus, Porto: Ed. Salesianas, 1987, p. 101).
2. Cf. BOTTE, B. Les Origenes de la Noël et de l'Epiphanie, Louvain: Bélgica, 1932, pp. 230-233.
3. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Espírito da Liturgia, São Paulo: Loyola, 2000, p. 131.
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Fontes:
• VARO, Francisco et al. 54 perguntas sobre Jesus Cristo. • São Paulo: Gabinete de Informação do Opus Dei, 2015.
• Corriere della Sera, 9 de Julho de 2003, com o apostolado Veritatis Splendor, disp. em:
veritatis.com.br/doutrina/deus/970-jesus-nasceu-mesmo-num-dia-25-de-dezembro
• SALLES, Catherine. Revista 'História Viva' virtual, ed. Duetto disp em:
www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/jesus_nasceu_em_dezembro.html
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O Nascimento de Jesus em Belém – conclusão

Na mesma região havia uns pastores que estavam nos campos e que durante as vigílias da noite montavam guarda a seu rebanho. O Anjo do Senhor apareceu-lhes e a Glória do Senhor envolveu-os de luz"
(Lc 2,8-9)


** Ler a primeira parte deste estudo

** Ler a segunda parte deste estudo

AS PRIMEIRAS TESTEMUNHAS do grande Acontecimento são pastores que estão em vigília. Muito se refletiu sobre o significado que possa ter o fato de os primeiros a receber a Mensagem terem sido precisamente pastores. Parece-me que não seja necessária demasiada perspicácia para superar tal questão: Jesus nasceu fora da cidade, num ambiente circundado por todos os lados de pastagens, para onde os pastores traziam seus rebanhos. Por isso, era normal que os primeiros chamados para ver o Menino na manjedoura fossem os pastores que estavam mais perto do Acontecimento.

Naturalmente, pode-se desenvolver reflexões diversas a respeito: talvez os pastores vivessem não só externamente, mas também interiormente, mais perto do Acontecimento do que os habitantes da cidade, que dormiam tranquilos. Também intimamente não estavam longe daquele Deus que se fez Menino. Coincide com isso o fato de pertencerem aos pobres, às almas simples, pelas quais Jesus havia de bendizer o Pai, porque é sobretudo a elas que está reservado o acesso ao Mistério de Deus (cf. Lc 10,21-22). Os pastores representam os pobres de Israel, os pobres em geral: os destinatários privilegiados do Amor de Deus.

Um novo realce foi aduzido mais tarde, principalmente pela tradição monástica: os monges eram pessoas que velavam. Queriam permanecer acordados neste mundo, o que pode ser visto como analogia à necessidade que todo cristão tem de estar interiormente vigilante, ser sensível à chamada de Deus através dos sinais de sua Presença.



Pode-se pensar na narrativa da escolha de Davi como rei. Deus rejeitara Saul; Samuel foi enviado a Belém para ter com José, para ungir como rei um de seus filhos que o SENHOR lhe havia de indicar. Dois filhos que se apresentam diante dele; nenhum é o escolhido. Falta ainda o mais novo, mas está apascentando o rebanho, explica Jessé ao profeta. Samuel manda-o chamar da pastagem e, por indicação de Deus, unge o jovem Davi "na presença dos seus irmãos" (cf. 1Sm 16,1-13). Davi vem do meio das ovelhas que apascenta, e é constituído pastor de Israel (cf. 2Sm 5,2). O profeta Miqueias fixa o olhar num futuro distante e anuncia que de Belém sairia aqu'Ele que haveria de apascentar um dia o povo de Israel (cf.Mq 5,1-2; Mt 2,6). Jesus nasceu entre os pastores; Ele é o grande Pastor dos homens (cf. 1Pd 2,25; Hb 13,20).

Voltemos ao texto da narração do Natal. O Anjo do Senhor aparece aos pastores e a Glória do SENHOR envolve-os de Luz. "E ficaram tomados de grande temor" (Lc 2,9). Mas o Anjo dissipa o medo neles e anuncia-lhes "uma grande alegria, que será para todo o povo: nasceu-vos hoje um Salvador, que é o Cristo-Senhor, na cidade de Davi" (Lc 2,10-11). Como sinal, é-lhes dito que haviam de encontrar um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura.

"De repente, juntou-se ao Anjo uma multidão do Exército Celeste, a louvar a Deus e dizendo: 'Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens que Ele ama' (Lc 1,12-14). O evangelista afirma que os anjos "dizem", isto é falam. Mas, desde o início, para os cristãos era claro que esse falar dos anjos é um cântico, no qual todo o esplendor da grande Alegria por eles anunciada se torna sensivelmente presente. E assim, a partir daquele momento, nunca mais cessou o cântico de louvor dos anjos; continua, através dos séculos, com formas sempre novas e, na celebração do Natal de Jesus, ressoa sempre de novo. Bem compreensível é que o povo simples dos crentes tenha depois ouvido cantar também os pastores e, na Noite Santa, se junte às suas melodias, desde então até o fim dos tempos, exprimindo a todos com o canto da grande Alegria.

Mas, segundo a narração de S. Lucas, o que é que cantaram os anjos? Eles unem a Glória de Deus nas alturas com a paz dos homens na Terra. A Igreja retomou essas palavras e, com elas, compôs um hino inteiro. Nos detalhes, porém, é controversa a tradução das palavras do Anjo.

O texto em latim, que nos é familiar, até há pouco era traduzido assim: "Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa vontade"; mas essa tradução é rejeitada pelos exegetas modernos, – e com boas razões, – enquanto unilateralmente moralizante. A Glória de Deus não é algo que os homens possam produzir. A Glória de Deus existe; Deus é glorioso e isto é verdadeiramente um motivo de alegria: existe a verdade, existe o bem, existe a beleza. Estas realidades existem, – em Deus, – de forma indestrutível.

Mais relevante é a diferença na tradução da segunda parte das palavras do Anjo. Aquilo que há pouco tempo era traduzido por "homens de boa vontade", exprime-se agora, na tradução da Conferência Episcopal Alemã, pelas palavras "Menschen seiner Gnade", – "homens da sua Graça". – Na tradução da Conferência Episcopal Italiana, fala-se de "homens que Ele ama". Isto, porém, leva-nos a pôr a questão: Quais são os homens da Graça de Deus? Quais são os que Deus ama? Para a compreensão deste problema, encontramos ajuda no Novo Testamento: na narração do Batismo de Jesus, Lucas conta que, enquanto o Senhor estava em oração, o céu se abriu e veio uma Voz que dizia: "Tu és o meu Filho amado; em Ti pus todo o meu agrado" (Lc 3,22). O homem do agrado de Deus é Jesus , porque vive totalmente voltado para o Pai; vive com os olhos fixos n'Ele e em Comunhão de vontade com Ele. Portanto, as pessoas do agrado de Deus são aquelas que têm o comportamento do Filho; são as pessoas configuradas com Cristo.

Por trás das diferença entre as traduções está, em última análise, a questão sobre a relação entre a Graça de Deus e a liberdade humana. Aqui são possíveis duas posições extremas: num extremo temos a ideia da exclusividade absoluta da ação de Deus, de modo que tudo depende da sua predestinação. No outro extremo, entretanto, aparece uma posição moralizante, segundo a qual, no final das contas, tudo é decidido por meio da boa vontade do homem. A tradução anterior, que falava dos homens "de boa vontade", podia ser mal interpretada.

Todo o testemunho das Sagradas Escrituras não deixa nenhuma dúvida sobre o fato de que nem uma nem outra dessas posições extremas é correta. Graça e liberdade compenetram-se mutuamente, e não podemos encontrar fórmulas claras para exprimir o seu operar uma na outra. A verdade é que não poderíamos amar se primeiro não fôssemos amados por Deus; a Graça de Deus sempre nos precede, abraça e sustenta. Mas é verdade também que o homem é chamado a tomar parte nesse Amor; ele não é um simples instrumento, sem vontade própria, da onipotência de Deus; pode amar em comunhão com o Amor de Deus, como pode também recusar esse Amor. Parece que a tradução literal "do agrado", – seja a que melhor respeita esse mistério, sem o dissolver unilateralmente.

