A Igreja Católica e a escravidão

'Casamento de negros (escravos) de uma casa rica',
pelo pintor e historiador Jean-Baptiste Debret 

RECEBEMOS DO LEITOR "Gui-2000" a mensagem que reproduzimos abaixo:

O meu professor chegou na sala falando que a Igreja era a favor da escravidão na época colonização! E que ela considerava que os negros não tinham almas, e falou ainda que tava numa bula, Dum Diversos, só que ai pesquisei, mas n achei neste saite, e mostrei que n era bem aquilo, mas ai ele me disse que a Igreja na epoca tinha poder para acabar com a escravidão, contanto que na epoca nem se discutia sobre, só começou a discutir sobre o assunto no século 19! (...) Eu nem sei o que faço mais, meus professores falam coisas erradas da Igreja ao meu ver, revogo, e eu que estou errado, porque n tenho fontes históricas, alguém poderia me explicar tudo e me dar fontes históricas!

Agradecemos ao nosso dileto leitor pela mensagem, que nós dá oportunidade de tentar esclarecer tema tão importante, e pela confiança depositada em nosso apostolado. Logo de cara, esclarecemos que a Bula Dum Diversas, publicada aos 18 de junho de 1452 pelo Papa Nicolau V e dirigida ao rei Afonso V de Portugal, dava permissão de “capturar e subjugar os sarracenos e pagãos (...) inimigos de Cristo”, e não se refere absolutamente à escravidão. “Sarracenos” (do grego sarakenoi) era o nome pelo qual eram conhecidos os muçulmanos pelos cristãos medievais (os termos 'islãmico' e 'muçulmano' foram introduzidos nas línguas europeias séculos mais tarde).

Para entender porque o papa Nicolau V emitiu essa Bula, é preciso reconhecer o contexto histórico e considerar que se tratava de um período de guerra, quando a Igreja, por exercer grande influência sobre os poderes seculares, entendia que deveria intervir contra a barbárie que era, então, perpetrada contra os cristãos. Tal documento foi escrito em uma época de feroz perseguição muçulmana contra a cristandade, e Constantinopla estava sob ameaça de ataque; de fato, apenas um ano depois disso os muçulmanos subjugaram os cristãos bizantinos, saqueando e pilhando por vários dias antes de dar aos sobreviventes condições para a rendição. O Papa autorizava, então, a tomada de prisioneiros de guerra e o seu encarceramento.

Assim, a “Dum Diversas” era uma Bula para o seu tempo, necessariamente presa a um contexto e a circunstâncias bem específicas, que não nos diz respeito hoje e que de modo algum favoreceu ou fomentou a escravidão. Representa, simplesmente, uma autorização de resistência e reação contra o inimigo agressor em uma situação extrema, de guerra. Ponto.

Estamos a tratar, aqui, de um assunto bastante complexo, porém, para desarmar de vez o seu professor adepto da luta de classes marxista, que insiste em ver o europeu como eterno opressor e os africanos como eternas vítimas, é importante saber que, por um longo período histórico, o tráfico negreiro era feito por negros dentro da África. Mais: desde muitos séculos antes da chegada dos europeus, as tribos, reinos e impérios negros africanos praticavam o escravismo em larga escala: africanos eram vendidos pelos próprios africanos, de outras etnias, que tinham grandes mercados espalhados pelo interior do continente, abastecidos por guerras entre as tribos e com sequestros aleatórios[1].

Posteriormente, os muçulmanos (os 'sarracenos' citados na Bula de Nicolau V) iniciaram o chamado escravismo branco, quando iam até a Europa buscar principalmente cristãos para escravizá-los, com total apoio dos líderes africanos. Tal fato é fartamente comprovado, por exemplo, na descrição do “império de Mali” feita pelo cronista muçulmano Ibn Batuta (1307-1377), um dos maiores viajantes da Idade Média, e o depoimento de al-Hasan (1483-1554) sobre Tumbuctu, capital do império de Songai. Ademais, havia tribos africanas que praticavam sacrifícios humanos, naturalmente, de escravos. Às vezes, para interromper a chuva, mulheres escravas eram crucificadas[2]. Curiosamente, por algum motivo, nenhum desses crimes hediondos afeta a sensibilidade dos militantes esquerdistas.

Mais do que isso, o "império mouro" (o grande império muçulmano que conquistou o norte da África, Oriente Médio e a Península Ibérica, onde hoje se localizam Portugal e Espanha, sendo que 'mouro' vem do latim 'maures', que significa negro, devido a cor da pele dos dominadores), com o seu regime de califado (apesar da resistência das regiões que voltaram rapidamente ao domínio cristão) persistiu de 711 a 1452, o que nos leva a 741 anos de ocupação e escravidão do povo cristão, sendo que mesmo após serem expulsos, os mouros continuaram a escravizar portugueses, principalmente os que viviam no litoral. Mais ainda, apenas entre 1530 e 1780, época marcada pela pirataria costeira no Mediterrâneo e no Atlântico, mais de 1 milhão de europeus brancos foram escravizados por traficantes norte-africanos negros[3].

Tudo demonstra que o grande mito tão alardeado pelos socialistas, dos grandes e malvados opressores versus os pobrezinhos oprimidos, as eternas vítimas injustiçadas que precisam ser agora recompensadas pelo sofrimento dos seus antepassados, não se sustenta. A pavorosa realidade da escravidão fez parte da História da humanidade por um longo período, sendo sempre condenável por degradar o gênero humano, mas foi praticada por todos os povos e raças em algum momento, e evidentemente independe de cor de pele: brancos escravizaram brancos e negros, negros escravizaram negros e brancos. Exatamente por isso, a escravidão não pode ser usada como instrumento ideológico de espécie alguma, e menos ainda para favorecer políticas racistas, sejam brancas ou negras.

Por não ser o tema principal deste estudo, não nos aprofundaremos mais nos assuntos apresentados até aqui. Sobre a fundamentação do que foi informado até este ponto, recomendamos a leitura do artigo do Prof. Dr. Ricardo da Costa, “A expansão árabe na África e os Impérios Negros de Gana, Mali e Songai”, que apresenta fontes seguras e farta referência bibliográfica.


Crianças escravas levadas à igreja para o Batismo, por Debret

O que precisamos observar muito bem é que vivemos agora em uma época conturbada e meio insana, em que qualquer coisa afirmada levianamente ganha "aura" de verdade. Por exemplo, há alguns anos o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) disse que sessenta por cento dos congressistas brasileiros utilizavam serviços de prostitutas e que, por isso, eles gostariam de gozar dessa atividade em “locais mais seguros”. Conclusão: para o deputado, deveríamos regulamentar a vida das moças[4]. Rapidamente a notícia ganhou as manchetes dos jornais. Contudo, dias depois, Wyllys voltou atrás – em uma matéria muitíssimo menor, claro – disse que baseou sua afirmação em sua “percepção da sociedade brasileira”, e que, de fato, desconhecia casos de pagamento de prostitutas por colegas[5].

Citamos o deputado do PSOL porque o próprio, em certa ocasião, valeu-se também de um trecho de uma mensagem do papa Bento XVI no XLVI Dia Mundial da Paz para mais uma de suas afirmações irresponsáveis: ocorre que o Papa defendera a “estrutura natural do Matrimônio” – a união entre um homem e uma mulher – quando negou que quaisquer outras formas radicalmente diversas de união fossem igualmente consideradas, pois elas “prejudicam, desestabilizam e obscurecem a função insubstituível do casamento”. Fazer essa equiparação constituía uma “ofensa contra a verdade da pessoa humana e uma ferida grave infligida à justiça e à paz”. Parafraseando o Papa, o deputado afirmou que “ferida grave infligida à justiça e à paz foi a escravidão de negros africanos apoiada pela Igreja Católica”(!)[6]

Nesse caso, Jean Wyllys não está só. Desgraçadamente, essa é uma das acusações mais comuns feitas à Igreja, especialmente pela esmagadora maioria dos nossos professores do ensino médio, que são marxistas e assim transmitem a "história" completamente deturpada aos nossos filhos em sala de aula. Teria a Igreja apoiado o sistema escravocrata, especialmente o ocorrido na África no período moderno (séculos XVI-XIX). 

Isso é verdade? Não. A verdade é exatamente o contrário disso. Vamos aos fatos?

