Considerações sobre a Idade Média


** Artigo do Prof. Erich Caputo,
do Oratório Secular de São Filipe Neri


SEMPRE QUE ALUDIMOS ao termo "Idade Média", a maioria das pessoas (ainda) o associa a um período obscuro (‘a idade das trevas’), com a servidão de muitos e o domínio de poucos, além da clássica divisão da sociedade em Nobreza, Clero e Plebe (terceiro Estado). Isso muito se deve à propaganda e à divulgação dos ideais dos pensadores ditos "iluministas" e também a alguns protestantes.

Para Regine Pernoud¹, catedrática em História pela Universidade de Sorbonne (França), especialista em Idade Média e autora de várias obras sobre o assunto, tais afirmações, que alguns autores insistem em descaradamente repetir como se fossem verdade absoluta, são simplesmente enganosas. Com a historiografia moderna, tal pecho preconceituoso começa, afinal, a ruir diante do poder dos fatos.

A autora declara que a Idade Média, período que compreende desde a queda do Império Romano até o dito “Renascimento”, – algo em torno do século IV ao século XV d.C., – foi a época de maior complexidade da História, de maior riqueza de costumes. Para a compreendermos plenamente, devemos estudar não só os grandes personagens históricos, modo como se desenvolve o estudo da Antiguidade Clássica, mas também toda a rede humana que a desenvolveu, desde os pequenos camponeses até os grandes monarcas. Muitas coisas ocorridas nesses mil anos vêm sendo continuamente estudadas, provocando cada vez mais assombros naqueles que se debruçam com verdadeiro afinco na busca pela verdade. A organização medieval baseava-se na unidade familiar. Essa unidade natural espelhava e dava forma a toda a sociedade, que era concebida e gerida como uma grande família.


Um nobre dirige trabalho no feudo:
era colorida a ‘idade das trevas’

Nesse diapasão, também a família medieval possuía peculiaridades especialíssimas, configurando-se de forma muito diversa da família greco-romana, nas quais o pai, chamado “pater familias” (o pai de família), detinha como que um poder supremo sobre a esposa e os filhos, como se fossem meros objetos cuja posse lhe cabia, podendo dispor até mesmo sobre suas vidas.

Muito mais natural e orgânica, a família medieval estava imbuída dos princípios ensinados pela Santa Igreja, de modo que a fé e a caridade eram tomadas como fontes sagradas de inspiração. As funções de guardião, protetor e mestre cabiam ao chefe de família. Auxiliado pela esposa, era substituído por ela em ocasiões de ausência, pois, para a sociedade medieval, a unidade familiar é maior que o indivíduo, estando o bem comum acima do bem individual. A partir desse raciocínio, a herança familiar é inalienável e estável. Sendo assim, o bem fundiário (a propriedade) deve ser herança da família e não de seus membros separadamente.

Essa realidade é transplantada para a administração feudal, na qual o Rei e seus barões (que são os proprietários de feudos locais) encarnam a figura de grandes pais de família, com a obrigação de prover, alimentar e educar.

A maioria dos feudos não tinha a estrutura econômica moderna baseada em trabalho/salário/capital. Pelo contrário, a grande maioria das comunidades sequer conhecia dinheiro (no sentido de numerário). O feudo funcionava em torno da fidelidade mútua: o senhor confiava na produção camponesa para o abastecimento de gêneros e o camponês, por sua vez, na defesa por parte de seu senhor. Assim, cada um desempenhava um papel que envolvia a responsabilidade de todos para o bem comum, tal era a essência do vínculo feudal.


A fé em Cristo reveste o caráter do cavaleiro medieval

A honra e a lealdade eram as bases das relações medievais que traziam em si a noção de fidelidade, por um lado, e de proteção, por outro.

Exigia-se ainda mais dignidade e retidão dos membros da nobreza. O exemplo tinha necessariamente que vir de cima, pois, como dizia o ditado: “A vergonha de um dia apaga completamente a honra de quarenta anos!”. Esse tipo de sociedade somente pôde existir devido à permanente influência da Igreja Católica. Quanta diferença em relação aos dias de hoje!