Outro aspecto da mensagem do Anjo: nesta aparecem as categorias de fundo que caracterizam a visão do mundo e a compreensão de si mesmo que tinha o imperador Augusto: sõter (salvador), paz, ecumene, – aqui naturalmente alargadas para além do mediterrâneo e referidas ao Céu e à Terra, – como também a palavra sobre a Boa Nova (Evangélion). Esses paralelismos certamente não são casuais; Lucas quer nos dizer o seguinte: aquilo que o imperador Augusto pretendeu para si realiza-se de modo mais sublime no Menino que nasceu indefeso e sem poder na gruta de Belém e cujos hóspedes foram pobres pastores. A Paz de Jesus é uma Paz que o mundo não pode dar (cf Jo 14,27). Em última análise, a questão aqui é saber o que se entende por redenção, libertação e salvação. Valores temporais e mundanos, que se aplicam unicamente à efêmera existência terrestre? Ou valores inestimáveis por se aplicarem à vida eterna em Deus? Uma coisa é óbvia: Augusto pertence ao passado, enquanto Jesus Cristo é o presente, que consuma e sublima o passado, e o futuro: "é o mesmo ontem, hoje e eternamente" (Hb 13,8).



"Quando os anjos os deixaram (...), os pastores disseram entre si: 'Vamos já a Belém e vejamos o que aconteceu, o que o SENHOR nos deu a conhecer!'. Foram então às pressas e encontraram Maria, José e o Recém-Nascido deitado na manjedoura" (Lc 2,15-16). Os pastores foram apressadamente. De forma análoga, o evangelista narrara que Maria, depois da alusão do Anjo à gravidez de sua parenta Isabel, dirigiu-se "apressadamente" para a cidade de Judá, onde viviam Zacarias e Isabel (cf. Lc 1,39). Os pastores foram apressadamente, com certeza movidos pela curiosidade humana, ou seja, para ver o Prodígio que lhes fora anunciado, mas seguramente sentiam-se também cheios de ardor devido à alegria gerada neles pelo fato de agora ter nascido verdadeiramente o Salvador, o Messias, o Senhor, de quem tudo estava à espera, e eles seriam os primeiros a poderem vê-lo. 

Quantos cristãos se apressam hoje, quando se trata das coisas de Deus? E, no entanto, se há algo que mereça pressa, – talvez o evangelista nos queira dizer tacitamente isto mesmo, – são precisamente as coisas de Deus!

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Fonte:
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus, 3ª ed. São Paulo: Planeta, 2013 pp. 63-69

O Nascimento de Jesus em Belém – parte 2

Enfaixado numa manjedoura, o Portador da Salvação de toda a humanidade



Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias par o parto, e ela deu à luz o seu Filho primogênito, envolveu-o com faixas e reclinou-o numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na sala (Lc 2,6-7).

INICIAMOS ESTE SEGUNDO estudo (leia a primeira parte) a partir das últimas palavras desta frase: “por não haver lugar para eles na sala”. A meditação, na fé, dessas palavras, encontrou  nessa afirmação um paralelismo íntimo com as palavras, cheias de profundo conteúdo, que temos no Prólogo do Evangelho segundo S. João: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (1,11). Para o Salvador do mundo, aqu'Ele para quem todas as coisas forma criadas (cf. Cl 1,16), não há lugar. “As raposas têm tocas e as aves do céu tem seus ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20). Aqu'Ele que foi crucificado fora das portas da cidade (cf. Hb 13,12) também nasceu fora das portas da cidade.

Tudo isso nos deve fazer pensar, nos deve recordar a inversão de valores que se verifica na figura de Jesus Cristo, na sua Mensagem. Desde o seu Nascimento, Jesus não pertence àqueles ambientes que, aos olhos do mundo, são importantes: contudo é precisamente este homem irrelevante e sem poder que se revela como o verdadeiramente Poderoso, como aqu'Ele de quem, no final das contas, tudo depende. Por conseguinte, faz parte do tornar-se cristão este sair do âmbito daquilo que todos pensam e querem, sair dos critérios predominantes, para entrar na Luz da Verdade sobre o nosso ser e, com essa Luz, alcançar o Caminho de nossa redenção e salvação.

Maria pôs o Menino recém-nascido numa manjedoura (cf. Lc 2,7). Daqui, com razão, se decidiu que Jesus nasceu num estábulo, num ambiente pouco confortável; vem-nos mesmo então a tentação de dizê-lo, um ambiente indigno, – que todavia, proporcionava a discrição necessária para o Acontecimento sagrado mais importante de todos os tempos. 

Desde sempre, na região ao redor de Belém, usaram-se as grutas como estábulo (cf. Stuhmacher, Die Geburt des Immanuel, p.51). Já no mártir Justino (†165) e em Orígenes (†254 aprox.) se encontra a tradição segundo a qual o lugar do Nascimento de Jesus teria sido uma gruta, que os cristãos na Palestina indicavam. O fato de Roma, – depois da expulsão dos judeus da Terra Santa no segundo século, – ter transformado a gruta num lugar de culto a Tammuz-Adonis, pretendendo desse modo, evidentemente, suprimir a memória cultual dos cristãos, confirma a antiguidade de tal lugar de culto, e mostra também a importância com que era avaliado pelos romanos; muitas vezes as tradições locais são uma fonte mais atendível que as informações escritas. Pode-se, portanto, reconhecer uma medida notável de credibilidade na tradição local de Belém, à qual está ligada a própria Basílica da Natividade.

Maria envolveu o Menino com faixas. Sentimentalismos à parte, podemos imaginar o amor com que Maria aguardara a sua hora e como terá preparado o Nascimento de seu tão amado e esperado Filho. A tradição dos ícones, com base na Teologia dos Padres, interpretou teologicamente também a manjedoura e as faixas: o Menino rigorosamente envolvido com faixas aparece como uma alusão antecipada à hora de sua morte: Jesus é, desde o início, o Imolado. Por isso, a manjedoura era representada como uma espécie de Altar.

Agostinho interpretou o significado da manjedoura com um pensamento que pode, à primeira vista, parecer quase inconveniente, mas, se examinado mais atentamente, encerra uma verdade profunda. A manjedoura é o lugar onde os animais encontram seu alimento. Agora, porém, jaz na manjedoura aqu'Ele que havia de apresentar-se a Si mesmo como o verdadeiro Pão descido dos Céus, como verdadeiro Alimento de que o homem necessita. É o Alimento que dá ao homem a Vida verdadeira: a Vida eterna. Dessa forma, a manjedoura torna-se uma alusão à Mesa de Deus, para a qual é convidado o homem a fim de receber o Pão de Deus. Na pobreza do Nascimento de Jesus, delineia-se a grande realidade, em que, misteriosamente, se realiza a Redenção dos homens.


A Natividade por Giotto (séc. IV)

Como se disse, a manjedoura faz pensar nos animais que encontram nela o seu alimento. Aqui, no Evangelho, não se fala de animais; mas a meditação guiada pela fé, lendo o Antigo e o Novo Testamento correlacionados, não tardou a preencher esta lacuna, reportando-se a Isaías (1,3): “O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer. O meu povo não pode entender”.

Peter Stuhlmacher observa que provavelmente teve influência também a versão grega (dos Setenta, ‘LXX’) de Habacuc 3,2: “No meio de dois seres vivos (...) Tu serás conhecido; quando vier o tempo, tu aparecerás” (cf. STUHLMACHER, Die Geburt des Immanuel, p.52). Aqui, como "os dois seres vivos", evidentemente entende-se os dois Querubins que, segundo Êxodo (25,18-20), estavam postos sobre a cobertura da Arca da Aliança, indicando e simultaneamente escondendo a Presença misteriosa de Deus. Assim, como Maria Virgem, a manjedoura tornar-se-ia, de certo modo, uma nova Arca da Aliança, na qual Deus, misteriosamente guardado, está no meio dos homens e à vista da qual chegou, para “o boi e o jumento”, para a humanidade, formada por judeus e gentios, a hora do conhecimento de Deus.