Começamos observando que na Bíblia há várias passagens relativas a escravos (especialmente o Antigo Testamento). Quase sempre são prescrições atenuantes. Por exemplo: não se deve entregar um escravo fugitivo[7], nem utilizá-lo em tarefas degradantes ou serviços desnecessários[8]; ao escravo é reservado o dia de descanso (no AT, o sábado)[8]. Em Eclasiástico, lemos:

Emprega-o [o escravo] em trabalhos, como lhe convém, e, se não obedecer, prende-o.
Mas não sejas muito exigente com as pessoas e não faças nada de injusto. Tens um só escravo? Que ele seja como tu mesmo, pois o adquiriste com sangue. Tens um só escravo? Trata-o como a um irmão, pois necessitas dele como de ti mesmo.
(Eclo 33, 29-32)

Em resumo: apesar de reconhecer a escravidão, a religião a atenuava. Essa foi basicamente a herança do mundo antigo no que diz respeito aos preceitos religiosos.Com a ascensão social e política da Igreja na Idade Média, e a consequente cristianização das monarquias, a pressão a favor dos pobres, das mulheres e dos escravos tornou-se maior. Por exemplo, uma lei do século VI (por influência da Igreja) afirmava que nenhum escravo poderia ser preso caso estivesse em um Altar católico: seu dono deveria pagar uma pesada multa caso fizesse isso. Nos séculos, conhecidos pelos especialistas como Alta Idade Média (V-X) o Catolicismo que se difundiu na Europa pressionou aquelas sociedades a considerar a escravidão algo ultrajante aos seres humanos, já que, pela fé em Jesus Cristo, somos todos filhos de Deus[10].

Apesar disso, a escravidão só lentamente diminuiu – para dar lugar, pouco a pouco, à servidão, na qual a dignidade humana estava muito acima daquela da escravidão: nesta, o escravo era uma coisa que falava; naquela, o servo tinha deveres mas também direitos (como, por exemplo, a inalienabilidade da terra).

Mas os homens são dificilmente civilizados (e com revezes regulares). Mesmo com a pregação regular da Igreja, na Europa medieval a escravidão continuou tão comum que teve que ser reiteradamente condenada pela Igreja (e o foi, formalmente, nos Concílios de Koblenz, de 922; no de Londres, de 1022, no Conselho de Armagh, na Irlanda, de 1171).

No Concílio de Londres, por exemplo, foi decidido: “Que futuramente, na Inglaterra, ninguém queira entrar naquele comércio nefasto no qual estavam acostumados a vender homens como animais irracionais” (artigo 27 – veja).

O problema era que nas antigas leis romanas, em seu código civil reorganizado nos anos 529-534 pelo imperador bizantino Justiniano I como Corpus Iuris Civilis, o Conjunto do Direito Civil (veja), regulamentava a escravidão. Segundo ele, embora o estado natural da Humanidade fosse a liberdade, os direitos dos povos poderiam, no entanto, substituir a lei natural e escravizar pessoas. Basicamente um escravo era: 1) alguém cuja mãe era escrava; 2) qualquer pessoa capturada em batalha; 3) qualquer um que se vendeu para pagar uma dívida (fato ainda comum nos primeiros séculos medievais, herança da Antiguidade).

Com a ascensão do Cristianismo, o direito também se cristianizou. Os advogados medievais, a partir do século XI, chegaram à conclusão que a escravidão era contrária ao espírito cristão. Isso para cristãos (portanto que não venham hipócritas acusar a Igreja de legislar para não cristãos). Em contrapartida, por exemplo, o Islã difundiu largamente a escravidão. Vejamos isso com mais pormenor.

Começo com uma citação do reconhecido historiador Fernand Braudel (1902-1985):

O tráfico negreiro não foi uma invenção diabólica da Europa. Foi o Islã –, desde muito cedo em contato com a África Negra através dos países situados entre Níger e Darfur e de seus centros mercantis da África Oriental –, o primeiro a praticar em grande escala o tráfico negreiro (...). O comércio de homens foi um fato geral e conhecido de todas as humanidades primitivas. O Islã, civilização escravista por excelência, não inventou, tampouco, a escravidão nem o comércio de escravos.[11]

Enquanto isso a Igreja Católica, reiteradamente, condenava a escravidão. Há inúmeras bulas papais a respeito: na Sicut Dudum (1435), Eugênio IV (1383-1447) manda libertar os escravos das ilhas Canárias; em 1462, Pio II (1405-1464) instrui os bispos a pregarem contra o tratamento de escravos negros etíopes e condena a escravidão como um “crime tremendo”; Paulo III (1468-1549), na bula Sublimus Dei (1537) recorda aos cristãos que os índios são livres por natureza (estes, ao contrário dos povos negros, não praticavam a escravidão); em 1571 o dominicano Tomás de Mercado (1525-1575) declarou desumana e ilícita a escravidão; Gregório XIV na bula Cum Sicuti (1591) e Urbano VIII na Commissum nobis (1639), também condenaram formalmente a escravidão[12].

Paramos no século XVII. Há muito, muito mai provas de que a Igreja sempre se posicionou contra a escravidão e que evidenciam a atitude caluniosa e criminosa dos que afirmam o contrário[13].

Qual "o resumo da ópera"? Simples: os que querem conhecer a verdade devem estudar o passado, não acreditar em quem o (re)inventa para que confirme ideologias particulares.


Lista de fatos e documentos oficiais da Igreja Católica Apostólica Romana contra a escravidão

a) Aos 13 de janeiro de 1435, a Bula Sicut Dudum, do papa Eugénio IV, manda restituir à liberdade os cativos das ilhas Canárias.

b) Aos 7 de setembro de 1462, o papa Pio II (1458-1464) dá instruções aos bispos contra os tratamentos dos negros proveniente da Etiópia condenando formalmente o comércio de escravos como “magnum scelus” (grande crime) [14].

c) Em 1537, o papa Paulo III (1534-1549), através da Bula Sublimus Dei (23 de maio) e da encíclica Veritas Ipsa (9 de junho), adverte aos cristãos que os índios “das partes ocidentais, e os do meio-dia, e demais gentes”, são “livres por natureza”.

d) Em 1571, Tomás de Mercado, teólogo de Sevilha, com aprovação eclesiástica declara desumana e ilícita a traficância de escravos. Em sua Summa de Tratos y contratos, afirma não haver justificativa para negócio tão infame.

e) Em 1591, o papa Gregório XIV (1590-1591) publica a Bula Cum Sicuti (1591, op. cit.) condenando formalmente a escravidão.

f) Em 1639, o papa Urbano VIII (1623-1644), também se pronuncia contra a escravidão na Bula Commissum Nobis (op. cit.).

g) O papa Bento XIV (1740-1758) na Bula Immensa Pastorum escreve: “...recebemos certas notícias não sem gravíssima tristeza de nosso ânimo paterno, depois de tantos conselhos dados pelos mesmos Romanos Pontífices, nossos Predecessores, depois de Constituições publicadas prescrevendo que aos infiéis do melhor modo possível dever-se-ia prestar trabalho, auxílio, amparo; não descarregar injúrias, não flagelos, não ligames; não escravidão, não morte violenta, sob gravíssimas penas e censuras eclesiásticas...”

h) Em 1839, o papa Gregório XVI (1831-1846) publica a Bula In Supremo, por meio da qual condena a escravidão da seguinte forma: “Que os fiéis se abstenham do desumano tráfico de negros ou de quaisquer outros homens”.

i) Em 1888, o Papa Leão XIII, na Encíclica In Plurimis, dirigida aos bispos do Brasil, pede-lhes apoio ao Imperador (Dom Pedro II) e à sua filha (Princesa Isabel), na luta que estavam a travar pela abolição definitiva da escravidão.

j) Fato histórico: houve três Papas africanos na história da Igreja: Vencedor ou Victor, Gelasius e Melquiades ou Miltíades.

k) Fato histórico 2: há uma grande quantidade de santos negros, canonizados pela Igreja Católica, inclusive escravos/ex-escravos como São Benedito, Santa Bakhita, a Beata Nhá Chica, o Beato Pe. Francisco de Paula Victor e outros.

Apenas estes dois simples fatos históricos, citados por último, são suficientes para derrubar por completo a teoria de que a Igreja tenha, em algum momento, assumido ou compactuado com posições racistas contrárias às pessoas negras.

A igualdade entre os homens diz respeito essencialmente à sua dignidade pessoal e aos direitos que daí decorrem. Qualquer forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa, seja social ou cultural, ou que se fundamente no sexo, na raça, na cor, na condição social, na língua ou na religião deve ser superada e eliminada, porque contrária ao plano de Deus.
(CIC §1935)

____
Notas:

1. COSTA FILHO, Adriano Augusto. 1300 anos da invasão Moura em Portugal, Mundo Lusíada. Disp. em:
http://www.mundolusiada.com.br/colunas/opiniao-luso-descendente/7112011-1300-anos-da-invasao-moura-em-portugal/
Acesso 29/3/017.

2. COSTA, Ricardo da. “A expansão árabe na África e os Impérios Negros de Gana, Mali e Songai (sécs. VII-XVI)”. In: NISHIKAWA, Taise Ferreira da Conceição. História Medieval: História II. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009, p. 34-53.

3. FURTADO, Renato. Negros escravizaram portugueses por mais de 741 anos, Rentato Furtado contra a idolatria estatadl, disp. em:
http://renatofurtado.com/wp/2015/05/13/negros-escravizaram-portugueses-por-mais-de-741-anos/
Acesso 29/3/017.

