Globalismo e nova ordem mundial: progressismo e cristianismo na pós-modernidade – ou 'O sacrifício da Nova Roma'


Por Igor Andrade – Frat. Laical São Próspero

DE TODOS OS IMPÉRIOS que já houve sob o Sol, talvez dois tenham sido os mais importantes: o de Alexandre Magno, menino um tanto quanto visionário; e o de Roma, a perecível e imortal cidade dos homens. Mas ambos podem ser reduzidos ao de Alexandre, que em doze anos conquistou (literalmente) meio mundo aplicando uma curiosa e eficaz prática política.

Quando fazia guerra a algum povo, vencia-o pelas armas e logo oferecia um acordo, dizendo: “Vou deixá-los em paz e ainda lhes darei cultura e lhes farei favores comerciais; em troca quero apenas a sua obediência”. – “Como assim?”, perguntavam, de certo, todos: “Você não vai nos obrigar a servir os seus deuses?”. “Só se vocês quiserem”, respondia. “Não vai nos escravizar, nem nos desterrar?”. “Claro que não, só quero que vocês escrevam livros e montem bibliotecas. Ah, e, claro, aprendam grego, que isso vai facilitar nas trocas comerciais”. E estava fechado o melhor e mais proveitoso acordo para o império: o grande Alexandre aproveitava o melhor que cada povo podia oferecer, aprendia com os seus sábios, e todos cresciam. Essa nova cultura ficou posteriormente conhecida como helenismo – e foi o helenismo a peça chave dos romanos em sua prodigiosa expansão.

Porém, os romanos sofriam – ou melhor, seus imperadores sofriam – de uma patologia hoje conhecida como mania de grandeza. Enquanto muitos povos espontaneamente nomearam Alexandre como um deus, os imperadores romanos reivindicavam este título. Seguiam mais ou menos o mesmo método: “cada povo segue sua própria cultura, paga-nos impostos, segue algumas das nossas leis, mas...” – Note-se que é sempre no "mas" que moram as desgraças – “Já que o imperador é o Pontifice Maximus, o Cesar, o mais bonito, rico e cheiroso, obviamente é um deus, e como tal deve ser adorado”.

Tal cláusula do acordo passou como um motorista ébrio no sinal vermelho: desapercebidamente. Num mundo pagão, adorar um deus a mais ou um a menos não tinha mais diferença do que apostar no cavalo ou no coelho. Mas... sempre tem aquele grupo subversivo ou patriota que se opõe.

“Como assim? Vamos ter que sacrificar bois e cordeiros ao imperador?”. “Não, meu caro”, explicou um jurista romano (sempre um jurista): “Vê esta estátua fashion do nosso amabilíssimo César? Esta coisa divinamente linda e boa-pinta? Diante dela há este braseiro chiquérrimo. Para honrar aquela gracinha, basta tão somente você jogar um punhado de incenso no braseiro. Nada mais”.

Mas o insólito patriota questionava, ressabiado: “Mas vou precisar comprar o incenso, isso é mais uma forma de vocês me arrancarem o nosso rico dinheirinho”. E o romano respondia: “Quê isso, companheiro! Nós estamos aqui para ajudar. E pensando em você, o lindíssimo Imperador lançou o programa bolsa-incenso. Com este ato de bondade divina, você não precisará dispender um tostão sequer para a aquisição do incenso. É tudo de graça”. Nada obstava para a maioria das pessoas. Então todos sacrificavam diante das estátuas do César. Exceto os integrantes de um perigosíssimo grupelho subversivo e intolerante: os cristãos.

Os cristãos teimavam, com sua doutrina intolerante, que não se devia sacrificar a ninguém além de Deus. O Deus. Único e verdadeiro Deus. 