Portanto, na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2 e Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, – diante da aparição humilde de Deus no estábulo, – chega ao conhecimento e, na pobreza de tal Nascimento, recebe a epifania que agora ensina todos a ver Deus. Bem depressa, a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação autêntica do presépio prescindirá do boi e do jumento.

Depois dessa pequena divagação, voltemos ao texto do Evangelho. Nele lemos: Maria “deu à luz o seu Filho primogênito” (Lc 2,7). O que significa isso?

O primogênito não é necessariamente o primeiro de uma série em sucessão. O termo “primogênito” não alude a uma numeração em ato, mas indica uma qualidade teológica expressa nas mais antigas coleções de leis de Israel. Nas prescrições relativas à Páscoa, aparece esta frase: 

O SENHOR falou a Moisés, dizendo: ‘Consagra-me todo o primogênito, todo o que abre o útero materno entre os filhos de Israel. Homem ou animal, será meu’” (Ex 13,1-2). “Todo primogênito do homem, entre teus filhos, tu o resgatarás.
(Ex 13,13)

Primogênito é aquele que "abre o útero", seja filho único ou não. Assim, a frase sobre o primogênito é também já uma alusão antecipada à narração sucessiva da apresentação de Jesus no Templo. Seja como for, com essa palavra, acena-se a uma particular pertença de Jesus a Deus.

A Teologia paulina, em duas etapas, desenvolveu ainda mais este pensamento de Jesus como Primogênito. Na Carta aos Romanos, Paulo designa Jesus como “o Primogênito entre muitos irmãos” (8,29); como Ressuscitado, Ele é agora de modo novo “Primogênito” e, ao mesmo tempo, o início de uma multidão de irmãos; no novo Nascimento da Ressurreição, Jesus já não é apenas o primeiro na ordem da dignidade, mas é aqu'Ele que inaugura uma nova humanidade. Demos graças a Deus!

Agora, depois de se ter derrubado a porta férrea da morte, são muitos os que por ela podem passar, juntamente com Ele: todos aqueles que, no Batismo, morreram e ressuscitaram com Ele.

Na Carta aos Colossenses, esse pensamento é ampliado ainda mais: Cristo é designado o “Primogênito de toda criatura” (1,15); “o Primogênito dos mortos” (1,18). “N’Ele foram criadas todas as coisas” (1,16); “Ele é o Princípio” (1,18). O conceito de primogenitura adquire dimensão cósmica: Cristo, Deus e Filho de Deus encarnado, é, por assim dizer, a "primeira ideia" do Deus Uno e Trino e antecede toda criatura que está ordenada para Ele e a partir d’Ele. Por isso, é também Princípio e Fim da nova Criação, que teve início com a Ressurreição.

Em Lucas não se fala de tudo isso, mas para os sucessivos leitores do seu Evangelho, – isto é, também para nós, – sobre a pobre manjedoura na gruta de Belém está já presente este Esplendor cósmico: aqui o verdadeiro Primogênito do Universo entrou no meio de nós!

** Ler a terceira e conclusiva parte

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Fonte:
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus, 3ª ed. São Paulo: Planeta, 2013 pp. 59-63
www.ofielcatolico.com.br

O Nascimento de Jesus em Belém

O quadro histórico e teológico da narração do Nascimento de Jesus nos Evangelhos


César Augusto[1]
Naqueles dias, apareceu um edito de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado."
(Lc 2,1)

COM AS PALAVRAS acima, S. Lucas introduz sua narrativa sobre o Nascimento de Jesus e explica por que esta aconteceu em Belém: um recenseamento, com a finalidade de determinar e depois cobrar impostos, é a razão pela qual José com Maria, sua esposa que está grávida, se deslocam de Nazaré até Belém. O Nascimento de Jesus na cidade de Davi situa-se no quadro da grande História universal, embora o Imperador pouco ou nada saiba dessa gente simples que, por causa dele, tem de viajar num momento difícil, e assim, aparentemente por acaso, o Menino Jesus nascerá no lugar da Promessa.

Para Lucas, o contexto histórico-universal é importante. Pela primeira vez é registrada a expressão "toda o mundo habitado", ou "toda a Terra", isto é, o ecumene no seu todo. Pela primeira vez, existe um governo e um reino que abraça o orbe. Pela primeira vez, existe uma grande área pacificada, em que todos os bens podem ser registrados e postos ao serviço da comunidade. Só nesse momento, em que existe uma comunhão de direitos e de bens em larga escala e em que uma língua universal permite a uma comunidade cultural o entendimento no pensamento e no agir, uma mensagem universal de salvação, e logo um portador universal de salvação, pode entrar no mundo: de fato, é "a plenitude dos tempos".

Mas a ligação entre Jesus e Augusto situa-se numa profundidade ainda maior. Augusto não queria ser apenas mais um soberano, como os que vieram antes dele e os que haveriam de vir depois. A inscrição de Priene, que remonta ao ano 9 a.C., faz-nos ver como Augusto queria ser visto e considerado. Lá se diz que o dia do nascimento do Imperador:

(...)conferiu uma fisionomia diversa a todo o mundo. Este teria ido à ruína, se nele que nasceu agora não tivesse brilhado uma felicidade comum (...). A providência, que divinamente dispõe a nossa vida, cumulou este homem, para a salvação dos homens, de tais dons que o mandou a nós e às gerações futuras como salvador (sõter) (...). O dia de nascimento do deus foi para o mundo o início das boas notícias ('evangelhos') com ele relacionados. A partir do seu nascimento, deve começar uma nova contagem do tempo."
(cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, p. 74)

Com base em texto desse gênero, torna-se claro que Augusto era visto não apenas como político, mas também como figura teológica, já que a nossa separação entre política e religião, e entre política e teologia, não existia de modo algum no mundo antigo. Já no ano 27 a.C., três anos depois de sua tomada de posse, o Senado romano tinha-lhe conferido o título de Augustus (ou, em grego, sebastos): "o adorável". Enquanto, na literaturam esse título era atribuído a Zeus, mas também a Epicuro e a Esculápio, na tradução grega do Antigo Testamento é reservado exclusivamente para Deus. Aplicado a Augusto, tal título possui uma conotação divina: o Imperador suscitou uma mudança no mundo, introduziu um novo tempo. Isto, de fato, Augusto o fez, e torna-se muito difícil não enxergar neste  inesperado "precursor" do Messias, ao contrário das interpretações tendenciosas dos ateus, um claro Ato da Providência divina: não fosse por essa inédita "globalização" do mundo civilizado, não teria sido possível a rápida expansão da Mensagem do Cristo "até os confins da Terra".

É como se não apenas o povo de Israel, mas a própria civilização humana como um todo, esperasse, de algum modo inconsciente, a vinda do Messias por aqueles tempos. Na quarta écloga de Virgílio1, já encontramos essa esperança em um mundo novo, a expectativa do regresso do paraíso. Embora em Virgílio, como vimos, se apresente um horizonte mais vasto, sente-se a influência do modo como se concebia a vida na era de Augusto: "Agora tudo deve mudar...".