4. 'Eu diria que 60% da população masculina do Congresso Nacional faz uso dos serviços das prostitutas, então acho que esses caras vão querer fazer uso desse serviço em ambientes mais seguros.'
(http://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-01-15/60-dos-homens-do-congresso-usam-prostitutas-diz-o-deputado-jean-wyllys.html)

5. Folha de São Paulo, sexta, 18 de janeiro de 2013
(http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/01/1216594-jean-wyllys-diz-que-se-baseou-em-sociedade-ao-falar-de-prostituicao.shtml).


6. Conf. Tweeter do deputado (veja).

7. 'Não entregarás a seu senhor o servo que, tendo fugido dele, se acolher a ti' (Dt 23,15).

8. 'Porque são meus servos, que tirei da terra do Egito; não serão vendidos como se vendem os escravos. Não te assenhorearás dele com rigor, mas do teu Deus terás temor.' (Lv 25,42-43).

9. 'Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhum trabalho nele, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro de tuas portas; para que o teu servo e a tua serva descansem como tu.' (Dt 5,14).

10. 'Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. Mas, antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo, para que pela fé fôssemos justificados. Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus. Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.' (Gal 3,22-28).

11. BRAUDEL, Fernand. Gramática das Civilizações. São Paulo: Martins Fontes, 1989, p. 138.

12. Documentos oficiais da Igreja contra a escravidão.

13. Uma obra com fontes primárias sobre o tema é: BALMES, Jaime. A Igreja Católica em face da escravidão. São Paulo: Centro Brasileiro de Fomento Cultural, 1988.

14. Denzinger-Sch'ánmetzer. Enquirídio dos Símbolos e Definições nº 668 citado em: BETTENCOURT, Dom Estevão Tavares, OSB. O Tráfico Negro no Brasil e a Igreja.

______
Fontes e ref. bibliográfica:


* Este estudo baseia-se em artigo do Prof. Dr. Ricardo da Costa, medievalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), publicado no jornal 'Gazeta do Povo' em 2/2/013.

• COSTA, Ricardo. A Igreja Católica e a escravidão. Disp. em:
http://www.ricardocosta.com/artigo/igreja-catolica-e-escravidao

Acesso 29/3/017

• VIANA, Marina. Documentos Oficiais da Igreja contra a escravidão. Disp. em: http://apologistascatolicos.com/index.php/magisterio/documentos-eclesiasticos/decretos-e-bulas/506-documentos-oficiais-da-igreja-contra-a-escravidao
Desde 27/3/012, acesso 29/3/017

• AJAYI, J. F. Ade. História Geral da África, vol. VI, África do século XIX à década de 1880, 
UNESCO, 2010, p. 79.
www.ofielcatolico.com.br

Sobre o caráter

Por Tihamer Toth*

Régulo em Cartago

CARTAGO IA MANDAR uma embaixada a Roma para pedir a paz. Um prisioneiro de guerra romano, chamado Régulo, foi encarregado de chefiá-la, mas teve de jurar, antes de partir, que, se a sua missão viesse a fracassar, ele voltaria ao cativeiro. Qual haverá sido a emoção dele, ao achar-se de novo em Roma, sua cidade amada! Lá poderia ficar para sempre, se a paz fosse obtida.
Todavia, o que fez ele?

Com toda a sua eloquência incitou o senado a continuar a guerra e, quando lhe pediram que ficasse em Roma, uma vez que um juramento feito por coação não podia obrigar, respondeu:

“Querem então, loucamente, que eu falte à honra? Bem sei que as torturas e a morte me aguardam à minha volta. Mas tudo isso não é nada em comparação com a vergonha acarretada por uma ação desleal, e com as feridas que a alma recebe do pecado. É verdade que ficarei prisioneiro dos cartagineses, mas ao menos conservarei, em toda a sua pureza, meu caráter de romano. Jurei voltar, e cumprirei meu dever até o fim. Confiem o resto aos deuses.”

E voltou a Cartago, onde morreu entre horrorosos tormentos.

Isso era o caráter romano! Ora, e o que é, então o caráter cristão?

Nem todos podem ser ricos, nem sábios, nem homens célebres. Mas há uma coisa que se pode exigir de todos: um caráter irrepreensível. Conquistar reinos terrestres é obra de homens excepcionais, e a coroa real, feita para bem poucas cabeças. Mas conquistar o reino dos tesouros espirituais e colocar na cabeça a coroa de um caráter viril, eis uma tarefa sublime e sagrada, que deve nos preocupar a todos sem exceção. Todos, disse eu. Entretanto, muitos deixam de cumpri-la. Porém você, meu filho, não a desdenhará, estou certo.

Entretanto, um caráter irrepreensível não é sorte grande que se pode ganhar sem nenhum mérito pessoal. Não é também nome ilustre que se traz consigo ao nascer, ou que se adquire sem trabalho. Um caráter irrepreensível é resultado de luta muitas vezes dura, da guerra viril que a nós mesmos nos fazemos, e às nossas inclinações egoístas, e que pede muitas conquistas, abnegação e disciplina. Esse combate, cada um de nós deve travá-lo dentro de si mesmo e sair dele vitorioso.

O resultado magnífico que obterá nessa luta será um caráter impecável. Hoje em dia, o sentido profundo dessa expressão escapa-lhe ainda, talvez. Mas, no dia em que a obra principal da sua vida for desvendada ante a face de Deus, e sua alma, que tiver formado com tanto trabalho, aparecer em toda a sua incomparável grandeza, exclamará, deslumbrado, como Haydn na representação de sua obra A Criação: “Meu Deus, fui eu mesmo que fiz isto?”.

Segundo o termo clássico de Santo Agostinho, “homines sunt voluntates”, isto é, o valor do homem é determinado pela sua vontade. Cada vez melhor se reconhece que hoje a escola moderna se ocupa quase exclusivamente da inteligência dos jovens, em detrimento do seu caráter e da sua vontade, que ela ignora desenvolver. Daí, o fato tão triste de se acharem entre os adultos muito mais mentes cultivadas do que ombros de aço, muito mais saber do que caráter. Não obstante, a base, o sustentáculo moral da sociedade é a pureza moral, não a ciência; o homem, não a fortuna; o caráter, não a covardia.

Este livro tem um único fim: exortar os jovens a formarem impecável seu caráter, induzi-los a raciocinar desta maneira: “Uma responsabilidade enorme pesa sobre mim, porque séria tarefa me aguarda e devo empregar minha vida a cumpri-la. Os germes do meu futuro repousam em minha alma: cumpre que eu a aqueça, cultive e desenvolva, para que ela se transforme em flor primorosa digna de exalar seu perfume diante do trono de Deus, por toda a eternidade. E só posso consegui-lo cumprindo meu dever em todas as circunstâncias e vivendo uma vida ideal”.

Quer este livro dar aos jovens um caráter de aço, neste tempo em que o mundo inteiro vai completamente transtornado e parece como que andar de pernas para o ar; nesta época em que a maior e talvez a única doença da humanidade (responsável por todos os seus erros e vícios) é o perecimento assustador da vontade; nestes dias de desânimo quase geral, em que se diz, complacentemente, que é sabedoria conformar-se com as circunstâncias, e ver a salvação pública na negação dos princípios da política realista e na procura dos interesses pessoais; hoje, que a sensibilidade, sempre à espreita de uma ofensa, se chama dignidade própria, e a inveja pretende ser o senso de justiça; hoje, que se evita qualquer trabalho um pouco mais difícil, sob pretexto de que é impossível; que cada um procura a vida fácil e seus gozos. Sim, este livro quer formar jovens de caráter inatacável, de princípios justos e sólidos; jovens cuja vontade não recua ante os problemas; cavaleiros devotados a todo e qualquer dever; moços rijos como o aço, retos como a verdade, luminosos como um raio de sol, límpidos como o fio de água das montanhas; moços puros de corpo e alma.

Seria muito bom se só houvesse estudantes de caráter inteiriço; e que não se encontrasse mais nenhum de alma vil e sentimentos mesquinhos, desses que não se interessam por nenhum problema espiritual, que só pensam em iludir o professor, subtrair-se às lições difíceis, ir ver a nova estrela do cinema e arranjar um convite para a festa na casa da Dona X. Mas, ai! Há tantos desta espécie! E os jovens de caráter firme são, em comparação, tão poucos! Pois bem! Este livro quer demonstrar que quem tem razão é essa minoria que trabalha e se fatiga no caminho do caráter, enquanto os outros são tão despreocupados e irreverentes. E este livro, ao mesmo tempo, quer incentivá-lo a que se inscreva entre os primeiros, pois só a vida deles é que é digna dos homens. Afirmo, com Schiller, que é a vontade que faz o homem pequeno ou grande. E concordo com o barão Joseph Eotvos, o grande pensador húngaro, que diz: “O valor real do homem não depende da sua inteligência, porém da força de sua vontade. Os grandes talentos intelectuais só servem para enfraquecer aquele a quem falta firmeza; um grande espírito, cujo caráter não está à mesma altura, é a mais desgraçada e não raro a mais desprezível das criaturas”.