Não "respeitavam" os cristãos as outras crenças religiosas. Diziam coisas absurdas, como (me perdoe o leitor por escrever tais absurdos aqui): "Não há outro Senhor além de Jesus Cristo; fora da Igreja não há salvação; convertei-vos e crede no Evangelho; os deuses dos pagãos são demônios; Deus criou homem e mulher; bestialidade, sodomia, fornicação e adultério são pecados gravíssimos"; entre outras coisas que, se eu escrever aqui, serei com certeza cancelado. 

Este grupo era tão ferrenhamente apegado aos seus princípios de caridade, fé e esperança numa tal de Vida Eterna, que todos os dias perdia dezenas de membros, sob tremendos suplícios. Mas, como o sangue dos mártires é semente de novos cristãos, a cada fiel católico que morria, renasciam outros tantos com igual ou maior disposição. Assim, sem fazer qualquer concessão ao que era imposto pelo mundo, o cristianismo venceu o mundo, e fez de Roma, eterna – nesta vida e na outra. 

Mas a vida é uma caixinha de surpresas. E numa bela manhã de sol, um certo padreco alemão acordou e pensou: “Vou causar uma ruptura na essência do cristianismo e fazer a síntese de todas as heresias. O que de mal poderia acontecer?”. O que poderia acontecer, não é mesmo? Somou-se a esta inovação "pastoral" a inconfidência da Filha Prostitu... digo, Filha Primogênita da Igreja (a França) e a obstinação sexual de um grande (gordo) rei inglês, e surgiu o Estado Moderno. O Estado é resultado da separação entre fé e moral, da proibição da piedade pública e do cesaropapismo.

A separação entre fé e moral foi encabeçada pela prostituta Babilônia, digo, França, cujos reis tiveram a brilhante ideia de virar as costas para os preceitos da Igreja. “O rei cuida das coisas temporais. Esse negócio de fé e oração é coisa de padre”, disse Felipe, "o rei delas". A França converteu-se, de uma nação estável, para uma vadia (que vaga) ao bel-prazer do rei soberano, bonitão e bad boy

Logo depois veio o Che Guevara da teologia, com suas maluquices doutrinárias, digo, “inovações pastorais” (soa mais 'ecumênico' assim). Ele inventou os Estados Nacionais, foi dele a brilhante ideia de romper com a comunhão internacional das pessoas, sob a autoridade Igreja. “Para lá com esse Papa que quer mandar aqui no nosso pedaço. Vamos fazer uma igreja do povo, pelo povo e para o povo. Todo poder emana do povo”.

Daí resultaram guerras religiosas. Se cada povo tem a sua própria religião, nada mais justo que a impor à força das armas, certo? O problema é que guerra gasta dinheiro. E gastar dinheiro não é bom. Além disso, em guerras, as pessoas ficam mortas (de cansaço ou de espada), o que também não é lá muito conveniente. Assim, resolveram que, a partir de então, religião é como roupa íntima: cada um tem a sua e não se deve esfregar na cara dos outros. A religião saiu das ruas e das praças e foi confinada às casas – preferencialmente aos quartos, afinal, Jesus disse que é para orarmos longe dos olhares das outras pessoas, não é mesmo? 

De o rei proibir o exercício público da religião a tornar-se ele mesmo o “Papa” foi um pulo de saci. Quando Henrique VIII deu seu golpe, a manifestação do Estado tornou-se irreversível.

E a Igreja já não podia falar sobre política nem praticá-la (licitamente, porque é claro que haviam e haveriam ainda muitos padrecos corruptos à la Richelieu); também não podia exercer seu munus docendi, menos ainda intervir diretamente em questões públicas. 

A mágica foi acontecendo. Revoluções surgiram por todo o Ocidente. Muitos ricaços colonizaram o mundo ao modo de Alexandre Magno e prepararam, assim, o caminho para o que viria a seguir. Veio a Revolução Francesa – de novo a França? Quem poderia imaginar? – que se espalhou por todo lugar, como pútrida flatulência. Para onde quer que se olhasse, só haviam Estados Nacionais e laicos. Por algum acaso – talvez castigo, quem sabe? – Os Estados começaram a se digladiar na Primeira Guerra Mundial. Passou esta e veio uma Segunda. Oh, e agora, quem poderá nos defender? 