Cabe ainda sublinhar, de modo particular, dois aspectos relevantes da percepção de si mesmo, própria de Augusto e dos seus contemporâneos. Este "salvador" trouxe ao mundo, sobretudo, a paz. Ele mesmo fez representar essa sua missão de portador da paz, de forma monumental e para todos os tempos, na Ara Paciss Augusti, cujos restos preservados evidenciam ainda hoje, de maneira impressionante como a paz universal, que ele garantiu por um certo tempo, teria permitido às pessoas um profundo suspiro de alívio e esperança. A esse respeito, citando Antonie Wlosok, Marius Reiser escreve:

No dia 23 de setembro (nascimento do Imperador), a sombra deste relógio de sol avançava de manhã até a noite, por cerca de 150 metros, direto sobre a linha do equinócio, precisamente até o centro da Ara Pacis; há, portanto, uma linha direta que vai do nascimento deste homem à pax e assim se demonstra, de modo visível, que ele é natus ad pacem (nascido para a paz). A sombra provém de uma esfera (...), [que] é ao mesmo tempo a circunferência do céu e também o globo da Terra, símbolo do domínio sobre o mundo que agora foi pacificado."
(Wie wahr ist die Weihnachtsgeschichte? p, 459)

Aqui transparece ainda outro aspecto da autoconsciência de Augusto: a universalidade, que o próprio –, numa espécie de narração de sua vida e obra, o chamado Monumentum Ancyranum –, documentou com dados concretos e pôs em grande destaque.

E aqui retomamos o recenseamento, isto é, o registro de todos os habitantes do Império, fato este que liga o Nascimento de Jesus de Nazaré ao imperador Augusto. Sobre essa cobrança de impostos, há uma discussão acadêmica em cujos detalhes não entraremos neste estudo.

Um primeiro problema é bastante fácil de esclarecer: o recenseamento teve lugar no tempo do rei Herodes, o Grande, que, porém, morreu já no ano 4 a.C. O início de nossa contagem no tempo –, a determinação do Nascimento de Jesus –, remonta ao monge Dionísio, o Exíguo († aprox. 550), que evidentemente errou alguns anos nos seus cálculos. Portanto, temos que fixar a data histórica do Nascimento de Jesus alguns anos antes.

Mas temos outras duas datas que causaram grandes controvérsias. De acordo com Flávio Josefo, a quem principalmente devemos os nossos conhecimentos da história judaica na época de Jesus, o recenseamento ocorreu no ano 6 d.C. sob o governador Quirino e –, porque nele se tratava em última análise de dinheiro –, levou à insurreição de Judas, o Galileu (cf. At 5,37). Além disso, a ação de Quirino no ambiente siro-judaico ter-se ia verificado apenas naquele período e não antes. Esses fatos, porém, em si mesmos não são seguros; de todos os modos, há indícios de que Quirino, por encargo do Imperador, já atuava por volta do ano 9 a.C. na Síria. Desse modo, revelam-se convincentes as indicações de diversos estudiosos, – por exemplo, Alois Stöger –, segundo as quais o "recenseamento" nas circunstâncias de então se desenrolava lentamente, estendendo-se por alguns anos. Aliás, o mesmo efetuava-se em duas etapas: primeiro, a inscrição de todas as propriedades em terras imóveis, e depois, em um segundo momento, a determinação dos impostos a se pagar. Assim, a primeira etapa ocorreu nos dias do Nascimento de Jesus; a segunda, que por motivos óbvios era para o povo muito mais irritante, suscitou a insurreição (cf. Stöger, Das Evangelium nach Lukas, 372ss.).

Por último, objetou-se também que, para tal inventário, não teria sido necessária a deslocação de "cada um na sua própria cidade" (Lc 2,3). Mas, por várias fontes, sabemos que os interessados deviam apresentar-se na localidade onde tinham as terras de sua propriedade. De acordo com isso, podemos supor que José, da Casa de Davi, possuísse um terreno em Belém, pelo que tinha de ir lá para a cobrança dos impostos.

Acerca de muitos detalhes, poder-se-á sempre discutir. Evidentemente, permanece difícil lançar um olhar na vida diária de um organismo tão distante de nós e tão complexo como foi o Império Romano. Mas os conteúdos essenciais dos fatos referidos por Lucas permanecem, apesar de tudo, historicamente credíveis, já que ele resolveu expô-los –, como faz questão de dizer no prólogo de seu Evangelho –, “após acurada investigação de tudo” (1,3). Tal investigação foi feita, obviamente, com os meios à sua disposição. Entretanto, Lucas estava muitíssimo mais perto das fontes e dos acontecimentos do que nós –, apesar de toda a erudição histórica –, o possamos pretender.

Voltemos ao contexto global do momento histórico em que se sucedeu o Nascimento de Jesus. Com a referência ao imperador Augusto, e à “ecumene inteira”. Lucas criou deliberadamente um quadro ao mesmo tempo histórico e teológico para os acontecimentos que ia narrar.

Jesus nasceu num período que se pode determinar com precisão. No início da atividade pública de Jesus, Lucas oferece mais uma vez uma datação detalhada e cuidadosa desse momento histórico: é o décimo quinto ano do governo de Tibério César; além disso, são mencionados o governador romano daquele ano e os tetrarcas da Galileia, da Itureia e da Traconítide, bem como de Abilene, e depois os sumos-sacerdotes (cf. Lc 3,1-2).

Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido "uma vez" (ou 'houve um tempo') típico do mito; mas pertence a um tempo histórico, que se pode datar com precisão, e a um ambiente geográfico exatamente definido: o universal e o concreto tocam-se mutuamente. N’Ele, o Logos, a Razão criadora de todas as coisas, entrou no mundo. O Logos eterno fez-Se homem, e a isto pertence contexto bem definido de lugar e tempo. A essa realidade concreta está ligada a Fé cristã, ainda que depois, em virtude da Ressurreição e dos desdobramentos históricos, o espaço temporal e geográfico fique superado.

Importante ainda um outro elemento. O decreto de Augusto para o registro fiscal de todos os cidadãos da ecumene leva José, juntamente com sua esposa Maria a Belém, à cidade de Davi, e desse modo favorece o cumprimento da Promessa feita pelo Profeta Miqueias segundo a qual o Pastor de Israel havia de nascer naquela cidade (cv. 5,1-3). Sem o saber, o Imperador contribui para o cumprimento da Promessa: a história do Império Romano e a da Salvação, iniciada por Deus com Israel, entrelaçam-se uma na outra. A história da eleição feita por Deus, até então limitada a Israel, entra na vastidão do mundo, toma a História universal. Deus, que é não é apenas "o Deus de Israel", mas também de todos os povos, demonstra ser o verdadeiro Guia de toda a História.

Reconhecidos representantes da exegese moderna são de opinião que a informação fornecida pelos dois evangelistas –, Mateus e Lucas –, de que Jesus nasceu em Belém, seria uma afirmação teológica, não histórica. Para estes, na realidade Jesus teria nascido em Nazaré. Com as narrativas do Nascimento em Belém, a história teria sido teologicamente reelaborada de acordo com a Promessa, para poderem assim –, com base no local do Nascimento –, indicar Jesus como o Pastor esperado de Israel (cf. Mq 5,1-3; Mt 2,6).

A realidade objetiva é que não se pode apresentar fontes verdadeiras que confirmem, apoiem  ou mesmo sugiram tal teoria. De fato, em relação ao Nascimento de Jesus, não temos outras fontes além das narrativas da infância feitas por Mateus e Lucas. É muito importante observar que ambos dependem de representantes de tradições muito diferentes; são influenciados por perspectivas teológicas diferentes, tanto que, inclusive, suas informações divergem parcialmente.

Por exemplo, parece que Mateus desconhecia que tanto José quanto Maria habitavam inicialmente em Nazaré. Por isso, quando voltam do Egito, a primeira intenção de José é ir para Belém, e só a notícia de que na Judeia reina um filho de Herodes é o que o induz a retirar-se para a Galileia. Ao passo que, para Lucas, é claro desde o início que a Sagrada Família, depois dos acontecimentos do Nascimento, voltou para Nazaré. São duas linhas diversas de tradição, que no entanto concordam na informação de que o local do Nascimento foi Belém. Se apenas nos ativermos às fontes disponíveis, fica evidente que Jesus nasceu de fato em Belém e cresceu em Nazaré.