Na primavera, o camponês se detém junto ao seu campo e passeia o olhar preocupado ao longo dos sulcos silenciosos.

“O que me dará este ano, minha terra?”, parece ele dizer. Porém o campo lhe responde com outra pergunta: “Diga você primeiro o que me dará”. E assim pergunta o moço à vida: “O que é que me reserva, ó vida? O que é que me espera no correr dos anos?”. Porém a vida, como o campo, lhe responde a pergunta: “Isso depende do que me der! Receberá o que merecer por seu trabalho. Colherá o que semear”.

Quero tornar conhecido o grande meio de êxito neste grande trabalho: a educação de si próprio. Porém, tome cuidado, meu filho, e não se deixe iludir! Posso apenas desvendar-lhe os inimigos dissimulados, preveni-lo contra os perigos, designar as armas, mas não posse combater em seu lugar! Se quiser adquirir caráter, é preciso que faça você mesmo esse trabalho espiritual, que só você pode realizar.

A experiência lhe mostrará que o caminho do caráter não é fácil. Faz-se necessário uma vontade bem forte para combater os pequenos defeitos e nunca pecar, uma vontade que não conhece nem demora nem trégua. Mas não importa! “Sim, não importa! Quero, quero!”, deve dizer. – E que quer então? – Quero dominar meus sentidos e meus sentimentos. Quero pôr em ordem o caos dos meus pensamentos. Quero refletir antes de falar. Quero considerar as coisas antes de agir. Quero aproveitar as experiências do passado, quero pensar no futuro, quero, portanto, fazer o melhor emprego possível do presente. Quero trabalhar com gosto, sofrer sem me queixar, viver de maneira irrepreensível e, finalmente, morrer em paz, na esperança da minha felicidade eterna!

Pode-se imaginar mais elevado programa de vida? Existirá objetivo mais digno de ser realizado do que uma vida sem mancha?


O que é o caráter?

E o que queremos dizer quando falamos de alguém: “Ali está um (bom) caráter”? A palavra "caráter" designa a vontade humana fixada no bem; e um jovem é um (bom) caráter se tem nobres princípios e se em nada os sacrifica, ainda quando tal constância lhe impõe renúncias. Aquele que, ao contrário, muda de princípios conforme as circunstâncias, a sociedade ou os amigos, que abandona um modo de agir até aqui reconhecido como bom, sob o pretexto que não lhe causem o menor desagrado, esse é volúvel e pouco seguro, tem caráter fraco, ou, pior ainda, falta-lhe inteiramente caráter.

Isto basta já para mostrar em que consiste a educação do caráter. Primeiro, cumpra-se procurar nobres princípios; em seguida, por um exercício contínuo, urge que se acostume a agir segundo esses princípios, em todas as circunstâncias. A vida moral de um homem sem princípios é tão agitada quanto uma pequena cana surpreendida pela tempestade. Ela faz hoje de um modo e amanhã de outro. A primeira necessidade é, pois, formar em nós princípios firmes, e a segunda é adquirir a força de que precisamos para seguir, sem tropeços, o caminho que tivermos reconhecido como direito.

Repito: a sua primeira tarefa é formar em si princípios justos. Ora, qual é o princípio justo no tocante aos estudos, por exemplo? “Devo estudar com aplicação constante, pois Deus quer que eu cultive os talentos que ele me deu”. Qual é o princípio justo a respeito dos colegas? “Devo fazer a eles o que eu quereria que eles fizessem a mim”. E assim por diante. Cumpre que tenha princípios justos em todas as coisas.

A segunda tarefa é muito mais difícil: seguir esses exatos princípios, isto é, exercitar-se no caminho do caráter.

Um belo caráter não se recebe de presente: nós o fazemos por um labor sólido e contínuo, trabalhando nisso durante longos anos, dezenas de anos muitas vezes. A influência do círculo de relações, as inclinações boas ou más recebidas de herança, podem produzir certa impressão no nosso caráter, mas, afinal de contas, o nosso caráter é obra pessoal nossa, é resultado do nosso trabalho de educação de nós mesmos. Por isso, é uma dupla educação a que recebemos: a primeira nos é dada por nossos pais e pela escola; a segunda, a mais importante, nos vem dos nossos próprios esforços.

Sabe o que é a educação? É a influência da nossa vontade que nos leva pelo bom caminho, em qualquer situação, sem hesitar, com alegria.

Sabe o que é o caráter? É agir em conformidade com os princípios fundamentais; é o esforço empenhado de nossa alma na realização da nobre concepção que fazemos da vida.

Já pode concluir que, nessa educação de si, o difícil não é a formação do justo princípio vital, porém o esforço que se deve fazer dia a dia para se conformar com ele. “Isto é o meu princípio, e não o abandonarei; ser-lhe-ei fiel, custe o que custar”. E é preciso dizer que isso exige, não raro, muitos sacrifícios; e aí está a razão por que se encontram tão poucos caracteres no mundo.

“Permanecer sempre fiel a seus princípios”, “nunca se divorciar da verdade”. Quem é que não se entusiasmaria por estes belos pensamentos? Ah! Se não fosse tão difícil converter esses pensamentos em ações! Se esses belos intentos não se desvanecessem em nós tão facilmente, sob o influxo contrário da sociedade, dos amigos, da moda, do nosso próprio “eu” que não gosta de ser continuamente molestado! Ouça o que, a respeito, diz o poeta:

Por que agir com desalinho,
Ser como o pião a girar?
Se encontraste o bom caminho,
procura perseverar.
(Reinick)

___________
* Este artigo é o conteúdo do primeiro capítulo de um precioso e pouco conhecido livro de Tihamer Toth, intitulado 'O Jovem de Caráter'. Toth foi um digno bispo católico e professor, nascido na bela e valorosa Hungria, no ano 1889. Estudou na Universidade de Pázmány, Budapeste, e foi ordenado sacerdote em 1912. Suas obras tratam de temas como convivência, vocação profissional, esportes, estudos, amizade, leituras e muito mais, sempre sob a ótica dos valores cristãos, mesmo que nem sempre partam de uma abordagem necessariamente doutrinária. O autor também era conhecido pelo seu bom humor. Especializou-se em escrever para a juventude. Seu propósito de atrair jovens para Cristo nasceu na época em que foi capelão do exército austro-húngaro na Primeira Guerra Mundial, quando conheceu a miséria moral em que já se encontrava a juventude do seu tempo. Tornou-se um conhecido educador, nomeado, em 1924, professor de Pedagogia na Universidade de Pázmány. Em 1916, iniciou um programa de rádio que se tornou famoso no país. Em 1931, foi escolhido para diretor do seminário de Budapeste. Foi sagrado bispo em 1938, mas faleceu pouco depois, em 1939. Em 1943, iniciou-se o processo para a sua beatificação. As obras de Toth podem ser aproveitadas por jovens de todos os tempos, pois tratam de valores e princípios eternos. Ele procura lidar com os anseios mais profundos do ser humano. Por essa razão, podemos afirmar que seus escritos não são indicados exclusivamente para jovens, mas também para pais, pedagogos e todas as pessoas
desejosas de, a qualquer época da vida, crescer no amor a Deus.

___________
* TOTH, Tihamer, O jovem de caráter, São Paulo: Molokai, 2016, pp.15-16.
www.ofielcatolico.com.br

Escândalo! Folhetos da santa Missa estão sendo usados para panfletagem socialista!

Clique sobre a imagem para vê-la ampliada

VIVEMOS TEMPOS insanos. Muitos católicos haverão de se lembrar do episódio ocorrido há alguns anos, quando, por ocasião das eleições presidenciais de 2010, o heroico bispo emérito de Guarulhos, dom Luiz Gonzaga Bergonzini, foi perseguido – fora e dentro da Igreja – por ter se envolvido na distribuição de folhetos que alertavam o povo católico contra candidatos que apoiassem a descriminalização do aborto. Imediatamente o PT, que tinha e tem como meta de governo a legalização do aborto em nosso país, sentindo-se prejudicado, registrou boletim de ocorrência(!) contra o prelado (pela distribuição dos folhetos) e entrou com processo legal contra o mesmo. Na época, a Justiça Eleitoral determinou a apreensão dos panfletos e houve grande polêmica, amplamente promovida pela mídia televisiva.

A apreensão do material foi um claro ato de censura política totalmente ilegítima, tanto assim que foi posteriormente considerada ilegal pelo Ministério Público Federal (após as eleições...), e o material veio a ser finalmente liberado, dois anos depois.

Dom Luiz Bergonzini
“Não tenho partido político; sou contra o aborto e a favor da vida”, declarou a época Dom Bergonzini, que chegou a ser agredido fisicamente por militantes do PT, os quais cercaram sua casa berrando palavrões e soltando rojões durante as madrugadas: “Cheguei a ser ameaçado”, disse o bispo à Imprensa, e advertiu, em entrevista à revista Veja: “Ninguém pode botar um cadeado, uma mordaça, na minha boca. Podem apreender o papel, mas nada altera as minhas convicções”1.

