Cardeal Brandmüller excomunga o sínodo da Amazônia: 'Herético e apóstata'!


Por Sandro Magister, 27 de junho de 2019
Tradução: FratresInUnum.com

DESDE QUE VEIO a público em 17 de junho, o documento base – ou “Instrumentum laboris” – do sínodo amazônico teve muitas reações críticas devido à anomalia de sua implantação e suas propostas, em comparação a todos os sínodos que o precederam.
Recentemente, porém, a questão ganhou novas proporções. Um digno Cardeal da santa Igreja está acusando o documento de heresias e de apostasia: trata-se do alemão Walter Brandmüller, historiador da Igreja e presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas de 1998 a 2009 e co-autor, em 2016, do famoso “Dubia” sobre a interpretação e aplicação de “Amoris laetitia”, que o Papa Francisco sempre se recusou a responder (saiba mais).

Aqui está o seu “J’accuse”, tornado público no dia 27 de junho (2019), em todo o mundo e em vários idiomas.

Na Kath.net o texto original em alemão, “Eine Kritik des “Instrumentum Laboris” für die Amazonas-Synode:

Uma crítica ao 'Instrumentum laboris' para o sínodo da Amazônia

de Walter Brandmüller


Introdução

De fato, pode causar espanto que, em contraste com as assembleias anteriores, desta vez o sínodo dos bispos se ocupe exclusivamente de uma região da terra cuja população é apenas a metade daquela da Cidade do México, ou seja, 4 milhões. Isto também causa suspeita no tocante às verdadeiras intenções que alguns gostariam de ver implementadas sub-repticiamente. Mas, acima de tudo, devemos nos perguntar quais são os conceitos de religião, de cristianismo e de Igreja que são a base do recém-publicado “Instrumentum laboris”. Tudo isso será examinado com o apoio de elementos individuais do texto.

Por que um sínodo nessa região?

Para começar, precisamos nos perguntar por que um sínodo de bispos deveria tratar de temas que — como é o caso de três quartos do “Instrumentum laboris” — têm só marginalmente algo relacionado com os Evangelhos e a Igreja. Obviamente, que a partir deste sínodo de bispos, realiza-se uma intromissão agressiva em assuntos puramente mundanos do Estado e da sociedade do Brasil. Há que se perguntar: o que a ecologia, a economia e a política têm a ver com o mandato e a missão da Igreja?

E acima de tudo: que competência profissional e autoridade tem um sínodo eclesial de bispos para emitir declarações nesses campos?

Se o sínodo dos bispos realmente o fizesse, isso constituiria uma invasão e uma presunção clerical, que as autoridades estatais teriam todo motivos para repelir.

Sobre as religiões naturais e a inculturação

Há outro elemento a se levar em conta, que é encontrado em todo o “Instrumentum laboris”: vale dizer, a avaliação muito positiva das religiões naturais, incluindo práticas curativas indígenas e similares, bem como práticas e formas de cultos mítico-religiosos. No contexto do chamado à harmonia com a natureza, fala-se até de diálogo com os espíritos (nº 75).

Não é apenas o ideal do “bom selvagem” esboçado por Rousseau e pelo Iluminismo, que aqui é comparado com o decadente homem europeu. Essa linha de pensamento vai além, até o século XX, culminando com uma idolatria panteísta da natureza.

Hermann Claudius (1913) criou o hino do movimento operário socialista: “Quando andamos lado a lado …”, e numa estrofe se lê: “Verde das bétulas e verde das sementes, que a velha Mãe Terra semeia com as mãos cheias, com um gesto de súplica para que o homem se torne seu … “. Vale notar que este texto foi posteriormente copiado no livro de cânticos da Juventude Hitlerista, provavelmente porque correspondia ao mito do “sangue e solo” nacional-socialista. Esta proximidade ideológica deve ser enfatizada: esta rejeição anti-racional da cultura “ocidental” que sublinha a importância da razão, é típica do “Instrumentum laboris”, que fala respectivamente da “Mãe Terra” no n. 44 e do “grito da terra e dos pobres” no n.101.

Consequentemente, o território – isto é, as florestas da região amazônica – pasmem, vem até declarado como um “locus theologicus”, uma fonte especial de revelação divina. Nela haveria lugares de uma epifania em que se manifestam as reservas de vida e sabedoria do planeta e que falam de Deus (nº 19). Além disso, a conseqüente regressão do Logos ao Mythos é elevada a um critério do que o “Instrumentum laboris” chama de inculturação da Igreja. O resultado é uma religião natural com uma máscara cristã.