** Ler a segunda parte deste estudo

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1. Fundador do Império Romano e seu primeiro imperador, governando de 27 a.C. até sua morte, em 14 d.C.
2.
Públio Virgílio Maro ou Marão foi um poeta romano clássico, autor de três grandes obras da literatura latina, as Éclogas, as Geórgicas, e a Eneida. Uma série de poemas menores, contidos na Appendix vergiliana, são por vezes atribuídos a ele

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Fonte:
RATZINGER, Joseph. A Infância de Jesus, 3ª ed. São Paulo: Planeta, 2013 pp. 53-59
www.ofielcatolico.com.br

Papai Noel: inimigo de Cristo?


ULTIMAMENTE, TODA vez que chega o final do ano há uma grande preocupação da parte de muitos fiéis católicos, também sacerdotes e bispos, no sentido de se combater a influência supostamente nefasta da crença infantil no "Papai Noel", por desviar as atenções do verdadeiro sentido do Natal. Que dizer sobre este polêmico assunto?

Eu, Henrique Sebastião, diretor do apostolado Fiel Católico, tenho uma opinião muito bem definida a esse respeito. Por ser natural do Estado de Santa Catarina –, sul do Brasil –, particularmente de um município em que a influência europeia, especialmente germânica, é realmente muito presente, desde muito cedo tive estimuladas as minhas fantasias natalinas infantis. Tanto que até bem grandinho eu ainda acreditava em Papai Noel... Acho que só comecei a desconfiar de que tudo não passava de fantasia aos meus 7, 8 anos de idade (claro, eram outros tempos e as crianças eram bem mais inocentes há três ou quatro décadas). O fato é que minha imaginação, que já era fértil, era criativamente favorecida pelos meus pais –, em especial minha mãe –, e por meu único irmão quase dez anos mais velho. Poucos dias antes do Natal, faziam-me pendurar uma de minhas meias na soleira da janela, antes de me deitar, e no dia seguinte eu a encontrava cheia de doces e guloseimas. "Ora, ora, veja o que o Papai Noel lhe trouxe!", me diziam... Eu, claro, delirava com tudo aquilo. Na véspera de Natal, em minha terra, havia (e ainda permanece) o costume de alguém – via de regra o pai da família – se vestir de Papai Noel para uma rápida aparição, talvez jogando presentes pela janela ou coisa do gênero. Tudo muito fascinante para uma criança. 

Ocorre que a figura do Papai Noel está, de fato, intensamente associada às tradições natalinas, e seria ingenuidade supor que poderíamos mudar isso com sermões durante as homilias. Não há dúvida de que, nos nossos dias, nas campanhas publicitárias, nas decorações de ruas e lojas, nos programas de TV, nas revistas, nas redes sociais da internet e nos enfeites natalinos em geral, está muito mais presente a imagem desse personagem fictício (ou nem tanto, como veremos) do que a do Menino Jesus. 

Isso está errado? Sem dúvida nenhuma. Afinal de contas, o Natal é uma festa cristã: trata-se da celebração do Nascimento do homem-Deus, Jesus Salvador. Ora, como é que se pode comemorar um aniversário sem se homenagear o Aniversariante?

Todavia, mesmo assim, eu acho que a maioria dos homens à frente da Igreja comete um equívoco primário ao lidar com o problema, principalmente no seu enfoque. Tentam combater o tal "bom velhinho" com certa agressividade, declarando-o inimigo do verdadeiro Natal, dizendo que estamos deixando Jesus de lado por culpa dele ou coisa desse tipo... Acho que este não é um bom caminho. Mais ainda, tenho convicção de que, deste modo, não se resolverá o problema, muito pelo contrário: agindo assim, passaremos por amargos, antipáticos, implicantes.

Ora, por mais cristãos e apaixonados por Nosso Senhor que sejamos, temos que reconhecer, se não quisermos brigar com a realidade objetiva e óbvia, que a figura do Papai Noel é muito simpática, especialmente para as crianças. Não há como aquele velhinho sorridente, gorducho e bonachão, vestido com vistosa roupa e gorro vermelhos, que dirige um lindo trenó puxado por renas –, e que ainda distribui presentes –, não encantar os pequenos. "Mas o problema não é a criança sonhar, ter fantasias e até gostar do Papai Noel; o problema é colocá-lo no lugar de Cristo", dizem muitos. E estão certíssimos. Porém, simplesmente atacar o Papai Noel, tentar "desmascará-lo" e taxá-lo como o grande vilão do Natal, além de inútil, não é o modo cristão de lidar com problemas desse tipo.

Como assim? Ora, o que fez a Igreja, em diversos momentos de sua história, para converter os povos firmemente apegados aos seus usos e costumes pagãos? Quando percebia que não podia fazê-los largar certos costumes, e que por essa razão muitas almas corriam perigo, "cristianizava" esses mesmos usos e costumes. Isto aconteceu com relação à própria data em que celebramos o Natal1, não é? Então, porque não fazer o mesmo com o Papai Noel? Isto seria até bem mais fácil, já que na realidade a fábula do Papai Noel não passa de uma adaptação da belíssima história de um santo católico real! Sendo assim, porque não deixamos de lutar inutilmente e começamos a usar esta figura já tão consolidada no imaginário infantil e popular a nosso favor? Ou, melhor dizendo, porque não tomar este instrumento tão usado a favor do comércio e usá-lo a favor de Deus? Em vez de desviar as atenções, ele poderia nos ajudar a chamar as atenções para o sentido real (cristão) do Natal!

É claro que compete a cada família orientar suas crianças com relação à lenda do Papai Noel, mas é mais do que importante – e poderia ser muito útil – fazê-las conhecer a verdadeira história de São Nicolau, conhecido hoje, aqui no Brasil, por Papai Noel.


Breve história do verdadeiro Papai Noel

Nicolau Taumaturgo de Mira viveu no século III, na Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia. Seus pais, gravemente enfermos, morreram quando ele era ainda adolescente, mas lhe deixaram uma grande fortuna por herança. De fato, os pais de Nicolau haviam sido bons católicos e lhe ensinado bem sobre Jesus Cristo e sua Igreja. "Ensina a criança no Caminho em que deve andar, e até a velhice não se desviará dele" (Pv 22,6). Assim, Nicolau, piedoso, guardou sempre os bons ensinamentos recebidos, e enquanto crescia, procurava seguir Jesus em todas as decisões de sua vida. Passou a distribuir sua riqueza entre os mais pobres. Empenhava-se, entretanto, em ajudar secretamente, para que ninguém pudesse lhe agradecer, porque não visava as honras e recompensas do mundo, mas as do Céu.

Um caso famoso, sempre relatado em suas biografias, mostra como ele ajudava aos sofredores. Segue-se:

Ocorre que, na cidade de Patara, havia um rico comerciante que tinha três filhas; quando estas cresceram, tornaram-se formosas, mas, bem por esta época, as transações comerciais de seu pai fracassaram, até que ele chegou à completa falência. Teve então o comerciante a criminosa ideia de usar a beleza das filhas para obter os meios de sobrevivência de que necessitava. São Nicolau soube do plano e decidiu salvar tanto o pai quanto as filhas de tal pecado e vergonha. 

À noite, camuflou-se com uma capa (vermelha?) e foi à casa do comerciante falido. Não consta que tenha descido pela chaminé, mas fez quase isso: jogou pela janela um saco não com presentes, mas com moedas de ouro. Algumas versões dão conta de que isto se deu na véspera do Natal. Fato é que o comerciante, achando o ouro, com grande alegria preparou o enxoval da filha mais velha e assim arranjou-lhe um bom casamento. Para tanto, naquela época, era preciso que a noiva tivesse um bom dote. Algum tempo depois, São Nicolau novamente jogou outro saco com ouro para dentro da casa do comerciante, o suficiente para o enxoval e casamento da segunda filha. Quando São Nicolau, repetindo o mesmo plano, jogou o terceiro saco com ouro para a filha mais nova, o comerciante, desconfiado, já estava à sua espera. Prostrando-se diante do santo, agradeceu-lhe, com lágrimas que lhe desciam copiosamente pelas faces, a salvação da família de um horrível pecado e da grave vergonha a que se submeteria perante toda a cidade. 