Mais triste do que todos esses fatos lamentáveis, entretanto, é o fato de que partiram perseguições e pesadas críticas ao bom pastor também do interior da própria Igreja, da parte dos irmãos de Dom Bergonzini, que deveriam maciçamente apoiá-lo nessa causa indiscutivelmente justa e coerente com a doutrina da Igreja.

Por que trazemos novamente à tona este assunto do passado, (infelizmente) já esquecido pela maioria dos fiéis católicos? Porque há algo muitíssimo mais grave acontecendo agora, no presente, e que não provoca grandes reações; uma ação indubitavelmente ilegal e criminosa, e ainda pior, um ato de traição sendo perpetrado no interior da própria Igreja, especialmente nas paróquias periféricas, atingindo fiéis humildes e talvez ingênuos, e que, entretanto, parece não provocar a indignação de ninguém, a não ser um ou outro cristão consciente como nossa leitora Juliana Ricchini, que nos enviou a imagem abaixo e mensagem ao Bispo da região episcopal em questão, exigindo uma explicação e uma providência.

Não vemos, todavia, nenhuma grande polêmica acontecendo, não vemos nenhum jornalista importante escrevendo sobre o assunto, nenhum fiel católico influente tomando providências, nenhuma ação sendo movida, nenhum processo... Principalmente, não vemos nenhuma ação da parte de nossos bispos ou especialmente de nosso Cardeal Arcebispo de São Paulo, diante do escândalo que representa esta verdadeira aberração.

Os folhetos das santas Missas de domingo da paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Itaquera, como o do dia 19 de março de 2017, que se vê na imagem abaixo, são recheados de textos revolucionários explicitamente socialistas e político-partidários, incitando a população à revolta e propagandeando o pensamento marxista/classista, incluindo apologia ao feminismo, ao movimento LGBTs e às ações do MTST (sim!), chegando ao cúmulo de finalizar com o famigerado grito de guerra "Fora Temer!", verdadeiro mantra dos petistas e seus coligados(!):



Talvez a maior pérola nesta "obra de arte" de folheto de Missa seja o trecho que afirma a necessidade de um "projeto para reconstruir a esquerda no país e superar os modelos de conciliações de classe". Em outras palavras, eles não querem conciliação de espécie alguma; o "Dai a César o que é de César" foi descaradamente substituído pela incitação à revolução, que deve ser promovida por todos os meios, até pela violência e o desrespeito do direito e/ou da vontade do próximo (que no caso do Brasil é a maioria), se necessário. Note-se que, aqui, não se trata de combater determinada ação de um governo –, o que já seria errado e inadmissível nos espaços sagrados e no folheto da santa Missa –: trata-se de uma clara e assumida campanha contra o governo atual e propaganda declarada de uma determinada ideologia política.

* * *

Transformaram, já há tempos, as nossas igrejas e ambões em palanques políticos; agora, transformam nossas paróquias em diretórios de partido político, para a distribuição de material de propaganda socialista, quando transformam o folheto da Missa –, o missal do Sacrifício de Cristo! –, em panfleto comunista. Isto não é só desrespeito: é traição e também profanação.

Os mesmos que tanto se indignaram contra Dom Luiz Bergonzini, acusando-o de prejudicar a candidatura do PT com os seus folhetos anti-aborto, aqueles mesmos que tão furiosamente bradavam que a Igreja não pode ter partido político, agora, diante deste criminoso e apostático uso do material que deveria servir à sagrada Liturgia como meio de propaganda política, voltam seus olhares plácidos para outro lado...

Enviaremos, o mais breve possível, carta ao revmo. Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, com a denúncia do crime aqui apresentado e sua referida comprovação, e pedindo uma atitude concreta que impeça tal absurdo de continuar ocorrendo, livremente e sob a anuência do respectivo pároco2. A íntegra desta carta publicaremos também neste site, para que se torne pública. Aos leitores que quiserem participar desta iniciativa, pedimos que nos enviem por e-mail ou deixem abaixo, no espaço para comentários, nome completo e documento de identificação (RG).

_____
1. Em entrevista ao jornalista Reinaldo de Azevedo, disponível em:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/exclusivo-8211-petistas-intimidaram-e-xingaram-dom-luiz-bispo-de-guarulhos-que-recebeu-ameacas-mas-ele-nao-se-cala-recomendo-voto-contra-dilma-por-causa-de-suas-ideias-favoraveis-ao-aborto/
Acesso 20/3/017

2.
 
O 'padre' Paulo Sérgio Bezerra, que escandalosamente vem trabalhando contra a Igreja infiltrado dentro da própria Igreja há anos, com ações como esta e compondo 'orações' deste tipo, sem que nenhuma providência tenha sido tomada até agora.
www.ofielcatolico.com.br

Cristãos devem guardar o sábado ou o domingo? Um estudo integral

JÁ FALAMOS SOBRE este assunto de forma breve aqui em "O Fiel Católico", com apontamento de referências bíblicas e históricas (leia), mas parece não ter sido o suficiente, na medida em que temos recebido, quase que diariamente, uma quantidade considerável de mensagens indignadas a respeito, acusando a Igreja de ter mudado o Mandamento divino sobre o dia do descanso e de adoração a Deus e outras coisas semelhantes a esta. Retomamos portanto ao problema, desta vez de maneira completa e definitiva.



Introdução

A controvérsia acerca do dia de guarda é antiga, e nasceu na própria Igreja primitiva. Ao longo da história, grupos e indivíduos que se autodenominam "cristãos" têm observado dois dias diferentes para dedicar a Deus, ao repouso, à oração e meditação. De um lado, a maioria observa com sinceridade o domingo, primeiro dia da semana, como memorial da Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

De outro lado há grupos (principalmente novos protestantes e de novas seitas judaizantes) que creem, muitas vezes também com sinceridade, que devem honrar e guardar apenas o sétimo dia como o "Sábado do Senhor", assim como era nos tempos do Antigo Testamento (AT). O principal argumento deste último grupo é o seguinte: quando Deus deu ao seu povo os Dez Mandamentos, também deixou claro que eram ordens perpétuas, as quais ninguém jamais poderia mudar. Ainda que o católico argumente que a antiga ordem das coisas se passou, e que vivemos agora a nova e eterna Aliança em Cristo, na qual a Lei foi consumada, os sabatistas insistem em dizer que foram revogados apenas os antigos preceitos e costumes judaicos, mas não a Lei imutável de Deus, que não poderá nunca ser abolida por instituição humana alguma.

Para início dessa conversa, cabe ressaltar que há um lado irônico na situação: é o fato de que nós, católicos, concordamos em que a Lei de Deus não poderia ser abolida ou mudada por nenhum ser humano. Antes de abordar a questão em si – na sua essência e nos seus detalhes – importa dizer que o que nos difere fundamentalmente é que cremos na Igreja enquanto Corpo de Cristo e, portanto, continuidade histórica de Cristo no mundo (conf. 1Cor 12,12-13.27; Cl 1,18; Ef 1,22-23; Gl 3,26-28; Rm 12,4-5). Enquanto católicos, vemos e cremos na Igreja como coluna e sustentáculo da Verdade para os cristãos (conf. 1Tm 3,15) e, sendo assim, a única autoridade verdadeiramente capaz de nos apontar o verdadeiro Caminho que conduz a Cristo, ou que, antes, é o próprio Cristo.

Ironia ainda maior é saber que aqueles que nos condenam acreditam-se apoiados e confirmados pelas Sagradas Escrituras, que abundantemente confirmam a fé católica. Como disse o ex-pastor protestante Marcus Grodi, em seu artigo "Os versículos que eu nunca vi – quando era protestante":

Umas das experiências mais comuns entre protestantes que se convertem ao Catolicismo é a descoberta de versículos que para eles parecem ‘inéditos’. Mesmo depois de anos de estudo, sermões e ensino da Bíblia, algumas vezes do Gênesis ao Apocalipse, repentinamente um versículo ‘inédito’ aparece como que por mágica, mudando toda a nossa vida; (...) parece que um católico entrou sorrateiramente em nossas casas e alterou a Bíblia!

Como visto, desde os tempos apostólicos houve certa controvérsia no seio da Igreja antiga sobre quais normas dadas por Deus no AT os irmãos em Cristo deveriam continuar observando e quais não. A questão torna-se ainda mais grave pelo fato de que os novos adeptos gentios (oriundos do paganismo) eram evangelizados sem que fossem obrigados às antigas observâncias mosaicas. Logo os primeiros conflitos tornaram-se inevitáveis, obrigando os Apóstolos a se reunir em Jerusalém para tratar essa questão (conf. At 15).

