Não importa discutir se é arte: importa discutir se é crime


A ANÁLISE MAIS equilibrada, justa e racional que li até agora sobre o problema das exposições criminosas que promovem a pedofilia e vilipendiam a fé dos cristãos é a que foi escrita pelo jornalista carioca Luciano Trigo, e por incrível que possa parecer, publicada no portal G1. O autor fala mais especificamente sobre o caso do MAM de São Paulo, que apresentou como obra de arte um homem nu deitado sobre um tablado sendo apalpado por uma criança pequena, mas evidentemente vale para todos os outros casos escandalosos que parece que se tornaram moda nos últimos dias. Reproduzimos, a seguir, o texto na íntegra. Negritos nossos.


Artista foi atacado nas redes sociais por permitir interação de criança quando estava nu em performance no Museu de Arte Moderna (MAM), na Zona Sul de SP

Por Luciano Trigo

Comecemos assim: já há várias décadas, arte é o que é designado como arte por um sistema que envolve curadores, instituições, galerias, museus, críticos, jornalistas, agentes do mercado (colecionadores, marchands, leiloeiros) e a própria comunidade artística. É o que se chama arte por designação: se esse “sistema da arte” reconhece algo como obra de arte, então é obra de arte. Pode ser uma fruta podre, um animal amarrado, um brinquedo quebrado, um tubarão embalsamado, uma cama desarrumada. Pode ser também um gesto, uma frase, uma atitude, desde que feitos no espaço adequado, segundo determinado ritual. É arte.

O fim de qualquer hierarquia estética na arte contemporânea é ótimo para o mercado: bom é aquilo que é produzido por determinados artistas eleitos e promovido como arte. Se causar polêmica, melhor ainda. Não estou dizendo que isso é certo ou errado, estou dizendo que é assim que a coisa funciona. Aliás, o sistema se alimenta da indignação que determinadas instalações ou performances ainda provocam em muita gente.

Além de ser um debate obsoleto, questionar o estatuto de obra de arte de qualquer coisa designada como arte pelo sistema só favorece o mesmo sistema – que, ao reduzir a arte à dinâmica do espetáculo e do show business, também precisa desesperadamente de atenção e espaço na mídia. Mas esta é outra discussão: para quem tiver interesse, escrevi um livro inteiro sobre o assunto ('A grande feira – Uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea', Civilização Brasileira, 2009).

Isso posto, cabe a pergunta, esta sim relevante no caso da performance “La Bête”, no MAM-SP, na qual uma menina aparentando uns 6 ou 7 anos de idade foi estimulada a tocar no corpo de um adulto nu, deitado no chão de barriga para cima, para deleite de uma plateia de adultos vestidos: o carimbo de “obra de arte” legitima e autoriza qualquer coisa? Tudo é permitido? Ou uma obra de arte pode ser, ao mesmo tempo, artística e criminosa?

[Em outra apresentação, o mesmo homem nu aparece de mãos dadas com 4 outras meninas de idades entre 5 e 7 anos.] O palco, a galeria, o museu, são espaços nos quais imperam regras particulares, como mundos especiais destacados das convenções do mundo comum. Ainda assim, consigo imaginar diversas obras que, sem deixarem de ser arte, também seriam criminosas: uma performance que envolvesse um assassinato, uma mutilação ou um estupro, por exemplo; ou obras que promovessem o ódio, a humilhação, o preconceito, ou a pedofilia, ou o abuso de vulnerável.

Acreditar que uma espectadora adulta, hipoteticamente falando, poderia ser trazida da plateia e sofrer abusos pelo artista, ou ser exposta a situação constrangedora, vexatória ou humilhante, seria acreditar na imunidade penal desse artista. O problema, no caso, não seria chamar de arte algo que não é arte (acusação inútil); o problema estaria no fato de que, ao realizar sua obra de arte, o artista teria cometido um crime. Uma coisa não anula a outra.

Uma menina de 6 ou 7 anos não é uma adulta. Não tem discernimento. Não tem o poder de dizer não, muito menos em uma situação na qual a própria mãe e outros adultos a estimulam a fazer algo. Uma menina de 6 ou 7 anos atravessa uma fase delicada de formação da personalidade. Uma menina de seis anos é vulnerável psicológica e emocionalmente. Uma menina de 6 ou 7 anos é só uma criança. Em um mundo repleto de adultos doentes, uma criança precisa de proteção. É obrigação legal dos adultos –, não um favor –, garantir essa proteção.

Curiosamente, em um mundo no qual até a letra de “Atirei o pau no gato” é adaptada para não confundir a cabeça das crianças, haja quem considere normal expor uma menina dessa maneira. Como se o selo “arte” tornasse os artistas inimputáveis. Não torna.

O vídeo está disponível na internet. A menina parece confusa e constrangida, mas ainda assim é estimulada a tocar em diferentes partes do homem nu. Quando termina a performance, a menina corre para sair dali. Na plateia, onde buscava abrigo, ainda é parabenizada por adultos sorridentes.

Não importa discutir se isso é arte. Não faz a menor diferença. Uma criança foi exposta a uma situação constrangedora, com a cumplicidade do museu, do curador, do artista, da própria mãe e do público. Qualquer pessoa que tenha filhos sabe como uma criança nessa idade é frágil. Em qualquer outro espaço, esse comportamento seria repudiado, e os adultos envolvidos sofreriam consequências. Não importa discutir, portando, se a performance foi uma obra arte: importa discutir se foi cometido um crime.


Jornalista critica o vale tudo na arte contemporânea

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Fonte:
TRIGO, Luciano. Não importa discutir se é arte: importa discutir se é crime, disp. em:
http://g1.globo.com/pop-arte/blog/maquina-de-escrever/post/nao-importa-discutir-se-e-arte-importa-discutir-se-e-crime.html

Acesso 12/10/2017
www.ofielcatolico.com.br

2 comentários:

  1. Muito bom mesmo esse artigo!

    Recomendo também esse que denota a hipocrisia dos atuais 'arautos' da liberdade de expressão:

    http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/wolfianas-n-4-artistas-intelectuais-liberdade-expressao/

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  2. Caros irmãos, ótimo artigo!
    Cabe lembrar também, como o próprio autor diz no início, a hegemonia gramscista que há tempos designa o que é arte. Por isso devemos estudar e rebater tais falsos conceitos. Assim, importa primeiro ver se há crime e tomar medidas judiciais, mas, também, discutir que não é arte - é um pretexto, uma porta falsa que se abre das trevas, uma mentira que deve ser mostrada.

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