Após o casamento das três filhas, o comerciante conseguiu enfim recuperar seus negócios, e começou a ajudar também seus próximos, imitando o exemplo de seu benfeitor. 



Papai Noel? Sim, ou melhor, São Nicolau, em ilustrações alemãs tradicionais (veja mais aqui e aqui). Aliás, o nome do Papai Noel em alemão é 'Kris Kringle' (de Christkindl), que quer dizer 'Menino Cristo'

Vemos claramente como o episódio descrito acima, em muitos aspectos, deu origem às lendas que conhecemos sobre o Papai Noel. A conclusão da história deste santo, que é especialmente querido pelos ortodoxos e em particular pelos russos, é a seguinte: em certo ponto, ele acabou por vender todas as suas posses para dar o dinheiro aos mais necessitados. Ele, que desde a morte dos pais havia se aproximado de seu tio, o bispo da cidade de Patara, foi logo ordenado sacerdote, e terminou por se tornar, ele próprio, o Bispo de Mira.

Homem tão bondoso e caridoso, Nicolau foi sempre amado por todo o povo, e conta-se que realmente gostava de distribuir presentes entre as crianças. Faleceu no dia 6 de dezembro de 343, sendo o aniversário de sua morte o dia de São Nicolau (a propósito, era exatamente na véspera deste dia que eu pendurava minha meia na janela, para reencontrá-la na manhã seguinte abarrotada de doces e balas). Assim, influenciados pela popularidade de São Nicolau na Europa, os imigrantes europeus trouxeram sua história e suas tradições para a América. Eis a origem do nome Santa Claus (corruptela de Saint Nikolaus/St. Niklaus) que o Papai Noel tem em inglês. Com o passar dos tempos, outras lendas e mitos sobre ele foram sendo acrescentadas à sua verdadeira história, e assim apareceu o "Papai Noel" dos dias de hoje. 


Conclusão

Observemos bem, então, que o Papai Noel não precisa ser, – e realmente não é!, – um inimigo de Cristo e/ou do verdadeiro sentido do Natal.  O fato de celebrarmos o nascimento de Jesus no Natal não nos impede de mostrar admiração pelas vidas que foram transformadas por Cristo Salvador de todos os homens. São vidas de pessoas que demonstraram compaixão e verdadeira caridade por causa de sua fé e sua vida na Igreja. São Nicolau, o Papai Noel, foi simplesmente uma destas pessoas!

Então, talvez o problema não esteja na figura do Papai Noel em si, mas sim na importância que se dá a ele ou na maneira equivocada com que ele vem sendo entendido. Será que considerar a verdadeira história da vida do Papai Noel/São Nicolau não poderia enriquecer ainda mais as celebrações de Natal em família, com nossas crianças, ao invés de afastar do verdadeiro significado do Natal?

Nós, do apostolado Fiel Católico, não temos dúvidas de que São Nicolau foi um excelente exemplo de verdadeiro seguidor de Jesus Cristo e membro de sua Igreja. Mais do que isso, entendemos que simplesmente esclarecendo os fatos é possível virar o jogo, sim, transformando esta figura que vem sendo usada tão ardilosamente por nosso inimigo em mais um instrumento a favor de Nosso Senhor e de sua Igreja. Que tal se passássemos a contar aos nossos filhos, reunidos em família, a verdadeira história do Papai Noel, com foco no imenso amor que ele tinha por Jesus Cristo, o Aniversariante que celebramos nesta data? Um feliz Natal do Senhor a todos!


Eis uma belíssima e, principalmente, autoexplicativa imagem do Papai Noel ou São Nicolau, na qual todos nós, católicos, deveríamos investir

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1. Embora existam estudos sérios que favoreçam a tese de que o Cristo tenha nascido realmente em 25 de dezembro, como veremos em postagem futura.
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Fontes e ref. bibliográfica:
• FEDERER, William J. There Really Is a Santa Claus: History of Saint Nicholas & Christmas Holiday Traditions, Washington: Library of Congress,  2003
• Portal Father Alexander, artigo 'São Nicolau', disp. em:

http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/st_nicolas_p.htm
Acesso 18/12/015
www.ofielcatolico.com.br

Pedidos das crianças ao Menino Jesus no Natal

Por Dom Carlos Lema Garcia – Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo e Vigário Episcopal para a Educação e a Universidade

Dom Carlos Lema Garcia
VOCÊ JÁ PENSOU em escrever uma carta para o menino Jesus, pedindo um presente de Natal? O jornal italiano Corriere della Sera publicou, há uns anos, trechos de cartas de crianças dirigidas ao Menino Jesus. Tratava-se de uma amostra do que costumam escrever nas redações da escola, nas aulas de Catecismo e nos bilhetinhos de final de ano. Na Itália, o Papai Noel não toma conta do imaginário infantil. Tal como em outros países de raízes cristãs, é o Menino Jesus quem traz os presentes no dia do Natal.

Vejamos algumas frases: “Querido Menino Jesus, todos os meus colegas da escola escrevem para o Papai Noel, mas eu não confio nele. Prefiro você”; “Querido Menino Jesus, obrigado pelo irmãozinho. Mas, na verdade, eu tenho rezado para ganhar um cachorro”; "Querido Jesus, por favor ponha um pouco mais de férias entre o Natal e a Páscoa. No meio, agora, está sem nada”; “Querido Jesus, o Padre Mario é seu amigo ou você o conhece só do trabalho?"; “Querido Menino Jesus, por gentileza, mande-me um cachorrinho. Eu nunca pedi nada antes: pode conferir”; “Querido Jesus, Caim e Abel não brigariam tanto se tivessem um quarto pra cada um. Com meu irmão funciona”; “Querido Jesus, eu gosto muito do Pai-Nosso. Você escreveu tudo de uma só vez, ou teve que ficar apagando? Qualquer coisa que eu escrevo, tenho que refazer um monte de vezes”; “Querido Jesus, você é invisível mesmo ou é só um truque?"; “Querido Jesus, na minha opinião, é impossível existir um Deus melhor que você. Bom, eu só queria que você soubesse, mas não estou lhe dizendo isso só porque você é Deus"; “Querido Menino Jesus, não compre os presentes na loja embaixo do prédio, a mamãe diz que eles são uns ladrões. Muito melhor no supermercado”; “Querido Jesus, nós estudamos na escola que Thomas Edison inventou a luz. Mas no Catecismo dizem que foi você. Pra mim, ele roubou a sua ideia”.



Brincadeiras à parte, todos nós esperamos que o Natal nos permita estar com Jesus. Recebê-lo em nossas casas, em nossas vidas. Vamos imaginar se tivéssemos a chance de entrar na gruta de Belém, de conversar com Maria e José e de contemplar o Menino Jesus recém-nascido. Vamos considerar, também, que se trata de um Menino especial: Deus verdadeiro e Homem verdadeiro. Por isso, Ele nos vê e nos conhece, entende os nossos pensamentos e afetos. Conhece o nosso coração.

A partir da chegada de Jesus a nós, podemos aproximar-nos dos Sacrários das nossas igrejas sempre que desejarmos e contar-lhe todas as nossas coisas, expor as nossas dúvidas, pedir ajuda nas necessidades e sabedoria para resolver os nossos problemas. Vamos aproximar-nos de Jesus com toda confiança e contar-lhe tudo o que precisamos para nós, nossas famílias, pelas famílias que passarão o Natal como refugiados, fora de suas casas...

Este ano, teremos um Natal especial, porque estará dentro do Ano Santo da Misericórdia. Vamos aproveitar para praticar a misericórdia, reconciliando-nos com as pessoas, servindo-as com generosidade e pedindo-lhes perdão das nossas faltas. Vamos também aproximar-nos do Sacramento da Reconciliação: não há melhor preparação para o Natal que uma boa Confissão.