Dentro desse contexto específico, qual deveria ser o dia de adoração a Deus? O sábado, conforme fora transmitido por Moisés e os Profetas, ou o domingo, o Dia da Ressurreição do Senhor e da instauração dos novos tempos, nos quais Deus fez "novas todas as coisas" (conf. Ap 3,15)?


A Instituição do Dia de Repouso e de Adoração

Sabemos que, no AT, santificou o SENHOR o sábado como seu dia de adoração. Mas à nova geração, à qual foi confiada a nova Lei, "não com tinta mas com o Espírito do Deus Vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos, e é por intermédio de Cristo que temos tamanha confiança em Deus" (2Cor 3,3-4), cabe o  privilégio e também o dever de ir além da observância mecânica e procurar compreender mais perfeitamente a Vontade de Deus para nós, seres humanos feitos à sua imagem e semelhança.

Qual será então, segundo os textos sagrados da Bíblia e conforme nos esclarece a santa Igreja – que é o Corpo de Cristo, Mãe e Mestra, Coluna e Fundamento da Verdade – o motivo do Mandamento divino? Não é difícil entender que, para encontrar esta resposta, devemos antes saber responder bem a outras duas perguntas:

1) Por que Deus instituiu um dia para o descanso e para o seu culto?

2) Por que o shabath (sábado) foi escolhido para ser este dia?


1) Por que Deus instituiu um dia para descanso e para o seu culto?

A clara resposta para a primeira pergunta encontramos no quinto capítulo do Livro do Deuteronômio, onde lemos:

Lembra-te de que foste escravo no Egito, de onde a mão forte e o braço poderoso do teu SENHOR te tirou. É por isso que o SENHOR, teu Deus, te ordenou observasses o dia do sábado.
(Dt 5,15)

Vemos como a observância do dia de culto de adoração está relacionada à libertação dada por Deus ao povo hebreu quando o livrou do cativeiro no Egito. O SENHOR manifesta-se como Libertador do seu povo eleito, com Poder e Glória, sinais e maravilhas, o envio de pragas (conf. Ex 8;9; 10;11) e a abertura do Mar Vermelho (conf. Ex 14,21-31) contra o jugo do poderoso Faraó. Deus Libertador guia seu povo à Terra Prometida.

Indo além, sabemos que a libertação da escravidão do Egito é o prenúncio da Libertação que o Cristo posteriormente promoverá da escravidão maior e geral do Pecado, conduzindo-nos à Jerusalém Celeste (conf. Hb 11,16; 12,22-24. Jo 14,1-3).



2) Por que o shabath (sábado) foi escolhido para ser este dia?

A resposta à segunda pergunta encontramos no livro do Êxodo:

Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que contêm, e repousou no sétimo dia; e por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o consagrou.
(Ex 20,11; cf. Gn 2,3)

Por esta razão, no dia da libertação o homem também deveria libertar-se do trabalho secular (cf. Am 8,5; Ex 34,21; 35,3; Ez 22,8; Jr 17,19-27; Dt 5,12-14); no dia em que Deus manifestou o seu amor pelo seu povo, também o povo manifestaria seu amor para com Ele (Lv 23,3; Lv 24,8; 1Cr 9,32; Nm 28,9-10; Is 1,12s), como nos recordam as palavras de S. João: “Nós o amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4,19).

Diante do que foi exposto até aqui, podemos definitivamente identificar a dupla raiz da instituição do dia de repouso e adoração:

a) Porque é o dia da libertação do povo de Deus da escravidão no Egito (conf. Dt 5,15);

b) Porque é o dia da plenitude da Criação (conf. Ex 20,11); pois o próprio SENHOR cessou o seu Trabalho (a Criação) no sétimo dia, terminado no sexto dia.

Ainda que Deus evidentemente não "se canse", caso contrário não seria Deus, o "descanso" ou "repouso" de Deus refere-se à cessação do seu divino Trabalho. A palavra "Shabath", sábado (do hebraico שבת, 'shabāt'; 'shabos' ou 'shabes') significa exatamente "cessão" ou "cessação", com o sentido de "término de um período ou de uma atividade". Por isso, o Sétimo Dia também é o dia da Plenitude da Criação, em certo sentido mais perfeitamente que "o dia do 'descanso' de Deus".


Jesus, o Sábado e o Domingo

'Rabi, por que permitis que teus discípulos trabalhem no sábado?' (Lc 6)

Com o passar do tempo, os judeus deturparam a observância do sábado santo, assim como a de outros preceitos divinos. Esqueceram-se das raízes espirituais desta divina observância, prendendo-se apenas à letra da Lei.

Na época de Jesus, os doutores da Lei dispendiam longas e elaborados debates sobre os muitos preceitos que regulavam o descanso sabático. Listam-se 39 tipos de trabalho que eram proibidos aos judeus nesse dia. Entre estes, ficaram registrados nos Evangelhos o de colher espigas (conf. Mt 12,2) e o de carregar fardos (conf. Jo 5,10), entre outros. Os doentes só podiam ser atendidos num sábado em perigo iminente de morte, motivo pelo qual se opuseram ao Cristo, que curava aos sábados (cf. Mt 12,9-13; Mc 3,1-5; Lc 6,6-10; 13,10-17; 14,1-6; Jo 5,1-16; 9,14-16).


Mais importante que a Lei

O Senhor Jesus Cristo, contra os fariseus, afirmou com total clareza: “O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Por isso, declarou-se "Senhor do Sábado" (Mc 2,28) e, assim como acontece hoje com a Igreja que é seu Corpo, foi incriminado pelos doutores da Lei (Jo 5,9), ao que respondeu que nada fazia além de imitar o Pai, que, mesmo tendo cessado a Criação do Universo, continuou a governá-lo, e também aos homens (Jo 5,17).

Neste momento Jesus explicitamente abolia a observância do sábado. Os sabatistas contra-argumentam dizendo que Jesus estava resgatando o espiritual e real sentido do Mandamento divino. Sim, o verdadeiro sentido precisava ser recuperado. Entretanto, os sabatistas enganam-se em pensar que a observância do dia de repouso e adoração estaria para sempre fixada no dia do sábado. Se, em razão das passagens bíblicas já citadas, o sábado em específico tivesse que ser guardado perpetuamente, significaria que toda Lei Levítica (com a circuncisão, a Páscoa judaica, o antigo sacerdócio, etc) também seria perpétua.

Um claro exemplo dessa incoerência encontramos no livro de Êxodo 12,14, onde está declarado que a Páscoa dos judeus, que celebrava igualmente a libertação do Egito, teria que ser observada “por suas gerações” e “para sempre”, exatamente do mesmo modo como é dito sobre o sábado. Também a oferta do incenso segundo as regras do AT é dita "perpétua" (Ex 29,42), assim como a lavagem ritual e específica de mãos e pés (Ex 30,21). Se aceitam que tudo isso não é parte da Nova Aliança, porque a obsessão com o dia do sábado?

Todavia, quando as Escrituras afirmam o sábado como "perpétuo", não se referem à fixação específica do sétimo dia, mas ao acordo de fidelidade de Deus para com a humanidade. E o próprio Deus, através dos Profetas do AT, anuncia que seu novo Acordo se dará de uma forma nova:

Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que farei um pacto novo com a casa de Israel e com a casa de Judá, não conforme o pacto que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito, esse meu pacto que eles invalidaram, apesar de Eu os haver desposado. Mas este é o pacto que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o SENHOR: Porei a minha Lei no seu interior, e a inscreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo.
(Jr 31,31-34)

O pacto da Antiga Aliança seria –, como de fato foi –, substituído por um novo, sendo que o primeiro foi apenas uma figura do segundo, que é eterno (conf. Hb 9). Neste novo pacto, o SENHOR instituiu um novo dia para a sua adoração, pois em um novo dia Ele salvou o seu povo, de uma vez para sempre, conforme profetizou Oseias:

Farei em favor dela [sua nova nação, a Igreja], naquele dia, uma aliança (...). Então te desposarei para sempre; desposar-te-ei conforme a justiça e o direito, com misericórdia e amor. Desposar-te-ei com fidelidade, e tu conhecerás o SENHOR.
(Os 2,20-22)

O Senhor Jesus aboliu a observância do sábado após cumprir o anúncio dos Profetas, morrendo na Cruz e ressuscitando no primeiro dia da semana: o domingo. Tal fato é citado muitas vezes e com clareza na Bíblia, como ainda veremos, e também na documentação histórica que nos chega sobre os usos e costumes da Igreja primitiva.

Se na Antiga Aliança o sábado foi estabelecido como o dia de adoração porque foi o dia da libertação do cativeiro e o dia da plenitude da Criação, na Nova e Eterna Aliança o domingo é estabelecido como novo dia de adoração pelas mesmas razões: é o dia em que o SENHOR nos salvou do cativeiro do Pecado e o dia em que, ressurgindo da mansão dos mortos, cessou o trabalho em sua nova Criação (a natureza humana incorruptível). Desta forma, o domingo também é, porém de maneira mais perfeita, o Dia da Libertação e da plenitude da Criação.