Dos mesmos criadores do Estado Moderno, vem aí... o Estado Moderno Mundial, ou Organização das Nações Unidas.

A ONU nada mais é do que isso: as mãos dos novos Césares. É a Nova Roma pós-moderna. Obviamente não é o mesmo que a Antiga Roma; é um boneco malfeito dela. 

A Antiga Roma tinha um César que, a pesar de pretender-se divino, era um homem real e concreto, que as pessoas sabiam quem era, onde estava e que aberrações cometia. A Nova Roma tem Césares que não sabemos exatamente quem são; conhecemos alguns nomes, sabemos que se sentem divinamente superiores e sabemos mais ou menos o modus operandi dos seus decretos divinos, mas são inacessíveis.

A Antiga Roma impunha um ato religioso e dizia exatamente isto: “Sacrifiquem ao nosso deus queimando-lhe incenso!” – Não eram os Filhos da Luz, mas agiam às claras. A Nova Roma traveste sua religião de naturalismo, de “ciência”, espiritualismo materialista e liberalismo; e o sacrifício que devemos fazer aos seus Césares-deuses é etéreo, não tangível. É um sacrifício espiritual, de consciência, sacrifício sem o qual nada se pode fazer na sociedade – como acontecia na Antiga Roma. Hoje, como antes, o sacrifício é uma espécie de “pedágio social”. Quem não paga, não é digno desta civilização.

É claro, todo este processo aqui resumido demorou cinco séculos para chegar à nossa atual e deplorável situação. Quando o primeiro padre concedeu na rebeldia do primeiro rei e do primeiro maluco metido a “teólogo”, a coisa começou a ir ladeira abaixo. O problema hoje, é um pouco maior: além de tudo está chovendo, a ladeira é de terra e estamos num fusca sem freio.

Quer fazer faculdade de qualquer coisa? Faça antes o sacrifício da sua consciência. Quer falar em público sobre qualquer assunto? Antes o sacrifício. “Mas como se faz este sacrifício?” – pode alguém perguntar – “Vou precisar gastar quanto?”. “Nada, meu caro” – responderão os juristas – “estamos aqui para te ajudar. Basta tão somente você não questionar e seguir as instruções que te passamos”. “Mas quais são as instruções?”, perguntam. “Primeiro: defenda a liberdade. Mas não é qualquer liberdade. É a nossa liberdade. A liberdade de falar e agir contra essas coisas ultrapassadas como verdade, Igreja Católica, natureza das coisas, e tudo o mais que nos contrariar. Depois: defenda a "igualdade". Igualdade entre os sexos, ou melhor, gênero (porque também precisa adotar a nossa linguagem), igualdade entre as religiões, igualdade entre os poderes e igualdade entre as culturas. Por fim: defenda a fraternidade universal, porque todo mundo nasce bonzinho. Esse negócio de Pecado original é coisa ultrapassada”.

Experimente o leitor contestar qualquer uma dessas coisas. Vá em sua faculdade, colégio, roda de amigos, rede social ou coisa que o valha, e diga algo como “aborto é assassinato”, “homens e mulheres não são iguais”, “fora da Igreja Católica não existe salvação”, “Jesus é nosso único Senhor e Salvador”, “o feminismo denigre a mulher”, “o sexo só é lícito dentro do matrimônio entre homem e mulher”, “pornografia vicia”, “Deus premia os justos e condena os ímpios”. Escolha qualquer uma dessas, não precisa dizer tudo de uma vez (senão você vai preso). Eleja uma frase apenas, ou então questione alguma ação dos globalistas. Isto basta para surgir (provavelmente das profundezas do Inferno) alguém dizendo: “Não concordo”. Você terá suscitado o ódio da Nova Roma. Terá se tornado um inimigo público, e seria atirado aos leões, se isso não fosse contra o “direito dos animais”.