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Fonte:

ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO, jornal “O São Paulo” nº 3081, ano 60, 12/015 p. 5.
http://www.ofielcatolico.com.br/p/assine-nossa-revista.html

Introdução à Bíblia ou às Sagradas Escrituras - estudo II


** Leia a primeira parte desta série

Sobre a seleção dos Livros Canônicos

COMO VIMOS, nos primeiros séculos da era cristã havia uma grande quantidade de cartas, relatos dos Evangelhos e textos religiosos circulando entre as comunidades da Igreja primitiva, que eram lidos piedosamente entre os primeiros cristãos (alguns reverenciados como santos escritos), entre os quais estavam os livros que hoje compõem o Novo Testamento da Bíblia cristã, mas também uma grande quantidade de outros textos, que posteriormente viriam a ser considerados apócrifos. Até o século IV não houve consenso quanto a que livros deveriam compor a lista canonicamente reconhecida como Escritura Sagrada.

Considerando-se esta simples realidade, torna-se evidente a completa impossibilidade de ter existido, entre os Apóstolos e os primeiros cristãos, qualquer concepção doutrinária minimamente semelhante àquilo que viria a se chamar Sola Scriptura (só a Escritura), mais de um milênio e meio depois do Advento de Cristo. Ainda assim, – para escândalo do cristão bem formado, – persiste em nossos tempos a ideia de que seria possível reconhecer a lista dos livros canônicos1 simplesmente pela evidência da sua Inspiração divina. Segundo esta linha de pensamento, de algum modo Deus/Espírito Santo revelaria de modo quase que instantâneo sua "assinatura" a todo indivíduo que simplesmente se pusesse a folhear as Escrituras. Seria então a Igreja um fator completamente subjetivo e, mais do que isso, desnecessário para a escolha dos textos que compõem o Livro Sagrado dos cristãos. 

A Inspiração divina de um livro, segundo tal absurda linha de pensamento, poderia ser verificada pelos piedosos efeitos que causa no fiel. Nada nos parece mais óbvio do que a completa falsidade desta noção, principalmente por ser inescapavelmente relativa: ora, não poderiam afirmar o mesmo (como de fato o fazem) os hindus, os muçulmanos, os espíritas e os seguidores das mais diversas e estrambóticas seitas? O conceito de que a Bíblia se revelaria por si própria, além de totalmente subjetivo, evidentemente depende de conceitos e critérios ainda mais subjetivos. Como poderia qualquer indivíduo definir quais atributos caracterizam e diferenciam um livro inspirado de um outro não inspirado? Quais seriam os critérios de avaliação destes mesmos atributos?

"Cada cabeça uma sentença", lembra um adágio popular de origem antiquíssima, e repleto de sabedoria. Ora, certa afirmativa ou narrativa que alguém poderia jurar que tem origem divina seria facilmente considerado como mero disparate por outra pessoa. Eis o motivo pelo qual a Igreja una, instituída por Cristo, – que por isso mesmo tem um só SENHOR e professa uma só Fé (Ef 4,5), – foi sempre sumamente necessária: "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edifico minha Igreja" (Mt 16,18); "Pedro, apascenta minhas ovelhas" (Jo 21,15-17); "Pedro, confirma os teus irmãos" (Lc 22, 31-32), diz o Senhor ao primeiro Papa, e o próprio diz de si mesmo, no primeiro Concílio da Igreja: "Irmãos, sabeis que há muito tempo o Senhor me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho" (At 15,7).

Assim como o Senhor Jesus Cristo prometeu que estaria com a sua Igreja (singular) até o fim dos tempos (Mt 28,20), nenhum autor sagrado afirmou, – por escrito, – ter escrito sob impulso do Espírito Santo, sendo a única exceção S. João no seu Apocalipse. Todavia, mesmo que cada livro da Bíblia contivesse a seguinte autenticação: "Este livro foi escrito inspirado por Deus", isto não seria realmente prova alguma, pelo simples motivo de que os autores de livros apócrifos, especialmente os mal intencionados, poderiam acrescentar a mesma afirmativa às suas obras. Não existem, – aos montes, – autores de livros espíritas que afirmam escrever inspirados por padres falecidos e mesmo por santos católicos, e o atestam em suas obras infames? Não se afirma o Alcorão inspirado por Deus, e também o Livro de Mórmon, assim como os livros de Mary Baker Eddy2 e Ellen G. White3, além de muitos outros provenientes de seitas orientais?

Um último caso a ser analisado é o daqueles que afirmam que a Inspiração divina de um livro poderia ser verificada pela inspiração que causa no crente: "É inspirado porque inspira", dizem estes. Outra grande engano, e mais ainda, uma tolice digna de pena. Se não, notemos como existem diversos escritos religiosos antigos, inclusive entre textos apócrifos e até, – somos forçados a dizê-lo, – escrituras não cristãs, que poderíamos com muita justiça considerar mais "inspiradores", por mais emotivos, carregados de forte simbolismo e apelo às sensibilidades humanas, do que muitos textos e até livros inteiros do AT da Bíblia Sagrada. Tomemos como exemplo o Livro de Números: seria possível, usando apenas este critério, afirmar que o Livro de Números é divinamente Inspirado? Por certo que não. Entretanto, este Livro está presente em todas as Bíblias Cristãs, seja protestante, católica ou ortodoxa.

É de fato coisa muito simples demonstrar, portanto, que não é possível definir a divina Inspiração de um livro mediante a mera análise particular, como também não se poderia defini-la mesmo que o próprio livro se declarasse como tal. De fato, a fixação do cânon não poderia estar sujeita às opiniões pessoais, nem fundamentadas em quaisquer métodos de verificação por sua própria natureza subjetivos e duvidosos.

Por fim, resta salientar que também não seria possível identificar a totalidade dos livros bíblicos exclusivamente por meio do estudo dos livros desde sempre consensualmente canônicos. Em outras palavras, também não se pode, por meio dos livros protocanônicos, conhecer a lista dos deuterocanônicos4 que compõem tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Como exemplo, em S. Lucas (24,27.47) e S. João (10,34) aparecem as expressões "Moisés e os Profetas"; "a Lei e os Profetas" e "Lei, Profetas e Salmos", sempre relacionadas ao conceito de Escritura Sagrada. Mas a expressão "Profetas" abrangeria quais livros? Datados da mesma época dos Profetas existe uma grande quantidade de outros livros cuja autoria é atribuída aos antigos Profetas do AT que, no entanto, hoje não são considerados canônicos. Do mesmo modo, existem outros cuja autoria profética ainda é duvidosa e mesmo assim são considerados canônicos por todos os cristãos.

O mesmo se aplica aos Salmos: existe, por exemplo, um escrito denominado Salmo 151, que é considerado canônico apenas pela Igreja Ortodoxa. E o que dizer de livros como Provérbios, Eclesiastes, Ester, Rute, e 1 e 2Samuel, 1 e 2Reis e Josué? Seriam parte de qual grupo? Lei, Profetas ou Salmos? Ou pertenceriam a um outro grupo cuja menção se não encontra em qualquer livro protocanônico?

Um fato ainda mais impactante, – tanto quanto pouco conhecido, é que a Bíblia faz referência a pelo menos 31 livros que hoje são considerados apócrifos pelos cristãos (HAMMER, 2006). 21 destes livros são do AT, O mesmo acontece com o NT, que menciona o livro "Ascensão de Moisés" (cf. Jd 1,9) e "Livro de Henoc" (cf. Jd 1,14). – Foram perdidas a Epístola de Paulo aos Laodicenses (Cl 4,15-16) e sua Prévia aos Coríntios (1Cor 5,9-10).