Uma das provas bíblicas deste fato é a Carta aos Hebreus, que acentua a índole figurativa do sábado, afirmando que o repouso do sétimo dia era a imagem do verdadeiro repouso de que desfrutaremos na Presença de Deus (conf. Hb 4,3-11). No sábado estava a figura (prenúncio); no domingo está a concretização do Plano de Deus. Nesta perspectiva, o Domingo é o Sábado eterno.


O claro testemunho da Bíblia Sagrada


Jesus aparece pela primeira vez aos Apóstolos no domingo, dia da Ressurreição. Escreveu o Salmista: “A pedra que os edificadores rejeitaram tornou-se cabeça da esquina. Foi o Senhor que fez isto, e é coisa maravilhosa aos nossos olhos. Este é o dia que fez o Senhor; rejubilemo-nos e alegremo-nos nele”(Sl 118,22-24). Ora, Jesus se tornou Pedra Angular no dia em que ressuscitou: o dia da Ressurreição é “o Dia que o Senhor fez para nós”.

Conforme o Profeta Jeremias, em seu novo pacto o Senhor promete escrever a sua Lei no interior e no coração dos homens. Conforme Oseias, no dia em que isto acontecer, os homens O conhecerão. Ora, isto se cumpre exatamente também no domingo, quando o Espírito Santo é dado aos Apóstolos (conf. Jo 20,19-23; At 2,1-4); pois é o Espírito Santo Quem nos convence da Vontade de Deus.

A segunda aparição do Senhor aos discípulos não é num sábado, mas no Domingo, o novo “dia que o Senhor fez para nós” (conf. Jo 20,26), dia em que Tomé adora a Jesus como Deus (conf. Jo 20,29): temos aqui, em determinado sentido, a primeira adoração cristã a Deus, e ocorre no domingo.

Ainda que os primeiros cristãos guardassem o sábado, o culto cristão por excelência aconteceu desde sempre no domingo (conf. At 20,7; 1Cor 16,2). Absurdamente, os sabatistas alegam que a “Ceia do Senhor” não era uma reunião de culto(!), quando a Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios mostra com nitidez que a reunião da “Ceia do Senhor” era a reunião de culto maior dos cristãos, como se verifica nos capítulos de 11 a 16.

No entanto, é verdade que desde o início muitos foram tentados a "judaizar" o cristianismo, pela observância das prescrições da Lei Mosaica. A comunidade dos gálatas é exemplo disso, e por causa disso S. Paulo dirigiu-lhes uma epístola para tratar tal questão, na qual não poderia ter sido mais claro e incisivo:

Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado? Apenas isto quero saber de vós: recebestes o Espírito pelas práticas da Lei ou pela aceitação da fé? Sois assim tão levianos? Depois de terdes começado pelo Espírito, quereis agora acabar pela carne?

(Gl 3,1-3)

Se porém alguém ainda duvidar que S. Paulo se referisse inclusive à observância do sábado, neste trecho veja o que escreveu aos colossenses:

Que ninguém vos critique por questões de comida ou bebida, pelas festas, luas novas OU SÁBADOS. Tudo isso nada mais é que uma sombra do que haveria de vir, pois a realidade é Cristo
(Cl 2,16-17)

S. Paulo Apóstolo confirma, mais uma vez e de maneira totalmente objetiva, que o Antigo Testamento (e faz questão de incluir a observância do sábado) foi como "uma sombra" em vista do Novo, o qual o substituiu no cumprimento da Morte e Ressurreição do Senhor Jesus Cristo (o que inclui, na prática comum da Igreja, o domingo como Dia do Senhor).


* * *
“Jesus lhes propôs: ‘Qual de vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado, esta cair em um buraco, não fará todo o esforço para retirá-la de lá?’” (Mt 12,11)

Sim, poderíamos com muita tranquilidade encerrar este estudo por aqui. Tudo já foi dito, confirmado e provado, biblicamente e teologicamente. Mas há muitas outras confirmações bíblicas – das quais tanto fazem questão os protestantes, judaizantes ou não – de que o domingo é o Dia do Senhor, e fazemos questão de apresentá-las para que esta abordagem fique completa, como sempre foi o estilo d"O Fiel Católico".

Ocorre que no Livro do Apocalipse (1,10) S. João escreve: “Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, voz forte como de trombeta”. Este trecho insuspeito, que aos olhos desavisados pode parecer secundário, é de fundamental importância para se resolver de uma vez por todas a questão, porque a expressão inicial, que comumente traduzida em português para “num domingo”, no original grego diz literalmente: “TE KURIAKÉ HÉMERÀ”, que significa “No Dia do Senhor”1.

Contamos com pelo menos três testemunhos patrísticos dos primeiros dois séculos que atestam a relação entre o primeiro dia da semana e o "Dia do Senhor" aí referido: a Didaché (14,1), documento que é anterior a alguns livros do Novo Testamento da Bíblia (leia); a referida Epístola aos Magnésios (9,1) de Sto. Inácio e o Evangelho de S. Pedro (35 e 50).

Aí está, judaizantes, a Bíblia Sagrada, simples e diretamente, afirmando com todas as letras que o Domingo é o Dia do Senhor.


Conclusão

Embora muitos não imaginem, a tendência atual das novas seitas ditas "cristãs" em voltar a guardar o sábado deriva do pensamento da fundadora do Adventismo do Sétimo Dia, a Sra. Ellen G. White, que afirmava em seus escritos que a instituição do domingo como dia do Senhor era uma "invenção do Papado", e que quem observasse este dia como Dia do Senhor receberia a marca da Besta. Por esta razão, alguns adventistas (acreditando mais na senhora White do que na Bíblia, nos Profetas, nos Apóstolos, nos cristãos dos primeiros séculos e no próprio Cristo) têm procurado fundamentar tal afirmação pesquisando desesperadamente aonde teria o Papado feito tal instituição... O melhor que fizeram até agora foi afirmar que o Papado substituiu o Dia do Senhor de sábado para domingo durante o Concílio de Laodicéia na Frígia, realizado no ano 360.

O que não querem enxergar é que o Concílio de Laodiceia apenas confirmou a doutrina apostólica da observância do domingo contra os cristãos judaizantes. Na realidade este Concílio não foi Geral, mas Local, e por essa razão não envolveu o Bispo de Roma e nem tinha o poder de alcançar a Igreja inteira espalhada pelo mundo.

Devemos lembrar, isto sim, o que é fato concreto: que os decretos contra os cristãos judaizantes foram instituídos pelos Apóstolos durante o Concílio de Jerusalém (cf. At 15). Conforme já exposto, tais decretos não favoreciam a observância do Sábado como Dia do Senhor. Os Bispos de Jerusalém sempre foram fiéis a esses decretos, conforme podemos observar no testemunho de S. Cirilo, Bispo de Jerusalém (313 - 386dC):

Não cedas de forma alguma ao partido dos samaritanos ou aos judaizantes: por Jesus Cristo de agora em diante foste resgatado. Mantenha-te afastado de toda observância de sábados, sobre o que comer ou como te purificar. Abomina especialmente todas as assembleias dos perversos heréticos.
(S. Cirilo de Jerusalém. Carta 4, 37)

Aí estão apresentados e contemplados os fatos, caríssimo leitor. Há inúmeros outros documentos historiográficos antigos atestando a celebração cristã por excelência e o dia de guarda dos cristãos no domingo; alguns deles constam do nosso primeiro estudo (leia), outros ainda podem ser encontrados mediante pesquisa. Não os acrescentaremos a este estudo para que não se torne longo por demais.

A decisão, entretanto e como sempre, ficará por sua conta: entre optar pela opinião de Ellen White e das novas comunidades protestantes ou pelo testemunho dos Profetas, dos santos Apóstolos, dos primeiros cristãos e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só você pode decidir.

___________
1. Pode ser comprovado no website de estudos protestantes 'BibliaHub' (em inglês) de tradução fiel direta do original em grego, que traz 'On the Lord’s day (No dia do Senhor) I was in the Spirit...'. Vide:
biblehub.com/bsb/revelation/1.htm.
___________

Fontes e referências:
• LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: Dia do SENHOR: ságado ou domingo?. Disponível em veritatis.com.br/article/3948.
Acesso 16/3/2017.
• BAUER. Johannes B. Dicionário bíblico-teológico, São Paulo: Loyola, 1994, pp.110-111.
• BOGAERT, Pierre-Maurice et al. Dicionário enciclopédico da Bíblia, São Paulo: Loyola, Paulinas, Paulus, Academia Cristã. Verbete 'Domingo'.
www.ofielcatolico.com.br

Esperança em tempos de guerra... Interior!