Dessa árvore tão frondosa somente poderia nascer um fruto maravilhoso. E esse fruto são as Ordens de Cavalaria. Qualquer homem podia fazer parte das ordens, nas quais, após o devido refinamento, seria sagrado cavaleiro.

A Cavalaria, verdadeiro exército da civilização cristã, era a síntese do ideal medieval. Ao futuro cavaleiro eram exigidas qualidades precisas, dentre as quais ser piedoso, dedicado à Igreja, respeitador de suas leis. A iniciação de um cavaleiro era precedida por uma noite de vigília, passada inteira em oração diante do Altar, sobre o qual ficava sua espada. É a vigília das armas. Os deveres do cavaleiro eram: ajudar o pobre e o fraco, respeitar a mulher, mostrar-se corajoso e generoso. Era o colocar-se a si mesmo a serviço de outrem, ultrapassar-se a si próprio. A palavra cavalheiresco traduz muito bem o conjunto de qualidades que suscitavam a admiração pelas ordens de cavalaria.

Dentre todos os cavaleiros, a sua mais perfeita encarnação foi D. Luís, Rei de França. Com o declínio do Império Romano e as consequentes invasões dos povos bárbaros (germânicos, visigodos, vikings, etc), o caos se instalou na Europa. Para evitar que cultura e conhecimento se perdessem em meio ao cenário de destruição e esfacelamento que se instalou, a Santa Igreja, por meio de seus religiosos, guardou em seus mosteiros muitos livros. E o que eram os mosteiros senão grandes castelos, guardiões da civilização ocidental e cristã contra a barbárie pagã? Graças aos monges medievais nossa civilização foi preservada para depois atingir seu ápice com as realizações científicas medievais. Nunca a humanidade conheceu tamanha expansão na ciência e, posteriormente, na arte. As instituições católicas promoveram os estudos, as ciências, a medicina, a matemática e a Filosofia. É pelo árduo trabalho monacal na Idade Média que hoje conhecemos os grandes pensadores da Antiguidade². Assim, permanece a Santa Igreja sendo a mãe e depositária de toda a cultura ocidental.

A beleza medieval é refletida em todo o seu legado: nas majestosas catedrais, em seus vitrais; na riqueza das investigações filosóficas e teológicas (resgate e interpretação da filosofia grega, as Sumas teológicas e os incontáveis tratados investigativos sobre a natureza); nas tradições que ainda chegam até nós (bons costumes, jogos, festas em homenagens a santos e padroeiros etc). Vários estudos atuais afirmam que para o homem medieval a natureza (flora e fauna) era um livro escrito por Deus, tal a sabedoria com que ele conseguiu cultivá-la e apreciá-la. Esse conhecimento foi transmitido na poesia, na literatura, na música e na escultura, monumentos medievais que chegaram até nós. Tanta beleza que só um período iluminado pela Igreja poderia apresentar.


Catedral de Chartres: simbolicamente, ocaso da Idade Média e o legado de uma era de Luz

Para Santo Tomás de Aquino, o fim do homem é o aperfeiçoamento de sua natureza, o que só se pode cumprir em Deus. Assim, para o Doutor Angélico, a sociedade deve ajudar o homem a atingir seu fim transcendental³. Qual melhor exemplo que a Idade Média?

Tão rico tema merece nossa atenção e novos artigos. Por enquanto, encerramos com as palavras do Santo Padre Leão XIII, em sua encíclica Immortale Dei: “Tempo houve em que a filosofia do evangelho governava os estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil”.

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Notas:
1. PERNOUD, Regine. Luz Sobre a Idade Média. Portugal: Ed. Publicações Europa-América, 1997.
2. WOODS JR, Thomas E. Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental. São Paulo: ed.
Quadrante, 2012.
3. SÃO TOMÁS - VIDA E OBRA – Coleção Os Pensadores. São Paulo: Ed. Victor Civita, 1985.
www.ofielcatolico.com.br

9 comentários:

  1. é uma linda história, mas sobre a inquisição ou tribunal do Santo Oficio? que tanto mal fez a humanidade e que nada tem em haver com as ordenanças de Cristo.

    Aliás não parece que o que o estado islamico está fazendo (atos repudiosos e covardes de intolerancia religiosa) não parece com o que praticamos na idade média?