Assim, pelas razões já apresentadas e pelo fato de a Bíblia mesma não definir o seu conjunto de livros sagrados, o discernimento do Cânon bíblico necessariamente depende de algo que é exterior aos próprios livros sagrados. A Bíblia não se forma nem se autoriza por si mesma. Sua legitimidade depende de uma autoridade externa e anterior que lhe define. Sempre foi assim na tradição judaico-cristã. Podemos tomar como exemplo o Pentateuco5, que sempre foi considerado canônico pelos judeus, porém não por sua própria autoridade, mas porque tinham origem na Tradição judaica e em Moisés, que tinha a autoridade de seu legítimo Magistério (cf. Ex 18,13-14; Mt 19,7-8). Da mesma maneira se dá com os escritos dos Profetas, livros cuja autoridade igualmente não partia de si mesmos, do que afirmam ou deixam de afirmar, mas no anúncio anterior dos mesmos Profetas (como na Tradição cristã), ou porque sua autoria é atribuída a homens legitimamente autorizados por Deus (Magistério).

Está claro que a atribuição de Autoridade divina a um livro, – a definição de sua canonicidade, – sempre dependeu da autoridade de algo exterior/anterior ao livro em si: a Tradição que lhe deu origem e o Magistério divinamente estabelecido, reconhecido como legítimo guardião e difusor das verdades que o livro atesta.

Esta antiga e divina relação não se aplica somente ao Cânon bíblico. Observe-se que alguns dos livros bíblicos não trazem o nome do seu autor (o Pentateuco e os 4 Evangelhos, por exemplo). A atribuição de sua autoria dependeu da Tradição e do Magistério da Igreja divinamente instituída.

** Leia a continuação: o texto massorético e a Septuaginta

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1. Aqueles que, segundo a Igreja divinamente autorizada, compõem a Biblioteca sagrada dos cristãos, por terem sido escritos sob Inspiração divina e integrarem o conjunto de verdades que formam a Verdade Revelada aos cristãos, isto é, a Bíblia Sagrada
2. Mary Baker Eddy foi a criadora da seita 'Ciência Cristã' em 1866. Autora do livro-texto deste movimento religioso, intitulado 'Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras', fundou 'A Primeira Igreja de Cristo, Cientista', em Boston, EUA.
3. Ellen Gold White foi uma cristã americana, proclamada 'profetisa' e escritora cujo ministério foi fundamental para fundação do movimento Adventista sabatista, que mais tarde veio a formar a 'Igreja Adventista do Sétimo Dia'.
4. Protocanônicos
(proto, do grego πρώτο, significa 'primeiro') são os livros que tiveram sua canonicidade reconhecida pela Igreja em primeiro lugar; deuterocanônicos (deutero, também do grego Δευτεριο, significa 'posterior' ou 'segundo'). Deuterocanônicos, portanto, são os livros que tiveram sua canonicidade reconhecida posteriormente.
Existem livros proto e deuterocanônicos tanto no AT quanto no NT. A lista dos livros deuterocanônicos do AT é: Tobias; Judite; Sabedoria; Eclesiástico; Baruc; 1 e 2 Macabeus, além de acréscimos do Ester (10,4 a 16,24) e Daniel (3,24-90; 13; 14). A lista dos livros deuterocanônicos do NT é: 2Pedro; 2João; 3João; Tiago; Judas; Hebreus e Apocalipse.
5. Pentateuco (do grego penta = cinco; teuxos = volume ou livro) é o nome dado ao conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia, cuja autoria é tradicionalmente atribuída a Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. A origem deste nome vem da primeira tradução do hebraico para o grego do AT, no terceiro século antes de Cristo, chamada Septuaginta.

• LIMA. Alessandro Ricardo. O Cânon Bíblico: a origem da Lista dos Livros Sagrados, Brasília: ComDeus, 2007.
• HAMMER, Charles. 31 Livros perdidos citados pela Bíblia, artigo de Traditional Catholic Apologetics, Trad. de Carlos Martins Nabeto, 2006. A lista dos Livros perdidos encontra-se disponível neste website, em:
www.ofielcatolico.com.br/2001/03/livros-citados-pela-biblia-atualmente.html
• PÉREZ, Félix Garrondo. Itinerário bíblico para ler e entender a Sagrada Escritura, São Paulo: Loyola, 1998

www.ofielcatolico.com.br

Santa Missa: perfeita Oferenda a Deus

A Santa Missa é a perfeita Oferenda a Deus
porque nela se oferece o próprio Deus em Sacrifício

A MISSA É O ATO de culto mais importante que existe na face da Terra. É portanto, o que há de mais importante na Religião. É da Santa Missa que nos vêm, direta ou indiretamente, todas as graças que recebemos, já que é a frequente renovação incruenta (isto é, sem sangue nem sofrimento) do Sacrifício do Calvário.

Na cruz, Nosso Senhor jesus Cristo se ofereceu em Sacrifício à Santíssima Trindade. E esse Sacrifício tem um valor infinito, pois Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. No Sacrifício da cruz, Nosso Senhor era a um só tempo Sacerdote e Vítima.

Sacerdote sem mácula, perfeita e infinitamente santo, Mediador perfeito entre Deus e os homens. Vítima igualmente perfeita, obedecendo até a morte e morte de cruz para o nosso bem. – Para nos dar a vida eterna. – Na cruz, Cristo adorou perfeitamente à Santíssima Trindade. Na cruz,  realizou uma ação de graças perfeita à Santíssima Trindade. Na cruz, Cristo obteve para nós o perdão dos nossos pecados, satisfazendo por eles com seus sofrimentos, mas sobretudo com seu Amor/caridade perfeito para com Deus e para com os homens. Na cruz, Cristo nos alcançou da Santíssima Trindade, por seus méritos sem medidas, todas as graças de que precisamos para nos salvar.

É pela Missa que podemos nos unir ao Sacrifício de Cristo no Calvário, pois a Missa é a renovação desse único e definitivo Sacrifício. tudo o que Cristo fez na cruz nos é aplicado pela Santa Missa: Sacrifício que é renovado no momento da Consagração, o ponto mais alto e importante de toda celebração, toda oração, toda adoração e toda devoção católica. É o ápice, o fundamento e a essência de tudo que fazemos e podemos fazer para agradar a Deus. É a oportunidade que temos para adorar a Deus perfeitamente, para agradecer por todos as graças e benefícios.

É pela Santa Missa que alcançamos também o perdão de nossos pecados veniais e o arrependimento que nos leva à confissão dos pecados mortais.

A Santa Missa tem valor infinito. É graças à Santa Missa que podemos ganhar a vida eterna de felicidade no Céu, em Deus. Podemos, assim, compreender porque a Igreja nos exorta com tanta veemência a ir todos os domingos assistir Missa, sob pena de pecado grave. Salvo motivos de força maior, não deixemos jamais de assistir à Missa.

Para assistir à Missa com frutos, isto é, para agradar e ter verdadeira Comunhão com Deus, além de obter tantas graças e benefícios e o arrependimento dos nossos pecados, é recomendado que nos ofereçamos inteiramente a Nosso Senhor pelas mãos de Maria Santíssima. Devemos oferecer todos os nossos sofrimentos e alegrias, nossa inteligência, nossa vontade, tudo. Eis a união perfeita de nossas vidas ao Sacrifício de Nosso Redentor.

Por fim, na Missa, devemos pedir não só por nós, mas também pelos que nos são caros, pela nossa pátria, pelo mundo inteiro e (lembrar sempre disso) pelas almas que sofrem no Purgatório, especialmente as mais abandonadas. Devemos pedir pela conversão dos pecadores, pela perseverança dos justos e pelas almas que sofrem no outro mundo.

A verdadeira participação na Missa (expressão tão querida dos católicos de tendência modernista) consiste não em falar, cantar e expressar-se ruidosamente todo o tempo, mas sim em oferecer-se inteiramente a Deus, unindo-se ao Sacrifício de Cristo renovado sobre o Altar, para que venhamos a desfrutar, também com Ele, da alegria sem fim da Ressurreição, já neste mundo e depois, eternamente.

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