A noção de inculturação é aqui virtualmente distorcida, pois na verdade significa o oposto do que a Comissão Teológica Internacional havia apresentado em 1988 e diferente do que havia ensinado anteriormente o decreto “Ad Gentes” do Concílio Vaticano II, sobre a atividade missionária da Igreja.

Sobre a abolição do celibato e a introdução de uma sacerdócio feminino

É impossível esconder o fato de que esse “sínodo” visa particularmente implementar dois dos projetos mais ambicionados e que nunca foram implementados até agora: a abolição do celibato e a introdução de um sacerdócio feminino, a começar por mulheres diáconas (ou diaconisas). Em todo caso, trata-se de “levar em conta o papel central que as mulheres desempenham hoje na Igreja da Amazônia” (nº 129 a3). E da mesma forma, é uma questão de “abrir novos espaços para se recriar os ministérios adequados a este momento histórico. Chegou a hora de ouvir a voz da Amazônia … “(n. 43).

Mas aqui se omite o fato de que, conclusivamente, até mesmo João Paulo II já havia afirmado, com a mais alta autoridade magisterial, que não está no poder da Igreja administrar o sacramento da ordem às mulheres. De fato, em dois mil anos, a Igreja nunca administrou o sacramento da ordem a uma mulher. O pedido que se coloca em oposição direta a este fato mostra que a palavra “Igreja” é agora usada exclusivamente como termo sociológico pelos autores do “Instrumentum laboris”, implicitamente negando o caráter sacramental-hierárquico da Igreja.

Sobre a negação do caráter hierárquico-sacramental da Igreja

De maneira semelhante – embora com expressões bastante passageiras – o n. 127 contém um ataque direto à constituição hierárquico-sacramental da Igreja, quando se pergunta se não seria oportuno “reconsiderar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder do governo) deve estar conectado em todas as áreas (sacramental, judicial, administrativo) e de maneira permanente ao sacramento da ordem”. É a partir dessa visão tão errada que surge no n. 129, o pedido para se criar novos ofícios que correspondam às necessidades dos povos amazônicos.

Todavia, é no campo da liturgia e do culto, no qual a ideologia de uma inculturação falsamente entendida encontra sua expressão de maneira particularmente espetacular. Aqui, algumas formas das religiões naturais são assumidas positivamente. O “Instrumentum laboris” (n. 126) não se retrai em pedir que “os povos pobres e simples” possam expressar “a sua (!) Fé através de imagens, símbolos, tradições, ritos e outros sacramentos (!!)” .

Isto certamente não corresponde aos preceitos da constituição “Sacrosanctum Concilium” e nem aos do decreto “Ad gentes” sobre a atividade missionária da Igreja, e mostra uma compreensão puramente horizontal da liturgia.

Conclusão

“Summa summarum”: o “Instrumentum laboris” faz pesar sobre o sínodo dos bispos e, definitivamente, sobre o próprio papa uma violação grave do “Depositum Fidei”, que significa como consequência, a autodestruição da Igreja ou a transformação do “Corpus Christi Mysticum” em uma espécie de ONG secular com um papel ecológico-social-psicológico.

Depois dessas observações, naturalmente, abrem-se outras questões: pode-se encontrar aqui, especialmente no que diz respeito à estrutura hierárquica sacramental da Igreja, uma ruptura decisiva com a Tradição Apostólica como constitutiva da Igreja, ou melhor, os autores têm noção do desenvolvimento da doutrina que está sendo teologicamente substituído, a fim de justificar as rupturas acima mencionadas?

Este parece ser realmente o caso. Estamos testemunhando uma nova forma do Modernismo clássico do início do século XX. Na época, deu-se início a uma abordagem decididamente evolucionista e depois foi apoiada a idéia de que, no curso do contínuo desenvolvimento do homem a níveis mais elevados, seriam encontrados igualmente níveis mais elevados de consciência e cultura, o que significaria que o que era falso ontem poderia ser verdade hoje. Essa dinâmica evolutiva também foi aplicada à religião, isto é, à consciência religiosa com suas manifestações na doutrina, no culto e, naturalmente, também na moralidade.

Mas aqui, então, pressupõe-se uma compreensão do desenvolvimento do dogma que é claramente oposto ao entendimento católico genuíno. Este último compreende o desenvolvimento do dogma e da Igreja não como uma mudança, mas sim como um desenvolvimento orgânico de um assunto que permanece fiel à sua identidade.