* * *

Não é sem fundamento esse meu pessimismo. Prova disso é que, na Antiga Roma, os católicos se recusavam convictamente a sacrificar aos falsos deuses, e aqueles que o faziam por medo de não ser aceitos na sociedade, ou para ter uma vida socialmente tranquila, eram escorraçados das assembleias cristãs, excomungados, e só a muito custo podiam retornar – após longas e penosas penitências – e assim ganhar o Reino dos Céus. Mas, na Nova Roma, fazer o sacrifício da consciência é pré-requisito para entrar também nas próprias assembleias (ainda cristãs?). Não é preciso procurar muito para encontrar um padre, bispo ou cardeal que é também um sacerdote da Nova Roma. 

“Não, meu filho, não me peça a bênção, eu sou só um homem”, “humano demais”, “Deus não condena ninguém ao Inferno”, “o que importa é o amor”, “casais de segunda união podem comungar sem dor alguma de consciência”, “não julgueis”, “não pode falar mal do bispo só porque ele é heterodoxo”, “toda religião é boa”, “leigo tem que 'respeitar' o clero e ficar calado'” e outras coisas são devotamente recitadas, como uma ladainha: a Ladainha do Novus Ordo (ou Ladainha da Degeneração).

Hoje alguns católicos chamam isso de “pagar pedágio para a ideologia”. Quem não paga pedágio, não é admitido na sociedade pós-moderna, sofre sanções e agressões. Logo será condenado à morte. Não acreditem em mim, vejam com os seus próprios olhos. 

Mas Deus sabe de todas as coisas. Ainda há um pequeno grupo de cristãos fiéis às suas raízes, que não pisam na memória dos mártires e ainda se recusam a fazer o sacrifício aos deuses.

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4 comentários:

  1. Texto extremamente rico em detalhes comparativos e associativos entre muitos personagens históricos. Além disso, a propositura cômica do mesmo permitiu uma leitura mais suave durante da própria seriedade com a qual devemos refletir diante de tanta adversidade que encontramos no mundo "moderno". Parabéns ao redator!

    Atenciosamente,
    Henrique Rodrigues
    Niterói/RJ

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  2. Parabéns ao autor do texto! Uma vez um grande amigo,católico exemplar, foi visitar-me. Era de conhecimento de todos em minha casa que ele dedicava a vida dele à Deus, sendo inclusive celibatário. Eis que minha mãe lhe pergunta: "...mas, você vai ficar sozinho, não vai casar? A resposta do meu amigo, segura, tranquila e direta foi: " Eu não estou sozinho". A resposta e o exemplo de vida dele sempre inspiraram-me a ser um católico melhor.

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  3. A paz de Jesus Cristo.

    Excelente texto do sr. Igor Andrade, usando muito bem a analogia de Roma Antiga com o "Império" de hoje. Aliás, Olhando as tramas de hoje, como estão bem citadas no texto, dá saudade de Roma Antiga; pois lá quase tudo era feito às claras, principalmente no tocante às perseguições aos cristãos, muito ao contrário de hoje, onde o mal habita dentro da Igreja ( não só da Única Igreja fundada por Cristo, mas também nas seguidoras do herege Lutero, pois são muitas as denominações protestantes pró aborto, Ideologia do Gênero, ênfase à prosperidade financeira, apoio às esquerdas, etc...), que anda lado lado com os adeptos da "Mãe Natureza", ídolos pagãos, etc.

    Sim, existem membros do Clero e fiéis que defendem a Doutrina de sempre, sem contaminações pelo vírus covid, ops, vírus da igualdade das várias religiões perante o Pai e relativismos mui diversos.

    Esses fiéis ao Santo Evangelho manterão a Santa Igreja viva, como determinou Jesus Cristo no início.

    Seguimos em oração e confiantes na Santíssima Trindade.

    Abraços,

    Salve Maria!

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