O ator italiano Gigi Proietti interpreta São Filipe Neri

Por Felipe Marques – Fraternidade São Próspero


É DO CONHECIMENTO de todos que a Santa Igreja Católica sofreu, sofre e sempre sofrerá perseguições de todos: muçulmanos, comunistas, globalistas. Entretanto, o que mais escandaliza alguns fiéis, hoje em dia, é ver a Igreja sendo perseguida e destruída por dentro, pelos próprios católicos que deveriam amar e cuidar de sua Santa Madre... Se você é um desses fiéis, deixo esta mensagem de esperança do biógrafo Guilherme Sanches Ximenes:

Nas épocas de especial dificuldade para a Igreja, Deus parece suscitar inúmeros Santos para que a reergam e façam brilhar novamente no seu rosto a sua eterna beleza de Esposa de Cristo. Assim aconteceu naqueles anos da Renascença, ensanguentados pelos povos em guerra em toda Europa, enlameados pela decadência moral da população, escandalizados com o espetáculo de papas preocupados com o prazer, as honras, as artes ou a política, com uma Igreja despedaçada pela revolta e pelo cisma. Diante desse panorama em que tudo parecia sem solução, Deus quis mostrar como cuida da sua Igreja, e como realmente as portas do Inferno não prevalecerão contra Ela (Mt 16, 18): foi nesses cem anos que nasceram Teresa de Ávila, Pedro de Alcântara, João da Cruz, Camilo de Lélis, Inácio de Loyola, Francisco Xavier, Carlos Borromeu, Francisco de Sales, Filipe Neri e tantos outros Santos que realizaram um trabalho de renovação nunca dantes visto, apoiado inteiramente na humildade, na obediência, na fidelidade, na caridade – na renovação interior, numa palavra.1

Se os tempos são difíceis, por outro lado, Deus continua nos chamando à sermos luz do mundo e sal da Terra. Se você ama Santos e Santas e os admira como heróis, saiba que você também é chamado a ser como eles! Sim, seja o herói que você tanto admira, torne-se o Santo ou a Santa que Deus quer que você seja. Lembre-se: a Igreja Católica não precisa mudar a doutrina, nem nada do tipo... A única coisa que precisa mudar na Igreja Católica são os próprios católicos!

____
1. XIMENES. Guilherme Sanches. Filipe Neri, o sorriso de Deus. São Paulo: Quadrante, 1998.
ofielcatolico.blogspot.com

Sinais no céu: o início do fim?

AOS NOSSOS CARÍSSIMOS leitores, pedimos que desconsiderem o tom de galhofa do narrador do vídeo abaixo em alguns momentos, e também as alusões fantasiosas a OVNIs e invasores extraterrestres. Há montagens e falsificações, entretanto alguns dos fenômenos aí apresentados são totalmente reais e foram divulgados na Imprensa internacional. Aos 2m42s, o vídeo mostra a aparição, no céu de Jerusalém, em outubro de 2016, de um imenso círculo luminoso, enquanto um altíssimo som como que de trombetas se faz ouvir, sem que ninguém soubesse explicar de onde vinha. Este caso criou polêmica, já que a origem do vídeo é obscura e no passado houve outros vídeos de casos de "som de trombetas vindos do céu" comprovadamente falso; segundo algumas fontes, este não passa de mais uma montagem, enquanto que outras sustentam a veracidade ao menos parcial do fenômeno. Aos 4m42s, vemos novamente a ocorrência de retumbantes sons de trombeta ao redor do mundo, acompanhados de estranhas formações de nuvens nos céus. Logo a seguir, vemos os céus adquirindo cor como que de sangue, numa visão novamente acompanhada de inexplicáveis e poderosos sons como que de tremendas trombetas, cuja origem não se consegue identificar. Aos 8m55s, num outro fenômeno impressionante, imensas esferas de fogo surgem no céu do Canadá, formando duas gigantescas colunas de fumaça que pairam no ar. Para este caso específico não há nenhuma explicação científica razoável.

Já o segundo vídeo é sobre um sinal surgido nos céus da Rússia no ano 2012, considerado montagem por muitos, mas que foi analisado por especialistas em efeitos especiais e dado como autêntico.

Chama particular atenção a clara incapacidade dos cientistas e racionalistas em tentar explicar estes acontecimentos, e vemos nitidamente que a maior parte das suas tentativas beiram o patético. Além disso, tais fenômenos vem se intensificando nos últimos tempos, ao mesmo tempo e na mesma medida em que outros evidentes sinais vêm ocorrendo, como o crescimento mundial do islamismo e a apostasia na Igreja.

Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas.Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas. (...) Quando começarem a acontecer estas coisas, reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação.
(Lucas 21,25-28)





www.ofielcatolico.com.br

A família cresce

COM MUITA ALEGRIA em Nosso Senhor, a Fraternidade Laical São Próspero vem apresentar aos leitores de "O Fiel Católico" o seu mais novo e ilustre colaborador, o Prof. Dr. Rudy Albino Assunção, que entre outras coisas é um dos maiores especialistas em Ratzinger do nosso país e de língua portuguesa. Publicamos a seguir o texto de apresentação de autoria do próprio.



Eu, descendente de portugueses e italianos, no Batismo recebi um nome alemão, inglês, sei lá − Rudy − talvez porque o Senhor queria me lembrar desde o início que aqui não temos cidade permanente e que estamos neste mundo como “paroquianos”, como estrangeiros e peregrinos (cf. Hb 13, 14). Não é à toa que a Providência me tirou de Santa Catarina, onde nasci, e me trouxe para o Ceará. Troquei a polenta e a minestra pelo baião de dois. 

Sou (bem) casado com Renata S. de Assunção e pai de dois meninos espertos e vivazes, Bento José e Lucas. Minha inclinação mais natural sempre foi para a docência: gosto de ensinar, pois é isso que me move a aprender. Hoje leciono no Centro Universitário Católica de Quixadá, no qual sou também Coordenador do Núcleo de Fé, Razão e Cultura.

Rudy Assunção ao lado do
homem que mudou sua vida
Fiz Bacharelado em Filosofia, Mestrado e Doutorado em Sociologia, mas minha relação com a Teologia há muito deixou de ser um flerte, pois é uma paixão que já virou casamento. Há quase duas décadas descobri o pensamento de um teólogo alemão que mudou minha vida: Joseph Ratzinger, depois Bento XVI. Também ele professor, ensinou-me a lição mais preciosa: o cristianismo não é uma ideia, mas o Encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo (cf. Deus Caritas est, n. 1). Hoje, depois de minha família, Bento XVI é a minha companhia diária, como foi particularmente nos últimos quatro anos, período no qual escrevi minha tese doutoral sobre a relação entre a Igreja e modernidade de acordo com a visão dele.

Assim, frequento sua obra como quem vai à casa de um amigo. Estudar o seu pensamento tornou-se um “chamado”, ao qual eu respondo com alegria. E minha contribuição para a revista (e o site 'O Fiel Católico') é uma forma de ser fiel a ele. Na verdade, a Ele.

________
* Bacharel em Filosofia (2005) pelo Centro Universitário de Brusque, Mestre (2010) e Doutor (2016) em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina. Em sua tese, aprofundou o tema “O ‘espírito da modernidade’ na visão de Joseph Ratzinger-Bento XVI”. Realizou seu estágio de doutorado sandwich na Universidade de Navarra (Pamplona, Espanha), sob a supervisão de Pablo Blanco Sarto, especialista de língua espanhola com ampla bibliografia sobre a teologia ratzingeriana. Sobre Bento XVI apresentou o artigo “Joseph Ratzinger e o primado da verdade na política: um confronto com Hannah Arendt” no II Simpósio Internacional sobre Joseph Ratzinger na PUC-RJ (novembro de 2012) depois reproduzido em Lumen Veritatis, São Paulo, v. 6, n. 24, 2013, p. 89-110 e, igualmente, na obra da Fundação Vaticana Joseph Ratzinger-Bento XVI, “O que faz que o homem seja homem. Memórias do segundo Congresso Internacional da Fundação Vaticana Joseph Ratzinger-Bento XVI”, São Paulo, Instituto Lumen Sapientiae, 2013, p. 67-88. Organizou e apresentou todos os textos e entrevistas do então Cardeal Ratzinger na edição brasileira da revista italiana "30 Giorni nella Chiesa e nel mondo", publicados com o título "Ser cristão na era neopagã", em três volumes, pela Editora Ecclesiae, 2014, 2015, 2016.

Produção bibliográfica: Autor do livro "O Sacrifício da Palavra, a liturgia da Missa segundo Bento XVI", Campinas: Ecclesiae. Organizador e autor, com Gilcemar Hohemberger, da obra coletiva "O Primado do Amor e da Verdade, o patrimônio espiritual de Joseph Ratzinger-Bento XVI", São Paulo: Fons Sapientiae, 2017. Tradutor de "Bento XVI: um mapa de suas ideias", São Paulo: Molokai, 2016, de Pablo Blanco, e "Contra o Cristianismo: a ONU e a União Europeia como nova ideologia", Campinas, Ecclesiae, 2013, de Eugenia Rocella e Lucetta Scaraffia.
www.ofielcatolico.com.br

Receba O Fiel Católico em seu e-mail