É isso que os Concílios Vaticano I e II nos ensinam em suas constituições “Dei Filius”, “Lumen Gentium” e “Dei Verbum”.

Portanto, deve ser dito hoje com força que o “Instrumentum laboris” contradiz o ensinamento vinculante da Igreja em pontos decisivos e, portanto, deve ser qualificado como um documento herético. Dado que mesmo o fato da revelação divina é aqui questionado, ou mal entendido, deve-se também falar, que além disso, é apóstata.

Isto é ainda mais justificado à luz do fato de que o “Instrumentum laboris” usa uma noção puramente imanentista da religião e considera a religião como o resultado e a forma de expressão da experiência espiritual pessoal do homem. O uso de palavras e noções cristãs não consegue esconder que elas são simplesmente usadas como palavras vazias, independentemente do seu significado original.

O “Instrumentum laboris” para o sínodo da Amazônia constitui um ataque aos fundamentos da fé, de uma forma que até hoje não foi considerado possível. E, portanto, deve ser rejeitado com a máxima firmeza.

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3 comentários:

  1. A paz de Jesus Cristo. A Revolução Francesa, com o "Iluminismo" ( como se antes do referido movimento só houvesse escuridão ), abriu um precedente terrível para o povo de Deus. Os "revolucionários", matavam bispos, padres, freiras, leigos católicos, culpando-os pela grande pobreza da época. Só que nenhum membro do Clero, ou leigo que não comanda um governo, tem culpa se há pobreza junto ao povo. Ao contrário! O Clero e os leigos sempre buscaram, em sua esmagadora maioria, ajudar os mais necessitados.

    Rousseau, citado no texto, outro grande ateu que culpava a Igreja de tudo, mas não assumia qualquer compromisso em auxiliar ao próximo.

    Sempre discordei quando alguém afirma que essas confusões, relativismos, é culpa do Concílio Vaticano II. São João Paulo II, Bento XVI, são grandes exemplos que a Igreja se manteve fiel aos ensinamentos de Jesus.

    O grande problema é quem faz parte do Clero, mas se contaminou com modernismos e relativismos, como está no texto acima.

    Não existe " Mãe Terra", existe Mãe Maria! Claro, se deve respeitar as crenças dos outros, no caso, dos indígenas, mas não se deve incorporá-la ao Magistério da Santa Igreja.

    Mais: deve-se buscar a conversão dos indígenas através dos exemplos de grandes santos da Igreja.

    Ordenação de casados, até onde eu saiba, só acontece em situações muito especiais, como no caso de padres da Igreja Anglicana que se convertem ao Catolicismo Romano, se eu estiver enganado, por favor, me corrijam. Fora as exceções de praxe, não é possível ordenação de casados.

    Sobre ordenação feminina: gostaria que quem defenda isto, seja leigo ou do Clero, me mostre onde está nas Sagradas Escrituras, na Tradição da Igreja, algum exemplo de mulher diaconisa ou "pastora". Logo, também não procede, mas neste caso, é mais uma má influencia do feminismo, para variar.

    Oremos! Salve Maria! Paz e Bem.

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    1. Caro irmão católico, leia este artigo do Apostolado:
      https://www.ofielcatolico.com.br/2006/01/as-igrejas-catolicas-de-rito-oriental.html
      André

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  2. A paz de Jesus Cristo, caro irmão André. Obrigado pelo texto, link. Não tinha lido este texto ainda, frequento o site tem pouco tempo. Interessante, nas Igrejas Católicas do Oriente, que seguem em comunhão com Roma, o homem poder ser casado quando é ordenado presbítero, mas depois de ordenado, não pode casar. Nos comentários gostei muito das respostas, principalmente a citação do Evangelho de São Mateus, 19,12, onde fica claro que é bom ser solteiro para poder exercer o sacerdócio, se dedicar livremente ao povo de Deus.

    Os protestantes já me questionaram sobre o fato do padre não poder casar, eis aí uma grande resposta, que, apesar de estar diferente na tradução da Bíblia usada pelos protestantes ( que se auto afirmam como "evangélicos", como se nós católicos não seguíssemos o Santo Evangelho), fica claro que é ideal ser o homem solteiro, celibatário.

    Tive o prazer de participar de uma Santa Missa em uma paróquia da Igreja Greco-Melquita Católica. A Comunhão é com as duas espécies e há um cuidado para que não caia um fragmento do Corpo de Cristo, muito bom! Gostei dos esclarecimentos que o texto proporciona. Tenha ótimo fds, André e grato novamente. Salve Maria! Paz e Bem.

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