    Andre - Campinas

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    Respostas
    1. Não, não é "uma linda história", Andre. É a História. São os fatos históricos bem documentados; este artigo retrata a realidade, pura e simples.

      Quanto à inquisição, também não. Ela não se pareceu com o maldito "estado islâmico" em absolutamente nada. Nem um pouco. Na verdade, é necessária uma boa dose de má-vontade, ignorância ou ódio à Igreja para dizer isso. Ou talvez os três juntos. Infelizmente, estes elementos superabundam em nosso mundo.

      Se você me der o seu e-mail, eu poderei lhe enviar imagens de crianças de quatro e cinco anos de idade CRUCIFICADAS pelos agentes do estado islâmico, pelo simples motivo de serem filhas de pais cristãos. Você poderá ver, nas mesmas imagens, outras crianças e adolescentes em volta, sorrindo, observando com prazer enquanto os pequeninos agonizam. Talvez eu lhe mande também o vídeo que mostra uma criança de doze anos do EI decapitando impiedosamente um prisioneiro, ou as 200 crianças inocentes que foram fuziladas pelo mesmo EI.

      Estou falando de crianças inocentes sendo brutalmente torturadas, assassinadas ou transformadas em assassinas sanguinárias. E isso acontece hoje, agora; não se trata de um fenômeno ocorrido há muitos séculos, como a inquisição.

      Assim, se você estudar a sério o mínimo, verá que a inquisição católica, tanto em suas motivações quanto no seu modo de proceder (digo historicamente; não me refiro àquilo que vemos nos filmes de Hollywood), não tem absolutamente nada a ver com a barbárie do EI. Faço questão de repetir: é preciso que alguém seja muito ignorante, muito maldoso ou esteja realmente completamente tomado de ódio pela Igreja para proferir uma blasfêmia desta magnitude. Se você acha que o seu caso não se enquadra em nenhum destes, e quer realmente conhecer a verdade dos fatos, leia os estudos que já publicamos sobre o assunto e, por favor, pare de me fazer sentir vergonha alheia:

      http://www.ofielcatolico.com.br/search?q=Inquisi%C3%A7%C3%A3o&btnG=Pesquisar+neste+Site

      Rezo pela sua alma

      Apostolado Fiel Católico

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    2. Penso que não há necessidade de partir para o lado pessoal nas respostas humilhando a pessoa questionadora, acho que a resposta pode ser dada sem isso. Onde ficou o amor ao próximo?

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  2. gostaria de ver algum comentário sobre o porque da proibição do casamento dos cléricos, visto que São Paulo, São Pedro e tantos outros eram casados... existe algum posto sobre este assunto?

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    1. Caro anônimo, o grande padre Paulo Ricardo explicou o porquê do celibato sacerdotal em seu site, que você pode acessar no link abaixo:
      https://padrepauloricardo.org/episodios/ordenar-homens-casados-solucao-ou-problema . A paz de NSJC!

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    2. Por favor, anônimo, leia a sua resposta, que foi dada em forma de post, no endereço abaixo:

      http://www.ofielcatolico.com.br/2016/01/o-celibato-sacerdotal-por-que-se-s.html

      Apostolado Fiel Católico

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    3. Que loucura. São Paulo não era casado, e pelo contrário recomendava que se fossem celibatário igual a ele! Além do mais, e Jesus Cristo? Não é ele o verdadeiro Sumo-Sacerdote? E ele não é casado! Pois é noivo da Igreja!

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  3. MUITO MARAVILHOSO ESTE ARTIGO SOBRE MEDIEVO. PARABÉNS! AMO ESTE VOSSO TRABALHO.
    SYLVIA CHAVES - RJ

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  4. Quero deixar meus sinceros agradecimentos pelo seus trabalhos de mostrar com é grande a nossa Igreja. E como é realmente a história da igreja. Vocês fizeram e faz um grande serviço que me ajudou a me aproximar mais da igreja. E sinto como é difícil defender a igreja, vejo como tem muitos que desconhece a verdadeira igreja. Tento sempre que surge oportunidade de esclarecer já que aprendi e aprendo muito cada dia mais sobre o que é ser católico. Deus seja louvado.

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